RESUMO: Este estudo objetiva analisar perfil da mulher, sobretudo, na escrita feminina a partir dos estudos de gênero. Escolhemos para perfilarem, pela análise que pretendemos fazer, as personagens da obra Terras Proibidas – a saga do café no vale do Paraíba do Sul de Luíza Lobo(2011). Elegeu-se personagem Eliza para um maior enfoque, pois esta, apesar de não ser a protagonista principal, é a partir dela que surgem e se desenrolam os primeiros atos de transgressão. A posição ocupada pelas mulheres na sociedade oitocentista, tanto aquelas que se conformam e/ou supostamente aceitam a dominação do patriarcado, como Maria, Ambrósia, Maria Paula e Ana e aquela que se opõe a esse modelo social – Eliza, que é considerada irregular por recusar a dominação dos homens e enveredar por caminhos e ações que as demais mulheres não ousariam trilhar. Por meio da caracterização dessas mulheres é que se pode perceber a força da sociedade patriarcal na determinação e criação de estereótipos da imagem de mulher. A ficção será examinada conforme as teorias de Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elódia Xavier (2001), Judith Buttler (1987) e Foucault (1988), que direcionam suas proposições para as relações de poder no discurso, gênero e os processos de construção da identidade feminina.
Palavras-chave: Perfil. Mulher. Estereótipos.Terras Proibidas.
ABSTRACT: This study aims to analyze the profile of women, especially in women’s writing from gender studies. We chose to this profile, in the analysis we intend to do in this work the female characters from Terras Proibidas – a saga do café no vale do Paraíba do Sul (Forbidden Lands – the saga of coffee in Southern Paraíba valley) by Luiza Lobo (2011) holds. The character Eliza was elected to have a greater focus, because, despite of not being the main character, she is the starting point of the first acts of transgression. The position occupied by women in the nineteenth-century society, both those who conform and / or supposedly accept the domination of patriarchy, like Mary, Ambrosia, Maria and Ana Paula and the one that opposes this social model – Eliza, who is considered irregular by refusing the domination of men and embark on paths and actions that the other women would not dare. Through the characterization of these women we can realize the strength of the patriarchal society in determining and stereotyping the image of women. The fiction will be examined according to the theories of Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elodia Xavier (2001),
* Mestranda em Letras (UESPI). E-mail: raimundaccorreia@gmail.com
Judith Butler (1987) and Foucault (1988), who direct their propositions to the power relations in discourse, gender and the processes of construction of female identity.
Keywords: Female representation. Stereotypes. Terras proibidas.
Para falar do perfil da mulher nas obras de arte, e aqui nos reportamos mais, precisamente, a arte literária, é preciso, antes de tudo, fazer uma espécie de retrospectiva histórica em torno da questão. Neste sentido, pode-se afirmar que a mulher, ao longo dos tempos, foi vista de diferentes maneiras, de anjos intocáveis de beleza plena, outras completamente reprimidas e oprimidas pelo sistema patriarcal a verdadeiros demônios sedutores.
Este perfis, bem como, variadas questões relacionadas a mulher na literatura feminina têm sido questões bastante discutidas nas academias de todo país. Discute-se em torno de inúmeras temáticas e formas de representar as mulheres. Neste aspecto, teóricos desvelam questões como o que é escrita feminina? Sobre o que e como escreve a mulher? Como se apresenta o discurso que se chama feminino? E como a escritora feminina representa o perfil da mulher em suas escritas. Mediante essas questões afirma-se que: “Sabe-se da estreita relação entre linguagem e sujeito, e, portanto, quando uma mulher articula um discurso este traz a marca de suas experiências, de sua condição; práticas sociais diferentes geram discursos diferentes” (XAVIER, 1991, p. 13).
Para a autora, a leitura das narrativas feministas possui certa diferenciação pelo fato de que existe um discurso diferente, que é o “discurso feminino”, isto dentro de uma linguagem e de um posicionamento diverso da narrativa de autoria masculina. Desta forma, a importância de estudar a linguagem é visível, pois este estudo representa uma tática feminina que pode auxiliar no rompimento de barreiras impedidoras, ao longo dos tempos, do crescimento da escrita da mulher no que se refere a temáticas abordadas e a sua divulgação.
