Antes do baile verde




Autor: Lygia Fagundes Telles
Título: Antes do baile verde, Antes del baile verde
Idiomas: port, esp
Tradutor: Santiago Kovadloff(esp)
Data: 29/12/2004

ANTES DO BAILE VERDE
Da colet?nea Antes do baile verde

Lygia Fagundes Telles

 

O Rancho Azul e Branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres, debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo flutuar a capa encharcada de suor.
– Ele gostou de você – disse a jovem, voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. – O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
– Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa de cabeceira. O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.
– Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo… Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.
– Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.
– Acabei o que, falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar um raio de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel-crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça.
– O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
– Tem tempo, sossega – atalhou a jovem. Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. – Não sei como fui me atrasar desse jeito.
– Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!
– E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-se de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.
– Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote…
– Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?… Que tal?
A mulher sorriu.
– Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde, você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.
– Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!
– Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.
– Não faz mal – disse a jovem, limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorreu pelo dedo. – Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beca. O que está me endoidando é este calor, não agüento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente? Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a testa e baixou o tom de voz.
– Estive lá.
– E daí?
– Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseram-se a cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa frigideira: A coroa do rei não é de ouro nem de prata…
– Parece que estou num forno – gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. –Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.
– Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine você então…
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom sombrio:
– Você acha, Lu?
– Acha o quê?
– Que ele está morrendo?
– Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.
– Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.
– Radiante? – espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. – E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.
– Mas quando fui lá ele estava dormindo tal calmo, Lu.
– Aquilo não é sono. É outra coisa.
Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu-se à preta.
– Quer?
– Tomei muita cerveja, se mistura dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.
– Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou… Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.
– Você está bebendo demais. E nessa correria… Também não sei por que essa invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E o pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina…
– Você é chata, não, Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taque-taque-taque! Esse cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longínquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando…
– No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei.
– E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me esbaldar.
– E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no pote.
– Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você quer? Quer que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando, não é isso que você está querendo? – Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi deixando no saiote o dedal cintilante. – Que é que eu posso fazer? Não sou Deus, sou? Então? Se ele está pior, que culpa tenho eu?
– Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho nada com isso, ele é seu pai, não meu. Faça o que bem entender.
– Mas você começa a dizer que ele está morrendo!
– Pois está mesmo.
– Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre dormindo daquele jeito.
– Então não está.
A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na calçada, um bando de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana, esguichando água um na cara do outro. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. “Minha lindura, vem comigo, minha lindura!” – gritou o moleque maior, correndo atrás do homem. Ela assistia à cena com indiferença. Puxou com força as meias presas aos elásticos do biquíni.
– Estou transpirando feito um cavalo. Juro que, se não tivesse me pintado, metia-me agora num chuveiro, besteira a gente se pintar antes.
– E eu não agüento mais de sede – resmungou a empregada, arregaçando as mangas do quimono. – Ai! uma cerveja bem geladinha. Gosto mesmo é de cerveja, mas o Raimundo prefere cachaça. No ano passado, ele ficou de porre os três dias, fui sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos, representava um mar. Você precisava ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! Bem lá em cima, dentro de uma concha abrindo e fechando a rainha do mar coberta de jóias…
–Você já se enganou uma vez – atalhou a jovem. – Ele não pode estar morrendo, não pode. Também estive lá antes de você, ele estava dormindo tão sossegado. E hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois sorriu. Você está bem, papai?, perguntei e ele não respondeu, mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse.
– Ele se fez de forte, coitado.
– De forte, como?
– Sabe que você tem os seu baile, não quer atrapalhar.
– Ih, como é difícil conversar com gente ignorante – explodiu a jovem, atirando no chão as roupas amontoadas na cama. Revistou os bolsos de uma calça comprida. – Você pegou meu cigarro?
– Tenho minha marca, não preciso dos seus.
– Escuta, Luzinha, escuta – começou ela, ajeitando a flor na carapinha da mulher. – Eu não estou inventando, tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. Acho que nessa hora sentiu alguma dor, porque uma lágrima foi escorrendo daquele lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca. Chorou só daquele lado, uma lágrima tão escura…
– Ele estava se despedindo.
– Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até parece que você quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?
– Você mesma pergunta e não quer que eu responda. Não vou mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Agachou-se mais, roçando os cabelos verdes no chão. Levantou-se, olhou em redor. E foi-se ajoelhando devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola.
– E se você desse um pulo lá só para ver?
– Mas você quer ou não que eu acabe isto? – a mulher gemeu exasperada, abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola. – O Raimundo tem ódio de esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápida num andar de bicho na jaula. Chutou um sapato que encontrou no caminho.
– Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem que disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!
-Mas, Tatisa, ele não é meu pai, não tenho nada com isso, até que tenho ajudado muito, sim senhora, como não? Todos esses meses quem é que tem agüentado o tranco? Não me queixo, porque ele é muito bom, coitado. Mas tenha a santa paciência, hoje não! Até que estou fazendo muito aqui plantada quando devia estar na rua.
Com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário. Olhou-se no espelho. Beliscou a cintura.
(…).

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Fonte: TELLES, Lygia Fagundes. “Antes do baile verde”. In: —. Antes do baile verde: contos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 39-45.

