Heliete Vaitsman descobre passado nazista nos pedalinhos da Lagoa




 

Rio de Janeiro, março-abril de 2018.

VAITSMAN, Eliete. O cisne e o aviador. Rio de Janeiro, Rocco, 2014.

Entrevista a Luiza Lobo

 

HELIETE VAITSMAN DESCOBRE PASSADO NAZISTA NOS PEDALINHOS DA LAGOA

Formada em Comunicação e em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e em Didática da Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, foi jornalista das áreas cultural e internacional e colunista especializada em saúde em O Globo e Jornal do Brasil. Atualmente, é editora e tradutora. Autora de Judeus da Leopoldina (Rio de Janeiro, Museu Judaico, 2006), teve seu primeiro romance, O cisne e o aviador (Rio de Janeiro, Rocco, 2014) selecionado como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2015.

 

Seu livro é tocante na construção das personagens femininas. Há uma delicadeza e uma intimidade com elas que parecem indicar um “roman à clef” retirado da realidade. Você utilizou modelos reais para as personagens ficcionais?

R – Sim, houve modelos reais de mulheres que me serviram de inspiração. Como neta de imigrantes judeus poloneses, testemunhei na infância os embates e a profunda dor daquela gente. As três personagens femininas circulam em liberdade num Rio de Janeiro ameno, arborizado, de classe média, entre vizinhos amáveis, o Rio dos anos 1950 e 60. Elas ocultam o trauma ligado ao extermínio de suas famílias na Europa. O desejo de esquecer os horrores da Segunda Guerra e projetar o futuro é algo em comum entre elas, ainda que as três não compartilhem hábitos e nem mesmo inserção social. Acredito que consegui torná-las críveis, sem recorrer a estereótipos redentores. Como acontece com qualquer ser humano, de qualquer origem, elas se apaixonam, riem, sofrem, traem maridos, cuidam de filhos.  É necessário que o leitor acredite nas personagens, que vivem além do que o autor diz sobre elas.

 

Até hoje muitos, em seu país, negam que Herberts Cukurs, a personagem real do livro, tenha sido um criminoso de guerra. O Brasil também não o investigou. Como se explica isso?

R – Negar a realidade pode ser cômodo, por um lado, e por outro há a ideologia da extrema direita. Na Letônia, o governo chegou a homenageá-lo com um selo, em 2004, mas diante das pressões de grupos locais defensores de direitos humanos e do governo israelense, retiraram-no de circulação. As tentativas de reabilitar a imagem de Cukurs (pronuncia-se Tsukurs) integram, ainda hoje, um movimento de revisionismo histórico que, em vários países europeus, acontece junto com a ascensão conservadora e os discursos contrários aos imigrantes.

 

  1. Ao iniciar as pesquisas, já imaginava escrever um romance histórico? Como se deu a evolução desta ideia?

R – Sim. Embora eu tenha começado com o foco na personagem principal, Frida, duas coadjuvantes, Rosa e Clara, ganharam importância. São mulheres fortes, “curadas ao sol de Copacabana”, como diz a letra de George Israel ao falar dos sobreviventes de uma Europa antissemita e violenta anterior à Segunda Guerra. Elas aprendem a ir em frente num mundo melhor, numa sociedade brasileira onde ocorrem grandes mudanças. Não seria possível escrevê-las num vazio político e social, e, à medida que eu as construía, a História também se tornava mais presente.

As pesquisas me levaram a entender o papel de Cukurs como criminoso de guerra. Sua participação é uma incógnita. Ele não era importante na hierarquia nazista e não poderia ter sido o organizador do massacre dos judeus letões. Isso não o exime nem o desculpa,  pois foi um daqueles colaboradores frios e sinistros que fizeram parte do trabalho sujo para os alemães em todos os países ocupados. Os eslavos eram desprezados pelos nazistas, que planejaram e organizaram o genocídio.

 

Você acha que esse deslumbramento com os estrangeiros, louros, altos, de olhos azuis, é uma marca de nosso sentimento de inferioridade colonial? Todas as portas são abertas a eles, na pesquisa ou na sociedade, por serem europeus ou norte-americanos.

R- Concordo que essa pode ser uma forte marca, impressa pela elite sobre as demais classes sociais, que nada ganham com ela. As matérias sobre Cukurs na revista O Cruzeiro, então a mais popular do Brasil, são deslumbradas diante da competência do piloto, o estrangeiro bonitão, apresentado como um empreendedor que, depois de colocar os primeiros pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, prometia transformar o local em grande ponto turístico. Em fotos abertas, aparecem ele e a bela filha fazendo esqui aquático. Quem o acolheu, altas patentes militares da época, não tinha interesse em tomar conhecimento do que homens como ele haviam feito durante a guerra. As autoridades da época igualavam os imigrantes estrangeiros – judeus sobreviventes ou antigos colaboradores nazistas – e a única exigência que se fazia a eles era que não perturbassem a “ordem pública”.

 

Em que medida você acha que o seu livro contribui para uma mudança de mentalidade, alertando as pessoas a não serem tão ingênuas, se informarem, lerem mais sobre a história, o passado?

R – Quando os fatos são apresentados sem pieguice nem adjetivação, como procurei fazer, a transmissão da História se dá naturalmente. Claro que o leitor precisa ter vontade de sair daquela zona de conforto que adere ao lugar-comum quando se fala de guerra e de perseguições, onde tudo é explicado como uma luta do Bem contra o Mal, ou dos indivíduos sadios contra os loucos. O Reich de Mil Anos pretendeu apagar tudo o que não fosse “ariano”, da arte à ciência e às pessoas. Os indivíduos deviam aceitar-se insignificantes, sem subjetividade, sem direito a memórias próprias. Mas tudo o que minhas personagens fazem e sentem comprova sua significância, sua singularidade. Acho que a humanidade delas impacta mais o leitor do que se fossem estereótipos.

 

Você não acha que a ingenuidade do Brasil com relação à questão judaica e dos nazistas que viveram aqui é causada pela oralidade e desinformação? Já leu o livro de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector? Achou-o exagerado?

R – O Brasil é muito voltado para dentro, e o que acontece “lá fora”,  para além das paisagens e do turismo, interessa a um grupo reduzido. Mas os  colonizados buscam a aprovação dos estrangeiros. Jornais brasileiros publicam a repercussão de acontecimentos daqui pela imprensa estrangeira, como se o olhar de fora fosse imprescindível! Mas governos não têm ingenuidade. Para os brasileiros em geral os judeus fazem parte da nação, não são objeto especial de apreço nem de desapreço. Foram discriminados no período Vargas, mas depois se integraram completamente. As pessoas com acesso a livros e filmes se horrorizam com o que fizeram os nazistas, e gostam de saber que nazistas foram presos aqui. Não há aqui uma questão judaica.

Gosto do livro de Moser sobre Clarice. O autor repetiu informações já conhecidas, pode-se alegar. Mas sempre citou as fontes e nunca afirmou que queria ser completamente original. Ele quis contar uma história e o faz sem os rodeios com os quais a cultura ibérica fala de temas “delicados”. Por exemplo, a mãe de Clarice teria sífilis por ter sido estuprada antes de imigrar para o Brasil. Como inexistem provas, não se deveria falar disso? Mas convenhamos que nem a CIA e o Mossada juntos poderiam encontrar provas de um estupro no início do século XX nos confins da Ucrânia. Moser segue a tradição norte-americana das biografias. É uma tradição que abomina a censura e a exclusividade do saber.

Outro ponto é que Clarice foi, por muitos anos, qualificada na imprensa como uma brilhante escritora pernambucana, filha de imigrantes ucranianos. Ora, nada mais distante de um ucraniano que um judeu ucraniano! Mas ela teve sua persona pública composta também pelos elogios aos seus pômulos faciais eslavos! Atribuir-lhe “origem” judaica é outro ponto estranho. O que é origem? Ser judeu não é uma nacionalidade, portanto ou se é ou não se é judeu. Para Moser, Clarice entra numa categoria similar à dos Jewish American writers. É uma escritora brasileira-judia.

 

Você costuma ser metódica em sua escrita, ou trabalha por inspiração? O seu trabalho de jornalista lhe deu disciplina de se sentar e escrever até terminar um capítulo ou até terminar uma determinada tarefa para o livro?

Não tenho a disciplina que gostaria de ter. Quando tenho tempo, sento diante do computador e posso ficar cinco horas escrevendo sem parar. O problema é sentar! Deixar de lado outras tarefas, para mergulhar num romance exige uma disposição, uma crença de que o texto terá valor. Por isso mesmo não estou conseguindo finalizar um romance que comecei a escrever há um ano. No jornalismo a gente tem deadlines, no romance não.

 

Quanto tempo levou para escrever este livro? Quais foram as dificuldades que encontrou, após a pesquisa, na escrita propriamente dita? Foi pesquisando e escrevendo, concomitantemente, ou terminou a pesquisa e só então escreveu a ficção? Heloísa Maranhão dizia que após a pesquisa ela fechava os livros e misturava tudo. Mas o resultado por vezes ficava bastante confuso…

Levei dois anos. Primeiro terminei toda a pesquisa, em livros e periódicos da época. Tinha o dobro de informações do que as publicadas, pois minha editora, Vivian Wyler, ponderou que um romance brasileiro não deveria tratar em minúcia de situações específicas, sob pena de tornar-se tedioso. Um exemplo: as polêmicas sobre a invasão nazista dos países bálticos, que dificilmente empolgariam o leitor brasileiro.

Escrevi ao mesmo tempo os capítulos factuais e os ficcionais, ao sabor da minha própria vontade, sem organograma. Quando me cansava do horror nazista, falava de Frida, Rosa e Clara. Até o último momento voltei aos livros de História para conferir fatos. Vi milhares de fotos, mapas, entrevistas. Acabei me tornando “especialista” em Letônia, embora sem nunca haver pisado no país. A dificuldade na escrita, para mim, é encontrar a palavra exata, e encadear as frases num ritmo que tenha alguma beleza. Dou importância ao som, ao encadeamento, ao tom. Reescrevi algumas vezes a fala das personagens, tentando fugir da artificialidade. A voz interior e os diálogos muitas vezes emperram textos com tramas ótimas.

 

Como classificaria seu romance, lírico, histórico ou de metaficcionalidade historiográfica (nova história)?

Se eu fosse Jorge Mautner, diria que é um amálgama, tudo junto e misturado, como o Brasil! Não houve intenção de fazer metaficção, mas talvez seja possível dizer que algo ocorreu nessa direção. Isso cabe à crítica. O que posso dizer é que a parte ficcional foi escrita com a emoção, um fluxo, como num transe em que o autor recebe o espírito das personagens, recria seu modo de falar, sua visão de mundo. A recriação, quando é bem sucedida, é uma maravilha, aquela história do “seja universal, fale de sua aldeia”. O leitor de “O cisne e o aviador” pode entrar alternadamente no espaço literário e no espaço real. Pode refletir diante da política e também sentir empatia diante dos dramas das personagens ficcionais. Pelo menos foi o que eu procurei.

O que é verdade, o que é imaginação, o que são as lembranças? Como jornalista, aprendi a checar todas as informações, a lidar com a realidade sem fantasiar. Como romancista, pude “viajar” nesse tema fascinante que são as memórias e suas relações com a História. No caso, memórias de personagens ficcionais com as quais os leitores podem se identificar. Todorov afirma que as memórias são um terreno de liberdade que só os regimes totalitários pensam ser possível domar. O real que elas recriam não é a realidade tal como ela se apresenta, nem como os romances ditos realistas pensavam que era possível apresentar.

 

Suas próximas obras terão aspectos históricos e jornalísticos, como este romance?

Sim. Gostei muito dessa mescla. O próximo livro está caminhando nessa direção, com personagens europeus e brasileiros e, de novo, as barbaridades e as consequências da Segunda Guerra, as figuras sinistras.  Na Europa, a Segunda Guerra é uma memória viva, assim como na Argentina os anos de chumbo continuam a ser lembrados, ensinados aos jovens. O Brasil oficial é que cultiva uma desmemória.





Bio fornecida pelo palestrante.

Aarhus Poems – Luiza Lobo




Dec. 2005 – Aarhus, Denmark

Christmas at Den Gamle By
First you shrink
To the size of a thumb
Then you step in
The miniature carriage
That shines and lies
on the mantelpiece
And head quickly
to the Old City
The show will soon begin
In the small theater
The stage is crooked and pink
The chairs painted green
and so very uncomfortable
You can barely fit it.
But remember,
you are a dwarf,
don’t worry
Just raise a magic wand and
The music begins
The show must go on!
 
New Year’s Eve and Hope
She came from a land where the sun always shines
And the wind blows lightly
It is many years from now
She doesn’t remember her family
But here the streets are covered with snow
And seem to crack her bones.
The chilly wind that runs through her clothes
has robbed her of her soul.
But she hasn’t lost her hope.
At the sound of the fireworks
She decides that she doesn’t mind
And has the great idea to steps on a bus
She doesn’t know where she is going
Only to the other side.
She hops on the bus but the next stop
It reaches the end of the line.
She hops off and waits for another bus
just like the first
And soon it pops up in the next corner
She hops in and hopes for the best
At least she can rest her tired old feet
and heat her broken breast.
It is at the sound of the fireworks that
She hops off and steps on another bus
Just like the other in that city
She doesn’t remember if she ever got a family
But hopping on and off she got herself lost in the city
She doesn’t know where she is going
Just to the other side
But at the sound of the fireworks she hopes for the best
For sure she will fi
 
Contemplation
Aros
Aarhus
Air hus
Brick walls
Floating steps
Stretch your hand
Reach another dimension
Vertical horizon
Straight lines
White walls
 
Banegaard
Greek temple
Lit at night
Yellow light
Straight tracks
Iron bars
Wait for the next train
To nowhere
At the Banegaard
Where are you going?
Just walking in the Banegaard.
There the noise
There the life that never stops
There the yellow light like in a Greek temple
That makes the station slightly float at night
 
Marseliesborg on a Winter Sunday
When not a leaf on the trees
When not a soul in the streets
When not any life in the woods
Slowly head to the Queen’s Palace.
She won’t be there
But there is an observation booth for the private guard
Waiting for you to spy who is approaching
The Queen may arrive at any moment
Most probably in the next summer.
There the world has stopped
The colors have faded
Only white pervades as far as the woods and clouds go
Movement is gone
People are home.
Step on the garden where the Queen is not
And see the marks of your steps deep into the snow
Only two squirrels and one aligator in iron
Talk around the iced lake stiff with cold
Maybe you want to have a chat and a cup of tea too?
The ivy-stand is white as snow. Nothing stirs.
Not a nightingale, not a cricket, not a crow
All is white
The clouds the grass the roof of the castle
Enchanted by some strange white spell
Winter has come forever
Even the window-panes are ice-surfaced
They have become mirros that stare back at you
But they don’t carry an answer.
 
The Strand Vej in Summer
The Strand Way
The Strange Way
Where you can look for a stone
To sit and fish
There is a canoe
Or the other side of the sea
Where the cliffs are
A sailing boat goes by
As fast as the wind
It drifts constantly driven by a never-ending wind
A wind that never ceases never ends never ever never ends
 
A Spring Afternoon at Rissko Psychiatric Hospital
The Rissko hospital is a palace
Under a spell. You must be careful
Or else you may never come out of it.
Once inside it you will wander by the
French gardens the lawn the old oaks
Full of mystery and you can go up the trees
And catch apples as big as soccer footballs
You can even play soccer if you find someone to play with
The problem is that there is no one around.
In the palace there are so many bedrooms that you can’t count
And the gardens are full of blind alleys
Just pick up a flower and put it on your hair.
You may want to sit on a bench and watch the boats or talk to someone there
The problem is that there are no other visitors
But you are welcome to any of the workshops
Where you can make your own sculptures
Just like those in the garden.
Perhaps a trunk without members or mouth?
Or a face without eyes or brain? You choose!
By producing your own handcrafts or works of art
You will be allowed to wander forever and ever in the alleys without end
And will be let to try alone how to find your way out of the mazes formed by hedges and bushes
It is spring and you can take your time.
Nobody will disturb you there
Except your own thoughts.
At lunch time, remember lunch time?
A big table will be laid just for you
with fish and shrimp and fruit
Juices and pure water and delicious desserts
together with wine, everything beautifully served
And the same for dinner, and lunch, and dinner, indefinetely.
At night you can dance interminably through
the immense ball-room floors where music never stops to play
To sleep you can choose any of the bedrooms
There are no nuts there, not a face, not a soul.
You can look through the windows and watch
The silent sailing boats sailing by
Very silently indeed perhaps there are heading to Ebeltoft.
It is all so peaceful, so very peaceful, so too peaceful
That You may not be allowed to leave this peace, this silence, this dreamy loneliness
Step out of the palace before they see you – there you may be a queen forever.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Luiza Lobo – resenha sobre Elogio do gozo (2013), de Ida Vicenzia




RESENHA – LITERATURA E CULTURA

14 de janeiro de 2017

POR Luiza Lobo

 
Vicenzia, Ida. Elogio do gozo. Contos. Rio de Janeiro, Ponteio, 2013. 88 p.
 
Ida Vicenzia tem uma ampla experiência de jornalista e crítica teatral (atualmente mantém o blog idavicenziablogspot.com). Publicou O teatro católico de Octavio de Faria (RJ, Ponteio, 2013), várias biografias e obras teatrais, e tem vários livros e projetos em andamento.
Elogio do gozo (2013) é seu primeiro livro de contos. Antes, minicontos. 28 em 88 páginas, a maioria de uma a três páginas, além de uma homenagem inicial a Lygia Fagundes Telles. É certo que minicontos são bem diferentes de contos, e mais ainda de novelas. Para começar, minicontos não compõem uma atmosfera completa, com princípio e meio (deixemos o fim para a Poética, de Aristóteles; não é necessário chegar a tanto. Podemos ter uma “obra aberta”, sem final, na expressão de Umberto Eco). Mas é claro que esses insights de situações nos deixam curiosos sobre os personagens, e até sobre os desfechos. Ressentimo-nos bastante de um contexto mais estendido e delineado.
Seus minicontos são em geral escritos em Ich-Erzählung (narrativa em primeira pessoa). Por exemplo, em “Feiticeiro do lago” (p. 57), a narradora se refere a dois homens amados trancados numa chácara – mas não sabemos quem são nem quem é esta narradora. Neste, como em outros contos, o Ich-Erzählung fica muito preso na cabeça da autora/narradora, e o texto só faz sentido como poesia, pela beleza das imagens e palavras escolhidas. Excesso de memória e de imaginário são traiçoeiros; podem se transformar num monólogo ou num solilóquio. Frequentemente não sabemos quem fala, pois é claro que o narrador em Ich-Erzählung não pode realizar todos os papéis. O Ich-Erzählung reforça a ideia de que os contos são escritos como se fossem um diário.  “Cosa nostra” (p. 69-70), passado em Nova York, embora em terceira pessoa do singular. Refere-se ao musical Os Miseráveis, baseado em Victor Hugo. Mas a emoção da West 46th Street, um sequestro, a Broadway… tudo marca a emoção daquele momento. Quase desejaríamos que fosse datado, uma vez que hoje há mais chineses que italianos em Nova York, e há mais Máfia russa que a Cosa Nostra.
Pelo fato de serem tão curtos, com forte eixo metafórico, os minicontos funcionam, portanto, como poesia: à p. 65, “Cena obscena”, temos, realmente, um poema; “a grande orquestra”, p. 71; à p. 54, o miniconto “O garoto” termina com um poema; “Tempo refletido”, p. 55, é um poema. Curioso que nos poemas a narradora é externa, dirige-se a uma personagem que não é ela, ao contrário de nos minicontos. Em meio a esse “O livro dos excessos” (p. 19-22), o/a leitor/a pode perder um pouco o norte, sem entender o enredo, e se perguntar: Mas, afinal, quem é tio Ranulfo?  Quem é Paulo? Lisa Maria? Pedro Borges? (Ver o conto “Pra dizer que te amo, (Lembrando Octavio de Faria)”, p. 43-p. 44). Quem é Paulo louco? O amor é louco? (p. 37). Quem é o “cruel Fernando Lobo?” e quem é o “talentoso jornalista”? – em “La historia de un amor”, p. 35-37). Alguns textos são minúsculos minicontos, como “Álcool ou Prozac?”, de apenas quatro linhas, no qual a narradora assume a ilusão, quem sabe até a poesia diante da vida e do texto, concluindo-o: “Nem álcool, nem prozac: o que a alimenta são as grandes doses de autoengano que toma todos os dias” (p. 61). Aqui a narradora não usa o Ich-Erzählung, mas antes se refere a uma personagem que não é ela mesma, e a opção parece ser, mais uma vez, pelo eu lírico poético.
O ponto positivo dessa narradora que fala em tom de diário é ser sempre uma voz de mulher. Nós nos acostumamos por décadas a ouvir a monocórdia voz masculina nos textos literários. Agora mesmo temos o tonitruante Pablo Neruda no cinema, recitando seus poemas com sua voz empostada que tinham os poetas do passado. A mulher veio, a partir da década de 1970, principalmente, no Brasil, romper com esta formalidade acadêmica e introduziu uma poesia pessoal, subjetiva, minuciosa, cotidiana, até doméstica (por que não?). Talvez por isso a epígrafe do livro é dirigida a Lygia Fagundes Telles, uma pioneira na afirmação da literatura de autoria feminina e a dissertação de Ida Vicenzia versa justamente sobre Cecília Meireles. Mas aqui, como entre as pioneiras da literatura de autoria feminina, presenciamos o uso de um feminismo ligado ao feminino, à delicadeza, que em geral é atribuída à mulher, de forma essencialista, o que é falso, já que tais atributos de feminilidade também podem ocorrer independentemente do gênero, devendo-se mais à cultura e ao contexto de vida do que a uma categoria intrínseca do ser humano. Freud mesmo se inclinou a atribuir à mulher a histeria e ao homem a ação, a racionalidade – armadilha já denunciada por Simone de Beauvoir no pioneiro O segundo sexo, mostrando que tendências de comportamento devem ser atribuídas principalmente à cultura, e não à biologia (ou ao DNA, palavra muito em moda hoje em dia, que é aplicada a torto e a direito em referência a racismo, homofobia ou outras escolhas ideológicas pessoais, jamais herdadas no código genético!). O traço poético feminino da primeira fase da literatura de mulheres do século XX e fins do século XUIX tem mostrado mulheres impreterivelmente gentis e delicadas, com uma sensibilidade à flor da pele. Essa imagem de sensibilidade delicada ocorre em Ida num miniconto que parece valorizar a mulher oriental e seu gozo solitário, num passado remoto (p. 63) – transmitindo uma imagem de equilíbrio e harmonia. À p. 77 há também referência a uma mulher sufi, um poço… Num movimento contrário, nesse livro de Ida algumas mulheres parecem ter envolvimento político, participar de ação, rompendo com o estereótipo do imanentismo feminino como delicado e gentil. A imagem da mulher feminina também habita as páginas de Ida Vicenza sob a forma de um grand jetté, passo elaborado de balé (ver “Nuvem passageira”, p. 67). Mas, ironicamente, é um passo de balé masculino, e se trata de um roubo….
Quase ao final da obra, o conto se pergunta se o é e afirma que é mesmo um conto… (p. 81). A própria autora propõe, em metalinguagem, a definição sobre suas opções literárias, ao recorrer a Mário de Andrade quando ele “diz que conto é tudo o que chamamos de conto”. Mas este apelo a Mario deve-se, claramente, ao fato de que a autora tem consciência de que se trata de um livro que oscila entre a poesia e a prosa poética.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: "Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro" – Luiza Lobo




RESENHA POR LUIZA LOBO

Literatura e Cultura – Janeiro de 2017

SANTOS, William Soares dos. Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro. Pref. Claudio Aguiar. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2016. 180 p. il.
Já tivemos muitos textos em homenagem ou enquadrados na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, como os de Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, crônicas de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, contos de Clarice Lispector, Sérgio Sant’Anna, Rubem Fonseca, Sonia Coutinho, novelas, como A estrela sobe, de Marques Rebelo (Edi Dias da Cruz), e, na música, incontáveis compositores… sem falar em José de Alencar e Machado de Assis. A lista é muito ampla, e poderia desencorajar qualquer um que não fosse William Soares dos Santos.  Este guerreiro escritor, pesquisador, oriundo dos bancos da Faculdade de Letras da UFRJ e agora seu professor de italiano, não para jamais. Ano passado publicou rarefeito – poemas, pela mesma editora, Ibis Libris, que agora lança também este livro de contos situados na cidade do Rio de Janeiro. Além destes, ele já publicou livros sobre didática de ensino, em colaboração, e diversos ensaios. Sempre original e múltiplo, William é exímio desenhista e fotógrafo. Ele é também o autor das fotos em branco e preto que ilustram cada um dos contos, marcando o bairro em que se passa a história, sempre apresentando ângulos inusitados.
As epígrafes do livro são em grego (de Menandro) e em italiano (da Divina comédia, de Dante Alighieri), justamente o Inferno, versos 100 a 105 do canto V, que trata do amor. Mas não há qualquer analogia entre os contos e os males do Inferno, de Dante, tanto que a passagem escolhida fala do amor: este “tomou-me pelo seu desejo tão forte, / que, como vês, não me abandona”. Os contos rememoram antes o amor e o encontro que o mal e o desencontro infernais. São doze contos que tratam de “o amor da mãe pelo filho”, do “poliamor”, da divisão “entre dois amores”, “flores de jacinto”, com referência a Virginia Woolf. Os que mais se aproximam do inferno são “ulisses” (p. 169-175), que nos remete à ilha da feiticeira Circe, a qual transformou os marinheiros em animais e quis aprisionar Ulisses para sempre, e “poliamor” (p. 89-103), que parte de uma descoberta de amor poligâmico e termina num cruel inferno.
O conto “flores de jacinto” (p. 57-71), vai na mesma direção que “poliamor”, no sentido de construir contos de amor fora do costumeiro modelo heterossexual. A descrição de uma solteirona “já com mais de 25 anos” (p. 60) está localizada no ano de 1970, e seu estudo num curso de inglês e sua vida são associados à biografia homossexual de Virginia Woolf. Referências a amores homossexuais parecem uma tendência da nova geração, agora liberta de entraves preconceituosos contra todo tipo de amor fora das normas canônicas. Tais preconceitos permanecem, mas, agora, liberados pelo menos na legislação, e relações amorosas tornam-se tema literário não mais reprimido, mesmo que nem em todas as mentalidades.
“O amor da mãe pelo filho” se situa em data ainda anterior: 1961. Foi nessa época que a favela do Pinto foi desalojada para dar lugar a um condomínio de luxo, chamado Selva de Pedra, e outro para baixa renda, numa proposta de dom Helder Câmara de misturar ricos e pobres – prédio que ainda existe no jardim de Alá, na divisa entre Ipanema e Leblon, uma das áreas mais valorizadas da cidade, tendo vista para a praia e para a Lagoa. É talvez o conto mais social – e sua colocação em primeiro lugar no livro dá uma impressão inicial ao leitor de que todo o livro correrá nessa linha… A favela é queimada pelo poder público – recurso constantemente utilizado em São Paulo para retirar moradores recalcitrantes e desocupar terrenos particulares – mas o final é feliz, embora focado num único caso.
William vai percorrendo os bairros – o centro, em “flores de jacinto”, com a confeitaria Colombo, na rua Gonçalves Dias – Copacabana, em “o divórcio” (p. 73-87), com o “divorciando” repetindo o estado de espírito do noivo, anos antes, ao correr em casa atrás do documento de pacto antenupcial esquecido pela estagiária, e exigido pelo tabelião para realizar o divórcio. A corrida pelas ruas de Copacabana serve de ensejo para o personagem relembrar os anos passados no matrimônio que termina. O clima de ansiedade do noivo renovado em “divorciando” é muito bem reconstituído, sem uma atitude maniqueísta de bem ou mal nas cores do passado, mas uma vida transcorrida até ali com felicidade, também. Foi apenas o amor que acabou, abrindo novas possibilidades.
O conto “flores de jacinto” parece preceder cronologicamente “entre dois amores” (p. 49-55), que o antecede nas páginas do livro. Neste há também uma primeira e uma segunda mulher, enquanto no anterior a “flores de jacinto”, intitulado “um amor” (p. 37-48), paira uma sombra triangular ou uma indecisão amorosa num caso amoroso relatado do ponto de vista do homem por um narrador onisciente. “entre dois amores” é também narrado por um narrador onisciente que mergulha no interior do protagonista masculino. Tem final triste, assim como “poliamor”. Antes que tudo há o desencontro, a impossibilidade do amor juntos, como em “o retrato da infanta maria teresa” (p. 159-167).
O amor de Ulisses por Penélope, difícil quando se realiza e cheio de esperança quando reaparece, pode corresponder ao mote de todos os tipos de amor do livro: “(…) ele testificara que o amor não era, necessariamente, o elemento formador da felicidade. Eles não poderiam mais viver juntos, já que o que ela dizia sentir o aprisionava, impedindo-o de viver uma existência plena na qual realizaria os sonhos grandiloquentes de conquista” (p. 171). Esses sentimentos atribuídos a Ulisses podem muito bem ser os do narrador. Digamos que William tenha nos oferecido uma Arte de amar, à la Ovídio, mas uma arte de amar dos tempos pós-modernos, cheios de desencontros, frustrações, indecisões, indefinições, abandonos e morte, sinal de nossa época, em que mergulhamos cada vez mais fundo no eu. Talvez por isso a opção pelas letras minúsculas, infringindo a norma gramatical e a do amor metafísico.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A VOZ ESPIRITUAL DE ISMAEL COUTINHO – Luiza Lobo




Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
Minicurrículo: Luiza Lobo é professora da pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, e foi professora da UERJ. É membro da ABRAFIL (Associação Brasileira de Filologia) e do Pen Clube do Brasil, e autora de 20 livros. Edita as revistas Literatura e Cultura e Mulheres de Literatura desde a década de 1990.
Resumo: Este ensaio discute o modernismo brasileiro na tendência espiritualista, dentro do contexto mundial, e a inserção do latinista e professor Ismael Coutinho neste movimento, através de duas obras de poesia que deixou inéditas, ao falecer.  O ensaio, que foi a introdução do livro reunindo Silhuetas e Bosquejos (Rio, de Janeiro, Botelho, 2014), busca resgatar essas obras de criação poética do professor de latim e português.
Summary: This essay discusses Brazilian modernism in its spiritual trend in the frame of world modernism, in which are inserted two books written by the Latinist and teacher of Portuguese and Latin Professor Ismael Coutinho, who left them unpublished at his death. They are Silhuetas and Bosquejos, and this essay was an introduction to the book in which they were printed together (Rio de Janeiro, Botelho, 2014).
 
