A Carteira




Autor: Machado de Assis
Título: A Carteira
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/02/2006

A CARTEIRA

Machado de Assis

 
… De repente, Hon?rio olhou para o ch?o e viu uma carteira. Abaixar-se, apanh?-la e guard?-la foi obra de alguns instantes. Ningu?m o viu, salvo um homem que estava ? porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
? Olhe, se n?o d? por ela; perdia-a de uma vez.
? ? verdade, concordou Hon?rio envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, ? preciso saber que Hon?rio tem de pagar amanh? uma d?vida, quatrocentos e tantos mil-r?is, e a carteira trazia o bojo recheado. A d?vida n?o parece grande para um homem da posi??o de Hon?rio, que advoga; mas todas as quantias s?o grandes ou pequenas, segundo as circunst?ncias, e as dele n?o podiam ser piores. Gastos de fam?lia excessivos, a princ?pio por servir a parentes, e depois por agradar ? mulher, que vivia aborrecida da solid?o; baile daqui, jantar dali, chap?us, leques, tanta cousa mais, que n?o havia rem?dio sen?o ir descontando o futuro. Endividou-se. Come?ou pelas contas de lojas e armaz?ns; passou aos empr?stimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilh?o perp?tuo, uma voragem.
? Tu agora vais bem, n?o? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C…, advogado e familiar da casa.
? Agora vou, mentiu o Hon?rio.
A verdade ? que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgra?a perdera ultimamente um processo, em que fundara grandes esperan?as. N?o s? recebeu pouco, mas at? parece que ele lhe tirou alguma cousa ? reputa??o jur?dica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
D. Am?lia n?o sabia nada; ele n?o contava nada ? mulher, bons ou maus neg?cios. N?o contava nada a ningu?m. Fingia-se t?o alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites ? casa dele, dizia uma ou duas pilh?rias, ele respondia com tr?s e quatro; e depois ia ouvir os trechos de m?sica alem?, que D. Am?lia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indiz?vel prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de pol?tica.
Um dia, a mulher foi ach?-lo dando muitos beijos ? filha, crian?a de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
? Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da mis?ria. Mas as esperan?as voltavam com facilidade. A id?ia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princ?pio da carreira: todos os princ?pios s?o dif?ceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a m?s horas.
A d?vida urgente de hoje s?o uns malditos quatrocentos e tantos mil-r?is de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor n?o lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Hon?rio quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assembl?ia ? que viu a carteira no ch?o, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.
Durante os primeiros minutos, Hon?rio n?o pensou nada; foi andando, andando, andando, at? o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, ? enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se da? a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Caf?. Pediu alguma cousa e encostou-se ? parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia n?o achar nada, apenas pap?is e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflex?es, a consci?ncia perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. N?o lhe perguntava com o ar de quem n?o sabe, mas antes com uma express?o ir?nica e de censura. Podia lan?ar m?o do dinheiro, e ir pagar com ele a d?vida? Eis o ponto. A consci?ncia acabou por lhe dizer que n?o podia, que devia levar a carteira ? pol?cia, ou anunci?-la; mas t?o depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasi?o, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ningu?m iria entregar-lha; insinua??o que lhe deu ?nimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase ?s escondidas; abriu-a, e ficou tr?mulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; n?o contou, mas viu duas notas de duzentos mil-r?is, algumas de cinq?enta e vinte; calculou uns setecentos mil r?is ou mais; quando menos, seiscentos. Era a d?vida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Hon?rio teve tenta??es de fechar os olhos, correr ? cocheira, pagar, e, depois de paga a d?vida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guard?-la.
Mas da? a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para qu?? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-r?is. Hon?rio teve um calafrio. Ningu?m viu, ningu?m soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo… Hon?rio teve pena de n?o crer nos anjos… Mas por que n?o havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas m?os; depois, resolvia o contr?rio, n?o usar do achado, restitu?-lo. Restitu?-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
?Se houver um nome, uma indica??o qualquer, n?o posso utilizar-me do dinheiro?, pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que n?o abriu, bilhetinhos dobrados, que n?o leu, e por fim um cart?o de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas ent?o, a carteira?… Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dois cart?es, mais tr?s, mais cinco. N?o havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. N?o podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato il?cito, e, naquele caso, doloroso ao seu cora??o porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a ?ltima gota de caf?, sem reparar que estava frio. Saiu, e s? ent?o reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dois empurr?es, mas ele resistiu.
?Paci?ncia, disse ele consigo; verei amanh? o que posso fazer?.
Chegando a casa, j? ali achou o Gustavo, um pouco preocupado, e a pr?pria D. Am?lia o parecia tamb?m. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
? Nada.
? Nada?
? Por qu??
? Mete a m?o no bolso; n?o te falta nada?
? Falta?me a carteira, disse o Gustavo sem meter a m?o no bolso. Sabes se algu?m a achou?
? Achei-a eu, disse Hon?rio entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Hon?rio como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste pr?mio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explica??es precisas.
? Mas conheceste?a?
? N?o; achei os teus bilhetes de visita.
Hon?rio deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Ent?o Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro n?o quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Am?lia, que, ansiosa e tr?mula, rasgou-o em trinta mil peda?os: era um bilhetinho de amor.
 


Texto cedido pela ?Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro? http://www.bibvirt.futuro.usp.br. A Escola do Futuro da Universidade de S?o Paulo.





Bio fornecida pelo palestrante.

A Cartomante




Autor: Machado de Assis
Título: A Cartomante, La Cartomancienne
Idiomas: port
Tradutor: Adrien Delpech(fra)
Data: 29/12/2004

LA CARTOMANCIENNE

Machado de Assis

Hamlet fait observer à Horacio qu’il y a plus de choses sur la terre et sous les cieux que n’en imagine notre philosophie. Cette même explication, la belle Rita la donnait au jeune Camille, un vendredi de novembre de 1869, alors qu’il se moquait d’elle, parce qu’elle était allée, la veille, consulter une cartomancienne. La différence, c’est qu’il employait d’autres paroles.
— Ris, ris. Les hommes sont ainsi faits; ils ne croient à rien. Eh bien! sache que je suis allée chez elle, et qu’elle a deviné les motifs de ma visite avant même que je lui eusse dit de quoi il s’agissait. A peine a-t-elle commencé à étaler les cartes qu’elle s’est écriée: «Vous aimez quelqu’um…» J’avouai que oui, et alors elle a continue d’aligner les figures, de les combiner, et elle m’a enfin declare que j’avais peur que tu ne m’oubliasses, mais que c’était à tort…
— Elle s’est trompée, interrompit Camille, en riant.
— Ne dis pas cela, Camille. Si tu savais combien j’ai couru à cause de toi. Tu le sais; je te l’ai dit. Ne ris pas de moi, ne ris pas.
Camille lui prit les mains, la regarda, sérieux et fixe. Il jura qu’il l’aimait beaucoup et que ses craintes étaient puériles. En tous cas, quand elle aurait peur, la meilleure cartomancienne c’était encore lui-même. Ensuite, il la gronda; quelle imprudence d’aller dans cette maison. Villela pouvait le savoir, et ensuite…
— Allons donc! toutes mes precautions étaient prises en entrant.
— Où demeure-t-elle?
— Tout près d’ici, rue da Guarda-Velha; personne ne passait à ce moment. Rassure-toi: je ne suis pas folle.
Camille rit une autre fois:
— Vraiment, tu crois à ces choses? Lui demanda-t-il.
Ce fut alors que, traduisant Hamlet, sans le savoir, en prose vulgaire, elle lui dit qu’il y avait en ce monde beaucoup de choses mystérieuses et réelles. S’il n’y croyait pas, tant pis! il n’en était pas moins vrai que la cartomancienne avait tout deviné. Quoi encore? La meilleure prevue, c’est qu’elle était maintenant tranquille et rassérénée.
Elle pensait qu’il allait lui donner la réplique, mais il se retint, ne voulant pas lui enlever de ses illusions. D’ailleurs, dans son enfance, et même plus tard, il était demeuré superstitieusement emprisonné au milieu d’un arsenal de croyances que sa mere lui avait inculquées, et qui s’étaient évanouies vers sa vingtième année. Le jour qu’il laissa tomber toute cette végétation parasite, et qu’il ne resta plus que le tronc de la religion, il enveloppa, dans un même doute d’abord, puis dans une negation totale, ces deux enseignements qu’il avait reçus de sa mere. Camille ne croyait à rien. Pourquoi? Il n’aurait pu le dire, il ne possédait aucun argument, se limitant à tout nier. Et je m’exprime mal; car nier, c’est encore affirmer, et il ne formulait pas son incrédulité. Devant le mystérieux, il se contenta de hausser les épaules et de passer son chemin.
Il se séparèrent contents, lui surtout. Rita était certaine d’être aimée. Camille, non seulement possédait cette certitude, mais encore il voyait sa maîtresse trembler et se risquer pour lui, courir les tireuses de cartes, et bien qu’il la censurât, il ne pouvait s’empêcher d’être flatté. La maison de rendez-vous se trouvait dans l’ancienne rue dos Barbonos, où demeurait une femme née dans la même province que Rita. Celle-ci descendit par la rue das Mangueiras, dans la direction de Botafogo, où elle habitait. Camille prit la Guarda-Velha, et regarda, au passage, la maison de la cartomancienne.
Villela, Camille et Rita, trois noms, une aventure et aucune explication préalable. Donnons-en. Les deux premiers étaient amis d’enfance Villela suivit la carrière de la magistrature; Camille entra dans le fonctionnarisme, contre la volonté de son père, qui voulait le voir médecin. Mais le père mourut, et Camille préféra n’être rien du tout, jusqu’au jour où sa mere lui trouva un employ public. Au commencement de 1869, Villela revint de sa province, où il s’était marié avec une personne jolie et frivole; il abandonna la magistrature, et ouvrit un cabinet d’avocat. Camille lui trouva une maison du côté de Botafogo, et alla le recevoir à bord.
— C’est vous, Monsieur, s’écria Rita en lui tendant la main. Vous ne vous imaginez pas à quel point mon mari est votre ami. Il parle sans cesse de vous.
Camille et Villela se regardèrent avec tendresse. Ils étaient vraiment amis. Ensuite Camille s’avoua à lui-même que la femme de Villela ne démentait pas les lettres du mari. Et vraiment elle était gracieuse et vive dans sés gestes, avec sés regards chauds, as bouche fine et interrogative. Elle était un peu plus âgée qu’eux. Elle avait trente ans, Villela vingt-neuf et Camille vingt-six. Cependant le port grave de Villela le faisait paraître plus âgé que sa femme, tandis que Camille était un ingénu dans la vie morale et dans la vie pratique. Il lui manquait aussi bien l’action du temps que ces lunettes de cristal que la nature met dans le berceau de quelques-uns pour anticiper sur les années. Ni expérience, ni intuition.
Ils firent vie commune. La frequentation assidue les rendit intimes. Peu après, la mere de Camille mourut, et, dans ce désastre (c’en fut un vraiment), Villela et Rita entourèrent Camille de leur amitié. L’un s’ocuppa de l’enterrement, des messes et de l’inventaire, l’autre soigna le cœur du jeune homme, et personne ne s’entendait mieux à cela.
Comment ils em arrivèrent à l’amour, il ne lê sut jamais. En vérité, il se plaisait à passer les heures pres d’elle. Elle était son infirmière morale, presque um sœur, mais surtout elle était femme et jolie. L’odor de femina: voilà ce qu’il respirait d’elle, autour d’elle, ce dont il s’imprégnait. Ils lisaient les mêmes livres, allaient ensemble au théâtre et à la promenade. Camille lui enseignait les dames, les échecs, et ils y jouaient, la nuit: – elle mal, – lui un peu moins mal, et pour lui être agréable: voilà pour l’ambiance. Quant à l’actoin personnelle, les yeux insistants de Rita, qui cherchaient souvent les siens, qui le consultaient avant le mari, les mains glacées, les attitudes insolites… Un jour d’anniversaire, il reçut de Villela une jolie canne en cadeau, et de Rita, une simple carte de visite, avec un compliment écrit au crayon, et ce fut à cette occasion qu’il lut dans son propre cœur. Il ne pouvait détourner les yeux du billet. Les paroles étaient banales; mais il y a des banalities sublimes, ou pour le moins délectables. Le vieux fiacre ou l’on s’est pour la première fois promené, stores baissés, avec la femme aimée, vant le char d’Apollon. Tel est l’homme, Telles sont les choses qui l’entourent.
Camille voulut sincèrement fuir; mais déjà il ne pouvait plus. Rita comme un serpent s’approcha de lui, l’enveloppa tout entire, fit craquer ses dans un spasme, et, goutte à goutte, lui versa le poison dans la bouche. Il en demeura étourdi et subjugué. Embarras, remords, craintes, desires, il éprouva tout en même temps. Mais la bataille fut courte et la victoire delirante. Adieu, scrupules! La sandale prit bien vite la forme du pied, et tous deux s’en furent par le grand chemin, les mains jointes, merchant légèrement sur les herbes et les graviers, sans éprouver autre chose que des regrets, quand ils étaient éloignés l’un de l’autre. La confiance et l’estime de Villela demeuraient inaltérables.
(…)

___________________

Fonte: ASSIS, Machado de. Quelques contes: La Cartomancienne. Traduit du portugais par Adrien Delpech. Paris, Garnier Frères Libraires-éditeurs, 1910, p. 3-10.

A CARTOMANTE

Machado de Assis

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois…
— Qual saber! tive muita cautela ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi assim que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa mentirosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda firmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separam-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, o Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmo livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites – ela mal –, ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dela, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estamos ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
(…)

Fonte: ASSIS, Machado de. Várias Histórias: A Cartomante. 4ª ed. São Paulo, Ática, 2000, p. 13-15.





Bio fornecida pelo palestrante.

A causa secreta




Autor: Machado de Assis
Título: A causa secreta
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

CASA VELHA

Trecho

Machado de Assis

CAPÍTULO I
ANTES E DEPOIS DA MISSA

Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial:
— Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer cousa melhor.
Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates, documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.
— Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
— Por que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do que for possível, e com autorização dela.
— Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração, que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver, e far-se-á o que for possível.
Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando; mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia o devido respeito à memória do marido consentindo que alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo acompanhei o Padre Mascarenhas.
A casa, cujo lagar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.
Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao rés do chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente à dona da casa, e às senhoras da família ou hóspedas, que entravam pelo interior; os homens, os fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o Padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais de prata, para as toalhas finas e alvíssimas, para o chão em que não havia uma palha.
— Todos os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário? Pequeno, mas um primor.
Não havia coro nem órgão. Já disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorrência à missa era tal que até na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiéis. Mascarenhas faz-me notar à esquerda da capela o lagar em que estava sepultado o ex ministro. Tinha o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que guardava, das alusões freqüentes na conversação.
— Lá verá na biblioteca o retrato dele, disse-me.
Começaram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados, saíam, outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham também escravos da casa. Um destes era o próprio sacristão; tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da capela, mas também ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina’ com muita perfeição. Fomos achá-lo diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com argolas de prata nos gavetões, concluindo os arranjos preparatórios. Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte anos mais ou menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o Padre Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
— Já sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de papai?
Confiei-lhe rapidamente a minha idéia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, também de vinte anos, um velho parente, Coronel Raimundo, e uns dous ou três hóspedes. Félix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na borda da cômoda, ia dizendo alguma cousa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos lábios, voltando a cabeça a miúdo para um ou outro. Félix tratava o com benevolência e até deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel não fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
— Parece que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela: — Mamãe já está na tribuna. Vamos?
Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças. Cumprimentei as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que tratavam de mim, falando umas às outras. Felizmente o padre entrou daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo a ambas. Não falamos do meu projeto; tão somente a dona da casa disse-me delicadamente:
— Está entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.
A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, voltamos à sacristia, onde o Padre Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão, descemos dous degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa. Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal.
D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido.apenas duas vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos,— Félix, e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da Europa, donde trouxe idéias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.
Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, não disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma cousa, era baixinho, às duas moças, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. Félix, eu e o Padre Mascarenhas falávamos de política, do ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra cousa que me chamou a atenção foi que a mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e redobrei de atenção com o filho. Fi-la sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma cousa, naquilo, a necessidade de captar toda a afeição da casa. por motivo do meu projeto.
Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o tecto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre Mascarenhas.
— Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles.
— Creia que agradeço muito…
— Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
— Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. . .
— Como ?
— Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.ª, esposa de ministro. . .
D. Antônia deu de ombros.
— Ah! eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas cousas.
— Tudo pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer cousa de nada, pode valer muito.
Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saía, e só foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira vez teve muito medo, e só o perdeu por se lembrar a tempo de um dito do avô.
— Saí de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à corte; pelas portinholas do coche via muita gente olhando parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz, confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente, lembrou-me um dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério que ele tinha às vezes: “Menina, uma Quintanilha não trame nunca!” Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha não tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e não lhe pediria nada; e depois falei de outras cousas. Parece que estava de veia, se não é que a conversação da viúva me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e posso afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.
CAPÍTULO II