ANTES DEL BAILE VERDE

De la Antologia Quince cuentistas brasile?os de hoy

Lygia Fagundes Telles

El rancho azul y blanco desfilaba con sus passistas vestidos a lo Luis XV y su portaestandarte de peluca plateada en forma de pirámide, los rizos desmoronados en la cabeza, la cola del vestido de satín arrastrándose ensuciada por el asfalto. El negro del bombo hizo una profunda reverencia ante las dos mujeres apoyadas en la ventana y prosiguió con su sombrero de tres picos, haciendo revolotear la capa empapada de sudor.
–Le gustaste – dijo la joven dirigiéndose a la mujer que aún aplaudía–. El cumplido fue en tu dirección, ¿viste qué distinguido?
La negra dio una risita.
–Mi hombre es mil veces más guapo, por lo menos en mi opinión. Y ya debe estar llegando, quedó en recogerme a las diez en la esquina. Si me atraso, empieza a protestar y, listo, ya no sale.
La joven la tomó por el brazo y la arrastró hasta la mesa de luz. El cuarto estaba revuelto como si un ladrón hubiera pasado por allí y tirado cajas y cajones.
–¡Estoy atrasadísima, Lu! ¡Ese disfraz es terrible…! Ten paciencia, pero me has de ayudar un poquito.
–¿Pero aún no terminó?
Sentándose en la cama, la joven abrió sobre las rodillas el vestido verde. Usaba bikini y medias de malla, también verdes.
–Acabé, pero aún falta pegar todo esto, mira… ¡Me fui a inventar una franja de colombina dificilísima!
La negra se aproximó, alisando con las manos el quimono de seda brillante. Prendido en el pelo traía un crisantemo de crêpe rojo. Se sentó al lado de la joven.
–Raimundo ya debe estar llegando, se pone hecho una fiera si me atraso. Vamos a ver los ranchos, hoy quiero ver todos.
–Hay tiempo, cálmate – atajó la joven. Se apartó los cabellos que le caían sobre los ojos. Levantó el velador de la mesita–. No sé cómo pude atrasarme de esta forma.
–Pero no puedo perder el desfile, ¿oyó, Tatisa? Todo menos perder el desfile.
–¿Y quién dijo que vas a perderlo?
La mujer metió el dedo en el pote de cola y lo bajó suavemente sobre las lentejuelas del platito. Enseguida llevó el dedo hacia el vestido y allí dejó las lantejuelas formando una constelación desordenada. Tomó una lentejuela que había escapado y delicadamente la encoló. La depositó en la falda, fijándola con pequeños movimientos circulares.
–Pero si tengo que pegar las lantejuelas en toda la falda…
–¿Ya empezamos con las quejas? Creí que había tiempo y ahora no puedo largar el trabajo por la mitad, ¿entiendes? Si me ayudas acabamos en un momento, ya me pinté, mira, ¿qué tal mi cara? No dijiste nada, bruja, eh… ¿Qué tal?
La mujer sonrió.
–Quedó bien, Tatisa. Con ese cabello verde parece una alcachofa, tan gracioso. Lo que me gusta es ese verde en las uñas, queda raro.
En un movimiento brusco, la joven levantó la cabeza para respirar mejor. Se pasó el dorso de la mano por el rostro acalorado.
–Pero son las uñas las que dan la nota, tonta. Es un baile verde, los disfraces tiene que ser verdes, todo verde. Pero no necesitas quedarte mirando, vamos, no pares, puedes hablar sin dejar de trabajar. ¡Falta más de la mitad, Lu!
–Estoy sin anteojos, no veo bien.
–No importa – dijo la joven, limpiando en la sábana el exceso de cola que se le había escurrido por el dedo–. Ve pegando de cualquier forma que allí dentro nadie se va a dar cuenta, total habrá un montón de gente. Lo que me está volviendo loca es este calor, no aguanto más, tengo la impresión de estarme derritiendo, ¿no sientes? ¡Qué barbaridad!
La mujer intentó sujetarse el crisantemo que le había resbalado por el cuello. Frunció la frente y bajó el tono de voz.
–Estuve allí.
–¿Y?
–Se está muriendo.
Un coche pasó por la calle, bocinando frenéticamente. Algunos niños se pusieron a cantar a gritos, el compás marcado por los golpes en una sartén: “La corona del rey no es de oro ni es de plata…”
–Parece que estoy en un horno – gimió la joven, dilatando las narinas sudorosas–. Si hubiera sabido, habría inventado un disfraz más liviano.
–¿Pero qué es esto? ¡Si está casi desnuda, Tatisa! Yo iba a ir de hawaiana, pero sólo porque se me ve un pedazo de cadera, Raimundo ya arma un escándalo. Imagina, entonces…
Con la punta de la uña, Tatisa recogió una lentejuela que se había enredado en la malla de la media. La dejó caer en la pequeña constelación que iba armando en el borde de la falda y se quedó rascando pensativamente un resto reseco de cola que le había caído en una rodilla. Vagaba la mirada por los objetos, sin fijarse en ninguno. Habló con tono sombrío:
–¿Te parece, Lu?
–¿Me parece qué?
–¿Qué se está muriendo?
–Ah, sí. Entiendo bien de eso, ya vi a un montón de gente morirse, sé muy bien cómo es. No pasa de esta noche.
–Pero te equivocaste una vez, ¿te acuerdas? Dijiste que se iba a morir, que estaba en las últimas… Y al día siguiente él ya pedía leche, radiante.
–¿Radiante? – se asombró la sirvienta. Cerró en un movimiento los labios pintados de rojo-violeta–. Y además yo nunca dije que se iba a morir, dije que estaba mal, eso fue lo que dije. Pero hoy es diferente, Tatisa. Espié desde la puerta, ni necesito entrar para ver que se está muriendo.
–Pero cuando fui estaba durmiendo tan tranquilo, Lu.
–No era sueño, era otra cosa.
Apartándose bruscamente la falda abierta en las rodillas, la joven se levantó. Fue hasta la mesa, tomó la botella de whisky y buscó un vaso en medio del desorden de los frascos y cajas. Lo encontró debajo de la polvera. Sopló el fondo lleno de polvos de arroz y bebió a largos tragos, apretando los maxilares. Respiró con la boca abierta. Se dirigió a la negra:
