A força do destino




Autor: Nélida Piñon
Título: A força do destino, La force du destin
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevi?ve Leibrich(fra)
Data: 29/12/2004

LA FORCE DU DESTIN

I

Nélida Piñon

La fruite avait été préparée minutieusement. Alvaro avait demandé à Leonora de n?oublier aucun des détails notés sur la fiche de blanchisserie. L?essentiel est que ton père ne s?aperçoive de rien, les nobles sont immanquablement retors et doués d?un grand pouvoir de perseuasion. Les deux amants savaient que le vieux gentilhomme s?opposait à leur union. Outre l?amour d?Alvaro, Leonora pouvait compter sur la loyauté de as servante Curra, censée l?accompagner dans as fruite. Car jamais Leonora ne pourrait se passer de ses services; chaque matin, Curra lui apportait une bassine d?eau chaude, ses ablutions traînaient interminablement.

Le sang des amants s?échauffait tellement au fil des heures – on aurait pu se servir de la vapeur brûlante qui s?en dégageait pour préparer le thé – qu?ils décidèrent de fixer le rendez-vous pour minuit. Plus tôt, ils n?auraient pas bénéficié du concours de la lune. Et si nous remettions notre fugue à demain mardi, suggéra Leonora.

Demair les problèmes seront les mêmes, sans parler du supplice de l?attente amoureuse, Alvaro s?efforçait de dissiper les doutes de Leonora. Si nous ne décampons pas d?ici, jamais nous ne pourrons être l?un à l?autre. Et si nous nous aimions ici-même, Alvaro, dans le jardin, comme de simple culs-terreux? Je t?en prie, Leonora, ne me casse pas les pieds veux-tu. Comment ferais-je de toi ma femme si nous ne quittons pas au moins les domaines de ton père. Tu ne t?imagines tout de même pas que je vais te baiser dans l?ombre redoutable de ta maison invencible.

Alvaro avait l?air si soucieux que Leonora finit par céder. Ok, Alvaro. En ce temps-là, il y a deux siècles, la seule solution pour une fille c?est de contrarier la volonté de son père en s?enfuyant avec son fiancé. Mais qu?adviendra-t-il plus tard, lorsque l?heure de la misère aura sonné?

Curra était prévoyante. A sa naissance, elle savait déjà qu?elle serait la servante de Leonora, avant même que celle-ci n?eût vu le jour. Elle en était presque arrivée à frapper à la porte du ventre de la marquise de Calatrava pour accéléres la venue de celle qui allait recevoir le prénom de Leonora sur les fonts baptismaux. Curra mourait d?envie de prendre ses fonctions, elle rêvait surtout d?asperger de parfum les mou choirs de soie.

Quand elle fut mise au courant du projet de fruite, elle réfléchit longuement à ses devoirs. Devrait-elle dérroncer Alvaro aux sbires du marquis, ou bien, de son propre chef, injecter du poison dans le postérieur de Leonora de façon à lui paralyser les jambes et l?empêcher ainsi de répondre au sifflement de son amant en faction près du portail?

Nuit après nuit, elle arpenta les couloirs du palais, délibérant, s?efforçant de deviner quel serait le meilleur destin pour Leonora. Puisque Leonora aimait Alvaro et que le marquis ne voulait pas entendre parler d?Alvaro, Curra décida que le mieux serait de suivre les amants, plutôt que d?être abandonnée dans le palais, comme un meuble rare de plus à partager entre les héritiers après la mort du marquis. Elle n?oublia pas de fourrer dans un balluchon les plus beaux joyaux de la famille. Elle passa toute une aprèsmidi à les choisir. On eût dit um diamantaire tant ses yeux calculaient rapidement la valeur de charque pierre sur le mande d?Amsterdam, pour le cas où les amants et elle échoueraient un joeir dans cette ville.

Alvaro se sentait l?âme d?un Anglais, non pas à cause de son habillement, mais en raison de son ardeur à consulter as montre de gousset, il était miniut pile.

Il dut encore attendre Leonora une bonne dumiheure. Quand elle arriva enfin, feignant d?avoir couru, énervée – elle n?avait pas trouvé la clé de son bonheur à venir – au lieu de prendre la poudre d?escampette les deux amants perdirent um temps infini à échanger des serments, Alvaro jurant je t?aime, Leonora exagérant ses craintes.

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Fonte: PIÑON, Nélida. La force du destin. Traduit du brésilien par Geneviève Leibrich. Paris: Des Femmes, 1987.

A FORÇA DO DESTINO

 

I

Nélida Piñon

A fuga foi minuciosamente planejada, Álvaro pedia que Leonora não esquecesse os detalhes apontados no rol de roupa. O importante é teu pai não descobrir; a nobreza é sempre esperta e convincente. Ambos sabiam que o velho nobre opunha-se aquela união. Leonora tinha a seu favor, além do amor de Álvaro, a lealdade da criada Curra acompanhando-a na fuga. Jamais dispensaria seus serviços, já pelas manhãs trazendo-lhe a bacia de água quente, as abluções arrastavam-se por longos minutos.

O sangue dos dois esquentava-se tanto ao passar das horas, poderiam até preparar o chá com o seu vapor, que marcaram o encontro para a meia-noite. Mais cedo, não teriam contado com o socorro da lua. E se deixarmos para amanhã. Terça-feira, disse Leonora.

Amanhã, enfrentaremos os mesmos problemas, sem contar com os males do amor, Álvaro queria cancelar-lhe as duvidas. E se não for assim, jamais nos uniremos. E se nos amássemos no jardim mesmo, Álvaro, como a doce plebe? Por favor, Leonora, não enche, sim. Como vou faze-la minha mulher, se não abandonamos ao menos as propriedades do teu pai. Não pense jamais que vou trepar sob o poder da tua casa invencível.

As dificuldades do mancebo estampavam-se no rosto, afinal Leonora deu-lhe ganho de causa. Ok, Álvaro, nestes tempos de dois séculos atrás, não pode a mulher fazer outra coisa senão contrariar a vontade paterna fugindo com o noivo. Mas, como será mais tarde, no tempo da miséria?

Curra era previdente. Nasceu sabendo que ia ser criada de Leonora, antes também que ela nascesse. Só faltou bater à porta do ventre da Marquesa de Calatrava, para acelerar o nascimento de quem, na pia batismal, haveria de ganhar o nome de Leonora. Ansiava em desempenhar suas funções, espargir especialmente perfume sobre os lenços de seda.

E, sabedora da fuga, muito meditou sobre seus deveres. Se devia denunciar Álvaro aos esbirros do marquês, ou de iniciativa própria espetar nas nádegas de Leonora veneno que, imobilizando-lhe as pernas, a impedisse de atender ao assovio do amante à porta?

