Autor: Lima Barreto
Título: A NOVA CALIF?RNIA
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005
A NOVA CALIFÓRNIA
(Conto de A Nova Calif?rnia)
Lima Barreto
Ningu?m sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspond?ncia que recebia. E era grande. Quase diariamente, o carteiro l? ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um ma?o alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em l?nguas arrevesadas, livros, pacotes…
Quando Fabr?cio, o pedreiro, voltou de um servi?o em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
? Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de t?o extravagante constru??o: um forno na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabr?cio p?de contar que vira bal?es de vidros, facas sem corte, copos como os da farm?cia ? um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utens?lios de uma bateria de cozinha em que o pr?prio diabo cozinhasse.
O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a chiar, e olhava a chamin? da sala de jantar a fumegar, n?o deixava de persignar-se e rezar um ?credo? em voz baixa; e, n?o fora a interven??o do farmac?utico, o subdelegado teria ido dar um cerco ? casa daquele indiv?duo suspeito, que inquietava a imagina??o de toda uma popula??o.
Tomando em considera??o as informa??es de Fabr?cio, o botic?rio Bastos concluir? que o desconhecido devia ser um s?bio, um grande qu?mico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos cient?ficos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, m?dico tamb?m, porque o doutor Jer?nimo n?o gostava de receitar e se fizera s?cio da farm?cia para mais em paz viver, a opini?o de Bastos levou tranq?ilidade a todas as consci?ncias e fez com que a popula??o cercasse de uma silenciosa admira??o a pessoa do grande qu?mico, que viera habitar a cidade.
De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente as ?guas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do cresp?sculo, todos se- descobriam e n?o era raro que ?s ?boas noites? acrescentassem ?doutor?. E tocava muito o cora??o daquela gente a profunda simpatia com que ele tratava as crian?as, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
Na verdade, era de ver-se, sob a do?ura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava aquelas crian?as pretas, t?o lisas de pele e t?o tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e tamb?m as brancas, de pele ba?a, gretada e ?spera, vivendo amparadas na necess?ria caquexia dos tr?picos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a raz?o de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua ternura com Paulo e Virg?nia e esquecer-se dos escravos que os cercavam…
Em poucos dias a admira??o pelo s?bio era quase geral, e n?o o era unicamente porque havia algu?m que n?o tinha em grande conta os m?ritos do novo habitante.
Capit?o Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de Tubiacanga, ?rg?o local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o s?bio. ?Voc?s h?o de ver, dizia ele, quem ? esse tipo… Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladr?o fugido do Rio.?
A sua opini?o em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival para a fama de s?bio de que gozava. N?o que Pelino fosse qu?mico, longe disso; mas era s?bio, era gram?tico. Ningu?m escrevia em Tubiacanga que n?o levasse bordoada do Capit?o Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem not?vel l? no Rio, ele n?o deixava de dizer: ?N?o h? d?vida! O homem tem talento, mas escreve: ‘um outro’, ‘de resto’…? E contra?a os l?bios como se tivesse engolido alguma cousa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores gl?rias nacionais. Um s?bio…
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola sa?a vagarosamente de casa, muito abotoado no seu palet? de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar ? um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se t?o-somente a ouvir. Quando, por?m, dos l?bios de algu?m escapava a menor incorre??o de linguagem, intervinha e emendava. ?Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que…? Por a?, o mestre-escola intervinha com mansuetude evang?lica: ?N?o diga ‘asseguro’ Senhor Bernardes; em portugu?s ? garanto.?
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo. A chegada do s?bio veio distra?-lo um pouco da sua miss?o. Todo o seu esfor?o voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia t?o inopinadamente.
Foram v?s as suas palavras e a sua eloq??ncia: n?o s? Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas, como era generoso? pai da pobreza ? e o farmac?utico vira numa revista de espec?ficos seu nome citado como qu?mico de valor.
II
Havia j? anos que o qu?mico vivia em Tubiacanga, quando, uma bela manh?, Bastos o viu entrar pela botica adentro. O prazer do farmac?utico foi imenso. O s?bio n?o se dignara at? a? visitar fosse quem fosse e, certo dia, quando o sacrist?o Orestes ousou penetrar em sua casa, pedindo-lhe uma esmola para a futura festa de Nossa Senhora da Concei??o, foi com vis?vel enfado que ele o recebeu e atendeu.
Vendo-o, Bastos saiu de detr?s do balc?o, correu a receb?-lo com a mais perfeita demonstra??o de quem sabia com quem tratava e foi quase em uma exclama??o que disse:
? Doutor, seja bem-vindo.
O s?bio pareceu n?o se surpreender nem com a demonstra??o de respeito do farmac?utico, nem com o tratamento universit?rio. Docemente, olhou um instante a arma??o cheia de medicamentos e respondeu:
? Desejava falar-lhe em particular, Senhor Bastos.
O espanto do farmac?utico foi grande. Em que poderia ele ser ?til ao homem, cujo nome corria mundo e de quem os jornais falavam com t?o acendrado respeito? Seria dinheiro? Talvez… Um atraso no pagamento das rendas, quem sabe? E foi conduzindo o qu?mico para o interior da casa, sob o olhar espantado do aprendiz que, por um momento, deixou a ?m?o? descansar no gral, onde macerava uma tisana qualquer.
Por fim, achou ao fundo, bem no fundo, o quartinho que lhe servia para exames m?dicos mais detidos ou para as pequenas opera??es, porque Bastos tamb?m operava. Sentaram-se e Flamel n?o tardou a expor:
? Como o senhor deve saber, dedico-me ? qu?mica, tenho mesmo um nome respeitado no mundo s?bio…
? Sei perfeitamente, doutor, mesmo tenho disso informado, aqui, aos meus amigos.
? Obrigado. Pois bem: fiz uma grande descoberta, extraordin?ria. . .
Envergonhado com o seu entusiasmo, o s?bio fez uma pausa e depois continuou:
? Uma descoberta… Mas n?o me conv?m, por ora, comunicar ao mundo s?bio, compreende?
? Perfeitamente.
? Por isso precisava de tr?s pessoas conceituadas que fossem testemunhas de uma experi?ncia dela e me dessem um atestado em forma, para resguardar a prioridade da minha inven??o… O senhor sabe: h? acontecimentos imprevistos e…
? Certamente! N?o h? d?vida!
? Imagine o senhor que se trata de fazer ouro…
? Como? O qu?? fez Bastos, arregalando os olhos.
? Sim! Ouro! disse, com firmeza, Flamel.
? Como?
? O senhor saber?, disse o qu?mico secamente. A quest?o do momento s?o as pessoas que devem assistir ? experi?ncia, n?o acha?
? Com certeza, ? preciso que os seus direitos fiquem resguardados, porquanto…
? Uma delas, interrompeu o s?bio, ? o senhor; as outras duas, o Senhor Bastos far? o favor de indicar-me.
O botic?rio esteve um instante a pensar, passando em revista os seus conhecimentos e, ao fim de uns tr?s minutos, perguntou:
? O Coronel Bentes lhe serve? Conhece?
? N?o. O senhor sabe que n?o me dou com ningu?m aqui.
? Posso garantir-lhe que ? homem s?rio, rico e muito discreto.
? E religioso? Fa?o-lhe esta pergunta, acrescentou Flamel logo, porque temos que lidar com ossos de defunto e s? estes servem…
? Qual! E quase ateu…
? Bem! Aceito. E o outro?
Bastos voltou a pensar e dessa vez demorou-se um pouco mais consultando a sua mem?ria… Por fim, falou:
? Ser? o Tenente Carvalhais, o coletor, conhece?
? Como j? lhe disse…
? E verdade. E homem de confian?a, s?rio, mas…
? Que ? que tem?
? E ma?om.
? Melhor.
? E quando ??
? Domingo. Domingo, os tr?s ir?o l? em casa assistir ? experi?ncia e espero que n?o me recusar?o as suas firmas para autenticar a minha descoberta.
? Est? tratado.
Domingo, conforme prometeram, as tr?s pessoas respeit?veis de Tubiacanga foram ? casa de Flamel, e, dias depois, misteriosamente, ele desaparecia sem deixar vest?gios ou explica??o para o seu desaparecimento.
III
Tubiacanga era uma pequena cidade de tr?s ou quatro mil habitantes, muito pac?fica, em cuja esta??o, de onde em onde, os expressos davam a honra de parar. H? cinco anos n?o se registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas s? eram usadas… porque o Rio as usava.
O ?nico crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato por ocasi?o das elei??es municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a v?tima da oposi??o, o acontecimento em nada alterou os h?bitos da cidade, continuando ela a exportar o seu caf? e a mirar as suas casas baixas e acanhadas nas escassas ?guas do pequeno rio que a batizara.
Mas, qual n?o foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem mem?ria! N?o se tratava de um esquartejamento ou parric?dio; n?o era o assassinato de uma fam?lia inteira ou um assalto ? coletoria; era cousa pior, sacr?lega aos olhos de todas as religi?es e consci?ncias: violavam-se as sepulturas do ?Sossego?, do seu cemit?rio, do seu campo-santo.
Em come?o, o coveiro julgou que fossem c?es, mas, revistando bem o muro, n?o encontrou sen?o pequenos buracos. Fechou-os; foi in?til. No dia seguinte, um jazigo perp?tuo arrombado e os ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa. Era gente ou dem?nio. O coveiro n?o quis mais continuar as pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a not?cia espalhou-se pela cidade.
A indigna??o na cidade tomou todas as fei??es e todas as vontades. A religi?o da morte precede todas e certamente ser? a ?ltima a morrer nas consci?ncias. Contra a prolana??o, clamaram os seis presbiterianos do lugar ? os b?blicos, como lhes chama o povo; clamava o Agrimensol Nicolau, antigo cadete, e positivista do rito Teixeira Mendes; clamava o Major Camanho, presidente da Loja Nova Esperan?a; clamavam o turco Miguel Abudala, negociante de armarinho, e o c?tico Belmiro, antigo estudante, que vivia ao deus-dar?, bebericando parati nas tavernas. A pr?pria filha do engenheiro residente da estrada de ferro, que vivia desdenhando aquele lugarejo, sem notar sequer os suspiros dos apaixonados locais, sempre esperando que o expresso trouxesse um pr?ncipe a despos?-la ?, a linda e desdenhosa Cora n?o p?de deixar de compartilhar da indigna??o e do horror que tal ato provocara em todos do lugarejo. Que tinha ela com o t?mulo de antigos escravos e humildes roceiros? Em que podia interessar aos seus lindos olhos pardos o destino de t?o humildes ossos? Porventura o furto deles perturbaria o seu sonho de fazer radiar a beleza de sua boca, dos seus olhos e do seu busto nas cal?adas do Rio?
Decerto, n?o; mas era a Morte, a Morte implac?vel e onipotente, de que ela tamb?m se sentia escrava, e que n?o deixaria um dia de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemit?rio. A? Cora queria os seus ossos sossegados, quietos e comodamente descansando num caix?o bem feito e num t?mulo seguro, depois de ter sido a sua carne encanto e prazer dos vermes…
O mais indignado, por?m, era Pelino. O professor deitara artigo de fundo, imprecando, bramindo, gritando: ?Na est?ria do crime, dizia ele, j? bastante rica de fatos repugnantes, como sejam: o esquartejamento de Maria de Macedo, o estrangulamento dos irm?os Fuoco, n?o se registra um que o seja tanto como o saque ?s sepulturas do ‘Sossego’. ?
E a vila vivia em sobressalto. Nas faces n?o se lia mais paz; os neg?cios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, ? noite, todos ouviam ru?dos, gemidos, barulhos sobrenaturais… Parecia que os mortos pediam vingan?a…
O saque, por?m, continuava. Toda noite eram duas, tr?s sepulturas abertas e esvaziadas de seu f?nebre conte?do. Toda a popula??o resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo ? fadiga e ao sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, j? n?o havia nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino misterioso.
Organizaram ent?o uma guarda. Dez homens decididos juraram perante o subdelegado vigiar durante a noite a mans?o dos mortos.
Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na terceira; mas, na quarta, quando os vigias j? se dispunham a cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar dous dos vampiros. A raiva e a indigna??o, at? a? sopitadas no animo deles, n?o se contiveram mais e
Deram tanta bordoada nos macabros ladr?es, que os deixaram estendidos como mortos.
A not?cia correu logo de casa em casa e, quando, de manh?, se tratou de estabelecer a identidade dos dous malfeitores, foi diante da popula??o inteira que foram neles reconhecidos o Coletor Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente da C?mara. Este ?ltimo ainda vivia e, a perguntas repetidas que lhe fizeram, p?de dizer que juntava os ossos para fazer ouro e 0 companheiro que fugira era 0 farmac?utico.
Houve espanto e houve esperan?as. Como fazer ouro com ossos? Seria poss?vel? Mas aquele homem rico, respeitado, como desceria ao papel de ladr?o de mortos se a cousa n?o fosse verdade!
Se fosse poss?vel fazer, se daqueles m?seros despojos f?nebres se pudesse fazer alguns contos de r?is, como n?o seria bom para todos eles!