Sabemos que os fatores que dificultam o apogeu dessa escrita não são os, por vezes, alegados, mas bem outros. Por exemplo, a leitura dos textos de autoria feminina requer certa assimilação, por parte de quem ler, de conhecimentos prévios, para que, desta maneira, não se caia nas estratagemas das teorias literárias firmadas no discurso produzido pela escrita
masculina, numa sociedade de conceitos, basicamente masculinos. Onde os homens figuram como maiorais e usam de estratagemas diversos, na tentativa de excluir a mulher como sujeito da sua própria história ou criam perfis bem distorcidos destas.
O escrever feminino aborda variadas temáticas e com narrativas bem arquitetada, fato que pode ser comprovado em obras como “Terras Proibidas: A saga do café no vale do Paraíba do Sul” da escritora Luíza Lobo. Esta obra é o objeto de análise deste artigo e traz uma miscelânea de temas e habilidosa maneira de escrever. O exame parte de construtos teóricos de Michelle Perrot (2012), Saffioti (2004), Elódia Xavier (2001), Cristina Ferreira Pinto (1990), Judith Buttler (1987) e Foucault (1988), dentre outros e a discussão se encaminhará na perspectiva de verificar como a submissão ou transgressão feminina apresentam-se na obra, face ao patriarcalismo e como se dá a abordagem através da escrita feminina.
LUÍZA LOBO E SUAS “TERRAS PROIBIDAS”
“Terras Proibidas, A Saga do Café no Vale do Paraíba do Sul” (2011), da escritora Luiza Lobo que é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada do Programa de Pós- Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tradutora, poeta, contista, cronista, e ensaísta e autora de dezenas de livros e traduções. Muitos de seus trabalhos, o primeiro deles sobre Virginia Woolf, publicado em 1970, faz parte dos estudos inaugurais no campo da literatura de autoria feminina e dos estudos da negritude no Brasil. Destaca-se o ensaio intitulado “Women Writers in Brazil Today”, e “Literatura negra brasileira contemporânea”, inicialmente publicado em 1987 na Revista de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes. Destacam-se, ainda, os artigos sobre Maria Firmina dos Reis, que apresentaram a romancista maranhense aos estudiosos e ao público brasileiros.
Publicado em 2011, “Terras Proibidas” é fruto de uma pesquisa da professora e pesquisadora Luiza Lobo que durou 10 anos. Composto de quase quinhentas páginas e está dividido em quatro partes, cada uma delas subdividas em quatro sub-partes, a saber:
Parte I – A cena: O café e o eito – 1. A maldição do escravo; 2. O barão de Vassouras e a Cachoeira Grande; 3. Baronesas loucas seus fantasmas e; 4. A saga de Eliza na Cachoeira.
Parte II – O mito: Os clãs e a saga do café – Do ouro de Minas ao ouro verde das “Terras Proibidas” – 5. Os Teixeira; 6. Os Ferreira Leite e os Leite Ribeiro e; 7. Os Furquim e os Almeida.
Parte III – A história: Barões e varões do café – 8. A história do café; 9. A fundação de Vassouras; 10. Os pássaros-locomotivas e; 11. Os barões da caridade ou da maçonaria.
Parte IV – O futuro: Ruína e libertação – 12. As vozes submersas de São João Marcos; 13. Apogeu e ruína do Vale do Paraíba do Sul; 14. No limiar da abolição;
15. A ruína da Cachoeira Grande e; 16. O último banquete. (LOBO, 2011, p. 12).
A autora Luiza Lobo assim se refere ao seu livro “Terras Proibidas”: “Meu texto busca romper com a cronologia rígida dos fatos – ao apresentá-lo fora da ordem em que ocorreram – pois é assim que os fatos e as pessoas se apresentam como a nós no dia a dia… Assim o romance pode ser considerado um romance da nova história.” (LOBO, 2007, p. 02).
