A PATA DA GAZELA




Autor: José de Alencar
Título: A PATA DA GAZELA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

A PATA DA GAZELA

 

 

José de Alencar

 

I

 
Estava parada na Rua da Quitanda, próximo à da Assembléia, uma linda vitória, puxada por soberbos cavalos do Cabo.
Dentro do carro havia duas moças; uma delas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.
– Daqui aonde vamos? – perguntou a mais baixa, vestida de roxo claro.
– Ao escritório de papai: talvez ele queira vir conosco. Na volta passaremos pela Rua do Ouvidor, respondeu a mais esbelta, cujo talhe era desenhado por um roupão cinzento.
O vestido roxo debruçou-se de modo a olhar para fora, no sentido contrário àquele em que seguia o carro, enquanto o roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevera a nota de suas encomendas.
– O lacaio ficou-se de uma vez! – disse o vestido roxo com um movimento de impaciência.
– É verdade! – respondeu distraidamente a companheira.
Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam à espera do lacaio, mandado a algum ponto próximo. A impaciência da moça de vestido roxo era partilhada pelos fogosos cavalos, que dificilmente conseguia sofrear um cocheiro agaloado.
Depois de alguns momentos de espera, sobressaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais às almofadas, como para ocultar-se no fundo da carruagem, murmurou:
– Laura!… Laura!…
E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
– O que é, Amélia?
– Não vês? Aquele moço que está ali defronte nos olhando.
– Que tem isto? – disse Laura sorrindo.
– Não gosto! – replicou Amélia com um movimento de contrariedade. Há quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?
– Volta-lhe as costas!
– Vamos para diante.
– Como quiseres.
Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo a tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para contemplar a moça com admiração franca e apaixonada.
Simples no traje, e pouco favorecido a respeito de beleza; os dotes naturais que excitavam nesse moço alguma atenção eram uma vasta fronte meditativa e os grandes olhos pardos, cheios do brilho profundo e fosforescente que naquele momento derramavam pelo semblante de Amélia.
Havia minutos que, percorrendo a Rua da Quitanda em sentido oposto à direção do carro, avistara a moça recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se à ombreira de uma porta de escritório, esqueceu-se naquela ardente contemplação.
O coração é um solo. Vale onde brotam as paixões, como os outros vales da natureza inanimada, ele tem suas estações, suas quadras de aridez ou de seiva, de esterilidade ou de abundancia.
Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol produzem na terra uma fermentação, que forma o húmus; a semente, caindo aí, brota com rapidez. Depois das grandes dores e das lágrimas torrenciais, forma-se também no coração do homem um húmus poderoso, uma exuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que aí penetre, é semente de paixão, e pulula com vigor extremo.
O moço parecia estar nessas condições: ele trajava luto pesado, não somente nas roupas negras, como na cor macilenta das faces nuas, e na mágoa que lhe escurecia a fronte.
Notando Amélia a insistência do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquele olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma labareda oculta, incutia nela um desassossego íntimo. Agitava-se impaciente, como uma criatura no meio de um sono inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadelo.
Até que abriu o chapeuzinho-de-sol, para interceptar a contemplação apaixonada de que era objeto. Nesta ocasião, Laura, que freqüentemente se debruçava para ver quando vinha o lacaio, retraiu o corpo com vivacidade:
– Enfim; aí vem!
– Felizmente! – disse Amélia.
O lacaio aproximava-se a passos medidos; trazia na mão um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a oscilação dos objetos envoltos desfizera, obrigando o portador a apertá-lo de vez em quando.
Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo da carruagem, Amélia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:
– Vamos! Vamos!
Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o embrulho na caixa da vitória, rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada foi, para o criado, habituado a essa manobra, negócio de um instante. Não percebera ele, porém, que abrindo-se o papel com a corrida, um dos objetos nele contidos escorregara e, justamente na ocasião de deitar o embrulho na caixa do carro, caíra na calçada.
Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das mãos do lacaio, tivera um pressentimento do acidente, ao ver o papel desenrolado.
Fechando-o rapidamente e escondendo-o por baixo do assento da vitória, ela debruçou-se ainda uma vez para verificar se com efeito alguma coisa havia caído.
Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com estas palavras de contrariedade:
– Como ele manda isto! Por mais que se lhe recomende!
Laura nada viu, porque já a vitória rodava ligeiramente sobre os paralelepípedos.
Nesse momento, porém, dobrando a Rua da Assembléia, se aproximara um moço elegante não só no traje do melhor gosto, como na graça de sua pessoa: era sem dúvida um dos príncipes da moda, um dos leões da Rua do Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distinto que não tinha usurpado o título.
O mancebo viu casualmente o lacaio quando passara por ele correndo, e percebeu que um objeto caíra do embrulho. Naturalmente não se dignaria abaixar para apanhá-lo, nem mesmo deitar-lhe um olhar, se não visse aparecer ao lado da vitória o rosto de uma senhora, que o aspecto da carruagem indicava pertencer à melhor sociedade.
Então apressou-se, para ter ocasião de fazer uma fineza, e pretexto de conhecer a senhora, que lhe parecera bonita. Os leões são apaixonadíssimos de tais encontros; acham-lhes um sainete que destrói a monotonia das relações habituais.
Quando o moço ergueu-se com o objeto na mão, já o carro dobrava a Rua Sete de Setembro. Ficou ele um momento indeciso, olhando em torno, como se esperasse alguma informação a respeito da pessoa a quem pertencia o carro. Sem dúvida a senhora era conhecida em alguma loja de fazendas; talvez tivesse aí feito compras.
Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta que fizera a um caixeiro próximo, resolveu-se a meter o objeto no bolso e seguir seu caminho.
 

