Tereza Ventura[1]
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
“Todos os povos incultos cantam e agem, cantam sobre o que fazem e, assim, cantam histórias. Suas canções são o arquivo de seus povos, o tesouro de sua ciência e religião.”
HERDER
“Não vale mais a sentença clássica de Euclides: O sertanejo não é antes de tudo, um forte. É antes de tudo um servo da mais primitiva condição, é um fraco e um passivo.”
GLAUBER ROCHA
Este artigo é baseado em textos e relatos escritos por Glauber, durante viagens e pesquisas no sertão do Brasil entre os anos de 1959 e 1963. Esse material serviu de base para obra fílmica Deus e o Diabo na Terra do Sol. Glauber fundamenta sua abordagem da nação na tradição oral e no relato de nativos com os quais o cineasta teve contato pessoal. O autor dramatiza a mitologia popular sertaneja em personagens reais como cangaceiros, beatos, camponeses e matadores de modo a mostrar sua visão de mundo e colocá-los como intercessores de sua narrativa.
Os textos escritos à parte do roteiro oficial de Deus e o Diabo nos mostram que o sertanejo desautoriza uma expectativa revolucionária e não se afirma como força cultural da nação. Glauber não esconde o pessimismo em relação ao destino do país. A nação se compõe como tragédia no gesto, ao mesmo tempo, crítico e messiânico em que a própria afirmação da identidade é negada a favor da promessa redencionista de um mundo fundado na fé. Por outro lado, a nação se encontra a margem da história, ausente e sem vínculos com um projeto nacional. O autor apresenta uma terceira via de lidar com o nacional nem o conservadorismo nostálgico e paternalista presente no regionalismo, nem a instrumentalização política proposta pelo CPC, mas a sua inserção num discurso propriamente artístico e plural, tal como Villa Lobos havia criado na música.
A Ira de Deus se transformou em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Entre a primeira versão em 1959 e a última versão do texto e roteiro, Glauber realizaria várias pesquisas no sertão. Glauber busca no sertão os rastros de um imaginário nativo que quer expressar em sua obra fílmica. Tratava-se de contribuir para a invenção de um povo-nação que não estaria presente na cultura dominada.
O sertão deserto de Cocorobó lembra as histórias que o avô contava para o Glauber menino em Vitória da Conquista. Naquele sertão, o diabo se mistura à vida do povo, “espelhando sua revolta diante do leito seco dos rios e do sol do meio dia”. Glauber estava na fronteira com o Sertão do Bendengó, por onde passou Antônio Conselheiro.
“Neste Bendengó, os homens andam de mãos dadas com o diabo, mulheres e meninos ciscam como cabras e galinhas as migalhas dos motoristas de caminhão… cenário de guerra de Canudos.” (ROCHA: dez/1963: 14)
Na narrativa de Glauber, as ruínas da guerra ainda se misturam à memória selvagem dos sobreviventes. A natureza se exalta, e no momento da fome, mulheres e meninos se assemelham aos animais. A despeito da miséria e da animalidade, a fome reflete os mitos e enigmas, a partir dos quais, os nativos dissimulam a consciência da dominação e a indignidade de sua condição. Será pela denúncia e pela inversão dessa cultura que Glauber vai reconstruir uma idéia de nação. O autor buscava na cultura sertaneja elementos representativos de um sentimento de nação e investia sua pesquisa na tradição oral remanescente no relato desses agentes.[2] Centelhas de uma história, escavações de ruínas que Glauber buscava tornar presente a partir da sua obra. A distância histórica do sertão em relação à modernidade torna o discurso desses personagens um signo alegórico que o autor reconstrói em sua obra2. Tio Ciríaco, José, Maria Mamede e Major Rufino, verbos incontidos que anunciam para Glauber a memória trágica do caos, da guerra.
Glauber buscou captar e criar imagens que ficaram, reminiscências de uma cultura orgânica que não se dissolveram na imposição do colonialismo e que revelam um modo de vida desvinculado do processo de colonização e modernização do ocidente. Essa cultura, esse universo de representações, crenças e costumes, se tece como fonte de utopia porque possui como virtualidade a incompatibilidade com o complexo colonial que a reprime. Glauber procurava registrar em sua narrativa a essência de uma cultura que para ele seria o substantivo de sua nação porque intocada pelo processo civilizatório. Mas o autor nos faz entrever que esta cultura não desafia a dominação imposta pelo processo racionalizador do ocidente. Sua narrativa não esconde o pessimismo em relação ao destino do país. A utopia se compõe como tragédia no gesto, ao mesmo tempo, crítico e messiânico em que a própria afirmação da identidade é negada a favor da promessa redencionista de um mundo fundado na fé. O importante para Glauber era abordar essa cultura por dentro, a partir do discurso concreto dos personagens.
Glauber descreve Maria Mamede: “suja, cega e sua filha semilouca, magra, esfarrapada, olhos fundos” (ROCHA: dez/1963: 14). A imagem da violência da fome, de um Brasil esquecido, ausente, que se apresenta, a partir do testemunho desses personagens, como um discurso reconstrutor das ruínas de um passado histórico e heróico. Glauber procura na memória dos nativos do sertão, o substrato de sua obra, o imaginário que buscava alcançar.
“De nobrezas destruídas
Vaza-Barris e outros sangues
Destas tristes riquezas
Diluídas pelos mangues
De um campo de memórias
Cocorobó e tantos nomes
De sertões ignorados pelas margens destes homens…”
(ROCHA:dez/1963:14).
A escrita poética alegórica busca trazer de volta os mitos e ritos populares. Apelo poético por uma contra-história que fusionada à imaginação desvele uma cultura nativa irreverente ao processo colonial (BENJAMIN).
No relato de Maria Mamede (VENTURA: 2000, O Bom Jesus, beato) queria fazer o leite correr nos rios e partir o cuscuz nas paredes dos montes. Vestia um camisolão azulado, tinha uma barba grande, vivia cercado de jagunços e não olhava para as mulheres. Não pregava a guerra e nem a revolta. Segundo mestre Ciríaco, as tropas do Bom Jesus eram lideradas pelo comandante João Abade e um negro chamado Pagéu, que era assassino. No entanto, Ciríaco afirma para Glauber que não foram os jagunços que mataram o coronel Moreira César e sim os soldados do próprio governo. O informante Pedro das Ovelhas, primo do cego Zé, apesar de não ter seguido o beato, partilha dos mesmos valores do seu povo:
“ – A fé pode tudo e com ela agente se alevanta do chão.
… O comunismo é pior que as tropas do governo que deu o fogo em Canudos. Mas eu num sei mesmo se é melhor morrer da outra morte do que essa aqui de todo dia em pé, diferente do tempo de D. Pedro II, imperador do Brasil!!! que o comunismo tirou do trono para botar a república pior que trouxe a guerra. Mas eu pergunto se não é melhor se o conselheiro voltar, ir atrás dele e morrer na felicidade da fé? E eu também, bastava Lampião chegar vivo aqui pra eu ir atrás brigar com os macaco…” (ROCHA: Mns: Arquivo TG: nov/1959).
O beato Bom Jesus é descrito como uma figura lendária que materializa a possibilidade da salvação e libertação dos homens da submissão às leis terrenas. Ele não reivindica nem a revolução nem a guerra, nenhuma moral senão uma vida fundada na fé. Só a fé conciliaria os homens com a natureza revoltada e invertida pelo mal, umedecendo e fertilizando a terra santa profanada pelos homens.
A vida comunitária, regida pela fé, renuncia à moral do comunismo e da república para conciliar os homens com sua natureza bárbara, arcaica e mística. Bom Jesus e Lampião seriam, para Glauber, os heróis que materializam a utopia, de fundo arcaico , da libertação. A fé é um substrato moral que não se alia à política, mas a um universo de representações naturais e espontâneas do próprio povo. “É quando Deus se mistura com o Diabo”, pois a tradição terrena é o inferno invisível, a terra, no imaginário de seus nativos, é o próprio reinado do demônio, o que já anuncia o fracasso da utopia, que subsume o profano ao sagrado.
Os cangaceiros Lampião e Corisco também partilhavam dos mesmos valores que o beato, para quem, somente o poder de Deus, era digno da submissão dos homens. O misticismo cristão se volta contra a razão e contra a moral. Seja no verbo fanático de um beato, ou na revolta anárquica e incontida de um cangaceiro. Frutos da terra, Lampião, Antonio das Mortes e Bom Jesus espelham para Glauber, o imaginário nativo do sertão. Há uma tonalidade política no gesto radical do cangaceiro que se expressa num ideal de justiça. Justiça que não se realiza “com rosário, mas no rifle e no punhal”. No entanto, a revolta não se separa do messianismo, Corisco “levanta o cabo do punhal em frente ao rosto, como uma cruz, e diz:
“Eu, José com a espada de Abraão serei coberto, eu, José com o leite da Virgem Maria serei borrificado, eu, José, com o sangue de Cristo serei batizado, eu, José na Arca de Noé serei guardado, eu, José, com as chaves de São Pedro serei fechado onde não me possam ver e ferir, nem matar, nem o sangue do meu corpo tirar.” (SENNA, org.:1982: 285)
A cruz e o punhal evocam na narrativa de Glauber, o retrato místico e profano do cangaceiro.
Antônio das Mortes, o jagunço, é um personagem inspirado nas memórias do Major José Rufino, matador de cangaceiro muito conhecido em Vitória da Conquista com quem Glauber assume ter tido contato pessoal. Para Rufino, a fé em Deus não justifica a submissão dos homens. Só a morte corrige o fanatismo cego e a rebelião anárquica, tanto o beato quanto o cangaceiro, merecem morrer. Rufino mata “sem piedade e por dinheiro”. Como Antônio das Mortes, “Fui condenado nesse destino e tenho que cumprir: sem pena e pensamento. (op. cit.:1982: 287)
Rufino matou Corisco e teria dito a Glauber que o fez contra a própria vontade. No texto de Glauber, Antonio e Corisco são personagens marginais que recusam a moral civilizatória, mas possuem um sentido de justiça que se expressa na violência e na vingança. Antônio é um andarilho do sertão, herói desprovido de compaixão e razão. Responde ao seu destino sem qualquer juízo crítico ou moral, conhece a fatalidade. Diferente de Corisco, Antônio não tem passado ou qualquer referência histórico-cultural, que aponte para um destino.