 


 
A VOZ ESPIRITUAL DE ISMAEL COUTINHO
Luiza Lobo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
 
I – O modernismo mundial
Nossa ideia sobre modernismo é de que foi um movimento que revolucionou a linguagem em quase todas as latitudes da Terra onde ocorreu.  Pioneiros como Picasso, com o quadro “Les demoiselles d’Avignon”, que lança o cubismo, em 1909, e a norte-americana Gertrude Stein, com “Autobiografia de Alice B. Toklas”, de 1910, esta geralmente não reconhecida como pioneira, abriram o caminho para a arte dos também emigrados norte-americanos Ezra Pound, T. S. Eliot e os que lançaram o fluxo da consciência como nova técnica narrativa: o irlandês James Joyce e a inglesa Virginia Woolf.
O modernismo propôs uma transformação radical na linguagem poética, na prosa ou no verso, voltando-a para a expressão cotidiana, despojada e adotando uma visão de mundo que se identificava com o cosmopolitismo, a rapidez e a mudança social, o espírito revolucionário, em oposição à placidez romântica e o preciosismo parnasiano. No Brasil, sabemos como essa revolução recorreu ao indianismo, em busca do reconhecimento dos valores nacionais das formas nativistas de expressão. Em todo o mundo, o modernismo se afastou da linguagem erudita e adotou a oralidade e a naturalidade da expressão do sentimento, aproximando-se do cotidiano e da forma denotativa e descritiva, como ocorre na linguagem jornalística.
Desde o barroco a poesia se estabeleceu como uma forma refinada e se tornou, ao longo do tempo, uma arte de elite – seja da nobreza, seja do clero. No período da Ilustração o culto da forma e do estilo elaborado chegou ao auge. Surgiu dessa tendência a poesia parnasiana e simbolista, que buscou palavras raras, por vezes obtendo resultados artificiais, como no caso do parnasiano Olavo Bilac, e redundou no afastamento do público-leitor. Sua poesia nada tem a ver com a de Baudelaire ou mesmo de Cruz e Souza, ambos simbolistas – que usam rimas ricas e palavras raras, mas não rejeitam a expressão natural do sentimento.
Já no romantismo, cujo projeto era alcançar uma comunicação mais ampla, a poesia se esmerou em transmitir o sentimento de forma simples e clara, e por vezes recaiu num sentimentalismo subjetivista exagerado, como ocorre em certos poemas de Lamartine, de Heine e, entre os românticos brasileiros, em Casimiro de Abreu. Essa tendência ao sentimentalismo se torna mais acentuada nos poetas do Brasil, pelo caráter tipicamente oral de nossa cultura, numa sociedade pouco letrada e pouco inclinada a uma educação formal.
Na terminologia do formalismo russo, representado pelos críticos Tynianov, Chklovski e Eikhenbaum, o estilo literário nada mais é do que uma mudança da função fática, que é própria da linguagem cotidiana, para um novo uso, estético e mais refinado, da função literária. Segundo esses críticos, há apenas uma tênue separação, mais de intenção ou função do que de conteúdo, entre o discurso comum usado na fala cotidiana e a escrita literária. O que ocorre no modernismo dos anos 1920 é o entrosamento dessa forma fática com o discurso erudito literário, passando-se a empregar a linguagem denotativa e simples na comunicação artística. Bastou deslizar de um contexto (ou função) para outro para se chegar ao uso “modernista” na linguagem literária. Com isso, rompeu-se a aura que sacralizava a literatura e o ato estético, existente até o século XX, que eram antes associados à inspiração sagrada, proveniente das musas ou deuses, ou ligados a um exercício nefelibático, realizado nas altas esferas da sofisticação de escolha de vocábulos, como num Olavo Bilac. Resultou disso um grande artificialismo na poesia, em busca de rima e de métrica perfeitas, obtidas através de inversões sintáticas radicais e busca de palavras incomuns, que nem sempre ecoavam de forma natural e agradável, principalmente aos ouvidos brasileiros, avessos à norma culta herdada de Portugal.
Na rígida língua francesa, considerada sacrossanta, o modernismo não ocorreu de forma tão radical na morfologia e na sintaxe, embora, desde o Romantismo, o estilo tenha se tornado menos rebuscado e com orações menos longas na prosa, em comparação com o estilo do século XVIII.
Em 1924, a revolução promovida por André Breton na prosa foi de cunho mais surrealista, no plano das ideias, visando a uma abertura para o campo do inconsciente, do sonho e do desrecalque, antes do que propriamente uma mudança na linguagem. Ele utilizou seus estudos de psiquiatria, em especial de Charcot, além de psicanálise, de Freud, para criar uma obra como Nadja (1924), livro antológico que identifica a cidade de Paris com a personagem enlouquecida Nadja. Ela era, na verdade, uma paciente psiquiátrica que Breton conheceu durante seu curso de medicina. Ao mesmo tempo em que fez essa identificação metafórica entre a loucura e a urbs caótica, cosmopolita, Paris, Breton rompe com a ideia de uma unidade essencial do indivíduo.
Mais além foi Guillaume Apollinaire, no teatro, em 1917, com sua peça Les mamelles de Tirésias (As mamas de Tirésias), que tem como protogonista um homem tresloucado que perambula pelo palco monologando com um manequim. Entretanto, em ambos os casos, a “revolução da linguagem poética”, na expressão de Julia Kristeva, se deu mais na autocrítica  do pensamento que na alteração da linguagem no plano da expressão. Apollinaire antecipou o teatro do absurdo das peças curtas de Ionesco, sendo as mais famosas A cantora careca (1950) e O Rinoceronte (1957). Ionesco foi aceito pelo Colégio de Patafísica, que funcionou de 1948 a 1973, na Biblioteca Nacional de Paris (tendo sido reaberto em 2000), editando livros ousados, como o Pai Ubu, de Jarry, e James Joyce. As obras de Ionesco, romeno naturalizado francês se destacam pelo silêncio (que, cerca de dois anos depois, será utilizado pelo dramaturgo Samuel Beckett) e pela acusação metafórica de temas sociais, provocando um efeito de  nonsense. Em geral, não ocorreu na poiesis francesa uma mudança no uso da linguagem, na poesia e na prosa, como no modernismo em língua inglesa ou no Brasil, se excetuarmos a poética revolucionária de Mallarmé, com seu Um lance de dados jamais abolirá o acaso (1897), que rompe com estrofe, métrica e rima, e o seu Livro (póstumo), que poderia ser lido em ordem aleatória (retomado por Cortázar no romance Amarelinha, de 1963).
Já o dadaísmo, que surgiu no período de entreguerras (entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) surgiu na língua francesa como um movimento niilista que introduziu o nonsense como forma de crítica da sociedade e elemento de transformação da linguagem. Ele negava a possibilidade de uma filosofia e uma cultura estruturadas. Esse movimento utilizou o que o futurista italiano Marinetti chamou de “palavras em liberdade”, deixando o pensamento fluir sem censura, e, na poesia, aboliu qualquer uso de estrofe, métrica ou rima, chegando a introduzir desenhos no texto em prosa ou em verso, neologismos, e assim desconstruindo a organização sintática do pensamento. Destacou-se no que se entendia então por “ilógico” ou “irracional” na linguagem, mas que Freud bem definiu como o inconsciente, uma segunda visão, imagem onírica e recalcada, ou a “linguagem esquecida” (dos sonhos, da poesia, da criação artística), no dizer de Erich Fromm.
Efetivamente, o século XX se iniciou com diversos manifestos que denotavam essa procura por uma grande revolução linguística e estilística – paralelamente aos grandes movimentos políticos do século – anarquismo, comunismo, socialismo, integralismo. Seu início deu-se com a Primeira Guerra Mundial, em 1914, e não em 1900, em plena bela época – no dizer de Gilberto Mendonça Teles, em seu importante Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. Havia toda uma admiração pelas buzinas, dos carros e das fábricas, o barulho das ruas da cidade, como centro cosmopolita fervilhante de idéias, em substituição ao ambiente natural, rural e bucólico dos campos, que inspirara a literatura, do Renascimento ao Romantismo. O século XX sentia-se a um tempo horrorizado e fascinado com a revolução industrial iniciada no século XVIII: o automóvel substituía, com seus cavalos-máquinas, a força dos cavalos de carne e osso; a  indústria armamentista, ainda com metralhadoras, numa guerra de trincheiras, com soldados e tanques, surgia com toda a pompa na imaginação de F. T. Marinetti. Italiano nascido no norte da África, em Alexandria. Ele saudou a modernidade com um clamor incendiário – até as bibliotecas deveriam ser queimadas! – no seu principal manifesto, o Futurista, de 1909, entre diversos outros. Articulou várias mudanças na forma de expressão: a abolição dos adjetivos e advérbios, visando à força e rapidez da comunicação, como ocorre no jornalismo. Os longos períodos propostos por uma nobreza passadista e em extinção, que escrevia de acordo com ócio de que dispunha, dava, assim, lugar a um discurso rápido, tenso, dos tempos modernos, infelizmente cada vez mais belicosos. Nesse ponto Marinetti anteviu o que viria no século seguinte; não se pode afirmar com toda a certeza se ele percebeu essa tendência à transformação na sociedade que o cercava ou se ele realmente introduziu essa nova perspectiva em seus escritos revolucionários. No entanto, Marinetti se notabilizou apenas como um autor de manifestos, mas que não conseguiu se firmar como escritor de literatura, pelo menos fora da Itália.
 
II – O modernismo no Brasil
Já o Modernismo brasileiro teve uma forte vertente indianista, que não fora abordada no Romantismo brasileiro, que tratara o indígena de forma fantasiosa, imaginativa e indireta, através das correntes europeias (Montaigne, Rousseau, Chateaubriand) ou norte-americana (James Fenimore Cooper), em lugar de escrever sobre o indígena brasileiro real.  (Gonçalves Dias utiliza o termo “manitô”, ou espírito dos mortos, que sequer fazia parte do imaginário indígena brasileiro). Nos anos próximos a 1920, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral se dedicam ao estudo antropológico das sociedades indígenas sob a luz de Freud, para compreender o pensamento dos povos chamados “primitivos”. Essa abordagem inspirou, por exemplo, Raul Bopp na escrita do seu enigmático Cobra Norato, que tenta unir a mitologia indígena à noção de inconsciente. Diversos quadros da grande pintora Tarsila do Amaral, que retirou sua inspiração das cores típicas do interior do Brasil caipira numa visita a cidades de Minas Gerais. Cenas como a de “A Negra” (1923), “Paisagem com touro” (1925), “O Abaporu” (1928) e “Antropofagia” (1928) representam a visão naive da vida interiorana brasileira, com sua mescla de cores vivas oriundas das culturas indígena e africana contrastando o sentido de “racionalidade” social europeia imposta sobre essas visões de mundo sul-americanas. O objetivo de nosso modernismo foi criar um Brasil independente, com suas características culturais tropicais peculiares e consolidar a variante brasileira da língua portuguesa. Em vários textos emblemáticos de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, na prosa e na poesia, e em diversas expressões reveladas na Semana de Arte de São Paulo, como o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, ou a escultura do Cristo de trancinhas, de Brecheret – assim como no primeiro livro de Drummond, Alguma poesia, de 1929, o que representa para nós o modernismo é uma atitude combativa e revolucionária em busca de uma expressão linguística e de uma imagética próprias. E Oswald de Andrade foi quem melhor condensou esse sentimento com seus dois manifestos, Pau Brasil (1924) e Antropófago (1928). No primeiro sugere, com a memorável imagem de um “negro” que gira a manivela do desvio nos trilhos, invertendo a direção de um trem, que se operasse uma mudança histórica na mentalidade colonial brasileira, inclusive incorporando a presença da África aqui, rumo ao Brasil real, não europeu. Com essa imagem quis Oswald mostrar que a cultura no Brasil deveria recuperar todas as suas fontes nativistas, a indígena e a africana, e não continuar a repetir modelos e formas trazidas da metrópole, de forma maquinal, como se fôssemos sua mera continuação do outro lado do Atlântico. Já no segundo manifesto ele propôs a junção das culturas na produção de um novo amálgama linguístico e cultural, resumido no conceito de antropofágico, que antecipa muitos trabalhos do pós-modernismo.
É claro que toda essa ideologia ufanista de pátria autônoma desenvolvida no modernismo se esvaziou um pouco sob o impacto do pós-modernismo, que nos mostrou o equívoco do lema de Pound: “make it new” – seguido no Brasil pelos irmãos Campos, em especial Haroldo de Campos, e por Décio Pignatari. Como renovar completamente uma língua? Escrever e pensar sempre retomam algum ponto na linguagem, uma plataforma pré-existente, pois não se cria a língua do nada, não se inventa ab ovo coisa alguma. Sempre se transforma o que existe, como dizia Lavoisier.
Note-se, no entanto, que, dentro do próprio modernismo brasileiro, há uma linha de escrita menos preocupada com a mudança radical da forma, do tema e do estilo do poema que a dos autores citados acima. Trata-se da poesia modernista praticada por Cecília Meireles e por Darcy Damasceno, na linha espiritualista – compartilhada por Murilo Mendes e Jorge de Lima – que recebeu o epíteto de “poeta cristão”. Nessa autora, captamos a tradição açoriana – por influência da avó, originária dessas ilhas – que ela cultiva através das formas fixas, tais como no Romanceiro da Inconfidência. (Ver, a respeito desse poema, meu artigo in Perspectivas I, Rio de Janeiro, Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ, 1984, p. 109-15).  Apesar do uso de um vocabulário despojado, próximo ao cotidiano, na tradição católica e espiritualista, Darcy e Cecília, unem poesia e música, prática não tão distante quanto se possa pensar, da poesia de Mário de Andrade, que segue essa orientação do teórico simbolista René Ghil. A preocupação cristã e espiritualista desses poetas parece remontar ao parnasianismo de Horto, único livro de Auta de Souza, caracterizado pela extrema religiosidade da autora rio-grandense-do-norte. O uso da linguagem cotidiana, imantada pela descrição das cenas de nossa história e vivências, redundou, em Cecília, no belíssimo poema, talvez o seu mais famoso, em que ela revela sua intimidade ao leitor-receptor: “Eu não tinha esse rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro (…)” (“Retrato”, in Retrato natural, 1949). Falta às obras de Ismael Coutinho essa sensibilidade transbordante de emotividade que impregna esse poema de Cecília Meireles.
 
III – Os dois livros de poesia deixados inéditos por Ismael Coutinho
Vemos, pela leitura de Silhuetas e de Bosquejos,[i] ambos datados pelo autor de 1922, mas escritos entre 1917 a 1925, que Ismael Coutinho é avesso a tais “revoluções da linguagem poética” que caracterizaram o modernismo mundial – com exceção da linha espiritualista. Nesses seus dois livros, que deixou inéditos, esmera-se no uso da expressão refinada da norma culta e na obediência à forma do soneto, na rima e na métrica bem marcadas e num glossário oriundo da poesia clássica. Apenas em algumas composições dramáticas curtas, ou autos, recupera a “linguagem caipira” brasileira, em tom ingênuo ou naif, mas sempre num contexto cômico. Por exemplo, em “Dois roceiros” (ver Coutinho, Bosquejos), os personagens Chico e Mané, que remetem para o teatro de Artur de Azevedo, como em A capital federal, em que se confrontam o ambiente rural e o urbano.
A poesia de Ismael Coutinho não se insere na revolução modernista quer no uso da língua portuguesa, quer na afirmação do nativismo da cultura brasileira. Ao contrário, salvo as exceções apontadas, busca praticar o vocabulário clássico herdado do passado greco-latino e congelado pelo Simbolismo-Parnasianismo, em especial por Olavo Bilac, que o poeta cita como uma de suas fontes de inspiração, ao lado de Casimiro de Abreu, Victor Hugo e Camilo (mas não Fernando Pessoa…). Todo o movimento da poesia de Ismael Coutinho integra-se a sua prática de professor de língua portuguesa e no projeto de conservar a norma culta.
Assim, há, nos dois livros deixados por Ismael Coutinho, um tom de filiação romântico-simbolista-parnasiana, e até epígrafes que se referem aos grandes românticos – Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, poetas maiores – ao lado da busca vocabular de termos raros que nos remete à antologia da Poesia Simbolista, de Andrade Muricy, cujo maior expoente é Olavo Bilac. Há um uso constante, no poeta, da rima e da métrica perfeitas – levando-o a utilizar termos raros, como “travesseira”, para rimar com “ligeira” (ver Bosquejos). Já na apresentação de Bosquejos, desculpa-se com o leitor, afirmando que a obra é pouco pretensiosa, e oferecendo-a apenas à família; no entanto, sua temática, a métrica, a rima e o glossário pouco diferem do outro livro, Silhuetas. Neste apresenta principalmente sonetos, metrificados em decassílabos, heptassílabos e pentassílabos. Apenas os versos são bem mais longos, em geral, e há mais variação nos metros em muitos poemas. Mas ocorre a mesma busca de vocábulos raros que afasta o estilo dos dois livros do modernismo e o aproximam do parnasianismo; já na temática, ambos denotam o mesmo sentimento ingênuo, familiar, religioso e apelam a cenas rupestres próprias do romantismo, que poderiam aproximá-los do modernismo espiritualista.
Seus temas são, prioritariamente, a própria morte e o enterro em cova rasa sob a sombra de um cipreste, que chorará com o poeta, numa subjetividade exacerbada, que corresponde à primeira fase romântica subjetivista, das três fases apontadas por Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira. Não se dedica quer ao indianismo quer ao realismo nacionalista, que são as duas fases seguintes. As referências mais frequentes são à família, Deus, Cristo, a Cruz, o sentimento religioso, o abandono, o terror do sono e da solidão, a “estrada” – termo muito utilizado – ou caminho para a velhice e a morte, ao lado da descrição da natureza, os pássaros, a avó, mas também o pai e a mãe. Todo esse ideário se rege pela forma rebuscada e a correção vocabular, sintática, morfológica, em função da norma culta, como lemos na poesia parnasiana de Machado de Assis – chega mesmo a empregar o termo “taful” – e jamais se afasta da métrica exata e da rima perfeita. Não há versos livres, soltos ou brancos, como pregava René Ghil, visando a uma sensibilidade livre; e nada está mais distante da poética de Ismael Coutinho que o conceito de “palavras em liberdade”, do futurista Marinetti.
Já a forma latina adotada pelas línguas neolatinas, francesa, espanhola e portuguesa, tem cunho suficientemente rígido em si, pelo grande número de vogais que têm e que marcam muito os sons, contribuindo para a monotonia dos versos, que obedecem a uma contagem silábica rígida. Essa monotonia impede maior musicalidade, como era possível na poesia grega e na tradição celta e bárdica anglo-saxônica, presente em Burns e Byron, para não citar a liberdade quase total dos versos de T. S. Eliot em “The Love Song of J. Alfred Prufrock” (1910-1915) ou “The Waste Land” (1922), por exemplo. Este ignora as regras da métrica e da rima e obedece apenas ao ritmo dos pés métricos (marcados musicalmente, ao contrário das sílabas poéticas, nas línguas neolatinas). Essa característica, possível na língua inglesa, foi levada ao ápice por Gerald Manley Hopkins. Paralelamente, os poemas de Eliot apresentam uma crítica filosófica do mundo moderno, ao retomar as grandes questões metafísicas (que já tinham sido tema dos poetas metafísicos ingleses, no barroco), mas aplicando-as ao cotidiano e unindo-as ao nonsense. Para acentuar esse efeito, Eliot acrescenta notas a “The Waste Land” que parodiam as referências a ensaios, mas que na verdade são falseadas, pois retiradas a esmo de livros que encontrou na sala de leitura de um hospício onde ficou internado (com a esposa) por alguns meses. Esse poema sofreu muitos cortes ao ser editado por Pound. Já este, nos Cantos, juntou recortes de notícias de jornal aleatoriamente, em grandes estrofes de versos brancos e livres, que levam ao extremo a proposta de Sousandrade no Guesa (1867-1884), que já havia feito uso desse tipo de material jornalístico nos dois fragmentos em limerick desse seu poema épico. Pound transforma a poesia simbólica e aurática num simples enumerar de fatos pouco importantes retirados da imprensa, num fluxo de palavras denotativas e destituídas de “beleza”, no sentido da estética de Kant e Hegel, mostrando, realmente, um mundo em desencanto (Weber). Por coincidência, Pound também sucumbe ao apelo do integralismo de Mussolini – repetindo a experiência de Marinetti – talvez porque ambos tenham procurado desse modo ordenar ou frear sua ousada revolução das “palavras em liberdade”. Por isso, tratado como traidor pelos Estados Unidos após ser recolhido no campo de concentração de Pisa, ao fim da Segunda Guerra, Pound passou doze anos (de 1945 a 1957) internado no hospício de Saint Elizabeth, em Washington, D.C., prisão psiquiátrica negociada pelos seus admiradores, em troca da cadeira elétrica; por isso são intermináveis os Cantos, chegando a quase mil páginas.
Assim, Ismael Coutinho atravessa o modernismo erguendo o facho parnasiano das belas letras, indiferente a sua desconstrução pelos poetas de seu século. Insiste na fala preciosista do poeta inspirado pelas musas, na subjetividade do poeta em seu caminho solitário e da morte (é a “estrada”, de Dante?), foge a um sentido político coletivo para a poesia. No solipsismo da voz do poeta vemos um silêncio, um basta a todas as ideologias, devido a sua inclinação espiritualista. Em seus poemas, escolhe o tom elevado de uma estética pura, aurificada, nefelibática, e nada semelhante ao heterônimo Ricardo Reis de Fernando Pessoa, que se identificava com Walt Whitman e a destruição dos valores europeus visando ao surgimento de um mundo moderno.
 
IV – Imagens: Bosquejos
Bosquejos, com seus poemas escritos entre 1919 e 1922, basicamente em Niterói, é praticamente contemporâneo de Silhuetas, cujos poemas são datados de 1922 a 1925, mas se inicia e termina ligeiramente mais tarde, e sempre naquela cidade. Os três poemas que abrem o livro se enquadram na sua dedicatória, feita pelo “Autor” a “seus pais”, a seus “idolatrados irmãos”, evidenciando toda a importância da família no seu imaginário. Em “Meu livro” (datado da cidade de Campelo, 1921), Ismael Coutinho afirma: “Procura outros vergéis, outros palmares” – mostrando sua filiação a Gonçalves Dias e sua romântica “Canção do exílio”. Suas epígrafes também mostram sua filiação ao romantismo. Em “Morrer! Morrer!” a epígrafe é de Castro Alves. Nos poemas seguintes, “Ao meu pai”, a epígrafe é de Lamartine; e em “A minha mãe”, é de Álvares de Azevedo: “Quando partia do teto amado / E que, apressado, / Me dirigia para a estação, / E tua mão / E os olhos teus / Dizerem adeus / De longe via (…) Sinto-te perto, vejo-te em sonho, / Anjo risonho”.
Toda a poética ou teoria da criação em Ismael Coutinho se dirige à vida e à linguagem subjetiva, intimista, platônica, mas também ligada à religião, ao didatismo e moralismo, como em “Ser poeta”, quando afirma que ser poeta é “externar os sentimentos (…) é ser todo ensinamentos; (…) é viver meditabundo”; “viver por entre as flores, / Salmodiando sem ser compreendido” (…) “cantar na frauta amena, / É viver abraçado à sua cruz” (Niterói, 1920).
A maior parte dos poemas exibem uma sensibilidade ligada à casa, à família, ao sentimento religioso mencionado acima – que também se encontra no tom adotado pela corrente espiritualista do modernismo, na figura dos quatro poetas já citados: Cecília, Murilo, Darcy e Jorge de Lima. No entanto, na poesia de Ismael Coutinho, que teve formação religiosa em seminário, embora tenha se desviado da ocupação de padre para a de professor (muito pouca diferença, na verdade), revela-se, explicitamente, o tema cristão católico, como em “O Monge” (Niterói, 7 de setembro de 1920): “Ei-lo, de pé, no cimo do rochedo, / Apenas rompe a aurora e enceta o dia, / A contemplar extático a agonia / Da vaga que se embala no penedo.” Também em “A J… R…” a faceta religiosa é explícita: “Anjos em alas na mansão sagrada / Tiram das liras doce melodia / No ar vibrátil, pálida irradia / A suave luz de eterna madrugada” (Niterói, 1920). A “Visão” (Niterói, 1921) menciona um “anjo da guarda, que te segue ao lado” no “paraíso”, e, mais explicitamente, no poema “Deus”, Ismael Coutinho une a noção de religiosidade cristã com a natureza, outro tema presente na sua poética: “Eu era então imerso em incerteza. / Interrogava a terra, o espaço, os céus, / Buscando ver na bruta natureza / A mansão do supremo ser – que é Deus. // Eu perguntei à brisa que passava / Varrendo as verdes comas vegetais: / ‘Em que lar Deus habita?’ E por resposta: / ‘Ascende mais.’” (Niterói, 1921). Em “Perdão, meu Deus” pede a Ele pelo Brasil e pela humanidade (Niterói, junho de 1921). Há muitos outros poemas explicitamente religiosos, todos escritos no período do seminário em Niterói, como “Hino seminarístico” (abril de 1921); “São João Batista” (22 de novembro de 1919), “Jesus no Calvário” (20 de novembro de 1919), “Perdão, Senhor” (1921), “Queixas” (abril de 1921), “Jesus!” (sem data), “Virgem Maria” (maio de 1921), “A Dom Sebastião Leme” (20 de outubro de 1921); “Rosa branca” anuncia o nascimento de Cristo (junho de 1921).
Os bons sentimentos cristãos imantam o mundo que cerca o poeta, como a figura de “O Ceguinho” esmoler (Niterói, abril de 1921), que aparece em Silhuetas sob a forma de uma mãe mendiga e cega. “Vida e morte” surge quase como um poema didático, sobre a alegria nos lares, os pássaros nos ninhos, as gotas de orvalho e os sinos “a planger finados (…) ao toque da Ave-Maria” (Niterói, 30 de outubro de 1921). “Obrar bem e mal” (Niterói, 31 de outubro de 1921), se inclina na mesma direção didática e reassume um tom próximo dos poemas medievais de Anchieta, que sem dúvida Ismael Coutinho conhecia, com sua imagética simples e ideologia cristã da caridade (obrar bem).
São muitas as referências à natureza, e, como um São Francisco de Assis, pelo menos na alma, Ismael Coutinho povoa seus dois livros com inúmeros animais, em especial pássaros, ao lado de todo tipo de plantas e animais do campo. Em “A rosa e o colibri” surge a ingenuidade romântica de um diálogo entre uma rosa e um pássaro: “Disse um dia uma rosa a um colibri / ‘Por que, malvado, não me vens a mim / Oscular, como fazes às mais flores, / Ao resedá e ao pálido jasmim?’” (Campelo, 1921). Ali, revoam animais alados, ao lado de flores delicadas, para representar o sentimento do poeta, como em “O Pássaro” (Niterói, 1919), “O Canário” (Campelo, 1921) ou em “Saudade” (Campelo, 1921), o qual se refere a uma andorinha que pode ser sua irmã. Os versos de “Minha terra” – “A minha terra é um ninho / De mimoso passarinho, / Igual no mundo não há; / É um jardim de açucenas, / Em que nas tardes amenas / Canta o meigo sabiá” (Campelo, 1921) – ecoam, numa paráfrase, os de Gonçalves Dias e de Casimiro de Abreu, tanto no glossário quanto na abordagem na temática, relacionando o passado com a pureza dos dias remotos, vividos na inocência em meio à natureza. Aliás, a paráfrase não está ausente da obra do autor, como no poema “Se eu tenho de morrer”, que ele anuncia como “Imitando Casimiro de Abreu” (dezembro de 1921). O preciosismo da linguagem rompe, no entanto, com essa visão paradisíaca tão cara aos românticos quando, na sexta estrofe de “Minha terra”, Ismael Coutinho se preocupa com a rima e rompe o pacto de emoção que a poesia deve provocar no leitor, arrebatando-o, ao escrever: “A fauna do meu torrão, / Se lhe falece um leão, / Supera em outro animal; / As searas, mantos de ouro, / Ostentam cabelo loiro / Té na zona tropical.” Na personificação de “A voz do vento” emprega estrofes sobre a natureza para transmitir um sentimento quase sagrado da criação da natureza e dos animais: “Nas quebradas seus gemidos, / Vão morrer como ganidos, / De cão que de fome chora; / E eu transido de espanto, / Não posso dormir, enquanto / O vento geme lá fora” (Niterói, maio de 1921), ou em “À margem de um rio”. Delicados animais confundem-se com descrições da natureza, como em “A lua do sertão”: “A lua desta cidade / Não é a casta deidade / Que vagueia no sertão” (Niterói, 1921).
 
V – Formas: Silhuetas
Enquanto Bosquejos é apresentado ao leitor como um livro íntimo e pouco pretensioso, quase uma lembrança para a família, parece-me que em Silhuetas Ismael Coutinho procurou esmerar-se ainda mais na forma, utilizando muitos sonetos, e sempre com rima e métrica perfeitamente acordadas. Aqui a temática é mais séria, mais literariamente selecionada. Já o primeiro poema é, mais uma vez, dirigido “A minha mãe” (1922). O mesmo tema se repete em “Minha mãe” (Niterói, 1º de outubro de 1923) e em “O olhar de minha mãe” (Niterói, 2 de outubro de 1923), escrito no mesmo dia que o anterior. Também ao pai dedica “Conselhos paternos”, em cuja voz busca modelo e exemplo para seu futuro (Niterói, 1º de novembro de 1933). “Minha avozinha” é um soneto. Essa figura que conta histórias, cercada de crianças (Niterói, 28 de agosto de 1924), é descrita noutro poema, “A avozinha”, como uma senhora de cabelos brancos que narra histórias à luz da lua que “aclara a varanda”, enquanto “assopra uma aragem branda… / Geme ao longe um noitibó…” (sem local, 1º de outubro de 1925).
Contudo, já o segundo poema do livro envereda por um tema novo, “O Proletário”, que tem perfil social, embora seja tratado do ponto de vista emocional: “Vejo no pranto a mágoa que o consome: / Pois deixa os filhos a gemer com fome / E a esposa sobre o leito agonizando” (Niterói, 3 de maio de 1922). Na mesma linha seguem “O mendigo” (Niterói, 7 de maio de 1922) e “A Esmola” (Niterói, 8 de maio de 1922), sendo os três sonetos. Já “Gratidão” adota os dodecassílabos, numa única estrofe de 24 versos e retoma o tema religioso, no qual Jesus se volta para as “criancinhas pobres” (Niterói, agosto, sem ano). “Rosa e borboleta” surge como um diálogo semelhante à “A rosa e o colibri” de Bosquejos, em 1921, mas aqui só temos o local, Niterói, sem data, que pode ser entre 1919 e 1922.
“O Canarinho” (Niterói, sem data), também se refere a cenas de natureza; este poema tem uma variante, o soneto em decassílabos “Meu canário” (novembro de 1925), enquanto outros retomam o tema religioso, como “O Sacerdote”, homenagem ao Exmo. Sr. Bispo Diocesano (sem data) e “Sta. Isabel” que descreve o milagre efetuado por essa personagem religiosa (Niterói, 29 de agosto de 1924). Em “Ave, Maria!”, belo soneto em decassílabos, afirma, no primeiro terceto: “‘Ave, Maria!’ O velho bronze entoa, / No campanário, e esta sublime loa / E o miserere do final do dia…” (Niterói, 15 de agosto de 1924).
 
VI – Conclusão: uma vida espiritual
Deduzimos que o cunho religioso da poesia de Ismael Coutinho se deve a sua inclinação monacal, tendo estudado dos 17 aos 26 anos no Seminário São José, de Niterói, a qual não foi cumprida (casou-se, teve sete filhos), mas que se condensou na profissão de professor. Conforme afirma Rosalvo do Valle (UFF), que foi seu aluno no Colégio Brasil, em Niterói (ver “O homem e a obra”, in  http://www.filologia.org.br/XV_CNLF/homenageado.htm): “Para ele, o magistério era um sacerdócio, a que se dedicava como um missionário. E o professor, que forma alunos, foi-se tornando o mestre, que forma discípulos.”
Natural de Santo Antônio de Pádua, RJ, onde nasceu em 12 de maio de 1900, segundo filho da família, faleceu em 24 de julho de 1965, de acidente de automóvel, em São Paulo. Ismael Coutinho passou uma infância pobre, pois o pai ficou paralítico e a mãe, muito católica, costurava para fora. Ele a ajudava como vendedor ambulante de pão, no pequeno arraial de Paraoquena, dos poemas de 1919 – que é, assim como Campelo, localidade próxima a Santo Antônio de Pádua, onde nasceu. De 1917 a 1926, sedimentou profundamente seus estudos de latim e grego no seminário. Até então, seus estudos de língua e gramática tinham sido feitos como autodidata, devorando gramáticas; já o latim ele aprendeu no secundário, com o professor José Pinto de Sousa, que o aconselhou a melhorar o manejo da língua através da leitura de bons autores – como os padres Antonio Vieira, Manuel Bernardes e Frei Luís de Sousa. Pela mão de dom Agostinho Benassi, começou o primeiro emprego no magistério, nos anos de 1927 e 1928, no colégio Sílvio Leite, na cidade do Rio de Janeiro, sempre se destacando pela integridade de seu caráter. Em 1929 fixou-se em Niterói.  Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, dedicou-se ao ensino e a cargo público na Prefeitura de Niterói, como chefe de gabinete (1941-1944), além de outros dois cargos públicos: secretário de Educação e Saúde (1947) e presidente do Conselho Estadual de Educação (1958). Foi fundador da Academia Brasileira de Filologia, em 26 de agosto de 1944 e colaborou na fundação da atual Universidade Federal Fluminense (antes denominada Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).
Afirma Rosalvo do Valle (ver homepage acima), que Ismael Coutinho publicara, em O Município, de Lavras (MG), sonetos e pequenos textos em prosa, às vezes com o pseudônimo de João das Chagas, escritos quando era seminarista em Niterói. Num caderno por ele deixado de “Poemas e artigos publicados”, encontram-se as seguintes criações: a) sonetos: “Minha Mãe”, “Natal”, “Soror Teresinha”, “Retorno” (publicado em Lira, Resende, RJ), “A cigarra” e “Conselhos paternos”; b) em prosa, sob o pseudônimo de João das Chagas: “Ruínas” e “Almas penadas”. C) há cinco poemas manuscritos: “Quando o teu vulto passa”, “A H. L. F.”, “Esfinge”, “Amor e Receio” e um soneto sem título – todos datados de Belo Horizonte, dezembro de 1926), seguidos de outras composições poéticas, datadas (08/05/1927), ou sem data. Talvez o último poema que publicou (Belo Horizonte, 05/02/1957) foi “À minha netinha Branca”, escrito para a neta primogênita pelo “vovô Baé”.
Podemos afirmar que a principal preocupação de Ismael Coutinho, em sua poética, prende-se ao tema religioso cristão aliado ao tom didático, moral, educativo, como no último poema de Silhuetas, o soneto “Meu rosário”: “Este rosário sempre me acompanha, / Acompanha-me sempre pela vida (…) // Hei de guardar, num lindo relicário, / Todas as contas deste meu rosário, / Depois de velhas, entre murchas flores, (…)” (novembro de 1925). A literatura religiosa, após as criações excepcionais da poesia de José de Anchieta, os sermões do Padre Antonio Vieira e a poesia sacra de Gregório de Matos, no barroco, não teve grande repercussão na criação poética brasileira. Surge assim, na vertente espiritualista da poesia modernista brasileira, um autor que exerceu a arte religiosa, inserindo-a na preocupação com a norma culta e no cuidado com a técnica de poetar – arte na qual sobressaiu Cecília Meireles. Nem poderia deixar de ser assim sua poesia, tão esmerada, tendo sido Ismael Coutinho titular de língua e literatura latina na Universidade Federal Fluminense.
1 Este ensaio serviu de introdução à edição das duas obras inéditas de poesia Silhuetas e Bosquejos, de Ismael Coutinho publicadas num só volume (Rio de Janeiro, Botelho, 2014). Por ocasião do lançamento, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fiz uma palestra a respeito do autor no IX Congresso Nacional de Língua e Literatura da ABRAFIL, no auditório do 11º andar daquela universidade, no dia 22 de agosto de 2011. Ismael de Lima Coutinho dá nome ao Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, localizado em São Domingos, em Niterói. Ele foi grande professor de português e latim, além de filólogo que se dedicou a estudar o sistema verbal latino-português.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Florência diante de Deus: Eliezer Moreira – Luiza Lobo




RESENHA

Eliezer Moreira, Florência diante de Deus. São Paulo, Patuá, 2015. 215 p. ISBN 978-85-8297-164-2.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
O original livro de Eliezer Moreira, Florência diante de Deus (2015), que é o seu segundo, chama a atenção pelo título “religioso” nesses tempos pós-modernos em que tanta gente procura em seitas e cultos uma resposta linear e harmônica para o desconcerto do mundo atual. No entanto, o aspecto religioso é por ele tratado de forma agnóstica, não só na voz do narrador externo quanto na perspectiva da própria personagem, Florência. Há um anjo no enredo, já anunciado logo no primeiro capítulo, mas a ênfase na novela – não ousaria chamá-la de romance, direi por que depois – está mais na relação entre as personagens e o eco de suas ações e da biografia da protagonista na pequena cidade. Apesar de Jair Ferreira dos Santos, em seu percuciente posfácio, escrever que o enredo poderia “acontecer em qualquer época e lugar”, inclino-me a imaginar o livro transcorrendo na cidade de Juazeiro da Bahia ou em Januária (citada na epígrafe), no médio São Francisco, cidade de Minas a apenas 150 km da Cocos natal de Eliezer. Referências ao rio São Francisco permeiam o texto, a epígrafe e a própria estrutura do livro.
Seja como for, creio que o arcabouço da literatura do Nordeste, com seus cordelistas e cantadores, tão presentes até recentemente, até o advento da televisão, está no cerne da concepção da obra. O enredo é linear, como uma forma simples – segundo nos foi apresentada por André Jolles em seu famoso livro As formas simples. Isso não vem em demérito do livro, mas sim como característica de seu enredo: inicialmente nos é apresentado um problema. Haverá um anjo ou Deus que possa intervir diretamente no desfecho da vida humana? Em seguida este mesmo tema ou hipótese é perseguido página a página, até o final, sem intervenção de outros fatores a não ser a atuação das personagens da cidadezinha onde se dá a trama. Já um romance teria de introduzir diferentes núcleos e intrigas, peripécias, clímax, novos temas e lugares, incursões até mesmo no passado, através da memória, possivelmente maior impregnação do imaginário, até chegar a um desfecho por vezes desconectado com as páginas iniciais. O romance corresponde, até certo ponto, ao que chamamos de novela, nos seriados de televisão: um encadeado de novellas, como a de Boccaccio, interligadas pelas personagens em comum. Tanto é assim que a forma do romance não está incluída no livro clássico de Jolles, já que o romance é uma forma complexa. Desse modo, eu chamaria Florência diante de Deus de novela, não a da televisão, mas uma novella enquanto forma oriunda do período medieval-renascentista, em que um jongleur, jogral ou menestrel relata histórias extraordinárias nos castelos ou nas feiras populares. Exatamente o que foi transplantado para o Nordeste do Brasil, entre cantadores e contadores de histórias, e que está na raiz da composição que Eliezer Moreira empregou aqui. Ao mesmo tempo, a história de Florência tem tudo a ver com a fábula, tão próxima da literatura oral, uma das principais formas simples estudadas por Jolles.
Oriundo de Cocos, na Bahia, não é à toa que Eliezer mostra sua admiração por Jorge Amado logo na epígrafe: “A Jorge Amado, grande e sempre vivo”, e que no posfácio Jair Ferreira dos Santos mencione A morte e a morte de Quincas Berro d’Água como fonte ou inspiração para a escrita deste livro. A tradição oral está presente em Jorge Amado, dadas as suas vivências desde a infância numa cultura oral tão forte quanto a que existe na Bahia, pois nasceu numa fazenda em Ferradas, distrito de Itabuna. É preciso notar que o enredo de Quincas (1959), também uma novela, se dá inteiramente post-mortem, como no caso do genial romance de Machado de Assis Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). Já em Florência o enredo é prévio à morte, e nada sabemos sobre o seu desenlace no além.
Roteirista e especialista em cinema – trabalha atualmente na Unitevê, canal universitário da Universidade Federal Fluminense – Eliezer não se mostrou isento da técnica oral, performativa e teatral do in media res que constitui a base do gênero dramático, apresentando sua história no presente do indicativo, cena a cena. Nada mais condizente com a tradição literária oriunda dessa literatura popular nordestina. Impossível criar histórias ligadas ao passado se a memória oral não pode acumular tantos fatos quanto o texto escrito possibilita; e daí a ênfase no dramático e na representação do atual, do presencial e do fato presente.
Eliezer Moreira não está sozinho nesta rica tradição oriunda da literatura oral brasileira, que data pelo menos da tradição sertaneja do Romantismo, com José de Alencar, Bernardo de Guimarães, Simões Lopes Neto e, no romance de 1930, com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, e, posteriormente, Jorge Amado e até mesmo, em alguns aspectos, João Guimarães Rosa.  Tradição reforçada pelas obras de Câmara Cascudo e Mário de Andrade e que se tornou um pouco abandonada nos nossos tempos urbanos e pós-modernos, em que o interior agrícola do país foi abandonado e a população se acumula em aglomerados citadinos e megalópoles centopeicas, com forte reflexo na literatura, onde já não entram cavalos e carroças, mas sim automóveis, motocicletas e aviões. A novela dialoga mais com o público mais velho e menos ligado às maquininhas da vida urbana, tais como o celular e o computador, como bem lembra o posfaciador, que fala em arcaísmos e eruditismos do texto, isso porque o interior do Nordeste – como também o de Minas Gerais, Goiás e dos dois Matos Grossos – guarda ainda algumas estruturas frasais e modos de dizer de antanho.
Enfim, todo esse comentário permite igualmente traçar uma correspondência com Gabriel García Márquez e sua literatura do realismo mágico, como bem lembrou Jair Ferreira dos Santos. A obra se liga, assim, à tradição latino-americana, não na linha de Miguel Angel Asturias, Alejo Carpentier e Nélida Piñon, que elaboraram extremamente sua linguagem, ou como Guimarães Rosa, mas na forma essencialmente típica de García Márquez que sempre foi fiel às histórias que ouvia contarem na infância ao longo de toda a carreira, mantendo-as na sua autêntica linearidade, como um verdadeiro contador de histórias.
Parabéns a Eliezer, por este segundo livro, que continua o sucesso de A Pasmaceira (Rio de Janeiro, Record, 1990), ganhador do prêmio Graciliano Ramos, da União Brasileira de Escritores.





