REVISTA SELEÇÕES: ARQUIVO DE PESQUISA DE IMAGENS REFERENTES ÀS MULHERES DA DÉCADA DE 1950




 

Eliane Maria de Oliveira Giacon1

Universidade do Estado do Mato Grosso do Sul

Resumo: O artigo pretende apresentar o objeto de pesquisa as revista Seleções, em um período de dez anos, a década de 1950. Para tanto foi feito um recorte de alguns dados referentes à revista, à imagem e à posição da mulher neste período. Bem como foi necessário localizar o acervo, dizer o porquê de selecionar um período histórico e por fim fazer a análise de algumas imagens, a fim de observar de que forma a mulher é representada na revista Seleções.

Palavras-chave: Mulher, revista, imagem.

Origem da pesquisa sobre as revista Seleções

O objeto pesquisado e os desdobramentos dele vão ao encontro de um processo que passa pela seleção de um foco dentro de um projeto maior. O projeto em questão é do Laboratório de Acervos Pessoais financiado pelo FUNDECT/CNPq, que propiciou a pesquisa in loco da biblioteca do Centro de Memórias Jindrich Trachta, sitiada em Batayporã-MS.

Ao separar com um conjunto de documentos, livros, anotações do filólogo Jindrich Trachta percebeu-se que se abria ali uma oportunidade de pesquisa para historiadores, linguístas, sociólogos, antropólogos, literatos, psicólogos, jornalistas, agrônomos, pedagogos, que terão a oportunidade de caminhar por dentro das escolhas de leituras e escritas depositadas no Centro de memória Jindrich Trachta..

Jindrich Trachta foi um filólogo de formação, que veio para o Brasil, depois e 1950 e trabalhou na empresa de Jean Antonin Bata, sendo responsável pela formação da região, onde hoje se encontra a cidade de Batayporã/MS. No decorrer de sua vida ele adquiriu muitos livros e coleções de revistas. Após sua morte 2000, a família Trachta iniciou o projeto do Centro de Memória, que recebe o nome do filólogo.

Desde 2011, a professora doutora Eliane Maria de Oliveira Giacon, docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, iniciou um projeto junto à FUNDECT/CNPq, intitulado Laboratório de Acervos Pessoais, que pretende discutir as opções de leitura dos fundadores do Estado de Mato Grosso do Sul, sendo que a primeira fonte de pesquisa é o Centro de Memória Jindrich Trachta.

No decorrer da pesquisa, um dos setores selecionados foi a hemeroteca do acervo, na qual há a uma coleção das revistas seleções de 1942 até o ano de 2000. A princípio, quando nos deparamos com a hemeroteca verificamos que havia a necessidade de catalogar, contudo isso implicaria um trabalho exaustivo, que foi realizado em parte pela acadêmica Amanda Henrique do curso de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, em 2011. Durante a orientação da aluna, percebeu-se que havia a possibilidade de recortar um período de estudos desta revista, que se fixou na década de 1950.

A década de 1950 produz um momento de mudanças, políticas, sociais e econômicas, que vão ao encontro de um posicionamento da mulher em relação às suas opções de compra e de sua posição em relação à sua casa e família, pois a mulher aos poucos passa a ser de acordo com Marie Susuki Fujisawa (2006), quem decide os produtos, que entram em sua casa e consequentemente ela se tonar o alvo das propagandas de revistas, televisão, cinema, jornais e demais meios de comunicação.

A mulher, que toma seu lugar nas escolhas do que pode usar em sua casa, também passa a ser vista como mais um elemento da cadeia de consumo, que precisa ser convencido sobre o que comprar. O processo de envolvimento passa por um meio de comunicação, que foi incentivado a partir de 1942, quando a revista Seleções do Reader’ s Digest em plena segunda Guerra Mundial, quando a pedido de Nelson Rockefeller diretamente ao Departamento de Estado Brasileiro, pois o mesmo de acordo com Maria Junqueira(2001, p.147) tinha preocupação quanto à possibilidade do nazismo atingir as colônias alemães do sul do Brasil.

A revista Seleções, que era sucesso desde 1922 nos Estados Unidos passou a partir de 1942 a ter uma versão brasileira idealizada pelos proprietários americanos da revista DeWitt Wallace e Lila Wallace, que atingiu sucesso junto a classe média e alta brasileira. O resultado, que as edições da década seguinte, do pós-guerra passam a ser um veículo, que pretende trazer para uma fatia da população brasileira o estilo de vida americano, no qual os produtos a serem consumidos são direcionados à mulher.

A revista Seleções na Década de 1950

A pesquisa de Amanda Henrique (2011) apresenta um perfil dos sumários das revistas Seleções de 1951 a 1960. O trabalho traz dados impressionantes sobre cada revista, que será o objeto de pesquisa e de estudos a partir de agora, pois ela catalogou o sumário deste grupo de revistas bem como suas capas. Far-se-á um recorte, visto que se pretende observar como a confecção de uma revista, que a princípio é voltada para o público masculino, pois o marido era quem comprava as revistas e as colocava em casa e aos poucos, a revista inicia um processo de incorporação da mulher como promotora do vem estar da família e da sociedade.

O público, no Brasil, era composto na maioria por homens, que assinavam estas revistas, logo boa parte dos artigos interessava a eles, mas como, no interior da família, as mulheres também tinham acesso, havia seções que atendiam às mulheres. Uma delas é a “Seção de romances” e “Flagrantes da vida real”. O incentivo à leitura das mulheres aparece em textos como “Mandei minha esposa para a escola” de janeiro de 1952. Neste sentido e pelo fato de a revista viver em busca de leitores, há a preocupação de colocar alguns artigos e seções, que atendam às mulheres. Ainda há uma seção, na qual os vocábulos tanto em português quanto em inglês são apresentados aos leitores como forma de enriquece o vocabulário. Há a preocupação exaustiva com a língua e com o ensino de ler e falar bem, visto que o fator civilizatório americano passa por postura, língua e conhecimento.

No meio de algumas edições aparecem artigos como: “Você tem em casa uma esposinha habilidosa”, “Se sua mulher é cacete” e “Mandei reformar a minha mulher”. São artigos, que trazem um conteúdo machista e sexista, pois invocam o poder masculino do homem sobre a mulher. Ao apresentar esta posição sobre a mulher, há de se observar, que era a década d 1950, quando a estrutura social e o pós-guerra permitia a existência de uma sociedade, que não via estes textos como machistas, mas com riso e humor.

Por outro lado é possível perceber outras características da revista Seleções , que são textos fixos, em seções pré-determinadas, cujos textos mudam os temas, mas não o formato incisivo de tentar convencer o leitor. A função fática é extrema, que muitas vezes, o leitor contemporâneo pergunta-se: “Como os leitores não viam isso”, mas é o mesmo que ocorre, hoje, quando uma revista ou um grupo de revistas se torna como que uma leitura obrigatória de um país. Aquilo é visto como verdade, como se não houvesse outra saída a não ser aceitar.

Há também uma dicotomia entre as capas e os textos, pois muitas delas, da década de 1950 a 1954 trazem fotos de localidade e personalidades brasileiras, contudo os textos são voltados para a expansão americana, que valorizam sua cultura, ciência e língua. De 1955 em diante iniciam reportagens sobre o Brasil a partir de suas riquezas naturais como o amazonas, Belém, cataratas, bem como a vida de algumas populações brasileiras como os gaúchos. Em outubro de 1955 aparece o artigo sobre a Nação brasileira ao imigrante.

Os temas mais frequentes são: guerra fria; remédios; religião; descobertas científicas; mecânica das coisas; sexo e doenças; história, cultura, geografia, turismo e literatura dos Estados Unidos; combate ao comunismo; emprego e façanhas masculinas. Algumas seções são bem delimitadas: “enriqueça seu vocabulário”, “romances, flagrantes da vida real”, bem como “entre aspas”, que inicia em 1955. O ano de 1955 traz mudanças para a editoração da revista, que persiste no material estudado, até 1960.

A mulher na revista Seleções

Se a mulher americana, no período da Segunda Guerra Mundial assumiu muitos papéis da sociedade, ela a partir do final da guerra vê que os postos alcançados não poderiam ser deixados agora, só porque os homens retornaram, visto que muitos deles não voltaram e a reorganização do país dependia dela também.

O mercado de bens de consumo via nela uma possível consumidora, mas também alguém que necessitava de informação e de conhecimentos sobre o mundo que a rodeia. Assim as revistas passam a fornecer informações das mais variadas, tendo revistas de cunho romântico como as fotonovelas, quanto às de informação e venda de produtos como a Seleções.