José Rufino, nos idos de 60, vivia numa fazenda em Jeremoabo. Rufino foi também um jagunço conhecido na região de Vitória da Conquista, onde Glauber nasceu. É Rufino quem descreve Corisco para Glauber,[3]
“ — Como era bonito! As moça tudo endoidava e tem quem diz, porque sabe que Maria Bonita era apaixonada por ele. Olho azul, cabelo louro perfumado e cheio de cruz, São Jorge, botão no rifle, dente branco, dente de macho.”1 (ROCHA:1965)
Depois de atirar em Corisco, que diante da morte exalta a força dos poderes de Deus, Rufino corta-lhe o braço e a cabeça e os envia para a capital numa lata de querosene. Rufino admirava a valentia de Corisco, que o queria em seu bando. Rufino, porém se colocou a missão de exterminar o cangaço no sertão.
Rufino é uma fonte de inspiração para Glauber, que buscou em Antônio das Mortes, uma reconstrução fílmica de seu discurso:
“Rufino me contou de uma moça e um cangaceiro que não foi pego até hoje. A partir dali foi que eu comecei. Depois o Major Rufino me contou a vida toda de Corisco e todo o problema de Corisco dentro do bando. Corisco era um cangaceiro marginal , místico, violento, um cangaceiro muito importante dentro do bando, que impunha respeito a Lampião, tudo isso.”.(ROCHA:1965)
Deus e o Diabo é, antes de tudo, uma narrativa que se inspira na própria vivência de seu autor,
“Os jagunços na rua em torno do meu avô
com espada de CPOR e automática encravada
igual à biografia de artistas entre homens normais
além da história o fio desaparece
está lá o impulso gerador.” (ROCHA:1965)
Antônio das Mortes, lembra os jagunços de Vitória da Conquista que viviam entre sua família: “Em garoto vi muito jagunço daquele tipo, que usava aquela capa que serve inclusive para proteger o fuzil de repetição que fica debaixo.” (ROCHA:1965)
Glauber comenta ter conhecido o cego Zé, “voz de angústia, furando as tardes de Monte Santo, invocava amores perdidos e crimes terríveis.”(ROCHA:1965)
O cego cantador é um personagem comum no sertão pode ser visto cantando nas ruas e nas feiras. Em suas canções, o cego revela as estórias do cangaço, do cotidiano e a visão de mundo do sertanejo. Glauber trás em sua narrativa uma analogia com a mitologia grega, na qual o cego, na condição de adivinho e vidente, prescindia da visão ocular. O cego não vê, mas entende e sente, como nativo, as aspirações coletivas de seu povo. O cego encaminha a narrativa porque vê o futuro. Nas confrarias de aedos da idade arcaica, a poesia e adivinhação estão juntas, sendo que a primeira volta-se para o passado. O poeta vê o que não é mais. O cego vê o futuro. Glauber buscava na poesia uma memória que não estava nos livros e na história escrita: “Na voz dos cantadores está o não e o sim – e foi através dos cantadores que achei as veredas de Deus e o Diabo nas terras de Cocorobó e Canudos.” (ROCHA: 1965)
A intenção de Glauber é capturar esse universo cultural em seu estado bruto em sua ambivalência no tempo poético e mítico. A história não se tece nem pelo arbítrio da razão colonizadora e nem pelas forças do espírito a história em Glauber se tece enquanto tragédia em que o destino dos homens jamais lhes pertence, pois o tempo na narrativa de Glauber é fugaz e descontínuo, ele atua entre o que não existe mais e o que não é ainda.
O Brasil construído por Glauber vive dessa simultaneidade de tempos, entre o processo colonizador e a tradição mítica. A narrativa de Glauber quer exaltar essa simultaneidade, conscientização e enigma, hábito e vida. Narrativa como mito e poema, na qual as aspirações e dramas de uma nação se expressam metaforicamente em idéias metafísicas tomadas de empréstimo da tradição cristã, como destino, salvação, redenção, anunciação, sintomas de um tempo ausente na modernidade. O misticismo não é visto como sintoma de passividade e alienação, mas entendido como um elemento libertário da cultura, porque não afeito a cultura do colonizador.
Glauber busca uma forma que despreza uma moldura ideológica engajada.Tenta reconstruir a pureza rude de um imaginário mítico associada a sua própria experiência de homem e de artista. A narrativa se inscreve no registro criativo da imaginação e da memória. O mito se mistura ao discurso oral e rememorativo dos personagens. Discurso onde o autor recupera a inocência da canção popular, das fábulas e do mito que recria e inscreve como um testemunho da cultura nativa. É como se, atravessando a memória e o discurso desses personagens, o autor buscasse extrair deles “um ato de fala puro, fabulação criadora que é como o avesso dos mitos dominantes, das palavras vigentes e dos que as proferem , ato capaz de criar o mito em vez de tirar proveito ou exploração deles” (DELEUZE: 1990: 264) Ou seja,ato de fabulação pela qual os personagens reinventam-se como membros de uma nação. Glauber intervém e modifica o universo cultural do sertão. O autor não se atém à reprodução imediata e fiel do modo de vida desses personagens, mas à maneira pela qual ele é figurado pelos seus representantes e reinventado na sua inspiração. Seria na fabulação que Glauber identifica sua forma de expressão.
O impulso incontido de reinvenção das coisas aparece nas matérias informativas de jornal, em que acontecimentos cotidianos expressam o retrato social e cultural do Brasil. A notícia de uma inundação na estrada Rio-Bahia, é menos importante do que o universo humano cultural dos transeuntes. Glauber descreve, no artigo intitulado: “A miséria é chocante e os conflitos tendem à crescer”:
“A galeria humana presa na Rio-Bahia vai de prostitutas, jagunços, policiais, viajantes, ladrões, boiadeiros, bandidos, gente pobre de pau de arara, subindo pro sul, carregada de ilusões, e outros voltando mais magros e tristes, sem um vintém e uma ponta de esperança . Os jagunços pernambucanos são temidos, raro o que não traz peixeira na cinta. Os jagunços mineiros são mais calmos calados, com pistolas 45 atadas nas ancas”. Jornal da Bahia, 31/1/1963.
O retrato social do Brasil se tece na narrativa de Glauber, do sertão para o mar. Personagens periféricos em transe na estrada Rio-Bahia, Mar Atlântico –Sertão –, são eles os protagonistas da tragédia cultural brasileira. Personagens que aguardam, em vão, a transfiguração civilizadora, representada pela estrada, signo do progresso. A paisagem verde do sertão mineiro anuncia a presença imperativa da miséria e flagra a desencanto daqueles personagens ante a perspectiva de progresso e cidadania representada pela estrada. “Magros, tristes e sem esperança” (Jornal da Bahia, 31/1/63). Jagunços, ladrões e bandidos iluminam a paisagem invertida da nação brasileira, sem lei e sem moral, em que sobrevivem a margem da história. Os jagunços dramatizam o moderno e o arcaico, pistola e peixeira. A estrada interrompida, vozes revoltadas “protestos sem eco” –, afirma Glauber, ao fim da matéria.
Para Glauber, o Brasil do sertão se encontra apartado do Brasil do litoral, racional, letrado e moderno:
“Mais além, nas cidades
espalhadas no Centro-Sul,
cemitérios destinados aos imigrantes do sol”.
(ROCHA: Jornal da Bahia, 31/1/1963)
A cidade é o destino dos mortos. Espaço virtual de um futuro possível para aqueles que, na vivência da fome e do desespero, congelaram a esperança. O espaço da urbe emudece a voz e o gesto do sertanejo, transfigurado em pobre citadino. A cidade acena como um cemitério para “os imigrantes do sol”. Na narrativa de Glauber transparece a desilusão com o progresso burguês e oscila entre o ceticismo e a utopia. A sociabilidade urbana não opera num registro educativo e civilizador como também não integra o modo de vida sertanejo. A terra seca, o agreste, o sertão – é o drama em que a natureza desafia o tempo histórico da civilização, ainda que por ele corrompida. Ainda assim, nesse círculo trágico, na visão de Glauber, o sertão guarda um universo mítico passível de preencher um discurso crítico de combate ao colonizador. A visão de mundo de Glauber desenha uma tensão permanente entre o moderno e o arcaico, o materialista e o messiânico, o divino e o satânico. Confronto trágico no qual a simultaneidade de tempos dissonantes tece uma história que nasce como ruína. A aspiração utópica de restaurar fragmentos de uma cultura autêntica mutilados pelo processo dominador se traduz na esperança trágica da libertação. A natureza agreste e violenta dos sertões expulsa seus nativos tornando-os seres errantes. Nenhum iluminismo civilizatório se fixa nos sertões, cuja positividade reside na tragédia, onde as frágeis criações humanas sucumbem diante da vingança da natureza:
“Não vale mais a sentença clássica de Euclides: o sertanejo não é, antes de tudo, um forte. É, antes de tudo, um servo da mais primitiva condição, é um fraco e um passivo: sua resistência já é na própria morte, não é na vida: a impotência mental e física está presente em seus atos cotidianos e ele só ameaça se libertar da preguiça se estimulado pelas alienações do misticismo.” (ROCHA: mns.nov/6)
A nação não se constitui como signo de resistência, “a impotência mental e física do nativo” (ROCHA: mns.nov/1963) não modela nenhum destino. O sertão não se configura para Glauber como um paraíso perdido deixado à margem da história colonial. Nenhum sertanejo parece capaz de escapar do destino que a sua natureza lhe impôs. Tragédia que se expressa numa cultura messiânica para uma causa perdida.
O homem do sertão não desvendará a magia do Atlântico. Cativo que é de suas raízes primitivas, escravo em si mesmo, seu comportamento não espelha a grandeza heróica dos grandes cavaleiros medievais. Oprimido, não pela história, mas pela força de uma natureza passiva, que o impede de ser construtor de seu próprio destino. Inerte ao tempo, indiferente à vida, se deixa sucumbir diante da própria morte. Vive “desta morte inacabada no agreste dos espinhos”.(ROCHA: mns.nov/1963)
Ausente em sua vontade, alienado de si, o sertanejo deixa-se aprisionar pelo misticismo, “com a força transferida para as mãos do Bom Jesus” (ROCHA: mns.nov/1963) aguarda o chamado messiânico que desafie o destino figurado pela fome. É compreensível que a partir de 1965 a fome passe a incarnar pra Glauber o sentimento que universaliza a condição dos povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo. A proposta estética do manifesto A estética da fome, de 1965, vai se afastar da problemática nacional para afirmar um procedimento universal para as culturas do Terceiro Mundo.