ANTES DE ME DESPEDIR deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um só lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos infólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e filosofia, não raros em latim e italiano. Eu via os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o Félix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idéia. Esta idéia cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos, possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.
— Será o exemplar truncado? disse eu.
— Truncado? repetiu Félix.
— Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16 do lv. XVI. Uma cousa indigna: In quest’anno medesimo nacque un caso… Não vale a pena ler; é imundo.
Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti o subjugado. Nem confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava apenas trinta e dous anos. A verdade é que era tão somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de cousas religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto à parte que imediatamente me interessava, achei muitas cousas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o Félix me disse estarem cheias de manuscritos.
Havia ali dous retratos, um do finado ex ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza dos olhos.
— Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde poderá trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.
Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois. Só então revelei a Monsenhor Queirós, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma história do Primeiro Reinado. E revelei-lho com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor político. Monsenhor Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me faz o que sou, menos a tendência política, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja também o eram do Estado. Não aprovou a idéia: mas não gastou tempo em tentar dissuadir-me. “Conquanto, disse-me ele, que você não prejudique sua mãe, que é a Igreja. O Estado é um padrasto.”
A meu cunhado e minha irmã, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irmã pediu-me que a levasse lá, alguma vez, para conhecer a casa e a família.
Na quarta feira comecei a pesquisa. Vi então que era mais fácil projetá-la, pedi-la e obtê-la, que realmente executá-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contíguo, com os livros e papéis à minha disposição, senti-me constrangido, sem saber por onde começasse. Não era uma casa pública, arquivo ou biblioteca, era um lugar onde, no que tocava a papéis e manuscritos, podia dar com alguma cousa privada e doméstica. Para melhor haver-me, pedi ao Félix que me auxiliasse, disse-lhe até com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu. polidamente, que tudo estava em boas mãos. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacristão; pedia, porém, licença naquele dia porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde terça feira até sábado, estaria na roga. Voltaria sábado à noite, e daí até o fim, estava às minhas ordens. Aceitei este convênio.
Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e opúsculos. Conhecia alguns deles, outros não, e não eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Félix acompanhou-me nesse trabalho, e daí em diante até seguir para a roga. Eu, em geral chegava às dez horas, conversava um pouco com o dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falávamos das cousas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me à biblioteca com o filho do ex ministro. As duas horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condição do obséquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licença. Tudo isso com tão boa cara que era impossível teimar na recusa. Jantava. Entre três e quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho até anoitecer.
Um dia, quando ainda o Félix estava na roga, D. Antônia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu trabalho, que lhe não interessava nada. Na véspera, ao jantar, disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente França e Itália, e talvez ali fosse daí a meses. D. Antônia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.
— Eu, minha senhora?
— Não se admire do pedido; eu já reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverendíssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade ele cede.
— Não creio que tenha mais força que sua mãe. Já lhe tem lembrado isso?
— Já, respondeu D. Antônia com uma entonação demorada que exprimia longas instâncias sem efeito.
E logo depois com um modo alegre:
— As mães como eu não podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez; ele recusa sempre dizendo que não quer separar-se de mim. Mentira! A verdade é que ele não quer sair daqui. Não tem ambições, faz estudos incompletos, não lhe importa nada. Há uns parentes nossos em Portugal. Já lhe disse que fosse visitá-los, que eles desejavam vê-la, e que fosse depois à Espanha e França e outros lugares. José Bonifácio lá esteve e contava cousas muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou então repete que não quer separar-se de mim.
— E não acha que esta segunda razão é a verdadeira?
D. Antônia olhou para o chão, e disse com voz sumida:
— Pode ser.
— Se é a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo, era irem ambos, e eu com ambos, e para mim seria um imenso prazer.
— Eu?
— Pois então?
— Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverendíssima está caçoando. Daqui para a cova. Não fui quando era moça, e agora que estou velha é que hei de meter-me em folias… Ele sim, que é rapaz,– e precisa…
Tive uma suspeita súbita:
— Minha senhora, dar-se-á que ele padeça de alguma moléstia que…
— Não, não, graças a Deus! Digo que precisa, porque é rapaz, e meu avô dizia que, para ser homem completo, é preciso ver aquelas cousas por lá. E só por isso. Não, não tem moléstia nenhuma; é um rapaz forte.
Era impossível, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a razão secreta deste pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo à conversação dizendo que ia convidar o rapaz. D. Antônia agradeceu-me, declarou que não, me havia de arrepender do companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras cousas; ela, porem, teimava no assunto da viagem, para familiarizarmos com a idéia, e moralmente constranger-me a realizá-la. No dia seguinte voltou à biblioteca, mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de rapé, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfeição. Não tive dúvida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembrança do finado. Aceitei a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei só.
Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, provavelmente sérias. As instâncias de D. Antônia, as razões dados, as reticências, e finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava que cismar. Na noite desse dia fui à casa do Padre Mascarenhas para sondá-la; perguntei-lhe se sabia alguma cousa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. Mascarenhas não sabia nada.
— Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que só vou lá aos domingos.
— Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
Félix voltou da roga dous dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na segunda feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo; respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas não podia. Teimei, pedi-lhe razões, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:
— Foi mamãe que lhe pediu.
— Não digo que não; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir à Europa, daqui a alguns meses, e ela então falou-me do senhor e das vezes que já lhe tem aconselhado uma viagem. Que admira?
Félix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha consciência. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:
— Nada: não posso ir.
— Por quê?
Aqui teve ele um gesto quase imperceptível de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da índole dele, ou do meu caráter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Félix sorriu e confessou que não podia separar-se da mãe. Eu, a rigor, não devia dizer mais nada, e encerrar-me no exame dos papéis; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda repliquei alguma cousa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia começar por ver os homens, e não restringir-se à vida simples e emparedada da família. Demais, o contacto de outras civilizações necessariamente nos daria têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:
— Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos disto; pode ser… E o seu trabalho, está adiantado?
Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclusão do trabalho, e despregar-me de uma intimidade que podia trazer complicações ou desgostos. As horas que então passei foram das melhores, regulares e tranqüilas, ajustadas a minha índole quieta e eclesiástica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me à biblioteca até a hora de jantar, que não passava das duas. O café ia à grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim chamado, por ter um lindo renque dessas árvores, e eu retirava-me antes do pôr do sol. Félix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e quando não me ajudava é porque saíra a caçar, ou estava lendo, ou teria ido à cidade a passeio ou a negócio de a passeio ou a negócio de casa.
Vai senão quando, um dia, estando só na biblioteca ouvi rumor do lado de fora. Era a princípio um chiar de carro de bois, de que não fiz caso, por já o ter ouvido de outras vezes; devia ser um dos dons carros que traziam da roga para a Casa Velha, uma ou duas vezes por mês, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontrão dos dous veículos. Fui à janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro não pôde conter logo as bestas, nem o carro fugir a tempo, mas não houve outra conseqüência além da vozeria. Quando eu cheguei à janela já o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto. não foi tão pouco o tempo que eu não visse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma moça que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. Não lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pescoço, mas dai a nada, parando a sege à porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. “Hão de ser visitas”, pensei comigo.
Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de D. Antônia; vinha da praça, aonde fora cedo, para tratar de um negócio do tio coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e não atendendo, ou atendendo mal às respostas. Não me lembraria disto agora, nem nunca mais, se não se tivesse ligado aos acontecimentos próximos, como veremos. A prova de que não dei então grande importância ao estado do espírito dele, é que daí a pouco quase que não lhe respondia nada, e continuava a ver os papéis. Folheava justamente um maço de cópias relativas à Cisplatina, e preferia o silêncio a qualquer assunto de conversa. Félix demorou-se pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para acudir ao jantar. Daí a pouco estávamos à mesa.
Era costume de D. Antônia vir para a mesa acompanhando a irmã (a senhora idosa que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali foi), e assim o fez agora, com a diferença que outra senhora a acompanhava também. Disseram-me que era amiga da família, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antônia perguntou à hóspeda:
— Onde está Lalau?
— Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu um pires de melado com farinha.
— A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda.
— Não, senhor; ainda esperou por nós.
— Seu irmão está bom?
— Está; minha cunhada é que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo natal, nunca ficou boa de todo.
Creio que disseram ainda outras cousas; mas não me interessando nada, nem a conversação, nem a hóspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos: deixei-me estar comigo. Já tinha compreendido que a hóspeda era uma das que chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e finalmente que. alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atrás do pavão, em vez de estar à mesa conosco. Mas, em resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabeça a história de um imperador.
Lalau não se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma cousa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.
— Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau.
Lalau aproximou-se de D. Antônia, que lhe compôs o cabeção do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao pé da outra hóspeda. Realmente, era uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto pareça exagerado a uns e vago a outros, mas não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei a alguns instantes com infinito prazer. Fiei m e do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o resto da pessoa. Não digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.
Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um oficio mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roga, e, segundo me disse a própria D. Antônia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.
Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo pé de outras relações; eram menos agregadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, que chegava a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava pouco; em compensação, amava sinceramente a casa e a família. Tendo ficado órfã desde 1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda.
Foi D. Antônia quem me deu essas noticias, naquela mesma tarde, ao café, acrescentando que achava bom casá-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco em 1835.
Nisto a menina veio a nós, olhando muito para mim. Estávamos na varanda.
— Vou confessá-la, disse-lhe eu; mas olhe lá se me nega algum pecado.
— Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu não tenho pecado. Nhãtônia é que anda inventando essas cousas. Eu, pecado?
— E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em vez de ficar séria e pensar em Deus, enfiou a cabeça por entre as cortinas para fora, rindo como uma criança.
— Que é ela senão criança? ponderou D. Antônia.
Lalau olhou espantada.
— Onde estava o senhor padre? Estava no céu, espiando.
— Ora! diga onde estava.
— Já disse: estava no céu.
— Adeus! diga onde estava!
— Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Antônia já sabia tudo, pois ali um acontecimento de nada ou quase nada era matéria de longas conversações. Não obstante. a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensações alegres. Confessou que não tinha medo de nada, e até que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a conversação dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa lá em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que não, quis saber o que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; creio que achou entre os nossos espíritos algum ponto de contacto.
A verdade é que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns papéis, ouviu-me atenta, pagou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me várias perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, peça que raramente se abria. Conhecia os retratos, distinguiu os logo; ainda assim parecia tomar gosto em vê-los, principalmente o do ex ministro; quis saber se ela o conhecia; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado então parecia um rei. Seguiu-se um grande silêncio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moça, entre si e Deus:
— Muito parecido…
— Parecido com quem? perguntei.
Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. Não era preciso mais; adivinhei tudo. Infelizmente tudo não era ainda tudo.

Fim do capítulo II.





Bio fornecida pelo palestrante.

A SEGUNDA VIDA




Autor: Machado de Assis
Título: A SEGUNDA VIDA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

A SEGUNDA VIDA

 
 

Machado de Assis

 
 
Monsenhor Caldas interrompeu a narra??o do desconhecido:
? D? licen?a? ? s? um instante.
Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
? Jo?o, vai ali ? esta??o de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha c? com um ou dous homens, para livrar-me de um sujeito doudo.
Anda, vai depressa.
E, voltando ? sala:
? Pronto, disse ele; podemos continuar.
? Como ia dizendo a Vossa Reverend?ssima, morri no dia vinte de mar?o de 1860, ?s cinco horas e quarenta e tr?s minutos da manh?. Tinha ent?o sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espa?o, at? perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espa?o em que n?o havia mais nada, e era clareado t?o-somente por uma luz difusa.
Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas s?o incombust?veis. A sua pegou fogo alguma vez?
? N?o, senhor.
? S?o incombust?veis. Fui subindo, subindo; na dist?ncia de quarenta mil l?guas, ouvi uma deliciosa m?sica, e logo que cheguei a cinco mil l?guas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de ?ter e plumas. Entrei da? a pouco no novo sol, que ? o planeta dos virtuosos da terra. N?o sou poeta, monsenhor; n?o ouso descrever-lhe as magnific?ncias daquela est?ncia divina.
Poeta que fosse, n?o poderia, usando a linguagem humana, transmitir-lhe a emo??o da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os ?xtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma cousa indefin?vel e incompreens?vel. S? vendo. L? dentro ? que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordin?rias que me fizeram, e que duraram dois s?culos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, conclu?das as festas, convidaram-me a tornar ? terra para cumprir uma vida nova; era o privil?gio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas n?o havia recusar. Era uma lei eterna. A ?nica liberdade que me deram foi a escolha do ve?culo; podia nascer pr?ncipe ou condutor de ?nibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverend?ssima no meu lugar?
? N?o posso saber; depende…
? Tem raz?o; depende das circunst?ncias. Mas imagine que as minhas eram tais que n?o me davam gosto a tornar c?. Fui v?tima da inexperi?ncia, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa raz?o. Ent?o lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: ? ?Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!? Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condi??o de nascer experiente.
N?o imagina o riso universal com que me ouviram. J?, que ali preside a prov?ncia dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci.
Da? a pouco escorreguei no espa?o: gastei nove meses a atravess?-lo at? cair nos bra?os de uma ama de leite, e chamei-me Jos? Maria. Vossa Reverend?ssima ? Romualdo, n?o?
? Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.
? Ser? parente do padre Sousa Caldas?
? N?o, senhor.
? Bom poeta o padre Caldas. Poesia ? um dom; eu nunca pude compor uma d?cima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverend?ssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando…
 
Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que Jos? Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, p?lido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almo?ar, e pediu-lhe uma entrevista para neg?cio grave e urgente. Monsenhor f?-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lun?tico.
Perdoava-lhe a incoer?ncia das id?ias ou o assombroso das inven??es; pode ser at? que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato cl?rigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agress?o de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, Monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabe?a, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, pol?tica ?til com os loucos, as mulheres e os potentados.
Jos? Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou: ? Renasci em cinco de janeiro de 1861. N?o lhe digo nada da nova meninice, porque a? a experi?ncia teve s? uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para n?o apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e da? me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas ?rvores, saltar pared?es, trocar murros, cousas t?o ?teis, nada disso fiz, por medo de contus?o e sangue. Para falar com franqueza, tive uma inf?ncia aborrecida, e a escola n?o o foi menos. Chamavam-me tolo e moleir?o. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo n?o escorreguei, mas tamb?m n?o corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabe?as quebradas de outro tempo com o t?dio de hoje, antes as cabe?as quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no per?odo dos amores… N?o se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverend?ssima sabe o que ? uma ceia de rapazes e mulheres?
? Como quer que saiba?…
? Tinha dezenove anos, continuou Jos? Maria, e n?o imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia… Ningu?m esperava tal cousa de um rapaz t?o cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, ?s apalpadelas. Fui ? ceia; era no Jardim Bot?nico, obra espl?ndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. H? de crer que n?o comi nada? A lembran?a de tr?s indigest?es apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar.
Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se ? minha direita, para curar-me; outra levantou-se tamb?m, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim. Voc? cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram l?pidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o cora??o e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retra?-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em v?o. Vim de l? de manh?, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu Jos? Maria pondo as m?os nos joelhos, e arqueando os bra?os para fora.
? Com efeito…
? N?o lhe digo mais nada; Vossa Reverend?ssima adivinhar? o resto. A minha segunda vida ? assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experi?ncia virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao pr?prio cad?ver…
N?o, a compara??o n?o ? boa. Como lhe parece que vivo?
? Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um p?ssaro, batendo as asas e amarrado pelos p?s…
? Justamente. Pouco imaginoso? Achou a f?rmula; ? isso mesmo. Um p?ssaro, um grande p?ssaro, batendo as asas, assim…
Jos? Maria ergueu-se, agitando os bra?os, ? maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no ch?o; mas ele n?o deu por ela. Continuou a agitar os bra?os, em p?, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um p?ssaro, um grande p?ssaro… De cada vez que batia os bra?os nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cad?ncia de movimentos, e conservava os p?s unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabe?a; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada. Tudo sil?ncio. S? lhe chegavam os rumores de fora: ? carros e carro?as que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhan?a. Jos? Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:
? Um p?ssaro, um grande p?ssaro. Para ver quanto ? feliz a compara??o, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consci?ncia, uma paix?o, uma mulher, uma vi?va, D. Clem?ncia. Tem vinte e seis anos, uns olhos que n?o acabam mais, n?o digo no tamanho, mas na express?o, e duas pinceladas de bu?o, que lhe completam a fisionomia. ? filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe t?o bem que eu ?s vezes digo-lhe rindo que ela n?o enviuvou sen?o para andar de luto. Ca?oadas! Conhecemo-nos h? um ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo.
Sa?mos namorados um do outro. J? sei o que me vai perguntar: por que ? que n?o nos casamos, sendo ambos livres…
? Sim, senhor.
? Mas, homem de Deus! ? essa justamente a mat?ria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e n?o nos casamos: tal ? a situa??o tenebrosa que venho expor a Vossa Reverend?ssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicar?, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clem?ncia morava com o velho pai, e um irm?o empregado no com?rcio; relacionei-me com ambos, e comecei a freq?entar a casa, em Mata-cavalos. Olhos, apertos de m?o, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e est?vamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo… Perdoe estas cousas, monsenhor; fa?a de conta que me est? ouvindo de confiss?o. Nem eu lhe digo isto sen?o para acrescentar que sa? dali tonto, desvairado, com a imagem de Clem?ncia na cabe?a e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida ?nica; determinei pedir-lhe a m?o no fim da semana, e casar da? a um m?s.
Cheguei ?s derradeiras min?cias, cheguei a redigir e ornar de cabe?a as cartas de participa??o. Entrei em casa depois de meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as muta??es ? vista nas antigas pe?as de teatro. Veja se adivinha como.
? N?o alcan?o…
? Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descal?ar as botas, lembrou-me cousa pior: ? podia ficar o fastio. Conclu? a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canap?, pensei que o costume, a conviv?ncia, podia salvar tudo; mas, logo depois, adverti que as duas ?ndoles podiam ser incompat?veis; e que fazer com duas ?ndoles incompat?veis e insepar?veis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paix?o era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha… Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Tamb?m podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, pen?ria, doen?as; podia vir alguma dessas afei??es esp?rias que perturbam a paz dom?stica… Considerei tudo e conclu? que o melhor era n?o casar. O que n?o lhe posso contar ? o meu desespero; faltam-me express?es para lhe pintar o que padeci nessa noite… Deixa-me fumar outro cigarro? N?o esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor n?o podia deixar de admirar-lhe a bela cabe?a, no meio do desalinho pr?prio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes m?rbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse homem? Jos? Maria continuou a hist?ria, dizendo que deixou de ir ? casa de Clem?ncia, durante seis dias, mas n?o resistiu ?s cartas e ?s l?grimas. No fim de uma semana correu para l?, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. ? A resposta de Jos? Maria foi uma pergunta.
? Est? disposta a fazer-me um grande sacrif?cio? disse-lhe eu. Clem?ncia jurou que sim. ?Pois bem, rompa com tudo, fam?lia e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado.? Compreendo que Vossa Reverend?ssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de l?grimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
? N?o, senhor…
? Como n?o? Sou um monstro. Clem?ncia veio para minha casa, e n?o imagina as festas com que a recebi. ?Deixo tudo, disse-me ela; voc? ? para mim o universo.?
Eu beijei-lhe os p?s, beijei-lhe os tac?es dos sapatos. N?o imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a not?cia da morte de um tio meu, em Santa Ana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. ?Entendo, disse a Clem?ncia, voc? sacrificou tudo, porque tinha not?cia da heran?a.? Desta vez, Clem?ncia n?o chorou, pegou em si e saiu. Fui atr?s dela, envergonhado, pedi-lhe perd?o; ela resistiu. Um dia, dous dias, tr?s dias, foi tudo v?o; Clem?ncia n?o cedia nada, n?o falava sequer.
Ent?o declarei-lhe que me mataria; comprei um rev?lver, fui ter com ela, e apresentei-lho: ? este.
Monsenhor Caldas empalideceu. Jos? Maria mostrou-lhe o rev?lver, durante alguns segundos, tornou a met?-lo na algibeira, e continuou:
? Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condi??o: doar os vinte mil contos ? Biblioteca Nacional. Clem?ncia atirou-se-me aos bra?os, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. H? de ter lido nos jornais…
Tr?s semanas depois casamo-nos. Vossa Reverend?ssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora ? que chegamos ao tr?gico. O que posso fazer ? abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clem?ncia. N?o lhe falo de outras emo??es truncadas, que s?o todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgar?am no ar, nem das ilus?es de saia rota, nem do tal p?ssaro… pl?s… pl?s… pl?s…
E, de um salto, Jos? Maria ficou outra vez de p?, agitando os bra?os, e dando ao corpo uma cad?ncia. Monsenhor Caldas come?ou a suar frio. No fim de alguns segundos, Jos? Maria parou, sentou-se, e reatou a narra??o, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfian?as. N?o podia comer um figo ?s dentadas, como outrora; o receio do bicho diminu?a-lhe o sabor. N?o cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupa??es, desejos, ?dios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas por umas tr?s quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. N?o conseguia dar um jantar que n?o ficasse triste logo depois da sopa, pela id?ia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de servi?o podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampi?o. A experi?ncia dera-lhe o terror de ser empulhado.
Confessava ao padre que, realmente, n?o tinha at? agora lucrado nada; ao contr?rio, perdera at?, porque fora levado ao sangue… Ia contar-lhe o caso do sangue. Na v?spera, deitara-se cedo, e sonhou… Com quem pensava o padre que ele sonhou?
? N?o atino…
? Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos l?rios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. ?Toma, disse-me ele; s?o os l?rios da Escritura; segundo ouviste, nem Salom?o em toda a pompa, pode ombrear com eles. Salom?o ? a sapi?ncia. Sabes o que s?o estes l?rios, Jos?? S?o os teus vinte anos.? Fitei-os encantado; eram lindos como n?o imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse tamb?m. N?o lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um r?ptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Ent?o, o Diabo, escancarando uma formid?vel gargalhada: ?Jos? Maria, s?o os teus vinte anos.? Era uma gargalhada assim: ? c?, c?, c?, c?, c?…
Jos? Maria ria ? solta, ria de um modo estridente e diab?lico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, t?o depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele, aflita e desgrenhada. Os olhos de Clem?ncia eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces tamb?m fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos p?s…
Neste ponto a fisionomia de Jos? Maria estava t?o transtornada que o padre, tamb?m de p?, come?ou a recuar, tr?mulo e p?lido. ?N?o, miser?vel! n?o! tu n?o me fugir?s!? bradava Jos? Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as t?mporas latejantes; o padre ia recuando… recuando… Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de p?s.
 