A revista Seleções, que há mais de 20 anos era publicada nos Estados Unidos vem para o Brasil e aqui se transforma em um misto de informações pedagógicas, na tentativa de ensinar aos brasileiros, de como a classes média e alta poderiam se manter longe primeiro do nazismo e depois do comunismo e como se educar para o mundo capitalista.

A imagem da mulher apresentada para o Brasil era da dona de casa, que necessitava de produtos, que fossem bons para fazer alimentos para sua família; eletrodomésticos de qualidade superior e produtos de limpeza. A vida desta mulher precisava ser facilitada, porque ao melhorar as condições de trabalho doméstico, ela “se apaixona” pelos bens de consumo e não e interioriza a condição de dependente do capitalismo.

Ao mesmo tempo a mulher da década de 1950, no Brasil continua sendo a dona de casa, aquela que cuida dos filhos e salvo poucos casos, ela trabalha ou tem uma vida financeira independente. O lugar da mulher estava definido dentro de uma “família modelo dessa época, os homens tinham autoridade e poder sobre as mulheres e eram os responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos. A mulher ideal era definida a partir dos papéis femininos tradicionais […]. (BASSANAZI, 2006, p. 608) .Os papéis femininos são reforçados pela revista Seleções, contudo o mesmo veículo de informação passa a ver nesta mulher uma consumidora do que havia de melhor, em matéria de consumo. Entre textos, artigos, que se volta para discussões sobre políticas, informações sobre o que se passa nos Estados Unidos, informações sobre a Europa e América Latina e novelas folhetinesca, há espaços para a propaganda e do convencimento por parte dos produtores da revista às consumidoras brasileiras.

A leitora brasileira desta revista encontra temas literários nas seções: romances e flagrantes da vida real, contudo existem outras partes, que apresentam artigos voltados para esta mulher com dicas sobre serviço doméstico, como educar filhos, depoimentos de homens que mandaram as mulheres para a escola, sugestões sobre etiqueta e um artigo de outubro de 1954, que invoca as mulheres a pararem de levar pratos. O texto intitulado “Chega de lavar pratos” pressupõe uma realidade de máquinas, que lavem pratos, que ao lê-lo hoje, percebe-se uma mudança socioeconômica, na qual a mulher teria mais tempo para si mesma e para a família.

Apesar de não ser a princípio uma revista com temas específicos para as mulheres, no decorrer da década um aumento de artigos e seções, que atendem a leitura deste leitor feminino em formação. O que em termos pode ser complementado com as imagens de propaganda, que percorrem todas as edições.

Para efeito deste artigo e pelo espaço exíguo, iremos analisar somente algumas destas imagens, sendo algumas de propaganda e outras de capas, pois de acordo com Joly (1996, p. 71): “A imagem publicitária […] essencialmente comunicativa e destinada à leitura pública, oferece-se como o campo privilegiado de observação dos mecanismos de produção de sentido pela mensagem.”, log tanto o primeiro grupo das capas e o segundo das propagandas internas da revista Seleções vêm ao encontro da necessidade de produzir sentido a uma mensagem.

Do primeiro grupo o das capas, há um a preocupação do uso de cores vibrantes como vermelho, amarelo, azul e verde na composição de um cenário tropical com imagens de mulheres brancas, bonitas, cujas peles refletem o sol. As roupas em geral são americanizadas, pois as modelos destonam do ambiente tropical, no qual elas estão inseridas nas fotos.

A capa da revista Seleções de 1954:

Seleções de Reader’s Digest, Rio de Janeiro: Ipiranga, mar/1954, nº 145.

Em todas as edições, cujas imagens femininas aparecem em primeiro plano há sempre o distanciamento desta figura do dado local, exposto na parte escura da imagens. A imagem da mulher sobreposta à feira próxima ao vendedor e os barcos. Demonstra uma sobreposição de imagens. A primeira ao fundo são os barcos, que estão mais distantes da imagem da mulher do que do vendedor de frutas, log a proporção entre elas é desconexa, o que evidencia uma forma grosseira de ocultar a realidade brasileira. O tom discordante é a mulher, que em primeiro plano atrai a atenção do leitor e tende a se sobrepor aos demais itens da imagem. A mulher não é brasileira, ela veste-se de maneira a tentar parecer com uma brasileira, mas faltam-lhe traços físicos, que a aproximariam do biótipo de brasileiras, mesmo de cor branca, que vivem nas regiões próximas ao mar.

Se por um lado as capas trazem a busca constante de imprimir uma mentalidade de distanciamento da figura feminina do dado local e sua sobreposição como sendo um ser fora do contexto social do Brasil, pois ela é sempre uma visitante dentro da imagem, por sua vez as imagens de propaganda tendem a usar o texto para convencer a leitora sobre um produto.

O primeiro caso a ser observado é quanto à lavagem de roupas, pois as roupas brancas seriam lavadas com o produto Q BOA, que até hoje é vendido em larga escala como alvejante no Brasil. As cores são mais sóbrias, pois é preciso evidenciar o branco da roupa

Revista SELEÇÕES. Rio de Janeiro: Ypiranga, 1954, nº144: p. 9.

A primeira chamada da página diz que as roupas brancas são preciosas, faça-as durar para sempre. Observa-se que em 1954 comemorava-se quase uma década do fim da II guerra Mundial, logo a preocupação com a paz se torna evidente, quando se remete a ideia de que a roupa branca é preciosa, depois aparecem os efeitos positivos do uso do produto, inclusive, que ela protege a saúde da família. A ação descritiva do produto precede a imagem do vidro, que fica no canto direito inferior da imagem próximo aos dizeres da indústria que fabrica. O alvo é a mulher e a sua capacidade de comprar um produto, que atenda ás necessidades de sua família. A preocupação é vender um produto para a família e não só para diminuir o trabalho da mulher.

A preocupação com a diminuição do tempo de trabalho da mulher com os serviços domésticos é centralizada na venda de tecnologias, que são anunciadas, nos artigos da revista, pois as leitoras leem sobre os avanços tecnológicos para diminuir o tempo com o trabalho e em seguida, em outras edições há propagandas voltadas para vender produtos, que pretendem retirar o fardo milenar do trabalho doméstico da mulher.

O texto mais uma vez se sobrepõe à imagem, pois ele clama para que a mulher termine o serviço em menor tempo e possa se dedicar à família. O relógio, ao lado da imagem da mulher marca quase onze horas, horário, que no Brasil, da década de 1950, tanto nas grandes como pequenas cidades todas as classes operária e patronal paravam para o almoço.

Para a mulher o relógio de parede funcionava como um aviso de que, depois daquele horário, ela teria de colocar o almoço à mesa, almoçar, atender a família. O trabalho dela deveria estar pronto até aquele momento e sendo assim, o aspirador de pós a faria terminar o serviço em tempo hábil para atender mais uma exigência capitalista, que era servir à sua família, a fim de que o seu marido e filhos pudessem servir à busca de riquezas, que por sua vez poderiam comprar os bens de consumo.

RevistaSELEÇÕES, Rio de Janeiro,Ypiranga, 1954, nº 149: p. 153.

As facilidades de utilizar o equipamento são demonstradas em um espaço pequeno do lado direito, enquanto que o equipamento aparece em primeiro plano da esquerda para direita ocupando um espaço superior à figura da mulher. O texto explicativo diz quais são as qualidades do produto e quais as expectativas, que a mulher deve ter em relação a ele.

Ao comparar as três imagens é possível perceber, que a figura da mulher sofre uma transmutação nas capas, pois ela sempre destoa do restante da foto como se fosse uma montagem ou ela é posta, em segundo plano, nas propagandas. Embora a intenção da revista fosse vender produtos ou inserir a mulher dentro do contexto da revista, ela o faz com que a mulher brasileira, seja colocada em posição de mais um detalhe dentro da ótica masculina a qual a revista Seleções direciona seus artigos e reportagem. Os locais bem delimitados das seções também se aplicam a conjuntura social da família, na qual para a mulher ficaria relegado o trabalho de estruturar com seu trabalho doméstico e sua prole a sociedade capitalista.

Referências Bibliográficas

BASSANAZI, Carla. Mulheres dos anos dourados. In: DEL PRIORE, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2006.

FUJISAWA, M.S. Das Amélias às mulheres multifuncionais. São Paulo: Summus, 2006.

JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.

PEREIRA, A. H. Memória na revista Seleções: um estudo do perfil da mulher na década de 1950. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Letras) 2012. Campo Grande, Universidade Estadual de Mato Grosso. Orientador: Eliane Maria de Oliveira Giacon.

REVISTA SELEÇÕES, Rio de Janeiro: Ypiranga, 1950-1960.