–¿Quieres?
–Tomé mucha cerveza, si mezclo voy a ponerme muy ansiosa.
La joven vertió más whisky en el vaso.
–¿Mi pintura no se está derritiendo? Fijaste si no se me borró el verde de los ojos… Nunca transpiré tanto, siento que la sangre me hierve.
–Está bebiendo demasiado. Y con tanto apuro… La verdad, no sé por qué esta ocurrencia de la falda bordada, las lantejuelas se van a despegar todas en la aglomeración. Y lo peor es que no puedo hacer las cosas bien, pensando en el Raimundo allá en la esquina…
–Eres pesada, ¿eh, Lu? Mil veces repites la misma cosa, ¡taque-taque-taque-taque-taque! ¿Ese tipo no puede esperar un poco?
La mujer no respondió. Oía con expresión de éxtasis la música de un bloco * que pasaba a los lejos. Canturreó en falsete: “Terminó llorando… terminó llorando…”
–En el otro carnaval entré en un bloco de sujos y me divertí en grande. Hasta se me reventaron los zapatos de tanto que bailé.
–Y yo en la cama, podrida de gripe, ¿te acuerdas? En éste me quiero divertir como nunca.
Lentamente la joven fue limpiando con el pañuelo las puntas de los dedos blanqueados de cola. Tomó un trago de whisky. Volvió a hundir el dedo en el pote.
–Quieres que me quede aquí llorando, ¿no es eso lo que quieres? Quieres que me cubra la cabeza con ceniza y me quede de rodillas rezando, ¿no es cierto? – Se quedó mirando la punta del dedo, cubierto de lentejuelas. Dejó en la falda el dedal centelleante– ¿Qué puedo hacer? No soy Dios, ¿o sí? Entonces, sí él está peor, ¿yo qué culpa tengo?
–No estoy diciendo que tenga la culpa, Tatisa.
No tengo nada que ver, es su padre, no el mío. Haga lo que le parezca.
–¡Pero empiezas a decir que se está muriendo!
–Pues lo está.
–No es verdad. También me fijé, está durmiendo, nadie se muere durmiendo así.
–Entonces no está.
La joven fue hasta la ventana y ofreció su rostro al cielo violeta. En la vereda, un grupo de chicuelos jugaba con tubos de plástico en forma de banana, se arrojaban agua a la cara unos a otros. Interrumpieron el juego para burlarse de un hombre vestido de mujer, que pasó tambaleándose sobre los zapatos de taco altísimo: –“Mi lindura, ven conmigo, mi ligadura”– gritó el granuja mayor, corriendo tras el hombre. Ella asistía a la escena con indiferencia. Se estiró con fuerza las medias prendidas a los elásticos del bikini.
–Estoy transpirando como un caballo. Juro que si no me hubiese pintado me metía ahora debajo de la ducha, ¡qué estúpida fui de haberme pintado antes!
–No aguanto más de sed – rezongó la sirvienta, arremangándose las mangas del quimono–. ¡Ay!, qué ganas de tomar una cerveza bien heladita. Lo que más me gusta es la cerveza, pero Raimundo prefiere cachaça . El año pasado estuvo tumbado tres días, tuve que ir sola al desfile. Había un carro que fue el más bonito de todos, representaba un mar. Tenía que ver aquel montón de sirenas envueltas en perlas. Había pescadores, piratas, pulpos, de todo. Y allí arriba, dentro de una concha que se abría y se cerraba, la reina del mar, cubierta de joyas…
–Ya te equivocaste una vez – interrumpió la joven–. No puede estar muriéndose, no puede ser. También estuve allí antes que tú, se estaba durmiendo tan tranquilo. Y hoy temprano hasta me reconoció, se quedó mirándome, mirándome y después sonrió. ¿Estás bien, papá?, pregunté, y él no respondió, pero noté que entendió perfectamente lo que dije.
–Se hizo el fuerte, pobrecito.
–¿Cómo el fuerte?
–Sabe que usted tiene su baile y no quiere molestar.
–Uf, qué difícil es conversar con gente ignorante – explotó la joven, tirando al suelo las ropas amontonadas en la cama. Revisó los bolsillos de un pantalón–. ¿Tomaste mis cigarrillos?
–Tengo mi marca, no necesito los suyos.
–Escucha, Luzinha, escucha – comenzó ella, arreglando la flor en el pelo de la mujer–. No estoy inventando, y estoy segura de que aún hoy él me reconoció. Creo que en ese momento sintió algún dolor, porque una lágrima se le escurrió de su lado paralizado. Nunca lo había visto llorar de aquel lado. Lloró sólo de aquel lado, una lágrima tan oscura…
–Se estaba despidiendo.
–¡De vuelta, mierda! Deja de hacerte el cuervo, hasta parece que quieres que sea hoy. ¿Por qué tienes que repetir eso, por qué?
–Usted misma pregunta y no quiere que conteste. No voy a mentir, Tatisa.
La joven miró bajo la cama. Empujó un zapato. Se agachó más, rozando los cabellos verdes en el suelo. Se levantó y miró alrededor. Y se fue arrodillando despacito, ante la negra. Agarró el pote de cola.
–¿Y si pasara por allí, sólo para ver?
–Pero, ¿quiere o no que acabe esto? – gimió la mujer, exasperada, abriendo y cerrando los dedos resecos de cola–. Raimundo detesta esperar, ¡va a ver que hoy todavía cobro!
La joven se levantó. Lloriqueó, andando rápida con paso de animal enjaulado. Pateó un zapato que encontró en el camino.
–Aquel médico miserable. Todo por culpa de aquel maricón. Yo bien dije que no podía quedarme con él aquí en casa, dije que no sé cuidar enfermos, ¡no sé, no puedo! Si hubieras sido buena me habrías ayudado, pero no pasas de ser una egoísta, una pesada que no quiere saber de nada. Egoísta.
–Pero, Tatisa, no es mi padre, yo no tengo nada que ver con esto. Además la ayudé mucho, no me lo puede negar. Todos estos meses, ¿quién es la que se aguantó el fardo? No me quejo por él, es muy bueno, pobre. ¡Pero tener la santa paciencia, hoy, no! Hasta estoy haciendo demasiado aquí plantada, cuando debía estar en la calle.
Con un gesto fatigado, la joven abrió la puerta del armario. Se miró al espejo. Se pellizcó la cintura.
(…).