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Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. ?A segunda vida?. In: Obra Completa.
Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Casa Velha




Autor: Machado de Assis
Título: Casa Velha
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

CASA VELHA

Trecho

Machado de Assis

CAPÍTULO I
ANTES E DEPOIS DA MISSA

Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial:
— Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer cousa melhor.
Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates, documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.
— Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
— Por que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do que for possível, e com autorização dela.
— Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração, que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver, e far-se-á o que for possível.
Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando; mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia o devido respeito à memória do marido consentindo que alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo acompanhei o Padre Mascarenhas.
A casa, cujo lagar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.
Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao rés do chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente à dona da casa, e às senhoras da família ou hóspedas, que entravam pelo interior; os homens, os fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o Padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais de prata, para as toalhas finas e alvíssimas, para o chão em que não havia uma palha.
— Todos os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário? Pequeno, mas um primor.
Não havia coro nem órgão. Já disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorrência à missa era tal que até na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiéis. Mascarenhas faz-me notar à esquerda da capela o lagar em que estava sepultado o ex ministro. Tinha o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que guardava, das alusões freqüentes na conversação.
— Lá verá na biblioteca o retrato dele, disse-me.
Começaram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados, saíam, outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham também escravos da casa. Um destes era o próprio sacristão; tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da capela, mas também ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina’ com muita perfeição. Fomos achá-lo diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com argolas de prata nos gavetões, concluindo os arranjos preparatórios. Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte anos mais ou menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o Padre Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
— Já sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de papai?
Confiei-lhe rapidamente a minha idéia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, também de vinte anos, um velho parente, Coronel Raimundo, e uns dous ou três hóspedes. Félix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na borda da cômoda, ia dizendo alguma cousa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos lábios, voltando a cabeça a miúdo para um ou outro. Félix tratava o com benevolência e até deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel não fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
— Parece que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela: — Mamãe já está na tribuna. Vamos?
Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças. Cumprimentei as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que tratavam de mim, falando umas às outras. Felizmente o padre entrou daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo a ambas. Não falamos do meu projeto; tão somente a dona da casa disse-me delicadamente:
— Está entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.
A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, voltamos à sacristia, onde o Padre Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão, descemos dous degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa. Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal.
D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido.apenas duas vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos,— Félix, e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da Europa, donde trouxe idéias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.
Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, não disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma cousa, era baixinho, às duas moças, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. Félix, eu e o Padre Mascarenhas falávamos de política, do ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra cousa que me chamou a atenção foi que a mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e redobrei de atenção com o filho. Fi-la sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma cousa, naquilo, a necessidade de captar toda a afeição da casa. por motivo do meu projeto.
Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o tecto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre Mascarenhas.
— Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles.
— Creia que agradeço muito…
— Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
— Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. . .
— Como ?
— Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.ª, esposa de ministro. . .
D. Antônia deu de ombros.
— Ah! eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas cousas.
— Tudo pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer cousa de nada, pode valer muito.
Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saía, e só foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira vez teve muito medo, e só o perdeu por se lembrar a tempo de um dito do avô.
— Saí de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à corte; pelas portinholas do coche via muita gente olhando parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz, confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente, lembrou-me um dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério que ele tinha às vezes: “Menina, uma Quintanilha não trame nunca!” Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha não tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e não lhe pediria nada; e depois falei de outras cousas. Parece que estava de veia, se não é que a conversação da viúva me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e posso afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.
CAPÍTULO II

ANTES DE ME DESPEDIR deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um só lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos infólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e filosofia, não raros em latim e italiano. Eu via os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o Félix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idéia. Esta idéia cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos, possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.
— Será o exemplar truncado? disse eu.
— Truncado? repetiu Félix.
— Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16 do lv. XVI. Uma cousa indigna: In quest’anno medesimo nacque un caso… Não vale a pena ler; é imundo.
Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti o subjugado. Nem confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava apenas trinta e dous anos. A verdade é que era tão somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de cousas religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto à parte que imediatamente me interessava, achei muitas cousas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o Félix me disse estarem cheias de manuscritos.
Havia ali dous retratos, um do finado ex ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza dos olhos.
— Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde poderá trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.
Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois. Só então revelei a Monsenhor Queirós, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma história do Primeiro Reinado. E revelei-lho com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor político. Monsenhor Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me faz o que sou, menos a tendência política, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja também o eram do Estado. Não aprovou a idéia: mas não gastou tempo em tentar dissuadir-me. “Conquanto, disse-me ele, que você não prejudique sua mãe, que é a Igreja. O Estado é um padrasto.”
A meu cunhado e minha irmã, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irmã pediu-me que a levasse lá, alguma vez, para conhecer a casa e a família.
Na quarta feira comecei a pesquisa. Vi então que era mais fácil projetá-la, pedi-la e obtê-la, que realmente executá-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contíguo, com os livros e papéis à minha disposição, senti-me constrangido, sem saber por onde começasse. Não era uma casa pública, arquivo ou biblioteca, era um lugar onde, no que tocava a papéis e manuscritos, podia dar com alguma cousa privada e doméstica. Para melhor haver-me, pedi ao Félix que me auxiliasse, disse-lhe até com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu. polidamente, que tudo estava em boas mãos. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacristão; pedia, porém, licença naquele dia porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde terça feira até sábado, estaria na roga. Voltaria sábado à noite, e daí até o fim, estava às minhas ordens. Aceitei este convênio.
Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e opúsculos. Conhecia alguns deles, outros não, e não eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Félix acompanhou-me nesse trabalho, e daí em diante até seguir para a roga. Eu, em geral chegava às dez horas, conversava um pouco com o dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falávamos das cousas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me à biblioteca com o filho do ex ministro. As duas horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condição do obséquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licença. Tudo isso com tão boa cara que era impossível teimar na recusa. Jantava. Entre três e quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho até anoitecer.
Um dia, quando ainda o Félix estava na roga, D. Antônia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu trabalho, que lhe não interessava nada. Na véspera, ao jantar, disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente França e Itália, e talvez ali fosse daí a meses. D. Antônia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.
— Eu, minha senhora?
— Não se admire do pedido; eu já reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverendíssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade ele cede.
— Não creio que tenha mais força que sua mãe. Já lhe tem lembrado isso?
— Já, respondeu D. Antônia com uma entonação demorada que exprimia longas instâncias sem efeito.
E logo depois com um modo alegre:
— As mães como eu não podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez; ele recusa sempre dizendo que não quer separar-se de mim. Mentira! A verdade é que ele não quer sair daqui. Não tem ambições, faz estudos incompletos, não lhe importa nada. Há uns parentes nossos em Portugal. Já lhe disse que fosse visitá-los, que eles desejavam vê-la, e que fosse depois à Espanha e França e outros lugares. José Bonifácio lá esteve e contava cousas muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou então repete que não quer separar-se de mim.
— E não acha que esta segunda razão é a verdadeira?
D. Antônia olhou para o chão, e disse com voz sumida:
— Pode ser.
— Se é a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo, era irem ambos, e eu com ambos, e para mim seria um imenso prazer.
— Eu?
— Pois então?
— Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverendíssima está caçoando. Daqui para a cova. Não fui quando era moça, e agora que estou velha é que hei de meter-me em folias… Ele sim, que é rapaz,– e precisa…
Tive uma suspeita súbita:
— Minha senhora, dar-se-á que ele padeça de alguma moléstia que…
— Não, não, graças a Deus! Digo que precisa, porque é rapaz, e meu avô dizia que, para ser homem completo, é preciso ver aquelas cousas por lá. E só por isso. Não, não tem moléstia nenhuma; é um rapaz forte.
Era impossível, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a razão secreta deste pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo à conversação dizendo que ia convidar o rapaz. D. Antônia agradeceu-me, declarou que não, me havia de arrepender do companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras cousas; ela, porem, teimava no assunto da viagem, para familiarizarmos com a idéia, e moralmente constranger-me a realizá-la. No dia seguinte voltou à biblioteca, mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de rapé, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfeição. Não tive dúvida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembrança do finado. Aceitei a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei só.
Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, provavelmente sérias. As instâncias de D. Antônia, as razões dados, as reticências, e finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava que cismar. Na noite desse dia fui à casa do Padre Mascarenhas para sondá-la; perguntei-lhe se sabia alguma cousa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. Mascarenhas não sabia nada.
— Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que só vou lá aos domingos.
— Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
Félix voltou da roga dous dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na segunda feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo; respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas não podia. Teimei, pedi-lhe razões, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:
— Foi mamãe que lhe pediu.
— Não digo que não; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir à Europa, daqui a alguns meses, e ela então falou-me do senhor e das vezes que já lhe tem aconselhado uma viagem. Que admira?
Félix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha consciência. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:
— Nada: não posso ir.
— Por quê?
Aqui teve ele um gesto quase imperceptível de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da índole dele, ou do meu caráter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Félix sorriu e confessou que não podia separar-se da mãe. Eu, a rigor, não devia dizer mais nada, e encerrar-me no exame dos papéis; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda repliquei alguma cousa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia começar por ver os homens, e não restringir-se à vida simples e emparedada da família. Demais, o contacto de outras civilizações necessariamente nos daria têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:
— Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos disto; pode ser… E o seu trabalho, está adiantado?
Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclusão do trabalho, e despregar-me de uma intimidade que podia trazer complicações ou desgostos. As horas que então passei foram das melhores, regulares e tranqüilas, ajustadas a minha índole quieta e eclesiástica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me à biblioteca até a hora de jantar, que não passava das duas. O café ia à grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim chamado, por ter um lindo renque dessas árvores, e eu retirava-me antes do pôr do sol. Félix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e quando não me ajudava é porque saíra a caçar, ou estava lendo, ou teria ido à cidade a passeio ou a negócio de a passeio ou a negócio de casa.
Vai senão quando, um dia, estando só na biblioteca ouvi rumor do lado de fora. Era a princípio um chiar de carro de bois, de que não fiz caso, por já o ter ouvido de outras vezes; devia ser um dos dons carros que traziam da roga para a Casa Velha, uma ou duas vezes por mês, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontrão dos dous veículos. Fui à janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro não pôde conter logo as bestas, nem o carro fugir a tempo, mas não houve outra conseqüência além da vozeria. Quando eu cheguei à janela já o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto. não foi tão pouco o tempo que eu não visse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma moça que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. Não lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pescoço, mas dai a nada, parando a sege à porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. “Hão de ser visitas”, pensei comigo.
Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de D. Antônia; vinha da praça, aonde fora cedo, para tratar de um negócio do tio coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e não atendendo, ou atendendo mal às respostas. Não me lembraria disto agora, nem nunca mais, se não se tivesse ligado aos acontecimentos próximos, como veremos. A prova de que não dei então grande importância ao estado do espírito dele, é que daí a pouco quase que não lhe respondia nada, e continuava a ver os papéis. Folheava justamente um maço de cópias relativas à Cisplatina, e preferia o silêncio a qualquer assunto de conversa. Félix demorou-se pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para acudir ao jantar. Daí a pouco estávamos à mesa.
Era costume de D. Antônia vir para a mesa acompanhando a irmã (a senhora idosa que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali foi), e assim o fez agora, com a diferença que outra senhora a acompanhava também. Disseram-me que era amiga da família, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antônia perguntou à hóspeda:
— Onde está Lalau?
— Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu um pires de melado com farinha.
— A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda.
— Não, senhor; ainda esperou por nós.
— Seu irmão está bom?
— Está; minha cunhada é que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo natal, nunca ficou boa de todo.
Creio que disseram ainda outras cousas; mas não me interessando nada, nem a conversação, nem a hóspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos: deixei-me estar comigo. Já tinha compreendido que a hóspeda era uma das que chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e finalmente que. alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atrás do pavão, em vez de estar à mesa conosco. Mas, em resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabeça a história de um imperador.
Lalau não se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma cousa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.
— Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau.
Lalau aproximou-se de D. Antônia, que lhe compôs o cabeção do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao pé da outra hóspeda. Realmente, era uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto pareça exagerado a uns e vago a outros, mas não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei a alguns instantes com infinito prazer. Fiei m e do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o resto da pessoa. Não digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.
Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um oficio mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roga, e, segundo me disse a própria D. Antônia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.
Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo pé de outras relações; eram menos agregadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, que chegava a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava pouco; em compensação, amava sinceramente a casa e a família. Tendo ficado órfã desde 1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda.
Foi D. Antônia quem me deu essas noticias, naquela mesma tarde, ao café, acrescentando que achava bom casá-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco em 1835.
Nisto a menina veio a nós, olhando muito para mim. Estávamos na varanda.
— Vou confessá-la, disse-lhe eu; mas olhe lá se me nega algum pecado.
— Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu não tenho pecado. Nhãtônia é que anda inventando essas cousas. Eu, pecado?
— E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em vez de ficar séria e pensar em Deus, enfiou a cabeça por entre as cortinas para fora, rindo como uma criança.
— Que é ela senão criança? ponderou D. Antônia.
Lalau olhou espantada.
— Onde estava o senhor padre? Estava no céu, espiando.
— Ora! diga onde estava.
— Já disse: estava no céu.
— Adeus! diga onde estava!
— Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Antônia já sabia tudo, pois ali um acontecimento de nada ou quase nada era matéria de longas conversações. Não obstante. a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensações alegres. Confessou que não tinha medo de nada, e até que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a conversação dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa lá em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que não, quis saber o que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; creio que achou entre os nossos espíritos algum ponto de contacto.
A verdade é que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns papéis, ouviu-me atenta, pagou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me várias perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, peça que raramente se abria. Conhecia os retratos, distinguiu os logo; ainda assim parecia tomar gosto em vê-los, principalmente o do ex ministro; quis saber se ela o conhecia; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado então parecia um rei. Seguiu-se um grande silêncio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moça, entre si e Deus:
— Muito parecido…
— Parecido com quem? perguntei.
Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. Não era preciso mais; adivinhei tudo. Infelizmente tudo não era ainda tudo.

Fim do capítulo II.





Bio fornecida pelo palestrante.

Dom Casmurro




Autor: Machado de Assis
Título: Dom Casmurro
Idiomas: port, eng, esp, ita, fra
Tradutor: Liliana Borla(ita)Helen Caldwell(eng)Francis de Miomandre/ revue par Ronald de Carvalho(fra)
Data: 29/12/2004

Dom Casmurro

I

Do Título

Machado de Assis

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos podem ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou par que ele interrompesse a leitura e metesse os verbos no bolso.

– Continue, disse eu acordando.

– Já acabei, murmurou ele.

– São muito bonitos.

Vi- lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando- me Dom Casmurro. Os vizinhos que não gostam do meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles por graça, chamam- me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, Domingo vou jantar com você.” – “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”. – “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote; dou- lhe chá, dou- lhe cama; só não lhe dou moça”.

Não consultes dicionário. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir- me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso do seus autores; alguns nem tanto.

Fonte: MACHADO DE ASSIS, J. M. Dom Casmurro. 35ª edição. São Paulo, Série Bom Livro, 1998.

Dom Casmurro

I
Titolo

Machado de Assis

Notti orsono, mentre venivo dalla città verso l’Engenho Novo , trovai sul trenó della centrale um giovane Del mio quartiere, Che conosco appena di vista. Mi salutò, mi si sedette accanto, parlò della luna e dei ministri e finì col recitarmi dei versi. Il viaggio era breve ed i versi può darsi non fossero del tutto brutti. Accade però che, preso dalla stanchazza, chiusi gli occhi tre o quattro volte; tanto bastò a far sì che egli interrompesse la lettura ed infilasse i versi in tasca.

– Continui – gli dissi, svegliandomi.

– Ho già terminato – ripose.

– Sono belli.

Gli vedi fare um gesto per trarli di nuovo di tasca, ma non fu che um gesto; era imbronciato. Il giorno dopo cominciò a dir male di me e terminò col soprannominarmi, “Don Casmurro” . I vicini, che non amano le mie maniere chiuse e riservate, diedero corso all’appellativo, che infine attecchì. Non per questo mi sono adirato. Raccontai l’aneddoto agli amici in città ed essi, per celia, mi chiamano così, alcuni persino nei biglietti: “Don Casmurro, domenica vengo a colazione da te”. “Vado a Petropolis , Don Casmurro; la casa è la stessa della Renania; vedi un po’se puoi lasciare codesta caverna dell’Engenho Novo e vieni a trascorrere uma quindicina di giorni con me”. – “Mio caro Don Casmurro, non credere che domani ti dispensi dal teatro; Vieni e dormirai con me qui in città; ti offro il palco, ti offro il tè, ti offro il letto; solo donne non ti offro”.