1 Doutora em Letras/Literatura pela UNESP/Assis. Professora da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, leciona Literatura e Identidade e Teoria da Literatura na graduação e no mestrado. Autora de vários artigos e do livro Literatura e identidade: uma leitura de Viva o povo brasileiro (PACO). Coordena a editoração da web-revista Linguagem, educação e memória.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE – Eliane Maria de Oliveira Giacon




A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE

 

Eliane Maria de Oliveira Giacon

 
1 –O romance Viva O Povo Brasileiro [1]e a identidade nacional
 
A identidade é uma marca registrada em cada indivíduo. Uma marca que diferencia alguém em relação a outras pessoas. E para alguém se distingui de outro necessita nascer com características específicas ou ainda ele pode criar situações, durante sua vida, que o façam diferente em relação a algum outro biótipo ou filosofia de vida.
Assim, um indivíduo nasce moreno com olhos escuros, sobrancelha larga, lábios acentuados a pele macia. Este biótipo o diferencia dos outros e o aproxima de um determinado grupo. E durante a sua vida ele cria condições de ser trabalhador, estudioso e alegre, logo esse indivíduo poderá se identificar com grupos diversos como a família, o ambiente de trabalho e o país onde vive.
E quanto à essência da identidade? Ela não é individual e sim coletiva. Logo, as pessoas de um grupo precisam ter o mesmo biótipo e a mesma filosofia de vida para se identificarem em relação a grupos diferentes.A identidade vista desta forma é o que diferencia um grupo em relação a outro e o aproxima indivíduos que encontram algo em comum.
A identidade é um laço que une o indivíduo ao seu grupo e por sua vez o diferencia de grupos diversos. Assim há identidade entre associação de bairro, grêmios, gangues e toda manifestação social na qual o homem está inserido.
E se este grupo ocupasse um mesmo território sob um mesmo estado e sob um regime político que o agrupasse a outros. Neste caso a identidade seria nacional.E se os indivíduos não iguais num mesmo território, pois os seres humanos são diferentes em biótipo e caráter. Estes grupos são compostos de biotipos e caracteres diferentes num mesmo território. Poder-se-ia dizer que há identidade nacional neste país? Neste caso o que os identifica não é somente o fator étnico, mas sim o cultural que faz com que indivíduos diferentes adotem ou não determinados padrões de ser e de agir em sociedade.
A etnia e o fator cultural determinam a formação de determinadas denominações classificando os povos em italianos, franceses, alemães, mexicanos e brasileiros. A identidade nacional destes últimos é algo bem singular e fez com que um povo-nação abrigasse um estado político, no qual o processo de mestiçagem os levou a formarem uma macroetnia de brasileiros mestiços resultantes de diversos processos de miscigenação. Estes processos não começaram aqui no Brasil, mas desde a Península Ibérica, pois os nossos colonizadores devido a proximidade com a África e com a Ásia não trouxeram pra cá um elemento branco puro, mas sim um fruto de séculos de miscigenação.
No Brasil este processo se concretizou com índios, nórdicos (holandeses) e negros. No século XIX estava configurado o biótipo do brasileiro.
Esse processo de miscigenação com base nos séculos XVII e no XIX está presente no romance, porque este traz como temática a evolução deste povo e a identidade nacional, que fez com que um grupo de mestiços se cruzasse tanto no plano étnico quanto no espiritual, através da sucessivas encarnações da alminha brasileira.
Os três grupos discutem a identidade nacional através de discursos que vão do catedrático até o popular. Todos tentam demonstrar o que e é povo brasileiro tanto exortando as qualidades positivas desse povo quanto o descrevendo como a escória do mundo.
A questão da identidade nacional neste romance é discutida com certo grau de ironia em alguns textos se contrapondo ao tom sério da narrativa em outros. Assim, o narrador da obra Viva o povo brasileiro dessacraliza certas idéias sobre a brasilidade, colocando a fala dos personagens em ambientes deteriorados. Um exemplo ocorre na reunião da família de Ioiô Lavínio e os seus filhos. Eles discutem sobre a identidade do povo brasileiro a partir dos efeitos da colonização ibérica.
 
– Eu não sou careta! Eu não sou velho careta. Se há um velho que não pode ser chamado de careta, sou eu.
(…).
– Não é nada disso, paizão… Mas a Guiana Holandesa não foi colonizada pelos holandeses?…
– … Nada desse papo de inferioridade, isso não tá com nada. Tem que sacar a estrutura.
– Você conhece a história de Deus criando o mundo e dando tudo ao Brasil e aí um anjo assistente estranha e aí Deus diz que ele espere até ver o povo filhadap.., o povo safado que ele ia botar aqui? Disse Domingos pondo o braço no ombro da cunhada e notando que ela estava sem sutiã, com os peitinhos arrebitados por baixo da bata encardida.
– (Ioiô Lavínio mais a frente diz)… você não tem um baseadozinho aí, não? (VPB, p. 625).
 
A identidade neste caso é discutida a partir da colonização. Para alguns se não fôssemos colonizados por iberos seríamos melhores, outros acham que não. Outros ainda consideram que os iberos tinham pior estrutura que os nórdicos.
A cena do cunhado bolinando a cunhadinha referenda a classificação que o autor empresta ao povo brasileiro, pois se este povo era safado, ele se identificava com este povo pelos seus atos.
As outras discussões no romance ocorrem através da inserção de textos teóricos sobre a identidade nacional em pontos estratégicos, a fim de que estes junto ao enredo fictício provoquem no leitor uma reação de estranhamento que fará com que ele analise a questão da identidade nacional e se identifique ou não com o povo brasileiro.
Uma discussão entre Patrício Macário e Bonifácio Odulfo a respeito das elites que governam o Brasil e o povo brasileiro no momento em que eles estão reatando a amizade após anos de afastamento será exposta abaixo para podermos observar as diferentes posições dos dois irmãos.
 
– …Você não conhece nação forte sem um governo forte, não forte em que o povinho, os desqualificados, tenham voz ativa.
– A que povinho você se refere (responde Patrício)? Para você todos são povinho, exceto quatro ou cinco gatos pingados que você julga estarem a sua altura. Que povinho. Porque todos estes que você se refere com desprezo são o povo, brasileiro (VPB, p. 584).
 
Quando Maria da Fé aprisiona Patrício Macário logo após a morte de Leléu ela lhe explica o que é povo brasileiro e nega a autoridade da República, pois povo segundo ela:
 
– O povo brasileiro não deve nada ninguém, tenente – disse ela. – Ao povo é que vocês devem, sempre deveram, sempre continuarão devendo. (…) o povo brasileiro somos nós (…) nós é que somos vocês, vocês não são nada sem nós (…) O poder do povo existe, ele persistirá (Ver VPB, p. 563-55).
 
 
Os dois textos se opõem, porque pertencem a classes sociais diferentes. Um é da elite e outro do povo; contudo, eles têm a mesma temática, pois explicam que o brasileiro é uma identidade pronta e as microetnias e as elites econômicas estão isoladas e não representam a nacionalidade brasileira.
Segundo Maria da Fé, Nós somos vocês. Com estas palavras ela quer dizer que aqueles que se dizem os brasileiros na verdade não o são, enquanto o povinho de Bonifácio Odulfo é o povo brasileiro a quem por direito de identidade nacional deve ser considerado um brasileiro.
Após a leitura desta obra, podemos observar que o gênero novo romance histórico é uma leitura agradável, além de discutir assuntos que interessam tanto à história quanto à literatura. Nesta obra, além destes aspectos, abre-se uma nova perspectiva do novo romance histórico de pôr em questão as problemáticas sociológicas de um povo.
 
2 – Quem é o povo brasileiro?
 
Para responder a esta pergunta, que é aparentemente tão simples, foram gastas muitas horas de estudo e de leitura por antropólogos, historiadores, sociólogos e romancistas. Esses pensadores lançaram mão e ainda se utilizam de fontes históricas, de textos literários, da etnia, da sociologia e da cultura brasileira a fim de responder a esta pergunta. As fontes históricas servem de linha mestra para situar em qual época as pessoas começaram a se misturar e como e em quais circunstancias essa miscigenação ocorreu.
A sociologia auxilia esta resposta com dados a respeito da formação da sociedade brasileira após o cruzamento entre os elementos branco, negro e índio, desde colonização até os dias de hoje. Os textos literários das escolas dos primeiros séculos: Literatura Informativa e Barroco, fornecem dados como os cronistas e poetas da época viam a miscigenação
A cultura do povo brasileiro é um espelho da miscigenação étnica. Através dela é possível verificar como a carga cultural das matrizes étnicas dos brasileiros: índios, brancos e negros permanecem até hoje na cultura e no modo de ser do brasileiro. Além disso, observa-se o ato antropofágico da cultura brasileira, que deglutiu os costumes de seus formadores e produziu, em seu meio, características culturais e um modo de ser do brasileiro. Esse modo de ser em composto com um gosto pela música, um certo grau de malandragem, uma adaptabilidade extrema e religiosidade mística.
Respondendo a essa questão, retiramos três citações dos seguintes livros: de um antropólogo, Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995); de um historiador, Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1947), e do próprio romancista aqui examinado, João Ubaldo Ribeiro, Viva povo brasileiro (1984).
 