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Fonte: Telles, Lygia Fagundes. “Antes del baile verde”. In: Quince cuentistas brasileños de hoy. Traducción de Santiago Kovadloff. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1978. p. 9-17.





Bio fornecida pelo palestrante.

As meninas




Autor: Lygia Fagundes Telles
Título: As meninas, Las meninas
Idiomas: port, esp
Tradutor: Estela dos Santos(esp)
Data: 29/12/2004

LAS MENINAS


Uno


Lygia Fagundes Telles

Me senté en la cama. Era temprano para darme un baño. Me eché hacia atrás, abracé la almohada y pensé en M. N., lo mejor del mundo no es tomar el agua de un coco verde y después orinar en el mar, el tío de Lião dijo eso pero él no sabe, lo mejor es estar pensando lo que M. N. va a decir y hacer cuando caiga mi último velo. ¡El último velo! escribiría Lião que es sublime cuando escribe, comenzó la novela diciendo que en diciembre la ciudad huele a durazno. Imagínate, durazno. Diciembre es época de duraznos, claro, a veces uno encuentra que los carritos de frutas en las esquinas expanden olor a plantación frutal a su alrededor pero sacar de allí que la ciudad entera está perfumada es sublime. Le dedicó la narración a Guevara con un importantísimo pensamiento acerca de la vida y la muerte, todo en latín. Imagínate cómo debe entrar el latín en el esquema guevarista. ¿O entra? Si a él le gustaba el latín. ¿A mí no me gusta? En los momentos de ocio echado sobre el suelo, las manos debajo de la cabeza, se quedaba mirando las nubes y latinando, la muerte combina bien con el latín, no hay nada que combine tanto con el latín como la muerte. Pero aceptar que esta ciudad huele a durazno, es una exageración. ¿Qué ciudad será ésa?, preguntaría él con la mayor perplejidad. ¿Tercer Mundo? El Tercer Mundo. ¿Y huele a durazno? ¿ En opinión de Lía de Melo Schultz, huele.
Entonces él cerraría los ojos donde tenía los ojos y sonreiría una sonrisa donde tenía la boca. Estoy bien listo con esas mis discípulas. En fin, problema de ella o mío es M. N., un M. N. desnudo, en pelo, mucho más en pelo que yo, es bastante peludo, como el mono de origen. Pero un mono lindo, de cara tan intelectual, tan rara, el ojo derecho un poco más chico que el izquierdo y tan triste, todo un lado de su cara es infinitamente más triste que el otro. Infinitamente. Podría quedarme repitiendo infinitamente… infinitamente… Una simple palabra que se extiende por ríos, montes, valles, infinitamente largos como los brazos de Dios. Las palabras. Los gestos se renuevan como la piel de la cobra irrumpiendo lisa bajo la piel vieja. Y no es viscosa, la toqué en la estancia, era verde y espesa pero no viscosa. El gesto de M. N. también nuevo, no es verdad que todo ha de ser como las otras veces, él vendrá con piel limpia, inventando o inventado en sus minucias. Si Dios está en los pormenores, el goce más agudo debe estar también en lo menudo, ¿oíste esta M.N.? Ana Clara contó que tenía un novio que se volvía loco cuando ella se quitaba las pestañas postizas, el espectáculo del biquini no tenía la menor importancia pero apenas comenzaba a quitarse las pestañas, era la gloria. Los ojos desnudos. En verdad os digo que llegará el día en que la desnudez de los ojos será más excitante que la del sexo. Pura convención decir que el sexo es obsceno. ¿Y la boca? Inquietante la boca mordiendo, masticando, mordiendo. Mordiendo un durazno. ¿Te acuerdas? Si yo escribiera empezaría una narración con ese nombre, El Hombre del Durazno. Lo vi desde una esquina mientras tomaba un vaso de leche: un hombre cualquiera con un durazno en la mano. Me quedé mirando el durazno maduro que él movía y palpaba entre sus dedos, cerrando un poco los ojos como si quisiera aprenderle el contorno. Tenía rasgos durar y la barba crecida acentuaba sus arrugas como filos de carbón, pero toda la dureza desaparecía cuando olía el durazno. Quedé fascinada. Alisó los vellos de la cáscara con los labios y con los labios aún fue recorriendo toda su superficie como había hecho con la punta de los dedos. La nariz dilatada, los ojos estrábicos. Yo quería que todo terminara de una vez pero parecía no tener ningún apuro: casi con rabia refregó el durazno contra su mentón mientras con el borde de la lengua, haciéndolo rodar entre los dedos, buscó la punta. ¿La encontró? Yo estaba recostada en el balcón del café pero lo veía como en un telescopio: encontró la punta rosada y comenzó a acariciarla con la lengua en un movimiento circular, intenso. Pude ver que la punta de la lengua era del mismo rosa que la punta del durazno, pude ver que pasó a lamerlo con una expresión que ya era de sufrimiento.
Cuando abrió la boca y le dio un mordisco que hizo correr largo el zumo, casi escupí en mi leche. Todavía me contraigo entera cuando me acuerdo, oh Lorena Vaz Leme, ¿no te da vergüenza?
“No” – dice en voz alta el Ángel Seductor. Enciendo deprisa una tableta de incienso, oh mente pervertida. Querría ser santa. Pura como ese perfume de rosas que me envuelve y me da sueño, Astronauta también sentía sueño cuando yo encendía el incienso. Y se desperezaba como me desperezo, con él aprendí a desperezarme. Gato aventurero, ¿por dónde anda usted, eh? Daba clases diarias de pereza y lujuria pero nunca repetía los movimientos, todos los bailarines deberían tener un gato. La astucia. Al mismo tiempo, el abandono. El desprecio por las cosas realmente despreciables. Y aquel cálculo y fijación. Todo hecho de delicadezas peligrosas, gato mío. ¿O Demonio? En las pausas de las lecciones se quedaba mirándome, tanto más consciente que yo en mi inconsciencia, ¿cómo iba a saber yo? Todavía no conocía a M. N., no me quedaba horas y horas fabulando como he fabulado, ay Padre mío. Sólo Jesús comprende y perdona, solo Él que ya sufrió como nosotros, Jesús, ¡Jesús cómo te amo! Voy a poner un disco en su homenaje, ofrezco música como Abel ofrecía ovejas, lógicamente la oveja es mucho más importante, pero Jesús sabe que le tengo horror a la sangre, mis ofrendas sólo pueden ser musicales. ¿Jimi Hendrix? Escucha, mi amado, escucha esta última musiquita que hizo antes de morir, murió drogado el pobrecito, todo ellos mueren drogados, pero escucha, sé que vas a bajar la mano hasta su mota llena de sudor y polvo, dear Jimi!…
Con un salto elástico, Lorena se levantó de la cama de hierro dorado, del mismo color que el papel de la pared. Ensayó algunos pasos de baile, levantó la pierna hasta tocar con el pie descalzo la barra de hierro y dio un salto cayendo sobre la estrecha raya azul de la alfombra de yute. Se levantó, sacudió la cabellera hacia atrás y, mirando hacia adelante, fue haciendo equilibrios sobre la raya hasta alcanzar el tocadiscos.
–Jimi, Jimi, ¿dónde estás? – preguntó examinando la pila de discos en el estante. Llevaba un leve pijama blanco con florcitas amarillas y en el cuello una cadena con un corazoncito de oro. Tomó el disco con la punta de los dedos.
–¿Y vos, Rómulo? ¿Adónde ahora?
Cerró los ojos húmedos y co1ocó el disco en el plato. Mansamente levantó el brazo y la condujo como el pico de un pájaro ciego hasta la vasija de agua. Lo dejó caer.