II

 
Horácio de Almeida, o nosso leão, voltou a casa à hora do costume, quatro da tarde.
Os sucessivos encontros da Rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a visita indispensável ao alfaiate; as anedotas do Alcázar na noite antecedente; a crônica anacreôntica do Rio de Janeiro, chistosamente comentada; algumas rajadas de maledicência, que é a pimenta social; todas essas ocupações importantes, que absorvem a vida do leão, distraíram Horácio a ponto de se esquecer ele do objeto guardado no bolso do paletó.
Como admitir que um príncipe da moda não aproveitasse a aventura do carro, para sobre ela bordar um romance de rua, com que excitasse a curiosidade dos amigos? Realmente é admirável; e seria incompreensível se não fosse a circunstancia de ter poucos passos adiante encontrado uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão arrastava… ia dizer a asa, mas isso seria anacronismo; dizia-se no tempo em que os leões se chamavam galos; hoje deve dizer-se arrastar a juba; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a asa é enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.
Foi só quando, encostado em sua otomana, descansava para o jantar, que Horácio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque, lembrou-se do objeto. Teve então curiosidade de examiná-lo: sabia o que era; na ocasião de apanhá-lo reconhecera o pé de uma botina de senhora; mas não fizera grande reparo.
Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, a sós em seu aposento, e despreocupado da idéia de o restituir, Horácio achou o objeto digno de séria atenção; e aproximando-se da janela, começou um exame consciencioso.
Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pelica e seda, a concha mimosa de uma pérola, a faceira irmã do lindo chapim de ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flor, sob a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e torquês.
Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva delicadeza da forma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na pelica os contornos do pezinho desconhecido. A botina fora servida, e muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua primitiva cor bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante uso.
Se fosse um calçado em folha, saído da loja, não teria grande valor aos olhos do nosso leão, habituado não só a ver, como a calçar, as obras primas de Millies e Campàs. Talvez reparando muito naquela peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no corte, e um apuro escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa mínima circunstancia.
Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste mimoso de alguma beleza, o gentil companheiro de uma moça formosa, de quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando o firme relevo do pezinho arqueado. Na sola se desenhava a curva graciosa da planta sutil, que só nas extremidades beijava o chão, como o silfo que frisa a superfície do lago com a ponta das asas.
Há um aroma, que só tem uma flor na terra, o aroma da mulher bonita: fragrancia voluptuosa que se exala ao mesmo tempo do corpo e da alma; perfume inebriante que penetra no coração como o amor volatilizado. A botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda, que se elevava como a corola de um lírio, derramava, como a flor, ondas suaves.
O mancebo colocara longe de si o charuto para não desvanecer com o fumo os bafejos daquele odor suave. Não havia aí o menor laivo de essência artificial preparada pela arte do perfumismo; era a pura exalação de uma cútis acetinada, esse hálito de saúde que perspira através da fina e macia tez, e como através das pétalas de uma rosa.
De repente uma idéia perpassou no espírito do moço, que o fez estremecer. Essa botina grácil, em que mal caberia sua mão aristocrática, essa botina mais mimosa do que sua luva de pelica, não podia ter um número maior do que o de seus anos, vinte e nove!
– Será de uma menina! – murmurou ele um tanto desconsolado.
Examinou novamente a obra-prima, voltou-a de todos os lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da concha, que servira de regaço ao feiticeiro pezinho. Depois de alguns instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o semblante de Horácio:
– É de moça, é de mulher! – murmurou ele. Aqui estão os sinais evidentes; não podem falhar. A fábula de Édipo é uma verdade eterna. no enigma da esfinge está realmente o mito da vida. O homem é o animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio-dia sobre dois; à tarde sobre três. Na infancia, a criatura, como a planta, conserva-se rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda a nutrição; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época da expansão, a criatura se lança para o espaço, exalta-se; é a árvore que hasteia e procura as nuvens; a planta pede ao céu os orvalhos e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se geram as flores, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que, depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé e calça esse coturno da mais triste das tragédias humanas, a decrepitude.
Horácio observou de novo atentamente o objeto que tinha entre as mãos.
– A menina de quinze anos já não é a corça de quatro patas; não está mais na alvorada da vida, na puerícia; também ainda não chegou ao meio-dia do qual aproxima-se. Contudo, seu andar conserva ainda aquela atração para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o quer que seja de sacudido, que revela os impulsos da alma para desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que ora se levanta, ora se submerge. Se esta botina fosse de uma menina, aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto cambado. É uma observação que todo sapateiro confirmaria: o menino gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a ignora, mas o filósofo a conhece: o menino é o inseto que rasteja, a larva; o homem é o inseto que voa, o besouro; aquele anda com o ventre, este com a asa.
Horácio sorriu.
– Esta botina é de moça; e moça em todo o viço da juventude: a sola apenas roçada junto à ponta, o salto quase intato, não estão descrevendo com a maior eloqüência a sutileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, como disse o poeta; a deusa, a Vênus deste Olimpo em que vivemos, a mulher. Só quando toda seiva se precipita para o coração, quando germinam os botões que mais tarde abrirão em flor, só nesse momento de assunção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o andar do passarinho que, roçando a relva, sente o impulso das asas; é o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do anjo que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céu; e é, finalmente, a elação d’alma que aspira de Deus os eflúvios do amor, do amor, único ambiente do coração!
Nisto o moço descobriu na fivela do laço da botina alguma coisa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se à luz, viu as voltas de um fio, que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de leão da moda. Com alguma paciência retirou um longo cabelo castanho e muito crespo.
– Outra prova de que aliás não carecia! Este cabelo é de mulher; não há menina que possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um arbusto! Tem o cabelo castanho e crespo, duas coisas lindas sem dúvida, embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de corvo. Esse negrume dá à mulher o quer que seja de satanico: lembra que ela também gerou se da terra; não é anjo somente; não é somente filha do céu. Eu não posso suportar a mulher-serafim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
Horácio voltou a botina.
– Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma cor insípida de cabelo!
Que me importa isto? Tenho alguma coisa com seu cabelo? O que amo nela é o pé: este pé silfo, este pé anjo, que me fascina, que me arrebata, que me enlouquece!…
Horácio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas tímida e respeitosamente. Não era essa a imagem do pé sedutor, que ele adorava como um ídolo?
– Mas onde encontrá-lo? como reconhecê-lo? – exclamou dolorosamente Horácio, sentindo a realidade da situação.
Nenhum indício que lhe revelasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A lembrança vaga de libré de um lacaio era o único vestígio que restava, mas com este dificilmente poderia descobrir o objeto de sua adoração Há tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquele que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse:
– Desgraçado! – dizia o leão. Quase nem o olhaste; mas podias tu adivinhar, Horácio, que tesouro deixara cair aquele bruto?
O mancebo inclinara ao peito a bela cabeça esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer dele, o leão mais querido das belezas fluminenses, o Átila do Cassino, o Genserico da Rua do Ouvidor. De repente ergueu-se dum ímpeto:
– Hei de possuí-lo!… exclamou ele com o tom com que Alexandre se prometeu o império da Ásia.
 