O carteiro, cujo velho sonho era a formatura do filho, viu logo ali meios de consegui-la. Castrioto, o escriv?o do juiz de paz, que no ano passado conseguiu comprar uma casa, mas ainda n?o a pudera cercar, pensou no muro, que lhe devia proteger a horta e a cria??o. Pelos olhos do sitiante Marques, que andava desde anos atrapalhado para arranjar um pasto, pensou logo no prado verde do Costa, onde os seus bois engordariam e ganhariam for?as…
?s necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, satisfazer e felicit?-los; e aqueles dous ou tr?s milhares de pessoas, homens, crian?as, mulheres, mo?os e velhos, como se fossem uma s? pessoa, correram ? casa do farmac?utico.
A custo, o subdelegado p?de impedir que varejassem a botica e conseguir que ficassem na pra?a, ? espera do homem que tinha o segredo de todo um Potosi. Ele n?o tardou a aparecer. Trepado a uma cadeira, tendo na m?o uma pequena barra de ouro que reluzia ao forte sol da manh?, Bastos pediu gra?a, prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida. ?Queremos j? sab?-lo,? gritaram. Ele ent?o explicou que era preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos ? trabalho longo que s? poderia ser entregue impresso no dia seguinte. Houve um murm?rio, alguns chegaram a gritar, mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado.
Docilmente, com aquela do?ura particular ?s multid?es furiosas, cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabe?a um ?nico pensamento: arranjar imediatamente a maior por??o de ossos de defunto que pudesse.
O sucesso chegou ? casa do engenheiro residente da estrada de ferro. Ao jantar, n?o se falou em outra cousa. O doutor concatenou o que ainda sabia do seu curso, e afirmou que era imposs?vel. Isto era alquimia, cousa morta: ouro ? ouro, corpo simples, e osso ? osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de uma cousa outra era ?besteira?. Cora aproveitou o caso para rir-se petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua m?e, Dona Emilia, tinha f? que a cousa era poss?vel.
? noite, por?m, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu em direitura ao cemit?rio; Cora, de p?s nus, com as chinelas nas m?os, procurou a criada para irem juntas ? colheita de ossos. N?o a encontrou, foi sozinha; e Dona Em?lia, vendo-se s?, adivinhou o passeio e l? foi tamb?m. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, sa?a; a mulher, julgando enganar o marido, sa?a; os filhos, as filhas, os criados ? toda a popula??o, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao sat?nico rendez-vous no ?Sossego?. E ningu?m faltou. O mais rico e o mais pobre l? estavam. Era o turco Miguel, era o professor Pelino, o doutor Jer?nimo, o Major Camanho, Cora, a linda e deslumbrante Cora, com os seus lindos dedos de alabastro, revolvia a s?nie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu rega?o at? ali in?til. Era o dote que colhia e as suas narinas, que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, n?o sentiam o f?tido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta…
A desintelig?ncia n?o tardou a surgir; os mortos eram poucos e n?o bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cacha??es. Pelino esfaqueou o turco por causa de um f?mur e mesmo entre as fam?lias quest?es surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho n?o brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta crian?a de onze anos, at? aconselhou ao pai: ?Papai vamos aonde est? mam?e; ela era t?o gorda…?
De manh?, o cemit?rio tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existencia. Uma ?nica pessoa l? n?o estivera, n?o matara nem profanara sepulturas: fora o b?bedo Belmiro.
Entrando numa venda, meio aberta, e nela n?o encontrando ningu?m, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas ?guas sobre o ?spero leito de granito ? ambos, ele e o rio, indiferentes ao que j? viram, mesmo ? fuga do farmac?utico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas.
10-11-1910
FIM
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Lim aBarreto
Título: CLARA DOS ANJOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 01/07/2005
O carteiro Joaquim dos Anjos n?o era homem de serestas e serenatas; mas gostava de viol?o e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que j? foi muito estimado em outras ?pocas, n?o o sendo atualmente como outrora. Os velhos do Rio de Janeiro, ainda hoje, se lembram do famoso Calado e das suas polcas, uma das quais ? ?Cruzes, minha prima!? ? ? uma lembran?a emocionante para os cariocas que est?o a ro?ar pelos setenta. De uns tempos a esta parte, por?m, a flauta caiu de import?ncia, e s? um ?nico flautista dos nossos dias conseguiu, por instantes, reabilitar o mavioso instrumento – del?cia, que foi, dos nossos pais e av?s. Quero falar do Pat?pio Silva. Com a morte dele a flauta voltou a ocupar um lugar secund?rio como instrumento musical, a que os doutores em m?sica, quer executantes, quer os cr?ticos eruditos, n?o d?o nenhuma import?ncia. Voltou a ser novamente plebeu.
Apesar disso, na sua simplicidade de nascimento, origem e condi??o, Joaquim dos Anjos acreditava-se m?sico de certa ordem, pois, al?m de tocar flauta, compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.
Uma polca sua ? ?Siri sem unha? – e uma valsa ? ?M?goas do cora??o? – tiveram algum sucesso, a ponto de vender ele a propriedade de cada uma, por cinq?enta mil-r?is, a uma casa de m?sicas e pianos da Rua do Ouvidor.
O seu saber musical era fraco; adivinhava mais do que empregava no??es te?ricas que tivesse estudado.
Aprendeu a ?artinha? musical na terra do seu nascimento, nos arredores de Diamantina, em cujas festas de igreja a sua flauta brilhara, e era tido por muitos como o primeiro flautista do lugar. Embora gozando desta fama animadora, nunca quis ampliar os seus conhecimentos musicais. Ficara na “artinha” de Francisco Manuel, que sabia de cor; mas n?o sa?ra dela, para ir al?m.
Pouco ambicioso em m?sica, ele o era tamb?m nas demais manifesta??es de sua vida. Desgostoso com a exist?ncia med?ocre na sua pequena cidade natal, um belo dia, a? pelos seus vinte e dois anos, aceitara o convite de um engenheiro ingl?s que, por aquelas bandas, andava a explorar terras e terrenos diamant?feros. Todos julgavam que o “seu” mister andasse fazendo isso; a verdade, por?m, ? que o s?bio ingl?s fazia estudos desinteressados. Fazia puras e plat?nicas pesquisas geol?gicas e mineral?gicas. O diamante n?o era o fim dos seus trabalhos; mas o povo, que teimava em ver, pelos arredores da cidade, o ventre da terra cheio de diamantes, n?o podia supor que um ingl?s que levava a catar pedras, pela manh? e at? ? noite, tomando notas e com uns instrumentos rebarbativos, n?o estivesse com tais gatimonhas a ca?ar diamantes. N?o havia meio do mister convencer ? simpl?ria gente do lugar que ele n?o queria saber de diamantes; e dia n?o havia em que o s?dito de Sua Graciosa Majestade n?o recebesse uma proposta de venda de terrenos, em que for?osamente havia de existir a preciosa pedra abundantemente, por tais ou quais ind?cios, seguros aos olhos de ?garimpeiro? experimentado.
Logo ao chegar o ge?logo, Joaquim empregou-se como seu pajem, guia, encaixotador, servente, etc., e tanto foi obediente e serviu a contento o s?bio, que este, ao dar por terminadas as suas pesquisas, o convidou a vir ao Rio de Janeiro, encarregando-se de movimentar a sua pedregulhenta ou pedregosa bagagem, at? que ela fosse posta a bordo. O s?bio comprometeu-se a pagar-lhe a estadia no Rio, o que fez, at? embarcar-se para a Europa.
Deu-lhe dinheiro para voltar, um chap?u de corti?a, umas perneiras, um cachimbo e uma lata de fumo Navy Cut; Joaquim j? se havia habituado ao Rio de Janeiro, no m?s e pouco em que estivera aqui, a servi?o do Senhor John Herbert Brown, da Real Sociedade de Londres; e resolveu n?o voltar para Diamantina. Vendeu as perneiras num belchior e o chap?u de corti?a tamb?m; e p?s-se a fumar o saboroso fumo ingl?s no cachimbo que lhe fora ofertado, passeando pelo Rio, enquanto teve dinheiro. Quando acabou, procurou conhecidos que j? tinha; e, em breve, entrou para o servi?o de empregado de escrit?rio de um grande advogado, seu patr?cio, isto ?, mineiro.
-N?o te darei coisa que valha a pena – disse-lhe logo o doutor – mas aqui ir?s travando conhecimentos e podes arranjar coisa melhor mais tarde.
Viu bem que o “doutor” lhe falava a verdade, e toda sua ambi??o se cifrou em obter um pequeno emprego p?blico que lhe desse direito a aposentadoria e a montepio, para a fam?lia que ia fundar. Conseguira, ao fim de dois anos de trabalho, aquele de carteiro, havia bem quatro lustros, com o qual estava muito contente e satisfeito da vida, tanto mais que merecera sucessivas promo??es.
Casara meses depois de nomeado; e, tendo morrido sua m?e, em Diamantina, como filho ?nico, herdara-lhe a casa e umas poucas terras em Inha?, uma freguesia daquela cidade mineira. Vendeu a modesta heran?a e tratou de adquirir aquela casita nos sub?rbios em que ainda morava e era dele. O seu pre?o fora m?dico, mas, mesmo assim, o dinheiro da heran?a n?o chegara, e pagou o resto em presta??es. Agora, por?m, e mesmo h? v?rios anos, estava em plena posse do seu “buraco”, como ele chamava a sua humilde casucha. Era simples. Tinha dois quartos; um que dava para a sala de visitas e outro para a sala de jantar, aquele ficava ? direita e este ? esquerda de quem entrava nela. ? de visitas, seguia-se imediatamente a sala de jantar. Correspondendo a pouco mais de um ter?o da largura total da casa, havia, nos fundos, um puxadito, onde estavam a cozinha e uma despensa min?scula. Comunicava-se esse puxadito com a sala de jantar por uma porta; e a despensa, ? esquerda, apertava o puxado, a jeito de um curto corredor, at? ? cozinha, que se alargava em toda a largura dele. A porta que o ligava ? sala de jantar ficava bem junto daquela, por onde se ia dessa sala para o quintal. Era assim o plano da propriedade de Joaquim dos Anjos.
Fora do corpo da casa, existia um barrac?o para banheiro, tanque, etc., e o quintal era de superf?cie razo?vel, onde cresciam goiabeiras, dois p?s ou tr?s de laranjeiras, um de lim?o-galego, mamoeiros e um grande tamarineiro copado, bem aos fundos.
A rua em que estava situada a sua casa se desenvolvia no plano e, quando chovia, encharcava e ficava que nem um p?ntano; entretanto, era povoada e se fazia caminho obrigado das margens da Central para a long?nqua e habitada freguesia de Inha?ma. Carro??es, carros, autocaminh?es que, quase diariamente, andam por aquelas bandas a suprir os retalhistas de g?neros que os atacadistas lhes fornecem, percorriam-na do come?o ao fim, indicando que tal via p?blica devia merecer mais aten??o da edilidade.
Era uma rua sossegada e toda ela, ou quase toda, edificada ao gosto antigo do sub?rbio, ao gosto do chal?. Estava povoada e edificada quase inteiramente, de um lado e de outro. Dela, descortinava-se um lindo panorama de montanhas de cores cambiantes, conforme fosse a hora do dia e o estado da atmosfera. Ficavam-lhe muito distantes, mas pareciam cerc?-la, e ela, a rua, ser o eixo daquele redondel de montes, em que, pelo dia em fora, pareciam ser iluminados por proje??es luminosas, revestindo-se de toda a gama do verde, de tons azuis; e, pelo crep?sculo, ficavam cobertos de ouro e p?rpura.
Al?m dos cl?ssicos chal?s suburbanos, encontravam-se outros tipos de casas. Algumas relativamente recentes, uns certos requififes e galanteios modernos, para lhes encobrir a estreiteza dos c?modos e justificar o exagero dos alugu?is. Havia, por?m, uma casa digna de ser vista. Erguia-se quase ao centro de uma grande ch?cara e era a caracter?stica das casas das velhas ch?caras dos outros tempos; longa fachada, pouco fundo, teto aca?apado, forrada de azulejos at? a metade do p? direito. Um tanto feia, ? verdade, que ela era, sem garridice; mas casando-se perfeitamente com as mangueiras, com as robustas jaqueiras e os coqueiros petulantes e com todas aquelas grandes e pequenas ?rvores avelhantadas, que, talvez, os que as plantaram n?o as tivessem visto frutificar. Por entre elas, onde se podiam ver vest?gios do antigo jardim, havia estatuetas de lou?a portuguesa, com letreiros azuis. Uma era a ?Primavera?; outra era a “Aurora”; quase todas, por?m, estavam mutiladas; umas, num bra?o; outras n?o tinham cabe?a, e ainda outras jaziam no ch?o, derrubadas dos seus toscos suportes.