–¡Lorena!
La voz venía del jardín. Rápidamente se recogió el pelo, la sostuvo en la nuca y se puso en puntas de pie. Abrió los brazos. Fue andando sobre la raya en caracol de la alfombra, tensa como una equilibrista sobre un hilo de alambre.
–¡Lorena, asómate a la ventana, te quiero hablar!
Vaciló peligrosamente, el pie derecho plantado en la raya y el izquierdo suspendido en el aire. Se alivió cuando consiguió posar el izquierdo frente al otro sin perder el equilibrio: había llegado al fin del viaje. Se inclinó hacia los dos lados en una profunda reverencia, los brazos arqueados hacia atrás, las manos tocándose como bordes de alas entreabiertas. Agradeció retrocediendo un poco, la modesta sonrisa hacia el suelo. Agarró una flor en el aire, la besó, la arrojó triunfante por las galerías y girando se volvió hacia la ventana. Le hizo señas a la joven que esperaba con los brazos cruzados en medio de la alameda. Colocó sus manos sobre el lado izquierdo del pecho y suspiró con énfasis:
–Amada mía, sé bienvenida. ¡Mira qué día! Es primavera, Lião, primavera. Vera, es verdad, prima, naturalmente primera, la verdad primera. ¿Eh? En una mañana así me tengo que atar para no salir volando, ¡mira las margaritas, todas se abrieron! – Señaló el cantero debajo de la ventana.– ¡Qué cosa más hermosa! ¡Buen día, margaritas mías!
–Lorena, ¿me vas a prestar atención?
–Habla, Lía de Melo Schultz, habla.
Con un movimiento brusco, Lía se levantó las gruesas medias blancas hasta las rodillas. La cartera de cuero resbaló al suelo pero ella se concentraba en las medias, atentamente, como si esperase verlas caer en seguida. Recogió la cartera,
–¿Tu mamá me podrá prestar el auto mañana? Después de comer. Digamos a las nueve.
–Se te caen las medias.
–O me ajustan las rodillas o se me caen. Fíjate. Al principio el elástico me apretaba tanto que me dejaba la pierna roja.
–Pero qué idea, querida, usar medias con este calor. Y zapatones de alpinista, ¿por qué no te pusiste las sandalias? Las marrones hacen juego con la cartera.
–Hoy tengo que caminar el día entero, putz. Y sin medias me salen ampollas en los pies.
Probablemente en las plantas. Qué barbaridad. Peor que las ampollas sólo los juanetes de la Hermana Bula. Juanete debe venir de Juana, hubo una antigua Juana con los primeros pies deformados y los nietos heredaron la deformación y aparecieron los juanetes. Ay Padre mío. Primavera, yo enamorada y Lião hablando de las ampollas de los pies.
–Tengo unas medias preciosas, todavía no las usé, ¿las queréis?
–Sólo si son francesas.
–Son suizas, queridita.
–No me gusta Suiza, es demasiado limpia.
Y no le van a servir, imagínate, debe calzar cuarenta. Qué idea usar medias que abultan los tobillos, la pobre tiene piernas de elefante. Aún así, adelgazó, la subversión adelgaza.
– Lião, Lião, estoy tan enamorada. Si M. N. no telefonea, me mato.
(…).