Bio fornecida pelo palestrante.

Resenha: Reflexos & reflexões: Marco Alexandre de Oliveira (Gringo Carioca) – Luiza Lobo




reflexaoRESENHA
Reflexos & reflexões, Gringo Carioca (pseud. de Marco Alexandre de Oliveira), Rio de Janeiro, Oito e meio, 2014. 87 p. ISBN 978-85-63883-60-5.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
É inegável a impregnação concretista, neste Reflexos & reflexões (2014), de Marco Alexandre de Oliveira, que o publica com o pseudônimo de Gringo Carioca, e nem poderia deixar de ser. Em seus trabalhos em congressos e na própria tese de Doutorado estudou bastante a poesia de base concretista, em suas idas e vindas entre os Estados Unidos e o Brasil. Brasileiro, mas educado nos Estados Unidos, há alguns anos decidiu aventurar-se e fixar-se aqui, o que lhe rendeu a confortável posição de bilíngue.
O livro de poesia, se não me engano o seu primeiro, surpreende pela maturidade do autor – embora tal surpresa não devesse ocorrer, dada a quantidade de estudos que este aluno de “honours” nos EUA já realizou. Chegando ao Brasil, logo desbravou os espaços do ensino, saltando do IBEU para a PUC, como quem vai e volta até a esquina.
O livro se abre muito inventivo, trazendo definições dicionários de reflexo e de reflexão, seguindo o modelo modernista de Eliot, no Waste Land, que nos preparou boas armadilhas em forma de boutade com supostas fontes utilizadas no seu The Waste Land. Mas aqui Marco segue à risca a ideia de reflexo, em que a verossimilhança entre objeto e imagem é estilhaçada, o que nos leva à reflexão.
Passado o susto inicial, deparamos com um índice – realmente índice, indício de palavras-guias, e não sumário, a rigor – de três páginas, que são um primor de súmula do pós-moderno. A maior parte dos títulos tem uma ou duas palavras, por vezes artigo e substantivo. Já este “índice” indica a linha concretista paródica e crítica escolhida pelo jovem autor: um corte seguro nas palavras e na realidade cotidiana levando a metáfora a tal extremo que esvazia a poesia de todo substrato sentimentalóide que em geral permeia a poesia contemporânea. Menos Drummond, nos seus momentos mais piegas, e mais Cabral, Augusto e Haroldo de Campos, ou Décio Pignatari nas suas fases mais cortantes.
Este corte no senso comum fica evidente em títulos como “sem zen”, “senso (in)comum”, “só lido”, “zazen” etc. Para completar o espírito de criatividade, o rapaz ainda faz uma intertextualidade com os dois sumários de Guimarães Rosa em Tutameia, que apresenta diversos jogo com as letras do alfabeto, seja nos sumários, seja no nome das personagens. Assim, os poemas vão de a a z, e todos os títulos vêm em minúsculas.
O famosíssimo Poema de sete faces, de Alguma poesia (1929), de Drummond, Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida, tão parodiado, inclusive na conhecida versão de Torquato Neto, ganha aqui uma inventiva releitura carioca, intitulada “poema de 7 caras”, que começa: “Quando nasci, um anjo malandro / desses que vivem na Lapa / disse: Vai, gringo! ser carioca na vida.”  Engenhoso também na sua penúltima estrofe, quando apresenta este auto-retrato: “Mundo mundo vagabundo / se fosse profundo / seria até bacana, não seria esse lixão. / Mundo mundo vagabundo / mais vago que nem palavrão. // Eu devo acrescentar / que esse sol / que esse sotaque / deixam a língua enrolada como outra” (2014, p. 57).
Mas há outras páginas menos paródicas com relação à poesia lírica modernista, mesmo que ainda tenham um travo do “para que tantas pernas, meu Deus?” da última estrofe do Poema de sete faces: “Eu não devia te dizer / mas essa lua /
mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo” e que mergulham mais profundamente no concretismo, como o “para poesia pura”: para que poesia, / poesia para quê? // para poesia, / “poesia para” // poesia que para, / para que poesia // para poesia, / “poesia pura” (2014, p. 52).
Já noutros momentos a opção concretista é um fato – mas que não perde o sentido de mensagem, o que às vezes desaparecia no excessivo afã visual, na poesia concretista. É o caso do poema “perguntas”, título que aparece no índice, mas que na pág. 55 tem apenas ao alto sete pontos de interrogação; o poema se compõe exclusivamente de pontos de interrogação formando um enorme ponto idem. O recurso da interrogação tem uma variante cujo título, no índice, é “charadas”, mas que na pág. 31 surge apenas como vários pontos de interrogação em negrito sugerindo diversas perguntas, enigmas ou charadas.
“Tão alone” (2014, p. 79) é um poema bilíngue que diz tudo com muito pouco: “tão alone / So só”, no qual duas palavras são em português, tão e só, e duas em inglês, alone e so – que por acaso também significa tão, o que reduz a estrutura desse poema a dois versos redundantes, misturando línguas. “Zazen” (2014, p. 85), o último poema da mostra, joga com as letras z e a palavra zazen na forma de uma pessoa meditando e faz jus ao título do livro, reflexos & reflexões.
O espelhamento de sílabas, ecos, indagações, palavras, na sua unidade mínima, nos despertam, neste livro, para o vazio do sentido da maior parte de nossas ações diárias, e nos remete para a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida. Isso talvez responda ao verso do poema “para poesia pura” (2014, p. 52) “poesia para quê”. É o próprio poeta que nos responde, no poema visual “por q” (2014, p. 61): ainda uma interrogação dentro de um ovo contém a palavra “quê”, que nada mais é senão um óvulo. Aí está tudo que é um nada. Palavra precisa e certa. Excelente livro.
 
 
 
 
 





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Resenha: El cuaderno granate: Maryse Renaud – Luiza Lobo




cadernoEL CUADERNO GRANATE, Maryse Renaud. Buenos Aires, Corregidor, 2009. 144 p. ISBN 978-950-05-1857-4.
Luiza Lobo
Rio, março 2015
Maryse Renaud resolveu escrever este seu primeiro romance, El cuaderno granate (2009), numa das línguas que domina perfeitamente, o espanhol, sua língua natal, pois é natural da ilha de Martinica, como um desafio, pois sempre morou na França. Foi professora titular de língua e literatura espanhola na Universidade de Poitiers. Trata-se, assim, de uma primeira experiência na área criativa da ficção, como uma viagem sentimental pela língua e a memória da infância, havendo várias referências, no livro, à “ilha”.
De qualquer forma, a epígrafe é retirada de Balzac: “No existe, o mejor dicho, raras veces existe, criminal que seja totalmente criminal”.
Nos primeiros capítulos nos familiarizamos com a protagonista, Clarysse, e o olhar do narrador mergulha no seu interior e acompanha os seus gestos pela casa. À página 21, capítulo 3, somos apresentados ao nó do enredo: Clarysse se sente alijada do núcleo familiar, imaginando que seu marido, Edgar, que é médico, e seu filho, Miguel, advogado de 39 anos, viveram em “mundos paralelos” ao seu e apartados dela. Pior: o pai teria inculcado no filho reserva e aversão à mãe. Ela, pintora, sente que vivera encerrada num mundo estético cheio de Leonardos da Vinci, telas e tintas, e sem tempo para alterar essa situação ou capacidade para despertar mais interesse da parte dos outros dois. Quando a obra se inicia, ela enfim se dá conta de quanto o afastamento é profundo, e conclui que é tarde demais para repará-lo.
A relação cúmplice (“criminosa”?) entre pai e filho é engenhosamente trabalhada através de uma grande metáfora que se estende por diversos capítulos: a batalha de Aníbal, nas segundas guerras púnicas, quando o cartaginês resolveu avançar pelos Alpes com seus elefantes, tentando derrubar Roma. Ao mesmo tempo, Aníbal sempre fora excessivamente temeroso e cegamente obediente à figura paterna e patriarcal de Amílcar, seu pai. Clarysse transforma, assim, o seu sentimento individual de alijamento familiar num grande sentimento do mundo contra o patriarcalismo e o autoritarismo presentes nas famílias em geral, e mostra que mesmo entre guerreiros há lugar para o sentimento de covardia e submissão do filho em relação ao pai autoritário.
Ao mesmo tempo, desde o início do romance travamos contato com “a Escandalosa”, Emma, sua cunhada, que era meio-irmã de Edgar, “la hija adulterina de su padre, a quien la família Granval había tenido que aceptar a regañadientes” (cap. 4, p. 23).  Na ilha (presume-se que da Martinica), a Escandalosa fora amante por cinco anos de um médico mulato, e ambos correram de norte a sul fazendo propaganda contra os abusos neocoloniais dos grandes terratenentes. Nem sequer se casaram, pensa Clarysse, com despeito. Logo Emma foi expatriada para a França pela família Granval, de grande riqueza e prestígio na ilha, pois esta já não suportava mais os escândalos de seu comportamento pouco convencional.
No capítulo 6, “Revelaciones”, lemos o confronto entre Emma e Clarysse, na casa da primeira, nos “altos de Montmartre”. Clarysse vai visitá-la, e já desconfia de uma relação incestuosa entre Emma e o sobrinho, ou seja, seu filho Miguel. Nesse encontro, Emma lhe conta sobre o mundo secreto do filho, revelando que ele saía frequentemente com ela para visitar cinematecas e exposições, que ficara até mesmo noivo de uma holandesa, e que abandonara a profissão de advogado e se desligara de tudo, pois “Miguel se había hartado de la hipocresía burguesa, del mercantilismo actual que lo corrompia todo, hasta el amor. Aspiraba a algo más que a um vulgar erotismo de pacotilla. Se había forjado una filosofia para su uso personal, no pretendia difundirla, ni grabarla en el mármol, pero se la había expuesto más de una vez y dureza era reconocer que no carecia de gracia” (2009, p 29-30).  Ao perceber que a tia e seu filho são amantes, desmaia. Neste encontro, Emma lhe passa o caderno grená, que é um diário confessional do filho, que partira para o México, deixando este encargo a Emma.
Este o núcleo do conflito do livro El cuaderno granate. Um drama de família que não se esgota no familiar, mas se estende à questão das convenções sociais e do preconceito racial, dos conflitos metrópole-ex-colônia e do capitalismo e a hipocrisia burguesa em contraste com o desejo de um tipo de vida mais livre e espontâneo.
O romance é bem urdido, utiliza um estilo e um vocabulário refinados. Entre os fiapos do cotidiano o leitor vai percebendo os conflitos das duas personagens femininas, cada uma a seu modo. Emma, mais livre, espontânea, e Clarysse, sensível, pintora, mas ainda apegada à tentativa inútil de salvar um casamento que desde o início se mostrara impossível. A narrativa é sempre construída a partir do olhar feminista de uma narradora externa que penetra no âmago das duas personagens femininas principais, em diversos triângulos conflituosos em relação basicamente a Miguel.
Numa espécie de libertação a três para seguir o próprio destino, o desfecho do livro é romântico e um voto de esperança na coragem para as pessoas seguirem seu próprio caminho. O México, em lugar das Antilhas, sugere o novo, a América, o mundo latino e mais livre das convenções. Nomes, lugares, planos no novo continente apontam para o imaginário que se distancia dos caminhos já traçados no passado francês e europeu.
Maryse Renaud já publicou dois outros romances, La Mano en el canal, também pela Corregidor de Buenos Aires, e este ano de 2015 Junglas, este pela editora Verbum, da Espanha. Pelo visto emprega na ficção a mesma disciplina que demonstrou na sua vida acadêmica. Personalidade vulcânica, instintiva, afirmativa, vai abrindo caminhos pela selva das letras, pois para ela não há obstáculos.





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Resenha: "Os anos da juventude (um romance): Francisco Venceslau dos Santos – Luiza Lobo




osanosdajuventudeRESENHA
Francisco Venceslau dos Santos, Os anos da juventude (um romance). Rio de Janeiro, Caetés, 2014. 150 p. ISBN 978-85-86478-88-8.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
Francisco Venceslau, professor de Teoria Literária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nascido em Francisco Santos, Piauí – cidade que tem quiçá nome de um antepassado seu – e emigrado na capital do seu estado e, desde 1963, no Rio de Janeiro – lançou-se, neste romance Os anos de juventude (2014), à difícil tarefa que é transformar em ficção o que é lembrança, memória, sentimento difuso, vida. A carpintaria exigida para esta metamorfose passa pela transformação de fragmentos, trapos, escórias, lembranças difusas, em matéria nobre, clara, inteligível, escorreita, e a transformação de imagens vagas, fotografias apagadas, em fotogramas gráficos, vivos e presentes. O método empregado por Venceslau foi recuperar a história, mais cultural que cronológica e política, no seu caso, através da descrição minuciosa da geografia das ruas, casas, praças, bares e lugares da cidade, não só pela pesquisa na Internet, que contém mapas, roteiros, informações das mais diversas, como pelo recurso à memória pessoal ligada à cultura dos anos 1960. Contudo, ele não se limitou a essas fontes, pois baseou-as num enredo, o que é fundamental para a criação da narrativa ficcional, e nele inseriu Augusto, o protagonista e seu alter-ego, que vive momentos de luta cotidiana ao lado de Linda, Janice, o poeta Caetano, entre outros amigos daquele tempo memorialístico.
No reino das recordações, a mais forte é a presença da música da década de 1960: “Ele voltou-se para os neons coloridos do bar (…) pediu uma Coca-Cola. Tocava Please, Please, dos Beatles” (2014, p. 78). Ou: “‘oi, Augusto, vamos dar as boas-vindas às ondas curtas que estão chegando’, e todos fizeram um círculo entre as prateleiras de discos e cantaram When I got Troubles (1959), de Bob Dylan” (2014, p. 16). Venceslau exagera aqui ao dar a data da música de Bob Dylan – e não o faz em relação à dos Beatles ou outras. Mas pontua o texto com detalhes de época, como beber uma Coca-Cola e as tais “ondas curtas” que devem se referir ao rádio – mas não sei como interferiram na vida dessas personagens que ouvem Bob Dylan.
Outra forte referência no texto é o cinema. Enquanto Linda, nessa mesma página 16, aparece “com o seu vestido rosa solto no corpo de vizinha da rua Simplício Mendes”, “Ali perto, na rua Barroso, aproximava-se, como uma atriz de nouvelle vague, a prima Silvana, olhos vivos, o vestido de organdi (…)” (2014, p. 16). Na página seguinte toca Celly Campello cantando “Tomo banho de lua” e um jingle anuncia as qualidades do Leite de Rosas (2014, p. 17).
Por vezes Francisco Venceslau exagera na descrição de detalhes sobre elementos que caracterizam a época, o cenário ou os acidentes geográficos, como por exemplo na pergunta da jovem Raquel, que enfatiza essa tendência: “‘Por que não ir tomar banho no rio Parnaíba?’” (2014, p. 10). Ora, o nome do rio deveria ser informado pelo narrador externo, uma vez que a pergunta assim elaborada pela personagem se torna muito artificial. Enfim, quantos rios passam por Teresina? O rádio que abre o romance é marca Sharp (2014, p. 9) – e assim por diante. Contudo, em contraste com a menção de praças, ruas, bibliotecas, colégio, não nos é informado o nome da cidade onde se encontram todos os logradouros: “Acertou com Joachim um encontro na varanda do café O Sol, na movimentada esquina da rua Paissandu com a praça Pedro II” (2014, p. 18). O leitor (brasileiro) imagina que se refira à capital, Teresina, mas isso só lhe é confirmado no início da parte II: “‘Alô, é o Augusto, acabei de chegar de Teresina, queria saber se posso dar um pulo aí’” (cap. 1, 2014, p. 47).
Minucioso ao extremo na referência e descrição das casas onde habitou, na localização das livrarias, pontos de encontro, ruas e bibliotecas, no entanto essa cuidadosa enumeração de pormenores e minúcias, típicas da preocupação didática do professor de literatura, muitas vezes quebra o encanto da memória, que transparece no esmerado manuseio da linguagem literária, como nesta passagem:
 
“De repente ele não teve dificuldade de acreditar que na década de 1960, no Brasil, havia pessoas que amavam outras pessoas, mas se aproximava a hora como num filme deslembrado. Desde o início, ele pressentiu o inesperado na montagem daquela cena, em 1964; uma tesoura invisível cortara a película, deixando-a esquecida na estante de uma cinemateca qualquer, e o desejo do eterno retorno do reencontro com o amor” (2014, p. 79).
 
São muitas as referências a obras literárias e políticas importantes, de autores como Blake, Donne, Allen Ginsberg, Drummond, Marx, Alencar, Eça, Lispector, ao lado de cantores de música popular da época e figuras importantes do cinema, entre atores e diretores: Fellini, Antonioni, Rita Hayward, James Dean, Nathalie Wood, Casablanca etc.
A Parte II se inicia na página 47, também por referências indiretas ao cenário da cidade do Rio de Janeiro: “No Flamengo, usou o telefone da União Nacional dos Estudantes, ligou para Janice, a garota que residia na praia de Botafogo” (Parte II, cap. 1, 2014, p. 47).
A memória urbana nem sempre é fácil de recuperar, como no trecho em que a personagem de Augusto, alter-ego do autor, “deu um salto de cabrito montês, na avenida Rio Branco, em frente ao palácio Monroe e ao obelisco” (2014, p. 49). Creio que os bondes entravam pela praça Mahatma Ghandi. Contornando o Passeio Público, e portanto um tanto distante do palácio Monroe e o obelisco, que lhe ficava em frente – demolido, hoje existe um grande chafariz, ali. Também passavam pela rua Santa Luzia, cortando do Passeio Público rumo à avenida Nilo Peçanha, mas não me consta que passassem pela praia diante da avenida Rio Branco, em frente ao obelisco e ao antigo palácio Monroe:
 
“O trajeto inicial foi da curva do antigo Teatro Lírico [no largo da Carioca], subindo a rampa da rua Senador Dantas, rua do Passeio, cais da Lapa, Russell e Flamengo e, entravam nas oficinas da Companhia na rua Dois de Dezembro”
(http://diariodorio.com/bondes-no-rio-de-janeiro-antigamente, acesso em 18 mar 2015).
 
Creio que nunca houve trilho de bonde na avenida Rio Branco, uma vez que ele vinha pela Glória, onde perto batia o mar, antes da criação do Aterro do Flamengo, entrava pelo Passeio Público, seguia pela calçada do cinema Odeon e quem sabe pela rua Senador Dantas para chegar à estação no Tabuleiro da Baiana, grande estação terminal, bem no centro do largo da Carioca, como explicita a citação acima. Na Avenida Rio Branco, via de luxo e grandes prédios da Paris tropical que foram postos abaixo, corriam os carros elegantes, lotações e ônibus, e até a década de 1950 existiam os canteiros centrais.
É certo, conforme lemos na página da Internet indicada acima, que os bondes existiram no Rio até setembro de 1962 e 21 de maio de 1963, com exceção de algumas linhas que duraram até 1965, 1966 e 1967, trafegando até o Alto da Boa Vista e Cascadura, sendo que a linha de Santa Teresa resistiu até 27 de agosto de 2011. O livro de Francisco Venceslau refere-se ao “fim de 1963”, algumas páginas pouco adiante (p. 56), o que está correto. Também a imagem de Augusto pulando do bonde e deixando de pagar a passagem refere-se a fato comum na época – e bastante revoltante para as mulheres, que não andavam nos estribos e não saltavam dos bondes, às vezes em movimento – sendo que o próprio trocador registrava muito menos passagens do que o dinheiro que efetivamente arrecadava nas viagens. (Roubar parece um hábito profundamente arraigado na sociedade brasileira, talvez porque aqui o capitalismo ainda seja uma forma política incipiente, “para inglês ver”).
Francisco cria uma elegia da cidade, que foi capital até 1960. Prende-se à vida e ao trabalho do herói, Augusto, cuja voz não se mistura ao do narrador externo da obra:
 
“Contornaram a orla do mar, chegaram a Copacabana, no posto seis, desceram quase em frente ao Forte, atravessaram a pista; sentaram em torno de uma mesa, na calçada, ao lado da saída da galeria Alaska, depois seguiriam para o Michel. (…)” (2014, p. 74).
 
 
Por vezes o narrador se torna interno, para melhor se voltar ao dia a dia das personagens, ao prazer, à sensualidade, música, trabalho, passeios e, sempre, descrever a maneira de vestir-se, em geral das mulheres:
 
“Agora é fevereiro, sente o cheiro de 68, nos bares, nas ruas, nas salas de aula, e ainda não é março, quando 68 chega realmente ao Brasil. Neste instante sagrado, veste uma calça Lee e uma camisa vermelha, e Linda, uma blusa branca, uma saia plissada azul-claro, andam sob o sopro do vento que vem do mar com suas ondas de sonho.
Na cantina do Ministério da Fazenda (até o AI-5 era território do subterrâneo insurgente), aqui a conversa gira em torno da estreia de Roda viva, Linda conta para todos: ‘Em Paris, os jovens querem ter o direito de livre circulação de moças e rapazes, nas residências estudantis’” (2014, Parte II, cap. 19, p. 121).
 
À ditadura, não faz muitas referências, senão vagas, como no trecho acima, a Marighela (não Maringhela, p. 105). Nos capítulos finais do livro, que se passa na Paris de maio de 1968, voltam as cenas da época da ditadura, no Rio: a morte do estudante Edson Luís, no Calabouço, restaurante estudantil localizado no final do Aterro do Flamengo, próximo à Faculdade de Filosofia, e de Carnaval. Continua a vida de sonhos relativos ao cinema e ao trabalho com editoras de Augusto; mas a ação interrompe-se abruptamente, entre a promessa de um road movie sobre uma viagem ao deserto da América – imagino que seja o de Atacama, no norte do Chile e parte da Argentina. O script é deixado em aberto, como a Obra aberta de Umberto Eco, que é de 1962, e bem ao gosto da década de 1960. O romance termina em suspense ou em suspenso, sem se encerrar o difícil salto entre a pesquisa histórica e a criação de uma história ficcional.
Creio que todos apreciarão esse voo pelo passado.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A GUERRA DOS ORIXÁS




Autor: Luiza Lobo
Título: A GUERRA DOS ORIXÁS
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