 
Ocorreu o extraordinário, nos fizemos um povo-nação, englobando todas aquelas províncias ecológicas, numa só entidade cívica e política. (…) Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variados contingentes humanos? A fusão de todos eles em nós já se completou, está em curso, ou jamais se completará? Estamos condenados a ser para sempre um povo multicolorido no plano racial e cultural? Haverá alguma característica distintiva dos brasileiros como povo, feito de gente vinda de toda parte? Todas essa argüições têm respostas claras encontradas na ação concreta. (…) Nós brasileiros… somos um povo em ser , impedindo de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem nunca foi crime… Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova entidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na busca de seu destino… de fato uma nova romanidade, uma nova romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro.[2]
A experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas (…). No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecera alguns dos nossos patriotas, é que ainda nos associa apenínsula Ibérica, a Portugal (…) Podemos dizer que dela nos veio a forma atual de nossa cultura: o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma.[3]
 
(…) dizer alguma coisa sobre o povo brasileiro (…), pois que aprendera muito com o povo brasileiro, sabia o povo brasileiro, pois aprendera muito com o povo brasileiro (disse Patrício Macário) (…) o povo brasileiro não está só. Não porque tenha aliados, pois só quem tem aliados são os governantes…mas o Espírito do homem também existe (…) o povo tem umacabeça que transcende a cabeça dos indivíduos, que não poderá ser exterminado (…) (VPB, p. 654).
 
Se o povo brasileiro é uma mistura de raças regida pela ninguendade, ou se no povo brasileiro prevalece uma etnia, a ibérica, ou se por fim o povo brasileiro é regido pelo Espírito do Homem não podemos selecionar apenas uma dessa idéias. Mas podemos analisar estas três idéias e a partir delas tentam definir o povo brasileiro.
A terceira definição, de João Ubaldo, se opõe às outras três. Ao primeiro caso, porque ele tenta provar que o povo brasileiro não vivia na ninguendade sem saber o que era, mas sim ciente de si através de duas formas mística: uma a canastra que unifica a Irmandade do Povo Brasileira e outra a alminha brasileira. A etnia negra e índia unem as duas formas místicas, e assim são capazes de encontrar os caminhos da alguendade, no qual encontram forças para serem o povo brasileiro.
O povo brasileiro, de forma mítica ou real, é um campo de forças antagônicas que se distendem ao extremo sem, contudo, se separarem, pois ser brasileiro não é uma definição de etnia. Por não ser uma questão apenas de etnia, ocorre que no Brasil muitos descendentes de povos asiáticos ou europeus têm a necessidade de dizerem que não são brasileiros. Apesar de todos os seus esforços, eles não conseguiram impedir a tonalidade brasileira que os tinge. Embora de olhos puxados ou de cabelos brancos com espigas de milho, eles são brasileiros e não retiraram essa marca deles, pois ser brasileiro não é apenas um registro de nascimento, mas sim uma forma de ver o mundo de baixo para cima.
Essa forma cria indivíduos de duas categorias: uma dos que se acomodam em ser massa de manobra e outra que luta para vencer esta ponte que os separa dos mais favorecidos seja pela malandragem ou pela luta ideológica e política. Portanto ser brasileiro não é uma questão de quere ou não ser, mas de existir dentro de um contexto de brasilidade que unifica as pessoas.
 
3 – A identidade nacional via paródia
 
O narrador de Viva o povo brasileiro discute temas sobre a identidade nacional utilizando a paródia. Se a paródia é a produção de um texto baseado em um outro que ele nega, logo os temas nesta obra funcionam como uma grande paródia da brasilidade. Enquanto ninguendade é uma forma do brasileiro se identificar com o mundo por não se definir enquanto povo, o romance Viva o povo brasileiro (1984) demonstra que o povo brasileiro, através da Irmandade e da Canastra no século XIX, já tinha consciência de sua existência política e cultural.
Outra forma ocorre com a abordagem de Darcy Ribeiro quando este afirma que os homens negros e índios do Brasil, durante a fase colonial não tinham mulher ao seu alcance. O romance parodia tal afirmação, pois Capiroba, por falta de uma, tinha três. Turíbio Cafubá era reprodutor de muitas mulheres, entre elas Roxinha, com quem tivera Vevé, e isso quando ele já havia passado dos 60 anos. O romance, portanto, parodia vários temas da identidade. A partir daqui citaremos alguns que estão no romance e se referem aos outros dois livros já citados na parte 2.
 
O indivíduo isolado – (…) pode adaptar-se a tais regiões, mas a raça, essa decisivamente não; (…) ao contrário do que sucedeu com os holandeses, o português entrou em contato íntimo e mais freqüente com a população de cor.[4]
 
No romance, o indivíduo Zernike não se adapta ao meio tropical e amaldiçoa a companhia de Sckopp, que o trouxera para o Brasil. Ele estava sozinho com Ejikman e não se adaptou ao meio hostil. E dizia: “(...) como engajados, se fomos abandonados aqui à nossa sorte (…) Banckert zarpou com todos os seus navios? Engajados em quê, em guarnecer esta nesga do inferno para a Companhia” (VPB, p. 46).
Quanto à formação do povo brasileiro e sua identidade nacional, o narrador de Viva o povo brasileiro, além de parodiar textos como acontece com este acima, ele também parodia textos diversos dentro da própria obra dependendo de quem fala. Hamlet, por exemplo, diz que o Brasil “jamais se tornará um país de negros, pardos e bugres, não se transformará num valhacouto de inferiores” (VPB, p. 475). Numa outra parte mais a frente Hamlet o amaldiçoa a esposa por ela não ter seguido a receita de passar cuspe, em jejum todos os dias no nariz do filho Patrício Macário para ele ficar com o nariz fino e não o chato de negros. Para a desgraça de Hamlet a mestiçagem está em sua casa.
Em outras partes do texto o narrador parodia os temas quanto a identidade nacional produzindo um texto que decompõe outros textos, cujos temas são a identidade nacional. Isto é feito de forma fragmentada, de acordo com o tema abordado num determinado capítulo. Os personagens são articulados a fim de exporem as idéias não só da época em que vivem como de outros séculos quanto à brasilidade. Assim no século XVII Capiroba através de seus atos antropofagia não só a carne humana, mas também as ideais que virão no futuro sobre a identidade do brasileiro.
Ele tem consciência de sua superioridade em relação ao homem branco. Por isso o considera um animal e assim o trata. Em determinado momento ele descobre que os sons produzidos por aqueles bichos podem ser sons de pessoas inteligentes.
A identidade nacional é demonstrada pelo narrador através do romance quando este sublinha as falas dos personagens através dos seus atos e de sua história, de tal forma que todos eles se identifiquem direta ou indiretamente com o povo brasileiro. Não há problema no fato de que o personagem não se identifique na obra com o povo brasileiro, pois o leitor o identifica no decorrer do enredo.
 
4 – A antropofagia via paródia
 
A paródia da antropofagia articula o ato de comer carne humana, a antropofagia literal com as outras antropofagias: a antropofagia étnica, a econômica, a lingüística, a cultural e a literária.
Essas variantes antropofágicas apresentadas em Viva o povo brasileiroconstituem uma forma de apresentar identidade nacional, porque a essência do brasileiro antropofagia o que está a sua volta. Após a deglutição o que sobre são partes de um todo que formam a identidade nacional do povo brasileiro.
A primeira antropofagia ocorre com Capiroba deglutindo a carne de um homem branco. Essa carne é comida por um elemento vindo da mistura de uma índia e um negro. Esta antropofagia cultural se efetiva com a absorção das receitas de culinária ensinadas às mulheres pelos padres da Redução. Estas receitas sevem para as mulheres de Capiroba prepararem as iguarias com a carne dos padres.
A partir daí percebe-se que a antropofagia é um sistema autônomo. Sistema este que ao mesmo tempo em parece que um elemento está sendo absorvido por outro, na realidade é o outro que o consome. Um exemplo é a miscigenação entre a comida Sinique e o comedor Vu, pois ele que seria comida se cruza com ela e a principal característica dele: os olhos claros passam para as gerações futuras.
O texto abaixo mostra o encontro destes dois mundos e a assimilação da língua de Sinique por Capiroba.
 