Os muros que cercavam a casa, a razo?vel dist?ncia, e mesmo aquele em que se apoiava o gradil de ferro da frente do im?vel, estavam cobertos de hera, que os envolvia em todo ou em parte, n?o como um sud?rio, mas como um severo, cerimonioso e vivo manto de outras ?pocas e de outras gentes, a provocar saudades e evoca??es, animando a ru?na. Hoje, ? raro ver-se, no Rio de Janeiro, um muro coberto de hera; entretanto, h? trinta anos, nas Laranjeiras, na Rua Conde de Bonfim, no Rio Comprido, no Andara?, no Engenho Novo, enfim, em todos os bairros que foram antigamente esta??es de repouso e prazer, encontravam-se, a cada passo, longos muros cobertos de hera, exalando melancolia e sugerindo recorda??es.
Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “ch?cara” habitada pelos propriet?rios respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos “b?blias”. Os seus c?nticos, aos s?bados (era o seu dia da semana de descanso sagrado), entoados quase de hora em hora, enchiam a redondeza e punham na sua audi?ncia uma soturna sombra de misticismo. O povo n?o os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freq?entavam-nos, j? por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, j? por procurarem, em outra casa religiosa que n?o a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, al?m das dores que seguem toda e qualquer exist?ncia humana.
Alguns, entre os quais o Jo?o Pintor, justificavam freq?entar os “b?blias”, porque estes -dizia ele – n?o eram como os padres, que, para tudo, querem dinheiro.
Esse Jo?o Pintor trabalhava nas oficinas do Engenho de Dentro, no of?cio de que proviera o seu apelido. Era um preto retinto, grossos l?bios, malares proeminentes, testa curta, dentes muito bons e muito claros, longos bra?os, manoplas enormes, longas pernas e uns tais p?s, que n?o havia cal?ado, nas sapatarias, que coubessem neles. Mandava-os fazer de encomenda; mas assim mesmo, mal os punha hoje, no dia seguinte tinha que os retalhar ? navalha, se queria dar alguns passos e manquejar menos at? o ?Mafu??.
Dizia o ?Turuna?, adepto do Padre Sodr?, capel?o do Santu?rio de Nossa Senhora de Lourdes, que Jo?o Pintor se metera com os “b?blias”, porque estes lhe haviam dado um quarto, na ch?cara, para ele morar de gra?a, com certas obriga??es pequenas a cumprir. Jo?o Pintor contestava com veem?ncia; o certo, por?m, ? que ele morava na ?ch?cara?.
Chefiava os protestantes um americano, Mr. Quick Shays, homem tenaz e cheio de uma eloq??ncia b?blica, que devia ser magn?fica em ingl?s; mas que, no seu duvidoso portugu?s, se tornava simplesmente pitoresca. Era Shays Quick ou Quick Shays daquela ra?a curiosa de yankees fundadores de novas seitas crist?s. De quando em quando, um cidad?o protestante dessa ra?a que deseja a felicidade de n?s outros, na terra e no c?u, ? luz de uma sua interpreta??o de um ou mais vers?culos da B?blia, funda uma nov?ssima seita, p?e-se a propag?-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais n?o sabem muito bem por que foram para tal nov?ssima religi?ozinha e qual a diferen?a que h? entre esta e a de que vieram.
L?, na sua terra, como aqui, esses pequenos luteros fazem pros?litos; l?, mais do que aqui. Mr. Shays obtinha, nas vizinhan?as do carteiro Joaquim dos Anjos, n?o pros?litos, mas muitos ouvintes, dos quais uma quinta parte afinal se convertia. Quando se tratava de iniciar uma turma, os novi?os dormiam em barracas de campanha, erguidas ao redor da casa, nos v?os existentes entre as velhas ?rvores da ch?cara, maltratada e desprezada.
As cerim?nias preparat?rias ? inicia??o, na religi?o de Mr. Quick Shays, duravam uma semana, farta de jejuns e c?nticos religiosos, cheios de un??o e apelos contritos a Deus, Nosso Pai; e a velha propriedade de recreio, com as barracas militares e salmodias cont?nuas, adquiria um aspecto esquisito e imprevisto, o de convento ao ar livre, mascarado por uma rebarbativa carranca de acampamento guerreiro. Dir-se-ia um destacamento de uma ordem de cavalaria mon?stico-guerreira, que se preparava para combater o turco ou o mouro infiel, na Palestina ou em Marrocos.
Da redondeza, n?o eram muitos os adeptos ortodoxos ? doutrina??o religiosa de Mr. Shays; entretanto, al?m das esp?cies que j? foram aludidas, havia as daqueles que assistiam ?s suas pr?dicas, por mera curiosidade ou para deliciar-se com a orat?ria do pastor americano. O templo estava sempre cheio, nos seus dias solenes.
Os freq?entadores dessa ou daquela natureza l? iam sem nenhuma repugn?ncia, pois ? pr?prio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante am?lgama de religi?es e cren?as de toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e moment?neas agruras de sua exist?ncia. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela para a feiti?aria; se se trata de curar uma mol?stia tenaz e renitente, procura o esp?rita; mas n?o falem ? nossa gente humilde em deixar de batizar o filho pelo sacerdote cat?lico, porque n?o h?, dentre ela, quem n?o se zangue: ?Est? doido! Meu filho ficar pag?o! Deus me defenda!?
Joaquim dos Anjos n?o freq?entava Mr. Shays nem o reverendo Padre Sodr?, do Santu?rio de Nossa Senhora de Lourdes, pois, apesar de ter nascido numa cidade embalsamada de incenso e plena de ecos sonoros de litanias e o cont?nuo repicar de sinos festivos, n?o era animado de grande fervor religioso. Sua mulher, Dona Engr?cia, por?m, o era em extremo, embora fosse pouco ? igreja, devido ?s suas obriga??es caseiras. Ambos, por?m, estavam de acordo num ponto religioso cat?lico-romano: batizar quanto antes os filhos, na Igreja Cat?lica Apost?lica Romana. Foi assim que procederam, n?o s? com a Clara, o ?nico filho sobrevivente, como com os demais, que haviam morrido.
Eram casados h? quase vinte anos, e esta Clara, sua filha, sendo o segundo filho do casal, or?ava pelos seus dezessete anos.
Era tratada pelos pais com muito desvelo, recato e carinho; e, a n?o ser com a m?e ou pai, s? sa?a com Dona Margarida, uma vi?va muito s?ria, que morava nas vizinhan?as e ensinava a Clara bordados e costuras.
No mais, isto era raro e s? acontecia aos domingos, Clara deixava, ?s vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do M?ier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava a acompanh?-la, porque Joaquim n?o se prestava, pois n?o gostava de sair aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predileto de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher n?o s? n?o gostava de sair aos domingos, como em outro dia da semana qualquer. Era sedent?ria e caseira.
Os companheiros habituais do solo com Joaquim eram quase sempre estes dois: o Senhor Ant?nio da Silva Marramaque, seu compadre, pois era padrinho de sua filha ?nica; e o Senhor Eduardo Laf?es. N?o variavam. Todos os domingos, a? pelas nove horas, l? batiam ? porteira da casa do “postal”; n?o entravam no corpo da habita??o e, pelo corredor que mediava entre ela e a vizinha, dirigiam-se ao grande tamarineiro, aos fundos do quintal, debaixo do qual estava armada a mesa, com os seus tentos, vermelhos e pupilas negras, de gr?o de aroeira, o seu baralho, os seus pires, um c?lice e um litro de parati, ao centro, muito pimp?o e arrogante, impondo um c?nico desafio ?s conveni?ncias protocolares.
Joaquim dos Anjos j? esperava, lendo o jornal de sua predile??o. Mal chegavam, trocavam algumas palavras, sentavam-se, “molhavam a palavra”, no litro de cacha?a, e punham-se a jogar. Ficha a vint?m.
Horas e horas, esperando o “ajantarado”, que quase sempre ia para a mesa ? hora do jantar habitual, deixavam-se ficar jogando, bebericando aguardente, sem dar uma vista d’olhos sobre as montanhas circundantes, nuas e pedroucentas, que recortavam o alto horizonte.
De quando em quando, mas sem grandes espa?os, Joaquim gritava para a cozinha:
-Clara! Engr?cia! Caf?!
De l?, respondiam, com algum amuo na voz:
-J? vai!
? que as duas mulheres, para preparar o caf?, tinham que retirar, de um dos dois fogareiros de carv?o vegetal, uma panela do ?ajantarado? que aprontavam, a fim de aquecer o caf? reclamado; e isto lhes atrasava o jantar.
Enquanto esperavam o caf?, os tr?s suspendiam o jogo e conversavam um pouco. Marramaque era e sempre havia sido mais ou menos pol?tico, a seu modo.
Embora atualmente fosse um simples cont?nuo de minist?rio, em que n?o fazia o servi?o respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparal?tico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de bo?mios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita pol?tica, h?bito que lhe ficou. Quando veio a revolta de 93, a roda se dissolveu. Uns foram acompanhar o Almirante Cust?dio; e outros, o Marechal Floriano. Marramaque foi um destes e at? obteve as honras de alferes do Ex?rcito. Por a? ? que teve a primeira congest?o, isto ?, nos fins do governo do marechal, em 94.
A sua roda n?o tinha ningu?m de destaque, mas alguns eram estim?veis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava epis?dios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Lu?s Murat. N?o mentia, enquanto n?o confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo liter?rio. Os que o conheciam, daquela ?poca, n?o ocultavam o t?tulo com que partilhava a honra de ser membro de um cen?culo po?tico. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu car?ter fizeram-lhe ver logo que n?o dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um h?bil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de bo?mia liter?ria, poetas e literatos, improvisavam do p? para a m?o, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de cont?nuo, para ter com que viver. Os seus m?ritos e saber, por?m, n?o estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. Tivera, em mo?o, uma boa conviv?ncia. Estava a? o segredo de sua ilustra??o. Marramaque, apesar de tudo, do seu estado de sa?de, da sua dificuldade de locomover-se, n?o deixava a mania in?cua da pol?tica e ia votar, com risco de se ver envolvido num barulho de sufr?gio universal, puxado a navalha, rabo-de-arraia, cabe?adas, tiros de rev?lver e outras eloq?entes manifesta??es eleitorais, das quais, em raz?o do seu prec?rio estado de pernas, n?o poderia fugir com seguran?a e a necess?ria rapidez.
Tendo vivido em rodas de gente fina – como j? vimos – n?o pela fortuna, mas pela educa??o e instru??o; tendo sonhado outro destino que n?o o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento – Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista. Naquele domingo, ele o tirara para falar mal do doutor Saulo de Clapin.
-Voc?s v?o ver: o Clapin est? a?, est? morto na pol?tica. Teve o topete de ir contra a corrente popular, espetou-se. Quem ganhou foi o barbudo Melo Brand?o, esse judeu mesti?ado. ? um safad?o, mas ? mestre na pol?tica.
Joaquim se interessava mediocremente por essa hist?ria de pol?tica: mas Laf?es tinha as suas paix?es no neg?cio e acudiu:
-Qual o qu?! Ent?o voc? pensa, Marramaque, que um homem inteligente, t?o superior, como o doutor Clapin, vai deixar-se embrulhar por um trapaceiro de atas e coisas piores como o Melo Brand?o! Qual o qu?! Demais, o operariado…
-O que ? que ele tem feito pelo operariado? – pergunta Marramaque.
-Muito.
Laf?es n?o era oper?rio, como se poderia pensar. Era guarda das obras p?blicas. Portugu?s de nascimento, viera menino para o Brasil, isto h? mais de quarenta anos; entrara muito cedo para a reparti??o de ?guas da cidade, chamara a aten??o dos seus superiores pelo rigor de sua conduta; e, aos poucos, fizeram-no chegar a seu generalato de guarda de encanamentos e de torneiras que vazassem nos tanques de lavagem das casas particulares. Vivia muito contente com a sua posi??o, a sua portaria de nomea??o, a sua carta de naturaliza??o, e, talvez, n?o estivesse tanto, se tivesse enriquecido de centenas de contos de r?is. Assim tudo fazia crer, pois era de ver a import?ncia ing?nua do camp?nio que se faz qualquer coisa do Estado, e a solenidade de maneiras com que ele atravessava aquelas virtuais ruas dos sub?rbios.
Trazia sempre a farda de c?qui e o bon? com as iniciais da reparti??o; um chap?u-de-sol de cabo, que, quando n?o o trazia aberto, a proteg?-lo contra os raios do sol, manejava como a bengala de um vig?rio de aldeia portuguesa, furando o ch?o e levantando-o, para pous?-lo de novo, ? medida que executava as suas longas passadas.
Laf?es respondeu assim a Marramaque:
-Muito. Em todas as comiss?es por que o doutor Clapin tem passado, sempre procura dar trabalho ao maior n?mero de oper?rios.
-Grande servi?o! Arrebenta as verbas; no fim de dois ou tr?s meses, despede mais da metade… Isto n?o se chama proteger; chama-se engazopar.
-Seja, mas ele ainda faz isso, e os outros? N?o fazem nada. De resto, ? um homem democrata. Desde muito que se bate pela igualdade entre os servidores da na??o. N?o quer distin??o entre funcion?rios p?blicos e jornaleiros. Quem serve ? na??o, seja em que servi?o for, ? funcion?rio p?blico.