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Fonte: TELLES, Lygia Fagundes. Las Meninas. Trad. de Estela dos Santos. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1978. p. 11-17.

AS MENINAS


Um


Lygia Fagundes Telles

Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M. N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M. N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu! escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego. Imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano. Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as nuvens e latinando, a morte combina muito com latim, não tem coisa que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade cheira a pêssego, exorbita. Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior perplexidade. Tercer Mundo? Terceiro Mundo. Y huele a durazno? Na opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca. Estoy bien listo con esas mís discípulas. Enfim, problema dela, o meu é M. N., um M. N. nu em pêlo, muito mais em pêlo do que eu, ele é peludo à beça, assim na base do macaco. Mas um macaco lindo, a cara tão intelectual, tão rara, o olho direito um pouco menor do que o esquerdo e tão triste, todo um lado da sua cara é infinitamente mais triste do que o outro. Infinitamente. Eu poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos como os braços de Deus. As palavras. Os gestos se renovando como a pele da cobra rompendo lisa sob a pele velha. E não é viscosa, toquei nela na fazenda, era verde e espessa mas não viscosa. O gesto de M. N. também novo, não é verdade que tudo será como das outras vezes, ele virá de pele limpa, inventando o inventado nas suas minúcias. Se Deus está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu isto, M. N.? Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse, começaria uma história com esse nome, O Homem do Pêssego. Assisti de uma esquina enquanto tornava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mas toda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada. Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico. Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote, que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?
“Não” – diz em voz alta o Anjo Sedutor. Acendo depressa um tablete de incenso, oh mente pervertida. Queria ser santa. Pura como esse perfume de rosas que se enrola em mim e me dá sono. Astronauta também sentia sono quando eu acendia o incenso. E se espreguiçava como me espreguiço, foi com ele que aprendi a me espreguiçar. Gato à-toa, por onde você anda. Hein? Dava aulas diárias de preguiça e luxúria mas nunca repetia os movimentos, todo bailarino devia ter um gato. A astúcia. Ao mesmo tempo, o abandono. O desprezo pelas coisas realmente desprezíveis. E aquele cálculo e fixação. Todo feito de delicadezas perigosas o meu gato. Ou Demônio? Nas pausas das lições ficava me olhando, tão mais consciente do que eu na minha inconsciência, como é que eu podia saber? Ainda nem conhecia M. N., não ficava horas e horas minhocando como tenho minhocado, ai meu Pai. Só Jesus compreende e perdoa, só Ele que já curtiu como nós, Jesus, Jesus como eu te amo! Vou pôr um disco em sua homenagem, espera, ofereço música assim como Abel oferecia ovelhas, é lógico que ovelha é muito mais importante mas Jesus sabe que tenho horror de sangue, minhas oferendas só podem ser musicais. Jimi Hendrix? Escuta, meu amado, escuta esta última musiquinha que ele fez antes de morrer, morreu drogado o pobrezinho, todos eles morrem drogados, mas ouça e sei que você vai baixar a mão até sua carapinha cheia de suor e poeira, dear Jimi!…
Num salto elástico, Lorena se atirou na cama de ferro dourado, da cor do papel da parede. Ensaiou alguns passos de dança, levantou a perna, até tocar com o pé descalço na barra de ferro e saltou para cair na estreita listra azul do tapete de juta. Aprumou-se, sacudiu a cabeleira para trás e, olhando em frente, foi se equilibrando na listra até chegar ao toca-discos.
–Jimi, Jimi, onde você está? – perguntou ela examinando a pilha dos discos na prateleira da estante. Vestia um leve pijama branco com florinhas amarelas e tinha no pescoço uma corrente com um coraçãozinho de ouro. Segurou o disco nas pontas dos dedos. – E você, Rômulo? Onde agora?
Apertou os olhos úmidos e colocou o disco no prato. Mansamente levantou a agulha e a conduziu como o bico de um pássaro cego até a vasilha d’água. Deixou-a tombar.

–Lorena!
A voz vinha do jardim. Rapidamente ela arrepanhou a cabeleira, torceu-a na nuca e pôs-se nas pontas dos pés. Abriu os braços. Foi andando na listra em caracol do tapete, tensa como uma equilibrista num fio de arame.
–Lorena, bota a cabeça na janela, quero falar com você!
Ela vacilou perigosamente, o pé direito plantado na listra, o esquerdo em suspenso no ar. Descontraiu-se quando conseguiu pousar o esquerdo na frente do outro sem perder o equilíbrio: chegara ao fim da travessia. Inclinou-se para os lados numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase:
–Minha amada, seja bem-vinda. Veja que dia! É primavera, Lião, primavera. Vera, é verdade, prima, naturalmente primeira, a verdade primeira. Hum? Numa manhã assim tenho que me segurar senão saio voando, olha as margaridinhas, abriram todas! – apontou o canteiro embaixo da janela. – Coisa mais jóia. Bom-dia, minhas margaridinhas!
–Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção?
–Fala, Lia de Melo Schultz, fala.
Com um movimento brusco, Lia puxou as grossas meias brancas até os joelhos. A sacola de couro resvalou para o chão mas ela se concentrava nas meias, atenta como se esperasse vê-las escorregar em seguida. Apanhou a sacola.
–Será que amanhã sua mãe podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende.
Lorena debruçou-se na janela. Sorriu.
–Suas meias estão caindo.
–Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha ai. No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa.
–Mas que idéia, querida, usar meia com este calor. E sapatões de alpinista, por que não calçou a sandália? Aquela marrom combina com a sacola.
–Hoje tenho que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia, dá bolha no pé.
Provavelmente nas solas. Cafonérrimo. Pior do que bolhas só os tais joanetes de Irmã Bula. Joanete deve vir de Joana, houve uma antiga Joana com os primeiros pés deformados e os netos herdaram a deformação e viraram os joanetos. Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé.
–Tenho umas meias tão bacanas, ainda nem usei, quer ir com elas?
–Só se forem francesas, entende.
–São suíças, minha queridinha.
–Não gosto da Suíça, é limpa demais.
E nem vão servir, imagine, ela deve calçar quarenta. Que idéia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece.
–Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M. N. não telefonar, me mato.
(…).