– Eijkman, Okeman – falou quase sorrindo também e tentando imitar ao caboclo.
– Zernike, Zernike – falou, cutucando o peito com o indicador – Zernike!
– Aquimã, Sinique! – falou o caboclo triunfante, depois de uma pausa para pensar.
O holandês aprovou, baixando e levantando a cabeça com toda a força. O caboclo riu mais aberto e passou a indicar um e outro ritmamente, Aquimã, Sinique, Aquimã, Sinique, Aquimã…O holandês riu e as mulheres e as meninas riram, quase cantaram uma cantiga (VPB, p. 52).
 
 
A antropofagia neste texto ocorre com a língua, pois os nomes em holandês são deglutidos pelo caboclo, que ao assimilá-los os transforma em nomes diferentes pela sonoridade. Esta sonoridade produz um ritmo que parece uma cantiga. Há dois processos antropofágicos o lingüístico e o cultural, pois de nomes holandeses o brasileiro Capiroba consegue produzir não só outros nomes, mas também uma identidade cultural quanto à música. Outra assimilação cultural ocorre com Budião, quanto o mesmo assimila os costumes dos gaúchos, após lutar com eles na Guerra dos Farrapos. Assim ele passa a beber chimarrão e leva este costume para Itaparica.
Os diferentes tipos de antropofagia fazem parte de um contexto maior, no qual o narrador parodia a teoria da antropofagia modernista, pois ele demonstra que antes destes descobrirem a antropofagia, ela já existia na própria formação do brasileiro.
Segundo Hans Staden, a antropofagia não era executada como um ato de comer por fome, mas sim comer como forma de vingança. Portanto a vingança é a formula revolucionária da antropofagia da obra ubaldina que consome as pilastras da antropofagia oswaldiana demonstrando que a antropofagia é uma tendência natural. Um exemplo é que a primeira comida de Capiroba é o padre que o subjugou.
A antropofagia em Viva o povo brasileiro consome vários textos antropológicos e historiográficos produzidos para definir o povo brasileiro. Este processo antropofágico da criação literária é similar à paródia, pois pega um texto original, deglute-o e depois se opõe a ele. Em conseqüência o resultado é que nessa obra a produção de um texto acaba parodiando outro texto dentro do enredo. É uma sucessão de textos deglutindo textos.
Ao parodiar os textos internos e externos o narrador desta obra cria um espaço no qual antropofagia é estrutural, pois a realidade sócio-cultural das três famílias sofre um processo de assimilação do velho e de criação de uma nova forma de ser brasileiro nesse país. E para demonstrar este processo, o narrador utiliza a canastra, que vai engolindo o conhecimento e a história da Irmandade do povo brasileiro. No final do enredo a terra se abre e engole a canastra e tudo o que está ao seu redor, sobrando apenas o Espírito do Homem que é a idéia da identidade nacional do povo brasileiro.
A antropofagia paródica nesta obra somada aos recursos de carnavalização desmistifica a idéia de que os índios antropofagiavam o branco. E que o brasileiro é antropófago só pelo lado índio. Na verdade a antropofagia faz parte de todos os povos e todos eles para se formarem passaram por um período de deglutição, assimilação e acomodação das características étnicas, culturais, literárias, econômicas de povos que lhes deram origem. A antropofagia, portanto, é bilateral.
O narrador em Viva o povo brasileiro demonstra como a formação do povo brasileiro quanto a miscigenação ocorreu de forma igualitária quanto a carga genética, contudo a carga cultural prevaleceu a da mãe negra ou índia que criou as próximas gerações de acordo com seus valores. É ela a mulher que demarca seu território e se torna responsável pela formação da identidade nacional mestiça, crioula e religiosa do brasileiro.
 
5 – Síntese
 
O povo brasileiro, quem é ele? Segundo Darcy Ribeiro, seria um povo formado a partir da miscigenação entre índios e brancos, formando o mameluco, que por sua vez misturou-se com os negros. O negro, segundo ele, tinha sido destituído de sua terra e jogado numa terra estranha, onde ele procuraria a sua identidade, que perdera ao sair da África. Ele seria, destes elementos, o que mais incorporaria a procura de uma identidade nacional que o aproximasse desta nova terra.
O brasileiro, étnica e culturalmente, é a mistura de três raças que século XIX estava configurada. O branco europeu introduzido nos século XIX e XX funcionou não como fator de branqueamento da raça, mas sim foi um elemento que assimilou e assimila as outras culturas tanto dos outros brancos que para cá vieram como do brasileiro nato.
Ser brasileiro não é apenas uma questão de etnia e sim uma questão cultural. Um indivíduo torna-se brasileiro pela assimilação cultural e não apenas por nascer de uma etnia brasileira.
No romance Viva o povo brasileiro, a introdução de Patrício Macário ao povo brasileiro constitui um momento de revelação. No livro o narrador usa este instante da vida do personagem para demonstrar que ser brasileiro é uma questão sentir as coisas sem, contudo, vê-las. Dessa forma, a Irmandade do povo brasileiro é algo que intriga os personagens, pois eles fazem parte dela ao mesmo tempo buscam respostas para a sua existência.
A Irmandade do povo brasileiro é uma metáfora da identidade nacional criada pelo narrador para responder aos que se perguntam o que é a identidade nacional do brasileiro e como essa se diferencia da de outros povos. O narrador do romance, para responder quem é o brasileiro, cria uma personagem mítica: a alminha brasileira, que é a essência da brasilidade. Se esta essência é brasileira, logo o povo como um todo o é. Desta forma podemos dizer que o romance responde a questão que intriga antropólogos e historiadores, quanto ao que é o povo brasileiro a partir de uma visão antropofágica da formação do povo brasileiro.
O texto ficcional antropofagia os textos e as idéias destes estudiosos, bem como de outros produzindo um texto capaz de identificar o povo brasileiro através da tese defendida por João Ubaldo nesta obra. Para tanto, o narrador divide esta tese em 18 capítulos, que demonstram brasileiro sob o véu da mestiçagem. Ao final desta obra não há um único personagem que não seja mestiço. E por mais que alguns personagens como Bonifácio Odulfo e Henriqueta queiram se descolar desta teia mestiça, jamais eles conseguem, pois há sempre um índio ou um negro na árvore genealógica do brasileiro.
O contingente humano de brasileiros no Brasil é formado por um grupo de elementos criolos, mazombos, mamelucos, cafuzos, enfim um aglomerado miscigenado que criou uma maneira de ser que é um pouco do ser Leléu, um pouco de Maria da Fé, um pouco de Bonifácio Odulfo e um pouco de Macário. Esses tipos brasileiros no romance se repetem reforçando a definição do povo brasileiro através deles. Assim Capiroba, Vu, Maria da Fé, Vevé, Satlin José são o Brasil revolucionário que sobrevive ao se identificam com o povo brasileiro. Este grupo está em oposição às elites formadas por personagens como Hamlet, Bonifácio Odulfo e Eulálio Henrique. Estes dois tipos embora antagônicos se completam na definição do brasileiro como uma etnia que vive numa luta entre as classes sociais, contudo têm em comum alguns traços quanto a maneira de ser do brasileiro.
A obra definiu o povo brasileiro através da essência da brasilidade. Essa não depende da etnia e sim de aceitar ou não por parte do indivíduo as marcas que o aproximam da brasilidade.
Quem quer se apossa dela e a utiliza com insígnia, quem não a quer a repele, contudo a essência do povo brasileiro o pega de alguma forma. Isto porque a brasilidade é cativante e atrativa mesmo para aqueles que a negam.
 
BIBLIOGRAFIA
 
BURKE, Peter. A escrita da História: novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1992.
LEENHARDT, Jacques. “A construção da identidade pessoal e social através da história e da literatura”. In: LEENHARDT, J.; PESAVENTO, S. J., orgs.Discurso histórico e narrativa literária. Campinas: UNICAMP, 1998, p 17-40.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2a ed. São Paulo: Schwarcz, 2000.
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. 4a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
 
 
 
 
 

 


[1] Todas as citações ao romance (1984) serão feitas como VPB.
[2] RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2a ed. São Paulo: Schwarcz, 2000, p. 246, 273, 453.
[3] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5a ed., São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 40.
[4] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5a ed. São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 65.




Bio fornecida pelo palestrante.