Glauber parece duvidar que o homem rude do sertão possa alcançar, em algum nível, a consciência crítica de sua miséria. Fraco e passivo, habitante de um mundo de fome, sede e privação, o sertanejo, em sua primitiva condição, está distante do processo civilizador. A imagem signo da nação não prefigura para Glauber, um destino revolucionário para o país. A idéia era buscar no nacional uma forma de dignificar uma identidade cultural como fundamento de um processo político. Contudo, Glauber mostra que a identidade povo-nação, reivindicada no projeto nacional popular, não fertiliza a revolução. Esta visão de mundo rompe com a perspectiva da esquerda (CPC)[4], que percebia no povo brasileiro a vocação para a revolução. Para o CPC – Centro Popular de Cultura–, tratava-se de politizar a cultura popular atribuindo-lhe uma ação revolucionária.
Mostramos que o popular na visão de Glauber não é pura alienação, mas guardião dos valores da tradição, valores que resistem à colonização, mas não agenciam uma ação política. Pois, para Glauber, a argumentação engajada e didática não pressupõe a narrativa que valoriza antes, o modo de vida do sertanejo. Uma arte pedagógica anularia as dissonâncias que são a própria matéria prima da vocação nativa. A arte, nesse contexto, deve propor uma vivência e não um entendimento racional acerca da realidade social do país. Ao contrário, a estética para politizar o real deve se fundamentar na expressão do artista. Ao nosso ver, o autor apresenta uma terceira via de lidar com o popular: nem o conservadorismo nostálgico e paternalista presente no regionalismo, nem a instrumentalização política proposta pelo CPC, mas a sua inserção num discurso propriamente artístico, tal como Villa-Lobos havia criado na música.
No domínio de uma linguagem espontânea e metafórica, Glauber vai tecendo sua crítica a formação colonial brasileira.
“De que adiantam esses símbolos da violência e da morte, para que servem as heranças apodrecidas da Idade Média? É uma vergonha cercada de arame farpado. Nem é um campo de concentração, não chega a ser um tutano, um caule — e os que se comem são de bois magros ou de insossas macambiras”. (ROCHA: mns.nov/1963)
Ao recriar o modo de vida no sertão do Brasil, Glauber deixa vazar sua indignidade e revolta diante da paisagem cultural que o rodeia. Em sua visão, o Brasil do sertão não potencializa um processo revolucionário e não deixa heranças para o Brasil civilizado. O passado se rompeu e não deixou heranças para o futuro. O destino é um enigma, restos apodrecidos e desintegrados no espaço e no tempo, portanto resta ao autor o luto, a revolta e o apelo a imaginação transformadora. Mas o pensamento de Glauber oscila, porque busca criar uma herança como identidade e referência para a nação brasileira. Monte Santo, Trapagó, Quinquiribal, Acaru, Cocorobó e Quebroguenem, campos preenchidos de ruínas que o nosso autor, faz regressar na narrativa de seu filme. Pois a despeito da revolta, o autor sabe que o passado ainda guarda virtualidades no fio de uma outra história inacabada e oculta pela luminosidade do presente. Glauber viaja até o sertão, imprime na vivência a angústia do camponês diante do leito seco dos rios. O autor quer reinventar um universo,
“… onde, antigamente, imperavam as leis dos feudos medievais, com seus cavaleiros subnutridos nas armaduras de couro. O jagunço é um pobre valete que nada leva de si a não ser seu destino submisso ao destino do senhor: assim foram colonizadas às margens do São Francisco, de onde saiu a pior tradição das nobrezas, desde as Minas Gerais de Guimarães Rosa até os sóis de Palmeira dos Índios na cruel narrativa de Graciliano Ramos.” (ROCHA: mns.nov/1963)
A narrativa de Glauber quer exaltar e dignificar o homem rude e submisso, habitante das choupanas de sopapo, palafitas que desenham a pré-história de uma nação. A denúncia de um comportamento inerte e passivo, não esconde a ambição de revelar um modo de vida. Herdeiros de uma tradição medieval, esses cavaleiros subnutridos se entregam ao cangaço, tornam-se pistoleiros ou camponeses sem terra. Diante da ausência de uma relação senhorial, que se exprimia como devoção e honra, da ausência do Estado e das leis, o sertanejo permanece arcaico e entregue à própria sorte. A despeito de não está presente na construção da nação, o sertanejo representa uma cultura nativa. As “vestes de couro, panelas de barro, chicotes, fifós de lata, carro de boi, bruacas de couro de cabra, mandioca, umbu, mandacaru, rapadura, milho e cajarana” espelham um modo de vida que Glauber presenciou desde a infância. A cultura não resulta de um processo histórico-cumulativo, ela tem uma textura própria que dispensa julgamentos de valor comparativos. Nessa visão, os homens comportam uma unidade orgânica e a cultura e expressam uma vocação nativa. Essa centelha de harmonia se expressa no transe de uma história incompleta e deve se presentificar na poética cinematográfica que Glauber Rocha traz ao contexto moderno. O sertanejo “morto e vivo”, “passivo e místico” pode ser preenchido de uma vida histórica imaginária reconstruída voluntariamente pelo autor através da obra.
Nativo do sertão, entre as fronteiras de Minas e Bahia, Glauber fez de sua origem, matéria bruta de sua arte. Imbuído da utopia de unir, simbolicamente, o mar e o sertão, Glauber internacionalizou imagens e modos de vida silenciados das narrativas da nacionalidade sejam aquelas defendidas pelo Estado e suas instituições ou pelos intelectuais.
Deus e o Diabo, filme, imagem, música e Nação
“Acho que o cinema brasileiro tem, nas origens de sua linguagem, um grande compromisso com a música: nosso triste povo canta alegre, uma terrível alegria de tristeza. O samba de morro e a bossa-nova, o romanceiro do nordeste e o samba de roda na Bahia, cantiga de pescador e Villa-Lobos – tudo isso vive dessa tristeza larga, deste balanço e avanço que vem do coração antes da razão.” (ROCHA:1965)
A música para Glauber recolhe do real uma fatia da cultura inalcançável pelo discurso, nesse sentido ela é também filmica. Os cantos populares e o samba são para ele fontes arcaicas que junto a erudição e ritmo de Villa-Lobos e da Bossa nova revelam a alma da cultura brasileira. A linguagem fílmica deve ser para o Brasil um testemunho autêntico como o samba. A cultura nativa se revela em forma autêntica na música, seja no canto triste de um cego feirante, no compasso moderno da bossa nova ou no tom erudito de Villa-Lobos. A música, enquanto imaginação, revela uma “ontologia direta” na qual a narrativa poética, acompanhada da música, se faz revelação de um sentido arcaico. Nesse registro, ela se encaixa na ambição fílmica de Glauber, que renuncia um vínculo com a história linear a fim de reinventar, em sua poética descontínua, o aspecto nativo da cultura. Em sua poética fílmica, o autor se apresenta como intérprete da mensagem órfica e espontânea dos nativos.
As cantorias do cego e do romanceiro do nordeste foram escritas por Glauber e pelo compositor e cantor Sérgio Ricardo. Às cantigas populares ele agregaria em seu roteiro, a música de Villa-Lobos, Brahms, Bach e Beethoven. A pureza rude do popular se harmoniza, em Glauber, ao cultivo de fundo clássico, da forma depurada da música erudita. Essa síntese já anuncia na autoria a busca de uma combinação entre o popular e o erudito[5], não só por utilizar Villa-Lobos, como também Sérgio Ricardo que vem de uma formação erudita e foi um dos precursores da bossa nova. Tanto Villa-Lobos quanto Sérgio Ricardo são músicos ligados ao cotidiano do Rio de Janeiro. Sérgio cantava nas noites de Copacabana onde a distância do sertão se faz tanto pela cultura como pela geografia. A música popular, o choro, as serestas, o samba e a boemia marca a vida urbana carioca. Villa-Lobos incorporou à sua forma musical erudita a prática musical das massas urbanas e do povo sertanejo respectivamente: o violão que foi um instrumento rejeitado pela elite e a viola caipira do nordeste. A proposta de Villa-Lobos é romper com a dicotomia campo e cidade, civilização e barbárie criar uma imagem que integre o sertão à nacionalidade.
“Villa-Lobos talvez fosse quem melhor colocou todo o Brasil em em termos de arte. Villa-Lobos filtrou toda uma temática popular, verdadeira, humana, impregnada de nossas tradições, em forma musical de grande valor.” (ROCHA:1965)
Villa-Lobos partilhava de um sentimento de nacionalidade que Glauber buscava expressar. A exaltação romântica da paisagem nativa, que quer pensar o nacional como fluir orgânico da cultura, um pensamento que se quer afastado de um reducionismo político, datado e ideológico. Glauber como Villa-Lobos buscava uma estética da nacionalidade que destacada de uma moldura histórica e política e de discursos engajados se aproximasse da natureza do homem brasileiro.
A influência de Lobos foi determinante para a decisão de Glauber de orquestrar o filme musicalmente: “Não botar mais a câmera nem a montagem para amarrar, mas orquestrar tudo.” (ROCHA:1965)
Glauber encontra em Villa-Lobos a estrutura rítmica e a proposta estética que almejava em seu filme. Ambicionava realizar em forma fílmica o que o mestre havia feito em música. Em Deus e o Diabo, Glauber alcança a síntese entre a dimensão formal e estilística e a absorção dos elementos peculiares da vida sertaneja.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma obra que condensa os estudos que Glauber vinha desenvolvendo no campo da literatura, pesquisas sobre a cultura popular e entrevistas. Afinado à vertente regionalista, o autor valorizou como suporte de uma identidade nacional a figura do sertanejo e seu modo de vida. O filme alcança um tom épico e teatral a partir dos cantos poético-populares de um narrador cego e da narrativa sinfônica erudita e popular de Villa-Lobos.
Essa proposta de um aprofundamento e incorporação de representações populares no discurso estético está presente nos primeiros textos literários de Glauber, nos quais o autor mostra que a cultura original da nação se faz presente na narrativa poética do cordel. No entanto, para Glauber esse universo lendário não traduz um projeto nacional. A imersão lendária deve percorrer a sua própria odisséia e enfrentar o mar atlântico, ou seja, os princípios culturais do colonizador.
O camponês Manuel, segundo o próprio autor “busca o mar num sentido alienado, não permanece lutando”, corre em direção ao mar: “… quem chega ao mar não é a personagem: quem chega ao mar, sou eu, com a câmera, mostrando o mar como uma abertura de tudo que aquilo pode significar.”(ROCHA:1965)
A corrida do sertanejo pode simbolizar a sua própria diluição no universo do colonizador. Se no discurso de Glauber é a câmera que chega ao mar, na narrativa fílmica ele aponta, através da música de Sérgio Ricardo e Villa-Lobos, a simultaneidade de caminhos para o personagem e para o Brasil.