A GUERRA DOS ORIXÁS


Luiza Lobo

Foi um total acaso Xangô esbarrar naquele imenso tabuleiro na floresta. Machista e guerreiro, se sentiu desafiado. Quem arrumara aquele tabuleiro daquele jeito, bem no meio do seu caminho? Não via a farinha de dendê, nem a garrafa de cachaça, nem os adereços de fita de cetim vermelho. Não via as cores do seu terreiro nem a espada em sua homenagem. Não encontrou sobre o tabuleiro os usuais alimentos: acarajés, feijão preto, farofa, arroz de dendê; nem os usuais objetos de sacrifício: um carneiro, um cágado, um bode, nem mesmo um galo que fosse. Deu a volta do tabuleiro, intrigado, vestido em sua saia quadriculada vermelha e branca e seu colar de miçangas da mesma cor, mas não entendia nada. Aquilo não era um opanifá conhecido. Era um tabuleiro de xadrez, quadriculado de branco e negro. Xangô, o rei dos trovões, ficou rubro de raiva. Rugiu e o tempo fechou. Mandou raio e mandou trovão, contra seus invisíveis inimigos. Xangô tinha chegado na floresta caminhando em paz, riscando a velha fórmula de seu pai Oxalá na velhice, o orixá iorubá da criação dos homens. Pisavam-lhe nos calos, oh, sim, e ele estava muito irritado com o que encontrou. Então ele assumiu a forma de seu pai na mocidade, jovem guerreiro cheio de vigor e nobreza, e tomou as dores de seu povo sofrido e exilado, no maior êxodo de todos os tempos. Não se importava com o tal segundo livro da Bíblia. Seu povo sofreu muito mais. Transformado no Grande Pai, o Orixalá, bateu no peito e esperou, dardejando seus raios e trovões. O tempo fechou. Mas nada aconteceu. Aí o senhor das pedreiras esperou que uma idéia lhe cruzasse a mente. Não atinou com nada, senão chamar Ossanha, o deus irado das folhas da floresta, chegou na sua saia de chitão branco, verde, rosa, amarelo, marrom e na mão o ferro de sete hastes pontudas, tendo na do meio um pássaro. “Eu-eu!” – gritou em sua saudação. “Kauô Kabiecile!” – saudou Ossanha em resposta. – O que está havendo aqui, ó grande rei das matas? – Olhe, meu orixá das plantas curativas, veja que tabuleiro tão esquisito este, onde não vejo minhas oferendas prediletas deixadas, como de costume, na floresta! – respondeu Xangô. – Mas não é? E para mim não veio o ossé anual, nem cabra, nem galinha, nem farofa, feijão, milho verde com mel, e para o sacrifício não vejo bode, nem galo. Mas que peji mais estranho, meu deus! Vou chamar meu amigo Oxosse. Então chegou o deus da caça, o rei e o caboclo das matas do clã de Ogum, chefe da linha dos caboclos chefes de legião ou falange. Segurava seu ofá. Era o seu símbolo, o fetiche dos orixás, o arco e a flecha de ferro, em miniatura, junto ao otá. Ficou espiando o grande e estranho tabuleiro e rodando na mão a longa faixa do ojá , que prendia sua saia estampada de azul e verde claro sobre a calça branca rendada. Estavam todos vestidos para dia de festa: – “Okê, Okê Arô!” – saudaram Oxosse. – O que está acontecendo aqui nesta floresta? – gritou Ogum. Vou chamar os caboclos meus representantes – e sua dança imitava a caçada. Então Oxosse, Rei de Ketu, Caboclo e Rei das Matas voltou-se para a árvore sagrada da jurema e invocou seus Caboclos: – Venham, meus caboclos-índios, de pele vermelho-acobreada, entidades índias que baixam em nossos terreiros, venham com sua pele bronzeada ajudar seu pai. Venha vindo, guia-chefe da linha de Oxosse, Caboclo Araribóia; venha, Caboclo Arranca-Toco, entidade-guia, e Caboclo Arruda e Caboclo Cobra-Coral e Caboclo Guiné e Caboclo Pena Branca, entidades-guia, na linha de Oxosse; e venham vindo, Caboclo da Pedra Branca, entidade-chefe de falange ou legião e Caboclo das Sete Encruzilhadas e Caboclo do Sol e da Lua e Caboclo do Vento e Caboclo Treme-Terra, entidades-chefes da falange, na linha de Xangô; e Caboclo Malembá, entidade representante de Oxalá, venham todos descer no meio da floresta para decifrar este estranho tipo de otá. E os Caboclos baixaram todos, com seus cocares de pena, dançando em volta da cabaça, e falaram suas falas em misto de iorubá e tupi. E cruzaram suas linhas, suas falanges e legiões, mas não atinaram com o sentido daquele quadrado de madeira. Rodearam o tabuleiro e cantaram os pontos de cada orixá, e fizeram com o giz, a pemba, o ponto riscado, e o ponto de segurança, o ponto de abertura, o ponto de chamada, o ponto de defumação, o ponto de descarrego, falando na sua língua arrevesada de iorubá e tupi, mas não atinaram com o sentido daquele quadrado de madeira. Xangô ficou zangado. Rugiu e o tempo fechou. Mandou raio e mandou trovão, mas nada aconteceu. Não decifrou o sentido da afronta. Os Caboclos acenaram entre si e resolveram chamar os Pretos Velhos, que estão no quarto plano da hierarquia espiritual, logo abaixo deles, para fazerem magia branca e desfazerem magia negra, e resolverem aquela complexa questão, com sua sabedoria simples de antigos escravos purificados. Desceram os Pretos Velhos chefes de falange, da Linha Africana e da Linha de Yorimá. Três Pretos Velhos da Linha Africana baixaram ali e saudaram as divindades e os caboclos. Perguntados sobre o que era aquele tabuleiro, disseram: – Isso é um opanifá diferente. O tabuleiro não tem a forma achatada de bandeja, nem tem a cara de Exu esculpida na borda, entre outras figuras e sinais simbólicos. E é por isso que devemos invocar Exu. – Mas Exu? Ele não devia ter sido chamado primeiro? – argumenta um Caboclo. – Talvez ele traga mensagem especial sobre este estranho objeto – completa outro. E chegou Exu, com sua saia vermelha e preta enfeixada por uma ojá vermelha, o gorro e os búzios, seus colares de contas vermelhas e pretas alternadas, aguardando o sacrifício do galo e do bode preto. Mas só encontrou a estranha bandeja, o opanifá diferente. Exu olhou desconfiado para toda aquela gente reunida, todos aqueles deuses cercando o tabuleiro, perplexos com a raiva de Xangô, e se saiu com essa: – Isso é guerra! É guerra declarada! Temos de chamar nosso pai, Ogum, o deus guerreiro, do ferro e da agricultura. Ogum chegou. O Orixá iorubá, filho de Iemajá e de Oranhiã, chegou para resolver as demandas, vestido com sua espada de metal prateado e seu fetiche posto num prato, a “ferramenta de Ogum”, uma penca de sete instrumentos de ferro para a lavoura, a guerra e a caça. Gritaram “Ogunhê!”, e Ogum chegou. Ogum procurou seu acarajé, o feijão preto e fradinho, o inhame assado, e não os encontrou; e nem sinal de bode, de galo ou de conquém . Ogum bradou guerra. Xangô mandou raios e trovões. Mas nada aconteceu. Então Ogum invocou o Exu Tranca-Ruas, o Exu das Almas, que trabalha com todos os orixás e protege as giras dos terreiros. Chegou um homem de torso nu, pele acobreada, pés de bode e orelhas pontiagudas. Exu procurou algum trabalho para ele numa encruzilhada, mas na floresta só tinha árvores, e foi difícil encontrar quem tinha posto aquela “coisa feita” ali, bem diante de Xangô, o rei dos Trovões. Então Exu confabulou com Ogum e Xangô. E o Exu de Sete Cabeças, ou Exu de Sete Covas, Exu de Sete-Capas, que trabalha para Oxalá, o grande deus, e o mensageiro Exu de Sete-Catacumbas, e das Sete-Encruzilhadas, e das Sete Legiões das Trevas se lembrou: – Gente, vamos botar mesa, gente. Vamos chamar Ifá, o grande orixá da adivinhação e do destino e grande mensageiro da luz, para jogar os búzios e ler o nosso futuro. – E Exu exigiu, para si, o sacrifício de um bode preto, e com a força do sacrifício clamou pela presença de Ifá. E logo chegou Ifá, acompanhado de seu babalaô africano. Usava o opelé e segurava seus búzios furados para ver de que lado caía a sorte. O Ifá se plantou, solene, ao lado de um dendezeiro da floresta, sua árvore sagrada, e olhou o grupo com seus dezesseis olhos, como são 16 as contas da grande adivinhação, cada combinação acompanhada de uma história sagrada, o que o ajudava na adivinhação. E o babalaô ou sacerdote de Ifá segurou as contas do seu colar sagrado, o opelé Ifá, com oito meias-nozes de dendê abertas. Ora o segurava por uma ponta terminada em nó, que simbolizava
o lado masculino, ora pela outra, com 4 ou 5 fios de palha da Costa, o lado feminino. E o Babalaô, sacerdote de Ifá, o grande orixá da adivinhação e do destino, o deus de 16 olhos, disse aos presentes que veriam se desenhar na palha o seu destino, que seria formado a cada odu, ou jogada, pelo formato das contas de seu opelê. Com uma varinha anotou na areia o número de cada uma das oito jogadas sagradas do Ifá no seu estranho tabuleiro de madeira para adivinhação do destino. As contas do seu opelê ifá caíram em forma de U, com o lado aberto voltado para si. O babalaô ia anotando as quatro combinações possíveis das odus, ou jogadas, num total de 16 combinações possíveis. E naquela única jogada do opelé obteve as 16, mas não se sentiu esclarecido. E fez mais uma jogada ligada à anterior – obtendo 256 combinações. E tentou mais 16 combinações com cada uma das novas jogadas; poderia chegar a 4.096 combinações, até conseguir as respostas dos orixás. E cada odu ou resposta tinha sua história correspondente, e ia anotando cada novo desenho da queda dos odus no tabuleiro de madeira, o opanifá. De cada vez contava uma história no opanifá. E desta vez o opanifá não era o tabuleiro pequeno de madeira, onde aparecia a cara de Exu, mas o próprio tabuleiro quadriculado em branco e preto que Xangô encontrara na floresta, no meio de seu caminho. Os Orixás, sentados ao lado do babalaô, sabiam que algo muito grave se passava em seu destino. E os dias e as noites se sucediam, e as grandes chuvas e o sol se intercalavam no céu, e todos sentados à volta do babalaô, sob a guarda de Ifá, aguardavam o final da recitação da sorte, ouvindo atentamente a leitura das histórias de cada odu, muitas das quais já sabiam de cor. E quando o babalaô, que era o chefe do terreiro, afinal revelou a sorte, a maioria das divindades já sabia que se tratava de uma grande e séria guerra no qual precisariam empenhar todas as suas forças para vencer: – Isto é um tabuleiro de xadrez. E foi posto aqui na floresta como “coisa feita” para dizimar o nosso rito e a nossa raça. Nós devemos nos precaver muito contra esse jogo. É um jogo inventado pelos brancos e foi colocado aqui para uma partida de força destrutiva contra nossa terra africana e nossa fé na umbanda e no candomblé. Xangô clamou aos raios e trovões e invocou as cachoeiras e pela proteção da pedra, que estavam cortando e destruindo e exportando para países de brancos; Oxosse invocou seu ofá, o arco e flecha unidos em metal branco, o qual simbolizava seu poder de proteger a caça nas florestas fechadas do Brasil, ameaçadas de extinção; o babalaô preparou suas oferendas, com as substâncias brancas do poder genitor masculino: a seiva branca do seu sêmen, o seu cuspe, o seu hálito, e jogou álcool, aguardente e sumo da palmeira sobre todo o tabuleiro; em seguida jogou água pura, a substância branca veiculadora da força genitora feminina, o axé, sem a qual não há oferendas. Invocou as lami, mães ancestrais, que propiciam os mistérios e acalmam o espírito. Aí pôs a oferenda junto das substâncias pretas, representando o escuro seio da matéria geradora, ligada ao poder genitor feminino e ao elemento procriado. E invocou os objetos rituais à disposição, as pedras, vasilhas, instrumentos simbólicos e indumentárias com as três cores-símbolos do reino da natureza: o branco masculino, o negro feminino e o vermelho do dendê, do sangue do bode sacrificado ali, do sangue menstrual feminino, do ossum, ou pó de urucum e do mel, do cobre e do bronze, simbolizando cada orixá. Terminado o sacrifício, feito sobre o estranho tabuleiro, ribombou um grande estrondo e apareceu uma figura imensa, musculosa, de sandálias, saiote amarelo e capacete, muito esquisita. – Qual é a sua origem, sua linha de vibração? – perguntou-lhe Xangô, o grande orixá, deus do Trovão. O estranho ser ficou inquizilado por aquela questão. Não compreendia bem a língua e nem o sentido das palavras do santo negro. – É iniciado? – Pergunta-me se sou homossexual? – Qual é o seu Orixá, afinal? – Não sei do que me falam. – Bem, então quem colocou este tabuleiro aqui na floresta, cruzando o meu caminho? – insiste Xangô, com sua voz de baixo. – Isto foi idéia de Zeus, o rei dos Trovões. – Deve haver algum engano, porque o rei dos Raios e dos Trovões sou eu – interveio Xangô. – Ah, mas não é mesmo. – E quem é você para me dizer o que é e o que não é? – Eu sou Teseu, e matei o Minotauro, monstro em forma de homem e touro, que vivia num obscuro labirinto construído para o rei Minos II, em Creta. Se não fosse por mim até hoje doze rapazes e doze moças estariam sendo sacrificados todo ano a este homem-touro, na verdade fruto dos amores escusos de Pasífae e Minos II. – Tem certeza? – vociferou Oxalá. – Olhe, já viajei por todo o mundo e nunca ouvi falar dessa tal gruta de Creta. Nem ouvi falar desse tal monstro. Isso deve ser história muito antiga. – É verdade. – E que história é essa de filho com forma de touro? Isso não pode acontecer. Vocês nunca estudaram biologia? – Sabe, nós, gregos, amamos a fantasia, a reunião de todas as formas animais e humanas: casamos cisnes com Zeus, nosso rei dos Trovões, bodes e cavalos com homens, habitamos árvores e rios com ninfas, dotamos cavalos de asas… – Estou achando essa conversa muito bonita, mas não estou gostando nada dessa história de a toda hora falar desse tal de rei dos Trovões de vocês. Não dá para você o invocar logo de uma vez? – voltou a falar Xangô. Teseu alçou os ombros, mas não precisou nenhuma arte de magia para invocar Zeus, porque ele logo apareceu, com seu rosto ardiloso de deus maior do Olimpo. – Me chamaram, irmãos? – Este vem com cara de político esperto – comentou Oxosse, deus das florestas, que se desgostava de toda a esperteza das cidades. – Sou filho de Cronos, o tempo, e de Rea, a Grande Mãe dos deuses, que por sinal era sua mulher e sua irmã. Já tomei todas as formas possíveis para casar com minhas sete mulheres: chuva de ouro para conquistar Dánae, sátiro para conseguir os amores de Antíope; cisne para me casar com Leda – e tivemos dois filhos gêmeos, ambos cisnes; touro branco para raptar Europa; chama ígnea para devorar Egina. Para me estabelecer no Olimpo, lutei contra os Titãs, os Cíclopes, os Hecantoncheiros, gigantes de 300 mãos, filhos de Urano com Géa, a Terra, lutei contra Prometeu e muitos outros. Por isso não tenho medo de lutar contra vocês, africanos. Foi por isso que coloquei este tabuleiro aqui. – E que tipo de opanifá é este, que não conhecemos? – perguntou, respirando fundo, Ifá. – Como? Esta palavra não conheço, mas este tabuleiro serve para se jogar xadrez. Temos de deslocar a rainha, o rei, os cavalos, os peões, e os movimentos têm de ser pensados, calculados, racionalmente, até se empurrar o rei ou a rainha para uma armadilha – esta situação sem saída se chama de échec et mat, isto é, vencido e abatido, mas que o vulgo sói chamar de “xeque-mate”. – E quem ganha tem de se incorporar, receber a entidade, ser possuído por seu orixá, como bom filho de santo? – perguntou Oxosse. – Não sei de nada do que o companheiro está falando: basta acompanhar intelectualmente o movimento do rei e da rainha… – Olhe, nós, da África, não temos esse negócio de colocar rei e rainha em armadilha, não. Andamos de roupa de pano, pé no chão e comemos comida gostosa: inhame, acarajé com muito dendê, mesa posta com muita cor e arte. Esses luxos de corte estão fora de nossa tribo; somos povos da floresta, amamos a terra, a pedra, a água, a chuva e o sol. Acho que seria bom fazer um irê, um ritual de iniciação com este tal de Zeus, não é mesmo, gente? Os deuses aprovaram com um sinal de cabeça, enquanto Zeus não escondia sua ira. – Vamos chamar Hércules. Hércules vai dar uma lição nestes neguinhos. Hércules chegou com as sandálias de couro de bode amarradas quase até as coxas. Sua musculatura continuava intacta, apesar dos longos anos de uso,
contrastando com a cabeça microcéfala dos pouco inteligentes e muito musculosos. – Então, vamos ou não vamos? Se não querem jogar xadrez por bem, vamos resolver a parada pela força, não é mesmo? Meu amigo Teseu e eu até vencemos umas mulheres guerreiras, as amazonas, que têm um peito só – oh, Teseu, elas viviam em terras por onde esses aí andam hoje em dia, não é mesmo? Estamos aqui para isso. Vencer esta batalha, mesmo que seja à custa de nosso próprio Panteão. – É, vocês falam muito complicado, cheios de efes e erres, com seus reis e rainhas. Eu quero saber é se sabem fazer uma boa mandinga, se sabem se defender de uma boa pajelança de umbanda, quimbanda, macumba, umbanda traçada . Eu aqui sou o mensageiro de todas as forças das trevas e das profundas dos cemitérios, e faço qualquer sortilégio contra vocês e seu tal de xadrez. – Olhe aí, Hércules, acho que temos de chamar Hermes. Esse aí se diz mensageiro. Hermes é que é o único mensageiro de todos os tempos; ele, sim, conduz as almas até o Hades, o reino dos mortos. Hermes chegou célere, voando pela força de suas talarias ou sandálias aladas, seu petarius ou capacete de asas, e o caduceu, a vara mágica com serpentes entrelaçadas no alto. – Hermes – interpelou-o Zeus – dê uma lição de norma culta nesta gente dos terreiros. – Minha função é mais de leva-e-traz, não é, camaradas? Talvez pudéssemos chamar Prometeu, para uma mãozinha mais humana aí. Esse pessoal me parece meio sem cultura geral – acho que nunca ouviram falar em xadrez. Vocês não iam jogar uma partida de xadrez fatal? – É o caso, mas temos problemas lingüísticos e culturais de comunicação. Que venha Prometeu! – gritou Zeus, a plenos pulmões, muito irritado com tudo, e agora ainda mais por ter de pedir auxílio a seu originalmente arquiinimigo, o ladrão que roubou o fogo dos deuses para o revelar aos homens. Na verdade, fora o próprio Prometeu que os criara do barro. Antes daquela facécia do fogo, ele já lhes ensinara também as plantas medicinais, o cultivo da terra e a domesticação dos cavalos. Enfim, um deus que, embora tenha finalmente se juntado ao Olimpo, politicamente estava na oposição, pintado em excelentes cores por todos os viados românticos: Shelley, Byron, Coleridge, Dante Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning e até por um tal de Joaquim de Sousa Andrade, conhecido como Sousândrade. – Xangô, você já leu um tal de Sousândrade, nascido no Maranhão? – perguntou Zeus, um tanto desatento. – Nosso povo não é lá muito de leituras, Alteza. Como já lhe disse e tresdisse, nossa atividade principal é mais ligada à terra, aos elementos da natureza, o vento, a chuva, o sol, a energia vital. – Hum… economia de subsistência – ridicularizou Zeus. – Chame Vossa Alteza do jeito que quiser. Mas é assim que viemos da África e até hoje moramos no coração de africanos e brasileiros. E vocês, onde estão que não os vejo? – Estamos nos livros escolares! – falou rápido Hefaístos ou Vulcano, que surgira rápido como o fogo, apesar de ser manco. – Todos esses ornamentos que vocês ostentam aí na sua cintura foram feitos por mim, na minha oficina que fica dentro de um vulcão, no coração do Monte Etna, em aliança com os Cíclopes, gigantes de um olho só. Apesar deste meu grupo de amigos não ser considerado muito simpático pela humanidade, nossa fama atravessou o mar Mediterrâneo e chegou até a Cecília, Roma, toda a Itália, o norte da África, e hoje somos estudados por toda a civilização ocidental. – Mas que sujeitinho mais pretensioso – intrometeu-se Exu. Grandes coisas ir da Grécia para a Itália, é logo ali do lado, naquele marzinho pequeno. Nós, sim, é que atravessamos o grande Oceano Atlântico desde a África, até o Brasil, o Caribe, a América do Norte, do Sul, chegando até o Pacífico, e estamos vivos na fé das pessoas até hoje. Somos consultados, reverenciados, recebemos oferendas de todas as linhas e tipos de fé, e culto de todas as raças e classes sociais. – É religião de gente pobre e subdesenvolvida. – Isso é o que dizem os safados dos protestantes, que têm preconceito racial – rebateu Exu. E Oxalá interveio: – Crime inafiançável no Brasil. Zeus ficou nervoso. Nada o deixava mais nervoso que uma longa conversa mole e a incontinência sexual. Desenvolvia cacoetes. Fungava, coçava o pau. – Ora, não conhecemos nada de sua gente inculta e nem essas leis de países bárbaros. O que importa é: vocês vão ou não vão jogar xadrez comigo? Apolo ou Hélio já vai alto no seu carro alado que ilumina o céu. Ele não pode descer até aqui, pois está transportando sua carruagem de um lado para o outro do dia, mas lá do alto está acompanhando nossa guerra. Oxosse não se conteve: – Mas ora vejam que ignorância, eles que se dizem tão cultos e civilizados. Um carro com asas trazendo o dia! É muita falta de conhecimento científico. – São imagens poéticas! – E o que vocês fazem o dia todo, além de iluminar o dia e fazer poesia? – Bem, nós, basicamente, amamos. Fazemos filhos híbridos e conquistamos sempre novos amores – falou com despeito Zeus, coçando o saco. – Mas que civilização mais egoísta – retomou Oxosse. – E não têm um pensamento para a humanidade? – Oh, claro que sim – gente, ele não leu Homero, nem a Ilíada nem a Odisséia, de Homero, e nem a Eneida, de Virgílio. É claro que nos grandes momentos épicos, nós intervimos. Mas na maior parte do tempo estamos muito ocupados; temos de comer nossos favos de mel, nossa ambrosia, nos deleitar com o vinho fresco do Olimpo… e nos defender das acusações de adultério, ora essa. A própria Diana, que é a deusa da caça, passa o dia caçando bichos, pois não poderia se privar de um dos seus maiores prazeres, na sua longa vida. – Mas isso é um escândalo! – interferiu Exu. – É por essas e outras que nasceu um Marx. – A humanidade foi relegada ao último escalão social por essa religião elitista de vocês. Só dá vocês, vocês e mais vocês. – E além do mais, são antiecológicos, caçando animais silvestres por puro prazer! Quanta inutilidade! – Não vejo o que há de errado nisso. É o que se chama de classicismo! A Idade de Ouro! – falou Zeus, zombeteiro. – Classicismo? Isso é deísmo! É sociedade de classes, e até de castas! Vocês vivem numa sociedade fechada e corporativa. Não plantam, não protegem as pessoas, não lêem a sorte delas, não as aconselham, não baixam em seus destinos, quando estão necessitadas… – falou Ossanha, pela primeira vez. – Ora, para isso podem ir ao Oráculo de Delfos! É lá que ouvirão as previsões de que necessitam e em que acreditam tanto! – revidou Zeus, entre gargalhadas de bon vivant. – Mas o senhor é um debochado, um desclassificado social! – interveio Oxalá, com sua voz tonitruante de deus máximo. – Em que acredita, nesse seu classicismo? – Eu acredito no prazer! Eu acredito na beleza, na estética, nas curvas perfeitas, na medida áurea, nos templos bem construídos, e na mens sana in corpore sano. – Mas a humanidade não é sempre assim! A maioria das pessoas nasce torta, por dentro e por fora, e precisa de uma reza forte por parte de todos os deuses e orixás. Vocês só tratam do lado de fora, da beleza exterior, e as almas que se danem… – Ah! essa coisa de alma e de transmigração da alma já é do departamento de filosofia. Quem se interessa por isso é Platão, que escreveu vários diálogos, aliás numa outra persona, sem assumir nada, colocando suas palavras delirantes na boca de Sócrates. (E assumindo ares íntimos, abraçou o ombro de Xangô) – Olhe, amigo, posso chamá-lo de amigo, não é? Vou lhe confessar uma coisa. Não acredito em nada dessas coisas de religião. Meu negócio é prazer, esbórnia, luxúria, mulheres bonitas, muita ambrosia, vinho, carneiro assado, cultos a Dionísio e suas procissões debochadas, escapar da perseguição de Hera, que vive com ciúmes doentios de mim. Enfim, viver, aproveitar tudo o que nos proporciona nossa exist
ência privilegiada de deuses no Olimpo, o nosso céu. – Xeque-mate! Você mesmo se condenou, irmãozinho. Não acredita em você mesmo! – gritou Xangô, com os olhos injetados de sangue. – É no que dá a cultura desconstrucionista, que vocês mesmos lançaram, há tanto tempo atrás! Vocês não podem acreditar nem em si mesmos, de tão intelectuais que são! – gritou Exu-Rompe-Mato. – Ainda bem que para vencer você nesta demanda pedi auxílio a meus irmãos Oxumaré, orixá do arco-íris e Omolu ou Obaluaiê, cujo verdadeiro nome não posso pronunciar aqui, porque pode trazer a varíola e demais doenças, pois são da mesma linha. Ou vencia ou não me chamava Oni! Não seria Xangô iorubá nagô, deus do raio e do trovão, filho de Iemanjá e de Oranhiã, não seria Xangô Abomi, Xangô Afonjá, Xangô Agodô, Xangô Agogô, Xangô Airá, Xangô Alfin, Xangô Alufã, Xangô Caô, Xangô Dadá, Xangô de Ouro. E à medida que ia referindo os seus nomes, a força destes ia “excomungando” os deuses brancos, que recuavam, apavorados – e o tabuleiro de xadrez estava todo pisoteado. – Não precisamos de tabuleiro de xadrez nenhum para disputar nosso poder com vocês, porque temos nosso opanifá de adivinhação. E Ifá nos contou como vocês vieram, saídos de seus livros de mitologia para nos amedrontar. Mas nós não temos medo de zumbis brancos, com suas línguas mortas nos museus europeus. Vocês têm uma religião morta, uma cultura que virou turismo, e nem falam mais a sua língua nem acreditam na cultura grega clássica. Mas nós estamos aqui, vivos, na dança, no canto e no culto do povo. – “Kauô Kabiesile”, eu te saúdo, Xangô, rei dos Raios e dos Trovões! – Zeus foi liderando a debandada, se curvando e saudando Xangô, o rei dos Raios e dos Trovões, com muita vontade de salvar a própria pele. E foi assim – contam os antigos – que terminou a Guerra dos Orixás. O babalorixá de Ifá relatou que, desde então, os meninos brasileiros não estudam mais mitologia grega. Preferem ver televisão o tempo todo. Mas no dia de Ano Novo vão acender suas velas na praia para Oxumaré, o orixá de dois sexos, morde a própria cauda, símbolo do eterno, do arco-íris, a grande serpente das profundezas morde que vem beber o céu. E tudo é divulgado nas telas de televisão para o mundo inteiro, entre fogos de artifício e shows de roqueiros, entre turistas, por jornalistas estrangeiros, que cercam os grupos de branco, e explicam, falando em inglês, de modo simplificado, o sentido das velas, do charuto, da cachaça e dos pontos riscados nas areias de Copacabana.

Do livro de contos: Estranha aparição. Rio de Janeiro, Rocco, 2000. p. 129-49.





Bio fornecida pelo palestrante.

Die Hochzeit




Autor: Luiza Lobo
Título: Die Hochzeit
Idiomas: deu
Tradutor:
Data: 29/12/2004

DIE HOCHZEIT

Luiza Lobo

Sie wußte nicht, woher sie die Kraft genommen hatte, das ganze Leben Grundschullehrerin zu sein. Ihre schönsten Träume hat sie in den Tränen auf dem Kopfkissen gelassen. Lateinamerika ist sehr gewaltsam. Nicht einmal hat sie sich eingemischt, aus Angst, einen Schuß in den Kopf zu bekommen. Und danach, es könnte ja sein, ihr Körper würde aus einem Flugzeug heruntergeworfen werden. Ihr Vater, autoritär, hat ihr immer klar gemacht, daß sie zu Hause eine Last war. Aber sie hat nie getraut, ihren Posten als Lehrerin zu verlassen. Sie klammerte sich an die magische Nummer ihres Registers. Nach all den Jahren, das winzige Gehalt, die miserablen sozio-ökonomischen Verhältnisse ihrer Beschäftigung, die Aussichtslosigkeit in ihrem Leben haben sie entdecken lassen, daß sie keine offenen Türen finden würde. Das „Sesam, öffne dich„ der bürgerlichen Ausbildung, die sie bekommen hat, war nichts wert. Was hat die angebliche Stabilität gebracht oder die nicht in Frage zu stellende Respektwürdigkeit ihres Postens als Erzieherin, in einer gewalttätigen kapitalistischen Gesellschaft, wo das einzige Gesetz der Kampf um die Macht des Geldes war?
Sie hat Englisch, Französisch, Klavier spielen, Ballett tanzen gelernt, soviel hat der Vater in Hinblick auf eine perfekte Erziehung bezahlt, was sich hinterher in Form einer angemessenen Eheschließung, weit über ihre sozialen Verhältnisse hinaus, natürlich begleichen würde. Das war eine Art langfristige Investition. Und der Vater würde dafür stabile Aktien bekommen, und zwar solche wie die der New Yorker Börse, nicht wie diese einheimischen aus Rio und Sao Paulo, die wie eine richtige one-man-show sind (inszeniert durch den Naharas, der ganz allein die Börse hoch und runter ließ). Eine ernsthafte und sichere Investition. Sie, verheiratet, und er könnte seinen Freunden gegenüber beim Whiskey-Trinken erwähnen, während er die Eiswürfel hin und her schaukeln würde: „Das ist meine Tochter. Sie ist verheiratet mit Herrn Soundso. Wissen Sie, der Sohn von Herrn X. Er arbeitet bei der Firma von Herrn Y, erinnern Sie sich? Ja, genau der. Exakt. Sie haben ein Haus an der Lagoa Rodrigo de Freitas. Übrigens, es ist lobenswert, daß sie dieses große Haus mit der Steinmauer behalten haben, während alle andere ihre Häuser an große Bauunternehmen verkauft haben.„
Schlimmer als jedes Jahr ärmer zu werden, war die Tatsache, daß sie nicht geheiratet hat. Sie hat es nicht geschafft, zu heiraten. Alle Freundinnen haben geheiratet. Diejenigen, die nicht geheiratet haben, sind ausgewandert oder ins Exil gegangen. Aber sie hat nichts davon gemacht. Sie ist bei den Eltern geblieben, stehen geblieben, ihr Register als Grundschullehrerin geprägt, gedrückt, eingraviert in ihrem Gesicht. Auf der Stirn. Sie würde als Grundschullehrerin sterben. Mit einer winzigen Rente und noch abhängig vom Vater, auch dann, wenn alles für sie vorbei sein würde – das heißt, wenn sie nicht mehr bis zur mittleren Spur des Leopoldina Bahnhofes schleichen mußte, mit dem gehobenen Finger, um zum weiten Santa Cruz zu trampen. Das würde sie dem Vater nie erzählen! Eine gewaltsame Stadt, eine Stadt, die sich haßte, aber was solls, sie mußte unbedingt sparen! Mit diesem Hungergehalt.
Und dann, eines Tages, ist ER erschienen! Sie hat ihn kennengelernt mit seiner Art eines fleißigen Gringo, Frank war gekommen, um die öffentlichen Schulen im Großraum Rio de Janeiro zu inspizieren, mit dem Zweck der Entscheidung über einen Kredit von amerikanischen Banken für die Erziehung in Brasilien (Oh, mein Gott! Noch mehr Auslandsschulden für noch eine Generation). Und dann, wie in einem Hollywoodfilm – ein Glück, das nur Gott erklären kann – war die Direktorin nicht da, und da sie die älteste Englischlehrerin der Schule war (alle anderen hatten mit Hilfe von einflußreichen Politikern ihre Versetzung in die Zona Sul erhalten) wurde sie gerufen, um diese Gruppe von Verwaltungsbeamten zu empfangen – einige von denen sprachen nur Englisch. Sie wurde so rot und so zittrig und so unsicher, da ihr Akzent britisch war, ob das wohl gut wirken würde? Vielleicht würde sie wie eine Portugiesin klingen, die in Brasilien spricht oder umgekehrt? Wahrscheinlich, trotz der puritanischen Maske, würden sie sie innerlich auslachen. Es ging alles so schnell. Er hat ihr angeboten, sie im Auto zur Zona Sul mitzunehmen, gleich nachdem die Inspektion zu Ende war. Es war furchtbar schwierig, die Küchenangestellte davon zu überzeugen, daß sie den Rest Kaffeepulver (die Lehrer legten zusammen, um ihn wöchentlich zu kaufen) für die Besucher aufbrauchen sollte, und es war unmöglich zu überspielen, daß die Tassen gesprungen und fleckig waren und nicht zu den Untertassen paßten.
Im Auto hat sich Frank als eine fast zu extrovertierte Person gezeigt. Er schien sogar ein bißchen verrückt zu sein. Er lachte ganz laut ohne Grund. Er hat gestanden, daß sein Lieblingshobby das Lesen von Krimis war. Jedoch war was ihn wirklich interessierte der psychologische Aspekt der Opfer. Ihre Reaktionen. Die Auflösung ihres Lebens. Das Verbrechen, die Tat, die Bewegung der Handlung waren ihm nicht wichtig. Sie hörte stumm zu, die Augen festgenagelt auf die Avenida Brasil, ihm von der Seite Blicke wie Pfeile zuwerfend, von Schüchternheit festgefroren. Er fragte sie, wie sie es machte, jeden Tag zur Arbeit zu kommen, so weit entfernt. Sie antwortete, daß sie jeden Tag per Anhalter fuhr (sie nutzte nicht die regelmäßigen, gesetzlich erlaubten freien Tage, sondern arbeitete strikt jeden Tag, anders als die meisten Lehrerinnen an öffentlichen Schulen, die Armen, die drei Tage im Monat fehlten, freigestellt wegen der Menstruation, obwohl es drei auseinanderliegende Tage waren – in letzter Zeit nutzen sogar Männer diese Gelegenheit, aber sie verurteilte niemanden). Während sie sich weiter mit Aspekten ihrer Arbeitsauffassung und Bürgerpflicht auseinandersetzte, fuhr er in ein großes Kaufhaus. Sie stoppte, als sie gleichzeitig bemerkte, daß sie zuviel redete und sie diesen ungewöhnlichen Weg nahmen. Frank – wie romantisch war sein Name, genau wie in den Filmen der wilden Jugend der 50er Jahre, sie war Fan von James Dean und Elvis Presley, sie mußte gestehen, daß der Vater es natürlich nicht wußte – begab sich zur Waffenabteilung, kaufte einen riesigen silbernen Revolver und gab ihn ihr. Damit sie sicher zur Arbeit gehen könne, sagte er ihr in seinem texanischen Cowboy-Englisch. Der Revolver paßte kaum in ihre Tasche, die vollgestopft war mit Übungsblättern der Schüler, Farbstiften und Anis-Bonbons. Schwer und mächtig. Furchterregend. Der Waffenschein würde in einer Woche abgegeben werden. Von dort hat er sie zur Autoabteilung geführt. Frank war sehr entschlosssen. Er hat ein importiertes Auto ausgesucht, rot und imponierend. Der Wagen würde später geliefert werden, schon mit Nummernschild. Es hat ihr nicht genützt zu sagen, daß sie nicht fahren konnte. Was würde sie mit einem Auto anfangen? Sogar darin würde sie vom Vater abhängig sein, hat sie gesagt. Und was würde sie ihm sagen? Wie würde sie die Geschenke erklären? Aber gleich bereute sie es, von ihren Schwächen gesprochen zu haben; Frank wirkte so resolut. Und die große Menge an Dollarscheinen, die er aus der Tasche gezogen hatte, sorgfältig gefaltet. Alle Frauen in den USA fuhren Auto. Überhaupt alle. Sogar die Hausangestellten, die stundenweise arbeiteten, fuhren mit dem Auto zur Arbeit. Und verdienten mehr, wirklich viel mehr, hatten viel mehr Wissen, wie man sich in Gesellschaft bewegt als sie, eine einfache Grundschullehrerin, unterbezahlt von der Gemeinde. Aber er sagte: – Du brauchst dich nicht darum zu kümmern, ok? In einem Monat, wenn ich mit meiner Aufgabe in Brasilien fertig bin, kommst Du mit mir mit in die USA und heiratest mich, in der Kirche, ok? Bis dahin hast Du fahren gelernt, ok? Du hast ja das Auto zum Üben.
Sie traute sich nicht zu fragen, in welcher Kirche sie heiraten würden, methodistisch, puritanisch, baptistisch?
– Aber…, und das Auto? – hat sie schüchtern gefragt, als ob sie an der Sicherheit auf vier Rädern hängen würde.
– Du kannst üben, lernst das Autofahren, richtig? Später schenkst Du das Auto Deinem Vater. Er braucht ein neues Auto. Ihr kommt mit dem Auto zum Flughafen, er fährt mit dem Auto zurück nach Hause. Kann er nicht fahren?
Aber wozu das Auto, wenn sie in die USA fliegen würde? – das hat sie gedacht, aber sie fand den Gedanke kleinlich, detailliert, materialistisch, idiotisch. Wie konnte sie nur so schäbig sein vor diesem Mann, der ihr alles gegeben hatte, alles: ein nagelneues Auto, rot, einen riesigen silbernen Revolver und sogar das Versprechen zu heiraten, im Hochzeitskleid? Aber er hatte eine impulsive Art, pragmatisch, und machte sich nicht offensichtlich so viele Sorgen um diese Fragen.
– Schau, in einem Monat komme ich von meiner Inspektionsreise zurück und Du triffst Dich mit mir am Internationalen Flughafen, ok? Wir fliegen mit der Western genau am 5. nächsten Monats. Sei am Schalter der Western um 8 Uhr abends. Ich werde ein Ticket für Dich reservieren.
– Aber kommst Du jetzt nicht zu mir, um mit meinem Vater zu sprechen, um ihm alles zu erklären?
– Ich muß jetzt weiter, die Schulen inspizieren. Muß sofort weg. Wir reden am Flughafen. Am 5. nächsten Monats, um 8 Uhr abends, ok? Vergiß es bitte nicht. Hier ist meine Karte. Ach, hier, nimm noch einige Dollars und kauf Dir was Du brauchst. Nimm mit was Du willst, ok? Mach Dir keine Sorgen um Übergepäck. Die Interamerikanische Bank zahlt alles. Wir heiraten in Iowa in der presbiterianischen Kirche. Macht es Dir was aus?
Sie war nicht-praktizierende Katholikin, wie alle Brasilianer, und an Sylvester führte sie Rituale für Yemanja aus, aber jetzt würde sie nicht alles kaputt machen, nicht wahr? Nein es ist gut so, die puritanische, nein, die presbiterianische Kirche ist wunderbar. Es ist doch Christentum letztendlich, nicht wahr?
– Dann reden wir später, weil ich mein Gepäck aus dem Hotel holen muß, und in einer Stunde nach Bom Jesus de Itabapoana, oder so was ähnliches. Wir sehen uns, ja?! Paß auf Dich auf.
Wie würde sie es dem Vater erzählen? Wie würde sie das ganze Geld erklären, das Auto, die ungewöhnliche Einladung. Über den Revolver würde sie nichts sagen, nicht mal ein Wort. Er würde es nie verstehen. Das war nur ihre Sache. Was hatte er damit zu tun? Außerdem, er würde in ihrer Tasche bleiben, wenn sie zur Arbeit ging oder irgendwohin, wo es gefährlicher war (aber heutzutage waren alle Orte in Rio gefährlich). Sie würde nichts sagen und fertig. Aber warum dachte sie nur an den Revolver, wenn es viel schwierigere Dinge mit ihm zu besprechen gab? Wie würde sie es anfangen? Er lebte eingeschlossen, seit Jahrhunderten, in diesem nüchternen Büro, vom Boden bis zur Decke mit Büchern vollgestopft, aus dem er nur zum Arbeiten, Essen und Schlafen rausging. Glücklicherweise hatte sie mit ihm ausgemacht, daß er ihr jede Woche etwas Geld – zusätzlich zu dem Gehalt – gab, so konnte sie die unangenehmen wöchentlichen Zusammenkünfte vermeiden, in denen sie ihm um Geld bitten mußte. Aber jetzt war Schluß damit! Sie würde mit ihm dieses schreckliches Gespräch führen, unangenehm, aber endgültig. Danach würde sie für immer frei sein! Für immer! Verheiratet! Im Ausland wohnen, wie alle, die das Land verlassen konnten! Was würde Maria Alice sagen, wenn sie ihr alles erzählte? Es wäre ein Schock! Ach! Sie konnte auf den 5. kaum warten. Der Tag der großen Befreiung ihres Lebens!
Sie kam nach Hause ganz ruhig fing an, die Tür sorgsam zu schließen, eine Vorsichtsmaßnahme gegen die Diebe. Seit wie vielen Jahren machte der Vater dann in ritueller Weise die Bürotür auf und fragte – „Bist Du es, Maria Eugenia? Vergiß nicht, die Tür richtig zu schließen, ja?“ Und die Bürotür schloß sich wieder, ein anti-„Sesam, öffne dich“ in ihrem Leben, und er verschwand bis zum Abendessen, mit jenem Gesichtsausdruck eines verwitweten Vaters, der alles für das Wohl seiner Tochter getan hatte, der seit Jahren nichts für sich ausgab, um die besten privaten Schulen für die Tochter zu bezahlen, um die besten Schuhe und Kleider, alles, im Grunde nur damit sie heiraten konnte. Und sie, nichts. Nie hatte sie diese Schuld bezahlt, nie! Sie würde bleiben und bleiben, für immer, eine Last auf seinem Rücken, belastend, lästig, bis zu seinem Tod! Sie hatte sich sogar an dieses müde Gesicht gewöhnt, das durch die Tür schaute, es war eine Sicherheit, die gleiche Sicherheit wie ihre Stelle als Grundschullehrerin, mit einem Gehalt, das kaum für Verkehrsmittel und Imbiß reichte. Aber es gab ein Register, eine offizielle Nummer, eine Stabilität. Einen Anker überhaupt. Sie würde sich jetzt aber nicht von den Emotionen leiten lassen. Was sie machen würde, sie würde eine Geschichte erfinden über diesen gesegneten Mann, der ihr Leben verändern würde. Oh, ja, mit Gottes Hilfe! Er war von Gott gesegnet, ein Botschafter aller Heiligen im Himmel, Gott mußte ihre Gebete gehört haben, ihre angestrengten Kirchgänge zu der Igreja de Nossa Senhora da Pena, in Jacarepaguá, ein halbes Kilometer da oben im Fels eingraviert, in einem Stein, wo sich nur wenige Fahrer mit dem Auto trauten! Und wie oft, als sie im Zentrum war, war sie auf einen Sprung in der Kirche von Santo Antonio, wie Tausende von Frauen in jedem Alter, aus allen Klassen und Rassen, wie oft hat sie um Mitleid für ihren hoffnungslosen Fall gebeten? Immer, wenn sie konnte, hat sie einen Strauß weißer Nelken gekauft, wenn sie die Treppen der Kirche von Santo Antonio, dem Heiligen der Ehe hochging.
Während sie die Handtasche sorgsam ganz hinten im Kleiderschrank versteckte, immer mit keinen Diebstählen – auch zu Hause – im Kopf, konnte sie es nicht vermeiden, sich an eine Erzählung von Fitzgerald zu erinnern, in der das Mädchen, dumm, in einem Maskenball, von einem richtigen Pfarrer mit einem Kamel verheiratet wurde. Dabei waren die Buckel zwei Freunde, die auf das Mädchen nicht verzichten wollten. Betrogen! Würde sie auch betrogen werden? Positiv denken. Sie hat die Daumen gedrückt und die Augen nach oben gerichtet. Frank würde sie nicht wie eine dumme Gans behandeln! Sie hielt seine Visitenkarte in der Hand, lernte seinen Namen und seine Adresse auswendig und, auf dem Bett sitzend, als ob sie die Lektion für einen Englischtest vorbereiten würde, in dem die Noten immer eine Null, eine Fünf oder eine Zehn waren (wie die brasilianischen Lehrer das Schlimmste aus dem puritanischen Sadismus absorbierten, sie waren königlicher als der König!), hat sie angefangen, eine zusammenhängende Geschichte über das Erscheinen jenes Mannes zu erfinden, ein wahres Wunder, und versuchte dabei zu vermeiden, daß sich ihre Gedanken auf Schaufenster konzentrierten, in denen die Nachthemden aus Seide und Spitzen und die sinnliche Unterwäsche ausgestellt waren, die sie mit seinem Geld kaufen würde! Sie, eine Jungfrau bis zu dem Alter von dreißig und mehr Jahren! Ob er ihr im Bett gefallen würde? Wie könnte sie einen völlig Unbekannten heiraten? Naja, wenn er im Bett nicht gut wäre, brauchte sie nur die Augen zu schließen und etwas vorzutäuschen. Dieses Opfer zu bringen würde sich lohnen, nicht wahr? Sie würde keine andere Gelegenheit bekommen, nie wieder, diese war die Antwort der Götter auf ihre innigsten Wünsche und Gebete. Endlich, dank ihres starken Glaubens, war sie auf dem guten, richtigen Weg! Aber sie war so nervös! Sie hat sich niedergekniet um zu beten und Santo Antonio zu danken. Und ihre Gedanken wollten sich nicht auf die Gebete konzentrieren, die sie in der Kindheit von der Mutter – einer frommen Frau – gelernt hatte, die an dem Tag gestorben ist, an dem ihre Bewerbung für die Stelle als Englischlehrerin angenommen wurde. Das hat die ganze Freude zerstört. Ihre Gedanken waren jetzt immer wieder bei den Regalen in den Läden, auf der Suche nach Schuhen und Kleidern – oder vielleicht einem französischen Parfüm? Nein, das wäre zu viel! Dann ging sie alle Geschichten durch, die sie jemals gelesen hatte – sie hatte keine eigene Phantasie, leider, so viel Lernerei, immer mit der Note eins, hat ihre Vorstellungskraft vernichtet – und suchte nach einer Kurzgeschichte, nach einer Erzählung, nach einem Gedicht, das sie vor dem Vater retten würde, angesichts dieser Not. Vielleicht „Der Pater und das Mädchen“, wie in dem Gedicht von Drummond? Nein, das war nicht der Fall, er war kein Priester, und sie würde nicht wie eine Bäuerin auf einem Pferd wegreiten, durch die Felsen, weg vom Vater! Sie wurde nicht einmal einem anderen versprochen! Alles müßte zivilisiert ablaufen. Sie würde fliegen, auf eine moderne Art und Weise. Sie mußte sich konzentrieren und in ihrem Gedächtnis nach einer literarischen Geschichte suchen, ähnlich wie ihre Geschichte, obwohl das sehr, sehr schwierig war, da keine literarische Figur aus der ersten Welt so sein könnte, wie sie. Sie wollte nicht daran denken. Mit einem Schauder hat sie sich dann an eine Erzählung von Joyce erinnert, „Eveline“, in den Dubliners, in der die Frau im entscheidenden Moment nicht den Mut hatte, die Familie zu verlassen, den autoritären Vater – einen Alkoholiker -, die armen Brüderchen, unterernährt, um sich in die Freiheit des schönen Leben zu begeben, mit Frank, einen abenteuerlichen Seemann. Die Schiffssirene klang am Hafen und sie machte die Augen zu, voller Angst, regungslos, es nicht zu schaffen, für immer wegzugehen, in das südamerikanische Abenteuer hinein. Gottseidank, es war nicht umsonst gewesen, sich das ganze Leben mit Literatur in englischer Sprache zu beschäftigen – nordamerikanische, englische, irische, schottische, galische, senegalische, rodesische, kanadische, aus Puerto Rico, Karibik, Guayana, von Chaucer bis Doris Lessing und von Marlowe bis Ezra Pound. Und jetzt würde sie in einer so offenkundigen Weise die feige Haltung einer Figur aus einem Buch von Joyce – eins der ersten Erzählungsbände, allerdings sehr realistisch, die sie in dem Englischkurs gelesen hatte – nachmachen. Jetzt würde sie ihre Kenntnisse in den Wohnzimmergespräche benutzen können, mit Frank, nach dem Abendessen. Vielleicht eine andere Figur aus der hispano-amerikanischen Literatur, aber dann würde sie in dem magischen Realismus landen, und sie hatte so viel Angst, verrückt zu werden! Ob sie alles erfunden hatte, in einem psychotischen Anfall? Aber die Karte war da. Sie würde seine Karte nicht verlieren. Und, wie eine gute Schülerin, aus Sicherheitsgründen, hat sie seinen Namen und Adresse in ihr kleines Telefonbuch geschrieben. Und wenn er verheiratet wäre? Und wenn er gelogen hätte? In dieser Geschichte könnte ein Verbrechen versteckt sein! Eine Verschleppung? Nein! Dazu war sie viel zu alt…
* * *
Der Morgen war verregnet, das Gepäck war riesig, der alte Vater würde es sicher nicht schaffen, den Koffer in das rote, glänzende Auto zu packen. Das Schlimme war, er war sehr nervös. Ihr Weggehen war keine Erleichterung für ihn. Es war kein gutes Gefühl, zu wissen, daß er ab jetzt allein leben würde, für immer. Er hat sich immer so viel wegen der Kosten beklagt, die sie verursachte, und in dem Moment, wo er endgültig für immer diese Kosten los sein würde, zeigte er sich hochunglücklich. Nicht einmal das Auto war ein Trost! Er hatte immer von dem Tag gesprochen, in dem er ein neues Auto kaufen würde! Jetzt war alles zu Ende. Er würde das große rote Auto behalten, das Geld nur für sich, er könnte alles machen, was er immer für verboten hielt, in die Bars trinken gehen (aber er trank nicht mal), essen gehen (er haßte das, allein zu essen, was würde er machen?). Sie wollte nicht daran denken, das war sein Problem. Durch ihren Kopf ging das Stück von John Lennon: „We gave her everything that our money could buy. She is leaving home after living alone for so many years. Our baby is gone. Bye-bye!“. Und sie war sehr stolz auf sich. Sie hätte das vor zwanzig Jahren machen sollen, in irgendeinem Moment in ihrer Hippie-Phase, als die Mutter noch lebte, aber zu der Zeit hatte sie Mut zu nichts, und sie hätte niemals irgendeinen Schritt getan. Ihre Mutter war so katholisch! Selbst in der Hippie-Ära mußte sie jeden Sonntag mit ihr zur Messe!
Ihr Vater schrie! Er hat immer geschrien, als er nervös war, und er war fast immer nervös. Er hat es nicht geschafft, zu lernen, wie man den Kofferraum aufmachte, es war so ein luxuriöses Auto. Sie hatte zum Schluß aufgegeben und ihm gebeten, sie zur Schule zu fahren. Er beschwerte sich sehr, weil er die Arbeit stehenlassen mußte, um sie hinzufahren und später abzuholen. Es war so weit weg. Und wenn er auf sie warten würde, könnte er sich in der engen Schulbibliothek voller Dachtraufen auf die Anwaltsprozesse nicht konzentrieren, während sie die Vormittagsstunden gab. Es brachte nichts, zu argumentieren, daß es nur für einen Monat war. Nicht alle Lehrerinnen hatten das große rote Auto gesehen. Aber sicherlich hatten die anderen davon gesprochen. Das Schlimmste war, da sie noch nicht fahren konnte, hatte sie wieder angefangen, mit dem Finger nach oben per Anhalter zu fahren, täglich. Und das neue Auto stand dummerweise in der Garage. Der einzige Unterschied war, daß sie jetzt bewegungslos mitfuhr, ohne zur Seite zu schauen, in der Hand jene wunderbare Maschine, silbern, sauber und nagelneu, die in ihrer Tasche steckte, mit sechs Ultrapatronen in der Trommel. Den Revolver, den trug sie immer dabei, in der Tasche, als Zeichen einer inneren Revolution, die sie in ihrem gescheiterten Dasein ausgelöst hatte. Sie würde jetzt jemand sein. Der Vater schrie noch einmal. Er wollte einen Hocker aus der Küche haben, damit er den Koffer darauf stellen konnte und den größeren Koffer ins Auto schieben konnte. Halt! Warte! So würde er das Leder des Koffers und den Lack des Autos zerkratzen. Sie rannte zur Küche, um den Hocker zu holen. Verdammter Hocker – sie, ganz klein, benutzte ihn, um an die Lebensmittel heranzukommen, die Schränke waren immens hoch, für Giganten. Und wenn der Vater es nicht schaffte, das Auto bis zum Flughafen zu fahren? Sie würde ein Taxi nehmen, die Koffer liegenlassen, was interessierte sie das? Sie würde auf jeden Fall fahren, mit dem Revolver und dem Paß in der Tasche!
Sie würde durch die Hölle gehen, um zum Paradies ihrer Freiheit zu gelangen! Ob der Vater diesen Schlitten bis zum Flughafen fahren konnte? Er hatte kaum geübt, aus Angst, das Auto zu beschädigen. Nur gut, daß sie so früh losfahren konnten, wie er das immer machte!
Es waren Stunden riskanter Jonglierkünste, um Unfälle vorbei und mit milimetrischen Abstand um andere Autos vorbeifahrend, wobei die Fahrer schrien und gestikulierten wie Verrückte zu dem Vater, der nichts sah bei seinen Bemühungen, mit seinen kurzsichtigen Augen in der rush-Stunde überhaupt fahren zu können! Sie schwitzte und verkrampfte die Hände um den Revolver. Wie hätte sie wissen können, daß der Verkehr in der Zona Norte so sein würde, wenn alle aus der Arbeit im Zentrum kamen? Und mit einer Grimasse, die ihre Falten kaum versteckten, beschuldigte sie sich selber, weil sie so naiv gewesen war, zu denken, daß sie um diese Zeit ein Taxi finden würde, in diesem Chaos, zu dieser Stunde! Es sah so aus, als ob sie milimeterweise vorankamen. Und es war möglicherweise auch so in der Realität. Warum hat sie das nicht vorausgesehen und war nicht bereits am Morgen zum Flughafen gefahren? Sie würde den ganzen Tag dort warten, und um acht Uhr würde sie vor dem Schalter der Western auf ihn warten, in ihrer besten Kleidung, die sie in Ipanema gekauft hatte. Aber sie schwitzte! Ihre Hände klebten am neuen Leder der Handtasche.
Es war fünf vor acht, als der Vater, nach vielen Irrtümern das Auto bis zur Allee geschafft hatte, die zum Flughafen führte. Die Wahrheit ist, keiner von beiden war jemals auf dem Flughafen gewesen. In ihrer Kindheit, in einer Zeit, in der es der Familie gutging, war sie einige Male auf dem Hafen gewesen, um eine oder zwei Tanten zu empfangen, in der Erwartung, Geschenke zu bekommen. Frank würde nicht auf sie warten. Sie sollte schon beim check in sein! Er war ein entschlossener Mann, und wenn sie nicht am richtigen Ort wäre, zu der abgemachten Zeit, würde er einfach weggehen, für immer. Er würde hinterher keine Entschuldigungen akzeptieren. Und wie würde sie erklären, daß sie das Autofahren noch nicht gelernt hatte? Sie war eine Versagerin, eine komplette Versagerin. Einen wie ihn hat sie sicherlich nicht verdient! Ihr Märchenprinz war erschienen, und sie hatte nicht einmal eine Kutsche finden können, um zum Ball zu kommen! Sie war es nicht wert, befreit zu werden. Ganz weit weg konnte man schon den Flughafen sehen, die Lichter leuchtend in der Nacht.
Vorsicht! Vater, nein! Geh auf die Bremse! Nein! – Jetzt schrie sie, aber es war zu spät. Sie fuhren gegen ein altes Auto, das aber ein sehr resolutes Pärchen drin hatte, das schon rausging, um um Erklärung zu bitten. Nein! Vater! Nicht fliehen! Laß mich mindestens raus! Ich muß heute wegfliegen! Ich kann nicht in einen blöden Verkehrsunfall verwickelt werden! Verstehst Du nicht, Vater, kannst Du das nicht verstehen? Bremse doch, Vater! Bremse! Aber der Vater war wie ein tobsüchtiger Heranwachsender am Steuer, und der ständige Verteidiger der Moral und der Gerechtigkeit floh jetzt niederträchtig vom Tatort, wobei er der einzige Schuldige war. Sie fuhren mit hoher Geschwindigkeit, in die Gegenrichtung zum Parkplatz, auf der leeren Allee! Sie konnte es nicht glauben, was sie sah! Vater! Halte sofort! Das ist ein Befehl! Halt, Vater! Halt! Das andere Auto fuhr hinter ihrem Auto her, klebte an ihnen, und alles geschah zu schnell. Ich sage Dir, halte diese Scheiße an! Das war das erste Schimpfwort in ihrem ganzen Leben. Sie war so nervös, daß sie die Kontrolle verlor und das Steuerrad in Richtung Wiese drehte. Der Unfall war unvermeidbar. Das Auto überschlug sich mehrmals an diversen Plakaten vorbei, alle mehrfarbig und ein leichtes, schmackhaftes und komfortables Leben versprechend. Alles stand in einem Übermaß an Stille. Der Vater machte die Tür auf und sprang wie einem Verrückter aus dem Wagen. Er floh über die Wiese. Die Angst davor, einen Fehler gestehen zu müssen, war so groß, daß er den Kopf verlor. Es blieb ihm nichts an Würde. Ein Mann, der immer ohne Fehler die Gesetze befolgt und die Pflichten erfüllt hatte, unerbittlich, der immer DIE ANDEREN hinter Gitter gebracht hat, weil er WUSSTE, das es gerecht war! Und jetzt schob das Pärchen die Hände durch das offene Fenster an der Seite des Vaters (ihr Fenster blieb immer geschlossen, es war gefährlich, bei offenem Fenster in Brasilien zu fahren, besonders abends und nachts, hat man ihr beigebracht). Und sie würden sie am Hals packen, sie würden sie zu weiß Gott was zwingen, sie würden ihr weh tun, sie würden sie umbringen, sie waren wütend wegen des zerknitterten Autos! Sie hatte keine Mittel, irgend etwas zu bezahlen! Nichts! Nichts! Es sei denn, sie würde den Schalter der Western erreichen, der immer unerreichbarer wurde, wie in einem furchtbaren Alptraum! Sie würde nie rechtzeitig ankommen! Frank war bestimmt schon weg! Er würde diese Geschichte nie akzeptieren! Er würde ihr nie glauben! Alles, was ihr im Leben geschah, war so absurd, und das absurdeste war, daß sie geboren wurde! Und eine Eveline wollte sie nicht sein! Als sie wieder zu sich kam, hatte sie schon zwei Schüsse abgefeuert, gegen die Gesichter, die etwas Unverständliches schrien. Sie ging auf die Wiese und versuchte, über den Zaun zu springen, Richtung Flughafenpiste, das Rohr des Revolvers, heiß, an ihrem Bein, endlich, sie ging durch die Weide, es war nicht anders als die Flucht des Mädchens bei Drummond am Hals eines Pferdes, aber bei ihr mußte es anders sein, vielleicht würde sie das Flugzeug mit Gewalt anhalten müssen, immer näher an der Abflugpiste, die Füße tief im Schlamm der Weide, die Schuhe waren jetzt kaputt, sie würde barfuß fliegen müssen, gleich da vorne war die leuchtende Piste mit magischen Lichtern, wo die Glücklichen Richtung gelobtes Land abfliegen würden!