-Honrarias! Isto n?o enche barriga! Por que ele n?o trabalha para diminuir a carestia da vida e dos alugu?is de casa?
-Homessa, Marramaque! Voc? n?o leu o projeto dele sobre constru??o de casas para fam?lias pobres e modestas? Voc? n?o leu, Joaquim?
O carteiro, que vinha ouvindo a conversa sem dar opini?o, ? interpela??o de Laf?es, interveio:
-Li, de fato; mas li tamb?m que ele havia aumentado os alugu?is de suas casas, que s?o in?meras, de quarenta por cento.
-? isto! – acudiu com pressa Marramaque. – Clapin ? muito generoso com o dinheiro dos outros, do Estado. Com o dele, ? de uma sovinice de judeu e de uma gan?ncia de agiota. Jesu?ta!
Felizmente Clara chegava com o caf?. A conversa apaixonada cessava, e os dois convivas de Joaquim recebiam os cumprimentos da menina:
-A b?n??o, meu padrinho; bom-dia, Seu Laf?es.
Eles respondiam e punham-se a pilheriar com Clara.
Dizia Marramaque:
-Ent?o, minha afilhada, quando se casa?
-Nem penso nisso – respondia ela, fazendo um trejeito faceiro.
-Qual! – observa Laf?es. – A menina j? tem algum de olho. Olhe, no dia dos seus anos… ? verdade, Joaquim: uma coisa.
O carteiro descansou a x?cara e perguntou:
-O que ??
-Queria pedir a voc? autoriza??o para c? trazer, no dia dos anos, aqui da menina, um mestre do viol?o e da modinha.
Clara n?o se conteve e perguntou apressada:
-Quem ??
Laf?es respondeu:
-? o Cassi. A menina…
O guarda das obras p?blicas n?o p?de acabar a frase. Marramaque interrompeu-o furioso:
-Voc? d?-se com semelhante p?stula? ? um sujeito que n?o pode entrar em casa de fam?lia. Na minha, pelo menos…
-Por qu?? – indagou o dono da casa.
-Eu direi, daqui a pouco; eu direi por qu? – fez Marramaque transtornado.
Acabaram de tomar caf?. Clara afastou-se com a bandeja e as x?caras, cheia de uma forte, tenaz e mals? curiosidade:
-Quem seria esse Cassi?
___________________________
Fonte: BARRETO, Lima. Clara dos Anjos: romance. Pref?cio de S?rgio Buarque de Holanda. S?o Paulo: Brasiliense, 1956. p. 31-43.
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Lima Barreto
Título: OS BRUZUNDANGAS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/02/2006
OS BRUZUNDANGAS
Lima Barreto
Hais tous maux o? qu’ils soient,
tr?s doux Fils.
Joinville. S?o Lu?s.
PREF?CIO
Na Arte de furtar, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, h? um cap?tulo, o quarto, que tem como ementa esta singular afirma??o: “Como os maiores ladr?es s?o os que t?m por oficio livrar?nos de outros ladr?es”.
N?o li o cap?tulo, mas abrindo ao acaso um exemplar do curioso livro, achei verdadeira a cousa e boa para justificar a publica??o destas despretensiosas “Notas”.
A “Bruzundanga” fornece mat?ria de sobra para livrar?nos, a n?s do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos. Sua miss?o ?, portanto, como a dos “maiores” da Arte, livrar?nos dos outros, naturalmente menores.
Bem precisados est?vamos n?s disto quando temos aqui ministros de Estado que s?o simples caixeiros de venda, a roubar?nos muito modestamente no peso da carne?seca, enquanto a Bruzundanga os tem que se ocupam unicamente, no seu of?cio de ministro, de encarecerem o a??car no mercado interno, conseguindo isto com o vend??lo abaixo do pre?o da usina aos estrangeiros. L?, chama?se a isto prover necessidades p?blicas; aqui, n?o sei que nome teria…
E semelhante ministro daqueles “maiores” de que a Arte nos fala, destinados a ensinar?nos como nos livrar dos nossos modestos caixeiros de mercearias ministeriais.
N?o contente com ter dessas cousas, a Bruzundanga possui outras muitas que desejava enumerar todas, pois todas elas s?o dignas de apre?o e portadoras de ensinamentos proveitosos.
Como n?o poder?amos aproveitar aquele caso de um doutor da Bruzundanga, ele mesmo a?ambarcador de cebolas, que vai para uma comiss?o, nomeada para estudar as causas da carestia da vida, e prop?e que se adotem leis contra os estancadores de mercadorias?
? que este doutor dos “maiores” de que nos fala o c?lebre livrinho sabia perfeitamente que n?o estancava e tinha o h?bito de reservas mentais. N?o a?ambarcava, mas “aliviava” logo uma grande por??o de mercadorias para o estrangeiro, por qualquer cousa, de modo que… Le pauvre homme! Podia at? iludir o nosso pobre Peckmann!
Com este exemplo, os menores daqui poder?o ser denunciados por este grandalh?o de l?, t?o generoso e desinteressado, e o nosso povo poder? livrar?se deles.
Conheci na Bruzunganga um rapaz (creio que est? nas “Notas”), de rabona de sarja e ares de familiar do Santo Of?cio, mas tresandando a Comte, sen?o a anticlericalismo, que, de uma hora para a outra, se fez reitor do Asilo de Enjeitados, apandilhado com padres e frades, depois de ter arranjado um rico casamento eclesi?stico, a fim de ver se, com o apoio da sotaina e do solid?u, se fazia ministro ou mesmo mandachuva da Rep?blica. Que “maior” n?o acham?
E aquele que, tendo sido ministro do imperador da Bruzundanga e seu conselheiro, se transformou em a?ougueiro para vender carne aos vizinhos a dez mil?r?is de mel coado, gra?as ?s isen??es que obteve com o prest?gio do seu nome, dos seus amigos, da sua fam?lia e das suas antigas posi??es, enquanto os seus patr?cios pagavam?lhe o dobro?
Quantos exemplos de l?, bem grandes, nos ir?o precaver contra os pequeninos de c?… A Arte fala a verdade…
Outra cousa curiosa da Bruzunganga, das grandes, das extraordin?rias, ? a sua “Defesa Nacional”.
L?, como em toda a parte, se devia entender por isso a aquisi??o de armamentos, muni??es, equipamentos, adestramento de tropas, etc., mas os doges do Kaphet (vide texto) entenderam que n?o; que era dar?lhes dinheiro, para elevar artificialmente o pre?o de sua especiaria. De que modo? Retendo o produto, proibindo?lhe a exporta??o desde certo limite, conquanto se houvessem tenazmente oposto a que semelhante medida fosse tomada no que toca ?s utilidades indispens?veis a nossa vida: cereais, carnes, algod?o, a??car, etc.
? preciso notar que tais utilidades, como j? fiz notar, iam para o estrangeiro por metade do pre?o, menos at?.
Aprendamos por a? a conhecer os nossos “menores”.
Poderia muito bem falar de outros grossos casos de li, capazes de nos livrar doa tais pequenos daqui; mas, para qu??
As p?ginas que se seguem v?o rev??los e eu me dispenso de narr??los neste curto pref?cio, Pobre terra da Bruzundanga! Velha, na sua maior parte, como o planeta, toda a sua miss?o tem sido criar a vida e a fecundidade para os outros, pois nunca os que nela nasceram, as que nela viveram, os que a amaram e sugaram?lhe o leite, tiveram sossego sobre o seu solo!
Ainda hoje, quando o ge?logo encontra nela um queixal de Magatherium ou um f?mur de Propithecus tem vontade de oferecer ? Minerva uma hecatombe de bois brancos!
Vivos, os bona s?o tangidos daqui para ali, corridos, vexados, se t?m grandes ideais; mortos, os seus ossos esperam que os grandes rios da Bruzunganga os levem para fecundar a terra dos outros, l? embaixo, muito longe…
Tudo nela ? caprichoso, e v?rio e irregular. Aqui terreno f?rtil, ?bere; acol?, bem perto, est?ril, arenoso.
Se a jusante sobra cal, falta ?gua; se h? para montante, falta cal…
As suas florestas s?o caprichosas tamb?m; as ess?ncias n?o se associam. Vivem orgulhosamente isoladas, tornando?lhes penosa a explora??o. Aqui, est? uma esp?cie e outra semelhante s? s? encontrar? mais al?m, distante…
Envelheceu, est? caduca e tudo que vem para ela sofre?lhe o cont?gio da sua antiguidade: caduquece!
Contudo, e talvez por isso memmo, os seus costumes e h?bitos podem servir?nos de ensinamento, pois, conforme a Arte de furtar diz: “os maiores ladr?es s?o os que t?m por of?cio livrar?nos de outros ladr?es”.
Por interm?dio dos dela, dos dessa velha e ainda rica terra da Bruzundanga, livremo?nos dos nossos: ? o escopo deste pequeno livro.
LIMA BARRETO
Todos os Santos, 2?9?1917.
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Lima Barreto
Título: Os samoiedas
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/06/2006
CAPÍTULO ESPECIAL
Os samoiedas
Vazios estais de Cristo, v?s que vos justificais
pela lei; da gra?a tendes ca?do.
S?o Paulo, aos G?latas
Queria evitar, mas me vejo obrigado a falar na literatura da Bruzundanga. E um cap?tulo dos mais delicados, para tratar do qual n?o me sinto completamente habilitado. Dissertar sobre uma literatura estrangeira sup?e, entre muitas, o conhecimento de duas cousas primordiais : id?ias gerais sobre literatura e compreens?o f?cil do idioma desse povo estrangeiro. Eu cheguei a entender perfeitamente a l?ngua da Bruzundanga, isto ?, a l?ngua falada pela gente instru?da e a escrita por muitos escritores que julguei excelentes; mas aquela em que escreviam os literatos importantes, solenes, respeitados, nunca consegui entender, porque redigem eles as suas obras, ou antes, os seus livros, em outra muito diferente da usual, outra essa que consideram como sendo a verdadeira, a l?dima, justificando isso por ter fei??o antiga de dous s?culos ou tr?s. Quanto mais incompreens?vel ? ela, mais admirado ? o escritor que a escreve, por todos que n?o lhe entenderam o escrito.
Lembrei?me, por?m, que as minhas noticias daquela distante rep?blica n?o seriam completas, se n?o desse algumas informa??es sobre as suas letras; e resolvi vencer a hesita??o imediatamente, como agora ven?o.
A Bruzundanga n?o podia deixar de t??las, pois todo o povo, tribo, cl?, todo o agregado humano, enfim, tem a sua literatura e o estudo dessas literaturas muito tem contribu?do para n?s nos conhecermos a n?s mesmos, melhor nos compreendermos e mais perfeitamente nos ligarmos em sociedade, em humanidade, afinal.
Seria uma falha minha nada dizer eu sobre as belas?letras da Bruzundanga que as tem como todos os pa?ses, a n?o ser o nosso que, conforme sentenciou a Gazeta de Not?cias, n?o merece t??las, pois o literato n?o tem fun??o social na nossa sociedade, provocando tal opini?o o protesto de um soci?logo inesperado. Devem estar lembrados deste epis?dio ? creio eu. Continuemos, por?m, na Bruzundanga.
Nela, h? a literatura oral e popular de c?nticos, hinos, modinhas, f?bulas, etc; mas todo esse folclore n?o tem sido coligido e escrito, de modo que, dele, pouco lhes posso comunicar.
Por?m, um canto popular que me foi narrado com todo o sabor da ingenuidade e dos modismos peculiares ao povo, posso reproduzir aqui, embora a reprodu??o n?o guarde mais aquele encanto de frase simples e imagens familiares das an?nimas narra??es das coletividades humanas.
Na vers?o dos populares da curiosa rep?blica, o conto se intitula ?o General e o diabo? ? havendo uma variante sob a alcunha de ?O padre e o diabo?. Como n?o tivesse de cor nem as palavras da vers?o mais geral, nem as da variante, aproveitei o tema, alguma cousa do corpo da “hist?ria” e narro?a aqui, certamente muito desfigurada, sob a crisma de:
SUA EXCEL?NCIA
O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento, Ansiava estar s?, s? com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coup? depressa, s?frego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, for?a, valor, vaidade.
Todo ele era um po?o de certeza. Estava certo do seu valor intr?nseco; estava certo das suas qualidades extraordin?rias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a defer?ncia universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convic??o geral de ser ele o resumo do pa?s, a encarna??o dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determina??es das coisas, acertadamente, haviam?no erguido at? ali, e mais alto lev??lo?iam, visto que s? ele, ele s? e unicamente, seria capaz de fazer o pa?s chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham…
E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou?se do seu discurso de ainda agora: ?Na vida das sociedades, como na dos indiv?duos?…
Que maravilha! Tinha algo de filos?fico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou?se dele por inteiro:
?Arist?teles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como S?lon, Justiniano, Portalis e Bhering, todos os fil?sofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes?…
O olhar, muito brilhante, cheio de admira??o ? o olhar do leader da oposi??o ? foi o mais seguro penhor do efeito da frase…
E quando terminou! Oh!