Durante noites venceu os corredores do palácio tentando descobrir que destino seria melhor para Leonora. Uma vez, porém, que Leonora amava Álvaro, e não era Álvaro desejado pelo marquês, decidiu que melhor seria segui-los, antes que a deixassem no palácio, como mais um móvel raro a partilhar-se entre os herdeiros, após a morte do marquês. Cuidou em recolher numa trouxa as melhores jóias da família. Gastou uma tarde na seleção. Seus olhos pareciam de joalheiro, pois lhe diziam rapidamente o valor de cada uma delas no mercado de Amsterdã, caso fossem parar ali.

Álvaro sentiu-se inglês, não pelos trajes, mas conferindo o relógio, meia-noite em ponto. Teve que esperar Leonora meia hora ainda. E quando ela veio fingindo que corria nervosa, não havia encontrado a chave a indicar-lhe a felicidade, perderam-se por muito tempo em juras, ele pronunciava amor, ela exaltava o temor, em vez de botarem as pernas no mundo.

O que será de minha honra, Álvaro? Que honra, Leonora, casando-se comigo você recupera automaticamente a honra perdida com a fuga. É uma questão só de horas. Leonora abraçava-o aflita, não será fácil, você precisa compreender a virgindade de uma mulher, é um castelo com ponte levadiça, só se ergue com a autoridade do rei. E daí, maiôs difícil será se ficarmos aqui, os lamentos só fazem crescer as águas do rio, elas transbordam e quem há de beneficiar-se com tais exageros? Mas, Álvaro, dar o primeiro passo para deixar a donzela é sempre doloroso, é como enfiar a adaga no peito autoritário e bondoso do pai.

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FontePIÑON, Nélida. Força do destino. 3? ed, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Fundador




Autor: Nélida Piñon
Título: O Fundador, Fundador
Idiomas: port, esp
Tradutor: Ida Vitale(esp)
Data: 29/12/2004

O FUNDADOR


I


Nélida Piñon

Raramente abandonava a loja. Um esconderijo adequado após a peregrinação pelo mundo. Para dormir refugiava-se no quarto dos fundos. Vida simples, nem animal saberia escolher tão bem. Ptolomeu não tinha amigos, uma agressividade a que jamais revidou.Ainda que às vezes quisesse gritar, ensinar-lhe maneiras.
Sempre a mesma coisa. Joe aproximava-se dos balcões averiguando os livros.Ptolomeu cuidava em substituí-los à medida que se vendiam, para que Joe notasse e protestasse, ou perdesse o hábito de manuseá-los. E embora o surpreendesse o empenho de Joe pela mercadoria de sua loja, jamais indagara as razões de sua curiosidade.
– Então, os porcos continuam consumindo seu material indecente, velho?
Ptolomeu sorria. Sua apreciação pelas criaturas iniciara-se através de Joe. Uma aprendizagem difícil.
– È de primeira.
– O encontro sai esta semana.A qualquer momento viajo. O padre concordou.
– Cuidado, Joe. Eles acabam descobrindo.
– Pensa que sou covarde, nasci para ser castrado, oferecer os testículos para eles me esmagarem?A fúria de Joe recorria aos mesmos processos. Rasgava os retratos recolhidos de alguma gaveta, pedaço por pedaço, ameaçando lança-los à rua.
– Cuidado com a polícia, Joe.
– Já não agüento mais, Ptolomeu. Nem sei porque fico nesta cidade. Não tomo outras decisões. Busco uma outra terra.
– Para onde quer ir?
– Qualquer lugar serve.Onde eu me sinta homem.
– Se quiser, faço uma terra só para você.
– Piada besta, Ptolomeu.
– Joe tirou o bloco do bolso. Rabiscava devagar, às vezes o traço escorregando violento no papel. Ptolomeu afastava-se ainda que por minutos. Atendia um cliente, os pedidos que antecipadamente conhecia. Compravam depressa, alguns passando o polegar pelos dentes, como que substituíram a escova. Um gesto de gozo, ele identificava depressa. Regressando a Joe cuidadoso.
– Para quando é o encontro?
– Semana que vem, espero.Já não é sem tempo. Se não for dessa vez, eu desisto. É mais fácil encontrar o Papa Camilo.
– É que o papa não pode fazer o que ele está fazendo.
– Afinal, abandonou o túmulo, Ptolomeu.
O velho largou Joe, fixando-se no mapa antigo dependurado na parede, Joe veio atrás, agarrou-o pelo braço:
– De onde você veio, Ptolomeu? Indagando a sua origem pela primeira vez.
Ptolomeu indicou o mapa na parede, a peça mais preciosa de sua loja.
– Foi seu homônimo quem fez esse mapa? Brincou Joe precipitado.
Ptolomeu olhou-o severo, assumindo uma nova autoridade.
– Desta vez errou. Joe Smith.
– Por não ser homônimo Ptolomeu, ou porque pretendia explicar-me coisa diferente?
– Você fala demais, Joe.A quem saiu tão brigão? Ptolomeu procurou conciliar.
– Se não confessa de onde saiu esta velhice, também não lhe digo de que terra herdei minha agressividade. Empatados?
Ptolomeu trocou a loja pelo corredor dos fundos, retornando trazia cerveja. Joe serviu-se sem cerimônia.
– O melhor do negócio você destina aos outros.
– O que queria?
– Você excita estes animais em troca de uns miseráveis cents, e eles gastam o grosso do dinheiro com os intermediários.
– O mais importante você não disse. Ptolomeu ria complacente. Quase segurando Joe Smith no colo. – Não quero dinheiro. Nunca desejei.
Joe sentia o amigo entregue a um passado que jamais se esclareceu, quando realmente procurou realmente saber. – Uma vez que está no negócio, mergulhe nele por inteiro. Encarava-o como inimigo. Atingindo aquela exasperação que o próprio Joe exigia para regressar à indiferença habitual.
– É melhor não falarmos. Hoje, você está irritado.
– Sou sempre assim. Ou se esqueceu?
O velho sentou-se na cadeira de balanço, estranho objeto naquela loja. A luz sobre seu rosto, uma perspectiva de tempo assinalando marcas. Parecia ultrapassar cem anos, embora nele sobressaísse um vigor jovem, transitando em seu corpo maravilhas e graças, o rosto renovado pelos sucessivos entalhes. Não importava a Joe a velhice do amigo. A amizade tão natural. Antes, a zanga diária uninido-os. E dizia-se Ptolomeu: se eu tivesse gerado um filho naquela época seria como Joe e o teria tornado o homem mais poderoso da terra.
– Logo eu o deixarei, esforçava-se em ser natural, sem excluir amor do que dissesse.
– Vai viajar? Perguntou Joe.
A cadeira balançava. Para frente e para trás. Ele indicou o corpo, a nau das longas viagens. Escondendo a emoção. Joe reprovaria as evidências de um sentimento intolerável.
– Qualquer dia eu morro.
– Qual nada, velho. É capaz de negociar com a morte. Morrendo quando quiser. Fumou um cigarro apressado. Buscando outros interesses.
– Já fiz os tratos possíveis. Não posso mais revogar. Joe condenaria suas palavras, talvez se afastasse da loja, para regressar dias depois. Arrependia-se da explicação.
– Morrer é coisa de macho. E não se pode ser macho na sua idade. Riu para que o outro o acompanhasse. Ptolomeu seguiu o ritmo da cadeira. O pêndulo de um relógio, ou de um alfanje.
– A quem devo a imortalidade, Joe Smith? E disfarçou.
Joe desabotoou a camisa, batendo o peito em sucessivos golpes.
– O corpo está preparado. Mas, antes enfio muita bala nestes gringos.
Desde criança, Joe freqüentava sua loja, adotando idiomas que nunca identificou. Calava-se, o menino defendendo a exclusividade de uma língua que pretendia ser soberana, sempre que se aproximava.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Fundador. 2.ed., Rio de Janeiro: Editorial Labor do Brasil, 1976. p. 9, 10, 11, 12.