III

 
Ninguém imagina que belos talentos sorve essa voragem do mundo que chamam a vida elegante.
São como as árvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala estéril e efêmera. Nunca elas dão fruto, nem sequer flor.
Horácio de Almeida era uma de tantas inteligências desperdiçadas no incessante bulício da moda.
Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro não empregaram na fábrica de seus versos o aticismo[1], a inspiração e a graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava um epigrama.
Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, e do supremo gosto, que Horácio imprimia no laço de sua gravata, em suas maneiras distintas, nos mínimos acidentes de seu traje apurado.
E a fisiologia?
Poucos homens conheciam como Horácio o coração da mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sábio professor ficaria estupefato da lucidez admirável, com que o leão costumava ler nesse caos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.
A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observações alheias, e arranjou um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo, o indefinível.
Ao contrário, Horácio tinha estudado na realidade da vida; devassara os refolhos do pólipo, lhe sentira as pulsações, e fizera experiências in anima vili[2]. Não fatigou sua memória com a inútil bagagem dos termos técnicos e das noções científicas: lia os hieróglifos do amor com a linguagem garrida do homem da moda.
A perspicácia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de observação, com que o nosso leão sondava o abismo do coração e rastreava no semblante da mulher os vagos sintomas de uma inclinação nascente, ou de uma afeição expirante, só os grandes médicos possuem tão altos dotes.
Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu belo talento pelas salas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada inteligência, as ia ele esparzindo nas elegantes futilidades de um ócio tão laborioso, como é o far niente[3] de um leão.
Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado das horas sem ocupação; há nada mais difícil para o homem que ignora o trabalho?
Se o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no dia para dedicá-los a um fim sério e útil, à ciência, à literatura, à arte, que belos triunfos não obteria sua rica imaginação servida por um espírito cintilante?
Mas o nosso leão tinha a este respeito idéias excêntricas.
– A política, dizia ele, quando não dá em especulação, passa a mistificação. A ciência, se escapa de mania, torna-se uma gleba em que o sábio trabalha para o néscio. Literatura e arte são plágios; quem pode fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de reproduzi-los; nem contempla estátuas, quem lhes admira os modelos animados e palpitantes.
Com tais paradoxos, Horácio não achava emprego mais digno para a inteligência, do que a difícil ciência de consumir gradualmente a vida e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este vale de lágrimas, em que todos peregrinamos.
A mulher era para ele a obra suprema, o verbo da criação. Toda a religião como toda a felicidade, toda a ciência como toda a poesia, Deus a tinha encarnado nesse misto incompreensível do sublime e do torpe, do celeste e do satanico: amálgama de luz e cinzas, de lodo e néctar.
– Amar é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é estudar a lei da criação em seu mais profundo mistério, a mulher. Amar é admirar o belo em sua mais esplêndida revelação; é fazer poemas e estátuas como nunca as realizou o gênio humano.
Mas o que sentia Horácio era apenas o culto da forma, o fanatismo do prazer.O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mútua de duas almas; e essa, pode o homem iludir-se alguma vez, mas quando se realiza, é indissolúvel. Nada separa duas almas gêmeas que prende o vínculo de sua origem divina.
O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, ele procurava um tipo. Durante dez anos atravessara os salões, como uma galeria de estátuas animadas e vivos painéis, parando um instante em face dessas obras-primas da natureza.
Vieram uns após outros todos os tipos: a beleza ardente das regiões tépidas, ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e garboso ou as formas esbeltas e flexíveis.
Seu gosto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difícil. A beleza comum já não o satisfazia; era preciso a obra-prima para excitar-lhe a atenção e comovê-lo.
Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura caíram na monotonia.
Já o leão não sentia pela mais bela mulher aqueles entusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um crítico.
Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar, a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a princípio uma boca bonita, cofre de pérolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veio depois uma trança densa e negra, como a asa da procela que se inflama. Uma cintura de sílfide, um colo de cisne, um requebro sedutor, um sinal da face, uma graça especial, um não sei que: tudo recebeu culto do nosso leão.
Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua alma babujava na sala essas gulosinas. Mas afinal embotou-se; e o prazer não foi para ela mais do que a vulgar satisfação de um hábito.
O moço cortejava as senhoras como uma ocupação indispensável à sua vida, como o desempenho da tarefa diária; mas sem a menor comoção.
Amar era um entretenimento do espírito, como passear a cavalo, freqüentar o teatro, jogar uma partida de bilhar.
O amor já não tinha novidades nem segredos para ele, que o gozara em todas as formas; na comédia e no drama; no idílio e na ode. Como Richelieu, diziam até que ele já o havia calcado com o tacão da bota.
Nestas circunstancias bem se compreende a impressão profunda que nele produzia a mimosa botina, achada naquela manhã.
Almeida tinha admirado a mulher em todos os tipos e em todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a forma sedutora de um pezinho faceiro. Era realmente para surpreender. Como lhe passara despercebido esse condão mágico da mulher, a ele que julgava ter esgotado todas as emoções do amor?
Sucedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma enervada por longa apatia, a reação foi violenta. Inflamou-se a imaginação e especialmente com o toque do mistério que trazia a aventura. Se o dono da botina, o sonhado pezinho, se mostrasse desde logo, não produziria o mesmo efeito; não teria o sabor do desconhecido, que é irmão do proibido.
Imagine, quem conhecer o coração humano, a veemência dessa paixão, excitada pelo tédio do passado e alimentada por uma imaginação ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludíbrio de sua fantasia?
As extravagancias de Horácio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa existência, embotada para o verdadeiro amor e gasta pelo prazer.
Não se riam, homens sérios e graves, não zombem de semelhantes extravagancias; são elas o delírio da febre do materialismo que ataca o século.
Essa paixão de Horácio, o que é senão aberração da alma, consagrada ao culto da matéria? A voracidade insaciável do desejo vai criando dessas monstruosidades incompreensíveis.
Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que à embriaguez do álcool. A princípio basta-lhe o vinho fino e aristocrático; depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão do gengibre em rum, isto é, a larva de um vulcão preparada à guisa de grogue.
 

IV

 
Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então ocupava na Glória.
Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma.
Fosse ilusão dos sentidos perturbados pela comoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rápido olhar.
Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um obstáculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permitisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não sucedesse, consolava-o a idéia de conhecer a direção que tomaria a linda vitória.
– Se eu soubesse ao menos para que lado mora ela!… Esse ponto seria o meu horizonte, o meu céu. Me voltaria para ali quando adorasse a Deus e quando conversasse com ela. Amaria as estrelas, as nuvens e até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não era tanto a esperança de ver a moça, ou somente o carro, como a necessidade de ocupar seu espírito, o que o impelia nessa perseguição de uma sombra.
– Eu tornarei a vê-la, pensava ele consigo; e ela me há de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se resume nele; que a lei da atração não é senão a lei da simpatia; os pólos são a cabeça e o coração, na terra como no homem. Se ela for a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revelou à minha paixão, aquela a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ela, como ela para mim, impelidos por uma força misteriosa, por mútua aspiração.
Com o animo repousado por essa convicção que nele se derramara, entrou Leopoldo em casa. Aí o esperava o isolamento em que se ia escoando sua vida, depois da perda de uma irmã a quem adorava.
Nessa irmã tinha ele resumido todas as afeições da família, prematuramente arrebatada à sua ternura; o amor filial, que não tivera tempo de expandir-se, a amizade de um irmão, seu companheiro de infancia, todos esses sentimentos cortados em flor, ele os transportara para aquele ente querido, que era a imagem de sua mãe.
Essa perda deixara um vácuo imenso no coração de Leopoldo; a princípio enchera-o a dor, depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquele coração ermo. O mancebo carecia de uma afeição para povoar esse deserto de sua alma, de uma voz que repercutisse nesse lúgubre silêncio. É tão doce partilhar sua melancolia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dois ombros para a cruz, e dois peitos para a alegria; alivia-se o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cair da tarde, quando o crepúsculo já desdobrava sobre a cidade o véu de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado à janela de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolfados no azul diáfano do céu, onde cintilava a primeira estrela. A seus pés desdobrava-se a baía plácida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.
O espírito do moço não se embebia decerto na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada e sempre nova. Ao contrário, abandonava-se todo às recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e repassava em sua memória, como em um cadinho, todas as circunstancias mínimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desapareceu por último ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso o mesmo prazer que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados: lá ficou um raio de mel, que o lábio ávido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do espírito.
Houve uma ocasião em que o mancebo quis representar em sua lembrança a imagem da moça; naturalmente começou interrogando sua memória a respeito dos traços principais. Como era ela? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena?
Que cor tinham seus olhos?
A nenhuma dessas interrogações satisfez a memória; porque não recebera a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não obstante, a aparição encantadora ressurgia dentro de sua alma; ele a revia tal como se desenhara a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem diáfana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
– Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!… – murmurava no íntimo.
Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: vê-se a chama, o esplendor, e nem se repara no espectro que a flama envolve como uma roupagem.
Ela é minha luz; não sei a cor e a forma que tem, mas sei que cintila, que me deslumbra; que inunda meu ser de uma aurora celeste. Não poderia descrevê-la, como um poeta… Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu coração?
As pálpebras do mancebo cerraram-se coando apenas uma réstia de olhar, que se embebia nas alvas espirais da fumaça do charuto. Percebia-se que naquela névoa se debuxava à sua imaginação a sedutora imagem, diante da qual ele caía em êxtases de uma doçura inefável.
– Quem sabe? Talvez não seja ela o que nos bailes se chama uma moça bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu a amo!… O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! Vênus, a deusa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra coisa senão o mito da mulher amada, surgindo dentre as puras ilusões do coração! O que eu admiro nela, o que me enleva, é sua beleza celeste; é o anjo que transparece através do invólucro terrestre; é a alma pura e imaculada que se derrama de seus lábios em sorrisos, e a envolve como a cintilação de uma estrela.
Leopoldo já não estava só na existência; tinha para acompanhá-lo na esperança essa doce aparição, como para partilhar a saudade tinha a memória querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por algum vínculo misterioso; e criou assim uma família ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas ocupações habituais e cerrava sua alma para não deixar que as misérias do mundo aí penetrando profanassem o templo de sua adoração, o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas, encerrava-se naquele asilo e aí vivia.
Alguns dias depois do encontro da Rua da Quitanda, o Castro percorrendo distraidamente os jornais da manhã, deu com os olhos sobre os anúncios de espetáculo, coisa que desde muito tempo não existia para ele. Representava-se no Teatro Lírico a Lúcia de Lamermoor, o mais sublime poema de melancolia, que já se escreveu na língua dos anjos.
O mancebo teve um desejo irresistível de ir aquela noite ao espetáculo, apesar de conservar ainda o luto pesado. Não compreendia esse capricho de seu coração; atribuiu-o ao encanto das reminiscências daquela música tão triste, e também daquele amor tão estremecido, que os homens quiseram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no túmulo. Ele ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, profanação de uma dor santa.
Eram perto de dez horas; cantava-se o final do segundo ato da ópera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote de segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua pupila iluminou-se de fogos sombrios e ardentes.Vira a mulher amada.
Amélia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração, a mulher bela tem, como o homem de inteligência, em certos momentos influições enérgicas de poesia; nessas ocasiões ambos irradiam- a mulher fica esplêndida, o homem sublime.
O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nívea transparência de um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a fronte o diadema de suas belas tranças, donde resvalavam dois cachos soberbos, que brincavam sobre o colo. Os cabeleireiros chamam esses cachos de arrependimentos, repentires[4]. Por que motivo? A alma que se arrepende envolve-se daquela forma; o pesar a confrange. Já se vê que os cabeleireiros também são poetas.
Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos maciços de suas formas gentis, o que arrebatou o espírito do mancebo. Ele só viu a luz, o brilho d’alma, rorejando do sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nela, sem contar-lhe as pétalas.
Amélia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de veludo da balaustrada, prestava atenção à cena, recolhendo às vezes a vista para discorrê-la vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o pano caiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãe e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e deixou cair sobre a platéia um olhar súbito e vivo. Foi uma centelha elétrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visível incômodo. Quis disfarçar, mas afinal ergueu-se, para ocultar-se no interior do camarote, por detrás de Laura, a qual ocupava o outro lugar da frente.
 