Na obra fílmica, o cangaceiro Corisco enfrenta Antonio das Mortes num duelo, onde a troca de tiros e a presença dos policiais torna a morte do cangaceiro inevitável. Antonio, ao balear Corisco exige que ele se entregue, seu grito se mistura ao ritmo das imagens e ao som dos tiros, da música, da voz e do violão de Sérgio Ricardo. Linguagem estética que Glauber trazia do experimentalismo musical da escola de música de Salvador, do movimento concretista e que será atualizado pelo movimento tropicalista em 1967. No seu primeiro roteiro “Senhor dos Navegantes” (1957) Glauber já anunciava esse procedimento quando sugeria a mistura entre a música sacra, os batuques de candomblé e o samba. Mas faltava o tom erudito que ele encontraria na música de Villa-Lobos, que junto a imagem do mar a voz e canto de Corisco, finaliza o filme:
“Se entreeee ga Corisco!
Eu não me entrego não,
eu não sou passarinho
prá viver lá na prisão!
Se entreee ga Corisco/
Eu não me entrego não,
não me entrego ao tenente ,
não me entrego ao capitão,
eu me entrego só na morte de parabelo na mão!”
Corisco quase morto grita: “– MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!”
Os camponeses Manuel e Rosa correm pelo sertão em direção ao mar imaginário que se completa com a música e a voz dilacerada de Sérgio Ricardo:
“O sertão vai virar mar
e o mar vai virar sertão!
Tá contada a minha estória verdade, imaginação.
Espero que o sinhô/ tenha tirado uma lição
que assim mal dividido, esse mundo anda errado,
que a terra é do Homem, não é de Deus nem do Diabo.”
A terra é do homem e o mundo não pode se dividir entre o litoral e o interior, o mar e o sertão, o moderno e o arcaico, a conscientização e o enigma. A imagem do mar se superpõe ao sertão ao som da música orquestrada choro nº 10 de Villa-Lobos. No choro nº 10 de Villa- Lobos se misturam um conjunto de significantes musicais onde há a sonoridade da natureza dos trópicos, florestas, sertões, cantos de pássaros, os cantos religiosos, batuques, cantigas populares e as musicalidade indígena, africana, rural e urbana evocam o mito nacional em coro e orquestra.
Através de Villa-Lobos Glauber trás para a sua obra fílmica, a simultaneidade de elementos culturais e forças que não encontram uma síntese compreensível para o discurso civilizado, mas antes a vitalidade do diverso, dos fragmentos errantes que se abrem para a evocação mítica. Forças que explodem em brutalidade, ira e lamento incontido da diversidade que contesta o projeto nacional civilizador seja ele revolucionário ou conservador.
NOTA
Agradeço muito ao professor Arnaldo Contier por ter me chamado atenção para a releitura glauberiana de Villa-Lobos e sua centralidade na discussão da estética de Deus e o Diabo. ver também WISNIK, José Miguel. Estado arte e política em Villa-Lobos, Vargas e Glauber. Folhetim nº 283, São Paulo, 20/6/1982.
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WISNIK, José Miguel. Estado arte e política em Villa Lobos, Vargas e Glauber.Folhetim n. nº 283, São Paulo, 20/6/1982.
Bio fornecida pelo palestrante.
Tereza Ventura
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
“Meu pensamento é nobre, aristocrata….
quer ver a idéia sã na forma pura,
a linha, o bom,o acorde, o estilo, a rima
onde a emoção, zainfe, irreal fulgura”.
Oiticica
“Quem vai a uma barricada precisa levar,
além de uma espingarda na mão,
uma idéia no cérebro”.
Oiticica
José Oiticica foi notável em sua época, um homem cujo trabalho foi significativo para a vida literária e intelectual das primeiras décadas deste século. A origem social de Oiticica remonta à história do patriarcalismo e da casa grande do estado de Alagoas. Nascido em 1882 no Engenho de Mundaú, neto, bisneto e filho de políticos do Império e da República, Oiticica tinha uma convivência estreita com os círculos intelectuais e políticos. Seu pai foi deputado e reconhecido intelectual de seu tempo, chegou a escrever um livro sobre as rendas no Nordeste, a pedido de Gilberto Freyre. Como seu pai, José Oiticica era poliglota: falava e escrevia fluentemente em várias línguas, inclusive o grego e latim. Sua educação espelha o mais alto padrão cultural de seu tempo: desde adolescente estudava filosofia e teatro. Viveu no Rio de Janeiro desde os seis anos de idade. Na juventude tornou-se um poeta parnasiano, crítico literário e militante anarquista. Foi professor de português no Colégio Pedro II e de teatro na Escola Nacional de Teatro. Bacharel em direito e estudante de medicina por 4 anos, Oiticica tinha como atividades principais o magistério, a literatura e a militância anarquista.
Entre suas principais publicações encontram-se livros de sonetos de estilo parnasiano, O manual de estilo, Manual de análise literária e Curso de literatura bem como artigos em jornais e revistas anarquistas, algumas dos quais fundados por ele. Sobre filosofia anarquista Oiticica publicou O catecismo anarquista e a Doutrina anarquista ao alcance de todos, com traduções para o espanhol e o francês. Duas peças de teatro: Pedras que rolam e Quem os salva. A obra de Oiticica parece convergir integralmente com as correntes intelectuais vigentes no Rio de Janeiro durante a primeira República: o utilitarismo, o liberalismo, o positivismo e o humanismo, correntes de pensamento que divulgavam modelos de sociedade e prescrições éticas que tiveram ampla difusão no período. Conceitos como pátria, nação, identidade, verdade, justiça e humanidade influenciavam a produção intelectual da época1. Todos os intelectuais cultivavam de formas variadas o projeto de integrar-se a vida cultural e política da cidade. Este projeto, porém, adquiriu um outro contorno a partir dos anos 10, momentos em que a despeito das idéias que a inspiravam, a República se estabilizou numa política oligárquica2. A descrença em relação à República e o isolamento social levaram alguns intelectuais a reverem sua atuação, de par com a expansão das idéias revolucionárias no Brasil. Socialistas, anarquistas e positivistas competiam pela hegemonia do pensamento político brasileiro. Atuando em campos ideológicos diversos, grupos de intelectuais discutiam os problemas nacionais e divulgavam suas idéias na imprensa ou através de panfletos e folhetins é o caso dos positivistas, dos anarquistas, dos socialistas e dos literatos em geral. No campo cultural eram famosos os duelos literários dos parnasianos conhecidos como “gramatiquice” e os salões literários, muitos dos quais promovidos por Coelho Neto e Olavo Bilac. Eram freqüentados por Oiticica, Alberto de Oliveira, Martins Fontes, Silvio Romero, Capistrano de Abreu, Emilio de Menezes, Humberto de Campos, Luis Murat, Luis Edmundo, Heitor Lima e Homero Prates. Era comum a execução repetida do Hino Nacional nestes salões.
Assim, a vida intelectual de Oiticica se dividia entre os círculos literários da cidade, a atividade de professor e a militância anarquista.
A questão operária era tema de grande atualidade, e vários intelectuais se diziam socialistas ou simpáticos aos ideais de esquerda. O movimento anarquista chegou a agregar nomes como Silvo Romero, José Veríssimo, Curvelho de Mendonça, Pedro do Couto, Silva Marques, Pereira da Silva e Rocha Pombo. A simpatia dos intelectuais pela revolução é notória no discurso proferido por Olavo Bilac na Academia Brasileira de Letras por ocasião da posse de Afonso Arinos, em que Bilac manifesta o seu “apoio as lutas em prol do socialismo” (Pontes: 1944: 12). No entanto, o fato de se pronunciarem a favor de idéias revolucionárias não significava, necessariamente, que estes intelectuais aderissem à militância no campo social político; sugere porém que estas idéias exerciam sobre eles forte atração.
Mesmo antes de se tornar anarquista, José Oiticica era naturalista e ateu, adepto da idéias cientificas e do espírito racional-crítico da época pós-romântica. O Colégio Pedro II, onde Oiticica passou a lecionar, a partir de 1916, era o lugar por excelência onde as idéias filosóficas e cientificas eram divulgadas. Silvio Romero, Capistrano de Abreu e professores europeus defensores do cientificismo eram convidados para dar cursos e conferências no colégio, e até mesmo para dirigir outras escolas no Brasil. Foi sobretudo o espírito antiespiritualista e anticristão introduzidos pela Escola de Recife que levou José Oiticica a propor a criação de um centro de estudos germânicos no Rio de Janeiro. Este espírito crítico influenciava a estética parnasiana. Para Oiticica a estética parnasiana o fascinava pela valorização da palavra, da forma objetiva e da perfeita metrificação gramatical. A opção estética pelo parnasianismo se demonstrava não só em sua obra literária, como também, nos ataques que fazia aos futuristas. Em seu livro Manual de estilo, Oiticica faz o elogio da perfeição gramatical, da expressão acabada, do aprendizado rigoroso das línguas, sobretudo o latim e o grego, para melhor compreensão do “valor dos termos e seus agrupamentos às formas gramaticais”. Segundo Oiticica
“Schopenhauer previu admiravelmente o pavoroso advento de futuristas dadaístas, livre metristas e mais Hunos literários, autores desregrados de mau gosto plebeu e mascarados de um carnaval felizmente passageiro. O estudo das letras clássica na fonte grega e latina é sobretudo escola de bom gosto, requinte, aristocracia mental e repouso estético, sem o qual a arte é fogo de vista, arlequinada e grotesca” (Oiticica, 1926:191).
Oiticica assume que todo verdadeiro pensador se esforça por exprimir suas idéias do modo mais puro, claro e breve possível; “Por isso que a simplicidade sempre foi o atributo, não somente da verdade, como do próprio gênio” (Oiticica, 1960:50).
O elogio da simplicidade é associado ao cultivo da técnica, do método apropriado. Segundo Oiticica, “os modernos devem se espelhar nos antigos, na tradição greco-latina” (Oiticica, ms:1913).
Segundo Afrânio Coutinho, “nos meios cultos era total o respeito pela estética parnasiana. Seus poetas eram tidos como padrões ideais que somente podiam ser imitados, quando muitos igualados, mas nunca superados”(Coutinho, 1959:8) A estética parnasiana era apreciada por um público elitizado que em sua maioria provinha de famílias aristocráticas e educadas nos padrões culturais europeus. Neste sentido, a obra literária de Oiticica atingia um público ao qual este autor estava ligado socialmente por origem e cultura. O fato de sua obra exercer atração sobre o público de elite não significava necessariamente uma afinidade de valores entre autor e público. A arte aqui é vista como um sistema simbólico de comunicação que interage com certo público por afinidade de gosto, formação, classe social e cultural, ou seja: os vínculos que se estabelecem entre o criador e seu público são múltiplos. O que nos interessa aqui são as relações e possíveis contradições entre as posturas estéticas e políticas de José Oiticica, do ponto de vista de sua biografia intelectual.