FUNDADOR


I


Nélida Piñon

Raramente abandonaba el negocio. Un esconderijo adecuado después de su perigrinación por el mundo. Para dormir se refugiaba en los cuartos del fondo. Una vida simple; ni un animal sabría elegir tan bien. Ptolomeo no tenía amigos, desde que llegó a la ciudad. Sólo Joe Smith lo visitaba, con una agresividad a la que nunca replicó. Aunque a veces quisiera gritarle, enseñarle buenos modos.
Siempre era igual. Joe se acercaba a los mostradores investigando los libros. Ptolomeo se preocupaba por sustituirlos a medida que se vendían, para que Joe no notase y protestase, o perdiera el hábito de manosearlos. Y aunque lo sorprendiese la obstinación de Joe por la mercadería de su comercio, nunca averiguaba las razones de su curiosidad.
–¿ Así que los cerdos siguen consumindo su material incidente, viejo?
Ptolomeo sonreía. Su estima por las criaturas se habían iniciado a través de Joe. Un díficil aprendizaje.
– Es de primera.
– El encuentro se hace esta semana. En cualquier momento salgo de viaje. El padre está de acuerdo.
– Cuidado, Joe. Ellos siempre terminan por descubrir.
–¿ Tú crees que soy cobarde, que nací para ser castrado, para ofrecer los testículos y que ellos me los aplasten?– La furia de Joe recorría los mismos procesos. Rasgaba en pedazos retratos sacados de algún cajón, amenazando tirarlos a la calle.
– Cuidado con la policía, Joe.
– No aguanto más, Ptolomeo. Ni sé porque me quedo en esta ciudad. No tomo otras decisiones. Busco otra tierra.
–¿ Adónde quieres ir?
– Cualquier lugar me sirve. Donde me sienta hombre.
– Si quieres hago una tierra sólo para ti.
– Qué animal chistoso, Ptolomeo
Joe sacó el bloc del bolsillo. Garrapateaba despacio, aunque a veces el trazo se deslizaba violento sobre el papel. Ptolomeo se alejaba por unos minutos. Atendía a un cliente, a pedidos que conocía por antecipado. Compraban de prisa, algunos mientras se pasaban el pulgar por los dientes, como sustituyendo un cepillo. Un gesto de gozo, que él identificaba de inmediato. Volvía solícito donde estaba Joe.
–¿ Para cuando es el encuentro?
– La semana que viene, espero. Ahora se hace con tiempo. Si no es esta vez desisto. Es más fácil encontrar al Papa que a Camilo.
– Porqué el Papa no puede hacer lo que él está haciendo.
– Al final abandonó el sepulcro, Ptolomeo.
El viejo dejó a Joe, fijándose en el mapa antiguo colgado de una pared. Joe lo siguió, agarrándolo por un brazo:
–¿ De dónde eres, Ptolomeo? –Indagaba su origen por primera vez.
Ptolomeo indicó el mapa de la pared, el objeto más precioso de su negocio.
–¿ Fue tu homónimo quien hizo este mapa? –bromeó Joe enseguida.
Ptolomeo lo miró severamente, asumiendo una nueva autoridad.
– Esta vez te equivocaste, Joe Smith.
–¿ Por qué no es de tu homónimo Ptolomeo, o porque querías explicarme otra cosa?
– Hablas demasiado, Joe. ¿A quién saliste tan peleador?
– Ptolomeo buscó la paz.
– Si no me confiesas de donde salió esta vejez, tampoco te digo de qué tierra heredé mi agresividad. ¿Empatados?
Ptolomeo abandonó el local por el corredor de los fondos, y volvió trayendo cerveza. Joe se sirvió sin ceremonia.
– Lo mejor de tu negocio se lo destina a los demás.
–¿ Y qué quieres?
– Excitas a estos animales a cambio de unos miserables centavos y ellos gastan la mayor parte del dinero con los intermediarios.
– No dices lo más importante –Ptolomeo reía complaciente, casi apretando a Joe Smith por el cuello–. No quiero dinero. Nunca lo deseé.
Joe presentía al amigo entregado a un pasado que nunca, cuando quiso realmente saberlo, quedo aclarado– . Una vez que estás en el negocio te zambulles en él por completo.
– Lo encaraba como un enemigo, alcanzando aquella exasperación que el mismo Joe exigía para volver a la indiferencia habitual.
– Mejor no hablar. Hoy estás irritado –argumentó Ptolomeo.
– Siempre soy así. ¿O se te olvidó?
El viejo se sentó en el sillón de hamaca, objeto extraño en aquel local. Con la luz sobre el rostro, una perspectiva de tiempo señalaba marcas. Parecía superar los cien años, aunque sobrealiese en él un vigor joven, que concitaba en su cuerpo maravillas y gracias, el rostro renovado por sucesivos tallados. A Joe no le importaba la vejez de su amigo; era una amistad natural. Las riñas diaria los acercaban. Y Ptlomeo se decía: si yo hubiese engendrado un hijo en aquella época sería como Joe y lo había convertido en el hombre más poderoso de la tierra.
– Pronto, voy a dejarte- esforzábase en ser natural, sin excluir el amor de lo que decía.
–¿ Vas a viajar? –preguntó Joe.
El sillón se hamacaba, para adelante y para atrás. Se señaló el cuerpo, la nave de sus largos viajes, escondiendo la emoción. Joe reprobaría las evidencias de un sentimiento intorelable.
– Cualquier día me muero.
– Cualquier día nada, viejo. Eres capaz de negociar con la muerte, muriéndote cuando se te dé la gana.
– Fumó apresurado un cigarrillo, buscando otro tema.
– Ya hice mis arreglos. No puedo revocarlos. –Joe condenaría sus palabras, tal vez se fuese del negocio, para no volver por muchos días. Se arrepentía de la explicación.
– Morir es cosa de machos. Y a tu edad no se puede ser machos. –Rió para que el otro lo acompañase. Ptolomeo seguía el ritmo del sillón. El péndulo de un reloj o de un alfanje.
–¿ A quién debo la inmortalidad, Joe Smith? –Y disimuló.
Joe se desprendió la camisa, golpeándose el pecho con golpes sucesivos.
– El cuerpo ya está preparado. Pero antes meterá mucha bala a estos gringos.
Desde niño, Joe frecuentaba su negocio, adoptando un idioma con el que nunca se identificó. Siempre que él se acercaba, callaba, mientras defendía la exclusividad de una lengua que pretendía ser soberana.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Fundador. Traducción de Ida Vitale.Buenos Aires: Emecé, 1973.
p. 13-6.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Tempo das Frutas