 
Fonte: A pata da gazela. 15a edição. São Paulo, Ática, 1998. (Série Bom livro).





Bio fornecida pelo palestrante.

GUERRA DOS MASCATES




Autor: José de Alencar
Título: Guerra dos Mascates
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 28/12/2004

GUERRA DOS MASCATES

Capítulo I

A janelinha rebuçada do sótão da casa nova do Perereca

 

José de Alencar

A tarde do dia 1 de outubr

o de 1710 não teve coisa de maior.

Foi uma tarde como qualquer, em fazendo bom tempo. O sol tinha cara dos mais dias, aí pela volta das quatro horas que seriam então; nada mais, a não ser uma carapuça de algodão que lá as nuvens haviam encasquetado na cabeça do astro para guardá-lo de constipar-se com o relento.

E o mais é que assim encarapuçado, Febo, como ainda o chamavam então os poetas e os namorados, fazia a figura de um Xerxes trajado à moda do rei constitucional, de casaca e chapéu redondo.

O céu estava azul mais ou menos; o mar pelo mesmo teor; levanta-se a viração, e as árvores tinham o verde do costume, misturando com alguns ramos secos e fôlhas murchas. Também deviam de cantar pelos arredores alguns passarinhos; não falando das flôres que sem dúvida estrelavam o campo.

Agora, se era de cetim o manto do firmamento, e de safira a redoma do oceano, se as auras suspiravam amores nos seios das boninas, e arrulhavam saudades as rôlas melancólicas, enquanto as açucenas abriam as suas caçoulas cheias de perfumes, não sei eu: que não o diz a crônica.

Mas por isso não haja queixa. Tome cada um de sêdas, pedrarias, endechas, e fragrâncias, quanta porção queira, e vá enfeitando e arrebicando a minha descrição a seu gôsto. Eu cá prefiro a simplicidade, que é o mais cômodo de todos os estilos; basta ver que forra-se a gente ao trabalho de fantasiar, e deixar isso ao leitor.

Há nada como aquêle modo chão de principiar as histórias da carocha:- Foi um dia… E cada um que imagine o tal à sua feição, de inverno ou de verão, de outono a primavera, como lhe saiba melhor.

Pois era uma tarde… e a janela do sótão, na casa do Perereca, abria manso e manso fazendo uma festa, onde se mostrou a mêdo a ponta arrebitada do mais lindo narizinho retorcido de que há notícia desde Aglaia, a qual o tinha de primor, valha a fábula, como a graça que era do chiste e da malícia, donde veio chamarem-na os gregos de esplêndida.

Agora vejo que não se conhece ainda a casa, nem o lugar em que estava situada, sem falar de outras particularidades, que não deixam de ser curiosas, com especialidade o dono; pois, e não digo novidade, se em geral os prédios são coisa de seu proprietário, também donos há que são acessórios de sua casa.

Estamos em Recife.

Andando a rua da Praia dos Coqueiros, no bairro de Santo Antônio, quem ia naquele tempo do Colégio para as bandas das Cinco Pontas, quase a meio do caminho encontrava um vasto edifício que ficava fronteiro à barra; ainda a rua da Maré com sua casaria não se tinha prolongado até aquêle ponto da ribeira.

Larga e baixa, a casa terreira acaçapava-se entre o arvoredo do quintal que a beirava de um e outro lado; mas dava logo nas vistas pela especialidade da pintura extravagante com que a haviam lambuzado, pois outra qualificação não quadraria à incrível borradela.

Tinha cerca de quatro anos o edifício. Acabada nêle a obra de pedreiro e carapina, quando se teve de passar ao artigo pintura, vieram as tribulações para o dono, o digno Sr. Simão Ribas, mascate de pêso e marca entre os principais do Recife.

Não sei se já aí por essa monarquia doméstica tinham inventado o govêrno pessoal, e usavam as calças responsáveis meterem-se por baixo da saia inviolável. Cá, no meu alfarrábio, só vejo que houve muita resinga e alteração, acabando o batibarba ou questão de alcova, como de costume, com o triunfo completo da trunfa, que era então, como o coque é hoje, a coroa doméstica.

Sabidas as contas, decidira a Sra. Rufina Ribas que a fachada fôsse de uma côr farfante e para ver-se a léguas, lá do alto mar. Antes de surdir o navio pelo Lameirão, a dentro, queria a respeitável matrona que sua casa entrasse pelas vistas da gente que vinha da santa terrinha.

Nem por sombras ocorreu ao marido a idéia de opor-se à vontade de sua dona. Era um marido constitucional o Sr. Simão Ribas; e não há aí ministro cortesão, a que êle não levasse as lampas na arte insigne de fundir-se, como cêra, em figurinhas moldadas ao capricho mulheril. Não foram, pois assomos da resistência que perturbaram a paz doméstica; ao inverso, proveio tudo de excessos de zêlo e obediência.