A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE – Eliane Maria de Oliveira Giacon




Resumo:
No romance Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro, define o povo brasileiro através da essência da brasilidade, que não depende de uma etnia e sim do ato de aceitar ou não por parte do indivíduo as marcas que o aproximam da brasilidade. Brasilidade é, antes de tudo, uma questão de discurso, cuja fundamentação pode se observada nas apropriações de tipos do povo brasileiro, que João Ubaldo incorpora na sua narrativa. PALAVRAS-CHAVES: brasileiro – povo – discurso ABSTRACT: In his novel Viva o povo brasileiro (1984) João Ubaldo defines the Brazilian people as an essence, i.d., as a Brazilian identity. The latter does not depend on race – on being white European or on being African black – but on the act of individual acceptance on the part of the individual of the marks that approach her/him to this “Brazilianship.” Such a “Brazilianship” consists of a discourse which is based on the appropriations of the different physical types existing in Brazil, and which João Ubaldo introduces in his narrative. KEY-WORDS: Brazilian – people – speech
Texto:

 

A IMAGEM DE UM POVO VIA ROMANCE

 

Eliane Maria de Oliveira Giacon

 
1 –O romance Viva O Povo Brasileiro [1]e a identidade nacional
 
A identidade é uma marca registrada em cada indivíduo. Uma marca que diferencia alguém em relação a outras pessoas. E para alguém se distingui de outro necessita nascer com características específicas ou ainda ele pode criar situações, durante sua vida, que o façam diferente em relação a algum outro biótipo ou filosofia de vida.
Assim, um indivíduo nasce moreno com olhos escuros, sobrancelha larga, lábios acentuados a pele macia. Este biótipo o diferencia dos outros e o aproxima de um determinado grupo. E durante a sua vida ele cria condições de ser trabalhador, estudioso e alegre, logo esse indivíduo poderá se identificar com grupos diversos como a família, o ambiente de trabalho e o país onde vive.
E quanto à essência da identidade? Ela não é individual e sim coletiva. Logo, as pessoas de um grupo precisam ter o mesmo biótipo e a mesma filosofia de vida para se identificarem em relação a grupos diferentes.A identidade vista desta forma é o que diferencia um grupo em relação a outro e o aproxima indivíduos que encontram algo em comum.
A identidade é um laço que une o indivíduo ao seu grupo e por sua vez o diferencia de grupos diversos. Assim há identidade entre associação de bairro, grêmios, gangues e toda manifestação social na qual o homem está inserido.
E se este grupo ocupasse um mesmo território sob um mesmo estado e sob um regime político que o agrupasse a outros. Neste caso a identidade seria nacional.E se os indivíduos não iguais num mesmo território, pois os seres humanos são diferentes em biótipo e caráter. Estes grupos são compostos de biotipos e caracteres diferentes num mesmo território. Poder-se-ia dizer que há identidade nacional neste país?  Neste caso o que os identifica não é somente o fator étnico, mas sim o cultural que faz com que indivíduos diferentes adotem ou não determinados padrões de ser e de agir em sociedade.
A etnia e o fator cultural determinam a formação de determinadas denominações classificando os povos em italianos, franceses, alemães, mexicanos e brasileiros. A identidade nacional destes últimos é algo bem singular e fez com que um povo-nação abrigasse um estado político, no qual o processo de mestiçagem os levou a formarem uma macroetnia de brasileiros mestiços resultantes de diversos processos de miscigenação. Estes processos não começaram aqui no Brasil, mas  desde a Península Ibérica, pois os nossos colonizadores devido a proximidade com a África e com a Ásia não trouxeram pra cá um elemento branco puro, mas sim um  fruto de séculos de miscigenação.
No Brasil este processo se concretizou com índios, nórdicos (holandeses) e negros. No século XIX estava configurado o biótipo do brasileiro.
Esse processo de miscigenação com base nos séculos XVII e no XIX está presente no romance, porque este traz como temática a evolução deste povo e a identidade nacional, que fez com que um grupo de mestiços se cruzasse tanto no plano étnico quanto no espiritual, através da sucessivas encarnações da alminha brasileira.
Os três grupos discutem a identidade nacional através de discursos que vão do catedrático até o popular. Todos tentam demonstrar o que e é povo brasileiro tanto exortando as qualidades positivas desse povo quanto o descrevendo como a escória do mundo.
A questão da identidade nacional neste romance é discutida com certo grau de ironia em alguns textos se contrapondo ao tom sério da narrativa em outros. Assim, o narrador da obra Viva o povo brasileiro dessacraliza certas idéias sobre a brasilidade, colocando a fala dos personagens em ambientes deteriorados. Um exemplo ocorre na reunião da família de Ioiô Lavínio e os seus filhos. Eles discutem sobre a identidade do povo brasileiro a partir dos efeitos da colonização ibérica.
 
– Eu não sou careta! Eu não sou velho careta. Se há um velho que não pode ser chamado de careta, sou eu.
(…).
– Não é nada disso, paizão… Mas a Guiana Holandesa não foi colonizada pelos holandeses?…
– … Nada desse papo de inferioridade, isso não tá com nada. Tem que sacar a estrutura.
– Você conhece a história de Deus criando o mundo e dando tudo ao Brasil e aí um anjo assistente estranha e aí Deus diz que ele espere até ver o povo filhadap.., o povo safado que ele ia botar aqui? Disse Domingos pondo o braço no ombro da cunhada e notando que ela estava sem sutiã, com os peitinhos arrebitados por baixo da bata encardida.
–  (Ioiô Lavínio mais a frente diz)… você não tem um baseadozinho aí, não? (VPB, p. 625).
 
A identidade neste caso é discutida a partir da colonização. Para alguns se não fôssemos colonizados por iberos seríamos melhores, outros acham que não. Outros ainda consideram que os iberos tinham pior estrutura que os nórdicos.
A cena do cunhado bolinando a cunhadinha referenda a classificação que o autor empresta ao povo brasileiro, pois se este povo era safado, ele se identificava com este povo pelos seus atos.
As outras discussões no romance ocorrem através da inserção de textos teóricos sobre a identidade nacional em pontos estratégicos, a fim de que estes junto ao enredo fictício provoquem no leitor uma reação de estranhamento que fará com que ele analise a questão da identidade nacional e se identifique ou não com o povo brasileiro.
Uma discussão entre Patrício Macário e Bonifácio Odulfo a respeito das elites que governam o Brasil e o povo brasileiro no momento em que eles estão reatando a amizade após anos de afastamento será exposta abaixo para podermos observar as diferentes posições dos dois irmãos.
 
– …Você não conhece nação forte sem um governo forte, não forte em que o povinho, os desqualificados, tenham voz ativa.
– A que povinho você se refere (responde Patrício)? Para você todos são povinho, exceto quatro ou cinco gatos pingados que você julga estarem a sua altura. Que povinho. Porque todos estes que você se refere com desprezo são o povo, brasileiro (VPB, p. 584).
 
Quando Maria da Fé aprisiona Patrício Macário logo após a morte de Leléu ela lhe explica o que é povo brasileiro e nega a autoridade da República, pois povo segundo ela:
 
– O povo brasileiro não deve nada ninguém, tenente – disse ela. – Ao povo é que vocês devem, sempre deveram, sempre continuarão devendo. (…) o povo brasileiro somos nós (…) nós é que somos vocês, vocês não são nada sem nós (…) O poder do povo existe, ele persistirá (Ver VPB, p. 563-55).
 
 
Os dois textos se opõem, porque pertencem a classes sociais diferentes. Um é da elite e outro do povo; contudo, eles têm a mesma temática, pois explicam que o brasileiro é uma identidade pronta e as microetnias e as elites econômicas estão isoladas e não representam a nacionalidade brasileira.
Segundo Maria da Fé,  Nós somos vocês. Com estas palavras ela quer dizer que aqueles que se dizem os brasileiros na verdade não o são, enquanto o povinho de Bonifácio Odulfo é o povo brasileiro a quem por direito de identidade nacional deve ser considerado um brasileiro.
Após a leitura desta obra, podemos observar que o gênero novo romance histórico é uma leitura agradável, além de discutir assuntos que interessam tanto à história quanto à literatura. Nesta obra, além destes aspectos, abre-se uma nova perspectiva do novo romance histórico de pôr em questão as problemáticas sociológicas de um povo.
 
2 – Quem é o povo brasileiro?
 
Para responder a esta pergunta, que é aparentemente tão simples, foram gastas muitas horas de estudo e de leitura por antropólogos, historiadores, sociólogos e romancistas. Esses pensadores lançaram mão e ainda se utilizam de fontes históricas, de textos literários, da etnia, da sociologia e da cultura brasileira a fim de responder a esta pergunta. As fontes históricas servem de linha mestra para situar em qual época as pessoas começaram a se misturar e como e em quais circunstâncias essa miscigenação ocorreu.
A sociologia auxilia esta resposta com dados a respeito da formação da sociedade brasileira após o cruzamento entre os elementos branco, negro e índio, desde colonização até os dias de hoje. Os textos literários das escolas dos primeiros séculos: Literatura Informativa e Barroco, fornecem dados como os cronistas e poetas da época viam a miscigenação
A cultura do povo brasileiro é um espelho da miscigenação étnica. Através dela é possível verificar como a carga cultural das matrizes étnicas dos brasileiros: índios, brancos e negros permanecem até hoje na cultura e no modo de ser do brasileiro. Além disso, observa-se o ato antropofágico da cultura brasileira, que deglutiu os costumes de seus formadores e produziu, em seu meio, características culturais e um modo de ser do brasileiro. Esse modo de ser em composto com um gosto pela música, um certo grau de malandragem, uma adaptabilidade extrema e religiosidade mística.
Respondendo a essa questão, retiramos três citações dos seguintes livros: de um antropólogo, Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995); de um historiador, Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1947), e do próprio romancista aqui examinado, João Ubaldo Ribeiro, Viva povo brasileiro (1984).
 