Autor: Nélida Piñon
Título: O Tempo das Frutas, Le temps des fruits
Idiomas: port, fra
Tradutor: Violante do Canto et Yves Coleman(fra)
Data: 29/12/2004

LE TEMPS DES FRUITS

FLEUR ÉPHÉMÈRE

Nélida Piñon

 

Son inconsistance était ativique– la sûre orientation du sang de ses ancêtres. Au milieu d’une lucidité de cristal, la douceur de ses pas parcourant ciel et terre, telle était sa façon d’être, ses élans désordonnés. Les admonestations de ses amis la désorientaient et elle riait aux éclats devant les pierres, qu’elle trouvait cocasses. Elle allait jusqu’à les déchiffrer, à démonter des secrets, maintenant qu’elle avait acquis depuis peu le don de la parole. Jouer à cachecache en émerveillant les hommes la divertirait. Ils devraient se mettre à sa recherche, chaque fois qu’ils la sentiraient perdue. Plaisante était l’agression qu’ils commettaient contre elle, pour qu’elle vibrât et prît conscience d’elle– même. D’une façon ou d’une autre elle recollait les morceaux casses et mettait une robe neuve, brillant à la lumière du jour.
Certains soirs, devant le miroir, elle regardait son corps jusqu’à se réjouir de son bien– être et de ses sensations. Son visage ne rougissait pas à la pensée qu’elle serait un jour émerveillée par les investigations minitueuses et exaltées de la chair. Elle éclairait ainsi une zone qu’elle avait toujours imaginée sombre et immonde. Et, dominant ce miracle, elle courait sur la plage, les sables avançaient au gré du vent.
Assise sur une pierre, elle se dit: Maintenant je peux décrypter n’importe quelle attente. Et elle eut mal au ventre, comme lorsqu’elle mangeait trop de chocolat, ou lorsque s’étaient produits les premiers changements dans son corps, l’effroi face à cette abondance de sang inattendue et aussitôt après la conscience qu’elle devenait femme. Elle devint délurée et effrontée devant ces nouvelles richesses. Se mettant à deviner les réponses, elle apprenait et respirait soulagée.
Les hommes passaient devant elle en pensant: comme c’est chouette, une fille si jeune, et toutce que je posséderai chez elle, parce qu’il y en aura bien une qui m’attendra pour que je la conduise vers de verts pâturages, et même si ce n’est pas cette fille, mais une autre, je commence déjà à en jouir, et ce sera possible tant que je vivrai.
Elle se lassa de la glacê qu’elle mangeait. Mais elle devait lutter, parce que le soleil brillait encore. Près d’elle glissaient de petites bêtes, choses nerveuses protégées par une coquille, lassant une trace brillante sur leur passage. Elles étaient si amusantes mais l’étonnaient plus qu’elles ne lui tenaient compagnie. A n’importe quel moment elle pourrait découvrir en elles un monde que son savoir rudimentaire devrait définir. Elle attrapa un colimaçon, elle avait envie d’y enfoncer sa langue. Mais, envahie par l’impudeur de la petite créature tellement prisonnière d’elle– même qu’elle s’était précipitée et perdue, échappant ainsi à l’ordre de son espèce et de son mystère, la jeune fille parvint à comprendre cette ruse. Tout en désirant enfoncer sa langue dans la petite ouverture du colimaçon, elle craignait d’aller à la recontre de cette chose molle, de briser son secret, de boulever cette chose molle, de briser son secret, de bouleverser sa fragilité, cette façon inconséquente d’écarter les jambes sans pouvoir réagir, de se laisser emporter par le flux de la vie.
Elle craignit alors que, pour elle aussi, lorsque l’heure serait venue, rien ne s’opposât jamais à son obligation de créer toutes choses, même les choses perdues sans raison d’être, dont la cause est indéfendable.
Par la suite, d’autres hommes, différents des premiers, essayèrent de se livrer à des initiatives plus hardies, assauts ayant pour but de mettre sous leur joug les femmes légères ou sérieuses qui, au printemps, se laissent protéger après avoir fait leur miel de douceurs rares.
– Je m’appelle Pedro.
Effronté, il s’assit à côte d’elle, remuant la terre, feignant l’embarras, l’attention dispersée. La jeune fille, passant d’une Pierre plus haute à une Pierre plus basse, ne dit rien. Dédaigneux, le garçon, protege par la fumée de as cigarette, cria:
– Et toi, comment tu t’appelles?
Un peu sorcière, elle retórqua:
– Une jeune fille n’a pas de nom.
Tel un cavalier serein malgré la nervosité de sa monture, détenteur de principes et d’épées incandescentes, il lui répondit:
– A partir de maintenant si tu n’as pas de nom, tu as un mâitre.
Ensuite, elle rangea sa maison et s’occupa de la végétation sauvage; elle décorait la table pour rendre hommage à la vie. Elle nettoyait délicatement les objets. Jusqu’au moment où elle tomba enceinte et embellit, en proie à la violemce de ce qui poussait en elle. En ressentant ces effets, elle n’avait pas bien compris, car elle était un peu simple, si grande était sa pudeur. Chaque jour, le jeune homme envahissait la maison, perdant peu à peu ses égards et son respect. Assis sans gêne dans le fauteuil, il s’étirait, ensuite il l’entraînait vers le lit. La jeune fille se laissait faire, miirritée, mi–subjuguée. C’était devenu une habitude: l’homme lui ôtait toute volonté et toute élan. L’orientation de sa nature se définissait mal.
Ils vécurent ainsi jusqu’au jour où l’enfant naquit. Solide et audacieux comme son perè, ils s’épanouissait sans que s’instaurât en lui une beauté qui s’altérait aussitôt après. Le jeune perè décida de disparaître, et l’on ne retrouva jamais sa trace. Ce qui troubla profondément la jeune fille. Bien qu’elle ne rêvât plus de trajectoires aussi extravagantes, elle continuait à regarder les étoiles, avec la même intensité. Elle pressentait vaguement que n’importe quelle affection la libérerait et la réconforterait, lorsqu’elle disposerait de la farine qui ennoblit l’homme, agrémentée d’un ferment délicat. Elle se consacra à de petits détails que la mémoire fait enter doucement dans l’esprit, jusqu’au moment où elle se sentit épuisée. Alors seulement elle prit un peu de repos. Pour s’unir à un nouveau compagnon, au lit et à table.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Temps des fruits. Traduit du brésilien par Violante do Canto et Yves Coleman. Paris: Des femmes, 1993. p. 37-41.