Bio fornecida pelo palestrante.

La Guerra De Los Orichas




Autor: Luiza Lobo
Título: La Guerra De Los Orichas
Idiomas: esp
Tradutor: Dominica Diez(esp)
Data: 29/12/2004

LA GUERRA DE LOS ORICHAS


Luiza Lobo

Fue por pura casualidad que Xangô tropezó com aquel inmenso tablero en medio del monte. Machista y guerrero, se sintió provocado. ¿Qién organizó aquel tablero de esa forma, justo en su camino? No veía la harina de dendé, ni la botella de aguardente, ni los adornos de cinta de santín rojo. No veía los colores de su casa de santo, ni la espada en su homenaje. No encontró en su tablero los alimentos usuales: grageas, frijoles negros, harina de yuca, arroz de dendé, ni los usuales objetos de sacrificio: un carnero, una jicotea, un chivo, ni siquiera un gallo. Viró el tablero intrigado, vestido com su saya de cuadros rojos y blancos y su collar de cuentas de mismo color: no entendía. Aquello no era el opinafá conocido. Era un tablero de ajedrez, cuadriculado en blanco y negro. Xangô, el rey de los truenos, se puso rojo de rabia. Rugió y todo se oscureció. Lanzó rayos y truenos contra sus invisibles enemigos. Xangô había llegado al monte caminando tranquilamente, cual la imagen de su padre en la vejez, Oxalá, el oricha yoruba creado por los hombres. Pero le pisaron los callos, ¡Oh!, sí, y se disgustómucho com lo quese encontró. Y asumió la forma de su padre en la mocedad, joven guerrero lleno de vigor y nobleza, y cargó com los dolores de su pueblo sufrido y exiliado en el mayor éxodo de todos los tiempos. No era cuestión del tal segundo libro de la Biblia. Su pueblo sufrió mucho más. Transformado en el Gran Padre, Orixalá se golpeó el pecho, lanzando sus rayos y truenos como dardos. Pero no sucedió nada. El cielo se nubló. Pero no se sucedió nada. Ahí, el señor de las piedras rugió para sus adentros: “Kauô, Kabiesile”, y esperó a que algo se le ocurriera. No atinó sino a llamar a Ossana, el dios iracundo de las hojas curativas del monte. Ossana llegó com su saya de percal blanco, amarillo, marrón, y en la mano, el hierro de siete astas puntiagudas, com un pájaro en la del medio.
– “¡Eu, eu! ” –gritó com su habitual saludo. ¿Qué está pasando aquí, ¡oh gran rey de los montes!? –Vea, mi santo de las plantas curativas, mire qué tablero tan raro, donde no veo colocadas mis ofrendas predilectas, como de costumbre, en el monte.
– Pero…, ¿no está? Y yo no veo mi ossé anual: ni cabra, ni gallina, ni harina, frijoles, maíz com miel, tampoco el chivo, ni el gallo para el sacrificio. Pero, ¡qué peji más extraño, Dios mío! Voy a llamar a mi amigo Oxosse. Entonces llegó el día de la caza, el rey y el cabloco de los montes del clan de Ogum, jefe por la línea de los cablocos jefes de legión o falange. Sostenía su ofá. Era su símbolo, el fetiche de los orichas, el arco y la flecha de hierro, en miniatura, junto al otá. Se puso a analizar el grande y extraño tablero, dándole vueltas a su ancha faja de ojá en la mano, vestido com su saya estampada en azul y verde claro, sobre sus pantalones de encaje blanco. Estaban todos vestidos como para un día de fiesta, pero atraídos por un pedazo de madera en el suelo. ” ¡Okê, Okê, Arô!” –saludaran todos a Oxosse. ¿Qué es lo que está pasando aquí en el monte? –gritó Ogum. Voy a llamar a los cablocos, mis representantes –y con su danza imitaba la cacería. Entonces Oxosse, Rei de Ketu, Cabloco y Rei das Matas, invocó a sus Cablocos: –Vengan, mis guerreros-indios de piel cobriza, entidades indias que bajan a nuestro terreno, vengan com su piel bronceada de indio a ayudar su a padre. Vayan viniendo, jefes-guía de la línea de Oxosse, Cabloco-araribóia; y vengan Cabloco Arranca-Toco, entidad-guía y Cabloco-Arruda, y Cabloco Cobra-Coral y Cabloco Guiné y Cabloco Pena Branca, entidades-guía, en la línea de Oxosse; y vengan en la línea de Xangô; y Cabloco Malembá, entidad representante de Oxalá, vengan todos y desciendan en medio de este monte para decifrar este extraño tipo de otá. Y las entidades indígenas bajaron todas, com sus penachos de plumas, bailando alrededor de una calabaza cubierta com un encaje de cuentas de Santa María, usada como instrumento musical en los candomblés; y hablaron sus lenguas, mezcla de yoruba y tupi. Y entrecruzaron sus líneas, sus falanges y legiones; pero no atinaron a dar com el sentido de aquel cuadro de madera. Rodearon el tablero y entonaron los cantos rituales de cada oricha, e hicieron com yeso, (la pemba), los dibujos que simbolizan a los espíritus y los hacen descender a la casa de santo: punto de seguridad, punto de apertura, punto de llamada, punto de quema de hierbas aromáticas, punto dedescarga, hablando en su enrevesada lengua, mezcla de yoruba y tupi; pero no dieron com el sentido de aquella tabla cuadrada. Xangô se puso bravo. Rugió y el día se nubló, lanzó rayos y truenos, pero no descifró el sentido de la afronta. No sucedió nada. Los cablocos intercambiaron señas y decidieron llamar a los Petros Velhos, que están en el cuarto nivel de la jerarquía espiritual, inmediatamente a continuación de ellos para hacer magía blanca, deshacer la magía negra y resolver aquella compleja cuestión com su sabiduría simple de los antiguos esclavos purificados. Bajaron los Petros Velhos, jefes de falange de la Línea Africana y de la Línea Africana de Yorimá. Tres Petros Velhos de la Linha Africana bajaron y saludaron a las divinidades y a los cablocos. Al preguntarles qué era aquel tablero, dijeron:
– Eso es un opanifá diferente. No tiene la forma achatada de la bandeja, ni tiene esculpida en el borde la cara de Exu, entre otras figuras y señales simbólicas. Por esa debemos invocar a Exu.
– ¿Cómo a Exu? ¿Y a él no se le debía haber llamado primero? –argumentó un cabloco.
– Tal vez traiga un mensaje especial sobre este extraño objeto –completó el otro. Y llegó Exu, com su saya roja y negra, adornado com una ojá roja, el gorro y los caracoles, sus collares de cuentas rojas y negras alternando, y a la espera del sacrificio del gallo y el chivo prietos. Mas sólo encontró la extraña bandeja, el opinafá diferente. Exu miró desconfiado a toda aquella gente allí reunida, a todos aquellos dioses inmóviles debido a la rabia inicial de Xangô, y dijo así:
– ¡Esto es guerra! ¡Es guerra declarada! Tenemos que llamar a nuestro padre Ogum, el dios guerrero, del hierro y de la agricultura. Ogum llegó. El oricha yoruba, hijo de Iemanjá y de Oranhiã, llegó para resolver las demandas, vestido com su espada de metal plateado y su ídolo colocado en un plato, “la herramienta de Ogum”, un mazo de siete instrumentos de hierro usados para la labor, la guerra y la caza. Ogum llegó y gritó: “¡Ogunhê!”, buscando su gragea, su frijol de carita, el frijol negro, el ñame asado, y no los encontró; y no encontró ni señal de chivo, de gallo o de conquém. No sucedió nada. Entonces Ogum invocó al Exu Tranca Ruas, al Exu das Almas, que trabaja com todos los orichas y protege todas las vueltas de las casas de santo. Llegó un hombre de torso desnudo, piel cobriza, pies de chivo y orejas puntiagudas. Exu buscó algún trabajo dedicado a él en un cruce del camino, pero en el monte sólo había árboles, y fue dificil encontrar quién había puesto aquel “maleficio” allí, justo frente a Xangô, el rey de los Truenos. Ogum cambió impresiones com él. Entonces el Exu de Sete Cabeças, o Exu de Sete Covas, Exu de Sete-Capas, que trabaja para Oxalá, el gran dios; y el mensajero Exu de Sete-Catacumbas y de las Sete-Encruzilhadas y de las Sete Regiõs das Trevas, sugirió:
– Gente, vamos a abrir la sesión. Vamos a llamar a Ifá, el gran oricha de adivinación y del destino, gran mensajero de la luz, para que tire los caracoles y lea nuestro futuro. –Así, Exu exigió para si el sacrificio de un chivo prieto; y con la fuerza del sacrificio clamó para la presencia de Ifá. Enseguida llegó Ifá, acompañado por su babalao africano. Usaba el opelé y agarraba sus caracoles perforados para ver de que lado caía la suerte. Ifá se puso de pie solemnente, al lado de una palmera del monte, su arból sagrado, y miró al grupo com dieciséis ojos, como dieciséis son las cuentas de la gran adivinación. Cada combinación era acompañada por una historia sagrada, lo que ayudaba a interpretar los designios. El babalao o sacerdote de Ifá agarró las cuentas de su collar sagrado, el opelé de Ifá. Era un collar abierto de ocho medias nueces de palma. Unas veces lo agarraba por una punta terminada en nudo, que simbolizaba el lado masculino, y otras, por el outro extremo, com cuatro o cinco hijos de paja de la Costa, que representaba el lado femenino. Y el babalao, el sacerdote de Ifá, el gran oricha de la adivinación y del destino, el dios de los dieciséis ojos, dijo a los presentesque verían dibujarse en la paja, al lado, su destino, que se formaría en cada odu, o jugada por la forma que tomaran las cuentas de su opelé, o collar. Com una varita anotó en la arena, en su extraño tablero de madera, el opanifá, el número de cada una de las ocho jugadas sagradas del Ifá, para la adivinación del destino. Las cuentas de su opelé ifá cayeron en forma de U, com el lado abierto vuelto hacia él. El babalao iba anotando las cuatro combinaciones posibles de los odus, o jugadas, en un total de dieciséis combinaciones posibles. En aquella única jugada del opelé obtuvo las dieciséis combinaciones, pero no se sintió conforme. Hizo una nueva jugada ligada a la anterior y al mismo tiempo subordinada a ella, com la que obtuvo doscientas cincuenta y seis combinaciones. Intentó dieciséis combinaciones más com cada una de las nuevas jugadas subordinadas, lo que hacía unas cuatro mil noventa y seis combinaciones para preparar las respuestas de los orichas. Y cada odu o respuesta tenía su historia correspondiente, e iba anotando cada nuevo diseño según la caída de los odus en el tablero de madera, el opanifá. Y así contaba su historia en el opanifá. Pero esta vez el opanifá no era el tablero pequeõ de madera, donde aparecía la cara de Exu, sino el mismo tablero com cuadros blancos y negros que encontrara Xangô en el monte, en medio de su camino. Los Orichas, sentados al lado del babalao, sabían que algo muy grave pasaba com su destino; los días y las noches se sucedían, y las intensas lluvias alternaban com el sol, en el cielo. Todos sentados en torno del babalao, bajo la protección de Ifá, aguardaban el final de la recitación de la suerte, oyendo atentamente la lectura de las historias de cada Odu, o letra de Ifá, muchas de las cuales ya sabían de memoria. Y cuando el babalao, que era el jefe de la casa de santo, al final reveló el vaticino, la mayoría de las divinidades ya sabía que se trataba de una grande y sería guerra en la que se precisaría todas sus fuerzas para vencer.
– Esto es un tablero de ajedrez. Y fue puesto aquí en el monte como “brujería” para diezmar nuestro rito y nuestra raza. Debemos protegernos mucho de esse juego. Es un juego inventado por los blancos y fue colocado aquí para una partida de fuerza destructiva en contra de nuestra tierra africana y de nuestra fe en el candomblé. Xangô clamó por los truenos e invocó a las cataratas y a los rayos para la protección de la piedra que estaba cortando, destruyendo y exportando hacia los países de los blancos; Oxosse invocó a su ofá, el arco y la flecha unidos, de metal blanco, que simbolizava su poder como protetor de la caza en el monte espesso de Brasil, amenazado de extinción, el babalao preparó sus oferendas, con las sustancias blancas del poder engendrador masculino: la savia blanca de su semen, su saliva, su aliento, y echó alcohol, aguardiente y el zumo de la palmera sobre todo el tablero; inmediatamente echó agua pura, la sustancia blanca conductora de la fuerza engendradora femenina, el aché, sin el cual no hay ofrendas. Invocó a las lami, madres ancestrales que propician los misterios y calman el espíritu. Puso la ofrenda ahí, junto a las sustancias negras, que representan el oscuro sello de la materia engendradora, ligada al poder genital femenino y al elemento procreado. E invocó los objetos rituales a su disposición: las piedras, vasijas, instrumentos simbólicos e indumentarias que en aquella ceremonia eran hechas en los tres colores-símbolos del reino de la naturaleza: el blanco, masculino, el negro, femenino, y el rojo del dendê, de la sangre del chivo sacrificado, de la sangre menstrual femenina, del ossum, o polvo de azafrán y miel, del cobre y del bronce de los símbolos de cada oricha. Terminado el sacrificio, hecho sobre el extraño tablero, retumbó un gran trueno y apareció una figura inmensa, musculosa, com sandalias, con una túnica corta amarilla y capa; muy extraño.
– ¿Cuál es su origen, su línea de vibración? –le preguntó Xangó, el gran oricha, dios del Trueno. El extraño ser se sintió molesto por aquella pregunta. No compreendía bien la lengua, ni el sentido de las palabras del santo negro.
– ¿Es un iniciado?
– ¿Mi pregunta si soy homossexual?
– En fin, ¿Cuál es su oricha?
– No sé de qué hablan.
– Bien, entonces, ¿Quién colocó este tablero aquí en el monte, atravesando mi camino? –insiste Xangô, com su voz de bajo.
– Esa fue idea de Zeus, el rey de los Truenos.
– Debe haver alguna equivocación, porque el rey de los Rayos y de los Truenos soy yo –intervino Xangô.
– ¡Ah!, pero no es verdad.
– ¿Y quién eres tú para decirme lo que es y lo que no es verdad?
– Yo soy Teseo, y maté al Minotauro, monstruo con cuerpo de hombre y cabeza de toro, que vivia en un oscuro laberinto construido para el rey Minos II, en Creta. Si no hubiera sido por mí, hasta hoy doce muchachos y doce muchachas estarían siendo sacrificados cada año a este hombre-toro, en verdad, fruto de los amores ocultos de Pastifae y Minos II.
– ¿Estás seguro? –vociferó Oxalá Mira, ya yo viajé por todo el mundo y nunca oí hablar de esa tal gruta de Creta. Ni oí hablar de esse tal monstruo. Eso dbe de ser una historia muy antigua.
– Bien, es verdad.
– ¿Y, qué historia es esa del hijo com forma de toro? Eso no puede ser. ¿Usted nunca estudiaran biología?
– Bueno, nosotros, los griegos, amamos la fantasía, la reunión de todas las formas, animales y humanas: casamos cisnes con Zeus, nuestro rey de los Truenos, piedras con ríos, chivos y caballos con hombres, dotamos de alas a los caballos…
– Estoy encontrando toda esa conversación muy bonita, pero no me está gustando nada esa historia de a toda hora hablar de esse tal rey de los Truenos de ustedes. ¿No es posible que lo invoques de inmediato? –volvió a hablar Xangô. Teseo se encogió de hombros, pero no necesitó de ningún arte demagía para invocar a Zeus, porque este apareció enseguida, com su rostro astuto de dios mayor del Olimpo.
– ¿Me llamaron, hermanos? –Este viene com cara de politico experto –comentó Oxosse, dios de los montes, que se disgustaba por todas las sutilezas de las ciudades.
– Soy hijo de Cronos, el tiempo, y de Rea. Ya tomé todas las formas posiblaes para casarme con mis siete mujeres: lluvia de oro, para conquistar a dánae: sátiro, para alcanzar los amores de Antíope; cisne, para casarme con Leda –y tuvimos dos hijos cisnes, gemelos; toro blanco, para raptar a Europa; llama ígnea, para devorar a Egina.Para estabelecerme en el Olimpo, luché contra los Titanes, los Cíclopes, los Hacantonquiros, gigantes de trescientas manos, hijos de Urano con Gea, la Tierra; luché contra Prometeo y muchos otros. Por eso no tengo miedo de luchar contra ustedes, africanos. Fue por eso que coloqué aquí esse tablero.
– ¿Y qué tipo de opanifá es éste, que no conocemos? –preguntó, respirando profundamente, Ifá.
– ¿Cómo? No conozco esa palabra, pero ese tablero sirve para jugar ajedrez. Tenemos que mover la reina, el rey, los caballos, los peones, y los movimientos tienen que ser pensados, calculados racionalmente, hasta empurrar el rey o la reina o una trampa –esta situacción sin salida si llama échec et mat, es decir, vencido y abatido, pero el vulgo acostumbra a llamar “jaque mate”.
– ¿Y quien gana tiene que incorporarse, recibir la entidad, ser posuído por su oricha, como buen hijo de santo? –preguntó Oxosse.
– No sé nada de lo que el compañero está hablando: basta con acompañar intelectualmente el movimiento de el rey y de la reina…
– Mira, nosotros, los de la África, no tenemos ese negocio de colocar al rey y a la reina en una trampa, no. Andamos con ropas de paño, los pies en el suelo y comemos comidas sabrosas: ñame, frituras con mucho aceite de dendé, y la mesa puesta con mucho color y arte. Esos lujos cortesanos están fuera de la vida de nuestra tribu; somos pueblos del monte, amamos la tierra, la piedra, el agua, la lluvia y el sol. Creo que sería bueno hacer un iré, un ritual de iniciación, con este tal de Zeus, ¿no creen ustedes? Los dioses aprobaron con un movimiento de cabeza, mientras Zeus no disimulaba su ira.
– Vamos a llamar a Hércules. Hércules les dará una lección a estos negritos. Hércules llegó con las sandalias de cuero de chivo amarradas casi hasta los muslos. Su musculatura se mantería intacta, a pesar de los largos años de uso, y contrastaba con la cabeza microcéfala de los musculosos pero poco inteligentes.
– Entonces qué ¿vamos o no vamos? Si no quieren jugar alejedrez está bien, resolveremos este asunto por la fuerza, ¿no es así? Mi amigo Teseo y yo, que además vencimos, en nuestro gran viaje de argonautas, a unas mujeres guerreras, las amazonas, que tienen un solo pecho
– ¡Oh Teseo!, si ellas vivían en tierras por donde esos de ahí andan hoy en día, ¿no es verdad? –Pues estamos aquí para eso: para vencer en esta batalla, incluso a costa de nuestro propio Panteón.
– Sí, ustedes hablan muy complicado, llenos de efes y erres, con sus reyes y reinas. Lo que yo quiero saber es si ustedes saben hacer una mandinga bien hecha, si se saben defender de una buena pajelanca de umbanda, quimbanda, macumba, umbanda tracada. Aquí yo soy el mensajero de todas las fuerzas tenebrosas y de las profundidades de los cemeterios, y puedo hacer cualquier sortilegio en contra ustedes y de su tal ajedrez.
– Mira eso, Hércules, creo que tenemos que llamar a Hermes. Este dice que es mensajero. El único y mejor mensajero de todos los tiempos, es Hermes; él, sí, y es quien conduce las almas hasta el Hades, el reino de los muertos. Hermes llegó enseguida, volando por la fuerza de sus talarias o sandalias aladas, su petarius o capa con alas y el caduceo, la vara mágica con serpientes entrelazadas en la punta.
– Hermes –lo interpeló Zeus–, dé una lección de norma culta a esa gente de las casas de santo.
– Mi funcción es más bien de lleva y trae, ¿no es así, camaradas? Tal vez pudiéramos llamar a Prometeo, para poner una manita más humana en esto. Esta gente me parece medio sin cultura general, ceo que nunca oyeron hablar de ajedrez. ¿Ustedes no iban a jugar una partida de ajedrez fatal?
– Ese es el caso, pero tenemos problemas de comunicacción, lingüísticos y culturales. ¡Que venga Prometeo! –gritó Zeus, a pleno pulmón, muy irritado con todo, y ahora más, por tener que pedir auxilio a su originalmente archienemigo, el ladrón que robó el fuego de los dioses para entregarlo a los hombres. En verdad, él mismo los creó del barro, tambien les enseñó las plantas medicinales, el cultivo de la tierra y a domesticar caballos. En fin, un dios que a pesar de que finalmente se unió al Olimpo, siempre fue politicamente incorrecto; y que fue pintado por excelentes colores por todos los viajeros románticos: Shelley, Byron, Coleridge, Dante Gabriel Rossetti, hasta por Elizabeth Barrett Browning y un tal de Joaquim de Sousândrade.
– ¿Ya usted leyó a un tal de Sousândrade, nascido en Maranhão? –preguntó Zeus a Xangô, un tanto descortés.
– Nuestro pueblo no es de lecturas, Alteza. Como ya le dije y le repetí, nuestra actividad principal está más ligada a la tierra, a los elementos ligados a la naturaleza: el viento, la lluvia, el sol, la energía vital.
– Hum… economía de subsistencia –ridiculizó Zeus.
– Llámelo Vuestra Alteza de la forma que quiera. Pero es así como vinimos de África y hasta hoy vivimos en el corazón de africanos y brasileños. Y ustedes, ¿dónde están que no los veo?
– ¡Estamos en los libros escolares! –contestó de inmediato Hefestos o Vulcano, que surgiera rapidamente, como el fuego, a pesar de ser cojo. –Todos esos adornos que ustedes ostentan ahí, en su cintura, fueron hechos por mí, en mi taller, que está dentro de un volcán, en el corazón del monte Etna, en alianza con los Cíclopes, gigantes de un solo ojo. Nuestra fama atravesó el mar Mediterráneo y llegó hasta Sicilia, Roma, toda Italia, el norte de África, y hoy somos estudiados por toda la civilización occidental.
– Pero que tipejo más pretencioso –se entrometió Exu. Gran cosa esa de ir de Grecia a Roma, eso está inmediatamente allí al lado, en aquel mar pequeñito. Nosotros sí, nosotros que atravesamos el Gran Oceano Atlánctico y estamos vivos en la fe de las personas hasta hoy. Somos consultados, reverenciados, recibimos ofrendas y cultos provenientes de todas las líneas y tipos de fe, de todas las razas y clases sociales que habitan África y Brasil.
– Esa es la religión de gente pobre y subdesarollada.
– Eso es lo que dicen los cínicos protestantes, que tienen prejuicios raciales –rebatió Exu. Y Oxalá intervino.
– Crimen sin finanza en Brasil. Zeus se puso nervioso. Nada, además de la incontinencia sexual, lo dejaba más inquieto que una conversación vacía y larga. Los tics nerviosos se desataron. Refunfuñaba y se rascaba la entrepierna.
– Mire, no sabemos nada de su gente inculta ni de esas leyes de países bárbaros. Lo que importa es saber si ustedes van o no van a jugar ajedrez conmigo. Apolo o Helio ya va muy alto en su carro alado que ilumina el cielo. Él no puede descender hasta aquí, pues está transportando el día en su carruaje, de un lado para otro, pero desde allá arriba está acompañando nuestra guerra. Oxosse no se contuvo:
– Pero miren qué ignorancia, ellos que se dicen tan cultos y civilizados. ¡Un carro con allas trayendo el día! Es mucha falta de conocimiento científico.
– ¡Son imágenes poéticas!
– ¿Y qué es lo que ustedes hacen durante todo el día, además de iluminar el día y hacer poesía?
– Bien, nosotros, básicamente, amamos. Hacemos hijos híbridos y conquistamos siempre nuevos amores –dijo con despecho Zeus, rascándose la entrepierna.
– Pero qué civilización más egoísta –retomó Oxosse.
– ¿Y no tienen un pensamiento para la humanidad?
– ¡Oh, claro que sí! –Señores, él no leyó la Iliada y la Odisea, de Homero, ni la Eneida, de Virgilio. Está claro que en los grandes momentos épicos, nosotros intervenimos. Pero la mayor parte del tiempo estamos muy ocupados; comemos nuestros panales de miel, la ambrosía, nos deleitamos con el vino fresco del Olimpo…y nos defendemos de las acusaciones de adulterio, no faltaba más. La propia Diana, que es la diosa de la caza, se pasa el día cazando venados, pues no podrías privarse de unos de sus mayores placeres en su larga vida.
– ¡Pero eso es un escándalo! –intervino Exu. –Es por esa y otras razones por las que nació un Marx. La humanidad fue relegada al último escalón social por esa religión elitista de ustedes. Sólo importan ustedes, ustedes, y nada más que ustedes. ¡Y, además de eso, son inmorales y antiecológicos: cazan venados y otros animales silvestres, por puro placer! ¡Cuánta inutilidad!
– No veo lo que hay de malo en eso. ¡Es lo que se llama clasicismo! –dijo burión Zeus.
– ¿Clasicismo? ¡Eso es deísmo! ¡Es sociedad de clases, y hasta de castas! Ustedes viven en una sociedad cerrada y corporativa. No plantan, no protegen a las personas, no adivinan su futuro, no las aconsejan, no profundizan en sus destinos cuando están necesitadas… –habló Ossanha por primera vez.
– ¡Bueno, para eso pueden acudir al Oráculo de Delfos! ¡Es allá donde oirán las profecías que necesitan y en las que tanto creen! –dijo Zeus entre carcajadas de bon vivant.
– ¡Pero usted es un cínico, un desclasado social! –intervino Oxalá, con su voz tronante de dios principal. ¿En qué cree ese humanismo suyo?
– ¡Yo creo en el placer! Creo en la belleza, en la estética, en las curvas perfectas, en la medida áurea, en los templos bien construidos, y en la mens sana in corpore sano.
– ¡Pero la humanidad no es siempre así! La mayoría de las personas nace imperfecta, por dentro y por fuera, y necesita un rezo fuerte por parte de todos los dioses y orichas. Ustedes sólo se ocupan del lado de afuera, de la belleza exterior, y las almas que se jodan…
– ¡Ah!, eso del alma y la transmigración del alma ya es cosa del departamento de filosofía. Quien se ocupa de eso es Platón, que escribió varios diálogos, además, en otra persona, sin asumir nada, colocando esas palabras delirantes en boca de Sócrates. (Y asumiendo aires de intimidad, le echó el brazo por el hombro a Xangô). Oiga, amigo, puedo llamarlo así, ¿no? Le voy a confesar una cosa. No creo en nada de esas cosas de religión. Lo mío es el placer, la lujuria, la orgia, mujeres bonitas, mucha ambrosía, vino, carnero asado, cultos a Dionisos y a sus pproseciones pervesas, escapar de la persecución de Hera, que vive con unos celos locos de mí. En fin, vivir, aprovechar todo lo que nos proporciona nuestra existencia privilegiada de dioses del Olimpo, nuestro cielo.
– ¡Jaque-mate! Usted mismo se condenó, hermanito. ¡No cree ni en usted mismo! –gritó Xangô con los ojos inyectados de sangre.
– Es lo que da la cultura desconstruccionista que ustedes mismos lanzaron, hace ya tanto tiempo. Ustedes no pueden creer ni en sí mismos, de tan intelectuales que son! –gritó Exu-Rompe-Mato.
– Menos mal que para vencerlos en esta lucha pedí auxilio a mis hermanos Oxumaré, oricha del arcoiris, y Omolu u Obaluie, cuyo verdadero nombre no puedo pronunciar aquí, porque podría traer la viruela y demás enfermedades, pues son de la misma línea. ¡Lo vencía o dejaba de llamarme Oní! No sería Xangô yoruba nagô, dios del Rayo y el Trueno, hijo de Iemanjá y de Oranhiã, no sería Xangô Abomi, Xangô Afonjá, Xangô Agodó, Xangô Aira, Xangô Alfin, Xangô Alufá, Sango Cao, Xangô Dadá, Xangô de Ouro. Y en la medida en que iba refiriendo sus nombres, la fuerza de éstos iba exorcizando a los dioses blancos, que retrocedían amedrentados –y el tablero de ajedrez quedaba todo pisoteado.
– No necesitamos de ningún tablero de ajedrez para discutir nuestro poder con ustedes, porque tenemos nuestro opanifá de adivinación. E Ifá nos contó que ustedes vendrían, salidos de sus libros de mitología, para asustarnos. Pero nosotros no le tenemos a zumbis blancos, venidos de lenguas muertas y museos europeos. Ustedes tienen una religión muerta, una cultura que se convertió en turismo, y ni hablan ya su lengua, ni creen en la cultura griega clásica. Pero nosotros estamos aquí, vivos en la danza, en el canto y en culto del pueblo.
– “Kauô Kabiesile”, yo te saludo Xangô, rey de los Rayos y Truenos! –dijo Zeus y se fue lidereando la desbandada, inclinándose y saludando a Xangô, rey de los Rayos y Truenos, con muchos deseos de salvar su pellejo. Y fue así que terminó la Guerra de los Orichas. El sacerdote de Ifá contó después que, desde entonces, los niños brasileños no estudiaron más mitología griega. Prefieren ver televisión todo el tiempo. Pero el dí de Año Nuevo, van a encender sus velas en la playa para Oxumaré. Y todo es divulgado por las pantallas de televisión para el mundo entero, entre fuegos artificiales y shows de roquero, después explican, simplificando el sentido de las velas, del tabaco, del aguardiente, y de los puntos rayados en las arenas de Copacabana.