?Senhor, o nosso tempo ? de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!?
A cerim?nia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.
O audit?rio delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande sal?o iluminado, pareceu?lhe que recebia as palmas da Terra toda.
O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um s? tra?o de fogo; depois sumiram?se.
O ve?culo agora corria vertiginosamente dentro de uma n?voa fosforescente. Era em v?o que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; n?o havia contornos, formas, onde eles pousassem.
Consultou o rel?gio. Estava parado? N?o; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua sa?da da festa.
? Cocheiro, onde vamos?
Quis arriar as vidra?as. N?o p?de; queimavam.
Redobrou os esfor?os, conseguindo arriar as da frente.
Gritou ao cocheiro:
? Onde vamos? Miser?vel, onde me levas?
Apesar de ter o carro algumas vidra?as arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as gr??cruzes magn?ficas. Gra?as a Deus, ainda n?o se haviam derretido. O Le?o da Birm?nia, o Drag?o da China, o Ling?o da ?ndia estavam ali, entre todas as outras, intactas.
? Cocheiro, onde me levas?
N?o era o mesmo cocheiro, n?o era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, n?o era o seu fiel Manuel!
? Canalha, p?ra, p?ra, sen?o caro me pagar?s!
O carro voava e o ministro continuava a vociferar:
? Miser?vel! Traidor! P?ra! P?ra!
Em uma dessas vezes voltou?se o cocheiro; mas a escurid?o que se ia, aos poucos fazendo quase perfeita, s? lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, met?lico e cortante. Pareceu?lhe que estava a rir?se.
O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. N?o podendo suportar o calor, despiu?se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as cal?as…
Sufocado, estonteado, parecia?lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus bra?os, seu tronco e sua cabe?a dan?avam, separados.
Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu?se vestido com uma reles libr? e uma grotesca cartola, cochilando ? porta do pal?cio em que estivera ainda h? pouco e de onde, sa?ra triunfalmente, n?o havia minutos.
Nas proximidades um coup? estacionava.
Quis verificar bem as coisas circundantes; mas n?o houve tempo.
Pelas escadas de m?rmore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu?lhe isso) descia os degraus, envolvido no fard?o que despira, tendo no peito as mesmas magn?ficas gr??cruzes…
Logo que o personagem pisou na soleira, de um s? ?mpeto aproximou?se e, abjectamente, como se at? ali n?o tivesse feito outra coisa, indagou:
? Vossa Excel?ncia quer o carro?
Como esta h?, na Bruzundanga, muitas outras ?hist?rias? que correm de boca em boca e se transmitem de pai a filho.
Os literatos, propriamente, aqueles de bons vestu?rios e ademanes de encomenda, n?o lhes d?o import?ncia, embora de todo n?o desprezem a literatura oral. Ao contr?rio: todos eles quase n?o t?m propriamente obras escritas; a bagagem deles consta de confer?ncias, poesias recitadas nas salas, m?ximas pronunciadas na intimidade de amigos, discursos em batizados ou casamentos, em banquetes de figur?es ou em cerim?nias escolares, cifrando?se, as mais das vezes, a sua obra escrita em uma plaquette de fantasia de menino, colet?neas de ligeiros artigos de jornal ou num ma?udo comp?ndio de aula, vendidos, na nossa moeda, ? raz?o de quinze ou vinte mil?r?is o volume.
Estes tais s?o at? os escritores mais estimados e representativos, sobretudo quando empregam palavras obsoletas e s?o m?dicos com larga freguesia.
S?o eles l?, na Bruzundanga, conhecidos por “expoentes” e n?o h? mo?a rica que n?o queira casar com eles. Fazem?no depressa porque vivem pouco e menos que os seus livros afortunados. H? outros aspectos. Vamos ver um peculiar.
O que caracteriza a literatura daquele pa?s, ? uma curiosa escola liter?ria l? conhecida por “Escola Samoieda”.
N?o que todo o escritor bruzundanguense perten?a a semelhante rito liter?rio; os mais pretensiosas, por?m, e os que se t?m na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. Digo “caracteriza”, porque, como os senhores ver?o no correr destas notas, n?o h? na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao ?mago das cousas que fingem amar, de decifr??las pelo amor sincero em que as t?m, de quer??las totalmente, de absorv??las. S? querem a apar?ncia das cousas. Quando (em geral) v?o estudar medicina, n?o ? a medicina que eles pretendem exercer, n?o ? curar, n?o ? ser um grande m?dico, ? ser doutor; quando se fazem oficiais do ex?rcito ou da marinha, n?o ? exercer as obriga??es atinentes a tais profiss?es, tanto assim que fogem de executar o que ? pr?prio a elas. V?o ser uma ou outra cousa, pelo brilho do uniforme. Assim tamb?m s?o os literatos que simulam s??lo para ter a gl?ria que as letras d?o, sem querer arcar com as dores, com o esfor?o excepcional, que elas exigem em troca. A gl?ria das letras s? as tem, quem a elas se d? inteiramente; nelas, como no amor, s? ? amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com f? cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam?se com as apar?ncias liter?rias e a banal simula??o de notoriedade, umas vezes por incapacidade de intelig?ncia, em outras por instru??o insuficiente ou viciada, quase sempre, por?m, por falta de verdadeiro talento po?tico, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfar?ar os defeitos com pelotiquices e passes de m?gica intelectuais.
Tendo convivido com alguns poetas samoiedas, pude estudar um tanto demoradamente os princ?pios te?ricos dessa escola e julgo estar habilitado a lhes dar um resumo de suas regras po?ticas e da sua est?tica.
Esses poetas da Bruzundanga, para dar uma origem altissonante e misteriosa ? sua escola, sustentam que ela nasceu do poema de um pr?ncipe samoieda, que viveu nas margens do ?rtico, nas proximidades do ?bi ou do Lena, na Sib?ria, um original que se alimentava da carne de mamutes conservados h? centenas de s?culos nas geleiras daquelas regi?es.
Essa esp?cie de alimenta??o do long?nquo pr?ncipe poeta dava aos olhos de todos eles, singular prest?gio aos seus versos e aos do fundador, embora pouco eles os conhecessem.
O pr?ncipe chamava?se Tuque?Tuque Fit?Fit e o seu poema Parik?ithont Vakochan, o que quer dizer no nosso cal?o. ? O sil?ncio das renas no campo de gelo.
Tuque?Tuque Fit?Fit era descrito pelos “samoiedas” da Bruzundanga como sendo uma beleza sem par e triunfal entre as deidades daquelas regi?es ?rticas.
Tudo isto era fant?stico, mas gra?as ? credulidade dos s?bios do pa?s, s? um ou outro desalmado tinha a coragem de contestar tais lendas.
Como todos n?s sabemos, a ra?a samoieda ? de estatura baixa, pouco menos que a dos lap?es, cabelos longos, duros e negros de jade, vivendo da carne de renas, de urso branco, quando a felicidade lhe fornece um. Tais homens andam em tren?s e fazem kayacs de peles de renas ou focas que eles empregam para capturar estas ?ltimas.
As suas concep??es religiosas s?o reduzidas, e os seus ?dolos, manipansos hediondos, tocos de pau besuntados de pinturas incoerentes. Vestem?se, os samoiedas, com peles de renas e outros animais hiperb?reos.
Entretanto, na opini?o dos poetas daquela rep?blica, que dizem seguir as teorias da literatura do Oceano ?rtico, n?o s?o os samoiedas assim, como o contam os mais autorizados viajantes; mas sim os mais belos esp?cimens da ra?a humana, possuindo uma civiliza??o digna da Gr?cia antiga.
Esta Gr?cia serve para tudo, especialmente na Bruzundanga…
Em geral, os vates bruzundanguenses adeptos da tal escola samoieda, como os senhores v?em, n?o primam pela ilustra??o; e, quando se conteste no tocante ? beleza de tais esquim?s, respondem categoricamente que a devem ter extraordin?ria, pois quanto mais fria ? a regi?o, mais belos s?o os tipos, mais altos, mais louros, e os samoiedas vivem em zona frigid?ssima.
N?o h? como discutir com eles, porque todos se guiam por id?ias feitas, receitas de julgamentos e nunca se aventuram a examinar por si qualquer quest?o, preferindo resolv??las por generaliza??es quase sempre recebidas de segunda ou terceira m?o, dilu?das e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabe?a para outra cabe?a.
Atribuem, sem base alguma, a esse tal Tuque?Tuque a funda??o da escola, apesar de nunca lhe terem lido as poesias nem a sua arte po?tica.
Sempre procurei saber por que se enfeitavam com esse ex?tico avoengo; as raz?es psicol?gicas, eu as encontrei na vaidade deles, no seu desejo de disfar?ar a sua in?pia po?tica com um padrinho esquisito e misterioso; mas o n?cleo da lenda, o gr?ozinho de areia em torno do qual se concretizava o mito ?rtico da escola, s? ultimamente pude encontrar.
Consegui descobrir entre os livros de um ingl?s meu amigo, Senhor Parsons, um volume do Senhor H. T. Switbilter, de Bristol (Inglaterra) ? Literature of the Stingy Peoples; e encontrei nele alguns versos samoiedas.
S?o an?nimos, mas o estudioso de Bristol declara que os recolheu da boca de um certo Tuck?Tuck, samoieda de na??o, que ele conheceu em 1867, quando foi encarregado pela Sociedade Paleontol?gica de Bristol de descobrir na embocadura dos grandes rios da Sib?ria monstros antediluvianos conservados no gelo, como escaparam de encontrar, quase intactos, o naturalista Pallas, nos fins do s?culo XVIII, e o viajante Adams, em 1806. A hist?ria do tal pr?ncipe Tuque?Tuque alimentar?se de carne de elefantes f?sseis, parece ter origem no fato bem sabido de terem os c?es devorado as carnes do mamute, cujo esqueleto Adams trouxe para o museu de S?o Petersburgo; e o pr?ncipe j? sabemos quem ?.
O Senhor Switbilter pouco acrescenta a algumas poesias que publica; e as que est?o no volume, traduzidas, s?o por demais monstruosas, sempre com um mesmo pensamento denunciando uma concep??o estreita da vida e do universo, muito explic?vel em b?rbaros glaciais.
O viajante ingl?s que conhece o samoieda, entretanto, diz aqui e ali, que elas s?o enf?ticas, sem quantidade de sentimento ou um acento musical agrad?vel e individual, descaindo quase sempre para a melop?ia ou o “tant?” ignaro, quando n?o alternam uma cousa e outra.
Mas n?o foi no livro do Senhor Switbilter que os augustos poetas da Bruzundanga foram encontrar as bases da sua escola. Eles n?o conhecem esse autor, pois nunca os vi cit??lo.
Eles, os “samoiedas” da Bruzundanga, encontraram o mestre nos escritos de um tal Chamat ou Chalat, um aventureiro franc?s que parece ter estado no pa?s daquela gente ?rtica, aprendido um pouco da l?ngua dela e se servido do livro do viajante ingl?s para defender uma po?tica que lhe viera ? cabe?a.
Esse Chamat ou Chalat, Flaubert, quando esteve no Egito, encontrou?o por l?, como m?dico do ex?rcito quedival; e ele se ocupava nos ?cios de sua prov?vel mendic?ncia em rimar uma trag?dia cl?ssica, Abdelc?der, em cinco atos, onde havia um c?lebre verso de que o grande romancista nunca se esqueceu. ?, o seguinte:
“C’est de Id par Allah! qu’ Abd?Allah s’en alla”.
O escul?pio do Cairo insistia muito nele e esfor?ava?se por demonstrar que, com semelhante “harmonia imitativa” como os antigos chamavam, obtinha traduzir, em verso, o sonido do galope de cavalo.
Havia mais belezas de igual quilate e outras originalidades. N?o obstante, quando apareceu, foi um louco sucesso de riso muito parecido com o do Tremor de terra de Lisboa, aquela c?lebre trag?dia do cabeleireiro Andr?, a quem Voltaire invejou e escreveu, entretanto, ao receber?lhe a obra, que continuasse a fazer sempre cabeleiras ? ?toujours des perruques?, Senhor Andr?.
Chalat afrontou a cr?tica e n?o podendo defender?se com os cl?ssicos franceses, apelou para a poesia em l?ngua samoieda, que conhecia um pouco por ter sido marinheiro de um baleeiro que naufragou nas proximidades da terra desses lap?es, entre os quais passou alguns meses. N?o desconhecia o livro do Senhor Switbilter, como tive ocasi?o de verificar nos fragmentos de um seu tratado po?tico, citado na tradu??o da obra de um seu disc?pulo basco por onde os “samoiedas” da Bruzundanga estudaram a escola que verdadeiramente Chalat ou Chamat fundara.
O seu desafio ? cr?tica, escudado na po?tica e est?tica das margens do glacial ?rtico, trouxe?lhe logo uma certa notoriedade e disc?pulos.