TEMPO DAS FRUTAS

BREVE FLOR

Nélida Piñon

 

A sua inconsistência era a raça. A segura orientação do sangue. No meio da lucidez de cristal, a suavidade dos seus passos percorrendo céu e terra, tal o seu arcabouço, o ímpeto desgorvenado. Perdera o rumo entre admoestações dos amigos, e gargalhava solitária entre a graça das pedras. Até decifrá-las, desmanchar segredos, agora que recente adquirira o dom das palavras. Brincar de esconder deslumbrando os homens, seria o seu gracejo. Haveriam de procurá-la sempre que a pressentissem perdida. Engraçada era a ofensa, que sobre ela cometiam, para que vibrasse, e desse acordo de si. De um jeito ou do outro, emendava os destroços e punha vestido novo, brilhando a luz do dia, a tessitura da sua matéria.
Em certas noites, bem diante do espelho, afugentava a descoberta do corpo. Olhava até desfrutar, do conforto e da sensação. Não corando o rosto por pensar que ainda viria a se deslumbrar quando dos exames minuciosos e exaltados da carne. Assim, clareava uma zona sempre imaginada escura e imunda. Dominando o milagre, corria pela praia, as areias avançavam na medida do vento, fazendo cócegas que sempre irritam, embora a inocência.
Sobre uma pedra pensou: agora posso decifrar qualquer espera. E teve dor de barriga, como quando comia chocolate em excesso, ou como quando se deu a primeira modificação de seu corpo, alterando seus fluxos sanguíneos, o susto daquela abundancia inicial perturbando-a, a compreensão de se fazer mulher. Após o entendimento, ficou esperta e atrevida diante do exagero dos recursos recebidos. Adivinhando dispensava resposta, até aprender e respirar.
Passavam os homens pensando, como é bom uma mulher tão moça, aquilo que nela ou numa outra que surgirá sem dúvida eu dominarei, porque hei de possuir quem me aguarda para se fazer conduzir aos verdes campos, e não sendo esta moça uma outra nela já desfruto, enquanto eu viver.
Tomando sorvete cansou-se. Embora a sua coragem de continuar, porque o sol ainda brilhava. A companhia dos pequenos bichinhos, coisas nervosas protegidas por uma casca, e deixando lastro, molécula que se descobre pelo brilho. Tão engraçados, e mais do que companhia ofereciam-lhe espanto, a qualquer momento descobriria um mundo imediato, surgido e acabado pela sua precária ciência, que tudo adivinha.
Apanhou um caramujo, com vontade de enfiar dentro a língua, na restrição daquela abertura, provar o sabor e graça. De repente invadida pela torpeza do pequeno animal e compreender sua artimanha, escondido lá dentro, tão preso em si mesmo que se arrebatou e foi perdido, já fugindo à ordem da sua espécie e do seu mistério. E a menina querendo por a língua temia o encontro, da língua e a coisa mole a se desfazer, até que quebrasse ela o segredo, arrebatando a fragilidade do bichinho, a secura íntima de quem inconseqüente abre as pernas, sem seleção, engolfadas no fluxo vital dos recursos estranhos.
A moça teve medo de que tendo chegado a hora, jamais se impedisse a obrigação de procriar, coisas melhores e mais sérias, ou coisas perdidas que não cedem ante a vigência da graça e do seu capricho, que é também perfeição.
Atirou longe o animal, a sua verdade, após o amadurecer necessário da sua raça inconsciente. Depois, outros homens diferentes dos primeiros, ensaiaram iniciativas mais atrevidas dispostos aos avanços que disciplinam as raças. Como se empreendessem tarefas que dominam mulheres vagas e circunspectas. Que na primavera se deixam amparar, por qualquer domínio, após armazenarem em mel a virtude os doces e paladares raros.
Pedro é meu nome, disse-lhe um, e atrevido aguardava a queda das frutas. Mexendo na terra, fingindo embaraço, atenção dispersa, sentou-se a seu lado. A moça, mudando de pedra, da mais alta para a mais baixa, nada disse. Desdenhoso o rapaz fumou um cigarro, protegido pela fumaça gritou, e o seu, como é? Feiticeira ela disse: uma moça não tem nome. Como um cavalheiro sereno com as inquietações do seu cavalo, cheio de regras e espaldas incandescentes, respondeu-lhe: de agora em diante se você não tem nome, já tem dono.
Depois, ela arrumou a casa, cuidou dos vegetais selvagens, enfeitava a mesa para consagrar a vida. Delicada com a limpeza dos objetos. Até que ficou grávida e bonita, a violência do crescimento. Mal percebera porque era simples, sentindo os seus efeitos, e tal a sua modéstia. Diariamente o rapaz ocupava a casa, perdendo cerimônia e graduação do respeito. Esfregava-se abusado pela poltrona, após o que a arrastava para a cama. A moça, ainda deslumbrando-se, deixava-se ir, entre irritada e exaltada. Tendo-se tornado um hábito, extraía-lhe o homem à vontade e o ímpeto. Mal se definiam as orientações da sua natureza.
E assim iam-se pondo até que a criança nasceu. Forte e atrevido como o pai, desabrochando contínuo sem que nele se estabelecesse uma beleza que logo a seguir não se alterasse. Resolveu o rapaz desaparecer, sem que jamais o encontrassem de novo. O que perturbou a moça profundamente. Embora passasse a dispensar trajetórias tão violentas, continuava olhando estrelas, a mesma intensidade. Precariamente intuía a liberdade de qualquer estima que haveria de confortá-la, disporia de farinha que enobrece o homem após a mistura delicada de algum fermento. Só então repousou um pouco. Para unir-se na cama e na mesa a um novo companheiro.
A princípio a estranheza, as hesitações de um outro corpo, a imposição de outros hábitos. Aquele riso amarelo e deslumbrado que sempre dominava o homem mesmo fazendo amor, como se também isto fosse parte do rito. Após o que, seus dentes foram caindo de tanto que se exibiram, e descobriu-se a moça unida a um velho que além de feio também impunha-lhe a sordidez da sua carne agora relaxada. Embora com dificuldade expressasse o nojo, a visão daquelas gengivas, mal agüentava o vômito, a penúria de um convívio intenso. Corria para o banheiro e ali desfazia-se abundante atrás da esperança, após a abolição de tantas coisas. Ainda assim era maciça a presença do homem, ocupando além de seu corpo, toda a casa, a cobiça do ouro na sua cara. Um dia pegou o filho já bem crescido e abandonou a casa. Afastando-se da cidade à medida que se transferia de tantos abrigos, a força de novas perturbações. Pois perdera as noções essenciais do convívio, e pretendendo gentileza descontrolava-se a toa, no tormento de querer bem viver.
Quando um outro homem a escolheu, como se escolhe leviano o que se dispõe em seguida a jogar fora. E ela aceitou confundida. Foi criar galinhas, sadia e matutina, cuidar das vacas, teimosa ficando as mãos nos ubres fartos, até sua vida modificar-se, como também o cheiro de sua pele. Ainda assim seguia a trajetória da estrela, e o seu falso brilho, como se a liberdade se experimentasse deste jeito, pelo seu excesso. Todas as manhãs friccionava as vacas, após o homem ter-lhe friccionado o corpo. Iludida de que repousaria quando ficassem velhos. Como isto demorava, e o filho crescia rápido e exagerado, a mulher hesitava diante da inovação daquele mundo que se desligara do seu ventre, marginal e operante. A luta parecia dura e brava.
Um dia, arrastando o filho, foram à cidade, depois de uma longa ausência. Delicados contemplavam a passagem épica dos homens. E tomaram sorvete, que ela tanto gostava, capitulando na apreciação vital de cerrar os olhos e gozar, o deslize da língua sem exigências maiores. Como se ao menino ensinasse futuros procedimentos quando se invade a área do prazer. E se o menino imitava a mãe, era porque fazia-lhe bem a intimidade daquela cara, que se tornara uma poderosa aparência e por dever descobrir uma expressão que nele também acusasse o gozo que haveria de sentir quando, mesmo descuidado, não conseguiria poupar seu corpo das necessárias exibições. Depois, forma outras coisas, sórdidas e coloridas, que alcançam fundo.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Tempo das frutas. Rio de Janeiro: José Álvaro, 1979.