Non consultare i dizionari. Casmurro non si trova qui nel senso che essi gli diedero ma in quello, attribuitogli dal volgo, di uomo silenzioso e chiuso in sé. “Don” fu aggiunto per ironia, per darmi arie da nobile. Tutto ciò, perchè sonnecchiavo! D’altra parte, non ho trovato titolo migliore per questo racconto. Il mio poeta del treno potrà così sapere che non gli serbo rancore e con piccolo sforzo, dato che il titolo è suo, potrà crdere che anche l’opera sia sua. Ci sono libri che hanno appena ciò dei loro autori; altri nemmeno tanto.

(…)


Fonte: Assis, Machado de. “Il Títolo”. In: —. Dom Casmurro. Traduzione dal portoghese di Liliana Borla. Milano: Fratelli Bocca, 1954. p. 5-6.

Dom Casmurro

The Title
I

Machado de Assis

One night not long ago, as I was coming from the city to Engenho Novo1, on the Brazil central, I ran into a young man from here in the neighborhood, with whom I have a bowing acquaintance. He spoke, sat down beside me, talked of the moon and the government, ended by reading me some verses. The trip was short, and the verses may not have been entirely bad. It happened, however, that as I was tired, I closed my eyes three or four times – it was enough to make him stop reading and put the verses in his pocket.

“Go on”, I said, rousing myself.

“I’ve finished”, he muttered.

“They are very fine”.

I saw him make a gesture to take them out of his pocket again, but it did not pass beyond a gesture. He was offended, The next day he said some hard things about me and gave me the nickname Dom Casmurro. The neighbors, who do not like my taciturn, recluse – like habits, took up the nickname: it stuck. This did not make me angry. I told the story to my friends in the city, and they, in fun, call me by it and write to me: “Dom Casmurro, I am coming to have dinner with you Sunday.” “I am going to my old place at Petropolis2. Dom Casmurro. See if you can’t tear yourself away from that cave in Engenho Novo3 and come spend a couple of weeks with me.” “My dear Dom Casmurro, don’t imagine that you are going to scape my theather party tomorrow night. You can stay overnight in the city. I promise you a box at the theather, tea, and a bed. The only thing I don’t promise you is a girl.”

Don’t consult your dictionaries. Casmurro is not used here in the meaning they give for it, but in the sense in which the man in the street uses it, of a morose, tightlipped man withdrawn within himself. The Dom was for irony: to impute to me aristocratic airs. All for dozing off! Well, I have found no better title for my narrative; if no better occurs, let it stand! My poet of the train will know that I do not bear him a grudge. And, with a little effort, since the title is his, he will be able to decide that the work is his. There are books which owe no more to their authors; some, not so much.
(…)

1 – A section of Rio de Janeiro.
2 – A city near Rio where the summer court of Emperor Dom Pedro I was located.
3 – A section of Rio de Janeiro.

Fonte: Assis, Machado de. Dom Casmurro. Translated and with an Introduction by Helen Caldwell. New York:Avon Books, 1980. p. 21-22.

Dom Casmurro

Du Titre

I

Machado De Assis

Une de cer denières nuits, comme je rentrais de la ville à Engenho Novo, je recontrai dans le train de la “Central” un jeune homme de mon quartier, que je connaissais pour l’avoir déjà vu et salué. Il me donna un coup de chapeau, s’assit aurès de moi, me parla de la lune et du ministère et finit par me réciter des vers. Le voyage était court et il se peut bien que les vers ne fussent pas tout à fait mauvais. Néanmoins; comme j’etais fatigué, il m’arriva de fermer les yeux trois ou quatre fois : ce qui suffit pour qu’il interromît sa lecture rt remît les vers dans sa poche.

– Continuez ! lui dis-je, me ressaisissant.
– J’ai fini ! murmura-t-il.
– Ils sont fort bons.

Je le uis faire un geste pour les tirer une seconde fois de sa poche, mais ce ne fut qu’ un geste : il était vexé. Le lendemain, il disait de moi pis que pendr, et il finit par me surrnommer Dom Casmurro. Me voisins qui ne trouvainet pas à leur gôut mes allures de solitaire et de silencieux, firent un sort au sobriquet, qui finalement me resta. Je ne me troublai pas pour si peu. Je racontrai l’anecdote à mes amis de la ville, et eux, par plaisanterie, m’appellent ainsi, certains même dans leurs lettres: “Dom Casmurro, j’irai dîner di manche avec vous.” – “Je vais à Petropolis, Dom Casmurro ; toujours dans la maison de la Rhenania : lânchez donc cette caverne d’ Engenho Novo, et venez passer une quinzaine avec moi.” – “Mon cher Dom Casmurro, ne croyez pas que je vous dispense du téâtre demain. Venez et vous coucherez ici, en ville. Je vous offre le lit. Il n’ y a que la jolie fille que je ne puisse vous offrir.”

Ne consultez paz de dictionaires. Casmurro n’est pas pris ici dans le sens qu’ ils donnent à ce mot, mais dans l’acception vulgaire d’ homme silencieux et absorbé. Dom a été ajouté par ironie, comme pour me donner des prétentions nobiliaires.

Et tout cela parce que, l’ autre jour, je dormassais un peur ! Aussi bien n’ ai-je point trouvé de meilleurtitre pour mom récit ; s’ il ne m’ en vient pas d’ autre d’ ici la fin du livre, nous garderouns celui-lá. Mon poète du train saura ainsi que je ne lui garde pas rancure. Et, pour un peru, comme le titre est de lui, il pourra penser que l’ oeuvre l’ est aussi. Certains livres doivent à leurs auteurs, tout juste titres ; et d’ autres même pas cela.

Fonte : Machado de Assis, [Joaquim Maria]. de. Dom Casmurro. Traduction du français de Francis de Miomandre/ revue par Ronald de Carvalho. Paris, Éditions Albin Michel, 1956. p. 13, 14.

Don Casmurro

El Título

Primer Capítulo

Machado de Assis

Hace unas noches, viajando de la ciudad a Ingenio Nuevo, encontré en el tren de la Central a un muchacho de mi barrio, que solamente conozco de vista. Me saludó y se sentó a mi lado, me hablo de la luna, de la política, y terminó recitándome unos versos. El viaje era corto, y puede que no fueran enteramente malos. Pero sucedió que como yo estaba cansado, cerré los ojos tres o cuatro veces; bastó eso para que interrumpiese la lectura y se metiese los versos en el bolsillo.

– Continué – dije yo despertando.

– Ya terminé – murmuró el.

– Son muy bonitos.

Hizo un gesto como para sacarlos otra vez del bolsillo, pero no pasó del gesto; estaba enfurruñado. Al día seguiente empezó a hablar mal de mí poniéndome nombres feos, y terminó adjudicándome el mote de “Don Casmurro”. Los vecinos, a quienes no les hacen gracia mis hábitos reclusos y callados, dieron curso al mote que al final me quedó. No por eso me enojé. Conté la anécdota a los amigos de la ciudad, y ellos, por gracia, llamáronme así, algunos hasta lo escrebieron en los recados que me mandaban: “Don Casmurro, el Domingo iré comer con usted”. “Voy a Petrópolis, Don Casmurro; la casa es la misma de la calle Renania. A ver se deja esa caverna de Ingenio Nuevo, y va allá a passar unos quinces días conmigo.” “Mi querido Don Casmurro, no crea que le perdono ir al teatro mañana; venga y dormirá aquí en la ciudad, le doy habitación, le doy té, le doy cama; lo único que no le doy es mujer.”

No consulten diccionarios. “Casmurro” no está allí en el sentido que ellos le dan, no el que le da el vulgo, de hombre callado y metido consigo mismo. El Don, es una ironía; me lo pusieron para atribuirme humos de hidalgo. !Todo por haberme adormecido! Como no encontré mejor título para mi narración, si no encuentro otro de aquí al final del libro, dejaré este mismo. Que quede sabiendo mi poeta del tren que no le guardo rencor. Y con un pequeño esfuerzo, siendo el título suyo, podrá creer que la obra es de él. Hay libros que apenas tienen eso de sus autores; algunos ni eso.

Fonte: MACHADO DE ASSIS, [Joaquim Maria] Don Casmurro. Buenos Aires: Acme, 1953.





Bio fornecida pelo palestrante.

Esaú e Jacob




Autor: Machado de Assis
Título: Esaúe Jacob, Esau and Jacob, Esaú e Jacob
Idiomas:
Tradutor: Estela dos Santos(esp), Helen Caldwell(eng)
Data: 29/12/2004

ESAÚ E JACOB

I
COISAS FUTURAS!

Machado de Assis

 

Dico, che quando l’anima mal nata…
Dante

Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo. Começaram a subir pela Rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca foi lá, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá por os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo.
Natividades e Perpétua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas o morro do Castelo, por mais que ouvissem falar dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes tão estranho e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés às duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse penitência, devagarzinho, cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo movimento; mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados para elas, que aliás vestiam com grande simplicidade; mas há um donaire que se não perde, e não era vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: “Você quer ver que elas vão à cabocla?” E ambos pararam a distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.
Com efeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o número da casa da cabocla, até que deram com ele. A casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada à aventura. Quiseram entrar depressa, mas esbarraram com dois sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.

– Perdem tempo o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito disparate…

– É mentira dele, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.
Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do primeiro eram sinal certo da vidência e da franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividades podia ser miserável, e então… Enquanto cogitavam, passou fora um carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé, mas tinham também vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às escondidas.
Velho caboclo, pai da advinha, conduziu as senhoras à sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que lembrasse o mistério ou incutisse pavor, nenhum petrecho simbólico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões. Quando muito um registro da Conceição colado à parede podia lembrar um mistério, apesar de encardido e roído, ma no metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.

– Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?

Natividade deu o nome de batismo somente, Maria, como um véu mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão, – porque a consulta era só de uma, – com o número 1.012. Não há que pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa, e vinha de muitos meses. Também não há que dizer do costume, que é velho e velhíssimo. Relê Ésquilo, meu amigo, relê as Eumênides, lá verás a Pítia, chamando os que iam à consulta: “Se há aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o uso, na ordem marcada pela sorte”… A sorte outrora, a numeração agora, tudo é que a verdade se ajuste à prioridade, e ninguém perca a sua vez de audiência. Natividade guardou o bilhete e ambas foram à janela.
A falar a verdade, temiam o seu tanto, Perpétua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo possível. Não ponho aqui os seus gestos: imaginai que eram inquietos e desconcentrados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha nó na garganta. Felizmente, a cabocla não se demorou muito, ao cabo de três ou quatro minutos, o pai trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.

– Entra, Bárbara.

Bárbara entrou, enquanto o pai pegou a viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. Já vai nisto um ouço de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.

– Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?

– São.

– Cara de um é cara de outro.

– São gêmeos; nasceram a pouco mais de um ano.

– As senhoras podem sentar-se.

Natividade disse baixinho à outra que “a cabocla era simpática”, não tão baixinho que esta não pudesse ouvir também; e daí pode ser que ela, receosa da predição, quisesse aquilo mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se à mesa redonda que estava no centro da sala, virada para as duas. Pôs os cabelos e os retratos defronte de si. Olhou alternadamente para eles e para a mãe, fez algumas perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabelos, boca aberta, sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que ascendeu um cigarro, mas digo porque é verdade, e o fumo concorda com o ofício. Fora, o pai roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do Norte:

Menina da sai branca
Saltadeira de riacho…

Enquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. Bárbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabelos em cada mão; e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a afetação que porventura aches nesta linha.

_____________________

Fonte: 

ESAÚ Y JACOB

I
¡ Cosas futuras!

Machado de Assis

Dico, Che quando l’anina mal nata…
Dante

Era la primera vez que ambas iban al cerro del Castillo. Comenzaron a subir por el lado de la calle del Carmen. Hay en Río de Janeiro mucha gente que no ha ido nunca, mucha habrá muerto, mucha nacerá sin poner nunca los pies allí. No todos pueden decir que conocen una ciudad entera. Un viejo inglés que, sin embargo, infantigable viajero confesóme ha muchos años en Londres que de Londres sólo conocía bien su club, y que era cuanto necesitaba conocer de la metrópoli del mundo.
Natividad y Perpetua conocían otros sitios fuera de Botafogo; pero por mucho que oyeron hablar de él y de la indiecita que allí reinaba en 1871, el cerro del Castillo era para ellas tan extraño y lejano como el club. Lo áspero, lo desigual, lo mal pavimentado de la cuesta, mortificaba los pies de las pobres damas. No obstante, seguían subiendo, como por penitencia, despacito, con ojos en el suelo y el velo echado a la cara. La mañana provocaba cierto movimiento: hombres, mujeres, niños que bajaban o subían, lavanderas o soldados, uno que otro empleado, uno que otro comerciante, uno que otro sacerdote, las miraban sorprendidos aunque vistieran con mucha sencillez: hay un donaire que no se pierde y que no era común en aquellas alturas. La misma lentitud del andar comparada con la rapidez de los otros, hacía sospechar que iban allí por primera vez. Una criolla dijo a un sargento:

– ¡Ya verá cómo van a casa de la india!

Y ambos se detuvieron a cierta distancia, invadidos por el invencible deseo de conocer vidas ajenas, que constituye muchas veces toda la necesidad humana.
Las dos señoras buscaban en efecto, disimuladamente, el número de la casa de la india. Por fin lo encontraron. La casa estaba, como las demás, trepada en el cerro. Subíase a ella por una escalerilla estrecha, sombría, adecuada a la aventura. Quisieron entrar de prisa; pero tropezarón con dos sujetos que salían, y que tuvieron que pegarse al portal. Uno de ellos les preguntó familiarmente si iban a consultar a la adivina.

– Pierden el tiempo- agregó furioso, – y van a oír muchos disparates.

– ¡Mentira!- corrigió el otro, riendo. – La india sabe perfectamente dónde tiene las narices.
Las damas vacilaron un tanto; pero luego calcularon que las palabras del primero eran segura señal de clarividencia y franqueza de la adivina: todos no pueden tener la misma suerte. La de los hijitos de Natividad podía ser desgraciada, y en ese caso… Mientras meditaban pasó un cartero, que las hizo subir más de prisa, para escapar a otras miradas. Tenían fe; pero también tenían verguenza del qué dirían, como un devoto que se persignase a las escondidas.
Un indio viejo, padre de la adivina, la condujo a la sala. Ésta era sencilla, de paredes desnudas, sin nada que evocase misterio, ni infundiese pavor, adorno simbólico, animal disecado, esqueleto ni dibujo de miembros enfermos. Cuando mucho, una imagen de la Concepción pegda a la pared podía recordar un misterio, aunque estuviese mohosa y destrozada; pero no daba miedo. Sobre una silla, una guitarra.

– Mi hija viene enseguida- dijo el viejo- ¿Cómo se llaman las señoras?

Natividad dio su primer nombre solamente – María- como un velo más espeso que el de la cara, recibió una tarjeta, porque ella solo consultaba con el número 1,012. No hay que asustarse de la cifra: la clientela era numerosa y partía de muchos meses atrás. Tampoco hay que hablar de la costumbre, que es vieja, viejísima. Vuelve a leer a Esquilo, amigo mío, vuelve a leer Euménides, y allí verás a la Pitia llamando a los que iban a consultarla.

– Si hay aquí Helenos, vengan, acérquense, como es uso, en el orden determinado por la suerte…

La suerte antiguamente, la numeración ahora; todo es que la verdad se ajuste a la prioridad, y que nadie pierda su turno en la audiencia. Natividad guardó la tarjeta, y ambas se acercaron a la ventana.
A decir verdad, no dejaban de tener su poquito de miedo, Perpetua menos que Natividad. La aventura parecíales audaz, y posible algún peligro. No describo sus ademanes: imagina que eran inquietos e incoherentes. Ninguna decía nada. Natividad confesó después que sentía un nudo en la garganta. Por suerte la adivina no tardó mucho; al cabo de tres ó cuatro minutos el padre la introdujo de la mano, levantando la cortina del fondo.

– Entra, Bárbara.

Bárbara entró, mientras su padre tomaba la guitarra y se iba al corredor de piedra. Era una muchachita leve y breve, de saya bordada y chinelas en los pies. No podía negársele un cuerpo airoso. Los cabellos, atados en lo alto de la cabeza con un pedazo de cinta aceitosa, formábanle un solideo natural cuya borla suplía un ramito de ruda. Ya en esto hay algo de sacerdotisa. El misterio estaba en los ojos. Éstos eran opacos, no siempre ni tanto que no fuesen también lúcidos y penetrantes, y en este último estado eran hermosos también; tan hermosos y tan penetrantes, que entraban por el cuerpo abajo, revolvían el corazón y salían otra vez, prontos para una nueva entrada y otro revoltijo. No te miento al decir que ambas señoras sintieron cierta fascinación. Bárbara las interrogó; Natividad dijo a lo que iba, y le entregó los retratos, según le dijeran.

– Sí, basta- confirmó Bárbara. – ¿Son hijos suyos estos niños?

– Sí.

– Los dos tienen la misma cara.

– Son gemelos. Nacieron hace poco más de un año.

– Siéntense ustedes.

Natividad dijo muy quedo a su compañera que “la muchacha era simpática”; pero no tan quedo que ésta pudiese oírla también, y aun puede ser que, temerosa de la predicción, lo hiciese de intento por obtener un buen destino para sus hijos. La indiecita fue a sentarse a una mesa redonda que se hallaba en el centro de la habitación, vuelta hacia ellas. Púsose delante los retratos y los cabellos. Miró alternativamente a éstos y a la madre, hizo algunas preguntas y luego se quedó contemplando retratos y cabellos con la boca abierta y las cejas juntas. Cuéstame decir que encendió un cigarro; pero lo que digo porque es la verdad y porque el humo concuerda con el oficio. Afuera, el padre rozaba las cuerdas de la guitarra, murmurando una canción de los bosques del Norte:

Niña de la saya blanca
Que saltas los arroyuelos…

Mientras iba subiendo el humo del cigarro, la cara de la adivina cambiaba de expresión, ya sombría, ya radiosa, ora interrogante, ora explicativa. Bárbara se inclinaba hacia los retratos, oprimía un rizo en cada mano, y los miraba, los olía, los escuchaba, sin afectación que quizá halles en estas líneas.

___________________
Fonte: ASSIS, Machado de. Esaú y Jabob. Traducción de Estela dos Santos.Buenos Aires: Biblioteca de La Nación, 1905. (pg:09 a14).
 