Estes vieram muito naturalmente, pois, dada a indig?ncia mental daquela esp?cie de esquim?s, a sua pobreza de impress?es e sensa??es, a sua incapacidade para as id?ias gerais, os hinos, os c?nticos, os rond?s dos mesmos, citados pelo medicastro, facilitavam muito o of?cio de fazer verso, desde que se tivesse paci?ncia; e a facilidade seduziu muitos dos seus patr?cios e determinou a admira??o dos bardos bruzundanguenses.
Os disc?pulos de Chalat ou Chamat tiraram da sua obra regras infal?veis para fazer poetas e poesias e um certo at? aplicou a teoria dos erros ? sua arte po?tica.
A instru??o do grosso dos menestr?is bruzundanguenses n?o permitia esse apelo ? matem?tica; e contentaram?se com umas regras simples que tinham na ponta da l?ngua, como as beatas as rezas que n?o lhes passam pelo cora??o, e outros desenvolvimentos te?ricos.
Era pois essa po?tica e essa est?tica que dominavam entre os literatos da Bruzundanga; era assim como o seu dogma de arte donde se originavam as suas f?rmulas lit?rgicas, o seu ritual, os seus esconjuros, enfim, o seu culto ? tal harmonia imitava, que tanto prezava Chalat.
Al?m desta deusa, havia outras divindades: o ritmo, o estilo, a nobreza das palavras, a aristocracia dos assuntos e dos personagens, quando faziam romances, contos ou drama e a medi??o dos versos que exigiam fosse feita como se se tratasse da base de uma triangula??o geod?sica. Ningu?m, no entanto, podia sacar?lhes da cabe?a uma concep??o geral e larga de arte ou obter o motivo deles conceberem separados da obra d’arte, esses acess?rios, transformando?os em puros manipansos, fetiches, isolando?os, fazendo?os perder a sua fun??o natural que sup?e sempre a obra liter?ria como fim.
? ela, a sua concep??o, a id?ia anterior que a domina e o seu destino necess?rio, que unicamente regulam o emprego deles, graduam o seu uso, a sua necessidade, e como que ela mesma os dita.
Todos os samoiedas limitavam?se quando se tratava dos tais assuntos, a falar muito de um modo confuso, esotericamente, em forma e fundo, com trejeitos de feiticeiros tribais.
N?o nego que houvesse entre eles alguns de valor, mas os preconceitos da escola os matavam.
A maioria ia para ela, porque era c?moda no fundo, pois n?o pedia se comunicasse qualquer emo??o, qualquer pensamento, qualquer importante revela??o de nossa alma que interessasse outras almas; que se dissesse usando dos processos art?sticos, novos ou velhos, de um pouco do universal que h? em n?s, alguma cousa do mist?rio do universo que o nosso esp?rito tivesse percebido e determinasse transmiti?la; enfim um julgamento, um conceito que pudesse influir no uso da vida, na nossa conduta e no problema do nosso destino, empregando os fatos simples, elementares, as imagens e os sons que por si s?s n?o exprimiriam a id?ia que se procura, mas que se acha com eles e se vai al?m por meio deles.
Isto de Hegel, de Taine, de Bruneti?re n?o era com os samoiedas; a quest?o deles era encontrar uma esp?cie de tabuada que lhes fizesse multiplicar a versalhada. Como as tais regras po?ticas do suposto pr?ncipe eram bem acess?veis ? sua paci?ncia de correcionais, adotaram?nas como artigos de f?, exageraram?nas at? ao absurdo.
Convinham elas por ir ao encontro da sua falta de uma larga intelig?ncia do mundo e do homem e facilitar?lhes uma cr?tica terra?a?terra de seminaristas mnem?nicos.
Para mais perfeito ensinamento dos leitores vou?lhes repetir um trecho de conversa que ouvi entre tr?s dos tais poetas da Bruzundanga, adeptos extremados da Escola Samoieda.
Quando cheguei, eles j? estavam sentados em torno da mesa do caf?.
Acabava eu de assistir uma aula de geologia na Faculdade de Ci?ncias do pa?s; o meu esp?rito vinha cheio de silhuetas de monstros de outras ?pocas geol?gicas. Eram ictiossauros, megat?rios, mamutes; era do sinistro pterod?ctilo que eu me lembrava; e n?o sei por que, quando deparei os tr?s poetas samoiedas, me deu vontade de entrar no botequim e tomar parte na conversa deles.
A Bruzundanga, como sabem, fica nas zonas tropical e subtropical, mas a est?tica da escola pedia que eles se vestissem com peles de urso, de renas, de martas e raposas ?rticas.
? um vestu?rio barato para os samoiedas aut?nticos, mas car?ssimo para os seus parentes liter?rios dos tr?picos.
Estes, por?m, crentes na efic?cia da vestimenta para a cria??o art?stica, morrem de fome, mas vestem?se ? moda da Sib?ria.
Estavam assim vestidos, naquela tarde, quente, ali naquele caf? da capital da Bruzundanga, tr?s dos seus novos e soberbos vates; estavam ali: Kotelniji, Wolpuk e Korspikt, o primeiro que tinha aplicado o vernier para “medir” versos.
Abanquei?me e pude perceber que acabavam de ouvir uma poesia do poeta Worspikt. Tratava de lua, de iceberg ?, descobri eu por uma e outra considera??o que fizeram.
Nenhum deles tinha visto um iceberg, mas gabavam os ouvintes a mo??o com que o outro traduzira em verso o espet?culo desse fen?meno das circunvizinhan?as dos p?los.
Num dado momento Kotelniji disse para Worspikt:
? Gostei muito desse teu verso: “h? luna loura linda leve, luna bela!”
O autor cumprimentado retrucou:
? N?o fiz mais do que imitar Tuque?Tuque, quando encontrou aquela soberba harmonia imitativa para dar id?ia do luar ? “Loga Kule Kulela logalam”, no seu poema “Kulelau”.
Wolpuk, por?m, objetou:
? Julgo a tua excelente, mas teria escolhido a vogal forte “u”, para basear a minha sugest?o imitativa do luar.
? Como? perguntou Worspikt.
Eu teria dito: Ui! “lua uma pula, tu moo! sulla nuit!”
? H? muitas l?nguas nela, objetou Kotelniji.
? Quantas mais melhor, para dar um car?ter universal ? poesia que deve sempre t??lo, como ensina o mestre, defendeu?se Wolpuk.
? Eu, por?m, aduziu Kotelniji, conquanto permita nos outros certas licen?as po?ticas, tenho por princ?pio obedecer ?s mais duras e r?gidas regras, n?o me afastar delas, encarcerar bem o meu pensamento. No meu caso, eu empregaria a vogal “a” para a harmonia em vista.
? Mas Tuque?Tuque… fez Worspikt.
? Ele empregou o “e” no tal verso que voc? citou, devido ? pronuncia??o que essa letra l? tem. ? um “e” molhado que evoca bem o luar deles, mas…
? E com “a”, como ?? indagou Wolpuk.
? O “a” ? o espanto; seria ai o espanto do homem dos. tr?picos, diante da estranheza do fen?meno ?rtico que ele n?o conhece e o assombra.
? Mas Kotelniji, eu visava o luar.
? Que tem isso? Na harmonia em “a” tamb?m entra esse fen?meno que ? o provocador do teu espanto, causado pela sua singularidade local, e pela hirta presen?a do iceberg, branco, fant?stico, que, a lua ilumina.
? Bem, perguntou o autor da poesia; como voc? faria, Kotelniji?
? Eu diria: “A lua acaba de calar a cara?a parva”.
? Mas n?o teria nada que ver com o tema da poesia, objetou Wolpuk.
? Como? O iceberg toma as formas mais variadas… Demais, h? sempre onde encaixar, seja qual for a poesia, uma feliz “imitativa”.
? Voc? tem raz?o, aplaudiu Wolpuk.
Worspikt concordou tamb?m e prometeu aproveitar a maravilhosa trouvaille do amigo de letras.
Kotelniji era considerado como um grande poeta “samoieda” e tinha mesmo estabelecido com assentimento de todos eles, as leis cient?ficas da escola perfeita, “a samoieda”, que ele definia como tendo por escopo n?o exprimir cousa alguma com rela??o ao assunto visado, ou dizer sobre ele, pomposamente, as mais vulgares banalidades.
Dentre as leia que estatu?a, eu me lembro de algumas. Ei?las:
1. Sendo a poesia o meio de transportar o nosso esp?rito do real para o ideal, deve ela ter como principal fun??o provocar o sono, estado sempre prof?cuo ao sonho.
2. A monotonia deve ser sempre procurada nas obras po?ticas; no mundo, tudo ? mon?tono (Tuque?Tuque).
3. A beleza de um trabalho, po?tico n?o deve ressaltar desse pr?prio trabalho, independente de qualquer explica??o; ela deve ser encontrada com as explica??es ou coment?rios fornecidos pelo autor ou por seus ?ntimos.
4. A composi??o de um poema deve sempre ser regulada pela harmonia imitativa em geral e seus derivados.
E muitas outras de que me esqueci, mas julgo que s? estas ilustram perfeitamente o absurdo da qualifica??o de leis cient?ficas da arte. Alhos com bugalhos!
Denuncia tal denomina??o, de modo cabal, a sua incapacidade para grupar id?ias, no??es e imagens. Que pensaria ele de ci?ncia? Qual era a sua concep??o de arte? Ser? poss?vel decifrar essa hist?ria de “leis cient?ficas da arte”? Qual!
Era assim o grande poeta samoieda.
Al?m de uma gramaticazinha que n?s aqui chamamos de tico?tico e da arte po?tica de Chalat aumentada e explicada com uma l?gica de gafanhotos, n?o possu?a ele um acervo de no??es gerais, de id?ias, de observa??es, de emo??es pr?prias e diretas do mundo, de julgamentos sobre as cousas, tudo isso que forma o fundo do artista e que, sob a a??o de uma concep??o geral, lhe permite fazer grupamentos ideais, originalmente, criar enfim.
A import?ncia do vate lhe vinha de redigir A Kananga, ?rg?o das casas de perfumarias, leques, luvas e receitas para doces, onde alguns rapazes, sob o seu olhar cioso, escreviam, para ganhar os cigarros, algumas coisas ligeiras.
O bardo samoieda tomava, entretanto, a cousa a s?rio, como se estivesse escrevendo para a Revue de Deux Mondes uma f?rmula de m?e?benta; e evitava o mais poss?vel que algu?m tomasse p? na pueril A Kananga. Era essa a sua m?xima preocupa??o de artista.
De todos os posti?os liter?rios, usava, e de todas as mesquinhezas da profiss?o, abusava.
Era este de fato um samoieda t?pico no intelectual, no moral, no f?sico. Tinha fama.
Poderia mais esclarecer semelhante escola, os seus processos, as suas regras, as suas supersti??es; mas n?o conv?m fazer semelhante cousa, porque bem podia acontecer que alguns dos meus compatriotas a quisessem seguir.
J? temos muitas bobagens e s?o bastantes.
Fico nisto.
I
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Lima Barreto
Título: RECORDA??ES DO ESCRIV?O ISA?AS CAMINHA
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005
RECORDA??ES DO ESCRIV?O ISA?AS CAMINHA
I
Lima Barreto
A tristeza, a compreens?o e a desigualdade de n?vel mental do meu meio familiar, agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de intelig?ncia. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em come?o, na minha primeira inf?ncia, estimulou-me pela obscuridade de suas exorta??es. Eu n?o tinha ainda entrado para o col?gio, quando uma vez me disse: Voc? sabe que nasceu quando Napole?o ganhou a batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: quem era Napole?o? Um grande homem, um grande general… E n?o disse mais nada. Encostou-se ? cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem entrar na significa??o de suas palavras; contudo, a entona??o de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!…
O espet?culo do saber de meu pai, real?ado pela ignor?ncia de minha m?e e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de crian?a, como um deslumbramento.
Pareceu-me ent?o que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembara?o de linguagem, a sua capacidade de ler l?nguas diversas e compreend?-las constitu?am, n?o s? uma raz?o de ser de felicidade, de abund?ncia e riqueza, mas tamb?m um t?tulo para o superior respeito dos homens e para a superior considera??o de toda a gente.
Sabendo, fic?vamos de alguma maneira sagrados, deificados… Se minha m?e me parecia triste e humilde ? pensava eu naquele tempo ? era porque n?o sabia, como meu pai, dizer os nomes das estrelas do c?u e explicar a natureza da chuva…
Foi com estes sentimentos que entrei para o curso prim?rio. Dediquei-me a?odadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo foram-se desdobrando as minhas primitivas no??es sobre o saber.