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Fonte: TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas. 16ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 07 – 11.





Bio fornecida pelo palestrante.

O Crachá nos meus Dentes




Autor: Lygia Fagundes Telles
Título: O Crach? nos meus Dentes, Le Badge entre les Dents
Idiomas: port, fra
Tradutor: Maryvonne Lapouge(fra)
Data: 29/12/2004

LE BADGE ENTRE LES DENTS

Lygia Fagundes Telles

Je commence par me présenter. Je suis un chien, voilà tout. Il est venu tant de races se déverser en moi ainsi que vont se perdre et se retrouver au hasard avec le temps les affluents des petits cours d’ eau, mais laquelle parmi ces races a fini par se révéler au total la plus vigoureuse, je ne saurais le dire. C’est mieux ainsi. Je m´en tiens au résultat sans m’interroger quant aux origines. Là où je vis je peux presque passer inaperçu au milieu des autres qui portent eux aussi des badges accrochés au cou comme les étiquettes des carafes de whisky. Que personne ne se donne la peine de lire attentivement, tous les gens sont bien trop occupés pour s’intéresser véritablement à un être proche, unique et multiple en dépit de sa seule identité.Parfois, la colère me prend, mon poil se hérisse et je serre les mâchoires en me tortillant et en poussant des petits cris, je cherche à m’efuir, à mordre.Mais mes phases de chien fou ne durent pas. Dans ces moments-là, je bombe le torse, ainsi que j’ai entendu dire à l’etraîneur, je ne sais pas en quoi cela consiste de bomber le torse, je ne sais pas, mais c’est ce que je fais lorsque je soupçonne que je ne suis pas en odeur de sainteté : Je bombe le torse et reviens à l’attitude normale d’un chien gentil. Conciliant.

Le propriétaire du cirque, un entraîneur qui sai y faire dans son habit rouge à boutons dorés, a fini par m’apprendre une foule de choses, telles que parler au téléphone, danser, faire des pirouettes.Quand je donne du fil à retordre, il vient brûler mes pattes de devant avec le bout d’une cigarette allumée, ill s’aperçoit que je vacille dans la position verticale et il se précipite et chuiiiii…brûle les pattes rebelles jusqu’à me faire ces trous. Alors je me lève à toute vitesse et je sors en dansant dans ma jupe de tulle bleu. Mais j’ai été humain lorsque je suis tombé amoureux et je suis devenu un mutant qui a duré le temps qu’a duré la passion. Brûlante. Et éphémére. Jái caché les petits objets qui m’auraient trahi et qui n’étaient pas nombreux, le collier, l’os et le tutu des soirs de gala. J’ai regardé le soleil en face. Je dois rappeler que je traversais comme une flèche en salivant de peur les arcs de flammes et voici que la peur a complètement disparu lorsque je me suis découvert en liberté, tout le feu à présent nevenait pul que de l’intérieur, de mon coeur, Je devins une flamme ardente. Je pense aujourd’ hui que je flambai trop fort et mon amour qui paraissait heureux a fini par’s inquéter, c’était un amour fragile, un amour ombrageux. Je tentai de dissimuler la démesure de cette intensité, la peur d’avoir peur. Viens, viens avec moi ! je voulais crier et je n’émettais qu’un murmure.Je me suis mis à parler tout bas, en choisissant mes mots, mes gestes, et même comme ça l’amour a commencé à prendre du recul. Délicatement, c’est certain, mais il a pris du recul tandis que mon désir augmentait au cours d’ une véritable descente aux enfers.C’est que j’aime pour la vie ! aurais-je pu dire. Mais je me suis retenu,ah, le soin avec lequel jje chevauchai ce corps qui se fermait, qui est devenu un coquillage. Ne m’abandonne pas ! j’allai jusqu’à implorer en hurlant lors de notre dernière rencontre. Je me suis mis à lui écrire des billets, des lettres tellement enflammées, je lui adressai plusieurs télégrammes avec le, même texte : Amour Immense Inextinguible Point d’Exclamation.

Il faisait nuit lorsque je me suis retrouvé seul. Je m’enfermai dans ma chambre et contemplai la lune qui était pleine, sa face de pierre sclérosée. Les étoiles, Je m’enlaçai de mes propres bras avec le plus da force possible et je commençai à chercher, où ? J’allai jusqu’au grand lit blanc, nous étions étreints sur ce lit tant et tant de fois et avec une telle fiévre et ce fróid maintenant, je flairai, grattai sous l’oreiller, les couvertures, où ? Mais où ? La recherche désespérée se poursuivit pendant que je dormais, je rêvais que je creusais le sol. Je me réveillai épuise, statue de bue, en poussant des hurlements.