Bio fornecida pelo palestrante.

Tebas do meu Coração




Autor: Nélida Pi?on
Título: Tebas do meu Coração, Tebas de mi Corazón
Idiomas: port, esp
Tradutor: Angel Crespo(esp)
Data: 29/12/2004

TEBAS DE MI CORAZÓN

Trecho

Nélida Piñon

A pesar de todo, aquel primero de julio Eucarístico empezó a tumbar los árboles prometidos a sus hijos como herencia para después de muerto. Avisada de que la familia estaba perdiendo sus más nobles galas, y a manos de Eucarístico, Magnólia salió a su encuentro. Le pedió que se tomase, por lo menos, tres días para pensarlo. No era cosa de destruir el patrimonio de toda una vida dando hachazos durante unas pocas horas. Eucarístico no lograba oír una sola palabra y Maginólia se arrodilló y se puso a rezar por los árboles mientras él los tumbaba.

La furia le duró unos días, quién sabe si devido a razones caras a su corazón, para que nada le sobreviviese. El alborozo de aquella nueva fantasía no parecía estar destinado a Santísimo, presentían los que presenciaban su actividad. Y, habiéndose encerrado Eucarístico en el taller, previamente ampliado, primero hacia el cielo y después hacia los lados izquierdo y derecho de la tierra, no se podía adivinar lo que esta vez construiría, para necesitar tanta madera y espacio al mismo tiempo. Unos meses después, al derribar las paredes del taller con el mazo, mientras Magnolia seguía protestando, hasta que no quedó un ladrillo en pie, nadie más dudó de la classe de trabajo que venía ralizando obsesivamente. Ante todos aparecía la barriga amplia y audaz de un barco, al que faltaban el timón, los remos, las velas y el mástil.
Por fin iba el Alvarado a sentir emociones que jamás le habia proporcionado la gente de Santísimo. No se contaba en la historia de aquellas aguas disputas en torno a peces espada, sirenas fulgurantes, ante cuyas escamas se alimentasen esperanzas de fabricar cajitas de madreperla, o incluso visitas que les enseñasen extravagantes maneras de hacer punto de media. Los piratas y bandeirantes, que por ventura habían llegado a Santísimo con ayuda del río, habían actuado indudablemente con discreción, casi siempre de madrugada, para que no les molestasen las corrientes, más bravías a la luz del sol. Unicamente Eulalia, por capricho o terquedad, hermoseó el río durante breves horas cuando lo escogió como túmulo. Incluso en el momento de morir, tuvieron que censurar su gusto. No dudó en adular a Asunción, pueblo de sus amores, dejándoles una sombra de miedo que se sorprendía en ciertos rostros, sobre todo en aquellas casas que no encalaban sus paredes apenas anunciado el mes de mayo.

Los botecillos que hasta allí hacían incursiones admitían la propia desdicha, les había fallado el mapa que los conducía por la tierra, o ya no disponían de la firmeza de antaño en el manejo del timón y los remos. Nadie dejó allí el corazón para que fueran a buscarlo más tarde. Iabeshad jamás los abandonó. Aunque les amenazase con la certeza de otros mundos, y dejase en la mercería de Bonifacio larvas que se reproducían bajo la forma de brújulas, relojes, candelabros, alfiler con piedra nutrida a profundidades superiores a los mil metros.

Magnolia se resentía de que su marido no volviese a casa y escogiese el barco por morada. Eucarístico no se dejaba convencer, debilitaba sus argumentos con el silencio. Hacía mucho que había afrimado por medio de gestos que el verbo, además de borrarse con tinta negra, azul, rosa, se enunciaba y ya pasaba a no existir, cualquier red lo filtraba, que no le presentasen ya el presumible rostro y su febril vaso sanguíneo.

– Por lo menos, acepta la comida, dijo Magnolia. Y trató de saber si se opondría a que ella y los hijos le llevasen empanadas los domingos, gallina asada, otras golosinas, como si hubiese verbena. Eucarístico admitiría visitas breves, apenas el tiempo de desmenuzar los asados, comerlos con avidez, y despedirse en seguida. La avidez de la visita quedaría restringida al alimento, y a una rápida inspección ocular.

Durante los domingos siguientes, se instalaban en torno al barco, pues Eucarístico les había prohibido que subiesen a él, a su juicio la embarcación no había atracado. La mujer y sus hijos se vestían con sus mejores trajes, aun arriesgándose a mancharlos de grasa. Al principio, consideraban al barco como un objeto de culto, ante el que se hacían discretas reverencias, evitando pasar cerca, aunque para ello tuviesen que rodear los árboles que habían sobrevivido. No obstante, les había bastado a los hijos una sola mirada y el primer domingo de todos los siguientes para saciarse, puesto que no volvieron a contemplarlo.

– Insensibles, dijo Hermengarda, al enterarse de las visitas.