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Notas de la Autora, Traducidas:

Opanifá Tablero pequeño, de madera, de formas variadas: circular, semicircular o rectangular, con un borde achatado y ancho, ligeramente elevado, tallado con figuras y senãles simbólicas. En esa especie de bandeja se marca, sobre un polvo especial, con el dedo, por el babalao o jefe de la Casa de Santo, el odu, o resultado de una jugada de la suerte, que sale en el lanzamiento de Ifá.
Ossé Ofrenda
Pejí Altar
Ofá El símbolo. Ofetiche de los orichas, el arco y la flecha de hierro, en miniatura, que en ese caso, representa a Ogum.
Otá Piedra de monte, la piedra de santo o piedra negra de salto de agua, donde se fija, en un ritual especial, la fuerza mística del oricha, que constituyye el “asentamiento” principal del dios. Cada dios (oricha) tiene su propia otá piedra del río, de mar, de monte, de mineral de hierro, de mármol, meteorito, etc., la que puede ser clara o oscura, lisa o rugosa, según el carácter de cada cual.
Ojá Faja usada por las entidades como cinto.
Demanda Desentendimiento, litigio, lucha entre orichas y entre personas o Casas de Santo, en la que Ogum es tenido como protector y como quien resuelve dichos conflictos.
Conquém Perro, en África.
Ifá Gran oricha de adivinación y del destino. Mensajero de la luz de Orumilá (uno de los títuços de dios supremo), mientras Exu es el mensajero de las tinieblas. Su sacerdote es el babalao que usa el opelé (collar) o cocos de dendé, en el pasado, o, actualmente, caracoles para recibir la respuesta del oráculo.
Opelé Especie de collas abierto o cadena, usado para la adivinación, formado por ocho media nueces de dendé o caracoles con el fondo cortado, unidos por eslabones de metal o trenza de paja de la Costa. Su uso es privilegio exclusivo del sacerdote de Ifá.
Mandinga Hechizo, en quimbundo. Plaga, encantamiento.
Pajelanca Rituales indígenas mezclados con influencias espíritas y católicas. Culto originalmente popular en la Amazona y Piauí, al que se unieron influencia africanas, que invoca a los “encantados”, espíritus de la naturaleza que viven en los ríos, fuentes, montes, con la finalidadde cura mágica. En el ritual, se usa sólo una especie de marcas adornadas con plumas.
Tracado Culto de Casa de Santo que usa más de un tipo de ritual, generalmenteumbanda, con rituales e indumentaria del nagô, de Angola, entre otras.

Fonte: Cuento publicado in: Revolución y Cultura, La Havana, Cuba, nº 4, julio-agosto de 2000: p. 40-44. Traducido por Dominica Diez. Extrahído del libro de cuentos: Estranha aparição. Rio de Janeiro, Rocco, 2000. p. 129-49.





Bio fornecida pelo palestrante.

The bitten apple




Autor: Luiza Lobo
Título: The bitten apple
Idiomas: eng
Tradutor: Luiza Lobo(eng)
Data: 29/12/2004

THE BITTEN APPLE


Luiza Lobo

It is hard to describe the beauty of this person who walks amongst men but who belongs to the world of gods. When his blue and innocent eyes first met mine. I felt greatly moved. It is as if I had always known him through the lines of his face, framed by his blond hair, the minute riddles which barely formed an angelical whole. Lucifer or Gabriel, we met in a church at a rock concert. I immediately wanted to know who was that character who had just come out the long verses of Milton, already wishing to pull him from Paradise Lost to meet him again in Paradise Regained. I was informed that he dedicated himself to strange experiences with matter and that he was a person of great mystery and discretion.
Our first lunch, at Magoo’s, was an exchange of dreams and expectations. Both gave one another the impression of being deeply busy, and none of us not for one moment gave one step towards approaching the other. So many phone calls just to end up in a sandwich! Well, an elaborated sandwich, for we spent more than four hours, until sunset, discussing art, cities, personal tastes and life. I came out with the sensation that everything was quite correct, and that a great number of phone calls would follow aimlessly.
Really, a long time afterwards, on a Sunday, quite late at night, I got a phone call from him which really surprised me. He came from a trip and invited me for a beer at East Village. As a coincidence, at the same bar where I had heard proposals of disgusting love, of very bad recollection; but coincidences exist so that we can link the knots of the chain, and to prove that love is reborn from the Phoenix.
I met him at the bar which was crowded with big boys – always a very constraining situation for a woman who left her a book behind, jumped out of bed, took a shower and threw herself at the street, towards a bar in which she arrives alone and puffing, and feels that she is examined from head to feet by her rivals. I fiercely returned their stare, and thanked for the bench that was offered to me at the counter, as a prize for my triumphal victory. There we began to discuss the world’s fate, revolution versus education and culture, atomic war and militarism, individual dreams and the capitalist system. I did not cease to observe that face of a gothic angel, chiseled without the exaggeration and the fats of the Baroque, with absolutely correct lines – thinking that he had them so perfect because as a child he had eaten corn flakes and vitamin-D reinforced milk. A feminine look in a masculine whole, sensibility associated with the lightness of movements which made everything spin as if driven by the beauty of his voice.
From there we crossed the city, from Chinatown to the Meat Market at West 14th, as far as Washington Square, without feeling a bit tired, in spite of the lateness of being so late at night. His voice was an oasis in the noisy city, and when he laughed his eyes dropped small sapphire bids on the filthy sidewalks, where beggars, foreseers and addicted sat. Each minute at his side was the discovery of a new boreal dawn.
When I tried to find out where his faults lay, I thought that he had none. He explained to me that he had flat feet, which explained why he did not go to Vietnam War – and therefore, this was no fault, but a virtue! Besides, his knees were slightly turned inside. I could not help but smiling before such a narcissistic innocence that made him truly believe that these were his only faults. This dialogue inspired me a drawing that I began to do hour after hour, until I gathered courage enough to show it to him. It was the drawing of Christ at the cross. He had a crown of thorns and his knees were turned inside, due to the weight and the pain of the nails – but his face and his cock were stiff. He was red to the roots of all his hairs. He said that in a country with such a Presbiterian tradition this drawing could drive me into jail. I asked how a drawing that represents love in its purest dimension and in its most infinite spirituality could lead anyone to prison. Would it not be better to arrest the generals of the Vietnam or the Gulf Wars or the CIA agents? His eyes looked as if he was still in the Luray Caves, in North Virginia, which he had recently visited.
When he took me to his house, I was enchanted with its location, which looked to me a mystic sign: it was on East Second Street with Second Avenue. Beside it, a sober neo-Gothic Presbiterean church, covered with the black smoke of the city, mysteriously hid amongst the trees, as if it was and at the same time was not there. The land before it was a delicious cemetery, tiny and abandoned, still tidy in its white stones amongst the high and smooth grass, and without the exaggerated ornaments of the Roman and Florentine tradition. Not one cross. Some sparse saints, figures that were more human than celestial, which were barely above the ground, as if to show a humble and pragmatic religion. Other statues reminded one of angels looking from behind the fences, as if in prison. Little countryside flowers spread on the grass, so that it would be difficult to penetrate in those thumbs without stepping on the flowers and smashing them completely. The cemetery was lively. The sun fell directly on a tree that knit nets of black branches on the bright marble. The sound of a flute in the street lent it an atmosphere of the Garden of Delights.
To reach his apartment it was necessary to beat six gigantic flights of stairs, high enough for an athlete. “This is good, it keeps me in shape”- he commented, while I puffed behind him. To come in it was necessary to wait for a voice sunk into a bathtub to give us permission to get in the room. When I saw a room that could be barely called an apartment, my heart sunk and fell sorry for him. Poor one! To live in a sofa all in rags, in the middle of the room! Everywhere men’s underwear, tennis shoes, socks and pictures mixed up to paint and photographs at normal size. Fortunately there was no cat to mix up its smell to that visual chaos. I imagined mice and cockroaches inhabiting the same space as him, but I did not want to think very deeply on that. The television, always on, showed a phlegmatic tennis set. A nice breeze came from the window, where a fire escape staircase projected above New York City. From there one could see my two immense favorite trees: the two metal towers that changed color and aspect depending on the weather and season. Their tree-tops faded in the smoke of their more than hundred stores and received the earth-juice through their powerful elevators. Sometimes they were radiant with sunshine, sometimes they were unhappy, depending on the result of the Stock Exchange.
He changed his clothes, throwing the dirty ones below the table. Seeing my gaze of amazement, he commented: “Now you know it all.” He also changed his sunglasses. At every corner he bought new sunglasses, each time darker and more insane, cheaper and “made in Taiwan.” That day the sky was blue and had crystalline limpidity, which at least justified his sunglasses. But why wear them at night?
From underneath the sofa he took out a white poster, covered with glass. There, letters in nankeen announced his exhibition the previous year, providing titles to several surfaces of yellowish color, which were very hard to define.
“What is this?”- I asked him.
“ This is a poster announcing my exhibition.”
“This I know. But what kind of exhibition?”
“Skins. Human skins. It was a very tough work. I lay down for hours in the sunshine until my skin got loose, so that I could use it in one of my works. I also ran after people, when they left the beach on a very sunny day, begging them to let me pull at least one little layer of skin from their back, until I could complete 40 pictures made of human skin. Real maps of life.”
“And did you sell a lot?”
“No! Not one picture was sold! People left horrified, with their hands to their heads!”
“Which shows how difficult it is the conviviality of humanity with human nature.”
For a moment, thinking where he had left something, maybe a checkbook or a pack of cigarettes, he stopped by the table against the light. I felt a thrill. It is as if the beautiful figure of Prince Charming had materialized, the mysterious Dorian Gray, appeared before me. Or would it be the Happy Prince, from the height of his socket, deprived of his sapphire eyes, taken away by a sparrow? I had the impression that he, while stepping towards the window, where he stopped and turned to me, would continue to look at me forever, even when blind, even if through his heavy sunglasses.
Little by little I noticed that I did not need to talk for him to guess my wishes. It was comfortable and amazed. One day he exclaimed: “What should we do this morning is to spend the day out, in a park!”- and this was exactly what I would love to do and had been thinking for the whole week. After getting to a bench in the park, he asked me if I would not like to place my head on his lad, and “Wow!” how could he guess? Before all this he only smiled, as if he knew what I did not know: the mystery hanging in the air.
My contacts with my Blond Apollo became more and more amalgamated. We lived one reality inside the other. One always openly sunny, the other only hinted at. His femininity, for example. Such a constant theme when men unmask their repressed sensibility sometimes seemed to me excessive. The syndrome of the century: a narcissistic hedonistic sex in which all tried to find only the image that would not hurt or deviate from the same in the other. Sex had neither frontiers nor divisions. His kisses burned me and froze my face, covering me with fright and passion. As if he tried to suck me to his inside – an experience that one only feels with his primitive mother and which we thought we had forgotten and which she malevolently reenlivens in the baby-feeding act. And, according to him, we walked at the brim of an abyss, suffering from the “extremes of life and emotions.”
I commented that his beauty was perhaps excessive for daily life, feeling me much incapable to any kind of reciprocation, but he contested: “Don’t worry, your beauty is all in your soul, and it is your soul that interests me in you. It comes out from all your pores, and from your eyes, and from your mouth, when you smile. Then you transform yourself completely and become ageless, and only then become and is forever.” – I confess that I felt flattered, but at the same time worried; was my body then decrepit and horrible? I was only tranquilized when I recollected, with my sparse arithmetical knowledge, that the “reciprocate is not always true,” and tried not to think on the subject anymore. What is love, afterwards, if not a brief passing moment, transient as life itself and is undone as soon as it is touched? Women, as Lord Henry used to say, with their mania to plan and worry about the future, destroy the germ of love in its source. An act of self-immolation, of masochism, I would add.
In spite of my attempt at self-control, each day I felt nearer my Enchanted Prince, or maybe the image that he projected on me, at light speed. I walked at his side with a jumpy step, while he had big footsteps, indifferent to his flat feet, and I felt lifted above the noise and the confusion of pizzas, tequilas, milk-shakes and sushi-bars, stifling subways, all kinds of cheap trifles sold on the sidewalk. I hovered above it all in the clouds, among pairs of seagulls, there where the armadillos and turtles lived, in a far-away Sky Party.
I spent more and more time at his laboratory of holography, those strange bright three-dimensional photographs made with laser beam. He began to visit me at dawn, and many times before dawn he left running so that his holograms could have a correct exposure time to certain chemical substances. The plates captured the reflected dimension of energy in the balance existing in every body and reproduced the objects in their form of light. Thus he explained to me in the laboratory and chose the substances that he would employ in his next development, always tending to purple, orange and yellowish tones: gold, blood, light. The other side of image – for thus were the objects pictured. When they were ready, they lay in the space, defying Newtonean physics, animated by a light beam. Without this, the photo would disappear forever. But in a dark environment, with light coming from behind, images glittered as in the haunted light of an amusement park.
I felt embarassed to admit that those lessons on the process of holography tired me as much as my classes of Organic Chemistry at school. I only understood the general philosophical meaning of it, and even amused myself in finding sentences of Cabalists who had already foreseen that process of transforming matter, antimatter and atoms. He gathered the small pieces of paper with the quotations that I gave him, put them inside a briefcase and said that one day he would write an article about all that.
A nightly being in a modernized medieval laboratory, he spoke to me, in ernst: “From darkness there came light – as states the Bible. – This is what we are, light, not matter; light, loose energy floating in the air. Unstable as light beams, but in a much higher density than these holograms. – And as if to prove his theory, he crossed these floating images with his hands, fantastic photos that disappeared with light.”
Listening to all these theories on light reflection and incidence, I asked myself why he only photographed solid objects, which had no interest whatsoever.
“Well,” – he commented, with a doctoral air – “this is due to the present stage of the development of holography… It is a question related to atoms, molecules, loose cathodes…”
“But I don’t see how grapes can be less unmoving than a steel box.”
It was useless. I insisted. I bought one pound of red and green grapes and gave them to him. Dawn was barely approached. It was a Sunday. He became happy with the idea of making this experience and threw himself out towards the Sunday antiquity fairs that spread on the streets of Tribeca (Triangle below Canal Street). He explored them buying all kinds of trifles: sunglasses (particularly), silver food-pushers (for children), 78-rotation records (in the era of laser), nostalgic tapes. From there he brought quite a kitsch glass plate from the 1950s and, very excited, he locked himself in the laboratory to do another experience with the grapes holography.
(I finished by thinking that my idea was not that good, after all).
He locked himself in his lab for days, a dark cubicle, and afterwards he told me that the photo was a success. But the truth was that I never managed to see that hologram of the grapes – which did not hinder us from discussing it for hours on end in yuppie Chinese restaurants, tasting a Peking duck or in Italian cafés, drinking coffee late in the morning.
He also showed three-dimensional photos of the Luray Caves taken with a Russian light hand camera to me. Very interesting. And there was that three-dimensional photo in which he photographed me on the mirror while photographing his image on the mirror photographing me. It was in Chinatown, very near the metal towers, my favorite trees in New York City. And near the street where, in a perhaps unusual gesture, he, paler than ever, pulled me by the hand to cross the street among the cars. How romantic I found that! (It is true that it was only to reach a bank open).
I was once horrified to see the body of one of his faithful helpers reproduced in a shiny green and red hologram, all cut by muscles, tissues and excessively tense ligaments. The devoted woman had exposed herself directly to the effects of the laser beam only to allow him to obtain that horrible experience! A hologram of the inside of the human body!
“Never mind”- he explained in a tone that seemed to be unbearably controlled. – “This is done in a harmless intensity for the human body. As if to contradict him, a black cat he used to feed suddenly jumped out from a corner in the lab, in a sad omen.
In a certain way it was strange that to live his modern Monetian theory he had to lock himself every night in a dark cubicle. When I asked him if he was not working too hard, he justified himself:
“Well, at least it is better, as a job, than to be paid by the hour selling on the telephone deodorizing crystals to put inside the thoraxic chest of the deceased, inside the coffin.”
“What? Did you do that?”
“Yes, I did! You sell it on the telephone! They make an incision inside the deceased’s chest and insert the deodorant.”
We were then approaching Madison Square Park, on East 23rd, between the Fifth and Madison Avenues. In truth we had planned to go for a nice walk as far as Central Park, but, to my frustration, due to his tiredness, after we lunched octopus at a chicano restaurant on West Eight Street we emerged in that noisy park surrounded by buses and pollution. He smiled with a specially pale face and deep shadows under his eyes, and I suspected that he did not always spend his evenings at the lab. On that afternoon he confessed to me, before the Church of Transfiguration, that my suspicions were not without a motive.
All that took place on that afternoon when I photographed him with my prosaic Nikkon F-2.
One evening we were walking past his house, and a very beautiful full moon, outlined the metal and brick trees with windows, where vases of flowers lay. Shadows appeared behind the closed window-panes, lit from behind, by the television light, looking like puppets gesticulating towards the air. We talked about a music that was in fad. I suggested that we should go up the stairs to pick up a tape to listen to it immediately in his walkman. He became intensely restless. “No, no” – he reacted, vehemently. I was immediately intrigued. “Why not?” – I asked. “Because there may be too many people up there at home.” I looked up to the last floor where only one little window in the attic filtered an emaciated light. “Your friends must be listening to music right now.” He changed the subject, showing a growing restlessness. He either proposed that we should walk to the bars at Saint Mark’s Place, or, giving up drinking, he suggested going for a walk, showing an unusually nervous behavior for him. He lit up several cigarettes that he extinguished half smoked. And, looking at his hands, he repeated: “I need to stop smoking, I need to stop smoking” – as if he were a convict. All the while, his voice seemed perfectly calm. He seemed to live at the same time two contradictory feelings – as if his body did not obey to his will or to an inner drive.
Seeing that he was exceedingly restless, I blamed it at the full moon. I was always told that it influences the sensitive souls, taking out their sleep and endowing them with a strange power of communication with unknown dimensions. When I finally proposed that we should go to my place, I noticed that he felt great solace then. I do not deny that it pleased me to acknowledge this, that even having the largest flower-bed city at hand, he preferred to cultivate my little small garden.
It was already two in the morning when we arrived at my place. As usually, we would certainly wake up very late, when he would lock himself in the lab (our record was a Sunday on which we slept until four thirty in the afternoon). It was an underground life of guerilla and bandit hiding-places, but I confess that I did not like it, and I finished my upbringing as a nocturnal but happy being.
I offered him tea. He accepted it, but in truth he was much more interested in the candles that he carefully lit as if for a ceremony. I feared a fire in the centenary apartment, as it had occurred in the previous week, on the other side of the street, a frightening experience of being a mouse trapped behind fenced windows. I commented on the danger, but he only said pssst with a finger on his lips, and added: “Take it easy, nothing will happen.” I limited myself to observing him without any comment, waiting for the sad whistle from the kettle that announced the boiling water. (“When the whistle of the factory of fabric come hurt my ears…”) Ah! Noel Rosa’s samba, so shiny. Who knows if life would not be simpler if I were a worker with her manager, while that popular samba composer played these notes for me on the piano? No, the bourgeoisie always has these dreams of sophisticated fantasies, as if the poor did not also face problems, immersed in the stupidity to which rich has relegated them.
Stark naked, he went on lightening candles all over the house, especially in my bedroom, and he radiated as if in a dream: a saint coming out of a shrine. He pulled me to bed, which was surrounded by candles, and under the oscillating light I thought that I saw in him more than one person. He always presented more than one face: a face from a dead or lost in time past, someone who had remained in the recollection but retired from this world, sometimes a mischievous face with a half-face of Lucifer, a half-face of an angel of light: before and after fall. When he lowered his eyes or raised up my face, his profile went through a metamorphosis of one thousand personalities and effects. Or would it be the result of my imagination? In truth I did not know who I had in my arms. Besides the fact that no one ever gets to know anyone, that was a person whom I had run into by chance, on a casual encounter, introduced by superficial acquaintances.
I could not imagine what his intention was that night, or the reason for that ritual, while I, in bed, smoothed his silken skin, soft as plush, made rose-pink in the candlelight. Did he prepare some surprise in contrast with our sweet and deep practices? (I confess that a second reading of the Kama-Sutra ten years later provoked a great disillusion on me – except for a few athletic positions impossible to perform).
No, it was no Kama-Sutran dream of holding me upside down or in a sea-saw position against the wall; he began to caress me slowly, and I corresponded to it, smoothing his skin from the feet soles to his man’s nipples, which were more fascinating than women’s, because they were more discreet and subtle. We treated each other as equal, except in one detail that completed us.
While he put his hands forward to my hair, holding them up, I thought that I had seen my face surrounded by an aura of shadow and light – probably only the consequence of the candlelight. His eyes presented a glassy coloring, and the crystal-blue had changed into violet – as his holograms always did. I do not know why, this made me recollect of gypsies in an open air scene on a lawn.
His eyes shone as if in the Dream Lake of the Luray Caves. I began to walk amongst the red stalactites, and approached flying, in a low flight, the blue waters of the inner lakes. I felt immerging slowly, but this did not affect the immovable surface of the waters, engulfed by their deep and dangerous infinitude that contained all the epochs.
I began to think that he was a product of my imagination, or worse, of my nightmares, in which shadows invaded my bedroom and pulled me violently out of bed, pushing me inside a coffin. Perhaps I had read too many Celtic tales or tales of horror. Who was that man? Where did he come from and how did I meet him? He was not an ever-brother, from the same tribe, by whom we are born already marked by a family-half, but rather a product of chance. Perhaps my own idealization? He one whom I would like to be? A continuous projection of holograms changing at my will?
Little by little while these questions formed in my mind, barely bubbling at the conscious surface, it seemed to me to distinguish a long road that departed from a scenery of a gypsy camp and went down an abyss over on the sea. I felt that I was going to utter a shriek of horror when a sudden lightness, the fluctuation of flying elevated me in space, and, clinging to him I crossed the continents as if I saw the Earth from above, from the Moon, in the most absolute silence, eternally.
He held my hair upwards, having a strange scintillation in his eyes. In the mutual immobility I felt him as part of myself, inside me, as if he was I. My heart beat strongly, throbbing in the veins of my neck. My hands tightened in his arms and the initial tenderness had gone, replaced by trembling and an intensity that was almost painful. Little by little drops of sweat formed in my hands, and our temperatures went up. My hands reached to him as if there was a danger of his suddenly projecting us in the infinite abyss, where sharp stones waited for us at the bottom of the sea. I thought that I could never get loose from his arms, and I also did not want that. Immobile, glued one to the other, we became a statue above which eternity seemed to be hanging. There was a luminous intensity spread all over the bedroom. We did not know anymore whether it came from the candlelight that oscillated or if reality failed around us. Now he held my hair more strongly, almost hurting it in the roots, but I did not have sufficient courage to scream or complain. Then I perceived, although he did not say anything, the image of his voice that came to me I did not know how: “Let me,” he said, but without opening his mouth. I trembled. But with the calm of a wave that prepares to break, attracted by that moment of fluctuating eternity that would never cease, or, if it ceased, would had been worth it, I felt that all my inside went out of my head. And, although I did not open my mouth as well, and said nothing, but making sure that he had heard my “yes,” in a secret and mysterious marriage, our heads approached and at the same time we gave ourselves to a pleasure without any movement or effort, in a painful jet of immense pleasure, his teeth thrust in my jugular, as if my neck was made of butter. Slowly we flanked the abyss, towards an island on the other side of the ocean, in an exotic mirage filled with forests and canoes, rivers and hissing sugar-canes. There we glimpsed the cave where he had prepared an already open coffin, the same coffin with which I had been dreaming for all those years in which I had already waited for him without knowing it.

Translated by the Author





Bio fornecida pelo palestrante.