Esau and Jacob


I. Things Fated to Be

Machado de Assis

It was the first time they had ever gone to the Morro do Castello. The began to climb from the Rua do Carmo side. There are many people in Rio de Janeiro who have never gone there, many n doubt have died, many more will be born and die without ever once setting foot on that rock. Not everyone can say they know a whole city. An old Englishman who had wandered widely over other lands confided to me many years ago in London that all he really knew of London was his club and it was all needed to know – of the metropolis and of the world.
Natividade and Perpetua knew other neighborhoods besides Botafogo, but the castle tock, Morro do Castello, for all the talk there had been about it and about the cabocla that reigned there in 1871, was as strange to them, as remote, as the Englishman´s club. The stupness, the unevenness of the cobblestones mortified the poor ladies´ feet. Still, they continued to climb, as if it were a penance, slowly, eyes on the ground, with lowered veil. The morning was filled with a certain bustle: women, men, children, going up, coming down, washer-women and soldiers, a clerk, a shopkeeper, a priest, all looked at them in amazement. Though they were simply dressed, still, there is a certain ladylike air that cannot be concealed, and it was not common there on high. Even the slowness of their gait, compared with the briskness of other people, made on suspect that this was the first time they had come.
A negress said to a sergeant, “Wait and see if they don´t go to the cabocla’s!” And both stopped at a distance, overpowered by that invincible desire to pry into the lives of others, which is often all a man wants here below.
As a matter of fact, the two ladies were covertly looking for the number of the cabocla´s house. Finally, they found it. Like the other houses, it, too, climbed the hillside, and was approached by a little stairway narrow, shadowy, suited to an adventure. They had intended to slip in quickly, but there way was blocked by a couple of men coming out, and they shrank back against the wall of the house.
One fo the men asked them in a familiar manner if they were going to consult the fortuneteller. “You are wasting your time”, he added furiously, “you will only hear a lot of nonsense”.
“It´s a big lie”, the other mand said with a laugh. “The cabocla knows very well what he is up to”.
They hesitated a moment. Then they decided that the first man´s remark was a sure sign of the clairvoyance of the fortuneteller; not all could have the same happy lot. But the lot of Natividade´s babies might be wretched, and then… While they paused in thought, a postman came by, and this made them go up the steps more quickly, to escape further curious glances. They had faith, but they also had a fear of public opinion, like a devote man who blesses himself in secret.
An old caboclo, the father of the fortuneteller, showed them into the parlor. It was a simple room: bare walls, nothing to suggest mystery or inspire fear, no symbolic gear, neither stuffed creature nor skeleton, or picture of mosntrosities. A copy of the Dogma of the Imaculate Conception, stuck up on the wall, might suggest a mystery, even in its grimy, frayed condition – but it did not inspire fear. There was a little guitar lying on a chair.
“My daughther is coming”, said the old man. “What are Natividade gave only her Christian name Maria, as a veil still thicker than the one she wore over her face, and received a card – the appointment was for but one – with the number I, 012. There is no need to be astonished at the figure, the patronage was heavy and went back for many months. Neither is it necessary to comment on the custom, which is ancient. Reread Aechylus, my friend, reread The Eumenides, there you will find the Pythia calling those who came to consult the oracle: “If there are Hellenes present, come, approach in the customary way, in the order appointed by lot…”By lot in the old days, by numbers now; the main thing is that truth conform to priority and that no one lose his turn for an audience. Natividade put away the ticket, and the two women went to the window.
To tell the truth, they were a little fearful. Perpetua less so than Natividade. The adventure seemed bold, and possibly dangerous. I won’t describe their looks and gestures. You can imagine, they were uneasy and restless. Neither said a word. Natividade later confessed she had a lump in her throat. Happily, the cabocla did nor keep them waiting. At the end of three or four minutes, her father led her in by the hand, raising the curtain at the back of the room.
“Enter, Barbara.”
Barbara entered, while her father picked up the guitar and went out to the stone landing thought a door to the left. She was a light little thing, her skirt bordered with lace, a tiny slipper on her foot you could not deny she had an airy, elegant figure. Her hair caught up on the top of her head with a bit of crumpled ribbon made a natural zucchetto, whose tassle was supplied by a sprig of white rue. Here we have a touch of the priestess. The mystery was in her eyes. They were opaque. Yet not completely so, nor so much so that they were nor sometimes clear and sharps, and then they were also intense – so intense, so sharp that they entered deep inside a person, rummaged in his heart, and returned, ready to do it all over again. I do not exaggerate when I say that the two women felt a kind of fascination. Barbara questioned them. Natividade told why she had come, and handed her son’s pictures and loks of their hair, since, she said she had been told this would be all that was necessary.
“It is”, Barbara assured her “The babies are your sons?”
“Yes”.
“The face of one is the face of the other.”
“They are twins. They were born a little over a year ago.”
“You may sit down, ladies.”
Natividade said to her sister in a low voice that the cabocla was “friendlier”. Not in such a low voice, however, that the cabocla could not hear. Perhaps Natividade feared the prophecy and wanted to make sure of a favorable destiny for her sons. The cabocla went and sat down at a round table in the center of the room, and facing the two women. She placed the locks of hair and the pictures before her. By turns she looked at these and at the mother, asked the latter several questions, then remained staring at the pictures and the locks of hair, her lips parted, her brows drawn together. It pains to say that she lit a cigarette, but I must say it, because it is the truth, and the smoke accords with the rites. Outside, her father drew his fingers across the guitar and softly sang a ballad of the tropic Northern Wilderness:
Naiad with skirts of white…
Over the stream with a leap…

While the smoke from the cigarette curled upward, the face of the fortuneteller changed expression radiant, somber, now questioning, now full of answers. As she leaned over the pictures, she clasped the locks of hair in either hand, and held them to her face, staring at them, smiling them, listening to them. And none of this seemed strange or ridiculous, as it does in the telling.

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Fonte: ASSIS, Machado de. Esau and Jacob. Translated by Helen Caldwell. London: Peter Owen, 1966. p. 5-10





Bio fornecida pelo palestrante.

LIÇÃO DE BOTANICA




Autor: Machado de Assis
Título: LIÇÃO  DE BOTANICA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

De LIÇÃO  DE BOT?NICA

 
 

Machado de Assis

 
 
PESSOAS
D. HELENA
D. LEONOR
D. CEC?LIA
BAR?O SEGISMUNDO DE KERNOBERG
Lugar da cena: Andara?
 

ATO ?NICO

Sala em casa de D. LEONOR. Portas ao fundo, uma ? direita do espectador.
 

CENA PRIMEIRA

D. LEONOR, D. HELENA, D. CEC?LIA
 
(D LEONOR entra, lendo uma carta, D. HELENA e D. CEC?LIA entram do fundo.)
D. HEL. J? de volta!
D. CEC. (a D. HELENA, depois de um sil?ncio). Ser? alguma carta de namoro?
D. HEL. (baixo). Crian?a!
D. LEO. N?o me explicar?o isto?
D. HEL. Que ??
D. LEO. Recebi ao descer do carro este bilhete: ?Minha senhora. Permita que o mais respeitoso vizinho lhe pe?a dez minutos de aten??o. Vai nisto um grande interesse da ci?ncia?. Que tenho eu com a ci?ncia?
D. HEL. Mas de quem ? a carta?
D. LEO. Do Bar?o Segismundo de Kernoberg.
D. CEC. Ah! o tio de Henrique!
D. LEO. De Henrique! Que familiaridade ? essa?
D. CEC. Titia, eu…
D. LEO. Eu qu??… Henrique!
D. HEL. Foi uma maneira de falar na aus?ncia. Com que ent?o o Sr. Bar?o Segismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de aten??o, em nome e por amor da ci?ncia. Da parte de um bot?nico ? por for?a alguma ?gloga.
D. LEO. Seja o que for, n?o sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos. J? o viram alguma vez?
D. CEC. Eu nunca.
D. HEL. Nem eu.
D. LEO. Bot?nico e sueco: duas raz?es para ser gravemente aborrecido. Nada, n?o estou em casa.
D. CEC. Mas quem sabe, titia, se ele quer pedir-lhe… sim… um exame no nosso jardim?
D. LEO. H? por todo esse Andara? muito jardim para examinar.
D. HEL. N?o, senhora, h? de receb?-lo.
D. LEO. Por qu??
D. HEL. Porque ? nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, enfim, porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distinto.
D. LEO. N?o me lembrava do sobrinho. V? l?; aturemos o bot?nico. (Sai pela porta do fundo, ? esquerda).
 

CENA II

D. HELENA, D. CEC?LIA
 
D. HEL. N?o me agradeces?
D. CEC. O qu??
D. HEL. Sonsa! Pois n?o adivinhas o que vem c? fazer o bar?o?
D. CEC. N?o.
D. HEL. Vem pedir a tua m?o para o sobrinho.
D. CEC. Helena!
D. HEL. (imitando-a). Helena!
D. CEC. Juro…
D. HEL. Que o n?o amas.
D. CEC. N?o ? isso.
D. HEL. Que o amas?
D. CEC. Tamb?m n?o.
D. HEL. Mau! Alguma cousa h? de ser. Il faut qu’une porte soit ouverte ou ferm?e. Porta neste caso ? cora??o. O teu cora??o h? de estar fechado ou aberto…
D CEC. Perdi a chave.
D HEL. (rindo). E n?o o podes fechar outra vez. S?o assim todos os cora??es ao p? de todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do lugar. N?o escolheste mal, n?o; ? um bonito rapaz.
D. CEC. Oh! uns olhos!
D. HEL. Azuis.
D. CEC. Como o c?u.
D. HEL. Louro…
D. CEC. Elegante…
D. HEL. Espirituoso…
D. CEC. E bom.
D. HEL. Uma p?rola… (Suspira) Ah!
D. CEC. Suspiras?
D HEL. Que h? de fazer uma vi?va, falando… de uma p?rola?
D CEC. Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.
D. HEL. N?o tenho, n?o; meu cora??o j? n?o quer j?ias.
D. CEC. Mas as j?ias querem o teu cora??o.
D. HEL. Tanto pior para elas: h?o de ficar em casa do joalheiro.
D. CEC. Veremos isso. (Sobe) Ah!
D. HEL. Que ??
D. CEC. (olhando para a direita). Um homem desconhecido que l? vem; h? de ser o bar?o.
D. HEL. Vou avisar titia. (Sai pelo fundo, esquerda).

CENA III

D. CEC?LIA, BAR?O
 
D. CEC. Ser? deveras ele? Estou tr?mula… Henrique n?o me avisou de nada…
Vir? pedir-me?… Mas n?o, n?o, n?o pode ser ele… T?o mo?o!… (O BAR?O
aparece).
BAR?O (? porta, depois de profunda cortesia). Creio que a Excelent?ssima Senhora D. Leonor Gouveia recebeu uma carta. . . Vim sem esperar a resposta.
D. CEC. ? o Sr. Bar?o Segismundo de Kernoberg? (O BAR?O faz um gesto afirrnativo) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (? parte) Devo estar vermelha…
BAR?O (? parte, olhando para CEC?LIA). H? de ser esta.
D. CEC. (? parte). E titia n?o vem… Que demora!… N?o sei que lhe diga…
estou t?o vexada… (O BAR?O tira um livro da algibeira e folheia-o). Se eu pudesse deix?-lo… ? o que vou fazer. (Sobe).
BAR?O (fechando o livro e erguendo-se). V. Ex.? h? de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; ? obra que vai fazer revolu??o na ci?ncia; nada menos que uma monografia das gram?neas, premiada pela Academia de Estocolmo.
D. CEC. Sim? (? parte) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.
BAR?O. As gram?neas t?m ou n?o t?m perianto? A princ?pio adotou-se a negativa, posteriormente… V. Ex.? talvez n?o conhe?a o que ? o perianto…
D. CEC. N?o, senhor.
BAR?O. Perianto comp?e-se de duas palavras gregas: peri, em volta, e anthos, flor.
D. CEC. O inv?lucro da flor.
BAR?O. Acertou. ? o que vulgarmente se chama c?lice. Pois as gram?neas eram tidas… (Aparece D. LEONOR ao fundo) Ah!
 

CENA IV

OS MESMOS, D. LEONOR
 
D. LEO. Desejava falar-me?
BAR?O. Se me d? essa honra. Vim sem esperar resposta ? minha carta. Dez minutos apenas.
D. LEO. Estou ?s suas ordens.
D. CEC. Com licen?a. (? parte, olhando para o c?u). Ah! minha Nossa Senhora!
(Retira-se pelo fundo).
CENA V
D. LEONOR, BAR?O
(D. LEONOR senta-se, fazendo um gesto ao BAR?O, que a imita).
BAR?O. Sou o Bar?o Segismundo de Kernoberg, seu vizinho, bot?nico de voca??o, profiss?o e tradi??o, membro da Academia de Estocolmo, e comissionado pelo governo da Su?cia para estudar a flora da Am?rica do Sul. V. Ex?. dispensa a minha biografia? (D. LEONOR faz um gesto afirmativo) Direi somente que o tio de meu tio foi bot?nico, meu tio bot?nico, eu bot?nico, e meu sobrinho h? de ser bot?nico. Todos somos bot?nicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.
D. LEO. Oh! o meu jardim ? composto de plantas vulgares.
BAR?O (gracioso). ? porque as melhores flores da casa est?o dentro de casa. Mas V. Ex?. engana-se; n?o venho pedir nada do seu jardim.
D. LEO. Ah!
BAR?O. Venho pedir-lhe uma cousa que lhe h? de parecer singular.
D. LEO. Fale.
BARRO. O padre desposa a igreja; eu desposei a ci?ncia. Saber ? o meu estado conjugal; os livros s?o a minha fam?lia. Numa palavra, fiz voto de celibato.
D. LEO. N?o se case.
BAR?O. Justamente. Mas, V. Ex?. compreende que, sendo para mim ponto de f? que a ci?ncia n?o se d? bem com o matrim?nio, nem eu devo casar, nem… V. Ex?. j? percebeu.
D. LEO. Cousa nenhuma.
BAR?O. Meu sobrinho Henrique anda estudando comigo os elementos da bot?nica. Tem
talento, h? de vir a ser um luminar da ci?ncia. Se o casamos, est? perdido.
D. LEO. Mas…
BAR?O (? parte). N?o entendeu. (Alto) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, h? pouco. Impus-lhe que n?o voltasse a esta casa; ele resistiu-me. S? me resta um meio: ? que V. Ex.? lhe feche a porta.
D. LEO. Senhor Bar?o!
BAR?O. Admira-se do pedido? Creio que n?o ? polido nem conveniente. Mas ? necess?rio, minha senhora, ? indispens?vel. A ci?ncia precisa de mais um obreiro: n?o o encadeemos no matrim?nio.
D. LEO. N?o sei se devo sorrir do pedido…
BAR?O. Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Ter? os meus agradecimentos e as b?n??os da posteridade.
D. LEONOR (sorrindo). N?o ? preciso tanto; posso fech?-la de gra?a.
BAR?O. Justo. O verdadeiro benef?cio ? gratuito.
D. LEO. Antes, por?m, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar outra. (O BAR?O curva-se) Direi primeiramente que ignoro se h? tal paix?o da parte de seu sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Su?cia estes pedidos s?o usuais.
BAR?O. Na geografia intelectual n?o h? Su?cia nem Brasil; os pa?ses s?o outros: astronomia, geologia, matem?ticas; na bot?nica s?o obrigat?rios.
D. LEO. Todavia, ? for?a de andar com flores… deviam os bot?nicos traz?-las consigo.
BAR?O. Ficam no gabinete.
D. LEO. Trazem os espinhos somente.
BAR?O. V. Ex?. tem esp?rito. Compreendo a afei??o de Henrique a esta casa.
(Levanta-se) Promete-me ent?o…
D. LEO. (levantando-se). Que faria no meu caso?
BAR?O. Recusava.
D. LEO. Com preju?zo da ci?ncia?
BAR?O. N?o, porque nesse caso a ci?ncia mudaria de acampamento, isto ?, o vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.
D. LEO. N?o lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar um pedido ineficaz?
BAR?O. Quis primeiro tentar fortuna.
 

CENA VI

D. LEONOR, BAR?O, D. HELENA
 
D. HEL. (entra e p?ra). Ah!
D. LEO. Entra, n?o ? assunto reservado. O Sr. Bar?o de Kernoberg…. (Ao BAR?O)
? minha sobrinha Helena. (A HELENA) Aqui o Sr. Bar?o vem pedir que o n?o perturbemos no estudo da bot?nica. Diz que seu sobrinho Henrique est? destinado a um lugar honroso na ci?ncia, e… conclua, Sr. Bar?o.
BAR?O. N?o conv?m que se case, a ci?ncia exige o celibato.
D. LEO. Ouviste?
D. HEL. N?o compreendo…
BAR?O. Uma paix?o louca de meu sobrinho pode impedir que… Minhas senhoras, n?o desejo roubar-lhes mais tempo …. Confio em V. Ex?., minha senhora…
Ser-lhe-ei eternamente grato. Minhas senhoras. (Faz uma grande cortesia e sai).
 

CENA VII

D. HELENA, D. LEONOR
 
D. LEO. (rindo). Que urso!
D. HEL. Realmente.
D. LEO. Perd?o-lhe em nome da ci?ncia. Fique com as suas ervas, e n?o nos aborre?a mais, nem ele nem o sobrinho.
D. HEL. Nem o sobrinho?
D. LEO. Nem o sobrinho, nem o criado, nem o c?o, se o houver, nem cousa nenhuma que tenha rela??o com a ci?ncia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Cec?lia h? tal ou qual namoro?
D. HEL. Se promete segredo… h?.
D. LEO. Pois acabe-se o namoro.
D. HEL. N?o ? f?cil. O Henrique ? um perfeito cavalheiro; ambos s?o dignos um do outro. Por que raz?o impediremos que dous cora??es…
D. LEO. N?o sei de cora??es, n?o h?o de faltar casamentos a Cec?lia.
D. HEL. Certamente que n?o, mas os casamentos n?o se improvisam nem se projetam na cabe?a; s?o atos do cora??o, que a Igreja santifica. Tentemos uma cousa.
D. LEO. Que ??
D HEL Reconciliemo-nos com o Bar?o.
D LEO. Nada, nada.
D. HEL. Pobre Cec?lia!
D. LEO. ? ter paci?ncia, sujeite-se ?s circunstancias… (A D. CEC?LIA que entra). Ouviste?
D. CEC. O que, titia?
D. LEO. Helena te explicar? tudo. (A D. HELENA, baixo) Tira-lhe todas as esperan?as. (Indo-se) Que urso! que urso!
 
_____
 
 
Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. De ?Li??o de Bot?nica?. In: Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.





Bio fornecida pelo palestrante.

Memórias póstumas de Brás Cubas




Autor: Machado de Assis
Título: Mem?rias p?stumas de Br?s Cubas, Epitaph of a small Sinner
Idiomas: port, eng
Tradutor:
Data: 29/12/2004

THE DEATH OF THE AUTHOR

from Epitaph of a Small Sinner

Machado de Assis

 

I hesitated some time, not knowing whether to open these memoirs at the beginning or at the end, i. e., whether to start with my birth or with my death. Granted, the usual practice is to begin with one’s birth, but two considerations led me to adopt a different method: the first is that, properly speaking, I am a deceased writer not in the sense of one who has written and is now deceased, but in the sense of one who has died and is now writing, a writer for whom the grave was really a new cradle; the second is that the book would thus gain in merriment and novelty. Moses, who also related his own death, placed it not at the beginning but at the end: a radical difference between this book and the Pentateuch.