Acentuaram-se-me tend?ncias; pus-me a colimar gl?rias extraordin?rias, sem lhes avaliar ao certo a significa??o e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspira??es indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir…
Ouvia uma tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo instante, na minha gl?ria futura. Agia desordenadamente e sentia a incoer?ncia dos meus atos, mas esperava que o preenchimento final do meu destino me explicasse cabalmente. Veio-me a pose, a necessidade de ser diferente. Relaxei-me no vestu?rio e era preciso que minha m?e me repreendesse para que eu fosse mais zeloso. Fugia aos brinquedos, evitava os grandes grupos, punha-me s? com um ou dois, ? parte, no recreio do col?gio; l? vinha um dia, por?m, que brincava doidamente, apaixonadamente. Causava com isso espanto aos camaradas: Oh! O Isa?as brincando! Vai chover…
A minha energia no estudo n?o diminuiu com os anos, como era de esperar; cresceu sempre progressivamente. A professora admirou-me e come?ou a simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu hoje), ela imaginou que lhe passava pelas m?os um g?nio. Correspondi-lhe ? afei??o com tanta for?a d?alma, que tive ci?mes dela, dos seus olhos azuis e dos seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu ent?o dois anos de escola e doze de idade. Da? a um ano, sai do col?gio, dando-me ela, como recorda??o, um exemplar do Poder da Vontade, luxuosamente encadernado, com uma dedicat?ria afetuosa e lisonjeira. Foi o meu livro de cabeceira. Li-o sempre com m?o diurna e noturna, durante o meu curso secund?rio, de cujos professores, poucas recorda??es importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles tinha os olhos azuis de Dona Ester, t?o meigos e transcendentes que pareciam ler o meu destino, beijando as p?ginas em que estava escrito!…
Quando acabei o curso do liceu, tinha uma boa reputa??o de estudante, quatro aprova??es plenas, uma distin??o e muitas sabatinas ?timas. Demorei-me na minha cidade natal ainda dois anos, dois anos que passei fora de mim, excitado pelas notas ?timas e pelos progn?sticos da minha professora, a quem sempre visitava e ouvia. Todas as manh?s, ao acordar-me, ainda com o esp?rito acariciado pelos nevoentos sonhos de bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido: Vai, Isa?as! vai!… Isto aqui n?o te basta… Vai para o Rio!
Ent?o, durante horas, atrav?s das minhas ocupa??es quotidianas, punha-me a medir as dificuldades, a considerar que o Rio era uma cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de ego?smo, onde eu n?o tinha conhecimentos, rela??es, protetores que me pudessem valer…
Que faria l?, s?, a contar com as minhas pr?prias for?as? Nada… Havia de ser como uma palha no rodamoinho da vida ? levado daqui, tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro… ladr?o… b?bado… t?sico e quem sabe mais? Hesitava. De manh?, a minha resolu??o era quase inabal?vel, mas, j? ? tarde, eu me acobardava diante dos perigos que antevia.
Um dia, por?m, li no Di?rio de *** que o Fel?cio, meu antigo condisc?pulo, se formara em Farm?cia, tendo recebido por isso uma estrondosa, dizia o Di?rio, manifesta??o dos seus colegas.
Ora o Fel?cio! pensei de mim para mim. O Fel?cio! T?o burro! Tinha vit?rias no Rio! Por que n?o as havia eu de ter tamb?m ? eu que lhe ensinara, na aula de portugu?s, de uma vez para sempre, diferen?a entre o adjunto atributivo e o adverbial? Por qu?!?
Li essa not?cia na sexta-feira. Durante o s?bado tudo enfileirei no meu esp?rito, as vantagens e as desvantagens de uma partida. Hoje, j? n?o me recordo bem das fases dessa batalha; por?m uma circunst?ncia me ocorre das que me demoveram a partir. Na tarde de s?bado, sai pela estrada fora. Fazia mau tempo. Uma chuva intermitente caia desde dois dias.
Sai sem destino, a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada.
Passava por um largo descampado e olhei o c?u. Pardas nuvens cinzentas galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada nelas. A mancha aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim, um bando de patos negros passou por sobre a minha cabe?a, bifurcado em dois ramos, divergentes de um pato que voava na frente, a formar um V. Era a inicial de ?Vai?. Tomei isso como sinal animador, como bom aug?rio do meu prop?sito audacioso. No domingo, de manh?, disse de um s? jato ? minha m?e:
? Amanh?, mam?e, vou para o Rio.
Minha m?e nada respondeu, limitou-se a olhar-me enigmaticamente, sem aprova??o nem reprova??o; mas minha tia, que costurava em uma ponta da mesa, ergueu um tanto a cabe?a, descansou a costura no colo e falou persuasiva:
? Veja l? o que vai fazer, rapaz! Acho que voc? deve aconselhar-se com o Valentim!
? Ora qual! fiz eu com enfado. Para que Valentim? N?o sou eu rapaz ilustrado? N?o tenho todo o curso de preparat?rios? Para que conselhos?
? Mas olhe Isa?as! voc? ? muito crian?a… N?o tem pr?tica… O Valentim conhece mais a vida do que voc?. Tanto mais que j? esteve no Rio…
Minha tia, irm? mais velha de minha m?e, n?o tinha acabado de dizer a ?ltima palavra, quando o Valentim entrou envolvido num comprido capote de baeta.
Descansou alguns pacotes de jornais manchados de selos e carimbos; tirou o bon? com o emblema do Correio e pediu caf?.
? Voc? veio a prop?sito, Valentim. Isa?as quer ir para o Rio e eu acabo de recomendar que se aconselhasse com voc?.
? Quando voc? pretende ir, Isa?as? indagou meu tio, sem surpresa e imediatamente:
? Amanh?, disse eu cheio de resolu??o.
Ele nada me disse. Calamo-nos e minha tia saiu da sala, levando o capote molhado, e logo depois voltou, trazendo o caf?.
? Quer para ti, Valentim?
? Quero.
Revolvendo lentamente o a??car no fundo da x?cara, meu tio continuou ainda calado por muito tempo. Tomou um gole de caf?, depois um outro de aguardente, esteve com o c?lice suspenso alguns instantes, descansou-o na mesa automaticamente e, aos poucos, a sua fisionomia de largos tra?os de ousadia foi revelando um grande trabalho de concentra??o interior. Minha m?e nada dissera at? ali.
Num dado momento, pretextando qualquer coisa, levantou-se e foi aos fundos da casa. Ao sair fez a minha tia uma insignificante pergunta sobre o arranjo dom?stico, sem aludir ? minha resolu??o e sem despertar meu tio da cisma profunda em que se engolfara.
Ansioso, deixei-me a ficar ? espera de uma resposta dele, notando-lhe as menores contra??es do rosto e decifrando os mais t?nues lampejos de seu olhar. Houve um segundo que ele me pareceu ter suspendido todo o movimento exterior de sua pessoa. A respira??o como que parara, tinha o cenho carregado, as rugas da testa larga e quadrada fixadas, como se tivessem sido vazadas em bronze, e os olhos im?veis, orientados para uma fresta da mesa, brilhantes, extraordinariamente brilhantes e salientes, como que a saltar das ?rbitas, para farejar o rasto prov?vel da minha vida na intrincada floresta dos acontecimentos. Gostava dele. Era um homem leal, valoroso, de pouca instru??o, mas de cora??o aberto e generoso. Contavam-lhe fa?anhas, bravatas portentosas, levadas ao cabo, pelos tempos em que fora, nas elei??es, esteio do partido liberal. Pelas portas das vendas, quando passava, cavalgando o seu simp?tico cavalo magro, com um saco de cartas ? garupa, murmuravam: ?Que songamonga! J? liquidou dois…?
Eu sabia do caso, estava mesmo convencido de sua exatid?o; entretanto, apesar das minhas idiotas exig?ncias de moral inflex?vel, n?o me envergonhava de estim?-lo, amava-o at?, sem mescla de terror, j? pela decis?o do seu car?ter, j? pelo apoio certo que nos dera, a mim e a minha m?e, quando veio a morrer meu pai, vig?rio da freguesia de ***. Animara a continuar os meus estudos, fizera sacrif?cios para me dar vestu?rio e livros, desenvolvendo assim uma atividade acima dos meus recursos e for?as.
Durante os dois anos que passei, depois de ter conclu?do humanidades, o seu car?ter atrevido conseguia de quando em quando arranjar-me um ou outro trabalho. Desse modo, eu ia vivendo uma doce e med?ocre vida roceira, sempre perturbada, por?m, pelo estonteante prop?sito de me largar para o Rio. Vai Isa?as! Vai!
Meu tio ergueu a cabe?a, passou a olhar demoradamente sobre mim e disse:
? Fazes bem!
Acabou de tomar o caf?, pediu o capote e convidou-me:
? V?, comigo. Vamos ao coronel… Quero pedir-lhe que te recomende ao doutor Castro, deputado.
Minha tia trouxe o capote, e quando ?amos saindo apareceu tamb?m minha m?e, recomendando:
? Agasalhe-se bem, Isa?as! Levas o chap?u-de-chuva?
? Sim senhora, respondi.
Durante quarenta minutos, patinhamos na lama do caminho, at? ? casa do Coronel Belmiro. Mal t?nhamos empurrado a porteira que dava para a estrada, o vulto grande do fazendeiro assomou no portal da casa, redondo, num longo capote e coberto de um largo chap?u de feltro preto. Aproximamo-nos.
? Oh! Valentim! fez pregui?osamente o coronel. Voc? traz cartas? Devem ser do Trajano, conhece? S?cio do Martins, da Rua dos Pescadores…
? N?o senhor, interrompeu meu tio.
? Ah! ? seu sobrinho… Nem o conheci… Como vai, menino? N?o esperou a minha resposta; continuou logo em seguida:
? Ent?o, quando vai para o Rio? N?o fique aqui… V?… olhe o senhor conhece o Azevedo?
? ? disso mesmo que v?nhamos tratar. Isa?as quer ir para o Rio e eu vinha pedir a Vossa Senhoria…
? O qu?? interrompeu assustado o coronel.
? Eu queria que Vossa Senhoria, senhor coronel, gaguejou o tio Valentim, recomendasse o rapaz ao doutor Castro.
O coronel esteve a pensar. Mirou-me de alto a baixo, finalmente falou:
? Voc? tem direito, Seu Valentim… ?… Voc? trabalhou pelo Castro… Aqui para n?s: se ele est? eleito, deve-o a mim e aos defuntos, e a voc? que desenterrou alguns.
Riu-se muito, cheio de satisfa??o por ter repetido t?o velha pilh?ria e perguntou amavelmente em seguida:
? O que ? que voc? quer que lhe pe?a?
? Vossa Senhoria podia dizer na carta que o Isa?as ia ao Rio estudar, tendo j? todos os preparat?rios, e precisava, por ser pobre, que o doutor lhe arranjasse um emprego.
O coronel n?o se deteve, fez-nos sentar, mandou vir caf? e foi a um compartimento junto escrever a missiva.
(…)
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Fonte: BARRETO, Lima. Recorda??es do Escriv?o Isa?as Caminha. Rio de Janeiro, Ediouro, 1990, p. 27-31.
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Lima Barreto
Título: SOUVENIRS D?UN GRATTE-PAPIER
Idiomas: fra
Tradutor: Monique Le Moing et Marie-Pierre Maz?as(FRA)
Data: 03/06/2005
SOUVENIRS D?UN GRATTE-PAPIER
I
Lima Barreto
La tristesse, l?impression d??touffement et la conscience de l?in?galit? intellectuelle de mes parents out agi sur moi de fa?on curieuse : elles m?ont donn? des d?sirs d?intelligence. Mon p?re qui ?tait sup?rieurement brillant et instruit m?a, avant toute chose, d?s ma premi?re enfance, stimul? par ses propres ?nigmatiques. Je n??tais pas encore entr? au coll?ge qu?il me dit un jour : ? Sais-tu qui est n? quand Napol?on gagna la bataille de Marengo ? ? J?ouvris de grands yeux et demandai : ? Qui est Napol?on ? ? ? Un grand homme, un grand g?n?ral ?… Et il n?ajouta rien. Il s?adossa ? sa chaise et poursuivit sa lecture. Je ne fis aucun effort pour p?n?trer le sens de ses paroles ; cependant, l?intonation de sa voix, son geste et son regard sont rest?s grav?s en moi pour toujours. Le spectacle du savoir de mon p?re, mis en valeur par l?ignorance de ma m?re et de toute sa famille, s?imposa ? mes yeux d?enfant comme un myst?re fascinant.
Il me sembla alors que son ?tonnante capacit? ? tout expliquer, sa grande facilit? d??locution, son aptitude ? lire plusieurs langues et ? les comprendre, constituaient non seulement une source de bonheur, d?abondance et de richesse, mais aussi une justification ? un profond respect des hommes, ? une plus haute estime de tous.
Gr?ce au Savoir, nous ?tions en quelque sorte sacr?s, d?ifi?s… Si ma m?re m?apparaissait triste et humble ? pensais-je ? l??poque ? c??tait parce qu?elle, elle ne savait pas, comme mon p?re, appeler les ?toiles par leur nom ni expliquer le ph?nom?ne de la pluie… C?est avec ce genre de sentiments que j?entrai ? l??cole primaire. Je me consacrai avec z?le ? l??tude. Je brillai, et peu ? peu mes premi?res notions sur le Savoir s??panouirent.