 
Ocorreu o extraordinário, nos fizemos um povo-nação, englobando todas aquelas províncias ecológicas, numa só entidade cívica e política. (…) Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variados contingentes humanos? A fusão de todos eles em nós já se completou, está em curso, ou jamais se completará? Estamos condenados a ser para sempre um povo multicolorido no plano racial e cultural? Haverá alguma característica distintiva dos brasileiros como povo, feito de gente vinda de toda parte? Todas essa argüições têm respostas claras encontradas na ação concreta. (…) Nós brasileiros… somos um povo em ser , impedindo de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem nunca foi crime… Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova entidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na busca de seu destino… de fato uma nova romanidade, uma nova romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro.[2]
A experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas (…). No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecera alguns dos nossos patriotas, é que ainda nos associa a península Ibérica, a Portugal (…) Podemos dizer que dela nos veio a forma atual de nossa cultura: o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma.[3]
 
(…) dizer alguma coisa sobre o povo brasileiro (…), pois que aprendera muito com o povo brasileiro, sabia o povo brasileiro, pois aprendera muito com o povo brasileiro (disse Patrício Macário) (…) o povo brasileiro não está só. Não porque tenha aliados, pois só quem tem aliados são os governantes…mas o Espírito do homem também existe (…) o povo tem uma  cabeça que transcende a cabeça dos indivíduos, que não poderá ser exterminado (…) (VPB, p. 654).
 
Se o povo brasileiro é uma mistura de raças regida pela ninguendade, ou se no povo brasileiro prevalece uma etnia, a ibérica, ou se por fim o povo brasileiro é regido pelo Espírito do Homem não podemos selecionar apenas uma dessa idéias. Mas podemos analisar estas três idéias e a partir delas tentam definir o povo brasileiro.
A terceira definição, de  João Ubaldo, se opõe às outras três. Ao primeiro caso, porque ele tenta provar que o povo brasileiro não vivia na ninguendade sem saber o que era, mas sim ciente de si através de duas formas mística: uma a canastra que unifica a Irmandade do Povo Brasileira e outra a alminha brasileira. A etnia negra e índia unem as duas formas místicas, e assim são capazes de encontrar os caminhos da alguendade, no qual encontram forças para serem o povo brasileiro.
O povo brasileiro, de forma mítica ou real, é um campo de forças antagônicas que se distendem ao extremo sem, contudo, se separarem, pois ser brasileiro não é uma definição de etnia. Por não ser uma questão apenas de etnia, ocorre que no Brasil muitos descendentes de povos asiáticos ou europeus têm a necessidade de dizerem que não são brasileiros. Apesar de todos os seus esforços, eles não conseguiram impedir a tonalidade brasileira que os tinge. Embora de olhos puxados ou de cabelos brancos com espigas de milho, eles são brasileiros e não retiraram essa marca deles, pois ser brasileiro não é apenas um registro de nascimento, mas sim uma forma de ver o mundo de baixo para cima.
Essa forma cria indivíduos de duas categorias: uma dos que se acomodam em ser massa de manobra e outra que luta para vencer esta ponte que os separa dos mais favorecidos seja pela malandragem ou pela luta ideológica e política. Portanto ser brasileiro não é uma questão de quere ou não ser, mas de existir dentro de um contexto de brasilidade que unifica as pessoas.
 
3 – A identidade nacional via paródia
 
O narrador de Viva o povo brasileiro discute temas sobre a identidade nacional utilizando a paródia. Se a paródia é a produção de um texto baseado em um outro que ele nega, logo os temas nesta obra funcionam como uma grande paródia da brasilidade.   Enquanto ninguendade é uma forma do brasileiro se identificar com o mundo por não se definir enquanto povo, o romance Viva o povo brasileiro (1984) demonstra que o povo brasileiro, através da Irmandade e da Canastra no século XIX, já tinha consciência de sua existência política e cultural.
Outra forma ocorre com a abordagem de Darcy Ribeiro quando este afirma que os homens negros e índios do Brasil, durante a fase colonial não tinham mulher ao seu alcance. O romance parodia tal afirmação, pois Capiroba, por falta de uma, tinha três. Turíbio Cafubá era reprodutor de muitas mulheres, entre elas Roxinha, com quem tivera Vevé, e isso quando ele já havia passado dos 60 anos. O romance, portanto, parodia vários temas da identidade. A partir daqui citaremos alguns que estão no romance e se referem aos outros dois livros já citados na parte 2.
 
O indivíduo isolado – (…) pode adaptar-se a tais regiões, mas a raça, essa decisivamente não; (…) ao contrário do que sucedeu com os holandeses, o português entrou em contato íntimo e mais freqüente com a população de cor.[4]
 
No romance, o indivíduo Zernike não se adapta ao meio tropical e amaldiçoa a companhia de Sckopp, que o trouxera para o Brasil. Ele estava sozinho com Ejikman e não se adaptou ao meio hostil. E dizia:  “(...) como engajados, se fomos abandonados aqui à nossa sorte (…)  Banckert zarpou com todos os seus navios? Engajados em quê, em guarnecer esta nesga do inferno para a Companhia” (VPB, p. 46).
Quanto à formação do povo brasileiro e sua identidade nacional, o narrador de Viva o povo brasileiro,  além de parodiar textos como acontece com este acima, ele também parodia textos diversos dentro da própria obra dependendo de quem fala. Hamlet, por exemplo, diz que o Brasil “jamais se tornará um país de negros, pardos e bugres, não se transformará num valhacouto de inferiores” (VPB, p. 475). Numa outra parte mais a frente Hamlet o amaldiçoa a esposa por ela não ter seguido a receita de passar cuspe, em jejum todos os dias no nariz do filho Patrício Macário para ele  ficar com o nariz fino e não o chato de negros. Para a desgraça de Hamlet a mestiçagem está em sua casa.
Em outras partes do texto o narrador parodia os temas quanto a identidade nacional produzindo um texto que decompõe outros textos, cujos temas são a identidade nacional. Isto é feito de forma fragmentada, de acordo com o tema abordado num determinado capítulo. Os personagens são articulados a fim de exporem as idéias não só da época em que vivem como de outros séculos quanto à brasilidade. Assim no século XVII Capiroba através de seus atos antropofagia não só a carne humana, mas também as ideais que virão no futuro sobre a identidade do brasileiro.
Ele tem consciência de sua superioridade em relação ao homem branco. Por isso o considera um animal e assim o trata. Em determinado momento ele descobre que os sons produzidos por aqueles bichos podem ser sons de pessoas inteligentes.
A identidade nacional é demonstrada pelo narrador através do romance quando este sublinha as falas dos personagens através dos seus atos e de sua história, de tal forma que todos eles se identifiquem direta ou indiretamente com o povo brasileiro. Não há problema no fato de que o personagem não se identifique na obra com o povo brasileiro, pois o leitor o identifica no decorrer do enredo.
 
4 – A antropofagia via paródia
 
A paródia da antropofagia articula o ato de comer carne humana, a antropofagia literal com as outras antropofagias: a antropofagia étnica, a econômica, a lingüística, a cultural e a literária.
Essas variantes antropofágicas apresentadas em Viva o povo brasileiroconstituem uma forma de apresentar identidade nacional, porque a essência do brasileiro antropofagia o que está a sua volta. Após a deglutição o que sobre são partes de um todo que formam a identidade nacional do povo brasileiro.
A primeira antropofagia ocorre com Capiroba deglutindo a carne de um homem branco. Essa carne é comida por um elemento vindo da mistura de  uma índia e um negro. Esta antropofagia cultural se efetiva com a absorção das receitas de culinária ensinadas às mulheres pelos padres da Redução. Estas receitas sevem para as mulheres de Capiroba prepararem as iguarias com a carne dos padres.
A partir daí percebe-se que a antropofagia é um sistema autônomo. Sistema este que ao mesmo tempo em parece que um elemento está sendo absorvido por outro, na realidade é o outro que o consome. Um exemplo é a miscigenação entre a comida Sinique e o comedor Vu, pois ele que seria comida se cruza com ela e a principal característica dele: os olhos claros passam para as gerações futuras.
O texto abaixo mostra o encontro destes dois mundos e a assimilação da língua de Sinique por Capiroba.
 