De um lado, sua produção puramente literária atingia as camadas mais altas da sociedade; de outro, a produção de fundo político cultural buscava elevar, a partir do anarquismo, às camadas populares a erudição e a consciência da revolução.
O fim mais alto do anarquismo é a elevação da plebe, dos verdadeiros produtores, a sentimentos e gostos aristocráticos, substituindo assim a democracia atual, calcada na ignorância e na pobreza, por uma aristocracia geral, humana (Oiticica, 1919:249).
Oiticica dava conferências nos sindicatos sobre a importância da tradição grego-latina e de uma vida voltada para apreender a natureza. Ele ensinava ao operário que o fumo, o álcool, os remédios químicos e os vícios em geral são contrários à natureza, que o indivíduo deve estar atento à sensibilidade do seu corpo, fonte primordial de energia para o trabalho e para o prazer. Através de um contato direto com o corpo e com a mente pelos exercícios físicos e pela meditação, os homens se tornariam seres autodeterminados, menos susceptíveis ao mando.
O projeto de Oiticica era fazer com que o operariado alcançasse o mesmo nível de erudição que as elites. Grande parte da intelectualidade acolhia a ideologia do branqueamento e da miscigenação porque considerava o povo étnica e culturalmente inferior aos povos do ocidente. O pensamento anarquista confrontava a ideologia do branqueamento, não considerava o homem brasileiro inferior do ponto de vista da natureza e sim da cultura. O anarquismo, na medida em que rejeitava as idéias de pátria, estado e nação também confrontava o nacionalismo cultural emergente e a expansão das idéias comunistas. Para Oiticica, a cultura e a estética não deve ser reduzida à politização da classe operária e a representação de uma cultura “nacional”. A elevação da plebe a sentimentos e gostos aristocráticos, era em sua visão, fator fundamental na construção da nova sociedade. Trata-se para Oiticica de um processo pedagógico e não estético e político.
O anarquismo de José Oiticica vincula-se aos ideais iluministas de redenção da humanidade a partir da razão e da moral considerando elementos construtivos da natureza do homem constrangidos pelo desenvolvimento civilizatório. Oiticica quer resgatar o ideal grego da boa vida, como se o mundo clássico pudesse regressar na cultura limpa e pura dos trópicos. Contudo, a aspiração romântica ao esplendor estético da vida grega não oculta o seu desencanto com a modernização em marcha.
Que formidável diferença entre a vida grega e a vida moderna!…Debalde, vejo os destroços das muralhas, os alicerces das sete Tróias mortas, debalde! Não vejo mais as almas, não revivo Ulisses, nem Diomedes, nem Agamêmnon, nem Andrômaca, nem Térsito, nem Helena (Oiticica,ms:1918):
“Essa invisível causa, que eu procuro
nos meus tormentos de meditação,
inda é o mesmo problema ingrato e obscuro
Que atormenta homens bons desde Platão
Esse maldito sonho de ser puro
– Apurado na dor – é sonho vão:
E ira semeando dores no futuro…
Pobres sonhadores que virão!”
(Oiticica: 1914: RJ:Revista Americana)
Neste soneto, o autor afirma estar em busca de uma causa; como que disposto a submeter sua vida a uma missão impossível que lhe causa angústia mas lhe revela o sonho de ser puro. Em outro soneto, Oiticica define-se como um pensador aristocrata.
“Meu pensamento é nobre e aristocrata…
Sonha palácios, torres, milesandres,
Ama o plinto, um minueto, uma balata.
E D.Quixote e aplaude os efeitos grandes.
Preza a arte extrema, onde algo se delata
do homem, do fim, do amor de Orion, dos Andes.
detesta o plebiscito, a bombachata
De cubismo, foxtrotes e jazbandes.
que ver a idéia sã na forma pura,
a linha, o bom, o acorde, o estilo a rima
onde a emoção, zainfe, irreal, fulgura.
(Oiticica: 1914: RJ:Revista Americana, p. 18)
Oiticica era um erudito, um defensor radical do classicismo. Para ele, a verdadeira arte não poderia ter outras fontes além da clássica. Seus escritos políticos seguem o mesmo rigor literário, sua compreensão da cultura revela a convergência entre o cultivo da erudição e o elogio da filosofia libertária. A filosofia libertária supõe que os homens assumam seus desejos primitivos, expressem-se com liberdade através de sua natureza humanitária sem qualquer ímpeto disciplinador externo ao indivíduo. Como conciliar seu projeto estético com seu projeto político revolucionário?
Durante a conferência sobre o programa comunista em 1919, Oiticica declarou: “Não aspiro a democratização dos aristocratas. Aspiro sim, à aristocratização dos democratas. O meu desejo é dar a estes a inteligência , a cultura, o amor da beleza eterna e da arte imperecível” (Dulles: 1980:320).
O literato não se separava tão radicalmente do militante. A pregação libertária era encarada acima de tudo como missão de regenerar a sociedade. A educação das massas era o ponto fundamental de sua teoria anarquista, era preciso esclarecer a consciência proletária de seu papel histórico revolucionário. Para isto, Oiticica criou o teatro social libertário e realizou várias conferências em festas, sindicatos e agremiações culturais. Boa parte se sua vida foi dedicada à doutrinação do proletariado. Na estética como na política, Oiticica revelava uma preocupação fundamental com o método, com as prescrições éticas de cada uma destas atividades. Em Oiticica, a estética se encontra separada da vida, mas em ambas as esferas predomina o rigor, a disciplina informados pelo método.
Como professor do Colégio Pedro II, segundo seus contemporâneos, jamais induziu seus alunos à adesão do anarquismo. Como intelectual e literato, atraia a admiração da esfera de intelectuais mais reacionários de sua sociedade, como é o caso de Jackson de Figueiredo e o Padre Leonel Franca, que chega a publicar um livro de polêmicas com Oiticica.
Embora tenha sido um dos intelectuais que mais combateu a reação espiritualista, Oiticica não deixa de receber os maiores elogios do amigo Jackson de Figueiredo: “O meu amigo é um dos melhores caracteres, uma as mais vivas inteligências da geração de intelectuais a que pertenço” (Martins: 1976: 78).
No alvorecer dos anos 1920 começa a se desencadear no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, o movimento de restauração católica. À frente deste movimento estão Jackson de Figueiredo e Leonel Franca. O movimento se propunha a promover a reaproximação entre a literatura, a cultura e a Igreja Católica, através da valorização dos princípios espirituais inspirados no catolicismo; a reação espiritualista propagava a doutrina da Ordem e da contra revolução.
Começava a delinear-se um pensamento conservador católico e nacionalista que viria a se organizar em torno de Alberto Torres, Farias de Brito e Tristão de Athaíde, e de onde emergiriam os primeiros vagidos do integralismo.
Oiticica não se isola da ambiência intelectual deste debate, como prova a sucessão de artigos publicados por Leonel Franca no livro de polêmicas com Oiticica. O padre era considerado um dos intelectuais mais cultos do Brasil, publicou extensa obra sobre a história das idéias católicas no país, lutou contra a laicização do ensino e foi reitor e fundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro PUC. Em seu livro de polêmicas com Oiticica, discute o modernismo católico, as relações entre fé e ciência e a presença da Igreja nos movimentos sociais e políticos. Um crítico desconhecido escreveu acerca do livro:“Trata-se da única obra em português a propósito do modernismo católico” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12/06/1928).
Estes fatos revelam a integração de Oiticica aos meios intelectuais de sua época; dos quadros mais autoritários e elitistas aos mais populares, suas idéias produziam ecos de significação.
A participação de Oiticica nos diversos meios intelectuais de seu tempo nos mostra que o contraste entre suas atividades de literato e revolucionário se deve antes a seu trânsito em esferas muito diversas da sociedade, não se constituindo necessariamente num aspecto contraditório de sua biografia intelectual.
Wilson Martins, em a História da inteligência brasileira, observa que:
É fato conhecido e banal que os revolucionários em política são puritanos no que se refere aos costumes, não raro ascéticos em sua vida particular, jogo instintivo de compensação que lhes restabelece o equilíbrio interior. No Brasil o exemplo mais característico pode ser o de José Oiticica cuja Doutrina anarquista (que julgava ao alcance de todos) conciliava-se perfeitamente com a estética mais esclerosada” (Martins, 1976:72).
Oiticica é visto como um intelectual contraditório, conservador na literatura e revolucionário na política. É o que entende também Osório Borba nas páginas doCorreio da Manhã:
Personalidade antitética. O anarquista era, em filologia, um servidor devoto da disciplina gramática; em poesia ficou fiel aos registros cânones do parnasianismo. Na prisão como anarquista entregou-se à composição de um livro sobre o pronome ‘se’ (Borba, 1957:23).
Importa aqui ressaltar que tais afirmações foram inspiradas no ponto de vista de quem considera e reconhece o modernismo como um movimento revolucionário. Para essa visão, figuras como Olavo Bilac, Coelho Neto e Oiticica eram consideradas anacrônicas e alienadas dos círculos literários que começavam então a adotar a estética paulista. Oiticica era parnasiano, intelectual ilustrado, bacharel da República pré-modernista. E não era o único a equacionar uma estética parnasiana a ideais revolucionários. Edgar Leuenroth, por exemplo, em sua antologia A Poesia Social na Literatura Brasileira assimilava o parnasianismo à mudança social, intitulando seu capítulo sobre aquela corrente literária de “Umbral do Parnaso – da Rebeldia e da Esperança”.3
A trajetória de Oiticica não apresenta vínculos objetivos com a nova marcação da atividade intelectual naquele contexto. As fronteiras entre o homem de letras e o homem de ação se fazem notar pela ausência de qualquer menção ao anarquismo ou à causa operária em sua obra literária ou a atividade de professor. De fato, a militância estava separada da profissionalização do artista; a política e a arte são esferas de valores e de ações diferenciadas, contudo a entrada do modernismo nos meios literários brasileiros aguçou as convicções estéticas de Oiticica, despertando-lhe profundo desprezo pela estética modernista. A obsessão pelo português correto e metrificado e o academicismo desses poetas era considerada uma erudição inútil pelos modernistas. Deixados à margem da história, esses poetas beletristas amantes da forma e da tradição clássica foram quase esquecidos:
Há quem estranhe que, sendo eu anarquista, combata os futuristas. Ora, eu sou inimigo desses movimentos PSEUDO-ARTÍSTICOS que falsamente se designam por ‘modernismo’ e ‘futurismo’, justamente porque sou anarquista, isto é, partidário de uma sociedade baseada na ordem, no belo, na estética. Não combato, antes desejo e favoreço uma permanente renovação dos padrões artísticos. Mas isso que por aí se designa por ‘modernismo’ e ‘futurismo’ é o contrário de uma verdadeira renovação, pois nada mais é senão o regresso à mais primitiva e rudimentar das manifestações artísticas, caracterizando-se pela confusão mental e pela vacuidade de conceitos (Oiticica, 1926:10).