Certaines tendances se manifest?rent en moi : j?avais pour point de mire des destins hors du commun, sans en ?valuer vraiment la signification et l?utilit? et, au fond de mon ?me, une profusion d?aspirations et de d?sirs ind?termin?s. C??tait comme si le monde n?attendait que moi pour continuer ? tourner…
J?entendais ? toute heure et ? tout moment une sibylle tentatrice me parler de ma gloire future. J?agissais de fa?on d?sordonn?e et j??tais conscient de l?incoh?rence de mes actes, mais j?attendais que l?accomplissement de mon destin m??claire une fois pour toutes. J?entrais dans ma phase de marginalit? et de besoin de me distinguer. Je me laissais aller dans ma mise et il fallait que ma m?re me rappelle ? l?ordre pour que j?en prenne plus de soin. Je fuyais les yeux, j??vitais les rassemblements, faisant bande ? part avec un ou deux ?l?ves pendant la r?cr?ation, un jour arriva o? je me mis ? jouer comme un fou, avec passion. Je provoquai ainsi la stupeur de mes camarades : Tiens ! Isa?as qui joue ! Il va pleuvoir…
Mon ardeur ? l??tude ne diminua pas avec les ann?es… comme on aurait pu s?y attendre : elle ne fit que se confirmer patit ? petit. Mon professeur, ?tonn?e, se prit de sympathie pour moi. Au fond d?elle-m?me (je le soup?onne aujourd?hui), elle imagina qu?un petit g?nie lui passait entre les mains. Je r?pondis ? son affection de toute mon ?me : quand elle se maria ? avec ses yeux bleus et ses cheveux ch?tains ? je crus qu?on me l?arrachait… Il y avait deux ans que j?allais ? l??cole, j?avais douze ans. Un an plus tard, je quittais le coll?ge ; elle me donna en souvenir un exemplaire du Pouvoir de la Volont? luxueusement reli?, avec une d?dicace affectueuse et pleine d??loges. J?en fis mon livre de chevet. Il ne m?a quitt? ni le jour ni la nuit pendant toutes mes ?tudes secondaires dont les professeurs ne m?ont laiss? que des souvenirs peu marquants.
Aucun d?eux n?avait les yeux bleus de Dona Esther, si doux, si clairvoyants qu?ils semblaient lire mon destin quand je d?posais des baisers sur les pages o? il ?tait inscrit !…
A la fin de mes ?tudes au lyc?e, j?avais une solide r?putation de b?cheur, je comptais quatre succ?s, une distinction et de nombreuses compositions excellentes. Je restai encore deux ans dans ma ville natale, deux ans que je passai hors de mon ?tat normal, exalt? par mes notes exemplaires et par les pronostics de mon professeur ? qui je rendais r?guli?rement visite et ? qui je pr?tais une vreille tr?s attentive. Tous les matins, au r?veil, l?esprit encore caress? par de myst?rieux r?ves de bon augure, la sibylle me disait ? l?oreille : ? Pars, Isa?as ! Pars ! Ici, c?est trop petit pour toi… Va ? Rio ! ?
Alors, pendant des heures et des heures, au cors de mes occupations quotidiennes, je tentais de mesurer les difficult?s, de me faire ? l?id?e que Rio ?tait une grande ville, pleine de richesses, gorg?e d?ego?sme, o? je n?avais ni connaissances, ni relations, ni protecteurs qui puissent m??tre utiles…
Que ferais-je l?-bas, tout seul, ne pouvant compter que sur mes propres forces ? Rien… Je serais comme un brin de puille dans le tourbillon de la vie ? emport? par-ci, rejet? par-l? ? et, pour finir, englouti dans l?ab?me… voleur… ivrogne… phtisique et qui sait pire encore. J?h?sitais. le matin, ma volont? ?tait presque in?branlable mais, l?apr?s-midi venue, je fl?chissais face aux dangers que j?entrevoyais.
Un jour, cepudant, je lus dans le journal que F?licio, mon ancien condisciple, avait r?ussi sa pharmacie et avait re?u pour cela ? disait le journal ? une retentissante ovation de ses camarades.
Quoi ! F?licio ! Pensais-je en moi-m?me. F?licio ! Cet ?ne ! Il r?ussissait ? Rio ! Et pourquoi pas moi, moi qui lui avais enseign? en classe de portugais, une bonne fois pour toutes, la diff?rence entre l?adjectif attributif et l?adverbial ? En quel honneur ?
Je lus cette nouvelle le vendredi et, durant tout le samedi, je pesai dans mon esprit les avantages et les incov?nients d?un d?part.
Aujourd?hui, je ne me souviens plus tr?s bien des phases de ce combat int?rieur ; un d?tail me revient cependant ? l?esprit, parmi ceux qui me dissuad?rent de partir. Le samedi apr?s-midi, je sortis marcher un peu. Il faisait mauvais temps. Une pluie intermittente tombait depuis deux jours. Maussade, je sortis sans but, au hasard, profitant d?une accalmie. Arriv? en rase campagne, je regardai le ciel. Des nuages couleur de cendre galopaient et, au loin, incrust?e, une toute petite tache un peu plus sombre semblait courir. Elle se rapprochait et peu ? peu je la vis se subdiviser, se multiplier ; alors un vol de canard noirs passa au-dessus de moi et, dessinant un V, se d?tacha de celui qui volait en t?te. C??tait la premi?re lettre de ? Va ?. J?interpr?tai cela comme un signe d?encouragement, augure propice ? mon projet audacieux. Le dimanche matin, je dis d?un seul trait ? ma m?re :
? Demain, M?re, je pars pour Rio.
Celle-ci ne r?pondit rien. Elle se contenta de me regarder avec perplexit?, sans approuver ni d?sapprouver ; mais ma tante qui cousait ? un bout de la table releva l?g?rement la t?te, posa sa couture sur ses genoux et dit d?un ton persuasif :
? Fais attention ? ce que tu vas faire, non gar?on ! Il me semble que tu devrais demander conseil ? Valentin.
? Quoi ! fis-je avec v?h?mence. Pourquoi Valentin ? Ne suis-je pas un gar?on instruit ? N?ai-je pas fait ma prop?deutique ? Et pourquoi des conseils ?
? Ecoute, Isa?as ! Tu es encore un enfant… Tu n?as pas d?exp?rience… Valentin conna?t mieux la vie que toi… D?autant plus qu?il a d?j? v?cu ? Rio…
A peine ma tante, s?ur a?n?e de ma m?re, avait-elle prononc? le dernier not, que Valentin entra, envelopp? dans un long manteau de flanelle.
Il d?posa quelques paquets de journaux macul?s de timbres et de tampons, retira sa casquette ? l?embl?me des Postes et demanda du caf?.
? Tu tombes ? pic, Valentin. Isa?as veut aller ? Rio et je lui recommandais justement de prendre conseil aupr?s de toi.
? Quand penses-tu partir, Isa?as ? demanda aussit?t mon oncle, peu surpris.
? Demain, dis-je, tout ? fait r?solu.
Il n?ajouta rien. Nous nous t?mes ; ma tante sortit de la pi?ce, emportant le manteau mouill?, et revint aussit?t avec du caf?.
? Tu en veux, Valentin ?
? Oui.
Tout en remuant lentement le sucre au fond de la tasse, mon oncle resta silencieux un bon moment. Il avala une gorg?e de caf?, puis une d?eau-de-vie, retint le verre ? liqueur un instant en l?air et le reposa machinalement sur la table. Alors, son visage aux traits grossiers et hardis r?v?la progressivement un grand effort de concentration int?rieure. Ma m?re n?avait rien dit jusque-l?.
A un moment donn?, sous un pr?texte quelconque, elle se leva et se dirigea vers le fond de la maison. Au moment o? elle sortait, ma tante posa une question insignificante sur l?organisation domestique, sans ?voquer ma r?solution et sans tirer mon oncle des cogitations profondes dans lesquelles il ?tait absorb?.
Inquiet, je me pris ? attendre une r?ponse de sa part, notant les moindres contractions de son visage et d?chiffrant les plus furtives ?tincelles dans son regard. L?espace d?une seconde, il me sembla qu?il avait suspendu tout mouvement ext?rieur de sa personne. Sa respiration s??tait comme arr?t?e ; il avait l?air s?v?re et renfrogn?, les rides de son large front carr? ?taient figg?s, comme si elles avaient ?t? coul?es dans du bronze : ses yeux, fix?s sur une fente de la table, brillaient, brillaient extraordinairement, saillants, pr?ts ? jaillir de leur orbite, pour suivre la piste probable de ma vie dans le maquis broussailleux des ?v?ments.
Je l?aimais bien. C??tait un homme loyal, valeureux, peu instruit, mais au c?ur franc et g?n?reux. Depuis l??poque o? il avait ?t? porte-drapeau du Parti lib?ral aux ?lections, on mettait ? son compte quelques prouesses et bravades insolites et bien men?es. Aux portes des boutiques, quand il passait, chevauchant son sympathique et maigre cheval, un sac de courrier en croupe, on murmurait : ? Quel hypocrite ! Il en a d?j? liquid? deux… ?
J??tais au courant de l?affaire, et vraiment convaincu de son exactitude ; cependant, malgr? les exigences idiotes de ma morale implacable, je n?avais pas honte de l?estime que j?avais pour lui ; mieux, je l?aimais, sans la moindre trace de crainte : je l?aimais pour son caract?re d?cid?, je l?aimais pour le soutien solide qu?il nous avait apport? ? ma m?re et ? moi, ? la mort de mon p?re, Vicaire de la paroisse de ***. Il m?avait pouss? ? poursuivre mes ?tudes, avait fait des sacrifices pour me donner livres et v?tements, d?ployant dans ce but une activit? au-dessus de ses moyens et de ses forces.
Pendant les deux ann?es qui suivirent mes Human?t?s, gr?ce ? son temp?rament audacieux, il avait r?ussi de temps ? autre ? me trouver quelque emploi. De cette fa?on, je continuais ? mener une douce et m?diocre vie campagnarde perp?tuellement troubl?e par l??tourdissant dessein de mettre les voiles pour Rio. Va, Isa?as ! Pars !
Mon oncle leva la t?te, posa longuement son regard sur moi et dit :
? Tu fais bien !
Il finit son caf?, demanda son manteau et me proposa :
? Viens avec moi. Nous allons chez le Coronel… Je veux qu?il te recommandre au d?put? Castro.
Ma tante lui apporta son manteau et, au moment o? nous sortions, ma m?re apparut et me recommanda :
? Couvre-toi bien, Isa?as ! Tu ne prends pas ton chapeau de pluie ?
? Si M?re, r?pondis-je.
Pendant une quarantaine de minutes, nous avons pataug? dans la boue du chemin jusqu?? la demeure du Coronel Belmiro. A peine avions-nous pouss? le portail qui donnait sur la route, que la silhouette du fazendeiro, massif et rondouillard dans son long manteau, un grand chapeau de feutre noir sur la t?te, apparut ? la porte de la maison. Nous nous approch?mes…
? Tiens donc ! Valentin ! fit paresseusement le Coronel. Tu apportes du courrier ? ?a doit ?tre de Trajan, tu sais qui c?est ? L?associ? de Martins, de la rue des P?cheurs…
? Non, patron, interrompit mon oncle.
? Ah ! C?est ton neveu… Je ne le connaissais pas… Comment ?a va, petit ?
Il n?attendit pas ma r?ponse et poursuivit sur le champ :
? Alors, quand pars-tu pour Rio ? Ne reste pas ici… Pars… Dis-donc, Valentin, tu connais Azevedo ?
? C?est exactement pour parler de ?a que nous sommes venus. Isa?as veut aller ? Rio et j??tais venu vous solliciter…
? Quoi donc ? coupa le Coronel sur ses gardes.
? Je voulais, s?il vous pla?t, Monsieur, bredouilla l?oncle Valentin, que vous recommandiez ce jeune homme au d?put? Castro.
? C?est bien m?rit?, mon brave Valentin… Oui… puisque tu as travaill? pour Castro. Entre nous sois dit, s?il a ?t? ?lu, il le doit ? moi et aux ?mes mortes, mais ? toi aussi qui en a rapatri? quelques-unes…
Il rit grassement, tr?s satisfait d?avoir ressorti une si vi?ille plaisanterie et demanda ensuite avec amabilit? :
? Qu?est-ce que tu veux que je lui demande exactement ?
? Si je peux me permettre, vous pourriez dire dans la lettre qu?Isa?as va poursuivre ses ?tudes ? Rio ? sa prop?deutique est d?j? faite ? et qu?il a besoin, puisqu?il est pauvre, que le d?put? Castro lui trouve un travail.
Le Coronel ne se fit pas prier, il nous fit asseoir, envoya chercher du caf? et alla dans une pi?ce voisine ?crire la missive.
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Fonte : BARRETO, Lima. Souvenirs d?un gratte-papier. Traduit du br?silien par Monique Le Moing et Marie-Pierre Maz?as. Paris, ?ditions L?Harmattan, 1989, p. 19-25.
Bio fornecida pelo palestrante.