– Eijkman, Okeman – falou quase sorrindo também e tentando imitar ao caboclo.
– Zernike, Zernike – falou, cutucando o peito com o indicador – Zernike!
– Aquimã, Sinique! – falou o caboclo triunfante, depois de uma pausa para pensar.
O holandês aprovou, baixando e levantando a cabeça com toda a força. O caboclo riu mais aberto e passou a indicar um e outro ritmamente, Aquimã, Sinique, Aquimã, Sinique, Aquimã…O holandês riu e as mulheres e as meninas riram, quase cantaram uma cantiga (VPB, p. 52).
 
 
A antropofagia neste texto ocorre com a língua, pois os nomes em holandês são deglutidos pelo caboclo, que ao assimilá-los os transforma em nomes diferentes pela sonoridade. Esta sonoridade produz um ritmo que parece uma cantiga. Há dois processos antropofágicos o lingüístico e o cultural, pois de nomes holandeses o brasileiro Capiroba consegue produzir não só outros nomes, mas também uma identidade cultural quanto à música. Outra assimilação cultural ocorre com Budião, quanto o mesmo assimila os costumes dos gaúchos, após lutar com eles na Guerra dos Farrapos. Assim ele passa a beber chimarrão e leva este costume para Itaparica.
Os diferentes tipos de antropofagia fazem parte de um contexto maior, no qual o narrador parodia a teoria da antropofagia modernista, pois ele demonstra que antes destes descobrirem a antropofagia, ela já existia na própria formação do brasileiro.
Segundo Hans Staden, a antropofagia não era executada como um ato de comer por fome, mas sim comer como forma de vingança. Portanto a vingança é a formula revolucionária da antropofagia da obra ubaldina que consome as pilastras da antropofagia oswaldiana demonstrando que a antropofagia é uma tendência natural. Um exemplo é que a primeira comida de Capiroba é o padre que o subjugou.
A antropofagia em Viva o povo brasileiro consome vários textos antropológicos e historiográficos produzidos para definir o povo brasileiro. Este processo antropofágico da criação literária é similar à paródia, pois pega um texto original, deglute-o e depois se opõe a ele. Em conseqüência o resultado é que nessa obra a produção de um texto acaba parodiando outro texto dentro do enredo. É uma sucessão de textos deglutindo textos.
Ao parodiar os textos internos e externos o narrador desta obra cria um espaço no qual antropofagia é estrutural, pois a realidade sócio-cultural das três famílias sofre um processo de assimilação do velho e de criação de uma nova forma de ser brasileiro nesse país. E para demonstrar este processo, o narrador utiliza a canastra, que vai engolindo o conhecimento e a história da Irmandade do povo brasileiro. No final do enredo a terra se abre e engole a canastra e tudo o que está ao seu redor, sobrando apenas o Espírito do Homem que é a idéia da identidade nacional do povo brasileiro.
A antropofagia paródica nesta obra somada aos recursos de carnavalização desmistifica a idéia de que os índios antropofagiavam o branco. E que o brasileiro é antropófago só pelo lado índio. Na verdade a antropofagia faz parte de todos os povos e todos eles para se formarem passaram por um período de deglutição, assimilação e acomodação das características étnicas, culturais, literárias, econômicas de povos que lhes deram origem. A antropofagia, portanto, é bilateral.
O narrador em Viva o povo brasileiro demonstra como a formação do povo brasileiro quanto a miscigenação ocorreu de forma igualitária quanto a carga genética, contudo a carga cultural prevaleceu a da mãe negra ou índia que criou as próximas gerações de acordo com seus valores. É ela a mulher que demarca seu território e se torna responsável pela formação da identidade nacional mestiça, crioula e religiosa do brasileiro.
 
5 – Síntese
 
O povo brasileiro, quem é ele? Segundo Darcy Ribeiro, seria um povo formado a partir da miscigenação entre índios e brancos, formando o mameluco, que por sua vez misturou-se com os negros. O negro, segundo ele, tinha sido destituído de sua terra e jogado numa terra estranha, onde ele procuraria a sua identidade, que perdera ao sair da África. Ele seria, destes elementos, o que mais incorporaria a procura de uma identidade nacional que o aproximasse desta nova terra.
O brasileiro, étnica e culturalmente, é a mistura de três raças que século XIX estava configurada. O branco europeu introduzido nos século XIX e XX funcionou não como fator de branqueamento da raça, mas sim foi um elemento que assimilou e assimila as outras culturas tanto dos outros brancos que para cá vieram como do brasileiro nato.
Ser brasileiro não é apenas uma questão de etnia e sim uma questão cultural. Um indivíduo torna-se brasileiro pela assimilação cultural e não apenas por nascer de uma etnia brasileira.
No romance Viva o povo brasileiro, a introdução de Patrício Macário ao povo brasileiro constitui um momento de revelação. No livro o narrador usa este instante da vida do personagem para demonstrar que ser brasileiro é uma questão sentir as coisas sem, contudo, vê-las. Dessa forma, a Irmandade do povo brasileiro é algo que intriga os personagens, pois eles fazem parte dela ao mesmo tempo buscam respostas para a sua existência.
A Irmandade do povo brasileiro é uma metáfora da identidade nacional criada pelo narrador para responder  aos que se perguntam o que é a identidade nacional do brasileiro e como essa  se diferencia da de outros povos. O narrador do romance, para responder quem é o brasileiro, cria uma personagem mítica: a alminha brasileira, que é a essência da brasilidade. Se esta essência é brasileira, logo o povo como um todo o é. Desta forma podemos dizer que o romance responde a questão que intriga antropólogos e historiadores, quanto ao que é o povo brasileiro a partir de uma visão antropofágica da formação do povo brasileiro.
O texto ficcional antropofagia os textos e as idéias destes estudiosos, bem como de outros produzindo um texto capaz de identificar o povo brasileiro através da tese defendida por João Ubaldo nesta obra. Para tanto, o narrador divide esta tese em 18 capítulos, que demonstram brasileiro sob  o véu da mestiçagem. Ao final desta obra não há um único personagem que não seja mestiço. E por mais que alguns personagens como Bonifácio Odulfo e Henriqueta queiram se descolar desta teia mestiça, jamais eles conseguem, pois há sempre um índio ou um negro na árvore genealógica do brasileiro.
O contingente humano de brasileiros no Brasil é formado por um grupo de elementos criolos, mazombos, mamelucos, cafuzos, enfim um aglomerado miscigenado que criou uma maneira de ser que é um pouco do ser Leléu, um pouco de  Maria da Fé, um pouco de Bonifácio Odulfo e um pouco de Macário. Esses tipos brasileiros  no romance se repetem reforçando a definição do povo brasileiro através deles. Assim Capiroba, Vu, Maria da Fé, Vevé, Stalin José são o Brasil revolucionário que sobrevive ao se identificam com o povo brasileiro. Este grupo está em oposição às elites formadas por personagens como Hamlet, Bonifácio Odulfo e Eulálio Henrique. Estes dois tipos embora antagônicos se completam na definição do brasileiro como uma etnia que vive numa luta entre as classes sociais, contudo têm em comum alguns traços quanto a maneira de ser do brasileiro.
A obra definiu o povo brasileiro através da essência da brasilidade. Essa não depende da etnia e sim de aceitar ou não por parte do indivíduo as marcas que o aproximam da brasilidade.
Quem quer se apossa dela e a utiliza com insígnia, quem não a quer a repele, contudo a essência do povo brasileiro o pega de alguma forma. Isto porque a brasilidade é cativante e atrativa mesmo para aqueles que a negam.
 
BIBLIOGRAFIA
 
BURKE, Peter. A escrita da História: novas perspectivas; tradução de Magda Lopes – São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1992.
LEENHARDT, Jacques. “A construção da identidade pessoal e social através da história e da literatura”. In: LEENHARDT, J.; PESAVENTO, S. J., orgs.Discurso histórico e narrativa literária. Campinas: UNICAMP, 1998, p 17-40.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Schwarcz, 2000.
RIBEIRO, João Ubaldo; Viva o povo brasileiro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1984.
 
 
 
 
 

 


[1] Todas as citações ao romance (1984)  serão feitas como VPB.
[2]  RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Schwarcz, 2000, p. 246, 273, 453.
[3] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5ª ed., São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 40.
[4] HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE. Raízes do Brasil. 5ª ed. São Paulo: Schwarcz, 1998, p. 65.




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