Para Oiticica, os literatos modernistas
(…) não são nem poetas, nem modernistas, nem futuristas! Escondem, detrás máscaras literárias, a sua frustração, a sua ignorância dos cânones artísticos, a sua ausência de inspiração e a carência de cultura e do sentido estético! (Oiticica, 1926:11).
Esse debate vai encontrar ressonância na obra do então crítico literário Alceu Amoroso Lima que assinava Tristão de Athaíde. Ele defendia, entre outros pontos, a necessidade de se voltar ao classicismo como meio de expressão. Afirma o crítico que “o problema da civilização brasileira é um problema de assimilação” (Amoroso Lima, A de: apud Cardoso 1980:22) A argumentação de Tristão de Athaíde busca denunciar o “modernismo” como uma forma de suicídio literário, na medida em que este movimento passa a importar da Europa uma literatura “deteriorada”, representada pelos movimentos vanguardistas vistos como grandes males culturais, “essa “moléstia” alemã e esse “cadáver” francês que o Sr. Oswaldo pretende impingir-nos como novidade, como panacéia saneadora da poesia nacional” (Amoroso Lima, 1945:919). O verdadeiro problema, para o crítico, não é a importação cultural, mas “a qualidade do que se importa”, já que, a seu ver, ainda não deveríamos “prescindir de uma imitação”. Para Tristão de Athaíde, “imitar para inspirar-se não é submeter-se cegamente ao exemplo estranho. Imitar o espírito é um reconhecimento dos limites, maior prova de independência do espírito. É sua humanização” (Amoroso Lima de, 1966:923).
Na visão de Tristão de Athaíde, não havia, naquele contexto, qualquer pertinência na importação das escolas expressionista e dadaístas para o nosso meio. Era preciso importar formas culturais disciplinadoras, portanto “clássicas”, vistas como “forças de sanidade a que a Europa está lançando um apelo para reagir contra a decadência. Ir ao clássico é sobretudo buscar a verdade. É renunciar a desordem (Amoroso Lima, 1945:924). Se, para o contexto da Europa mostrava-se necessário a recusa do saber erudito, para o Brasil isto não fazia sentido, pois, “onde não há forma busca-se a forma”:
Estamos nós, brasileiros, no caos. Tudo é informe. Tudo é transitório. Aceitamos as correntes mais contrárias, a raça não está coldeada. A saúde do povo corrompida. A riqueza está nas mãos de estrangeiros ou no fundo da terra. A unidade nacional abalada. A sorte do individuo abandonada. O poder, arbitrário, periclitante ou acometido de armas nas mãos. A arte, a filosofia, a literatura imitando o passado ou comprazendo-se na diluição, no sarcasmo cínico, na morte. A terra ignorada. O futuro incerto. Tudo transitório. Tudo por fazer. Tudo vago, indeciso, amorfo. É nesse mundo de larvas que se pretende injetar o gosto da dissolução! Nesse mundo sem formas que se pretende introduzir o horror à forma! (Amoroso Lima, 1945:926).
“Uma literatura amorfa não pode ser uma literatura viva!” Pois ela admite, segundo o autor, o improviso, o provisório, o superficial, o esquecível e a falsa retórica. Por forma, Tristão entende uma obra que não seja apenas o livre reflexo da subjetividade do autor. Uma obra que tenha vida própria é aquela que se submete à princípios éticos e estéticos que dêem contorno à fusão vida/obra tão destruidora. Segundo Tristão, os modernistas recusam a lógica, o esforço disciplinado da beleza em função da importação mimética de uma poesia deteriorada. Fazem o elogio do bárbaro e instintivo na tentativa suicida de pensar o Brasil. O contexto apontava para uma renovação da produção artística no Brasil. Tratava-se de apresentar o moderno como nacional assentado na inspiração nativa. A crítica de Tristão chama atenção para os impasses e limites desse esforço criador das nacionalidades. Para quem, “ser nacional é criar uma nacionalidade e não submeter-se a ela” (Amoroso Lima, 1942:79).
Os anos 1920 foram férteis para o processo de redefinição dos vínculos culturais entre Europa e América. Várias correntes de pensamento entravam no debate de renovação da produção artística do Brasil. Havia a tendência representada pelos parnasianos, articulada a matriz cientificista, a tendência representada pela reação espiritual, que buscava uma leitura crítica do conhecimento racional e a corrente das vanguardas que rompiam com a linguagem clássica e lógica e apelavam para os impulsos inconscientes e instintivos como fontes básicas de inspiração artística. Essa última corrente teve forte repercussão entre intelectuais brasileiros e influenciou decisivamente o movimento paulista que se autodenominou modernista.
Em torno dessas correntes de idéias serão retomadas as discussões acerca da modernidade sob diversos pontos de vista que escapam a intenção deste texto. Nosso propósito é chamar a atenção para a presença de outras orientações modernistas no cenário cultural carioca bem como no pensamento anarquista. A crítica dos cariocas ao movimento paulista não se dava no plano da recusa da modernidade. Conforme já se tentou mostrar, a geração de intelectuais que testemunhou o advento da República no Rio de Janeiro vivera intensamente sob os impasses e configurações do ideal modernista entre nós. Neste primeiro contexto, o modernismo brasileiro, identificado com a capital federal, voltava-se para a problemática da inserção imediata do Brasil no mundo contemporâneo. José Oiticica estaria perfeitamente integrado com aquilo que Eduardo Jardim de Moraes (1983), ao periodizar o modernismo em duas fases, distingue como a primeira época do movimento, que transcorre entre 1917 e 1924. Nesta fase, a modernidade é percebida numa ordem universal. Neste sentido, ser moderno significava, antes de tudo, “estar em dia” com um conjunto de valores que remetem à racionalidade, à civilidade e ao cosmopolitismo do mundo ocidental.
A nova poesia do século XX
Assim procedo: minha pena
Segue essa norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!
Bilac
Em dezembro de 1915, José Oiticica publica, em forma de manifesto, o que entendia como A Nova Poesia. Neste artigo, Oiticica, expõe uma teoria geral da poesia de todos os tempos e ressalta a especialidade da poesia do século XX. Reforçando o seu argumento, Oiticica escreve á José Veríssimo,
A ciência moderna mostrou o erro do ponto de vista bíblico. Hoje, o postulado estético e a poesia devem formar, para tema estético, para expressão emotiva, o postulado da integração do homem no universo (Oiticica, ms:1915).
O novo poeta, segundo Oiticica, “está convencido de que a terra é uma insignificância no universo, fragmento pulverizado do cosmo, preso ao infinito pela atração, e de que o homem é um fruto da dolorosa evolução animal, de que seu ser remonta às ascendências paleozóicas”. Ainda segundo Oiticica:
Os poetas pagãos e cristãos esperavam tudo da divindade, e a vida era apenas a luta para conseguir a felicidade futura segundo a vontade dos deuses. O sofrimento era conseqüência da cólera celeste. A felicidade, uma recompensa divina, o poeta novo encara a vida como um acidente dos ciclos evolutivos do universo, subordinada a fatalidades físicas, entende a humanidade como um fragmento vivo do universo que no universo houve os seus meios de subsistência e que pra o universo volve em átomos dispersos. Sobre tudo isso, o sofrimento como mal relativo, a felicidade como um bem relativo e, entre os dois, a dúvida como estímulo para aprofundar o desconhecido” (Oiticica, ms:1915).
Investido de uma consciência esclarecida, o novo poeta tem diante de si a certeza sensível e racional de sua integração no universo. O artista moderno pode reunir, assimilar, jogar e ironizar com os sentimentos sensíveis e inteligíveis que este mundo lhe proporciona. O verdadeiro artista não é aquele que exalta o pensamento mas aquele que se conserva humano. Não é aquele que imita os clássicos, e que, portanto, permanece ‘enamorado da beleza velha e incapaz de renovação.”(Oiticica, ms:1918).
Em outro momento, Oiticica afirma:
A arte não se alcança pelo estudo, pela técnica, pela prática, se não houver no cérebro que pensa o arrojo de subir. Arte é exaltação íntima se ser consciente…Os meros exaltadores de pensamento são hipócritas, fingem a arte. (Oiticica, ms:1918).
A vocação do artista, como a do cientista, não está no sentimento ou pensamento. O artista, como o cientista, não é aquele que repete fórmulas, mas “aquele que formula uma hipótese íntima, que retira de dentro de si, de uma emoção individual” (Oiticica,ms:1918):
Não sentiste o calafrio da interrogação, não sentiste a ciência e o valor. Não és homem de ciência; és discursador de ciência, não és sábio; tu artista pintas ou escreves o que não te emove e o que não viste, o que teus sentidos não clamam ou viveram (Oiticica,ms:1918).
A arte, como a ciência, exige uma comunhão singular entre o sensível e o inteligível, entre natureza e cultura, entre arte e técnica, entre o subjetivo e o objetivo, entre o particular e o universal. Oiticica vislumbra uma sociedade em que não houvesse a trágica dissociação entre natureza e cultura. Neste sentido, estaria realizado o ideal de um mundo governado pelas leis da razão e da sensibilidade. Os homens retomariam a sua sociabilidade natural, e, com isso, prescindiriam de leis externas à ordem natural. O homem, como o artista, deve preservar a sua individualidade para ser capaz de agir de modo contemplativo, mas também capaz de se deixar dissolver no Universo. Deve ter a atitude descentrada de um sujeito que se põe como objeto. Os homens são vistos “como animais que pensam e que sonham” (Oiticica Oiticica, ms:1918):
Um dia eu contemplava as evoluções de um hidroplano na baía de Guanabara. Vi-o deixar a nesga da praia do flamengo, rojar nas águas resmungando, exasperado as ondinas que espumavam, elevou-se resonando, de asas pandas, muito branco. Voou em linha reta, revoejou, circulou, desceu, subiu, repousou na água, navegou, recolheu-se enfim à nesga de praia, descansou e refez-se para de novo altear-se. Essa ascensão objetiva simboliza bem a exaltação subjetiva, com seus arrancos de asas imateriais, seus voluteios de quimeras, seus sonos de renovação” (Oiticica, ms:1918).