Escrito em forma de romance, misturando ficção e história, conta a trajetória de ascensão, apogeu e decadência das grandes fazendas do ciclo do café, destacando um personagem influente da região: Francisco José Teixeira Leite, O Barão de Vassouras, que vem a ser avô de Luíza Lobo, fato que comprova que a escritora narra a história da própria família, o que não a impede de engendrar com maestria uma narrativa que acompanha quase três séculos de história de família e da história do café, mas também, a história de um tempo e de uma parte do Brasil.
A narradora proporciona ao leitor a segregação de quatro grupos distintos para a condição do gênero: O grupo masculino, modelo inquestionável; Um grupo de mulheres, cujos estereótipos sociais são representados como pessoas bondosas, adequam-se, pelo menos supostamente, ao sistema social vigente; Um grupo de personagens femininas que se desviam dos ditames sociais e não aceitam viver de acordo das amarras estabelecidas pela sociedade. Onde Eliza figura como a principal representante. E o grupo de escravos e escravas, com suas rezas, macumbas, seu poder de articulação desconstruindo, visões sedimentadas sobre o escravo, como, por exemplo, o mito do escravo submisso, humilde, obediente, haja vista, haver a representação de grupos de escravos com grande poder de articulação, fato que chega a desestabilizar o comando de barões do café.
O narrar histórias de uma família, e no caso de Luíza Lobo, da própria família, poderia supor certa tendência a maquiar fatos ou sobrepor, hierarquicamente, importâncias entres as personagens, não é o que acontece na narrativa de “Terras Proibidas”, haja vista que as personagens desta obra possuem lugares equivalentes. Dos escravos ao senhor do café, todos tem voz e lugar no enredo. Há, inclusive, como já citado aqui, a desmitificação do escravo como ser obediente, preguiçoso; no lugar deste aparece um escravo inteligente, que age com cautela e de forma astuciosa.
Apesar de ser uma história, onde, supostamente, os homens predominariam, as mulheres possuem lugar e ações de destaque. Personagens como Maria Paula, condenada a se
casar com o primo Caetano, viúvo de Ambrósia; Ana que também teve de se casar com o cunhado Francisco, viúvo de sua irmã Maria, são transgressoras, apenas em pensamento. Elas apenas sentem no íntimo, porém não conseguem esboçar ação contra a situação, como comprova a passagem: “Maria, ao se casar com Francisco José, logo se sentiu traída, como a terra fora traída […] tudo foi devastado por causa do café, do dinheiro, da voracidade humana […] Ela também se sentia repuxada, cortada, sua seiva arrancada […]” (LOBO, 2011, p. 133).
A respeito da “não ação” das mulheres mencionadas, afirma-se que: “[…] Para que a dominação simbólica funcione, é preciso que os dominados tenham incorporado as estruturas segundo as quais os dominantes percebem que a submissão não é um ato da consciência, suscetível de ser compreendido […]” (BOURDIEU, 1996, p. 36).
É assim que acontece na narrativa, as mulheres representadas em “Terras Proibidas” (2011), as que, de certa forma, aceitam a dominação masculina, fazem isso porque já incorporaram como algo natural, como pode ser percebido no próprio texto: “Ah, minha filha,você ainda é jovem e sonhadora. Não pode uma pessoa fazer tudo sozinha, inventar tudo, tem de seguir a regra geral. A vida é assim. Repetir os antigos.” (LOBO, 2011, p. 203).
Seguindo a ótica do filósofo francês “a dominação masculina está de tal modo inserida no nosso inconsciente que deixamos de nos aperceber dela” (BOURDIEU, 1996, p. 42). Fato percebível na fala de Eleonora irmã de Eliza, que apesar de ser mulher e sofrer com a não realização de seios anseios, seguindo aquilo que dita a sociedade vigente, reafirma o discurso masculino: “Bailarina é profissão de mulher da vida, não é para moça de família!” (LOBO, 2011, p. 226).