Chamado a conselho o exímio borrador a fim de dar alvitre sôbre o caso, foi de voto que não havia como o zarcão, para fazer o gôsto à Sra. Rufina. Dito e feito: no dia seguinte amanheceu a parede assanhada com uma crosta do mais coruscante vermelho.

Muito ancho de si, o digno mascate já se regozijava ao agrado da querida metade, quando lhe veio ela deitar água na fervura. Esguelhando à parede um olhar impertinente, espevitou o nariz, torceu o beiço, e deu um muxôxo, que eriçou os cabelos ao marido.

Barulho no caso; nôvo apêlo ao borrador que guisou a combinação do verdete com o zarcão; e assim, de resinga em resinga, chegou-se àquele espalhafato de tôdas as côres, onde o azul brigava com o encarnado, o verde com o vermelho, e o roxo-terra com o amarelo oca. Era coisa indescritível, que o prospecto de algumas tabernas de hoje ainda não conseguiu imitar.

Nos primeiros dias estêve a casa de mostra aos basbaques e pascácios, que por lá iam, para se pasmarem diante daquela maravilha. Por um mês não se falou no Recife doutra coisa; até que um dia apareceu lá pela manhã escrito a carvão, na frente, êste dístico maligno- Perereca.

Lavou-se da parede a tisna, mas a alcunha ficou aí fisgada à casa, como se a tivessem gravado em bronze, Fôra o brejeiro de um rapaz que, voltando à ave-maria da escola e ouvindo cantar a rã numa touça de bananeiras, lembrou-se da semelhança que tinha com a frente da casa, e escreveu-lhe o nome na parede. Ao outro dia, antes que apagassem as letras, sucedeu passarem aí um frade, uma comadre e um soldado. Leu o franciscano em voz alta, se julgando a sós, e riu-se; ouviram-no os dois e atinaram com a graça.

Tanto bastou para que ao meio-dia se soubesse em todo o Recife do acontecimento; e, pelo plebiscito do motejo unânime, a casa sarapintada ficou sendo conhecida pelo nome expressivo de Casa do Perereca.

Cobria o edifício um telhado de altas abas e alto cocuruto, que lançava em cada quina uma ponta de barro com pretensões a figura de marreca. Nas duas faces laterais erguiam-se as águas furtadas do sótão, que rasgava duas janelas, uma para cada banda.

Na janela da direita, que durante o dia estava aberta sempre, de costume estendiam um cordel passado de uma à outra ombreira certa de chita de ramagens, que ao sôpro do vento desfraldava-se à guisa de estandarte. Quem tinha a dita de conhecer a Sra. Rufina Ribas, acertando de passar por aquêles sítios e dando com o espantalho da tal coberta, adivinhava logo que era da garrida matrona essa janela.

Tinha outro ar e outros modos a janela da esquerda. Começava logo por uma latada que lhe haviam armado em volta, e lhe servia como capuz, com ramadas do maracujázeiro entrelaçadas pelos escaques do caramanchel. Dava-lhe isso, à tal janelinha, uns biocos de freira, mas de freira môça e bonita, que lá do remanso do claustro enfia pela grade uma olhadela curiosa e ávida do burburinho do mundo.

Outra diferença vinha de estarem as adufas da direita sempre cerradas, em horas soalheiras; nisso pareciam-se com o cálice de certas flôres e com os cílios da juriti, que fecham-se pela muita luz e só abrem ao doce toque do crepúsculo. Todavia não eram elas tão recatadas do sol, que não se descerrassem lá uma ou outra vez, na calma do dia, sobretudo aos domingos, para deixar que entrasse algum raio fagueiro pela câmara do sótão.

No estreito eirado, rente com o peitoral, havia três vasos de barro onde cresciam várias plantas. A mão que reunira aí o alvo bogarim, a rubra cravina, o goivo amarelo e os bagos escarlates da pimenta êsse conjunto singular lhe estava denunciado a travessura. Se é verdade, e eu creio, que a alma imprime nos objetos que a cercam a sua própria feição, podia-se ver naquele grupo de plantas o enigma de um oração.

Não seria o alvo bogarim o reflexo da candidez, como as pétalas da cravina a imagem dos vivos rubores de uma petulante castidade? O goivo, ali na mansão da juventude, não exprimia a descuidosa alegria, que orvalha de risos até as horas aziagas? E naqueles bagos vermelhos e brilhantes de pimenta, não havia quiçá o emblema das unhas de nácar habituadas a insinuar no afago o belisco traiçoeiro?

Afinal de contas, quem sabe se apesar de tôdas as suas mostras encantadoras não estava a tal sonsa da janelinha enganando a gente quem passava, como certas môças do tempo de hoje, cujo fraco é porem-se às avessas; quero eu dizer, e sem malícia, que se empenham com todas as fôrças para fazerem-se outras, das que criou a natureza.

Assim tosquia-se, para fazer cachos, aquela que Deus ornou com a túnica mais bela, que é uma soberba madeixa. Se não a possuísse, havia de esmagar a cabeça com uma trouxa enorme de cabelos postiços. Estufa-se a magra com enchimentos para simular contornos, como a gorda se espartilha e acocha para figurar de esbelta. E nesse teor, enganando-se a si e aos outros, vai o mundo a rolar como uma bola que é, levantando êstes e abaixando aquêles, mas por fim esmoendo a todos.

Eis porque não seria caso de espantar, se naquela janelinha tão louçã viesse a aparecer uma velha encarquilhada, descobrindo-se afinal que o nosso narizinho retorcido não respeitável par de óculos de tartaruga.

Tudo pode ser.

Fonte: Alencar, José de. Guerra dos Mascates. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1969.





Bio fornecida pelo palestrante.

IRACEMA, o mel-LIPS




Autor: José de Alencar
Título: Iracema, Iracema, os lábios de mel-
Idiomas: eng
tradutor: Isabel Burton (eng)
Dados: 28/12/2004

IRACEMA, o mel-LIPS

CAPÍTULO 1

José de Alencar

Selvagens verdes mares da minha terra natal, onde canta a Jandaia-pássaro nas folhas das palmeiras! Carnaúba-
mares verdes que brilham como líquida esmeralda aos raios do sol oriente, como vós esticar ao longo das praias de neve sombreados pelo cacau árvore!
Aquietai-vos, ó mares verdes! e alisar suavemente a onda impetuosa, que barca venturesome pode deslizar suavemente sobre teus águas.
Onde diz que Hardy Jangada-jangada, que voa rapidamente do litoral cearense, com seu amplo vela se espalhar para a brisa fresca de terra?
Onde vai, ? como o halcy branco em busca de sua rocha nativa na solidão do oceano
Três seres assopra sobre essa prancha frágil, que Scuds tão rapidamente para fora -. longe em mar aberto
Um guerreiro da juventude, cuja pele pálida prenuncia que o sangue dos índios não colorir suas veias;. uma criança, e um mastiff, que tanto vi pela primeira vez a luz no berço das florestas, e que esporte como irmãos, filhos da mesma terra selvagem
As respirações intermitentes do bafo praia um eco que, levantando-se acima da ondulação das ondas, soa por diante –
“Iracema” ***
O jovem guerreiro, aprender contra o mastro, levanta os olhos, que são fixados sobre o contorno fugaz da costa sombria. De tempos em tempos a visão torna-se fraca, e uma lágrima cai sobre o Girão-banco onde brincam os dois inocentes, os companheiros do seu infortúnio.
Nesses momentos sua alma voa para os lábios em um sorriso amargo.
que deixaram ele naquela terra ? do exílio
Um conto que me disseram nas belas planícies que vi o meu nascimento, durante o silêncio da noite, enquanto a lua, navegando pelos céus, prateado nas pradarias, enquanto a brisa murmurou em meio às palmeiras.
Os refresca vento.
O surf rola em ondas mais altas. A barca salta sobre as ondas – desaparece no horizonte. Plano bocejos o desperdício de água. As ninhadas tempestade, condor-like, com asas escuras sobre o abismo.
Deus te guarde segura, barca forte, no meio das ondas de ebulição! Deus te dirigir a alguma reentrância amigável! Que a brisa suave lufada de ti e para ti pode mares calmos jasper ser como planícies de leite!
Mas enquanto tu sailest assim à mercê dos ventos, barque graciosa, waft volta à praia de areia branca que alguns do anseio que te acompanha, mas que não pode deixar a terra em que ele retorna.