Accordingly: I expired at two o’clock of a Friday afternoon in the month of August, 1869, at my lovely suburban home in Catumby. I was sixty-four, sturdy, prosperous, and single, was worth about three hundred contos, and was accompanied to the cemetery by eleven friends. Only eleven! True, there had been no invitations and no notices in the newspapers. Moreover, there was a fine drizzle, steady and sad, so steady and so sad, in fact, that it led one of those faithful friends of my last hour to work this ingenious thought into the discourse that he offered at the edge of my grave: “You who knew him may well affirm with me that Nature herself appears to be weeping her lamentation over her irreparable loss, one of the most beautiful characters that ever honored humanity by his presence in our poor world. This sombre air, these drops from heaven, those dark clouds covering the blue like a crepe of mourning, all manifest the harsh and cruel grief that gnaws at her deepest entrails and the praise that heaven itself bestows upon our great and dear departed.” Good and faithful friend! I shall never regret the legacy of twenty government bonds that I left him.

And thus I arrived at the end of my days; thus I started on the road to Hamlet’s “undiscovered country”, with neither the anxiety nor the doubts of the young prince, but slow and halting, like a person who has lingered in the theatre long after the end of the performance. Tardy and jaded. Some nine or tem people saw me go, among them three ladies: my sister Sabina, who was married to Cotrim; her daughter, a real lily of the valley; and… Have patience! In a little while I shall reveal the identity of the third lady. Be content for the moment to know that this anonymous lady, although not a relative of mine, suffered more than the relatives. You must believe me: she really suffered more. I do not say that she tore her hair, nor that she rolled on the floor in convulsions. For there was nothing dramatic about my passing. The death of a bachelor at the age of sixty-four does not take on the proportions of high tragedy. And even if it did, nothing could have been more improper than that this anonymous lady display the intensity of her sorrow. Standing at the head of the bed, eyes glazed and mouth half open, she could hardly believe I had gone.

“Dead! Dead!” she repeated to herself.

And her imagination — like the storks that a famous traveler saw setting out in flight from the Ilissus to the African shores, heedless of the time and of the ruins — her imagination flew above the desolation of the moment to the shores of an ever youthful Africa.

Let her go; we shall go there later. We shall go there when I return to my early years. At present, I wish to die calmly, methodically, hearing the sobs of the ladies, the soft words of the men, the rain drumming on the taro leaves, and the piercing noise of a razor being sharpened by a knife-grinder outside in front of the door of a leather craftsman. I assure you that the music of this orchestra of death was much less sad than my appear. After a certain time, it was actually pleasurable. Life was shaking my body with the force of a great wave, my consciousness was fading away, I was descending to a physical and mental state of utter immobility, and my body was becoming a plant, a stone, clay, nothing at all.

I died of pneumonia; but, if I were to tell the reader that the cause of my death was less the pneumonia than a great and useful idea, possibly he would not believe me, yet it would be true. I am going to explain the matter to him briefly. Let him judge for himself.

The Delirium

So far as I know, no one has yet related his own delirium. I shall do it, and science will be grateful to me. If the reader has no taste for the contemplation of psychological phenomena, he may skip the chapter; let him go straight to the story part of the book. But, however lacking he may be in curiosity, I should like him to know that what occurred in my head during this period of twenty or thirty minutes is extremely interesting.

First, I took the form of a Chinese barber, rotund and skilful, shaving a mandarin, who paid me for my work with candy and pinches — mandarin whimsicality.

Soon after, I felt myself being transformed into St. Thomas’ Summa Theologica, printed in one volume and bound in morocco with engravings and a silver lock — an idea that gave my body the most rigid immobility; and I still remember that, as my hands were the two overlapping parts that locked, I crossed them on my chest, and someone (Virgilia, doubtless) uncrossed them because they gave me the appearance of a corpse.

Finally, back in human form, I saw a hippopotamus approach. He carried me off. I remained silent and did not resist, whether through fear or because of confidence in him I do not know; but, within a short time, we were proceeding at such a dizzy speed that I ventured to speak to him, and tactfully remarked that the trip seemed to me to have no preconceived destination.

“You are mistaken,” replied the animal; “we are going to the beginning of the ages.”

I insinuated that it must be very far off; but the hippopotamus did not hear me or did not understand me, unless he was merely feigning one or the other. As he apparently could talk, I asked him whether he was a descendant of Achilles’ horse or of Balaam’s ass, and he replied with a gesture common to quadrupeds of both species: he wiggled his ears. For my part, I closed my eyes, relaxed, and abandoned myself to fate. I am not ashamed to confess that I felt a certain itch of curiosity to know just where the beginning of the ages was, whether it was as mysterious as the origin of the Nile, and above all whether it was more important or less important than the end of the ages: reflections of a sick brain. As I kept my eyes closed, I did not see the road. I remember only that the feeling of cold continually increased in intensity, and that after a time it seemed to me that we were entering the region of eternal glaciers. I opened my eyes and saw that my animal was galloping across a plain white with snow, with snow mountains here and there, snow vegetation, and various big snow animals. Everything of snow; we were even frozen by a sun of snow. I tried to speak, but could only grunt anxiously, “Where are we?”

“We have gone beyond the Garden of Eden.”

“I see. Let’s stop at the tent of Abraham.”

“How can we if we are traveling towards the past!” derisively replied my mount.

I became annoyed and a little dizzy. The journey began to seem tiresome and absurd, the cold uncomfortable, the method of transportation violent, and the result uncertain. And afterwards — a sick man’s thoughts — even if we arrived at the stated destination, maybe the ages, irritated by the trespass upon their origin, would crush me between their nails, which must be as frightfully old as the ages themselves. While I was thinking about these things, we were eating up the road, and the plain was flying beneath our feet, until the animal suddenly stopped and I was able to look more calmly about me. To look only; I saw nothing but the immense whiteness of the snow, which by now had even invaded the sky. Perhaps I saw an occasional plant, enormous, brutish, its broad leaves swaying in the wind. The silence of this region was like that of the tomb: one might have said that the life in things had become stupefied in the presence of man.

Did it fall from the air? Did it rise from the earth? I do not know. I know only that an immense shape, the figure of a woman, then appeared before me, with its eyes, shining like the sun, fixed upon me. Everything about this figure had the vastness of the primeval; it was indeed all too much for human perception, for its contours were lost in the surroundings, and what appeared at first to be dense turned out, in many cases, to be diaphanous. Stupefied, I said nothing, I did not even cry out; but, after a short time, I asked who she was and what she was called — curiosity born of delirium.

“They call me Nature or Pandora. I am your mother and your enemy.”

On hearing this last word, I drew back in fear. The figure loosed a fierce laugh, which produced about us the effects of a whirlwind; the plants were contorted, and a long wail broke the silence of the surroundings.

“Do not be afraid,” she said, “my enmity does not kill; it is through life that it affirms itself. You are alive: I wish you no other calamity.”

“Am I alive?” I asked, digging my nails into my hands as if to make certain.

“Yes, worm, you are alive. You have not yet lost that tattered cloak of which you are so proud; you will taste for a few hours more the bread of pain and the wine of misery. You are alive; even though you have gone mad, you are alive; and, if your consciousness regains a moment of lucidity, you will say that you want to live.”

As she said this, the vision extended one of her arms and lifted me into the air as if I had been a feather. Then for the first time I could see her enormous face close up. Nothing more pacific in the world; no violent contortion; no suggestion of hate or ferocity. Its sole, all-pervasive expression was that of eternal isolation, of changeless will, of the impassivity of complete egoism. Wrath, if she experienced it, remained suppressed in her heart. At the same time, in this face with its glacial expression there was an air of youth, a combination of energy and freshness before which I felt like the weakest and most decrepit of beings.

“Do you understand me?” she said, after a period of mutual contemplation.

“No,” I replied, “nor do I wish to understand you. You are an absurdity, a fable. I am surely dreaming, or, if in truth I have gone mad, you are nothing but a psychopath’s figment, a vain and empty thing, which reason, being absent, cannot govern. You, Nature? The Nature that I know is mother only and not enemy. She does not make of life a scourge nor does she wear such a face, indifferent as the tomb. And why Pandora?”

“Because I carry in my bag all good things and all evils, and the most remarkable of all, hope, man’s consolation. Are you trembling?”

“Yes. The way you look at me…”

“I know; for I am not only life, I am also death, and you are soon to give me back what I loaned you. Come, my great lecher, the voluptuousness of extinction awaits you.”

When these words had reechoed like thunder in that vast emptiness, I thought that it would be the last sound ever to come to my ears; of a sudden I felt as if I were being decomposed. Then I looked at her with suppliant eyes and begged a few more years.

“A few years would seem like a minute!” she exclaimed. “Why do you want to live longer? To continue to devour and be devoured? Are you not sated with the show and the struggle? You have experienced again and again the least vile and least painful of my gifts: the brightness of morning, the gentle melancholy of dusk, the quietness of night, the face of the earth, and, last of all, sleep, my greatest gift to man. Poor idiot, what more do you wish?”

“Just to live, I ask nothing more. Was it not you who gave me life and placed in my heart the love of life? Then why should you do yourself injury by killing me?”

“Because I have no more need of you. Time finds interest not in the minute that is already passing, but only in the minute that is about to come. The new-born minute is strong, merry, thinks that it carries eternity in its bosom; it brings only death, and perishes like its predecessors. But I do not perish. Egoism, you say? Yes, egoism; I have no other law. Egoism, self-preservation. The tiger kills the lamb because the tiger’s philosophy is that, above all, it must live, and if the lamb is tender so much the better; this is the universal law. Come, see for yourself.”

As she said this, she snatched me up and lifted me to the summit of a mountain. I looked down and, far off through a mist, contemplated for considerable time a curious thing. Just imagine, reader, a procession of all the ages, with all the human races, all the passions, the tumult of empires, the war of appetite against appetite and of hate against hate, the reciprocal destruction of human beings and their surroundings. This was the monstrous spectacle that I saw. The history of man and of the earth had thus an intensity that neither science nor the imagination could give it, for science is too slow and imagination too vague, whereas what I saw was the living condensation of history. To describe it one would have to make the lightning stand still. The ages moved along in a whirlwind, but nevertheless, because the eyes of delirium have a virtue of their own, I was able to distinguish everything that passed before me, afflictions and joys, glory and misery, and I saw love augmenting misery, and misery aggravating human debility. Along came voracious greed, fiery anger, drooling envy, and the hoe and the pen, both wet with sweat, and ambition, hunger, vanity, melancholy, affluence, love, and all of them were shaking man like a baby’s rattle until they transformed him into something not unlike an old rag. They were the several forms of a single malady, which would attack now the viscera, now the psyche, and would dance eternally, in its harlequin trappings, around the human species. Pain would give way to indifference, which was a dreamless sleep, or to pleasure, which was a bastard pain. Then man, whipped and rebellious, ran beyond the fatality of things in pursuit of a nebulous and elusive figure made of patches — a patch of the intangible, another of the improbable, another of the invisible — all loosely sewn together with the needle of imagination; and this figure, nothing less than the chimera of happiness, either eluded them or let them hang on to its skirt, and man would hug the skirt to his breast, and then the figure would laugh in mockery and would disappear.

Upon seeing such misfortune, I could not repress a cry of anguish, which Nature, or Pandora, heard with neither protest nor ridicule; and — I do not know by what psychological law of inversion — it was I who began to laugh, with a laughter immoderate and idiotic.

“You are right,” I said, “the thing is amusing and worth seeing; a bit monotonous, perhaps, but worth seeing. When Job cursed the day he had been born, it was for want of seeing the show from up here. All right, Pandora, open your belly and devour me; the thing is amusing, but devour me.”

Her reply was to force me to look down and to see the ages continuing to go by, fast and turbulent; generation upon generation, some sad like the Hebrews of the captivity, some merry like the libertines of Commodus’s reign, and all arriving punctually at the grave. I wanted to flee, but a mysterious force paralyzed my legs. Then I said to myself, “If the centuries are going by, mine will come too, and will pass, and after a time the last century of all will come, and then I shall understand.” And I fixed my eyes on the ages that were coming and passing on; now I was calm and resolute, maybe even happy. Each age brought its share of light and shade, of apathy and struggle, of truth and error, and its parade of systems, of new ideas, of new illusions; in each of them the verdure of spring burst forth, grew yellow with age, and then, young once more, burst forth again. While life thus moved with the regularity of a calendar, history and civilization developed; and man, at first naked and unarmed, clothed and armed himself, built hut and palace, villages and hundred-gated Thebes, created science that scrutinizes and art that elevates, made himself an orator, a mechanic, a philosopher, ran all over the face of the globe, went down into the earth and up to the clouds, performing the mysterious work through which he satisfied the necessities of life and tried to forget his loneliness. My tired eyes finally saw the present age go by end, after it, future ages. The present age, as it approached, was agile, skilful, vibrant, proud, a little verbose, audacious, learned, but in the end it was as miserable as the earlier ones. And so it passed, and so passed the others, with the same speed and monotony. I redoubled my attention; I stared with all my might; I was going at last to see the end — the end! — but then the speed of the parade increased beyond the speed of lightning, beyond all comprehension. Perhaps for this reason, objects began to change; some grew, some shrank, others were lost in the surroundings; a mist covered everything — except the hippopotamus who had brought me there, and he began to grow smaller, smaller, smaller, until he became the size of a cat. Indeed, it was a cat. I looked at it carefully; it was my cat Sultan, playing at the door of the bedroom with a paper ball…

ÓBITO DO AMOR

de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

Algum tempo hesitei se devia abrir esta memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introdutório, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava — uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: – “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isto é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.”

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, — a filha, um lírio do vale, — e… Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentes. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática… Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúne em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.

– Morto! morto! dizia consigo.

E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vão desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, — a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil… Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor não me creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.

O Delírio

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos; caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de S. Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fecho de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

— Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos.

Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me intendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Baleão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o animal galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:

— Onde estamos?

— Já passamos o Éden.

— Bem; paremos na tenda de Abraão.

— Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois — cogitações de enfermo — dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o Sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.

— Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.

— Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo.

— Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

— Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

— Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

— Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

— Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

— Sim; o teu olhar fascina-me.

— Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

— Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

— Viver somente, não te peço mais nada. Que me pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, — flagelos e delícias, — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.

— Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.

A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Comodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: – “Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade.” E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel…

BIBLIOGRAFIA:

ASSIS, Machado de. Epitaph of a small winner. Translated from the Portuguese by William L. Grossman. New York: Noonday Press, 1952. p. 19-21, 30-36.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: O Globo/Klick Editora, 1997. p. 17-18, 26-33.





Bio fornecida pelo palestrante.

MISSA DO GALO




Autor: Machado de Assis
Título: MISSA DO GALO
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

MISSA DO GALO

 