Ansioso por terminar el barco, Eucarístico trabajaba el día entero. Por todas partes se hacían promesas de celebrar con fuegos artificiales, globos, batatas asadas, la botadura del barco en aguas del Alvarado. Un río que, según Rectus, que había desdoblado revistas polvorientas, debía su bautismo a un extranjero precisamente castellano, que exajeraba la r y la j, de ahí su altiva ascendencia. Respaldo se encargó de apuntar en el cuaderno la fecha prevfista para la terminación del trabajo. Era preciso respetar un calendario, aunque cargado de santos y otras fiestas, si pretendían en serio dar un toque de singularidad a aquel velero.

Eucarístico se negó a explicarle unos planos que dependían de la investigación y continuas reparaciones, trataba de atraer a la eternidad con el único propósito de ajustar con perfección la curva final de la proa. No comprendía que precisamente las criaturas que todavía se las habían con la carne cruda, salvajes en en consecuencia, viniesen a investigar a qué hora le diría adiós a la paisón que era toda su vida. Con un gesto en dirección al sol, le comunicó la seguridad de que antes de dar por terminada una obra que se conciliaba con vientos y aguas bravías, fatalmente se consumiría él mismo.

Respaldo se disculpó. La educación primaria no le había permitido aprender a contender con un artista, o respetar dictámenes de lo que se llamaba una obra de arte.

-¿Y no es artístico lo que trajina con el agua y el tiempo simultáneamente? En Santísimo, la cuenta de las horas no era regresiva, pero avanzaba muy poco hacia el futuro. De modo que bien podían esperar, así como las aguas del Alvarado. La envergadura de la nave le conmovía, en todo se parecía a la ballena que Rectus le había descrito después de sorprenderla en sueños.

-Si el arca del Señor jamás se terminó de construir, menos todavía el barco del hombre, dijo Eucarístico.

Próstatis reaccionó con candor. Por primera vez no le veía registrar a gritos los episodios de Santísimo. Como se le hubiesen conocido con naturaleza amena.

-Temo que le hayamos perdido para siempre, dijo no más.

Hermengarda rechazaba la divulgación de aquella verdad. Sonreía más que los demás. Procuró esconderse por los jardines, para que Filomena no sorprendiese la congoja que tendía a aumentar en su corazón, si por fin se confirmaba la versión de que Eucarístico había abandonado la tierra para siempre. Se había conformado con perderlo para Magnolia, por comprender que no se habría cumplido con ella su intenso destino manual. Eucarístico llegó a firmarle que el amor le confundía. Jamás llegaría a amarla con la voracidad que le exigía Hermengarda, y hacer al mismo tiempo de la madera el registro de su tumulto interior. Al principio, Hermengarda reaccionó, buscando un desquite. Le miraba a la cara con desprecio, le ofrecía alimentos despachurrados con el tenedor y no le ahorró palabras amargas. Cómo podría comprender divisiones de esta clase, que para el cumplimiento de una vocación debiese abstenerse Eucarístico de la actividad amorosa. La invitación que él le hizo fue delicada, en su compañia visitaría el centro de la tierra. Señalando al más venerado árbol de Santísimo, pasó los brazos en torno a la cintura nudosa, parecía gozar con los ojos cerrados. Hermengarda se negaba a creer lo que estaba viendo.

-¿Acaso sentiría lo mismo contigo? dijo él.

A pesar del dolor, Hermengarda le acompañó a la iglesia para que se uniese a la otra. Magnolia le aceptó sabiendo que Hermengarda le perseguiría toda la vida. Sin necesidad de estar cerca, para que se prolongase la sombra que había sobre él, antes de la boda, como sopa ardiente, y cuyas quemaduras habían quedado en la piel. Incluso cocinando para Ofelia, el trabajo diario de engordar a la sobrina, Hermengarda se sentía con derecho a amarle.

-En cuanto sea maestro y se consagre a la madera, le sabré mío para siempre.

Cuando, en los primeros díasl, le habían comunicado el nacimiento de otro hijo de Eucarístico y Magnolia, una soberana incredulidad le afloró al rostro. Jamás aceptó una verdad tan absurda, aunque viese a distancia dilatarse la barriga de Magnolia, y a los hijos crecer. La única amenaza al amor, a su grata memoria, era que Eucarístico se apegase al barco y se abstuviese de otra madera en que trabajar con igual fervor. Le trepidaba el corazón, no se le secaban las lágrimas. Al contrario que Filomena, Hermengarda era menos tibia, menos magra, mucho más alta.

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Fonte: Piñon, Nélida. Tebas de mi corazón. Traducción de Angel Crespo. Alfaguara, 1978. p. 13-18.

TEBAS DO MEU CORAÇÃO

Trecho

Nélida Piñon

Naquele primeiro de julho, porém, Eucarístico começou a abater as árvores prometidas aos filhos como herança, logo que morresse. Avisada de que a família perdia as pompas mais nobres, e pelas mãos de Eucarístico, Magnólia foi ao seu encontro. Pediu que se desse ao menos três dias para pensar. Não se destruía o patrimônio de uma vida inteira em poucas horas de machado. Eucarístico não conseguia ouvir uma única palavra e Magnólia ajoelhou-se rezando pelas árvores enquanto ele as abatia.

Durante dias sua fúria prosseguiu, atingindo quem sabe razões caras ao coração, para nada sobreviver a ele. O alvoroço daquela nova fantasia não parecia destinar-se a Santíssimo, pressentiam os que lhe acompanhavam o ato. E trancando-se Eucarístico na oficina, previamente ampliada, primeiro em direção ao céu, depois em direção ao lado esquerdo e direito da terra, não se podia adivinhar o que desta vez construiria, para precisar de tanta madeira e espaço ao mesmo tempo. Meses depois, ao derrubar as paredes da oficina com a maceta, sob os protestos ainda de Magnólia, até não sobrar um tijolo de pé, ninguém mais duvidou da espécie de trabalho que vinha executando com obsessão. Diante de todos expunha-se o bojo amplo e atrevido de um barco, a que faltavam leme, remos, as velas e o mastro.
Finalmente iria o Alvarado conhecer emoções que a gente de Santíssimo jamais lhe regalou. Não se contavam na história daquelas águas disputas em torno de peixes-espada, sereias cintilantes, de cujas escamas se alimentassem esperanças de construir caixinhas de madrepérola, ou mesmo visitas que lhes ensinassem excêntricas modalidades de se fazer crochê. Os piratas e bandeirantes, que porventura alcançaram Santíssimo com o concurso do rio, agiram sem dúvida com descrição, quase sempre de madrugada, de modo a não os molestarem as correntes, mais bravias à luz do dia. Unicamente Eulália, por capricho ou teimosia, enfeitiçou o rio por breves horas, quando o escolheu como túmulo. Mesmo no momento da morte, houve que lhe censurar o gosto. Não hesitou em cortejar Assunção, cidade do seu amor, deixando-lhes sombra de medo que se surpreendia em certos rostos, sobretudo naquelas casas que não caiavam suas paredes, logo anunciado o mês de maio.