Há uma relação viva entre o olhar contemplativo e os sentidos despertados pela máquina que voa. O texto ressalta a presença de uma subjetividade que se abre para o externo, valorizando ética e esteticamente os benefícios da natureza convertidos pela razão humana. Aqui não há alienação homem-técnica-natureza, só integração.
A constituição da nova poesia se dá, para Oiticica, a partir de três correntes. São elas: o novo paganismo, a aspiração a um novo espiritualismo e a constituição de uma sociedade nova. O novo paganismo caracteriza-se pela compreensão dos predicados do entendimento pagão; valorizando os pontos de vista greco-romanos no tocante à vida e as pesquisas livres dos preconceitos religiosos, em que se exalta o senso de beleza do homem. O novo espiritualismo caracteriza-se pela busca de compreensão da morte, pela independência do espírito como ser, e pela perpetuidade cósmica e sua irredutibilidade substancial. Nesta corrente, incluem-se as variações da teosofia, do neopsiquismo, e inquietações que dizem respeito tanto à ciência quanto à religião, o corpo é entendido como matéria e energia cósmica subordinada aos ciclos evolutivos do universo. A terceira corrente refere-se à constituição da nova sociedade, que se caracteriza pelo ideal de felicidade humana possível num regime novo, racional, do qual suprimir-se-iam as fontes do mal humano. Essas correntes de idéias são, segundo Oiticica, harmonizáveis, uma vez deflagrada a revolução social e instaurada a sociedade anarquista.
A estética preconizada por Oiticica, incorpora elementos essenciais a conformação do ideário moderno, da valorização da cultura greco-romana até as últimas conquistas do pensamento racionalista-progresssita dominante em seu tempo. A estética, na versão de Oiticica, jamais poderia alienar-se das conquistas dos antigos, da crise do pensamento cristão e do aparecimento da ciência. A arte deve se valer de seus pressupostos e ser compreendida em sua totalidade. Os sentidos e as idéias devem ser “educados” para se converterem em forma, em arte. A expressão imediata, o êxtase estético sem moldura, perde-se e dissolve-se na vida. Só a forma pode remeter a obra á um sentido ético e estético capaz de lhe imprimir autenticidade e autonomia.
A cena histórico-cultural que se configurava com o decorrer do século XX viria a contrastar com o ideário de muitos pensadores eruditos. O mundo se integrava à economia de mercado. Os impasses gerados pela guerra imprimiam no plano da cultura, uma revisão de valores a partir da qual declara-se uma ruptura com o passado. Ampliava-se a distância entre a razão e a moral, dando lugar ao processo de “desencantamento do mundo” (WEBER, 1980: 154) e à experiência da perda da invidualidade. A marcha inexorável em direção ao futuro ia conformando uma sociedade urbana, mecanizada e sem referências. Na visão de Tristão de Athaíde, o século XX se inaugura sob o signo da barbárie. Descrevendo sucitamente a sua versão acerca do que seja o espírito bárbaro e civilizado, Tristão de Athaíde anuncia a barbárie como “um estado de espírito profundamente moderno” (Amoroso Lima, 1942:72). Para esse autor, civilizado é aquele em que a sensibilidade e a inteligência absorvem toda a vida mental. Bárbaro é aquele em quem a vontade é o elemento essencial do espírito, em que predominam a moralidade e a ação:
O homem civilizado é o que compreende, comove-se, duvida e contempla. O bárbaro é o que analisa, luta, realiza e crê. O civilizado é o que tem por princípio horror à violência, sob todas as formas – o bárbaro, o que se compraz na violência (Amoroso Lima, 1942:715).
Tanto o espírito de barbárie como o espírito de civilização, segundo o autor, dividem-se em duas orientações opostas: a dos reacionários, à direita, e a dos revolucionários, à esquerda. A emergência da guerra gerou o estado de barbárie, representado, à esquerda, pelo espírito revolucionário e, à direita, pelo espírito reacionário.
Este espírito “profundamente moderno” representado pela cultura da barbárie tem como expoentes típicos o caso da Rússia e o da França: o primeiro buscou fundar uma nova civilização, e o segundo buscou consolidar-se como padrão civilizatório universal. Ainda segundo Tristão de Athaíde:
Entre nós, já se delineiam os braços dessas duas famílias de espíritos, com suas respectivas ramificações. Lembramos apenas os nomes de duas figuras típicas desse moderno espírito bárbaro, irredutivelmente opostas em suas posições à direita e à esquerda, e ambas superiores como dotes intelectuais e morais: os Srs. Jackson de Figueiredo e José Oiticica” (Amoroso Lima, 1942:716).
A observação perspicaz desse grande crítico literário vem corroborar a argumentação desse trabalho. Homens como José Oiticica, Jackson de Figueiredo e tantos outros participaram intensamente das inquietações existenciais, culturais e éticas de um tempo singular na história cultural brasileira. O contato com a obra desses intelectuais pode motivar vivamente um retorno ao passado que empreste uma nova leitura, uma nova tonalidade ao espírito cultural, ideológico, político e social daquele período.
Tratava-se de uma intelectualidade que levava a sério os conceitos de universalidade, humanidade e razão. Além disso, esses intelectuais se sentiam como os próprios agentes da transformação sócio-cultural exigida pelo seu tempo em que, contudo, a fé científica se relativizava cada vez mais em face do novo contexto cultural que se ia anunciando, entre outros fatores, com a guerra que mostrava um mundo sem Deus, sem razão e sem valores:
As súbitas transformações sociais dos tempos recentes, franqueando as portas da ambição e do oportunismo, materializaram as paixões transformando-as em interesses. (…) Verifica-se em todo esse período um curioso processo de passagem da vigência social dos valores interiores, valores morais, essenciais, ideais, para os exteriores, materiais, superficiais, mercantis(Sevcenko, 1987:96).
A proposta de renovação espiritualista de Jackson de Figueiredo e a filosofia libertária de José Oiticica convergem no sentido de corrigir os erros de uma sociedade que se abandonava aos “valores” do mercado.
Jackson de Figueiredo vê na angústia de Pascal a consciência de um racionalismo mitigado. Ao recuperar Pascal, o autor de Pascal e a inquietação moderna busca expressar as dúvidas e agitações da consciência contemporânea diante da falta de fé e da perda dos vínculos morais entre os indivíduos:
Todas essas confusões e desordem da sociedade contemporânea, a ignorância do nosso destino mora, o esquecimento de nossos deveres para com o sofrimento de nossos semelhantes… Tudo isso não é senão produto inevitável, conseqüência necessária, fatal, da impiedade moderna, o resultado prático da vitória do materialismo, do qual só pode ser logicamente deduzido como critério das ações o interesse (Jackson de Figueiredo apud Nogueira, 1976:42).
Jackson de Figueiredo e José Oiticica contrapunham-se ao capitalismo e ao espírito de modernização, que reduziam as relações sociais a relações de mercado, destruidoras dos vínculos de solidariedade. Jackson de Figueiredo buscava no catolicismo a restauração de um valor guia que orientasse os homens no sentido de um destino comum. A revolução, para Jackson era responsável pela destruição dos valores mais essenciais da cultura ocidental para esse autor, que denuncia o aspecto desagregador da reforma protestante, o abandono da fé com o racionalismo de Descartes, a instituição do materialismo e dos ideais libertários dos enciclopedistas e que via na liberdade e na igualdade os preceitos básicos da desordem social. Segundo o autor de A coluna de fogo, “a pior legalidade ainda é melhor que a melhor revolução” (…) A coluna de fogo é essa: o ideal anti-revolucionário” (Figueiredo, 1925: 53).
Jackson de Figueiredo busca, a partir da religião, o “retorno necessário e inevitável às fronteiras do bem e do mal” (Figueiredo, 1925: 53). A idéia de ordem passa a intenção de infundir ao comportamento humano uma moldura moral que só poderia advir da esfera da crença, dado que os homens são ontologicamente imorais. Só a fé em Deus seria capaz de desafiar a moralidade reinante.
José Oiticica busca, a partir do anarquismo, a restauração da ordem natural e moral da sociabilidade humana. Para o autor de A doutrina anarquista, a moralidade e a correção ética são um dado ontológico do ser humano. As relações sociais e as instituições políticas que delas emergem é que corrompem esta sociabilidade inata e impedem sua manifestação. Oiticica não rejeita, contudo, a idéia e o sentimento religioso, que para ele significavam:
A consciência imediata e viva da existência do ser finito e efêmero dentro do ser infinito e eterno, revelação do infinito no finito, (…). Serenidade em face do infinito! Eis a grande característica das almas profundamente religiosas. As seitas perturbam essa serenidade (…). Para ser sereno em face do infinito é mister subir a ele (Oiticica,ms:1918).
Essa aspiração é básica na vocação do artista. Opera como um sopro, uma intuição, que Oiticica caracteriza como Exaltação. José Oiticica e Jackson de Figueiredo foram personalidades inquietas que buscavam fazer explodirem os contornos que a modernidade imprimia a nossa cultura, e, quer em tonalidade reacionária, quer em tonalidade revolucionária, suas vozes exaltaram-se pra formular uma doutrina para o Brasil.
Estética e política
Oiticica ao lado de Fábio Luz, então romancista e militante anarquista experiente, desenvolveu um projeto de educação para o proletariado. Este projeto incluía discussões da doutrina libertária, conferências sobre arte, ciências, e temas sociais e políticos. Junto com Fábio Luz, Oiticica organizava seminários em teatros, parques públicos, ao ar livre e nos sindicatos. Oiticica promovia atividades culturais nos sindicatos porque os via como um espaço de luta e difusão cultural. Para ele, o sindicato era um espaço de socialização política, divulgação de idéias e valores no desenvolvimento de novos padrões de comportamento. Para Oiticica, a educação racional baseada na ciência emancipa o homem de todos os preconceitos e regras de ordem moral, social e cultural. É curioso notar que o mesmo tipo de mérito é atribuído à ciência pelo positivismo, sendo que na moralidade positivista o indivíduo se encontra subordinado a outrem: a família, pátria e a humanidade. Para os positivistas, a educação e a ciência são os meios fundamentais de orientação da vida moral. Tanto a filosofia libertária quanto a positivista estão informadas por uma teoria da evolução social baseada no método de exatidão científica de apreensão do real.