Por outro lado, tem-se, nesse quadro narrativo, o retrato da transgressão em Eulália,que se torna amante de Joaquim Nabuco, provando da felicidade apenas desejada por muitas mulheres do Cachoeira Grande e Eliza, neta de Francisco José, menina-mulher, forte, sagaz, livre e solta que após viver todo tipo de peripécias, decide simular a morte, conseguindo a liberdade a partir de então. Eliza questiona-se: “Ninguém perguntara a sua mãe, Maria, se gostava do primo ou se queria casar com ele. Mulher não tinha querer” (LOBO, 2011, p. 170). A partir de questionamentos como esse é que Eliza inicia sua não aceitação das estruturas e conceitos vigentes e começa a transformá-los com seu discurso e ação.
“TERRAS PROIBIDAS” – do pensamento a ação
Pensar a escrita feminina e como a escritora constrói o perfil de mulher na escrita feminina, de certa forma, é pensar uma história de resistência iniciada em 1859, quando Maria Firmina dos Reis publica, com o pseudônimo de “Uma maranhense”, Úrsula, considerado, até o momento, o primeiro livro de autoria feminina na literatura brasileira.
Necessário se faz lembrar que quem revelou a autora de “Úrsula”, para o mundo foi a autora de “Terras Proibidas”. O romance Úrsula traz uma visão diferenciada da até então disseminada pela ótica da escrita masculina, onde o perfil de mulher era/é apresentado como de um ser sem vontade própria, obediente e facilmente manipulada pelo homem, uma vez que a escrita, até então, pelo menos a que era publicada, era feita por homens, mesmo a que tratasse sobre mulher. De acordo com Saffioti: “A sociedade delimita, com bastante precisão, os campos em que pode operar a mulher, da mesma forma como escolhe os terrenos em que pode atuar o homem” (SAFFIOTI, 2004, p. 8).
Nesta escrita sobre mulher e feita por homem se cristaliza os lugares dos quais fala a teórica. Eliza da obra “Terras Proibidas” (2011) protagoniza a mulher que faz a reversão desse costumeiro perfil, apresentando-se como aquela que não aceita a delimitação dos espaço culturalmente construído pelo homem, numa visão patriarcal de masculino e feminino, como comprova o excerto que segue:
Considerada “irregular”, por não submeter-se aos domínios do homem, no caso, principalmente, o pai e o avô, pois a personagem conta com apenas treze anos de idade. Além disso, o relacionamento amoroso que acontece entre Ela e o Cigano, com quem foge, (após simular a morte para viver, segundo a própria), posteriormente, para o Pará, não se configuram numa relação de opressão, ao contrário, uma relação de amor e igualdade de gênero.
Diferencia-se das demais mulheres com quem convive por agir de forma livre e acreditar não haver papeis estipulados para homens e mulheres. Neste sentido declara-se:
[…] das mulheres se espera que sejam „femininas‟, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E qualquer comportamento feminino que não se enquadrasse nas representações do feminino
imaginado pelo masculino (mulher como boa mãe e esposa) era lido pelos estigmas de degeneração. (BOURDIEU, 1996, p. 82).
É exatamente por isso que Elisa é considerada uma “fora do prumo”, por não se enquadrar no estereótipo de mulher ditado pela sociedade, e construir, assim, sua maneira própria de forma caminhar.
Estudos da crítica feminina vêm mostrando que a mulher tem diferentes modos de representação, dependendo do espaço e das experiências vividas, bem com da visão de quem a representa. Assim, podemos afirmar que a escrita da mulher traz as marcas do que essa acredita. O que não significa dizer que a escrita feminina é apenas sobre temas relacionados a ela ou como já foi dito “coisas de mulher”, usado no sentido pejorativo a expressão.