NOTAS

Jandaia é um pequeno amarelo, vermelho, verde e falando parroquet.
Carnaúba, uma palmeira brasileira conhecida de grande porte, com muitos galhos espinhosos todo o caminho até o tronco, em vez de ser simples e suave. Cada ramo da ponta é como um fã-palm. Quando o novo, ele tem uma grande fruta, cheia de óleo, que é dado a porcos e bovinos. Quando cresceu, seus fãs de folhas secas, thateh as casas e fazer chapéus e tapetes; seus ramos espinhosos são usados ??para apostas, mas também tem um delicioso pequena fruta preta, e de outras partes extraem cera para fazer as velas Carnaúba .
. Jangada, uma jangada
Girão, uma espécie de rudes banco para sentar-se em cima da jangada Jangada.
Saudade, na saudade originais – uma palavra em Português intraduzível para o qual não temos equivalente, o que significa um triste lamento suave para alguma pessoa, lugar ou tempo feliz e perdeu passado – na verdade, o desiderium Latina.

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Fonte: ALENCAR, José de. Iracema, o mel-lábios. Traduzido com permissão do autor por Isabel Burton. Londres, Bickers & Son, 1886. p. 1, 2.

IRACEMA

1

José de Alencar

Verdes Mares Bravios de minha terra natal, Onde canta a jandaia NAS frondes da carnaúba;
Verdes Mares, Que brilhais Como LIQUIDA esmeralda Aos Raios do Sol nascente, perlongando tão alvas Praias ensombradas de coqueiros;
Serenai, Verdes Mares, e alisai docemente a vaga impetuosa , parágrafo QUE O Barco aventureiro manso resvale à flor das Águas.
Onde Vai a afouta jangada, Que Deixa Rápida a costa cearense, Aberta Ao ar livre Terral de e grandioso Vela?
ONDE VAI COMO Branca Alcione Buscando Ø Rochedo pátrio da nas solidões do Oceano?
Entes Três respiram sobre o Frágil lenho Que Vai singrando veloce, mar los fóruns.
Um Jovem guerreiro cuja tez branca Localidade: Não cora o Sangue americano; UMA Criança e hum rafeiro Que viram a luz não Berço das Florestas, e brincam Irmãos, Filhos Ambos da MESMA terra Selvagem .
Uma lufada intermitente Traz da praia hum eco vibrante, Que ressoa Entre o Marulho das vagas:
! – Iracema
O moço guerreiro, encostado AO mastro, lev OS Olhos Presos na sombra fugitiva da terra; uma Espaços O Olhar empanado POR tênue lágrima cai sobre o jirau, Onde folgam como Duas inocentes Criaturas, companheiras de Seu infortunio.
Nesse Momento o labio arranca d’alma hum agro sorriso.
Que deixara elemento na Terra do exílio?
Uma História Que me contaram NAS lindas várzeas Onde nasci, à calada da Noite , when a Lua passeava no Céu argenteando OS campos, a EA Brisa rugitava soe palmares.
Refresca o vento.
Ó rulo das vagas precipitação. O barco salta sobre como Ondas e desaparece no horizonte. Abre-se, uma imensidade dos Mares; ea borrasca enverga, Como o condor, como foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, POR ENTRE COMO vagas Revoltas, e te Poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti como brandas auras, e para ti jaspeie um Bonança mares de leite!
Enquanto vogas ASSIM à discrição do vento, airoso barco, volva Areias Brancas como a saudade, Que te Acompanha, mas Localidade: Não se Parte da terra Onde revoa.

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Fonte: ALENCAR, José de. Iracema: Lenda do Ceará. 27 ª ed. Rio de Janeiro, Ediouro, 1995. p. 20.





Bio fornecida pelo palestrante.

LUCÍOLA




Autor: José de Alencar
Título: Lucíola
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 28/12/2004

LUCÍOLA

I

José de Alencar

A senhora estranhou, na última vez que estivemos juntos, a minha excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagâncias.
Quis responder-lhe imediatamente, tanto é o apreço em que tenho o tato sutil e esquisito da mulher superior para julgar de uma questão de sentimento. Não o fiz, porque vi sentada no sofá, do outro lado do salão, sua neta, gentil menina de 16 anos, flor cândida e suave, que mal desabrocha à sombra materna. Embora não pudesse ouvir-nos, a minha história seria uma profanação na atmosfera que ela purificava com os perfumes da sua inocência; e– quem sabe ?– talvez por ignora repercussão o melindre de seu pudor se arrufasse unicamente com os palpites de emoções que iam acordar em minha alma.
Receei também que a palavra viva, rápida e impressionável não pudesse, como a pena calma e refletida, perscrutar os mistérios que desejava desvendar-lhe, sem romper alguns fios da tênue gaza com que a fina educação envolve certas idéias, como envolve a moda em rendas e tecidos diáfanos os mais sedutores encantos da mulher. Vê-se tudo; mas furta-se aos olhos a indecente nudez.
Calando-me naquela ocasião, prometi dar-lhe a razão que a senhora exigia; e cumpro o meu propósito mais cedo do que pensava. Trouxe no desejo de agradar-lhe a inspiração; e achei voltando a insônia de recordações que despertara a nossa conversa. Escrevi as páginas que lhe envio, as quais a senhora dará um título e o destino que merecerem. É um perfil de mulher apenas esboçado.
Desculpe, se alguma vez a fizer corar sob os seus cabelos brancos, pura e santa coroa de uma virtude que eu respeito. O rubor vexa em face de um homem; mas em face do papel, muda e impassível testemunha, ele deve ser para aquelas que já imolaram à velhice os últimos desejos, uma como essência de gozos extintos, ou extremo perfume que deixam nos espinhos as desfolhadas rosas.
De resto, a senhora sabe que não é possível pintar sem que a luz projete claros e escuros. As sombras do meu quadro se esfumam traços carregados, contrastam debuxando o relevo colorido de límpidos contornos.