O background teórico de Oiticica está por um lado completamente informado pela doutrina anarquista de Kropotkin, o mais evolucionista dos anarquistas. De outra parte, a formação acadêmica de Oiticica está também vinculada à influência do positivismo nos meios intelectuais da virada do século. Neste sentido, existem variáveis convergentes no Parnasianismo e na filosofia libertária no que diz respeito ao elogio da disciplina, da razão e da moral. Em 1912, já é notória a evolução das idéias anarquistas que geravam sua própria doutrina no Brasil através de nomes como Oiticica, Fábio Luz e Neno Vasco. Também no ano de 1912 inaugura-se a escola moderna do Brás em São Paulo, e Gigi Damiani lança o importante periódico anarquista La Barricata.
No inicio de 1914, era fundado no Rio o Centro de Estudos Sociais, onde Oiticica participava dando aulas e palestras sobre a doutrina anarquista. Nesse período, com o apoio do Centro de Estudos Sociais, começou a se expandir o teatro social de ação pedagógica liderado por Oiticica. Em novembro de 1914, José Oiticica funda no Rio a revista A vida, considerada a primeira revista teórica brasileira voltada para a formação ideológica e a organização da classe operária.A vida trás as primeiras publicações do “catecismo anarquista” de José Oiticica. O Centro de estudos sociais, a revista A Vida e o jornal Na Barricadasão exemplos de uma preocupação maior com o desenvolvimento das idéias anarquistas no Brasil, foram publicados vários textos teóricos que aprofundaram o conhecimento da doutrina anarquista.
Em novembro de 1918 sob o impacto da revolução russa e de uma ampla mobilização da classe operária, Oiticica organiza o movimento insurrecional anarquista. A insurreição acaba denunciada por um tenente do exército que se infiltrara no grupo como espião (Addor, C.:1986). O fracasso do movimento causou a prisão de muitos militantes anarquistas, entre eles a de José Oiticica. Muitos estrangeiros militantes ou não, ou mesmo filhos de imigrantes foram expulsos do país sobre o pretexto de serem anarquistas. Mesmo com ausência de vários militantes será Oiticica o presidente da primeira Conferência Comunista do Rio de Janeiro realizada em 1919. É nela que Oiticica apresenta as bases deseu catecismo anarquista. Nesse período, são significativas as discussões sobre as divergências ideológicas entre o anarquismo e o bolchevismo. Oiticica chega a sustentar idéias avançadas para a época, afirmando que o capitalismo não se extinguiria na Rússia, antecipando os problemas que poderiam surgir na marcha histórica futura para o comunismo. Nos anos vinte a emergência do Partido Comunista e a presença do movimento modernista de São Paulo, em plena sintonia com a ideologia nacionalista vigente (Prado, A:1983) concorrem para mudar definitivamente o campo social, cultural e ideológico no qual Oiticica atuava. Esses acontecimentos põem fim ao momento de maior penetração do anarquismo no movimento operário, assinalando ainda, o enfraquecimento definitivo do parnasianismo cultivado pelo circulo literário carioca.
Oiticica permanece um ativo militante do anticlericalismo e combatente do bolchevismo que então ia conquistando os meios operários. Segundo Oiticica, “a ditadura política de um Estado qualquer jamais realizará a mudança”. Ao longo dos anos 1920 a 1926, encontramos diversos artigos de Oiticica, Edgar Leuenroth, Fábio Luz, Florentino de Carvalho, Pedro Matera e outros denunciando os autoritarismo do regime e da filosofia bolchevista. Segundo Oiticica:
Todo ditador quer obediência, e onde o povo se mostra obediente
pega mais o bolchevismo que o anarquismo, é natural (A Plebe, SP, 1/5/1923).
O anarquista questiona os limites de uma ideologia libertária frente a um comportamento cultural resistente à autodeterminação e passível ao mando.
Oiticica jamais deixou de ser um batalhador das idéias anarquistas. Prestando auxílios, inclusive aos movimentos anarquistas da Espanha e do México onde teve traduzido para o espanhol o seu Catecismo anarquista e a sua “Doutrina anarquista ao alcance de todos”.
Oiticica: entre o romantismo libertário e a ironia da desilusão
O sofrimento não me quebranta.
Passarei na prisão mais um, dois, três anos,
com a mesma serenidade, criticando resistências
das minhas amarguras. Oiticica
O importante é saber que a verdadeira justiça tem que ser transportada para além da vida. E lá estará.
Jackson de Figueiredo
Aos poucos, o radicalismo da militância de Oiticica vai progressivamente dando lugar a uma forma cada vez mais relaxada e bem-humorada de ver o mundo. Por trás do elogio da retidão moral e da forma pura e clássica de expressão estética, havia um grande gozador. A ironia era o remédio para a tragédia. Recordando suas inúmeras prisões, Oiticica afirma:
Não posso me queixar das minhas prisões. Sempre acabavam sendo úteis… Aproveitei os meses de férias forçadas para completar a revisão dos meus estudos de fonética (Ação Direta, 1970:31).
Enquanto esteve preso, Oiticica escreveu vários artigos e contos, inclusive o livro A doutrina anarquista ao alcance de todos também publicado em francês.
Os protestos anticlericais de Oiticica também incorporam a visão bem-humorada e irônica, como demonstra o soneto “Ao Cardeal”:
“Cardeal, que vida é a tua, meu maroto:
Comer, beber, dormir, fornicar,
Sem pensar que teu ronco e teu arroto,
Causam fome e amargura em muito lar?!…
Se Cristo andava de sapato roto,
Tu não tens o dever de o imitar,
Também São João passava a gafanhoto,
E nenhum papa usou de tal manjar!
Um palácio é melhor que uma baiúca,
Colchão de paina é o suco em noite fria,
E uma dama cheirosa ao lado é o céu.
Cardeal, sangra a gente mameluca,
E a pateta não vê que dá da sangria
Que escorre o vermelho do teu chapéu” ( Ação Direta, 1970:34)
Este soneto foi distribuído na forma de panfleto entre o Rio e São Paulo. O cardeal contra quem se dirigia (o Cardeal Arcoverde) não se posicionou mais contra a Liga Anticlerical ou contra Oiticica. O que se percebe é uma aceitação da ironia.
O anticlericalismo de Oiticica não o impedia de desfrutar do respeito e da amizade devotada de Jackson Figueiredo, um dos mais importantes pregadores da contra-revolução e do movimento católico no Brasil. Jackson de Figueiredo chega a interceder frente ao presidente da República, pedindo a libertação de José de Oiticica que, porém, recusa o pedido do amigo:
Tudo isso pesei e repesei, lutando contra o intenso desejo de rever meu lar e recomeçar, com dobrado afinco, a tremenda peleja diuturna de minha vida. Mas pertenço a uma escola que põe a serenidade e a inquebrantabilidade acima de tudo, não por orgulho, senão por coerência e retidão de alma…
Julgo minha liberdade um direito que desejo me reconheçam incondicionalmente. O sofrimento não me quebranta. Passarei na prisão mais um, dois, três anos, com a mesma serenidade, criticando resistências das minhas amarguras (carta a Jackson de Figueiredo – Bom Jesus, 22/8/1925 publicada em Ação Direta: 1970:18).
O gesto de convicção ética é o traço marcante no comportamento de Oiticica. A crença de que há um sentido último na vida e de que vale a pena persegui-lo. A filosofia libertária representava o solo ético capaz de dar unidade e segurança a um mundo que, na versão de Oiticica, “se rendia ao bom senso burguês”.
Talvez essa visão de mundo o aproximasse de intelectuais reacionários como Jackson Figueiredo, cuja angústia existencial marca profundamente sua obra. Porém, o romantismo conservador de Jackson o levou a aderir ao movimento católico. Como Oiticica, Jackson de Figueiredo era um anticapitalista convicto. O catolicismo para ele, como também o anarquismo para Oiticica, simbolizava uma atitude ética e absoluta frente à vida. Na visão de Jackson de Figueiredo:
O importante é saber que a verdadeira justiça tem que ser transportada para além da vida. E lá estará (Carta a Alceu em 11/12/1928 publicada em Nogueira:1976).
A restauração moral adviria da conscientização trágica da impossibilidade de alcançar a liberdade e a justiça num mundo em que a razão mesma explica a não razão. De um lado, a doutrina da ordem, de outro a vida boêmia, as noites passadas nos cafés a conversar com amigos. O erro moral, para Jackson, era um dado incorrigível do ser, só a Igreja poderia ser o único refúgio, “amparo realmente seguro à inteligência e à sensibilidade”.
A correção da vida adviria da imortalidade da alma. A morte é vista como elemento pacificador, o encontro com o absoluto e com a verdadeira justiça tão preconizado por Jackson. O autor anuncia sua morte, numa despretensiosa pescaria, entregando-se ao mar: “Vou para a frente, atirado no dorso da grande onda da vida, para onde Deus quiser” (Carta a Alceu 2/11/1928 publicada em Nogueira:1976).
Oiticica, diferente do amigo, retoma a tragédia a partir do humor e da ironia. O rigor formal dos sonetos deu lugar a saborosas sátiras políticas, no intelectual maduro dos anos 30. Em 1929 Oiticica leciona filologia na Universidade de Hamburgo, na Alemanha e retorna ao Brasil nos anos 1930.
Enfim, evocar a memória de José de Oiticica através dos círculos parnasianos e do movimento operário é apenas um primeiro passo frente à grandeza de sua obra. Há muitas trilhas a percorrer nas diversas facetas do intelectual, teatrólogo, filólogo, gramático, poeta, crítico literário, grão mestre da Fraternidade Rosa Cruz, militante e batalhador incansável das virtudes da filosofia libertária no Brasil até o fim de sua vida, em 1957.
NOTAS
1. Carvalho, José Murilo (1987). Os bestializados. São Paulo, Cia. das Letras.
2. Oliveira, L. (1990). A questão nacional na Primeira República. São Paulo, Brasiliense.
3. Leuenroth, Edgar. A poesia na literatura brasileira (Antologia) São Paulo, obra inacabada.Cf. Arquivo Edgar Leuenroth.Campinas -UNICAMP.
MANUSCRITOS
Arquivo privado de José Oiticica
Ms 1 – Conferência na Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro),1913.
Ms 2 – Carta a José Veríssimo, 1915.
Ms3 _ Conferência na Biblioteca Nacional, junho de 1918
Ms4 _ Carta a Jackson de Figueiredo – Bom Jesus, 22/8/1925.
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Bio fornecida pelo palestrante.