O Banquete de Antinoos




Autor: Luiza Lobo
Título: The banquet of Antinous, Das bankett von antinoos, O Banquete de Antinoos
Idiomas: deu, eng, port
Tradutor: Marco A. de Oliveira (eng)
Data: 29/12/2004

DAS BANKETT VON ANTINOOS

Luiza Lobo

Neusa war eine gutsituierte berufstätige Frau, eine sehr ernste Strafverteidigerin. Sie war so ernst, daß viele sie auslachten, besonders die Laufburschen und Putzfrauen, einfaches Volk, modernere Menschen, die es ihr anmerkten, wie démodée ihr Verhalten war. Das waren diese Leute, die ihre kleine Stände am Ende des Korridors des Tribunals aufbauten, um Kondome, Schmieröl??Gleitmittel? und besonders anregende chinesische Salben zu verkaufen.
Neusa hatte geheiratet, weil sie es brauchte, psyschisch. Sie haßte es, wenn sie sich einsam und hilflos fühlte, weil sie bald schon über 40 sein würde. Nelson ist ihr zur richtigen Zeit erschienen. Er sieht sogar gut aus, nur ein bißchen gaunerisch??? – außerdem müßte er nicht so laufen, mit den Füßen nach außen gedreht, wie um zehn vor zwei, den Schuhe an die Seiten zertretend. Und er müßte damit aufhören, sich in Kaufhäusern einzukleiden; aber er ist ihr treu, oder er sagt es, und sie ist sehr glücklich; er ist nicht reich, oh, das nichts, aber man kann sich nicht so viel wünschen; Gesundheit ist ihr genug, und Geld verdient sie mit ihrer Arbeit. Wo einer ißt, essen auch zwei, ja, das Alter ist bereits vorbei, um Kinder zu bekommen, man braucht nicht viel Geld, nur eventuell ein Wochenende auf den Bergen, ein Abendessen bei Kerzenlicht, einmal in der Woche, ein Theaterstück und ein Film wöchentlich und einige Kosmetikprodukte, inklusive ein Fläschen importiertes Parfüm, ein Haarwaschmittel von der Marke, die frisch auf dem Markt ist, etwas modernes make-up, solche Sachen. Aber sie ist nicht oberflächlich, man kann sie nicht als oberflächlich bezeichnen, aber nach 40 muß man sich ein bißchen mehr pflegen, nicht wahr? Wichtig ist, daß sie verheiratet ist. Verheiratet! Sie kann aus dem Tribunal kommen und die Pantoffeln und einen Bademantel anziehen und sich ausstrecken, neben jemandem, der nur ihr gehört! Gewiß, sie bringt auch Akten mit nach Hause, ganz dicke, die ihre ganze Aufmerksamkeit verlangen, und es ist schwierig, sie zu analysieren, während er den Fernseher anhat und eine Seifenoper nach der anderen sieht, danach will er ein Süppchen haben und der Abend vergeht so und sie hat noch fast keine Akte gelesen, und am nächsten Tag ist die Verhandlung mit den Parteien. Aber es ist schön zu sehen, daß die Monate vergehen, ohne daß etwas Außerordentliches passiert! Nichts. Bis zu dem Tag, wo ihr ein Gedanke durch den Kopf geht: Ihr Mann ist ihr nicht treu. Wieso hat sie das nicht vorher gemerkt? Alle Männer, die Frauen heirateten, die über 40 und reicher waren als sie, waren ihnen nicht treu. Logisch. Logisch. Sie fängt an, sich gehen zu lassen. Sie zieht es vor, ihn zu beobachten. Sie findet es verdächtig, daß er nach der letzten Seifenoper ausgeht, um Zigaretten zu kaufen. Da sie aber sehr schläfrig ist, weiß sie nie, wann er wieder ins Bett geht. Die sexuellen Kontakte werden rarer. Alles wird suspekt um sie herum. Deswegen ist sie Strafverteidigerin geworden. Da ist etwas faul. Eines Abend entschließt sie sich, ihn zu verfolgen, nach der letzten Seifenoper. Sie fängt auch an, kleine Einkäufe zu machen, entweder eine spezielle Zeitung am Kiosk am Ende Leblons, oder ein schwarzes Brot weiß-ich-nicht-wo. Sie ist unruhig, schlecht angezogen. Sie findet, daß die Augenringe sie noch älter machen. Sie ist todmüde bei der Arbeit. Fühlt sich unsicher.
Dann kommen die kleinen schriftlichen Nachrichten. In Wirklichkeit sehen sie sich kaum noch. Es ist nicht absichtlich. Aber tagsüber arbeitet Neusa. Und nachts geht Nelson Zigaretten kaufen. Sie macht sich nicht mehr die Mühe, zum Abendessen hochzugehen. Sie ißt zu Abend bei McDonald’s, gleich gegenüber, noch in Arbeitskleidern – von dort aus kann sie ihn beobachten, wenn er nach der Seifenoper ausgeht. Deswegen bleibt sie bis spät bei der Arbeit, und überprüft Akten. Sie hat sich daran gewöhnt, ein Paar flache Schuhe mitzunehmen, für den Nachtlauf. Sie entdeckt, daß er in viele Nachtclubs hineingeht. Meistens gibt sie auch und wartet nicht auf ihn, so müde ist sie. Sie verliert einen Fall, weil der Mörder der Sohn von einem wichtigem Menschen ist, und sie nicht in der Lage war, den Fall gegen das Netz der brasilianischen Vetternwirtschaft genügend zu begründen. Sie fürchtet sich vor der definitiven Demoralisierung in den Anwaltskreisen. Sie war zu naiv, hat dem Fall nicht genügend Aufmerksamkeit geschenkt, macht sich jetzt Vorwürfe. In der Zwischenzeit läuft der Schuldige frei herum, fährt sein importiertes BMW. Es ist empörend. Was ist denn das für ein Land? Es ist ihre Schuld, denkt sie. Morgens geht sie früh aus dem Haus, und läßt ihn wie einen Engel schlafen. Sie diskutieren nie darüber, was passiert. Samstag und Sonntag verbringen sie mit Tennisspielen, Schwimmen, Abendessen und Theaterabenden, und sich unterhalten geht eben nicht. Dieses unruhige Leben heutzutage! An einem Samstag, an dem er am späten Nachmittag nach Petrópolis fährt, unter irgendeinem Vorwand, bereitet sie sich vor, ihm zu folgen. Sein Auto – allerdings ein Geschenk von ihr – gleitet in Richtung Alto da Boa Vista. Sie verfolgt ihn und hält einen großen Abstand. Er bremst vor einem Tor, in der Höhe von Furnas. Hupt dreimal. Das Tor wird von einem Diener mit Handschuhen geöffnet. Sie hat weit weg geparkt und wartet im Auto. Aber er fährt nicht mehr raus. Sie läßt das Auto einfach so stehen und nimmt sich vor, zu entdecken, was auf der anderen Seite der durch hohe Pflanzen geschützten Mauer geschieht. Es war doch nicht umsonst, daß sie fast das ganze Leben gelernt und studiert und diverse Spezialisierungskurse in Strafverteidigung gemacht hat. Sie dringt in das Haus von der Gartenseite ein, springt über eine niedrige Mauer. Die Temperatur ist sehr niedrig, weil der Wald so nah ist. Beinahe stolpert sie am Ufer eines Sees, so dunkel ist es. Sie hat große Angst. Von weit weg kommt eine anziehende Musik, die an arabische Lieder – wie beim Bauchtanz – erinnert, nur etwas langsamer. Sie ist von der Ruhe des orientalischen Stils des Gartens fasziniert, der irgenwie zen ist, sehr einfach und sauber, aber sie ist nicht vorbereitet auf die Szene, die sie durch das Glas der Veranda erblickt, worauf sie stößt, so groß ist der Schrecken. Eine Reihe von nackten Männern spielt kleine Elefanten, schleicht auf den Knien über den persischen Teppich im Wohnzimmer, bei Bauchtanzmusik. Als ersten der Reihe sieht sie den Schnurrbart ihres Mannes, der seine Anhängsel zeigt, an denen der zweite kleine Elefant hängt! Er schwankt, stößt an einen Aschenbecher auf dem Metalltisch, der Aschenbecher zerbricht auf dem Keramikboden der Veranda, der Lärm verrät sie, und sie kann nicht einmal laufen, so groß sind die Angst und die Verwirrung. Sie merkt, daß jemand Hunde freigelassen hat, sie kann nicht schreien, ihre Stimme bleibt im Hals stecken! Die scharfen Hunde kommen näher in der Dunkelheit, kommen in ihre Richtung – sie spüren ihren Geruch, den Geruch einer Frau, so anders als das Übliche hier, es sind trainierte Hunde, sie hat keine Kraft, um den Tisch, der auf sie gefallen ist, zu heben, der erste springt an ihren Hals, ein anderer zerreißt ihre Kopfhaut, ein Auge rollt durch die Veranda, Zähne zermahlen ihr Bein – und zerreißen ihre importierten Nylonstrümpfe. Und inmitten von Knurren, Geheule, hört sie, daß die Schiebetür der Veranda geöffnet wird, erkennt den sehr gut bekannten Schnurrbart, und fühlt sich in das All versetzt, während eine weibische Stimme schreit: Ruhig, Ninja! Ruhig, Schwarzenegger! Ruhig, Tarzan! Ein durch das verbleibende Auge – voller Blut – erblickter Mond, beleuchtet das Gesicht mit dem Schnurbart. Er hält sie jetzt in den Armen, leicht, in seinen starken Armen; für einen Moment träumt sie von ihren Flitterwochen, leichte Feder, die das Grasfeld überquert. Schade ist nur, daß der Schmerz unerträglich ist, aber es ist ein Mond aus Blut, während er sie davonträgt, weil er ihr den Hals quetscht. Im Wasser, die roten und goldenen Fische vom japanischem See verwandeln sich in Piranhas, die den Rest ihres Körpers zerfleischen, und nur die nackten Knochen übrig lassen.

THE BANQUET OF ANTINOUS

Luiza Lobo

Neusa was a successful professional, a very serious criminal lawyer. She was so serious that many laughed at her, especially the office runners and cleaning women, everyday people, who saw how old fashioned she was. And then there were these people who put up stands at the end of the hallway just outside the courthouse, selling condoms, oil lubrificants, and especially arousing Chinese ointments.
Neusa got married because she needed to – psychologically, at least. She was horrified by the thought of feeling lonely and abandoned, for soon she would be in her forties. Nelson appeared to her at just the right time. He was quite presentable, only a little rough around the edges; for example, he didn’t need to walk with his feet pointing outward. And he needed to stop with that habit of dressing in department stores. But he was faithful to her, or at least he said so, and she was very happy. He wasn’t rich, not at all, but she felt that at this point she couldn’t really ask for too much. She was content with just being healthy, and she made enough money to live comfortably with her job. Where one eats two eat. Oh, she was past the age of having kids, so a lot of money wasn’t necessary – only a weekend trip to the mountains every now and then, a candlelight dinner once a week, periodic visits to the theater, the movies, and of course a few necessary items for her toilette, such as imported perfume, the newest shampoo brands, some new make up, things like these. She was not frivolous, and was never taken to be. It’s just that, at 40, one needs to take a little more care of oneself, right? What was important was that she was married. Married! She could arrive from the courthouse and put on a pair of slippers and a robe after her bath and sprawl out next to someone that was all hers. It was true that she brought legal processes home her workload was excessive and demanded all of her attention and It was very difficult to analyze and with the television turned on. He would watch one program after another, then ask for some soup, and the night would go on like this, without her having read almost anything. The next day there would be a hearing with all the parties involved. But it was great to see the months passing by without anything extraordinary happening. Nothing!
Then one day an idea crosses her mind: her husband is not faithful. Why hadn’t she realized this sooner? All men who marry richer women over 40 aren’t faithful to them. Of course, of course. She begins not to care much for her make up; she prefers to check up after him. She thinks it is suspicious that he goes out after the last TV show to buy cigarettes. Since she is usually very sleepy, she never checks what time he comes back to bed. Their sexual relations are scarcer. Everything becomes suspect around her. It is precisely for this reason that she had studied Criminal Law. One night she decides to follow him after the last show is over. She also pretends she has to do a little shopping, a special newspaper at the newsstand at the end of Leblon, another night a loaf of stale black bread from who knows where. She becomes more agitated, restless, and dresses carelessly. She feels insecure, can hardly stay awake at work, and shadows grow under her eyes, adding a few more years to her age.
Neusa and Nelson begin to leave each other notes. Eventually, they seldom see each other at all. However, it is not on purpose. During the day, Neusa works. And at night Nelson goes out to buy cigarettes. With Nelson out she doesn’t even bother going upstairs to eat dinner anymore. She eats right after work at the McDonald’s across the street. From there, she can spy on him when he leaves after the show. She stays late at work looking over legal processes. She acquires the habit of bringing a pair of low-heeled shoes with her for the night chase. She discovers that he goes into nightclubs. Most of the time she doesn’t have the energy to wait for him to leave. This affects her work. She loses a case because the assassin is the son of somebody influential. Actually, she didn’t establish her case well enough. She fears complete demoralization in her legal circle. She had played naive and didn’t give enough attention to the case, and now she condemns herself. Meanwhile, the guilty one is loose on the streets, with his imported BMW. It was revolting. What kind of country is this? She blames herself. In the morning, she leaves early, while he sleeps like an angel. They never discuss what is happening. Saturday and Sunday are spent amongst tennis matches, swimming, dinners and plays, and it is really almost impossible to talk about anything. Life is so agitated these days!
On Saturday afternoon, when he was going to Petrópolis, with whatever excuse of his, she prepares to follow him. His car – actually, a present of hers – glides in the direction of Alto da Boa Vista. She follows him at a distance. He brakes in front of a gate, near Furnas. He honks three times. A butler wearing gloves opens the gate. She waits inside the car, parked at a safe distance. But he doesn’t come out anymore. She leaves the car where it is and decides to find out what is happening on the other side of the wall, protected by thick vegetation. It wasn’t for nothing that she had studied her entire life taking various specialized courses in Criminal Law, all right! She penetrates by the garden, jumping over a short wall. The temperature is cooler because of the forest nearby. She almost trips over the ledge of a pond in the darkness. She is very afraid. From afar, a faint sound of music comes to her ears. It reminds her of Arabian music, as if for belly-dancing, in its slowest form. She is taken aback by the tranquil arrangement of the garden. It has a Zen flavor – very simple and clean. She is in no way prepared, however, for the scene she witnesses through the window of the veranda, which causes her to stumble, such was the shock. A line of naked men playing elephant, dragging on their knees across a Persian rug to the sound of belly-dancing music. In the lead is her husband´s mustache, who has other trinkets showing, by which the second elephant holds on! She staggers, and stumbles over a metal table. An ashtray shatters into pieces on the tile floor of the veranda, the noise betrays her, and she is paralyzed from dread and bewilderment. She realizes that someone has let the dogs loose, and she can’t scream, her voice gets caught in her throat! In the dark the guard dogs approach, coming in her direction, sensing a different smell than usual, her woman’s scent. They are trained breeds, and she isn’t strong enough to lift the table that had fallen on her. The first one jumps at her throat, the other rips into her scalp, one eye rolls on the veranda, and teeth take pieces out of her leg – her imported pantyhose is torn to shreds. In the middle of the growls and snarls that lacerate her, she hears the sound of the veranda door sliding open, recognizes a well-known mustache, and feels herself being lifted up while a womanly voice shouts: Quiet, Ninja! Quiet, Schwarzenegger! Quiet, Tarzan! Bathed in blood, the eye that remained glimpses at the moon, which illuminates the face with the mustache that now holds her, light, in his strong arms; for a moment she reminisces over her honeymoon, light as a feather crossing the grass. What a pity, such unbearable pain, but now it is a bloodymoon. As he carries her away, he squeezes her by the throat. In the water, the red and gold fish in the Japanese pond become piranhas that finish off devouring the meat, leaving only bare bones.

Translated by
Marco A. de Oliveira
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(*) Lobo, Luiza. O banquete de Antinous. In: —. Sexameron. Novelas sobre casamentos. Contos. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997. p. 19-23.
Luiza Lobo teaches Comparative Literature and Theory of Literature at the Federal University of Rio de Janeiro. She is a translator of Virginia Woolf, Edgar Allan Poe, Jane Austen and others, and she has published five books of short stories: Por trás dos muros (1976), Vôo livre (1982), A maçã mordida (1992), Sexameron (1997) e Estranha aparição (2000).
Email: litcult@infolink.com.br
Marco de Oliveira graduated in Religious Studies from the University of South Carolina Honors College and is currently preparing for his graduate work in Comparative Literature.
Email: mahaviira_marco@hotmail.com

O BANQUETE DE ANTINOOS

Luiza Lobo

Neusa era uma profissional bem-sucedida, uma advogada criminal muito séria. Tão séria que muitos chegavam a rir dela, principalmente os mensageiros e faxineiras, gente do povo, mais moderninha, que percebe como ela era démodée em seu comportamento. Dessa gente que monta barraquinhas de camelô no final do corredor do tribunal, vendendo camisinhas, óleos lubrificantes e pomadas chinesas especialmente excitantes.

Neusa se casou porque precisava, psicologicamente. Tinha horror a se sentir sozinha e desamparada, pois logo ia passar dos quarenta. Nelson lhe apareceu em boa hora. Até que ele é bem apessoado, só uma pontinha cafajeste – além disso, não precisava andar com os pés ligeiramente abertos, tipo dez para as duas, calcando lateralmente os sapatos. E precisava terminar com aquele hábito de se vestir em lojas de departamentos. Mas ele lhe é fiel, ou assim o diz, e ela está muito feliz, não é rico, oh, isso não, também não pode querer muito. Saúde já lhe basta, e dinheiro ela obtém com seu trabalho. Onde come um, comem dois, oh, já passou da idade de ter filhos, não é preciso muito dinheiro, só um fim de semana eventual nas montanhas, um jantar à luz de velas, uma vez por semana, um teatro e um cineminha semanais e algumas comprinhas para a toalete, incluindo um perfuminho importado, um xampu de marca recém-lançada, alguma maquiagem nova, coisas assim. Mas ela não é fútil, não a tomem por fútil, é que depois dos quarenta é preciso caprichar um pouco mais, não é mesmo? O importante é que está casada. Casada! Pode chegar do tribunal e colocar chinelos e um roupão após o banho e se espreguiçar ao lado de alguém só seu! É verdade que traz processos para casa, são gordíssimos e requisitam toda a sua atenção, e é muito difícil analisá-los enquanto ele tem a televisão ligada e assiste a uma novela atrás da outra, depois pede uma sopinha e a noite vai assim e ela não leu quase processo nenhum, e no dia seguinte haverá audiência com as partes. Mas é bom ver os meses se passarem sem que nada de extraordinário aconteça! Nada. Até o dia em que uma ideia lhe cruza a cabeça: seu marido não lhe é fiel. Como não percebera isso antes? Todos os homens que se casavam com mulheres de mais de quarenta anos e mais ricas do que eles não lhes eram fieis. Lógico. Lógico. Começa a descuidar da maquiagem. Prefere espreitá-lo. Acha suspeito que saia após a última novela para comprar cigarros. Como ela tem muito sono, nunca verifica a hora em que ele volta para a cama. Espaçam as relações sexuais. Tudo se torna suspeito a sua volta. Por isso estudou advocacia criminal. Aí tem dente de coelho. Uma noite resolve segui-lo, após a última novela. Ela também dá para sair para fazer comprinhas, é um jornal especial na banca do final do Leblon, é um pão preto não sei onde. Está inquieta, mal vestida. Parece-lhe que as olheiras aumentam sua idade. Morre de sono no trabalho. Sente-se insegura.

Começam os bilhetinhos. Na verdade, já quase não se encontram. Não é de propósito. Mas de dia, Neusa trabalha. E de noite, Nelson sai para comprar cigarros. Ela nem se dá ao trabalho de subir para jantar. Come no McDonald’s em frente, ainda vestida com a roupa da rua, de onde pode vigiá-lo quando sai, após a novela. Por isso, fica no trabalho até mais tarde, conferindo processos. Adquiriu o hábito de levar consigo um par de sapatos baixos, para a corrida da noite. Descobre que ele entra em muitas boates. Na maioria das vezes, desiste de esperá-lo sair, de pura exaustão. Perde uma causa, porque o assassino é filho de alguém importante e ela não fundamentara a causa suficientemente para enfrentar a rede de compadrios brasileira. Teme sua desmoralização definitiva no meio advocatício. Bancou a ingênua, não deu suficiente atenção à causa, condena-se. Enquanto isso, o culpado fica solto na rua, com sua BMW importada. Era revoltante. Que país é esse? A culpa era dela, pensava. De manhã, ela sai cedo, deixando-o adormecido como um anjinho. Nunca discutem o que está acontecendo. O sábado e o domingo são passados entre jogos de tênis, natação, jantares e teatros, e quase não dá mesmo para conversar nada. Esta vida tão agitada de hoje em dia! Num sábado em que ele vai a Petrópolis ao entardecer, com uma desculpa qualquer, ela se prepara para segui-lo. O carro dele – presente dela, aliás – desliza na direção do Alto da Boa Vista. Ela o segue a grande distancia. Ele freia diante de um portão, na altura de Furnas. Buzina três vezes. O portão é aberto por um mordomo de luvas. Ela estacionara o carro a distancia. Fica aguardando dentro do carro. Mas ele não sai mais. Ela larga o carro por ali mesmo e resolve descobrir o que se passa do outro lado do muro protegido por alta vegetação. Não foi à toa que estudou a vida inteira e fez diversos cursos de especialização em Advocacia Criminal, ora. Penetra na casa pelo lado do jardim, pulando um muro baixo. A temperatura está bastante fria, devido à floresta próxima. Quase tropeça na beirada de um lago, tal a escuridão. Sente muito medo De longe, vem uma música insinuante, lembrando canções árabes do tipo dança do ventre, na sua forma mais lenta. Está tomada pela tranquilidade do arranjo oriental do jardim, que tem uma faceta zen, muito despojado e limpo, mas não está nada preparada para a cena que avista do outro lado da vidraça da varanda, em que esbarra, tal é o susto. Uma fila de homens nus brincam de elefantinho, arrastando-se de joelhos sobre o tapete persa da sala, ao som da música do ventre. Puxando a fila estão os bigodes de seu marido, que tem outros penduricalhos à mostra, aos quais se agarra o segundo elefantinho! Cambaleia, esbarra num cinzeiro sobre a mesa de metal, o cinzeiro se espatifa no chão de ladrilho da varanda, o estardalhaço a denuncia e nem consegue correr de tanto pavor e atordoamento! Percebe que alguém soltou cachorros, não consegue gritar, sua voz se prende na garganta! Aproximam-se cães filas no escuro, vêm em sua direção, sentindo o seu cheiro de mulher, diferente do habitual ali, são filas treinados, ela não tem forças para levantar a mesa que caiu sobre ela, o primeiro salta em sua garganta, outro lhe rasga o couro cabeludo, um olho rola pela varanda, dentes estraçalham sua perna – rasgaram sua meia de náilon importada. Em meio a rosnados, uivos, dilacerando-a, ouve o ruído da porta de correr da varanda que se abre, reconhece uns bigodinhos muito íntimos, sente-se alçar no espaço enquanto uma voz efeminada grita: Quieto, Ninja! Quieto, Schwarzenegger! Quieto, Tarzan! Uma lua entrevista pelo olho que restou, banhado em sangue, ilumina o rosto de bigodinho, que agora a segura, leve, em seus braços fortes; por um momento, sonha com sua lua-de-mel, pluma leve atravessando o gramado. Pena é a dor, insuportável, mas é uma lua de sangue, enquanto ele a carrega para longe dali, pois ele lhe aperta o pescoço. Dentro da água, os peixes vermelhos e dourados do lago japonês se transformam em piranhas que terminam de dilacerar-lhe as carnes, deixando só ossos nus.

Fonte: Lobo, Luiza. O banquete de Antinoos. In: Lobo, Luiza. Sexameron. Novelas sobre casamentos. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997. p. 19-23.





Bio fornecida pelo palestrante.

BEATRIZ LUZ: PORTAIS DE TRAÇO ORIENTAL SOBRE PAPEL DE ARROZ – Luiza Lobo




Resumo:
Este texto é uma reformulação de uma resenha sobre a exposição de Beatriz Luz no Museu Nacional de Belas Artes publicada no Jornal do Commercio.
Texto:

BEATRIZ LUZ: PORTAIS DE TRAÇO ORIENTAL SOBRE PAPEL DE ARROZ

 

Luiza Lobo

Neste desenho intitulado “Construções”, de toda uma série feita em papel de arroz, que Beatriz Luz já expôs no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e na galeria do Palácio de Catete, nota-se a autonomia dada ao traço grosso do pincel sobre o papel fino e quase diáfano. Beatriz Luz é uma artista plástica de Florianópolis que se radicou no Rio de Janeiro, onde fez diversas exposições, além de em Cabo Frio e, nos últimos anos, no Porto. Poeta, escreve seus poemas num certo tom enigmático que a acompanha também na vida real, e os imprime ao lado de ilustrações depuradas feitas por ela a nanquim. Em toda a série de “Construções”, ganha destaque a qualidade e a leveza do papel em contraste com a densidade da pincelada grossa e solta, que espalha a tinta. Enquanto nos seus livros de poesia utiliza o papel amarelado de pesada gramatura, que transforma cada folha numa obra avulsa, digna de ser enquadrada, não fosse seu tamanho diminuto, nos desenhos faz uso do delicado papel branco que recebe as pinceladas pesadas em cinza, negro e marrom. As formas têm correspondência com portais e labirintos em transparências, que ela mesma associa a antigos conventos espanhóis, assim como com algo de performático, presente no desenho ideogramático oriental.

Beatriz Luz travou contato estreito com esta forma oriental de pintar nas aulas tomadas em Cabo Frio, onde viveu durante a década de 1970, do artista plástico francês Jean Guilhomme. Este francês ali permaneceu por muito tempo, tornando-se figura de destaque e influenciando e orientando toda uma geração de pintores locais, até sua morte, em Cabo Frio mesmo. Ele recebera sua formação artística no Oriente, inclusive no Tibé, residindo muitos anos no Vietnã, onde aprendeu técnicas de desenho sobre papel de arroz. Fora professor da tradicional escola livre de Paris, a Grand Chaumière, onde estudaram os impressionistas franceses, a qual funciona de modo semelhante aos cursos livres do Parque Lage. A partir de Guilhomme Beatriz Luz aprendeu a técnica de desenho oriental, segundo a qual passou a pintar num só traço, num só gesto, numa única respiração, de pé, diante do cavalete, num trabalho com o corpo inteiro. Retomando a simplicidade das coisas primárias, quando não está em seuatelier em Cabo Frio, pinta no silêncio da sua cozinha de ladrilhos brancos e imaculados de seu apartamento. Seu intuito é captar, no espaço branco do papel, com uma só pincelada de fio grosso e bem marcado, o vazio, o absoluto, o estado de meditação e silêncio.

Também a partir das aulas que teve, desta vez na Escola de Artes do Parque Lage, Beatriz Luz mostra filiação ao construtivismo. Cada um dos seus desenhos da série de “Construções” é uma forma de reconstituição do mundo concreto: a casa, a igreja, plantas baixas, a catedral, sempre através de cores e riscos sintéticos. Nessas formas, revive sobras de sonhos, que imagina ter vivido noutras atmosferas, quem sabe noutras incarnações. Na opinião da artista, a técnica construtivista é inata ao brasileiro, encontrando-se na arquitetura e na fachada das casas dos subúrbios e do Nordeste, surgindo como movimento de tendência geométrica espontaneísta, quem sabe devido à tradição geométrica da arte africana ou indígena do país.





Bio fornecida pelo palestrante.

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO – Luiza Lobo




Resumo:
This essay attempts at the discussion of the conditions for the survival and permanence of art in the new millennium. It discusses post-colonial culture and tradition in Brazil in the face of the new technologies and trends quickly arriving from other more developed milieus. The essay draws the epistemological lines of resistance for esthetics and art in such a culture.
Texto:

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
INTRODUÇÃO

Os 500 anos de descoberta do Brasil provocam-nos uma indagação sobre as criações que ocorreram no país no campo da arte, da literatura e da cultura, para ficarmos no campo das ciências humanas. O que marca especialmente esta data é sua coincidência com o início do novo milênio, dentro da cronologia cristã, o que nos leva, simbolicamente, a sentir que estamos fechando uma era e iniciando uma nova. Tudo isso pode, concordo, não passar de uma impressão ligada tão-somente ao calendário gregoriano cristão, data historicamente nada significativa para árabes, indianos e judeus, por exemplo.

O panorama cultural global alterou-se a tal ponto no Brasil e no mundo, nos últimos dez anos, que muitas vezes nos indagamos se permanecerão uma literatura e uma cultura como a conhecemos agora, ainda escrita, culta, erudita e literária, dentro da tradição greco-judaico-cristã-ocidental. A compreensão do mundo nesses 25 séculos de história greco-cristã parte de premissas físicas e concretas, no máximo ligadas à eletricidade, no século XIX, e à revolução da eletrônica, do laser e da Internet, no século XX. Ocorreu uma revolução tão radical nesta última década que ameaça aposentar o papel como veículo de imprensa e de cultura escrita. Boa notícia para a ecologia, graças à melhor conservação das florestas. A difusão do computador em escolas, mesmo nos países pobres, com sua contraface do CD-Rom, o disco a laser, o email, a conversa on-line, a Internet, a vídeo conferência e o hipertexto representado das redes e conexões representa uma forma radicalmente nova de comunicação entre os seres humanos. O fenômeno da televisão, com a divulgação de arte e notícias de forma simulada ao real, através da cor, movimento e linguagem oral, por via eletrônica, depois aperfeiçoado com a televisão a cabo e o vídeo doméstico, criando a especialização do espectador, passou por uma transformação ainda mais gigantesca com o correio eletrônico e muitos outros avanços tecnológicos que aparecem diariamente.

A conseqüência social mais imediata deste fenômeno é a globalização e a unificação da sensibilidade humana através de um tipo de visão de mundo única ou predominante. Mas outra conseqüência disso é que é a hegemonia da língua inglesa e a cultura por ela engendrada, que difundem seus hábitos, cultura e arte — e, naturalmente, seus produtos negociáveis. Cria-se um novo império de dominação cultural moderna através do domínio da imagem e da palavra. Este só pode ser comparado ao império latino na antigüidade. Nem mesmo os Estados nacionalistas do século XIX conseguiram a mesma penetração mundial obtida pelo império anglo-saxônico atual, entendendo-se aí principalmente a hegemonia dos Estados Unidos. É uma forma inteligente de dominar mas que se deve, principalmente, ao fato de a Inglaterra, desde o século XVIII, já se constituir num país industrializado e capitalista, o que a capacitou a utilizar a língua como uma forma de exportação de sua cultura, através de um forte sistema educacional e um bem organizado sistema administrativo das colônias, que se aliavam para utilizar a língua inglesa como principal veículo de dominação. Esta se dava não tanto através de guerras, ou unicamente pelas guerras, mas através da exportação de cultura (ver The Empire writes back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, London, Routledge, 1991. 1. Ed. 1989). Uma forma de dominação que já atua de forma cada vez mais próxima, pois é realizada através das chamadas “negociações”, seja no plano político ou econômico. Estes acordos quase nada têm de negociados, uma vez que os parceiros mais fortes sempre poderão “exportar” (isto é, impor) suas idéias e negócios com muito maior margem de aceitação (ou imposição) nas regiões humilhadas e ofendidas (ver Agnes Heller). Exemplo disso foi a “negociação” sobre a emissão de gases CO2, na última reunião de cúpula mundial, durante a qual os Estados Unidos e outros países do Primeiro Mundo, em lugar de reduzirem o grau de poluição que provocam no mundo, “negociaram” com países menos poluidores a comprarem deles uma certa quantidade “quotas de poluição”, uma vez que eles pouco poluem. Mas também pouco produzem. Assim, com esta “barganha”, ainda durante algum tempo continuará a poluição na atmosfera que a Terra como um todo provoca. Situação eticamente condenável que nos lembra as indulgências compradas pelos pecadores do Santo Papa durante o Renascimento. Daí a importância da apropriação das formas impostas pelos países dominadores, de que nos falam os autores acima.

Do ponto de vista da arte e da literatura, o computador trouxe para o leitor da telinha uma importante opção. Ele já não precisa dedicar-se apenas à observação passiva dos bonequinhos e filmes impostos pela televisão ou pela programação da TV a cabo. Ele se sente dono do universo, buscando seu assunto na Internet ou escrevendo em velocidade igual ou quase igual à do pensamento, ou pode conversar sobre inúmeros assuntos com pessoas de diversos pontos do globo, visitando endereços eletrônicos e informações de locais distantes sobre infinitos assuntos em fração de segundos. A vantagem que este espectador-leitor-escritor ganhou foi passar a utilizar, em sua leitura na Internet, quando na presença de ilustrações, os dois lobos do cérebro, quando antes só utilizava o direito, para a escrita. O ocidental pouco utilizava o lobo esquerdo do cérebro, que se destina às figuras ou desenhos. Com o computador, foi forçado, afirmam alguns especialistas, a usar os dois lobos, combinando figuras/desenhos e escrita. Aproxima-se assim da percepção do texto que tem o oriental, que sempre precisou, para interpretar e escrever o ideograma, combinar a leitura da figura visual à interpretação da escrita. (Ver também Pierre Lévy, A tecnologia da inteligência; O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, 34 Letras, 1993. 1. Ed. 1990; e também O que é o virtual?, Rio de Janeiro, 34 Letras, 1999. 1. Ed. 1995).

Outra conseqüência associada à escrita no computador é a possibilidade de realizar o sonho de Stéphane Mallarmé, em seu famoso e inacabado projeto do Livre, como mostrei na Apresentação a Globalização e literatura (Rio, Relume-Dumará, 1999, p. 37-45): no computador, pode-se até certo ponto desobedecer à ordem linear do discurso, escrevendo, recortando, deslocando, apondo sílabas, palavras e orações numa rearrumação constante do discurso, o que não poderia ser feito no texto tradicional.

Todo este fenômeno teve lugar na última década do período que Lyotard denominou “condição pós-moderna”, implicando no fim das utopias que vinham se delineando desde o século XVIII, com os grandes enciclopedistas franceses e pensadores da filosofia transcendental alemã. Este momento, iniciado na década de 1970, a partir de uma crise generalizada no mundo das artes, corresponde ao fim da busca do “Make it new” poundiano e da originalidade do modernismo da primeira fase, e à passagem para a idéia de que “Nada é new“. Tudo é repetição, rearranjo de termos já presentes na ordem do discurso anteriormente enunciado. Na condição pós-moderna a literatura e o “fim do real na condição pós-moderna veiculam percepções, produzem subjetividades e anunciam os paradigmas de novas formas de pensar, sentir e estar no mundo”, nas palavras de Fernando Fábio Fiorese, um dos ensaístas do livro, que retomo na mesma “Apresentação” daquele livro.

A crise das utopias, o sentimento de déjà vu e de melancólico “sentimento do mundo”, na expressão de Carlos Drummond de Andrade, que se apodera de artistas e produtores culturais do pós-moderno explica-se pelo acúmulo de informações permitido pelo computador, o CD-Rom, o hard disk e outros meios de armazenamento de dados quase infinitos e até então impensáveis. A maior amplitude de informação, impulsionada pelas descobertas tecnológicas e científicas a cada dia trouxe, no plano das artes, a sensação de vazio e de nada mais te-se a inventar. Isso ocorreu, pelo menos no plano da retórica, ou seja, das artes.

À diferença dos jornais, cobertos do resíduo de tinta, borrão, provocado pelo chumbo, a graxa e por máquinas pesadas, manuais ou elétricas, cria-se uma nova realidadeclean, os programas de computador e os portais de informações científico-tecnológicas, propagandas e comunicação eletrônica, abrindo para um universo de possibilidades individuais. Esta realidade virtual que nem sequer tenta mais simular a vida real, mas que cria a vida, já foi considerada compatível com a ética e as características da sociedade capitalista e puritana. É o portal de um novo mundo da comunicação. Uma história da leitura, de Alberto Manguel (São Paulo, Companhia das Letras, 1997, 1 ed. 1996), mostra-nos a evolução que preparou este novo universo infinito de simulacros idênticos ao real, e muitas vezes superiores aos originais, obtidos numa velocidade inimaginável. A técnica acompanha o progresso da humanidade em relação a uma crescente imersão no capitalismo, em que time is money. Já não há manuscritos, rabiscos, textos inéditos e únicos rascunhados à mão ou numa máquina individual, caseira. As descobertas que faziam a alegria dos especialistas em ecdótica, hermenêutica ou genética crítica. O horror da página em branca de que nos fala Maurice Blanchot em L’espace littéraire já quase deixou de existir. Um texto é composto de recortes, reaproveitamentos, revisões: composições rápidas em que surgem, em questão de segundos, através de pequenos gestos técnicos, como o automático clicar de botões de recortar, apagar e colar, um novo tipo de palimpsesto. Não há tempo para hesitações. Time is money. Os moldes de cada escrita estão armazenados na memória do computador, resíduos de outros textos que podem ser facilmente reaproveitados, sem grande emoção humana, apenas por força da máquina. O mundo clean já se aproxima perigosamente de uma certa realidade de ficção científica, pelo menos para a classe média, em que as pessoas agem como robotizadas e dominados pela máquina. Ao menos este é o tema de filmes atuais realizados nos Estados Unidos: MatrixQuero ser John Malkovitch e sem dúvida muitos outros, talvez menos criativos e convincentes.