II

A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855.
Poucos dias depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, o Dr. Sá, levou-me à festa da Glória; uma das poucas festas populares da corte. Conforme o costume, a grande romaria desfilando pela Rua da Lapa e ao longo do cais, serpejava nas faldas do outeiro e apinhava-se em torno da poética ermida, cujo âmbito regurgitava com a multidão do povo.
Era ave-maria quando chegamos ao adro; perdida a esperança de romper a mole de gente que murava cada uma das portas da igreja, nos resignamos a gozar da fresca viração que vinha do mar, contemplando o delicioso panorama da baia e admirando ou criticando as devotas que também tinham chegado tarde e pareciam satisfeitas com a exibição de seus adornos.
Enquanto Sá era disputado pelos numerosos amigos e conhecidos, gozava eu da minha tranqüila e independente obscuridade, sentado comodamente sobre a pequena muralha e resolvido a estabelecer ali o meu observatório. Para um provinciano recém-chegado à corte, que melhor festa do que ver passar-lhe pelos olhos, à doce luz da tarde, uma parte da população desta grande cidade, com os seus vários matizes e infinitas gradações?
Todas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro; todas as posições, desde as ilustrações da política, da fortuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido; todas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente, todos os tipos grotescos da sociedade brasileira, desde a arrogante nulidade até a vil lisonja, desfilaram em face de mim, roçando a seda e a casimira pela baeta ou pelo algodão, misturando os perfumes delicados às impuras exalações, o fumo aromático do havana as acres baforadas do cigarro de palha.
— É uma festa filosófica essa festa da Glória! Aprendi mais naquela meia hora de observação do que nos cinco anos que acabava de esperdiçar em Olinda com uma prodigalidade verdadeiramente brasileira.
A lua vinha assomando pelo cimo das montanhas fronteiras; descobri nessa ocasião, a alguns passos de mim, uma linda moça, que parara um instante para contemplar no horizonte as nuvens brancas esgarçadas sobre o céu azul e estrelado. Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância. O vestido que o moldava era cinzento com orlas de veludo castanho e dava esquisito realce a um desses rostos suaves, puros e diáfanos, que parecem vão desfazer-se ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada. Ressumbrava na sua muda contemplação doce melancolia e não sei que laivos de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e sereno na mimosa aparição.
— Já vi esta moça! disse comigo. Mas onde?…
Ela pouco demorou-se na sua graciosa imobilidade e continuou lentamente o passeio interrompido. Meu companheiro cumprimentou-a com um gesto familiar; eu, com respeitosa cortesia, que me foi retribuída por uma imperceptível inclinação da fronte.
— Quem é esta senhora? perguntei a Sá.
A resposta foi o sorriso inexprimível, mistura de sarcasmo, de bonomia e fatuidade, que desperta nos elegantes da corte a ignorância de um amigo, profano na difícil ciência das banalidades sociais.
— Não é uma senhora, Paulo! É uma mulher bonita. Queres conhecê-la ?. . .
Compreendi e corei de minha simplicidade provinciana, que confundira a máscara hipócrita do vício com o modesto recato da inocência. Só então notei que aquela moça estava só, e que a ausência de um pai, de um marido, ou de um irmão, devia-me ter feito suspeitar a verdade.
Depois de algumas voltas descobrimos ao longe a ondulação do seu vestido, e fomos encontrá-la, retirada a um canto, distribuindo algumas pequenas moedas de prata à multidão de pobres que a cercava. Voltou-se confusa ouvindo Sá pronunciar o seu nome:
— Lúcia!
— Não há modos de livrar-se uma pessoa desta gente! São de uma impertinência! disse ela mostrando os pobres e esquivando-se aos seus agradecimentos.
Feita a apresentação no tom desdenhoso e altivo com que um moço distinto se dirige a essas sultanas do ouro, e trocadas algumas palavras triviais, meu amigo perguntou-lhe:
— Vieste só?
— Em corpo e alma.
— E não tens companhia para a volta?
Ela fez um gesto negativo.
— Neste caso ofereço-te a minha, ou antes a nossa.
— Em qualquer outra ocasião aceitaria com muito prazer; hoje não posso.
— Já vejo que não foste franca!
— Não acredita?. .. Se eu viesse por passeio!
— E qual é o outro motivo que te pode trazer à festa da Glória?
— A senhora veio talvez por devoção? disse eu.
— A Lúcia devota!. . . Bem se vê que a não conheces.
— Um dia no ano não é muito’ respondeu ela sorrindo.
— É sempre alguma coisa, repliquei.
Sá insistiu:
— Deixa-te disso; vem conosco.
— O senhor sabe que não é preciso rogar-me quando se trata de me divertir. Amanhã, qualquer dia, estou pronta. Esta noite, não!
— Decididamente há alguém que te espera.
— Ora! Faço mistério disto?
— Não é teu costume decerto.
— Portanto tenho o direito de ser acreditada. As aparências enganam tantas vezes! Não é verdade? disse voltando-se para mim com um sorriso.
— Não me lembra o que lhe respondi; alguma palavra que nada exprimia, dessas que se pronunciam às vezes para ter o ar de dizer alguma coisa. Quanto a Lúcia, fazendo-nos um ligeiro aceno com o leque, aproveitou uma aberta da multidão e penetrou no interior da igreja, em risco de ser esmagada pelo povo.
Não preciso dizer-lhe, pois adivinha, que acabava de fazer uma triste figura. Não sou tímido; ao contrário peco por desembaraçado. Mas nessa ocasião diversas circunstâncias me tiravam do meu natural. A expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelavam a cortesã franca e impudente o contraste inexplicável da palavra e da fisionomia, junto à vaga reminiscência do meu espírito, me preocupavam sem querer. Atribuo a isto ter eu apenas balbuciado algumas palavras durante a conversa, e haver cortejado respeitosamente a senhora, que apesar de tudo ainda me aparecia nesta mulher, mal a voz lhe expirava nos lábios, porque, então, o desdém que vertia de sua frase volúbil passava, e o semblante em repouso tomava uns ares de meiga distinção.
A festa continuou, e fomos acabá-la em uma alegre reunião, onde se dançou e brincou até duas horas da noite.
Quando apaguei a minha vela ao deitar-me, na dúbia visão que oscila entre o sono e a vigília, foi que desenhou-se no meu espírito em viva cor a reminiscência que despertara em mim o encontro de Lúcia. Lembrei-me então perfeitamente quando e como a vira a primeira vez.
Fora no dia da minha chegada. Jantara com um companheiro de viagem, e ávidos ambos de conhecer a corte, saímos de braço dado a percorrer a cidade. Íamos, se não me engano, pela Rua das Mangueiras, quando, voltando-nos, vimos um carro elegante que levavam a trote largo dois fogosos cavalos. Uma encantadora menina, sentada ao lado de uma senhora idosa, se recostava preguiçosamente sobre o macio estofo, e deixava pender pela cobertura derreada do carro a mão que brincava com um leque de penas escarlates. Havia nessa atitude cheia de abandono muita graça; mas graça simples, correta e harmoniosa; não desgarro com ares altivos decididos, que afetam certas mulheres à moda.
No momento em que passava o carro diante de nós, vendo o perfil suave e delicado que iluminava a aurora de um sorriso raiando apenas no lábio mimoso, e a fronte límpida que à sombra dos cabelos negros brilhava de viço e juventude, não me pude conter de admiração.
Acabava de desembarcar; durante dez dias de viagem tinha-me saturado da poesia do mar, que vive de espuma, de nuvens e de estrelas; povoara a solidão profunda do oceano, naquelas compridas noites veladas ao relento, de sonhos dourados e risonhas esperanças; sentia enfim a sede da vida em flor que desabrocha aos toques de uma imaginação de vinte anos, sob o céu azul da corte.
Recebi pois essa primeira impressão com verdadeiro entusiasmo, e a minha voz habituada às fortes vibrações nas conversas à tolda do vapor, quando zunia pelas enxárcias a fresca viração, minha voz excedeu-se:
— Que linda menina! exclamei para meu companheiro, que também admirava. Como deve ser pura a alma que mora naquele rosto mimoso!
Um embaraço imprevisto, causado por duas gôndolas, tinha feito parar o carro. A moça ouvia-me; voltou ligeiramente a cabeça para olhar-me, e sorriu. Qual é a mulher bonita que não sorri a um elogio espontâneo e a um grito ingênuo de admiração’ Se não sorri nos lábios, sorri no coração.
Durante que se desimpedia o caminho, tínhamos parado para melhor admirá-la; e então ainda mais notei a serenidade de seu olhar que nos procurava com ingênua curiosidade, sem provocação e sem vaidade. O carro partiu; porém tão de repente e com tal ímpeto dos cavalos por algum tempo sofreados, que a moça assustou-se e deixou cair o leque. Apressei-me, e tive o prazer de o restituir inteiro.
Na ocasião de entregar o leque apertei-lhe a ponta dos dedos presos na lava de pelica. Bem vê que tive razão assegurando-lhe que não sou tímido. A minha afoiteza a fez corar; agradeceu-me com um segundo sorriso e uma ligeira inclinação da cabeça; mas o sorriso desta vez foi tão melancólico, que me fez dizer ao meu companheiro:
— Esta moça não é feliz!
— Não sei; mas o homem a quem ela amar deve ser bem feliz!
Nunca lhe sucedeu, passeando em nossos campos, admirar alguma das brilhantes parasitas que pendem dos ramos das árvores, abrindo ao sol a rubra corola? E quando ao colher a linda flor, em vez da suave fragrância que esperava, sentiu o cheiro repulsivo de torpe inseto que nela dormiu, não a atirou com desprezo para longe de si?
É o que se passava em mim quando essas primeiras recordações roçaram a face da Lúcia que eu encontrara na Glória. Voltei-me no leito para fugir à sua imagem, e dormi.