Je n’ai pas eu besoin d’aller jusqu’à la glace pour savoir que j’étais de nouveau redevenu un chien. Le jour se levait.J’ai pris le badge entre mmes dents, repris le chemin du cirque. L’entraîneur m’a examiné avec une attention accrue et, sur un ton de bonne humeur, il a fait cette observation, je devenais vieux. Pour le reste, tout a couru sans autre nouveauté, comme s’il n’y avait eu auçune interruption.Je n’ai regretté mes doigts qu’après les avoir perdus ils me seraient bien utiles en ce moment pour me débarrasser des puces. Ou pour me gratter àl’intérieur de l’oreille ou pour nettoyer la morve qui me coule autour du museau lorsque je suis enrhumé. Avec ces doigts j’ai joué de la flûte mais, et n’est-ce pas étrange ? je ne me suis pas masturbé tout ce temps où j’ai été un humain,jamais pendant tout ce temps je ne me suis masturbé. Il n’y a d’ailleurs pas que cela d’étrande. J’ai aussi appris à prier. Et j’aime beaucoup écouter de la musique et rester a contempler les nuages. Mais je suis un chien et lorsque quelqu’un semble en douter, je montre les coussinets brûleés de mes pattes de davant.

Fonte: Telles, Lygia Fagundes. ” Le badge entre les dents “. In : —. La nuit obscure et moi. Nouvelles traduites du brésilien par Maryvonne Lapouge. Paris : Éditions Payot & Rivages, 1998. p. 45-47.

O CRACHÁ NOS MEUS DENTES

Lygia Fagundes Telles

Começo por me identificar, eu sou um cachorro. Que não vai responder a nenhuma pergunta, mesmo porque não sei as respostas, sou um cachorro e basta. Tantas as raças vieram desaguar em mim como os afluentes de pequenos rios se perdendo e se encontrando no tempo e no acaso, mas qual dessas raças acabou por vigorar na soma, isto eu não sei dizer. Melhor assim. Fico na superfície sem indagar da raiz, agora não. Aqui onde estou posso passar quase despercebido em meio de outros que também levam os crachás dependurados no pescoço como os rótulos das garrafas de uísque. Que ninguém lê com atenção, estão todos muito preocupados para se interessar de verdade por um próximo que é único e múltiplo apesar da identidade. Às vezes, fico raivoso, meu pêlo se eriça e cerro os maxilares rolando e ganindo, quero fugir, morder. Mas as fases de cachorro louco passam logo. Então, componho o peito, conforme ouvi o treinador dizer, não sei em que consiste isso de compor o peito, não sei, mas é o que faço quando desconfio que não estou agradando: Componho o peito e volto à normalidade de um cachorro manso. Doce.

O dono do circo, um hábil treinador de roupa vermelha com botões dourados, acabou por me ensinar muitas coisas, tais como falar no telefone, fazer piruetas e dançar. Quando resisto, ele vem queimar as minhas patas dianteiras com a ponta de um cigarro aceso, percebe de longe que estou vacilando na posição vertical e vem correndo e chiiii…-queima as patas transgressoras até fazer aqueles furos. Então me levanto depressa e saio dançando com saiote de tule azul. Mas fui humano quando me apaixonei e virei um mutante que durou enquanto durou a paixão. Abrasadora. E breve. Escondi os pequenos objetos reveladores e que não eram muitos, a coleira, o osso e o saiote das noites de gala. Olhei de frente para o sol. Devo lembrar que eu varava feito uma seta salivando de medo os grandes arcos de fogo e eis que o medo desapareceu completamente quando me descobri em liberdade, todo o fogo vinha apenas aqui de dentro, do meu coração. Fiquei flamejante. Penso agora que flamejei demais e o meu amor que parecia feliz acabou se assustando, era um amor frágil, assustadiço. Tentei disfarçar tamanha intensidade, o medo de ter medo. Vem comigo! Eu queria gritar e apenas sussurrava. Passei a falar baixinho, escolhendo as palavras, os gestos e ainda assim o amor começou a se afastar.Delicadamente, é certo, mas foi se afastando enquanto crescia o meu desejo numa verdadeira descida aos infernos. É que estou amando por toda uma vida! eu podia ter dito.Mas me segurei, ah, o cuidado com que montava nesse corpo que se fechava, ficou uma concha. Não me abandone! cheguei a implorar aos gritos no nosso último encontro. Desatei a escrever-lhe cartas tão ardentes, bilhetes, repeti o mesmo texto em vários telegramas: Imenso Inextinguível Amor Ponto de Exclamação.

Era noite quando fiquei só. Tranquei-me no quarto e olhei a lua cheia com sua face de pedra esclerosada. As estrelas. Abracei com tanta força a mm mesmo e comecei a procurar, onde? Fui até à larga cama branca, ali nos juntamos tantas vezes, tanto fervor e agora aquele frio, fucei o travesseiro, as cobertas, onde? Onde. A busca desesperada continuou no sonho, sonhei que escavava a terra. Acordei exausto e enlameado, aos uivos. Nem precisei ir ao espelho para saber que tinha virado de novo um cachorro. Amanhecia. Tomei o crachá nos dentes e voltei ao circo. O treinador me examinou mais atentamente e fez uma observação bem-humorada, que eu estava ficando velho. De resto, tudo correu sem novidade, como se não tivesse havido nenhuma interrupção. Dei valor aos meus dedos só depois que os perdi, podiam me servir agora para catar pulgas.Ou para coçar lá dentro do ouvido ou limpar o ranho do focinho quando estou resfriado. Com aqueles dedos toquei flauta mas não me masturbei, nunca me masturbei enquanto fui um ser humano, não é estranho isso? Há ainda outras estranhezas, não importa. Aprendi também, a rezar. Gosto muito de ouvir música e de ficar olhando as nuvens. Mas sou um cachorro e quando alguém duvida, mostro as palmas das minhas patas queimadas.

Fonte: Telles, Lygia Fagundes. Contos. In: —. A noite escura e mais eu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 65-69.





Bio fornecida pelo palestrante.