A noção de reprodutibilidade técnica, anunciada por Walter Benjamin em “O objeto literário na época de sua reprodutibilidade técnica” repete-se e reproduz-se numa quantidade e velocidade inimaginável. O conteúdo filosófico e questionador do texto desaparece em prol da economia de palavras e de tempo. Se o meio é a mensagem, o fremir da máquina em movimento elétrico acelera a acumulação de gestos mecânicos, que não raro redundam em lesões nervosas por sua excessiva repetição.

Esta repetição, que deixava uma margem, um surplus, na teoria de Jacques Derrida, passa a ser questionada na sua produção positiva de sentidos por Jean Baudrillard emL’Échange symbolique et la mort (Paris, Gallimard, 1976). Essa série infinita de sentidos levaria a uma constante morte de significado na vida, eternamente perpetuada no capitalismo (série que pode ser interrompida pelos discursos marginais ao capitalismo, como as dos negros e das mulheres). Também Fredric Jameson em “O pós-modernismo e a sociedade de consumo” (cap. 1, in Ann Kaplan, org. O mal-estar no pós-modernismo; Teorias, práticas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993, 1. Ed. 1988, p. 25-44), menciona (p. 30) uma “construção” do sujeito burguês, que nunca teria existido, e a emergência de uma “nova experiência de tecnologia citadina” (p. 40), que Walter Benjamin já apontara em Baudelaire.

Paralelamente a esta transformação de atitudes, ocorre um fenômeno inesperado no plano da crítica literária: sucede uma exaustão com os métodos semiológicos até então utilizados, desde o Estruturalismo e a crítica pós-modernista com base em Jacques Derrida, Paul de Man, Jonathan Culler, Gilles Deleuze e outros filósofos e críticos literários. Na medida mesma em que há na sociedade contemporânea uma hipertrofia do instrumental virtual, ocorre, paralelamente, um desejo de recuperar uma dimensão histórica ou até microhistórica (nova história, ou de história das mentalidades), que abarque a totalidade dos eventos sociais que constituem o tecido social como um todo e que pode ser reconstituído a partir do texto. “Nas palavras de Michel de Certeau, o que chamamos de realidade é um inventário (quiçá incompleto) daquelas pegadas deixadas num mapa coletivo já marcado por outros traços de outras viagens” (cit. in Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 263, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). Noutros termos, a realidade é histórica. Nos estudos posteriores ao pós-moderno assiste-se a um certo retorno à análise sócio-histórico-cultural, como por exemplo entre seus criadores, os historiadores franceses Claude Braudel, Jacques Le Goff e outros representantes da da escola, ou nos seus seguidores, o professor inglês Peter Burke. Contudo, já não é uma história ingenuamente realista, nos moldes de um Arnold Hauser, de um Norbert Elias ou, em menor grau, de um Erich Auerbach. Ela pressupõe a recriação mimética da realidade através de uma narrativa que passa a constituir uma história que não se quer científica, isto é, reprodutora do real, mas recriativa deste real. (Ver sobre Costa Lima Máscaras da mímese). Na encruzilhada entre o pensamento marxista realista e esta visão quase literária de história, passando pela revisão da obra semiológica de Jacques Derrida, encontra-se a figura revolucionária de Gayatri Spivak (ver artigo Internet).

Esta indiana não se considera indiana, para ela uma criação forçada por ingleses e outros povos dominadores da Índia, buscando uma falsa união para melhor conquistá-la. Na verdade, ela se considera natural de Bengali, onde nasceu, sendo o bengali sua língua materna. Desde os 17 anos está radicada nos Estados Unidos. Em suas conferências e ensaios procurou unir a sociologia marxista com o pensamento filosófico de Jacques Derrida, depois chamado de desconstrucionismo, nos Estados Unidos, quando ele passou a lecionar em Yale, após a década de 1970, dando origem ao que se chamou movimento pós-moderno. Questionando cada palavra, buscou contestar o conteúdo essencialista da linguagem, e unir a crítica à posição marginal ocupada pelas classes subalternas com a experiência feminista de revisão textual.

Assiste-se a um fenômeno que poderíamos definir como uma dupla crise do conceito de mímese. Na década de 1960-1970, o Estruturalismo desvinculou a noção de mímese da palavra e da linguagem, desatrelando-o do real social. A linguagem foi eleita como uma explicação hegemônica e autônoma de interpretação. A luta surda que se travou entre os críticos marxistas e os pensadores que buscavam a autonomia do texto literário redundou na noção de autonomia da dimensão do imaginário e do simbólico no texto literário, libertando o signo de uma mímese colada ao real. Este processo parece ter se invertido no momento em que o pós-moderno já se esgota com relação a uma mímese vassala do real. Enquanto, no período pós-moderno, a filosofia era uma preocupação constante dos críticos, sob o influxo do pensamento de Derrida, visando a contestar os pressupostos da filosofia transcendental metafísica, no momento atual os estudos culturais e a linha de discussão centrada no pós-colonialismo atrelam-se à sociologia e apresentam questionamentos políticos, não filosóficos, às questões da cultura.

Na última década do século XX Terry Eagleton (Theory of Literature, London, Blackwell,1993, 1. Ed. 1988) e Henri Lefebvre (The construction of space, Oxford, Anthropos, 1991, 1. Ed. 1974) desconfiam da hipertrofia da linguagem como sendo capaz de servir de explicação para a totalidade dos fenômenos sociais da realidade além dos textuais. Lefebvre chega a referir-se explicitamente a tal falência.

Também a partir do pensamento filosófico de Jacques Derrida e da semiologia, mas afastando-se rapidamente dele, Edward Said, Homi Bhabha, assim como Gayatri Spivak, utilizando em sua maior extensão o conceito de diferença de Derrida e ampliam-no não só para a definição de gênero no feminismo como, igualmente, para as camadas subalternas e as minorias políticas . Esta linha se constitui numa crítica pós-colonialista que se volta para as margens, em oposição ao eixo dominador eurocêntrico.

Na mesma vertente, os estudos culturais aprofundam as redes sociológicas deste saber questionador, afastando-se cada vez mais da indagação semiológica presente em Derrida, Kristeva e mesmo Foucault.

O texto liberta-se da clausura semiológica, na qual se supunha que o signo continha o todo social em si, como na afirmação de Julia Kristeva sobre o termo ideologema, e a crítica volta-se novamente para o social, embora o veja através de um sistema mimético de representação, não como um dado concreto, como no marxismo ingênuo. Contesta-se a linguagem como metalinguagem ou um discurso retórico autônomo, para além da ideologia. A ciência é posta em questão, até no campo das ciências exatas. A lingüística não mais se constitui na grande ciência da comunicação que tudo abarca, como queria Roland Barthes em Língüística e comunicação. Ela volta a ocupar um nicho dentro das ciências humanas. A sociologia, a história e a antropologia tornam a despertar o interesse do discurso teórico e crítico universitário. A comunicação de massa e a cultura canibalizam os campos da arte e da literatura, atrelando-os à sociedade do espetáculo atual, na feliz expressão de Guy Debord (em A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto; é um aspecto discutido também por Nestor García Canclíni em Culturas híbridas, São Paulo, EDUSP, 1997, 1. Ed. 1989).

O modismo do espetáculo, que caracteriza a nossa cultura como a do olhar sem críticaencontra o seu paroxismo em Paulo Coelho, que pontifica sobre teologia em O Alquimista, e é arrastado, na sua mais profunda glória, como o andor de um santo, nas laterais de uma linha de ônibus que percorre Paris. É um espetáculo inusitado vê-lo proferir conferências eruditas nas academias, e freqüentar banquetes, a convite do Presidente da França e as maiores editoras do país, locais que há 50 anos só sonhavam penetrar os maiores representantes da alta literatura francesa.

Há no entanto a possibilidade de uma autocrítica do próprio enunciador do discurso, que se coloca no texto como pessoa, e não mais como cientista, ou seja, um sujeito afastado do objeto de seu saber. O processo epistemológico dá lugar ao processo existencial. Passa a ser “travessia” (ver Luciano Zajdsznajder, A travessia do pós-moderno (Rio de Janeiro, Gryphus, 1992; ver também O pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos), e surge o apelo a “uma ‘leitura atípica’, aquela que não pretende nenhuma exaustão, nem tem uma metodologia a priori, deixando-se levar pelaexperiência, palavra que também se liga à idéia de travessia. Uma leitura a partir das zonas menos privilegiadas do texto, ou de suas margens no dizer de Derrida, emMargens da filosofia: das notas, dos títulos, das epígrafes, das referências intra-, inter- e extratextuais” (Evando Nascimento, Derrida e a literatura. “Notas de Literatura e Filosofia nos textos da desconstrução, Niterói, EDUFF, 1999, 363 p., “Questões de princípio”, p. 15-25, p. 20). Mas saber sem o sentir perde o sentido

Já foi muito repetido que a maior revolução deste século foi a revolução feminista. Esperemos que ela não se torne um projeto adiado ou fracassado como a Revolução Comunista. De qualquer forma, adiada ela já está, pois parte de suas propostas de autonomia no plano social teráo de ser adiadas para o próximo. Foi um longo caminho que começou em fins do século XIX, com os primeiros movimentos sufragistas e a entrada da mulher para a imprensa e o mundo profissionalizado da imprensa e da literatura, com George Sand, Jane Austen e Charlottle e Emily Brontë, mas que ainda enfrenta muitos preconceitos arraigados. A pesquisa sobre o cânone, o resgate das escritoras e a discussão teórica sobre gêneros foi o caminho depois seguido pela crítica, que depois estendeu este pensamento à recuperação literária a outras “minorias”, sexuais, raciais, os povos orientais e os que produzem literatura oral. Principalmente estes últimos eram desconsiderados pelos estudiosos oriundos do pensamento eurocêntrico, uma vez que, na definição de Derrida, a oralidade baseia-se no fonocentrismo, um tipo de discurso do ouvir-dizer que não passa pela recriação da escrita ou a escritura crítica. Contudo, hoje, é a fala, a oralidade que preside às manifestações culturais mais importantes na história. O que em Derrida só se redimia pela escrita, ultrapassando o fonocentrismo do ouvir-dizer, torna-se valorização do fonocentrismo, pela reconsideração da literatura oral, da manifestação política e cultural de povos com uma cultura mais oral.

A arte e a literatura, como bem nos mostra Nestor Canclini em Culturas híbridas, passam a ser divulgadas na sua forma de baixa literatura, incorrendo num conceito muito amplo de cultura, que corresponde, na verdade, à noção de mídia como foi criado neste século. A mídia é a comunicação para as massas — não se devendo confundi-lo com a literatura oral ou popular, que sempre existiu. Esta não empregava meios de ampliação da divulgação, e era realizada pelas classes populares ou dirigida a elas. Um processo justamente inverso ao atual, em que o povo recebe pacotes de mensagens e imagens, de linguagens decodificadas para ele por pessoas bem informadas da elite intelectual que douram a pílula do conhecimento do cotidiano, oferecendo-a em pequenas doses. Não importa o que digam os bem-pensantes, como Leyla Perrone-Moysés, em sua defesa das “altas literaturas”, a verdade é que toda sorte de discursos se cruza nos meios de comunicação mais diversos, numa rede de intertextualidades: muros, programas de televisão, revistas on-line, programas de alta ou baixa qualidade, livros best-sellers e o hiperrealismo, no computador. Termina em grande parte o preconceito contra o não-erudito. Há a mistura das artes, como já vinha mencionado no Auerbach, confundindo-se alta, média e baixa literatura.

Nas universidades e meios intelectuais fala-se de decadência e finissecularismo. Nas livrarias compram-se obras de esoterismo e auto-ajuda. A própria psicanálise entra em crise, substituída por tratamentos de menor duração (ver Elisabeth Roudinesco, Mais!,Folha de São Paulo, março 2000), ligadas ao corpo e a esoterismos. A situação é crítica para as letras. Não se vendem mais livros. Editoras se unem em cartéis e conglomerados. Utilizam portais de informática. Introduzem-se em homepages. Livros inteiros são disponibilizados na Internet, mas o pagamento de direitos autorais se faz à editora só após completar-se o milheiro de vendas. Tudo passa a ter dimensões globais. E, como nos cultos milenaristas ao final do primeiro milênio, onde muitos peregrinavam pelas ruas esperando o fim do mundo e se autochicoteando, alguns prenunciam o fim da literatura e da arte. A baixa literatura e arte ditam as regras do bom-tom entre os intelectuais. As obras da chamada alta literatura destinam-se a um público altamente especializado e com um objetivo definitivo: didático, profissional, ou estimulado por um programa de televisão ou filme que apelam para este ou aquele título, como se deu com o livro O Perfume, de Patrick Susskind, uma releitura rebaixada de À Rebours, de Houysmans, que alcançou grande nível de vendagem e de que hoje ninguém mais ouviu falar. É o fenômeno da moda, da alta costura em pleno domínio das letras.

O tratamento indiscriminado de qualquer produto como produto artístico, que passaria a ocupar o espaço das belas letras, belas-artes ou da arte erudita, chega ao ápice no fim do milênio. Já na última década do século XX surgem os estudos culturais. Não se sabe ainda se são a tábua de salvação para as artes ou a aceleração de seu processo irremediável de decadência. As universidades e as revistas especializadas deixam de tratar a literatura como linguagem específica para se dividirem em departamentos ou centros voltados para a política da literatura e os problemas sociais, abrindo espaço para estudos cada vez mais politizados: women’s studies (estudos feministas), cultura latino-americana, estudos hispânicos, arte, estudos sociopolíticos. A alta literatura enclausura enclausura-se entre públicos altamente especializados, nas rodas de intelectuais e dos bares, a literatura (assim como as exposições de arte e a música erudita) não é mais o assunto. Fala-se de cinema, de psicanálise, de música popular, da economia, da vida privada. Cada um no seu buraco de pombo, para usar a expressão norte-americana que indica o aprisionamento universitário numa excessiva especialização: “pigeon-holed“.

Ainda não se sabe se os estudos culturais vieram condescender em abrir espaço para a moribunda literatura, ou se vieram acelerar um processo de perda de prestígio que poderia ainda se prolongar por mais algumas décadas, dando espaço para se alcançar algum processo de salvação pelo surgimento de alguma novidade no cenário cultural. A crítica torna-se mais sociológica, histórica, política, antropológica e menos voltada para estudos específicos da literatura, como o eram Hugo Friedrich, Wolfgang Keyser ou Vossler, nos antigos tempos do estudo da estilística textual. Acirram-se os estudos de literatura e cultura, literatura e sociedade e arte enquanto mídia. A crítica e a arte podem até continuar a se voltar para a literatura e o cinema de arte ou a obra de artista, o problema é encontrar público, seja universitário ou o geral. Criam-se núcleos, pequenos grupos especializados que continuam a ler em segmentos: literatura de autoria feminina, afro-brasileira, roman noir, romance policial. É como no início da rádio FM: as rádios AM sobreviveram, mas precisaram se tornar cada vez mais especializadas, voltando para segmentos mínimos da população: donas de casa, motoristas de caminhão, noticiário, certas seitas, tipos de música e até mesmo rádio relógio.

O VIRTUAL NA LITERATURA E NA ARTE: pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, estudos culturais

O estruturalismo consistiu num período crítico eivado de intertextualidades, de citações cruzadas, entre textos e intertextos literários que, no dizer de Julia Kristeva, se autobastavam, conduzindo a outras citações e leituras, numa incursão infindável pelo texto do outro, numa rede interminável. Já no clímax deste movimento, ou seja, no pós-modernismo, Barbara Cassin, em Máscaras da mímese, A obra de LCL, org. Hans Ulrich Gumbrecht e João Cezar de Castro Rocha, Rio de Janeiro, Record, 1999, “Transmissão e ficção”, p. 34-35, p. 25-43,), desmancha a magia das citações e das aspas, mostrando que a citação, desde Diels, o estudioso da literatura grega, é que elegia, de acordo com seu “bom gosto”, os textos dignos de citação, pois na verdade a frase citada é uma apropriação. Toda a etiqueta do processo de citação entre aspas data apenas do típógrafo Guillaume, epônimo de “guillemets”, as aspas, em francês (p. 34). Assim, a “doxografia” não passa de um “objeto filológico que corresponde ao ideal de uma transmissão por pura repetição” (p. 35). Para rivalizar com o culto livro de Genette que lançou toda a escola de análise de texto desde a década de 1970,Palymsestes, desmerece Barbara Cassim, no período pós-moderno: caracteriza a doxografia é “o que ele diz” (phêsin, em grego), enquanto legein significa “querer dizer” e apaga o falante, para que subsista apenas a “repetição da fórmula” (p. 38). Sem dúvida é uma releitura do estruturalismo e da semiologia, em que a repetição do dito e da diferença do mesmo é que vão indicar o significado semiológico dos vocábulos.

Estudos tradicionais — como a antropologia, a filosofia e a história — vêm sendo submetidos a um “profundo questionamento de qualquer formação epistemológica” — afirma Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 257, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). O que sucede é a textualização, a “literalização” de todas as antigas ciências, num sentido que antes poderia ser identificado ao de uma ideologia, como vêm fazendo Hayden White e Richard Rorty em filosofia, e Clifford Geertz e James Clifford em antropologia (idem, p. 257). Essas teorias limitam-se a apresentar narrativas ou textos culturais sobre fenômenos textuais “construídos a partir de uma aglomeração de textos” (idem, ibidem). Paralelamente, desequilibrou-se a estrutura sujeito-cientista — e objeto de estudo. O “objeto de qualquer prática discursiva não é nada mais que a própria produção dessa prática e é específico a ela” (idem, ibidem). Rompe-se assim a universalidade e a estabilidade que antes cercava o sujeito do conhecimento. Coloca-se em cheque a crença hermenêutica na quest!ao da formação da subjetividade naas construções e operações epistemológicas e metodológicas (como no caso de Um Geertz, Gadamer ou Paul Ricoeur). Estabelece-se um certo pacto em que o próprio discurso cria o seu objeto, ao contrário do pensamento hermenêutico, que antes via o objeto como um já-dado para ser conhecido pelo sujeito (ver idem, ibidem).

O que se poderia questionar aqui é se permanece um espaço irredutível que poderíamos chamar (ainda) de real. Que o real é impregnado de história, já nos disse de Certeau. Mas se este limiar é que o mundo real, aquele produzido pelo trabalho de todos, num retorno ao conceito marxista de trabalho e de produção relembrado por Lefebvre, então todas as interpretações e releituras são possíveis, e perde-se até mesmo a dimensão da ética na vida humana. Para Lefebvre, há três instâncias no que diz respeito ao real concreto, como em Platão, cada vez mais afastadas do real, em direção aos discursos de representação. Este pacto com a realidade, uma realidade que em si não teria nada de interessante, comenta Richard Rorty, no entanto nos permite uma saída para fora da desconstrução, em relação à construção de um discurso coerente que não fique circularmente eternamente se autoperguntando sua função social o tempo todo.

A LITERATURA NA ERA DO CULTURAL

Afirma Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org., Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, que hoje o texto é “considerado como produto cultural, [e] é visto como absorção, réplica a outro texto ou a vários, e em que o que era entendido como relação de dependência ou dívida para com o antecessor passa a ser compreendido como um procedimento natural e contínuo de re-escrita” (p. 237). Lembra que identidade e representação são conceitos intimamente ligados, pois a “representação, a idéia, aquilo de que é imagem no ato da lembrança resulta em conhecimento da identidade”. Esta se define como uma experiência emocional que permite a cada ser perceber-se como entidade única, apesar de suas contínuas transformações. É a contradição de ‘ser-si-mesmo’ deixando de sê-lo. O conceito de identidade opõe-se ao de alteridade e o reconhecimento da identidade de dois ou mais objetos, ou sua identificação, pressupõe sua alteridade, que lhes permite continuar ‘o mesmo’, persistir no seu ser” (p. 237; ver Greimas, A. J.; Courtes. Dicionário de semiótica. São P;aulo, Cultrix, 1979).

Temos, assim, a pressuposição de que cada obra literária desenvolve elos intertextuais com outras obras — no sentido de intertextualidade que lhe atribuem Julia Kristeva emSemeiotiké e Jean Genette em Palympsestes. Neste sentido, já não haveria a idéia de influência ou preponderância de um autor sobre outro, uma vez que os textos funcionam como redes de sentido complexas e existindo concomitantemente na sociedade atual. No caso de autores cronologicamente anteriores, eles seriam retrabalhados e reinscritos num novo todo lingüístico, pelo autor posterior na tradição literária, tratando-se por assim dizer de um caso de tradução ou transliteração. Mas, para além deste conceito, vemos delinear-se uma tal complexidade de intertextualidades que se configura um problema de hiperrealismo, como na Informática, de signos ou conteúdos que remetem a outros conjuntos de signos ou de conteúdos, indefinidamente.

O cânone literário ficaria assim sob suspeita, podendo-se afirmar que não existe literatura “pura”, no sentido das “belas-letras”, uma vez que todo texto, em última instância, estaria inscrita na totalidade do social, ou na vasta palavra cultura. Desse modo, nenhum texto poderia deixar de estar inserto na história. Um cânone literário único e definitivo seria uma contradição, uma vez que a cultura está em constante mobilidade, assim como a parole (palavra), sempre móvel, com relação à langue(língua), mais fixa. O cânone sempre vai incorporar autores do passado que vão sendo revalorizados — é o caso das escritoras do século XIX que vão sendo resgatadas — e escritores quer atuais, quer passados, uns porque passam a ser considerados, outros porque, tendo sido antes bem considerados, saem de moda ou caem desuso. É o caso, entre nós, de Coelho Neto, que hoje ninguém mais lê. O caso modelar para este fenômeno é Shakespeare, cuja própria existência já foi negada e no século XIX foi valorizado como o mais original e valioso dos dramaturgos, sendo hoje reescrito e transfigurado de todas as formas, a cada montagem e leitura crítica (ver Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org.,Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, por exemplo, a respeito das releituras de Shakespeare em nosso século)

A idéia de um kanon (em grego, vara de medir), de função puramente estética (ver Roberto Reis, “Cânon”, in José Luís Jobim, org., Palavras da crítica, Tendências e conceitos no estudo da literatura, Rio de Janeiro, Imago, 1992, Biblioteca Pierre Menard, p. 65-92, p. 70-1), isto é, com base na filosofia kantiana, que pregava o bem e o belo desinteressados, tornou-se obsoleta. O conceito cultural parece atropelar essa pureza metafísica de conceitos que se originou no pensamento da elite do século XVIII. A primeira pergunta na sociedade atual, supostamente democrática e republicana, é sobre a legitimação do conceito de belo. Quem será o juiz deste conceito? Em que definirá a medida desta beleza? Como afirma Roberto Reis: “O estudo da literatura seria melhor equacionado considerando-o dentro da dinâmica das práticas sociais: a escrita e a leitura estão sujeitas a variadas formas de controle e têm sido utilizadas como instrumento de dominação social” (idem, p. 72). A legitimação dessas obras e dos critérios seria feita pela universidade, pela crítica especializada ou a resenha jornalística nos meios de comunicação social — entretanto, no apagar das luzes do século XX, seria ainda este o critério usual? Sem dúvida, caminhamos na direção contrária à apontada por Harold Bloom em seu O cânone ocidental (Rio de Janeiro, Objetiva, 1995), que desejaria retornar a Shakespeare e apenas ao panteão de autores clássicos e anglo-saxônicos estudados em Yale até 1950. (No Brasil foram publicados recentemente, de Flavio Kothe, O cânone colonial e O cânone imperial, Brasília, ed. Da UnB).

Hoje assistimos à transformação do livro num objeto de consumo e de utilidade prática. O best-seller oferece informações importantes. Paulo Coelho, por exemplo, decifra os passos para a depuração da alma, até a ascese maior, descortinando ao leitor o caminho até Santiago de Compostella. Outros explicam o Japão na época do Xogum ou o Egito no tempo dos faraós. São historiadores que facilitam o vocabulário e o aprofundado estudo cronológico, inserindo-o numa narração cheia de graça e regada a romance, aventura e ação. O leitor sente-se elevado à categoria de intelectual, sem precisar do esforço de estudar ou dirigir-se à universidade. A literatura mostra-se “um eficaz veículo de transmissão de cultura” (Roberto Reis, idem, p. 72), mas, também, um eficaz instrumento de dominação de classe e de grupos sociais altos. Tradicionalmente, houve a exclusão dos povos da periferia européia, os asiáticos, africanos, sul-americanos — processo que está sendo em parte revertido pela atuação da Associação Internacional de Literatura Comparada neste sentido, reunindo-se e estudando o Japão (último congresso) e a África (este ano). No entanto, dada a complexidade do mundo atual, uma listagem de “grandes escritores da literatura universal”, como existia nas universidades norte-americanas e européias até a década de 1950, ou a idéia de uma Weltliteratur, como o desejava Goethe, no momento da criação da Literatura Comparada, no século passado, parece inviável hoje, podendo-se antes imaginar a coexistência de diversos cânones destinados a distintos fins e voltados para diferentes regiões do globo. Estes cânones reconheceriam explicitamente os fins a que se dedicariam, pois o critério estético, eivado de metafísica, no sentido desinteressado e superior a qualquer interesse, parece pouco convincente e até aberto à suspeita, principalmente das classes mais subalternas, se elas receberem a educação a que têm direito — um processo que tem sido retardado indefinidamente no Brasil, com a contínua queda da educação e a manutenção do salário mínimo em 75 dólares mensais. No momento atual, a quebra do conceito de nacionalidade, bem exportado através dos impérios pela escola hegemônica do Romantismo, parece também perpetuar-se pela impressionante influência dos Estados Unidos em todo o mundo, constituindo-se agora como uma nação global. Se, como nos mostra o livro The Empire writes back antes havia o imperialismo capitalista e eficaz da Inglaterra desdobrando-se através da língua, da cultura como armas de dominação cultural expandindo-se na Índia, Austrália, Canadá, etc — com uma eficiência infinitamente superior aos impérios mercantilistas no século XVI de Portugal, Espanha e Holanda, por exemplo, hoje a lição inglesa é elevada a uma infinita potência com o império norte-americano e temos o mundo transformado em aldeia global quase que exclusivamente constituído a sua imagem e semelhança.

CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E RUPTURA

Balizar a critica literária brasileira dentro desta rede de pensamentos filosóficos e lingüísticos não é tarefa fácil. Pode-se cair na armadilha do nacionalismo, enfatizando a importância de todos os críticos que se voltaram para um pensamento nacional. Assim, se destacaria a preeminência da escola da USP, liderada por Antonio Candido e Roberto Schwarz, e hoje seguida por inúmeros de seus alunos espalhados pelo mundo. Mas esse esforço poderia parecer um pouco infrutífero a partir da década de 1970, quando o pensamento especificamente “brasileiro” passou a se estender a um pensamento mais latino-americano, com pensadores como Roberto Schwarz, ou universalista, como é o caso de João Alexandre Barbosa, que incluiu nos seus ensaios estudos sobre Mallarmé e outros poetas simbolistas, na linha mais eclética de um Augusto Meyer. Inúmeras metodologias passaram a se cruzar a partir da década de 1970, as quais podem ser sintetizadas nos estudos de Literatura Comparada, que passaram a reunir estudos interdisciplinares dos mais diferentes teores. Mas com uma marcante diferença: não preconizava o fechamento em torno de temas da Literatura Brasileira nem com um instrumental oriundo tão-somente do Brasil. Esta foi uma das preocupações de Luís Costa Lima em um certo momento de sua carreira crítica: encontrar as raízes e as ramificações de uma crítica “autenticamente” brasileira (como ele desejaria ver surgir, enquanto “sistema intelectual brasileiro”). O esforço por encontrar algo totalmente autóctone tornou-se um tour de force. Aqui e ali, e no próprio pensamento de Costa Lima, surgiam influências, leituras, contágios, contaminações, apropriações. Na verdade, onde se encontrariam, em pleno século XX, esses pensamentos totalmente originais? Acabou-se por incorrer na teoria das intertextualidades, de Julia Kristeva, a partir do pensamento de Mikhail Bakhtin, e dizer-se que não é mais possível retraçar as influências e, como na rede entretecida de Jorge Luís Borges, e no Palympsestes, de Genette, todos os textos estão em todos os textos, na modernidade. Através da extrema circulação da Literatura Comparada no Brasil, a partir da década de 1980, e principalmente com a revista da ABRALIC n. 1, de Niterói, em 1991, passou-se a valorizar problemas genéricos, como a identidade cultural, a diferença filosófica ou de gênero, e a utilizar como metodologia a interdisciplinaridade, com a conjunção da história, da antropologia e da história. Abria-se um caminho internacional para os estudos da Literatura Comparada. Os apelos marxistas do local e do popular tornavam-se mais raros, e só voltaram a ocorrer no campo da literatura com a ruptura da idéia de erudito, e sua mistura com o conceito de arte popular ou baixa literatura.

O conflito entre nacional e autêntico e uma crítica livre, de caráter quem sabe francês, nos moldes de Sainte-Beuve, esteve presente no Brasil desde os seus começos. Em Alencar, “Como e por que sou romancista” e em Machado de Assis, “O instinto de nacionalidade” o importante era diferenciar-se do pensamento europeu, hegemônico, eurocêntrico. Naquele momento, de fixação das fronteiras nacionais e de uma identidade própria (até certo ponto identificada com a idéia de exótico, de tropical, de indígena e selvático) dizer-se brasileiro era criar uma diferença e afirmar-se uma identidade própria. Entretanto, os críticos literários tradicionais como Santiago Nunes, Artur Araripe, Sílvio Romero e José Veríssimo, prestaram uma atenção apenas periférica ao problema da nacionalidade. Ela se restringia à questão do tema e das descrições no que dizia respeito a cenas de natureza “brasileiras”, isto é, o que resumia a teoria da “cor local”, uma das bases do Romantismo. A verdadeira preocupação desses críticos era, entretanto, o problema estético dos textos. Estudavam a sua eficácia, sua recepção pelo público, a utilização de um vocabulário adequado, oriundo do português e não afrancesado, a descrição de pessoas da classe popular e com o vestuário típico do povo brasileiro que não denotasse influência estrangeira nem descrições excessivamente cosmopolitas ligadas a Paris.

Assim, a crítica literária brasileira nasceu não há 500 anos, mas há menos de 200, no século XIX. Surge com a independência do país, quase no Romantismo, e vence inúmeros problemas. O primeiro, é o analfabetismo do povo. Machado, como bom cronista dos costumes de sua época, assim define o grau de instrução e a política do país: somos 70% de analfabetos (ver crônica de Notas semanais). O segundo, é a ausência de universidades (a Universidade do Brasil data de 1920) e faculdades dedicadas à literatura. Até 1940, quando se cria a primeira Faculdade de Letras do país, os escritores estudavam Direito. Isso leva a uma certa generalização nos seus comentários críticos. A falta de leitura sistemática de autores, críticos, da literatura greco-latina ou de importantes histórias literárias que nos antecederam leva a um ecletismo e um generalismo de estilo que foram denominados de impressionista. É o domínio do sentimento sobre a racionalidade. Vale a impressão pessoal sem fundamento num estudo mais aprofundado ou em comparação a autores antes estudados com afinco. É grande a leitura de obras literárias mas quase nula a procura por obras filosóficas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como se constata através de seu Livro de Consulentes do século XIX. Outro problema é o elitismo de todo sistema intelectual brasileiro. Permitia-se, por exemplo, o ingresso à Biblitoeca Nacional, por exemplo, apenas a homens brancos, de terno, gravata, bengala e chapéu. Jamais descalços (escravos) nem mulheres (esperta foi George Sand, que se vestia de homem e adotou pseudônimo masculino, em pleno século XIX francês).

Conclusão

Nos 500 anos de descobertas do Brasil, talvez devêssemos cobrar de nós mesmos uma crítica pós-colonialista que implicasse na autonomia com relação às dependências do passado, nos moldes do pensamento que surge na Índia, como base para a criação de um país totalmente independente, embora constituído por um rede de línguas e culturas unificada pelos ingleses e outros dominadores artificialmente. No entanto, essa hipótese é remota dada a conjuntura globalizada do mundo atual. O fim da colônia terminou, do ponto de vista cultural, no Romatismo do período monárquico, realizando uma mudança de eixo de influência de Portugal para a França. A influência francesa culminou com o modernismo, no qual muitos manifestos, como o Pau-Brasil e o Antropófago tinham suas bases no Manifeste Caniballe, de Picabia, por exemplo (ver Benedito Nunes, Oswald canibal, São Paulo, Perspectiva). Mas por volta de 1950 a influência francesa foi substituída pela norte-americana, num grande império mundial de bases extraordinariamente globalizadas. Uma crítica pós-colonial nos levaria de volta à dicotomia nacional versus internacional. A um pensamento autóctone. As dicotomias se mostram cada vez mais abertas à suspeita num mundo complexo. Seria o autóctone o indígena? O africano? Ou o retorno à cultura do português? E que fazer com os imigrantes europeus e japoneses? Desse ponto de vista, parece-me que no multiculturalismo que deve prevalecer na cultura e na arte, nosso sistema intelectual brasileiro, que já lutou tanto para ser puramente “brasileiro” durante tantas décadas, deveria reunir os fragmentos da cultura que o compõem e se autoquestionar no sentido de influir no processo o máximo possível. A criação de uma teoria totalmente pura e autóctone, independente e original lembra-nos as teorias racistas do final do século passado e início deste. E o movimento em direção à globalização torna-se inevitável. O que não quer dizer automático nem regulado exclusivamente por outros. A lição da apropriação, já proposta entre nós pelos modernistas, parece ser o único caminho possível para uma teoria e uma prática crítica entre nós e em qualquer parte do mundo hoje, ligado por uma quase visível rede comunicacional que realiza a predição da aldeia global de McLuhan, aldeia global, multicultural mas na qual alguns exportam saberes e bens e outros os importam. Daí a importância da permanência da crítica literária e cultural.

Este texto foi escrito para uma conferência durante o Simpósio Internacional BRASIL 500 ANOS: CAMINHOS DA HISTÓRIA, SÍNTESE DE CULTURAS, realizado na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, de 9 a 14 de abril de 2000, sob a coordenação da Profa. Maria Gabriela Cardoso Fernandes da Costa, da Pró-Reitoria de Extensão e do Forum das Nações. Foi paricalmente publicado em jornal local.





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