Machado de Assis

Nunca pude entender a conversa??o que tive com uma senhora, h? muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos ? missa do galo, preferi n?o dormir; combinei que eu eria acord?-lo ? meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escriv?o Meneses, que fora casado, em primeiras n?pcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Concei??o, e a m?e desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparat?rios. Vivia tranq?ilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas rela??es, alguns passeios. A fam?lia era pequena, o escriv?o, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. ?s dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; ?s dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasi?es, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam ? socapa; ele n?o respondia, vestia-se, sa?a e s? tornava na manh? seguinte. Mais tarde ? que eu soube que o teatro era um eufemismo em a??o. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Concei??o padecera, a princ?pio, com a exist?ncia da combor?a; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Concei??o! Chamavam-lhe ?a santa?, e fazia jus ao t?tulo, t?o facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes l?grimas, nem grandes risos. No cap?tulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um har?m, com as apar?ncias salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O pr?prio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simp?tica. N?o dizia mal de ningu?m, perdoava tudo. N?o sabia odiar; pode ser at? que n?o soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escriv?o ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu j? devia estar em Mangaratiba, em f?rias; mas fiquei at? o Natal para ver ?a missa do galo na Corte?. A fam?lia recolheu-se ? hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ningu?m. Tinha tr?s chaves a porta; uma estava com o escriv?o, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
? Mas, Sr. Nogueira, que far? voc? todo esse tempo? perguntou-me a m?e de Concei??o.
? Leio, D. In?cia.
Tinha comigo um romance, Os Tr?s Mosqueteiros, velha tradu??o creio do Jornal do Com?rcio. Sentei-me ? mesa que havia no centro da sala, e ? luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me ?s aventuras. Dentro em pouco estava completamente ?brio de Dumas. Os minutos voavam, ao contr?rio do que costumam fazer, quando s?o de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas ? de jantar; levantei a cabe?a; logo depois vi assomar ? porta da sala o vulto de Concei??o.
? Ainda n?o foi? perguntou ela.
? N?o fui, parece que ainda n?o ? meia-noite.
? Que paci?ncia!
Concei??o entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roup?o branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de vis?o rom?ntica, n?o disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canap?. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
? N?o! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos n?o eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam n?o ter ainda pegado no sono. Essa observa??o, por?m, que valeria alguma cousa em outro esp?rito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez n?o dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me n?o afligir ou aborrecer J? disse que ela era boa, muito boa.
? Mas a hora j? h? de estar pr?xima, disse eu.
? Que paci?ncia a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! N?o tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
? Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.
? Que ? que estava lendo? N?o diga, j? sei, ? o romance dos Mosqueteiros.
? Justamente: ? muito bonito.
? Gosta de romances?
? Gosto.
? J? leu a Moreninha?
? Do Dr. Macedo? Tenho l? em Mangaratiba.
? Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances ? que voc? tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Concei??o ouvia-me com a cabe?a reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as p?lpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a l?ngua pelos bei?os, para umedec?-los. Quando acabei de falar, n?o me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabe?a, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos bra?os da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
?Talvez esteja aborrecida?, pensei eu.
E logo alto:
? D. Concei??o, creio que v?o sendo horas, e eu…
? N?o, n?o, ainda ? cedo. Vi agora mesmo o rel?gio, s?o onze e meia. Tem tempo. Voc?, perdendo a noite, ? capaz de n?o dormir de dia?
? J? tenho feito isso.
? Eu, n?o, perdendo uma noite, no outro dia estou que n?o posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas tamb?m estou ficando velha.
? Que velha o qu?, D. Concei??o?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranq?ilas; agora, por?m, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impress?o singular. Magra embora, tinha n?o sei que balan?o no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa fei??o nunca me pareceu t?o distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posi??o de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o c?rculo das suas id?ias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto ?, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e n?o queria perd?-la.
? ? a mesma missa da ro?a; todas as missas se parecem.
? Acredito; mas aqui h? de haver mais luxo e mais gente tamb?m. Olhe, a semana santa na Corte ? mais bonita que na ro?a. S. Jo?o n?o digo, nem Santo Ant?nio…
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no m?rmore da mesa e metera o rosto entre as m?os espalmadas. N?o estando abotoadas as mangas, ca?ram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos bra?os, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista n?o era nova para mim, posto tamb?m n?o fosse comum; naquele momento, por?m, a impress?o que tive foi grande. As veias eram t?o azuis, que apesar da pouca claridade, podia, cont?-las do meu lugar. A presen?a de Concei??o espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da ro?a e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo ? boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para faz?-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela n?o eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
? Mais baixo! mam?e pode acordar.
E n?o sa?a daquela posi??o, que me enchia de gosto, t?o perto ficavam as nossas caras. Realmente, n?o era preciso falar alto para ser ouvido: cochich?vamos os dous, eu mais que ela, porque falava mais; ela, ?s vezes, ficava s?ria, muito s?ria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta ? mesa e veio sentar-se do meu lado, no canap?. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi s? o tempo que ela gastou em sentar-se, o roup?o era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Concei??o disse baixinho:
? Mam?e est? longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, t?o cedo n?o pegava no sono.
? Eu tamb?m sou assim.
? O qu?? ? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canap? e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincid?ncia; tamb?m ela tinha o sono leve; ?ramos tr?s sonos leves.
? H? ocasi?es em que sou como mam?e, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, ? toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
? Foi o que lhe aconteceu hoje.
?  N?o, n?o, ? atalhou ela.
N?o entendi a negativa; ela pode ser que tamb?m n?o a entendesse Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto ?, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma hist?ria de sonhos, e afirmou-me que s? tivera um pesadelo, em crian?a. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa Quando eu acabava uma narra??o ou uma explica??o, ela inventava outra pergunta ou outra mat?ria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
? Mais baixo, mais baixo.
Havia tamb?m umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, n?o sei se apressada ou vagarosamente. H? impress?es dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas ? que em certa ocasi?o, ela, que era apenas simp?tica, ficou linda, ficou lind?ssima. Estava de p?, os bra?os cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; n?o consentiu, p?s uma das m?os no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canap?, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
? Estes quadros est?o ficando velhos. J? pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal neg?cio deste homem. Um representava ?Cle?patra?; n?o me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo n?o me pareciam feios.
? S?o bonitos, disse eu.
? Bonitos s?o; mas est?o manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas s?o mais pr?prias para sala de rapaz ou de barbeiro.
? De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
? Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de mo?as e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de fam?lia ? que n?o acho pr?prio. ? o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, n?o gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Concei??o, minha madrinha, muito bonita; mas ? de escultura, n?o se pode p?r na parede, nem eu quero. Est? no meu orat?rio.
A id?ia do orat?rio trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis diz?-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com do?ura, com gra?a, com tal moleza que trazia pregui?a ? minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devo??es de menina e mo?a. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminisc?ncias de Paquet?, tudo de mistura, quase sem interrup??o. Quando cansou do passado, falou do presente, dos neg?cios da casa, das canseiras de fam?lia, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas n?o eram nada. N?o me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
J? agora n?o trocava de lugar, como a princ?pio, e quase n?o sa?ra da mesma atitude. N?o tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar ? toa para as paredes.
? Precisamos mudar o papel da sala, disse da? a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da esp?cie de sono magn?tico, ou o que quer que era que me tolhia a l?ngua e os sentidos. Queria e n?o queria acabar a conversa??o; fazia esfor?o para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a id?ia de parecer que era aborrecimento, quando n?o era, levava-me os olhos outra vez para Concei??o. A conversa ia morrendo. Na rua, o sil?ncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, ? n?o posso dizer quanto, ? inteiramente calados. O rumor ?nico e escasso era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela esp?cie de sonol?ncia; quis falar dele, mas n?o achei modo. Concei??o parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: ?Missa do galo! missa do galo!?
? A? est? o companheiro, ? disse ela, levantando-se. ? Tem gra?a; voc? ? que ficou de ir acord?-lo, ele ? que vem acordar voc?. V?, que h?o de ser horas; adeus.
? J? ser?o horas? ? perguntei.
? Naturalmente.
? Missa do galo! ? repetiram de fora, batendo.
? V?, v?, n?o se fa?a esperar. A culpa foi minha. Adeus, at? amanh?.
E com o mesmo balan?o do corpo, Concei??o enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Sa? ? rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Concei??o interp?s-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto ? conta dos meus dezessete anos. Na manh? seguinte, ao almo?o falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Concei??o. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversa??o da v?spera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em mar?o, o escriv?o tinha morrido de apoplexia. Concei??o morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
 
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Fonte: Machado de Assis, J. M. ?Missa do galo?. In: Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2; reimp. de Nupill, N?cleo de Pesquisas em Inform?tica, Literatura e Ling??stica. Apoio CNPq. UFSC / PRPG / Funpesquisa.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Alienista




Autor: Machado de Assis
Título: O Alienista, L?Ali?niste
Idiomas: port, fra
Tradutor: Maryvonne Lapouge(fra)
Data: 29/12/2004

O ALIENISTA

I

De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates

Machado de Assis

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas da preocupação de um sábio, – D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, – explicável mas inqualificável, – devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis”, – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para a gasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe “que estava com desejos”, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, voltando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.
— Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o caminho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, – e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, – porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates.

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Fonte: ASSIS, Machado de. O alienista. Rio de Janeiro, Ediouro, 1996, p. 17-27.

L’ALIÉNISTE

 

1

Où il est raconté comment Itaguaï s’enrichit d’une maison des fous

Machado de Assis

Les chroniques de la petite cité d’Itaguaï rapportent comment, il y a fort longtemps, un certain médecin, du nom de Simon Bacamarte, fils d’un noble du pays et le plus grand parmi les médecins du Brésil, du Portugal et des Espagnes, s’y rendit célèbre. Le jeune homme avait étudié à Coimbra et Padoue. A trente-quatre ans, le roi n’ayant pu obtenir de lui qu’il demeurât soit à Coimbra pour présider aux destinées de l’université, soit à Lisbonne pour y expédier les affaires de la monarchie, il était rentré au Brésil. — Je n’ai d’autre emploi, avait il représenté à Sa Majesté, que la science, et Itaguaï est tout mon univers.
Ce qu’ayant dit, il se retira à Itaguaï et se consaera corps et âme à l’étude, alternant les cures avec les lectures et faisant la preuve des théorèmes avec des cataplasmes. La quarantaine franchie, il épousa Dona Evarista da Costa e mascarenhas, une jeune femme de vingt-cinq ans, veuve d’un juge de district, ni bien jolie ni sympathique. Un oncle de Simon Bacamarte, réputé grand chasseur devant l’Eternel autant que pour son francparler, s’étonna d’un pareil choix et le lui dit. Le neveu répliqua que Dona Evarista reúnissait des conditions psychologiques et anatomiques de premier ordre, elle digérait sans difficulté, dormait sans problème, avait un pouls régulier, une vue excellente : toutes qualités qui faisaient d’elle la femme indiquée pour lui donner des fils robustes, intelligents et sains. Si, en plus de ces dons – seuls dignes de l’intérêt d’un savant – les traits de Dona Evarista laissaient à désirer, loin de le déplorer, il en remerciait le ciel : ainsi serait-il protégé de négliger les impératifs de la science dans la contemplation exclusive, étriquée et vulgaire de son épouse.
Dona Evarista déçut les espérances du docteur Bacamarte, ni fils robustes, ni fils chétifs elle ne lui fit. Le naturel propre à la science est la longanimité : notre médecin attendit trois années, puis quatre, et bientôt cinq. Au bout de quel temps, il se plongea dans l’étude détcuilée du phénomène, relut les auteurs, arabes et autres, ramenés avec lui à Itaguaï, manda le résultat de ses examens et investigations aux universités allimentaire particulier. L’illustre dame, nourrie exclusivement de belle et tendre viande porcine du pays, ne daigna pas davantage répondre aux admonestations de son époux ; de sorte que nous devons à son – explicable, mais inqualifiable – résistance l’extinction définitive des Bacamarte.
Mais la science possède cet ineffable don de guérir toutes les misères ; notre médecin se plongea entièrement dans l’étude et la pratique de la médecine. C’est alors qu’entre toutes les ramées et ramifications de cette discipline, l’une d’elle retint particulièrement son attention – le domaine psychique, l’examen de la pathologie cerébrale. Il n’y avait alors dans toute la Colonie, et jusque dans le Royaume, aucune autorité en semblable matière, mal explorée, ou pratiquement inexplorée. Simon Bacamarte comprit que la science lusitanienne, et la science brésilienne au premier chef, pouvait là se couvrir de «lauriers immarescibles», – telle fut son expression, mais dans un moment d’envolée restreinte à l’intimité domestique ; en société, il était modeste, ainsi qu’il convient à un savant.
— La santé de l’âme, s’exclama-t-il, est la préoccupation la plus digne du médecin.
— Du véritable médecin, corrigea Crispim Soares, l’apothicaire du pays, et l’un de ses amis et commensaux.
Entre autres tares relevées par la chronique, la commune d’Itaguaï avait ce éfaut de ne faire aucun cas des déments. De sorte que les fous furieux étaient verrouillés chacun dans le secret d’une alcôve, à l’intérieur de leur propre maison, jamais ne guérissant, mais dégénérant aussi longtemps que la mort ne ocnait pas leur soutirer le bénéfice de la vie ; quant aux innocents, ils déambulaient à loisir dans le pays. Simon Bacamarte résolut sans plus attendre de réformer une coutume aussi déplorable ; il fit une demande d’autorisation auprès du Conseil municipal pour abriter et traiter dans l’établissement qu’il se proposait de faire construire tous les fous d’Itaguaï et des agglomérations avoisinantes, moyennant une allocation que le Conseil lui verserait lorsque les familles des malades ne seraient pas en condition de le faire. Sa proposition suscita la curiosité de tout le pays, et provoqua une immense résistance, tant il est vrai que les habitudes les plus absurdes, et jusque désastreuses, se laissent difficilement déraciner. L’idée même de rassembler les fous et de les faire vivre sous le même toit fut interprêtée comme un symptôme de démence, et ne manqua pas la langue charitable pour glisser l’insinuation jusqu’auprès de la propre femme du médecin.
— Ecoutez, Dona Evarista, lui dit le Père Lopes, le curé du lieu, vous devriez suggérer à votre mari de faire un petit voyage à Rio de Janeiro. Etudier comme il fait, sans relâche, fatigue le cerveau, ça ne lui vant rien.
Dona Evarista en resta atterée, elle s’ouvrit à son mari, lui dit «qu’elle avait des envies» – celle en particulier d’aller à Rio de Janeiro et de manger tout ce qui lui avait été conseillé à certaine fin. Mais avec la sagacité rare qui le distinguait, le grand homme pénétra la manœuvre de son épouse et lui rétorqua en souriant de ne point s’inquiéter. Sur ce, il courut à la Mairie où les conseillers débattaient sa proposition, et il la défendit avec une telle éloquence qu’une majorité trancha sur le champ en faveur de ce qu’il avait demandé, votant même dans la foulée un impôt destiné à pourvoir à l’entretien, au logement et à la subsistance des malades mentaux sans ressources. Trouver sur quel chapitre lever cette contribution ne fut pas facile. Tout, dans Itaguaï, tombait sous l’impôt. L’accord se fit, après bien des spéculations, pour autoriser l’emploi de deux plumets sur les attelages, lors des enterrements. Qui désirerait emplumer les chevaux tirant le corbillard paierait deux testons à la commune pour chaque heure écoulée entre le décès et la bénédiction ultime audessus de la sépulture. Le greffier s’embrouilla dans ses calculs en voulant chiffrer le rendement éventual de la future taxe ; et l’un des conseillers, qui n’accordait aucun crédit à l’enterprise du médecin, demanda qu’on dispensa le malheureux d’un travail aussi inutile.
— Nous n’avons aucun besoin de claculs, dit-il, car le docteur Bacamarte n’arrivera à rien. A-t-on jamais vu rassembler tous les fous sous un même toit ?
Le digne magistrait se trompait ; le médecin vint à bout de tout. Aussitôt l’autorisation en poche, il commença la construction des bâtiments. Sis dans la rue Neuve, la plus belle rue d’Itaguaï, à l’époque, l’établissement avait cinquante fenêtres de chaque côté, un patio au centre, et un grand nombre de cellules pour les futurs hôtes. Arabisant de longue date, Simon Bacamarte, dans le Coran, découvrit que Mahomet tenait les fous pour vénérables, pour la raison qu’Allàh les privait de jugement afin qu’ils ne puissent se rendre coupables de péché. Cette considération lui parut jolie et judicieuse, et il la fit graver sur le frontispice de l’établissement. Mais craignant d’indisposer le curé, et son évêque par personne interposée, il attibua la sentence au pape Benoit VIII, mensonge fort pieux, du reste qui lui valut de la bouche du Père Lopes, lors du déjeuner d’inauguration, le récit de la vie de l’éminent pontife.
L’asile prit le nom de la Maison Verte, par allusion à la couleur des fenêtres, les premières fenêtres peintes en vert dans Itaguaï. L’inauguration eut lieu en grande pompe ; une foule immense accourut des communes et agglomérations avoisinantes, et jusque de Rio de Janeiro, pour assister aux cérémonies qui durèrent sept jours pleins. Déjà, un nombre considérable de déments avaient été hospitalisés, Et les familles purent apprécier avec quelle sollicitude paternelle, quelle chrétienne charité ils allaient être traités. Plus que ravie par les honneurs dévolus à son époux, Dona Evarista s’était vêtue luxueusement et parée de soies, de fleurs et de bijoux. Elle fut une véritable reine pendant ces journées mémorables ; réelle entorse aux us modestes et casaniers du temps, nul n’omis de lui rendre visite deux ou trois fois, non point uniquement our la saluer mais pour la complimenter car tous voyaient en elle l’epouse – détail qui parle hautement en faveur de la société de l’époque – l’épouse comblée d’un grand esprit, d’un homme illustre dans la force de l’âge, et, s’ills l’enviaient, c’était de la noble et sainte envie d’admirateurs.
Au bout de sept jours, les festivités publiques expirèrent ; Itaguaï possédait enfin sa maison des Fous.

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Fonte : ASSIS, Machado de. L’Aliéniste. Traduit par Maryvonne Lapouge. Paris, Éditions A. M. Métailié, 1984, p. 25-9.





Bio fornecida pelo palestrante.

Teoria do medalhão




Autor: Machado de Assis
Título: Teoria do medalhão
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 29/12/2004

TEORIA DO MEDALHÃO
(DIÁLOGO)

 

Machado de Assis

– Estás com sono?
– Não, senhor.
– Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?
– Onze.
– Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…
– Papai…
– Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; ou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, eu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
– Sim, senhor.
– Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
– Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
– Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos…
– É verdade, por que quarenta e cinco anos?
– Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.
– Entendo.
– Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.
– Mas quem lhe diz que eu…
– Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança, No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
– Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.
– Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspeção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.
– Como assim, se também é um exercício corporal?
– Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.
– Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?
– Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos, – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…
– Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando…
– Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant, consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! – E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.
– Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.
– Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: – ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas; no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira esperta e afreguesada, – que, segundo um poeta clássico,
Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,
Menos monte alardeia de retalhos;
e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.
– Upa! que a profissão é difícil!
– E ainda não chegamos ao cabo.
– Vamos a ele.
– Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante, ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?
– Percebi.
– Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a “alavanca do progresso” e o “suor do trabalho” vencem as “fauces hiantes” da miséria. No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos repórteres dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.
– Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.
– Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desajetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.
– E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da vida?
– Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.
– Nem política?
– Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.
– Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?
– Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; – é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.
– Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
– Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.
– Nenhuma filosofia?
– Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.
– Também ao riso?
– Como ao riso?
– Ficar sério, muito sério…
– Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente, – e este ponto é melindroso…
– Diga…
– Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?
– Meia-noite.
– Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.
_________________
Fonte: Machado de Assis, J. M. “Teoria do medalhão”. In: Os melhores contos de Machado de Assis. 2ª ed. São Paulo: Global, 1985. p. 21-29.





Bio fornecida pelo palestrante.