A obra “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul” figura, no cenário da escrita feminina, como um exemplo preponderante do que se firma como uma grande obra, uma vez que os fios narrativos por esta abordados, não pertencem a uma temática única, longe disso, o que há, de fato, é um entrelaçamento, de modo a formar uma narrativa rica, bem estruturada e variada, dando ao leitor inúmeras possibilidades de análise. A própria autora em “A literatura de autoria feminina América Latina” afirma que:
[…] texto literário feminista é o que apresenta um ponto de vista da narrativa, experiência de vida, e, portanto um sujeito de enunciação consciente de seu papel social. É a consciência que o eu da autora coloca, seja na voz de personagens, narrador, ou na sua persona na narrativa, mostrando uma posição de confronto social, com respeito aos pontos em que a sociedade a cerceia ou a impede de desenvolver seu direito de expressão. (LOBO, 2007, p. 01).
Partindo desse construto teórico, da autora de várias obras, dentre elas “Terras Proibidas”, é que se pode assegurar que a escrita feminina, principalmente, a partir de 1970, quando os estudos em torno desta se avolumam em quantidade e qualidade, direciona-se como uma ruptura no diz respeito às ideias socialmente vigentes em uma sociedade patriarcal. Óbvio, o que chamamos de escrita feminina, sem dúvida, ainda tem muito a trilhar. Fato compreensível, considerando a larga distância existente entre o fazer literário de autoria feminina e o de autoria masculina, uma vez que, ao longo dos tempos, o estudo e mesmo a apreciação da literatura foram praticados por homens que, por consequência, delinearam as teorias e práticas em relação a posição da mulher na sociedade e na vida, restando a essa quebrar bloqueio e fazer sua escrita ser vista, lida e valorizada.
Os estudos em torno de gênero e da crítica literária feminista fizeram com que, gradativamente, o discurso tradicional, que rotula os textos de autoria feminina como texto menor, perdesse credibilidade. Desta maneira, atualmente, pode-se dizer que a mulher
escritora tem seu trabalho mais reconhecido no meio acadêmico, apesar do muito que ainda se tem a conquistar. A obra “Terras Proibidas” da escritora Luiza Lobo comprova isso na medida em que é uma narrativa que está em consonância com a qualidade da literatura de grandes e renomados textos.
Admitindo que toda produção humana reflete-se naquilo que o seu autor acredita e tem como socialmente construído e se pensarmos uma mulher que desde os primórdios dos tempos, vive e convive numa sociedade organizada de modo a ter homens no poder, concluiremos que a mulher sempre produziu, o que dificultou o crescimento, no entanto, foram as estruturas de divulgação e consolidação da escrita feminina. Por isso, Zolin declara: “… o cânone tradicional brasileiro até 1970 (e isso não quer dizer que ele não seja mais assim) é de ordem masculinista, impossibilitando a mulher de escrever, de poder participar do cânone literário.” (ZOLIN, 2003, p. 70).
Considerando o cânone como instituição que determina qual literatura é representativa, e conduzido, numa sociedade patriarcal, pelo cunho da ordem masculina, é explicável porque a literatura de autoria feminina quase não aparece, não se torna visível durante todo esse tempo. Luiza Lobo em “A literatura feminina na América Latina”, teoriza:
[…] o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje. (LOBO, 2007, p. 03).
É essa tônica que escritora de “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul”, segue, pois no curso narrativo da obra não retrata histórias de reclusão ou repressão, e sim de superação, histórias de mulheres que, mesmo em meio a tudo que dita o que seria a ordem socialmente construída, revelam-se condutoras e sujeitos de suas vidas. Curioso notar a estratégia utilizada pela narradora ao iniciar terceiro capítulo, quando escreve: “Das mulheres não falo porque não são importantes” (LOBO, 2011, p. 133), uma vez que bem mais que a história do café e seus barões, que chegou a deslocar o eixo econômico do Brasil, é das mulheres que a obra trata, de suas vidas e vivências, os demais personagens são importantes na medida em que é a partir da convivências estes, que as personagens femininas, mais precisamente Eliza, se conscientizam das relações sociais, até então mantida, e passam a lutar por mudança.
Outra passagem que chama atenção na narrativa é o fato da repetição, por inúmeras vezes da epígrafe: “Nenhuma mulher foi feliz na Cachoeira Grande” (LOBO, 2011, p. 10),
pois a consciência da não felicidade é um dos fatores que impulsiona essa mulher na busca de transformação política e social.