Os pequenos botes que até ali incursionavam admitiam a própria desdita, falhara-lhes o mapa que os conduzia pela terra, ou já não dispunham da firmeza de antes na direção do leme e os remos. Nenhum ali deixou o coração, que o viessem buscar mais tarde. Iabeshad jamais os abandonou. Ainda que os ameaçasse com a certeza de outros mundos, e deixasse no armazém de Bonifácio larvas que se reproduziam sob forma de bússolas, relógios, candelabros, alfinete com pérola nutrida em profundidade superior a mil metros.

Magnólia ressentia-se que não voltasse o marido à casa, elegendo o barco como moradia. Eucarístico não se deixava convencer, enfraquecia-lhe os argumentos com o silêncio. Há muito com gestos afirmara que o verbo, além de borrar-se com tinta negra, azul, rosa, enunciava-se e já passava a não existir, qualquer rede o filtrava, que não mais lhe apresentassem o presumível rosto e o seu febril vaso sanguíneo.

– Ao menos aceite a comida, disse Magnólia. E buscou saber se se oporia a que ele e os filhos aos domingos trouxessem até ele pastelões, galinha assada, outras guloseimas, como se fosse verbena. Eucarístico aceitaria breves visitas, o tempo apenas de destrincharem assados, comê-los com avidez, e logo se despedirem. A cupidez da visita se restringiria ao alimento, e rápida inquirição visual.

Nos domingos que se seguiram, instalavam-se em torno do barco, pois proibira-lhes Eucarístico que subissem nele, a seu juízo a embarcação não havia atracado. Vestiam-se mulher e filhos com os melhores trajes, ainda se arriscando a manchá-los de gordura. A princípio, consideravam o barco um objeto de cerimônia, a que prestavam discretas reverências, evitavam passar perto, ainda que para isto contornassem as árvores que sobraram. No entanto, bastaram aos filhos um único olhar e o primeiro domingo de todos que se seguiram, para se saciarem, uma vez que não voltaram a contemplá-lo novamente.

– Insensíveis, disse Hermengarda, sabendo das visitas.

Ansioso em terminar o barco, Eucarístico trabalhava o dia inteiro. Havia por toda parte promessas de festejarem com aparatos luminosos, balões, batata assada o lançamento do barco nas águas do Alvarado. Um rio que, segundo Rectus alisando revistas poeirentas, devia seu batismo a um estrangeiro precisamente castelhano, que carregava no r e no j, daí a sua ascendência altiva. Respaldado encarregou-se de apontar no caderno a data prevista para o término do trabalho. Urgia respeito a um calendário, ainda que povoado de santos e outras festas, se pretendiam de verdade dar um toque de excepcionalidade àquele veleiro.

Eucarístico recusou-se a descrever-lhe planos que dependiam de inventiva e contínuos reparos, buscava atrair a eternidade com o único propósito de acertar com perfeição a curva final da proa. Não compreendia que precisamente as criaturas que ainda lidavam com carne crua, selvagem pois, viessem investigar a que exata hora diria ele adeus à paixão, que era toda a sua vida. Com gesto em direção ao sol transmitiu-lhe a certeza de que antes de dar por terminada obra que se conciliava com ventos e águas bravias, fatalmente ele se consumiria.

Respaldo desculpou-se. Não lhe permitiria a educação primária aprender a lidar com um artista, ou respeitar ditames do que se chamava obra de arte.

– E não é artístico o que lida com água e o tempo simultaneamente? Em Santíssimo, a contagem de horas não era regressiva, mas muito pouco avançava no futuro. De modo que podiam bem aguardar, assim como as águas do Alvarado. A envergadura da nave o comovia, em tudo se semelhava à baleia que Rectus lhe descrevera após a surpreender em sonho.

– Se a arca de Deus jamais se terminou de construir, menos ainda o barco do homem, disse Eucarístico.

Próstatis reagiu com candura. Pela primeira vez não o viam aos gritos registrar os episódios de Santíssimo. Como se o tivessem conhecido de natureza amena.

– Temo que o tenhamos perdido para sempre, disse apenas.

Hermengarda recusava a divulgação daquela verdade. Sorria mais que todos. Procurou esconder-se pelos jardins, para Filomena não lhe surpreender a mágoa tendendo a aumentar no coração, se afinal se confirmasse a versão de que Eucarístico abandonara a terra para sempre.Conformara-se em perdê-lo para Magnólia, por compreender que não se teria cumprido com ela seu intenso destino manual. Eucarístico chegou a afirmar-lhe que o amor o confundia. Jamais viria a amá-la com a sofreguidão que lhe exigia Hermengarda, e ao mesmo tempo fazer da madeira o registro do seu tumulto interior. A princípio, Hermengarda reagiu, partindo para a desforra. Olhava-o no rosto com desprezo, ofertava-lhe alimentos machucados pelo garfo, e não lhe poupou palavras amargas. Como poderia compreender divisões desta espécie, que para o cumprimento de uma vocação devesse Eucarístico abster-se da atividade amorosa. O convite que ele lhe fez foi delicado, em sua companhia visitaria o centro da terra. Indicando a mais veneranda árvore de Santíssimo, passou os braços em torno da cintura nodosa, de olhos fechados parecia gozar. Hermengarda recusava acreditar no que via.

– Acaso eu sentiria o mesmo com você? disse ele.

Apesar da dor, Hermengarda o acompanhou à igreja, para unir-se a outra. Magnólia o aceitou sabendo que Hermengarda o perseguiria ao longo da vida. Sem precisar estar próxima, para se prolongar a sombra que havia ela derramado sobre ele, antes do casamento, como sopa escaldante, e as queimaduras ficaram na pele. Mesmo cozinhando para Ofélia, o trabalho diário de engordar a sobrinha, Hermengarda sentia-se com direito a amá-lo.

– Enquanto ele for mestre e devotar-se à madeira, eu o saberei meu para sempre.

Quando lhe comunicavam nos primeiros anos o nascimento de mais um filho de Eucarístico e Magnólia, uma soberana incredulidade surgia-lhe no rosto. Jamais aceitou verdade tão absurda, ainda que visse à distância a barriga de Magnólia dilatar-se, e os filhos crescerem. A única ameaça ao amor, sua grata memória, era Euicarístico apegar-se ao barco dispensando outra madeira em que trabalhar com igual fervor. Trepidava-lhe o coração, não lhe secavam as lágrimas no rosto. Ao contrário de Filomena, Hermengarda era menos tépida, menos magra, muito mais alta.
(…).

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Fonte: Piñon, Nélida. Tebas do meu coração. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974. p. 7-11.





Bio fornecida pelo palestrante.