III

A corte tem mil seduções que arrebatam um provinciano aos seus hábitos, e o atordoam e preocupam tanto, que só ao cabo de algum tempo o restituem à posse de si mesmo e ao livre uso de sua pessoa.
Assim me aconteceu. Reuniões, teatros, apresentações às notabilidades políticas, literárias e financeiras de um e outro sexo; passeios aos arrabaldes; visitas de cerimônia e jantares obrigados; tudo isto encheu o primeiro mês de minha estada no Rio de Janeiro. Depois desse tributo pago à novidade, conquistei os foros de cortesão e o direito de aborrecer-me à vontade.
Uma bela manhã, pois, estava na crítica posição de um homem que não sabe o que fazer. Li os anúncios dos jornais; escrevi à minha família; participei a minha chegada aos amigos; e por fim ainda me achei com uma sobra de tempo que embaraçava-me realmente. Acendi o charuto; e através da fumaça azulada, lancei uma vista pelos dias decorridos. «Lembrar-se é viver outra vez», diz o poeta.
De repente caiu-me um nome da memória. Achara em que empregar a manhã.
— Vou ver a Lúcia.
Depois da festa da Glória tinha-a encontrado algumas vezes, mas sem lhe falar. Lembro-me de uma manhã em casa do Desmarais. Lúcia passava, parou na vidraça e entrou para comprar algumas perfumarias; o seu vestido roçara por mim; mas ela não me olhou, nem pareceu ter-me visto. Essa circunstância, e talvez um resquício do desgosto que deixara a minha decepção, tiraram-me a vontade de a cumprimentar; contudo conservei o chapéu na mão todo tempo que esteve na loja. Quando escolhia alguns vidros de extratos, mostraram-lhe um que ela repeliu com um gesto vivo e um sorriso irônico:
— Flor de laranja!. . . E muito puro para mim!
Ao sair, dobrou o seu talhe flexível inclinando-se vivamente para o meu lado, enquanto a mão ligeira roçava os amplos folhos da seda que rugia arrastando. Esse movimento podia ser uma profunda cortesia disfarçada com certo acanhamento; e podia não passar de um gesto habitual de faceirice feminina.
Outra vez estava no teatro; tinha ido fazer minha visita a um camarote durante o último intervalo, e conversando reparei na insistência com que me examinava um binóculo da segunda ordem. Da pessoa que o fitava só via a mão pequena e a fronte pura, que denunciavam uma mulher. Depois, ao levantar o pano, vi Lúcia naquela direção, e pareceu-me reconhecer nela a indiscreta luva cor de pérola e o curioso instrumento que me perseguira com o seu exame.
Eis quais eram as minhas relações com essa moça; e confesso que vestindo-me sentia algumas apreensões sobre a recepção que me esperava; não há nada que mais vexe do que a posição de um homem solicitando da memória rebelde da pessoa a quem se dirige um reconhecimento tardio.
Não obstante, poucos minutos depois subia as escadas de Lúcia, e entrava numa bela sala decorada e mobiliada com mais elegância do que riqueza. Ela mostrou não me reconhecer imediatamente; mas apenas falei-lhe do nosso primeiro encontro na Rua das Mangueiras, sorriu e fez-me o mais amável acolhimento. Conversamos muito tempo sobre mil futilidades, que nos ocorreram; e eu tive ocasião de notar a simplicidade e a graça natural com que se exprimia.

Fonte: Alencar, José de. Lucíola. Rio de Janeiro, Edições





Bio fornecida pelo palestrante.

O GUARANI




Autor: José de Alencar
Título: O GUARANI
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

O GUARANI

 

 

José de Alencar

 

 

A Prece

 

 

Parte I

 

A tarde ia morrendo.
O Sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com os seus últimos raios.
A luz frouxa e suave do ocaso, deslizando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de púrpura sobre a folhagem das árvores.
Os espinheiros silvestres desatavam as flores alvas e delicadas; o ouricuri[1] abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada, enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.
Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.
Era a Ave-Maria.
Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite!
Essas grandes sombras das árvores que se estendem pela planície; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos, que esvazando-se[2] pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a areia; tudo respira uma poesia imensa que enche a alma.
O urutau[3] no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas[4] de verdura, vão ecoar ao longe como o toque lento e pausado do angelus.
A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um débil sussurro, que parece o último eco dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da tarde que morre.
Todas as pessoas reunidas na esplanada sentiam mais ou menos a impressão poderosa desta hora solene, e cediam involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.
De repente, os sons melancólicos de um clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde, era um dos aventureiros que tocava a Ave-Maria.
Todos se descobriram.
D. Antônio de Mariz, adiantando-se até à beira da esplanada para o lado do ocaso, tirou o chapéu e ajoelhou.
Ao redor dele vieram agrupar-se sua mulher, as duas moças, Álvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de círculo, ajoelharam-se a alguns passos de distancia.
O Sol com o seu último reflexo esclarecia a barba e os cabelos brancos do velho fidalgo, e realçava a beleza daquele busto de antigo cavalheiro.
Era uma cena ao mesmo tempo simples e majestosa a que apresentava essa prece meio cristã, meio selvagem; em todos aqueles rostos, iluminados pelos raios do ocaso, respirava um santo respeito.
Loredano foi o único que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia com o mesmo olhar torvo os menores movimentos de Álvaro, ajoelhado perto de Cecília e embebido em contemplá-la, como se ela fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.
Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentravam em um fundo recolhimento e diziam uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os lábios.
Por fim o Sol escondeu-se; Aires Gomes estendeu o mosquete sobre o precipício, e um tiro saudou o ocaso.
Era noite.
(…).
 
Fonte: Alencar, José de. O Guarani. Rio de Janeiro, Tecnoprint.



[1] Ouricori – palmeira de até dez metros, nativa do Brasil.
[2] Esvazando-se – esvaziando-se. (sinônimo). Nota da Editora.
[3] Urutau – pássaro noturno; chora-lua, mãe-da-lua.
[4] Crastas – claustros. Nota da Editora.




Bio fornecida pelo palestrante.