No romance é mostrado que a as personagens femininas, tendo em Eliza principal a representante, longe estão de aparecerem enleadas em relações de gênero ou qualquer coisa do tipo. Elas figuram na narrativa como seres, capazes de delinearem sua própria trajetória e provocarem discussões e manifestações contra o poder de ideologias patriarcais vigentes, que, apesar de não mais encontrarem total espaço em todos os segmentos da sociedade, ainda o encontram em alguns. Traço muito interessante e que ajuda a construir essa imagem de mulher transgressora, porém sem ligar exatamente a imagem da submissão, é o fato de Eliza simular a própria morte, metáfora que representa um nascer para a liberdade.
É minha última taça. A doença é o caminho da salvação! Livre! Livre enfim! Estou a um passo da morte, que é a porta para a vida! Nada me impedirá de encontrar o Príncipe das Trevas. Sei que é cruel com meu pai, mas a decisão já está tomada, e o plano preparado! Sou eu A donzela do Lied de Schubert, que irei ao encontro do Cavaleiro da morte! Beberei até a última gota da taça para ressuscitar! Adeus! Adeus a todos! Que Deus me acompanhe no Outro Mundo, longe muito longe daqui! Lá me libertarei, lá ressuscitarei! (LOBO, 2011, p. 233).
Assim, Luíza Lobo utiliza-se estratégias narrativas que fazem de sua obra atual e livre de elementos que possam trazer a repetição de temáticas e formas de escrever, bem como, apontá-los como exemplos do que não deve ser restaurado nem na literatura como em outras formas de discursos. Nesta perspectiva, afirma-se que “[…] os modos de registro das mulheres estão ligados à sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade.” (PERROT, 1989, p. 12). Sendo assim, a escrita feminina, atualmente, vem provar que a mulher-escritora está muito antenada como seu tempo, seus direitos, seu papel de sujeito atuante, construindo um espaço legítimo na literatura universal.
Realizar a leitura de “Terras Proibidas”, buscando analisar o perfil de mulher delineado na escrita feminina, numa escrita de mulher, apresentou-se com uma oportunidade de contato como uma obra literária bem estruturada e que muito bem representa a literatura brasileira.
No romance “Terras Proibidas”, a escritora Luíza Lobo, embora não tenha vivido o passado que relata, ateve-se durante dez anos, reunindo documentação confiável, o que sustenta a pesquisa como histórica. Partindo desse ponto, é feito o entrelaçamento entre
história e ficção de forma muito bem arquitetado, comprovando o tênue limite entre estes dois campos do fazer humano.
A cultura social consolidada no modelo patriarcalista que produz e tenta manter a submissão da mulher é concebida como recurso para manutenção e sucesso da ordem social ainda defendida por alguns. Os conflitos e possibilidades de transgressão do feminino sofrem, por vezes, empreitadas com o intuito de sufocá-los, utilizando como desculpa, garantir a harmonia no contexto da sociedade. No percurso narrativo da obra, aqui analisada, aparece como destoante Eliza, a neta rebelde do Barão de Vassouras “[…] um anjo que voou para a liberdade” (LOBO, 2011, p. 337). Tanto é assim, que no enredo a saga de Eliza termina com a suposta morte desta.
Podemos dizer que “Terras Proibidas, a saga do café no Vale do Paraíba do Sul” é um projeto de retomada do passado na modernidade. Uma mistura de manifestações históricas e ficcionais que nos permite apreciar uma parte da história do Brasil através de uma narrativa literária de grande porte, onde a mente do leitor, através de uma apurada leitura, deve interligar fatos e preencher os espaços existentes.
Assim, a obra termina por nos apresentar um enredo que, com muita precisão discorre em torno do perfil da mulher na literatura, tanto como escritora quanto como protagonista de sua própria história. Um romance que pode ser analisado sob inúmeros ângulos, trazendo a luz, mais uma vez, a comprovação de autoridade da escrita de autoria feminina.
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