TU SÓ, TU, PURO AMOR




Autor: Machado de Assis
Título: TU SÓ, TU, PURO AMOR
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

TU Só, TU, PURO AMOR[*]

COMÉDIA

 

Tu só, tu, puro amor, com for?a crua,

     Que os cora??es humanos tanto obriga…

(Lus?adas 3 CXIX)

PESSOAS

CAM?ES                                                                                      D. MANUEL DE PORTUGAL
D. ANT?NIO DE LIMA                                                     D. CATARINA DE ATAIDE
CAMINHA                                                                                 D. FRANCISCA DE ARAG?O

Sala no pa?o

CENA PRIMEIRA
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL

 
(CAMINHA vem do fundo ? esquerda; vai a entrar pela porta da direita quando lhe sai D. MANUEL DE PORTUGAL, a rir)
CAM. Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rel alguma cousa graciosa, decerto…
D. MAN. N?o; n?o foi El-rei. Adivinhai o que seria, se ? que o n?o sabeis j?.
CAM. Que foi?
D. MAN. Sabeis o caso da galinha do Duque de Aveiro?
CAM. N?o.
D. MAN. N?o sabeis? Pois ? isto: uns versos mui galantes do nosso Cam?es. (CAMINHA estremece e faz um gesto de m? vontade) Uns versos como ele os sabe fazer. (? parte) D?i-lhe a not?cia. (Alto) Mas, deveras, n?o sabeis do encontro de Cam?es com o Duque de Aveiro?
CAM . N?o .
D. MAN. Foi o pr?prio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei…
CAM. Que houve ent?o?
D. MAN. Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta…
CAM. (com enfado). O poeta! o poeta! N?o ? mais que engenhar a? uns pecos versos, para ser logo
poeta! Desperdl?ais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel. Poeta ? o nosso S?, o meu grande S?! Mas, esse arruador, esse brig?o de horas mortas…
D MAN. Parece-vos ent?o?…
CAM. Que esse mo?o tem algum engenho, muito menos do que lhe diz a presun??o dele e a cegueira dos amigos; algum engenho n?o lhe nego eu. Faz sonetos sofr?veis. E can??es… digo-vos que li uma ou duas, n?o de todo mal alinhavadas. Pois ent?o? Com boa vontade, mais esfor?o, menos soberba, gastando as noites, n?o a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vlr a ser…
D MAN. Acabai.
CAM. Est? acabado: um poeta sofr?vel.
D. MAN. Deveras? Lembra-me que j? isso mesmo lhe negastes.
CAM. (sorrindo). No meu epigrama, n?o? E nego-lho ainda agora, se n?o fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo por desenfado, n?o por ?dio… Dizei, que tal vos pareceu ele?
D. MAN. Injusto, mas gracioso.
CAM. Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenh?veis. N?o era imposs?vel que assim fosse. Intrigas da corte d?o azo a muita injusti?a; mas principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso… Juro-vos que ele me tem ?dio.
D. MAN. O Cam?es?
CAM. Tem, tem…
D. MAN. Por qu??
CAM. N?o sei, mas tem. Adeus.
D. MAN. Ide-vos?
CAM. Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante (Corteja-o e dirige-se para a porta ela direita. D. MANUEL dirige-separa o fundo).
D. MAN. (andando).
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro…
 
CAM. Recitai versos?…S?o vossos?…N?o me negueis o gosto de vos ouvir.
D. MAN. Meus n?o; s?o de Cam?es… (Repete-os descendo a cena)
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro;
CAM. (sarc?stico). De Cam?es?… Galantes s?o. Nem Virg?lio os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro…
E depois? V?, dizei-me o resto, que n?o quero perder iguaria de t?o fino sabor.
D. MAN. O Duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha da sua mesa; mas s? lhe mandou um assado. Cam?es retorquiu-lhe com estes versos, que o pr?prio duque me mostrou agora, a rir:
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro
Mas, n?o vi, por vida minha,
Vender vaca por galinha
Sen?o ao Duque de Aveiro.
Confessai, confessai, Senhor Caminha, v?s que sois poeta, confessai que h? a? certo pico, e uma simpleza de dizer… N?o vale tanto decerto como os sonetos dele, alguns dos quais s?o sublimes, aquele, por exemplo:
De amor escrevo, de amor trato e vivo…
ou este:
Tanto do meu estado me acho incerto…
Sabeis a continua??o?
CAM. At? lhe sei o fim:
Se me pergunta algu?m por que assim ando
Respondo que n?o sei, por?m suspeito
Que s? porque vos vi, minha senhora.
(Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora… Sabeis v?s, decerto, quem ? esta senhora do poeta como eu o sei como o sabem todos… Naturalmente amam-se ainda muito?…
D. MAN. (? parte). Que querer? ele?
CAM. Amam-se por for?a.
D. MAN. Cuido que n?o.
CAM. Que n?o?
D. MAN. Acabou como tudo acaba.
CAM. (sorrindo). Andai l?; n?o sei se me dizeis tudo. Amigos sois e n?o ? imposs?vel que tamb?m v?s… Onde est? a
nossa gentil senhora D. Francisca de Arag?o?
D. MAN. Que tem?
CAM. Vede: um simples nome vos faz estremecer de c?lera. Mas, abrandai a c?lera, que n?o sou vosso inimigo, mui ao contr?rio; amo-vos, e a ela tamb?m… e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita).

CENA II
D. MANUEL DE PORTUGAL

 
Este homem! Este homem!… Como se os versos dele, duros e insossos… (Vai ? porta por onde Caminha saiu, e
levanta o reposteiro.) L? vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma cousa. Que n?o sejam versos (Ao fundo aparecem D. Ant?nio de Lima e D. Catarina de Ata?de).

CENA III
D. MANUEL DE PORTUGAI, D. CATARINA DE ATAIDE, D. ANT?NIO DE LIMA

 
D. ANT. Que espreitais a?, senhor D. Manuel?
D. MAN. Estava a ver o porte elegante de nosso Caminha. N?o vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, l? vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.
D. ANT. Tamb?m eu. Tu, n?o, minha boa Catarina. A rainha espera-vos. (D. CATARINA faz uma rever?ncia e caminha para a porta da esquerda.) Ide, ide, minha gentil flor… (A D. MANUEL) Gentil, n?o a achais?
D. MAN. Gentil?ssima.
D. ANT. Agradecei, Catarina.
D. CAT. Agrade?o; mas o certo ? que o Senhor D. Manuel ? rico de louvores…
D. MAN. Eu podia dizer que a natureza ? que foi convosco pr?diga de gra?as; mas, n?o digo; seria repetir mal aquilo que s? poetas podem dizer bem. (D. ANT?NIO fecha o rosto.) Dizem que tamb?m sou poeta, ? verdade; n?o sei; fa?o versos. Adeus, Senhor D. Ant?nio… (Corteja-os e sai. D. CATARINA vai a entrar, ? esquerda. D. ANT?NIO det?m-na.)

CENA IV
D. ANT?NIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE

 
D. ANT. Ouviste aquilo?
D. CAT. (parando). Aquilo?
D. ANT. ?Que s? poetas podem dizer bem? foram as palavras dele. (D. CATARINA aproxima-se.) V?s tu, filha? T?o
divulgadas andam j? essas cousas, que at? se dizem nas barbas de teu pai!
D. CAT. Senhor, um gracejo…
D. ANT. (enfadando-se). Um gracejo injurioso, que eu n?o consinto, que n?o quero, que me d?i… ?Que s? poetas podem dizer bem!? E que poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que ? esse atrevido, o que vale a sua poesia… Mas, que seja outra e melhor, n?o a quero para mim, nem para ti. N?o te criei para entregar-te ?s m?os do primeiro que passa, e lhe d? na cabe?a haver-te.
D. CAT. (procurando moder?-lo). Meu pai…
D. ANT. Teu pai, e teu senhor!
D. CAT. Meu senhor e pai… juro-vos que… juro-vos que vos quero e muito… Por quem sois, n?o vos irriteis contra mim!
D. ANT. Jura que me obedecer?s.
D. CAT. N?o ? essa a minha obriga??o?
D. ANT. Obriga??o ?, e a mais grave de todas. Olha-me bem filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.

CENA V
D. ANT?NIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE, D. FRANCISCA DE ARAG?O

 
D. ANT. Mas n?o, n?o v?s sem falar ? senhora D. Francisca de Arag?o, que a? nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora mesmo, ou como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi h? tantos anos, por tempo do nosso
seren?ssimo Senhor D. Manuel… Velho estou, minha formosa dama…
D. FRA. E que dizia a farsa?
D. ANT A farsa dizia:
? bonita como estrela,
Uma rosinha de abril,
Uma frescura de maio,
T?o manhosa, t?o subtil!
Vede, que a farsa adivinhava j? a nossa D. Francisca de uma frescura de maio, t?o manhosa, t?o subtil…
D. FRA. Manhosa, eu?
D. ANT. E subtil. N?o vos esque?a a rima, que ? de lei (Vai a sair pela porta da direita; aparece CAM?ES).

CENA VI
OS MESMOS, CAM?ES

 
D. CAT. (? parte). Ele!
D. FRA. (baixo a D. CATARINA). Sossegai!
D. ANT. Vinde c?, senhor poeta das galinhas. J? me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que n?o vos custaria mais tempo a faz?-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito… E o duque? O duque, ainda n?o emendou a m?o? H? de emendar, que n?o ? nenhum mesquinho.
CAM?ES (alegremente).Pois El-rei deseja o contr?rio…
D. ANT. Ah! Sua Alteza falou-vos disso?… Contar-mo-eis em tempo. (A D. CATARINA com inten??o.) Minha filha e senhora, n?o ides ter com a rainha? eu vou falar a El-rei. (D. CATARINA cortejaos e dirige-se para a esquerda; D. ANT?NIO sai pela direita).

CENA VII
OS MESMOS, menos D. ANT?NIO DE LIMA

 
(D. CATARINA quer sair, D. FRANCISCA DE ARAG?O det?m-na)
D. FRA. Ficai, ficai…
D. CAT. Deixai-me ir!
CAM?ES Fugis de mim?
D. CAT. Fujo… Assim o querem todos.
CAM?ES Todos! todos quem?
D. FRA. (indo a CAM?ES). Sossegai. Tendes, na verdade, um g?nio, uns esp?ritos… Que h? de ser? Corre a mais e mais a not?cia dos vossos amores… e o Senhor D. Ant?nio, que ? pai, e pai severo …
CAM?ES (vivamente, a D. CATARINA). Amea?a-vos?
D. CAT. N?o; d?-me conselhos… bons conselhos, meu Lu?s. N?o vos quer mal, n?o quer… Vamos l?, eu ? que sou desatinada. Mas, passou. Dizei-nos l? esses versos de que fal?veis h? pouco. Um epigrama, n?o ?? H? de ser t?o bonito como os outros… menos um.
CAM?ES Um?
D. CAT. Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasf?.
CAM?ES (com desd?m). Que monta? Bem frouxos versos.
D. FRA. N?o tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo s?o os que se fazem a outras damas. (A D. CATARINA.) Acertei? (A CAM?ES.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, n?o a mim, que j? o sei de cor, por?m a ela que ainda n?o sabe nada… E que foi que vos disse El-rei?
CAM?ES. El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua real vista, e disse com brandura: ?Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem com galinhas, porque assim nos alegrareis com versos t?o chistosos?.
D. FRA. Disse-vos isto? ? um grande esp?rito El-rei!
D. CAT. (a D. FRANCISCA) N?o ?? (A CAM?ES) E v?s que lhe dissestes?
CAM?ES Eu? nada… ou quase nada. Era t?o inopinado o louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora… agora que recobrei os esp?ritos… dir-lhe-ia que h? aqui (Leva a m?o ? fronte.) alguma cousa mais do que simples versos de desenfado… dir-lhe-ia que… (Fica absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.) Um sonho… As vezes cuido conter c? dentro mais do que a minha vida e o meu s?culo… Sonhos… sonhos! A realidade ? que v?s sois as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor ? a alma do universo!
D. FRA. O amor e a espada, senhor brig?o!
CAM?ES (alegremente). Por que me n?o dais logo as alcunhas que h?o de ter posto os poltr?es do Rocio? Vingam-se com isso, que ? a desforra da poltroneria… N?o sabeis? Naturalmente n?o; v?s gastais as horas nos lavores e recreios do pa?o; mora aqui a doce paz do esp?rito…
D. CAT. (com inten??o). Nem sempre.
D. FRA. (a CAM?ES, sorrindo). Isto ? convosco; e eu, que posso ser indiscreta, n?o me detenho a ouvir mais nada. (D? alguns passos para o fundo).
D. CAT. Vinde c?…
D. FRA. Vou-me… vou a consolar o nosso Caminha, que h? de estar um pouco enfadado… Ouviu ele o que El-rei vos disse?
CAMOES Ouviu; que tem?
D. FRA. N?o ouviria de boa sombra.
CAM?ES Pode ser que n?o… dizem-me que n?o. a D. CATARINA) Pareceis inquieta…
D. CAT. (a D. FRANCISCA). N?o vades, n?o vades; ficai um instante.
CAM?ES (a D. FRANCISCA). Irei eu.
D. FRA. N?o, senhor; irei eu s?. (Sai pelo fundo).

CENA VIII
CAM?ES, D. CATARINA DE ATA?DE

 
CAM?ES (com uma rever?ncia). Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ata?de! (D. CATARINA d? um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda
D. CAT. N?o… vinde c? (CAM?ES det?m-se) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (CAM?ES aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de mim?
CAM?ES Cuido que me quer?eis ausente.
D. CAT. Lu?s! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes… falarmos a s?s… Duvidais de mim?
CAM?ES N?o duvido de v?s, n?o duvido da vossa ternura; da vossa firmeza ? que eu duvido.
D. CAT. Receais que fraqueie algum dia?
CAM?ES Receio; chorareis muitas l?grimas, muitas e amargas… mas, cuido que fraqueareis.
D. CAT. Lu?s! juro-vos …
CAM?ES Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela ? sincera, subiu-me do cora??o ? boca. N?o posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por diz?-la sem rebu?o. Assim me fez a natureza, assim irei ? sepultura.
D. CAT. N?o, n?o fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, at? a c?lera de meu pai. Vede l?, estamos a s?s; se nos vira algu?m… (CAM?ES d? um passo para sair.) N?o, vinde c?. Mas, se nos vira algu?m, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? N?o sei que pensaria; tinha medo h? pouco, j? n?o tenho medo… amor sim… O que eu tenho ? amor, meu Lu?s.
CAM?ES Minha boa Catarina.
D. CAT. N?o me chameis boa, que eu n?o sei se boa, nem m?.
CAM?ES Divina sois!
D.CAT. N?o me deis nomes que s?o sacril?gios.
CAMOES Que outro vos cabe?
D. CAT. Nenhum.
CAM?ES Nenhum? Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ata?de, uma ninfa do pa?o, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem reparar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Cam?es, ir? morrer em ?frica ou ?sia…
D. CAT. Teimoso sois! sempre essas id?ias de ?frica…
CAM?ES ou ?sia. Que tem isso? Digo-vos que, ?s vezes, a dormir, imagino l? estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora…
D. CAT. N?o imagino nada; v?s sois meu, t?o-s? meu, t?o-somente meu. Que me importa o gentio, ou o turco, ou que quer que ?, que n?o sei, nem quero? Tinha que ver, se me deix?veis, para ir ?s vossas ?fricas… E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAM?ES N?o faltar? quem vo-los fa?a, e da maior perfei??o.
D. CAT. Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos… como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes v?s.
CAM?ES (recitando).
Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase for?ado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso…
D. CAT. N?o acabeis, que me obrigar?eis a fugir de vexada.
CAM?ES De vexada! Quando ? que a rosa se vexou, porque o sol a beijou de longe?
D. CAT: Bem respondido, meu claro sol.
CAM?ES Deixai-me repetir que sois divina. Nat?rcia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, n?o ? assim? Deixai-me cr?-lo, ao menos; deixai-me crer que h? um v?nculo secreto e forte, que nem os homens, nem a pr?pria natureza poderia j? destruir. Deixai-me crer… N?o me ouvis?
D. CAT. (enlevada). Ou?o, ou?o.
CAM?ES Crer que a ?ltima palavra de vossos l?bios ser? o meu nome. Ser??… Tenha eu esta f?, e n?o se me dar? da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.
D. CAT. Acabai!
CAM?ES Que mais?
D.CAT. N?o sei; mas ? t?o doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, n?o, n?o acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.
CAM?ES Ai de n?s! A perpetuidade ? um simples instante, um instante em que nos deixam s?s nesta sala! (D. CATARINA afasta-se rapidamente) Olhai; s? a id?ia do perigo vos arredou de mim.
D. CAT. Na verdade, se nos vissem… Se algu?m a?, por esses reposteiros… Adeus…
CAM?ES Medrosa, eterna medrosa!
D. CAT. Pode ser que sim; mas n?o est? isso mesmo no meu retrato?
Um colhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento…
CAM?ES
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o m?gico veneno
Que p?de transformar meu pensamento.
D. CAT. (indo a ele). Pois ent?o? A vossa Circe manda-vos que n?o duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, t?o pr?prios do lugar e da condi??o; manda-vos crer e amar. Se ela ?s vezes foge, ? porque a espreitam; se voc? n?o responde, ? porque outros ouvidos poderiam escut?-la. Entendeis? ? o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta… e agora… (Estende-lhe a m?o) Adeus!
CAM?ES Ide-vos?
D. CAT. A rainha espera-me. Audazes fomos, Lu?s. N?o desafiemos o pa?o… que esses reposteiros…
CAM?ES Deixa-me ir ver!
D. CAT. (detendo-o). N?o, n?o. Separemo-nos.
CAM?ES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda; CAM?ES, olha para a porta da direita).
D. CAT. Andai, andai!
CAM?ES Um instante ainda!
D. CAT. Imprudente! Por quem sois, ide-vos, meu Lu?s!
CAM?ES A rainha espera-vos!
D. CAT. Espera.
CAM?ES T?o raro ? ver-vos!
D. CAT. N?o afrontemos o c?u… podem dar conosco…
CAM?ES Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e ? f? que o faria respeitar!
D. CAT. (aflita, pegando-lhe na m?o). Reparai, meu Lu?s, reparai; onde estais, quem eu sou, o que s?o estas paredes… domai esse g?nio arrebatado. Pe?o-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?
CAM?ES Viva a minha cor?a gentil, a minha t?mida cor?a! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!
D. CAT. Adeus!
CAM?ES (com a m?o dela presa). Adeus!
D. CAT. Ide… deixai-me ir!
CAM?ES Hoje h? luar; se virdes um embu?ado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e ent?o, j? n?o ? o sol a beijar de longe uma rosa, ? o goivo que pede calor a uma estrela.
D.CAT. Cautela, n?o vos reconhe?am.
CAM?ES Cautela haverei; mas que me reconhe?am, que tem isso? Embargarei a palavra ao importuno.
D.CAT. Sossegai. Adeus!
CAM?ES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda, e p?ra diante dela, ? espera que CAM?ES saia. CAM?ES corteja-a para um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. ? Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece CAMINHA. ? D. CATARINA d? um pequeno giro e sai precipitadamente. ? CAM?ES det?m-se. Os dous homens olham-se por um instante).
___________
Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. De ?Tu, s? tu, puro amor?. In: Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.



[*] O DESFECHO dos amores palacianos de Cam?es e de D. Catarina de Ata?de ? o objeto da com?dia, desfecho que deu lugar ? subseq?ente aventura de ?frica, e mais tarde ? partida para a ?ndia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas m?os. N?o pretendi fazer um quadro da corte de D. Jo?o III, nem sei se o permitiam as propor??es m?nimas do escrito e a urg?ncia da ocasi?o. Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse contempor?neo de seus amores, n?o lhe dando fei??es ?picas, e, por assim dizer, p?stumas.
Na primeira impress?o escrevi uma nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma cousa explicativa. Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Cam?es ao Duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe n?o possa fixar data, usara desta por me parecer um curioso rasgo de costumes. E aduzi: ?Engana-se, creio eu, o Sr. Te?filo Braga, quando afirma que ela s? podia ter ocorrido depois do regresso de Cam?es a Lisboa, alegando, para fundamentar essa opini?o, que o t?tulo de Duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o ilustre escritor, porque eu encontro o Duque de Aveiro, cinco anos antes, em 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa, D. Joana, noiva do pr?ncipe D. Jo?o (veja Mem. e Doc., anexos aos Anais de D. Jo?o III, pp. 440 e 441); e, se Cam?es s? em 1553 partiu para a ?ndia, n?o ? poss?vel que o epigrama e o caso que lhe deu origens fosse anteriores?.
Temos ambos raz?o, o Sr. Te?filo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro s? foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o t?tulo desde muito antes, por merc? de D. Jo?o III; ? o que confirma a pr?pria carta r?gia de 30 de agosto daquele ano. Textualmente inserta na Historia General, de D. Antonio Caetano de Sousa, que cita em abono da asser??o o testemunho de Andrade, na Cr?nica Del-Rei D. Jo?o III. Naquela mesma obra se l? (Liv. IV, cap. V) que em 1551, na transla??o dos ossos del-rei D. Manuel estivera presente o Duque de Aveiro. N?o ?, pois, imposs?vel que a anedota ocorresse antes da primeira aus?ncia de Cam?es.




Bio fornecida pelo palestrante.