Vivian Leme Furlan
Universidade Federal de São Carlos
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos
RESUMO: Este artigo pretende fazer uma breve leitura do romance Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane, a partir de reflexões sobre o ex-cêntrico e subalterno, pela necessidade de se refletir, em meio as grandes contemplações poéticas da obra, sobre o ser (e estar) da mulher como sujeito na sociedade, especialmente quando a tradição foi potencializada pelas estruturas pós-coloniais. As considerações que tentaremos alcançar, embora se façam presentes no contexto problemático tratado no romance, superam os limites da poligamia na cultura africana, mas apresentam-se em diversos contextos e estratos sociais em que a mulher sofre subalternidade.
Palavras-chave: Mulher; Subalternidade; Tradição; Pós-colonial.
ABSTRACT: This article intends to read Paulina Chiziane’s novel Niketche: A Tale on Polygamy from an ex-centric and subordinate perspective, having in mind the importance of reflecting, among the novel’s great poetic contemplation, what it means to be a woman, as an individual, in society, especially in one where tradition was enhanced by post-colonial structures. Our considerations will try to go beyong the problematic context treated in the novel, to overcome the limits of polygamy in African culture, and to present conclusions in relation to different contexts and social strata in which women suffer subordination.
Keywords: Woman; Subordination; Tradition; Post-colonial society.
Minicurrículo: Miriam Leme Furlan é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFSCar (PPGlit), fomentada pela CAPES/ ProPG-UFSCar.
Minicurrículo: Jorge Vicente Valentim é professor do Departamento de Letras da UFSCar, Coordenador do PPGLit (Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura) / UFSCar, Coordenador do GELPA (Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos) / UFSCar e Bolsista Pós-Doutorado Sênior (CAPES/Universidade do Porto/2013).
A MULHER EX-CÊNTRICA E SUA SUBALTERNIDADE:
UMA LEITURA DE NIKETCHE
Vivian Leme Furlan
Universidade Federal de São Carlos
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos
INTRODUÇÃO:
A sociedade e também a cultura, de uma maneira geral, são presumidas em torno de um centro homogêneo e hegemônico (masculino, heterossexual, branco, ocidental), caracterizando tudo que está à parte disto como marginal. Neste sentido, a mulher pode ser considerada ex-cêntrica, subalterna (e o termo subalterno é aqui referido também pela perspectiva de pessoas e grupos que estão fora do poder desta estrutura hegemônica). Linda Hutcheon (1991, p. 96) define ainda como ex-cêntrico o “ficar na fronteira ou na margem, ficar dentro e apesar disto, fora”. Um (não) lugar que se assemelha muito ao que ocupam as mulheres de Niketche. No romance, temos a história de uma mulher moçambicana, Rami, e a descoberta da vida poligâmica de seu marido, Tony, depois de muitos anos de um casamento monogâmico e cristão. Rami, no começo da narrativa, demonstra uma proximidade muito grande com a ideia de família tradicional, no desejo de reconquistar o amor do marido. Entretanto, ao descobrir que Tony possui diversas amantes, Rami parte em busca dessas mulheres, e além da grande hipocrisia velada de seu marido, ela encontra não inimigas, mas mulheres como ela, de diferentes espaços, mas todas também vítimas de uma sociedade desigual, onde homens e mulheres não têm os mesmos direitos.
Assim como a teórica e crítica Gayatri Chakravorty Spivak (2010), faz-se necessário também o questionamento sobre a fala da mulher enquanto sujeito subalterno. É evidente que Paulina Chiziane, enquanto romancista e mulher, dá voz e cria um espaço à mulher africana, porém como fazê-lo diante do sujeito que é socialmente emudecido e como criar esse lugar que é incômodo? Os questionamentos de Spivak (2010) em Pode o subalterno falar? remetem justamente à preocupação em teorizar como intelectuais e críticos podem exprimir o sujeito subalterno, já que ele mesmo não pode ao menos ocupar uma categoria monolítica, pois esse sujeito é irredutivelmente heterogêneo. Spivak (2010) irá afirmar que, por ser o discurso do subalterno um discurso obliterado, e a mulher negra e pobre encontra-se em uma posição ainda mais periférica devido aos problemas inerentes ao gênero e as condições que enfrenta:
Pode o subalterno falar? O que a elite deve fazer para estar atenta a construção contínua do subalterno? A questão da mulher parece ser a mais problemática nesse contexto. Evidentemente, se você é pobre, negra e mulher, está envolvida de três maneiras (SPIVAK, 2010, p. 85).
As mulheres de Niketche, coexistemcomo vítimas de violência física e moral, em um ambiente em que a tradição foi potencializada pelo (pós) colonialismo em África. Mulheres afetadas por uma tradição impregnada no cotidiano. A mulher negra, aqui, é duplamente oprimida, pois sofre o peso de sua condição de gênero e racial, e também as consequências da exploração que a colonização gerou em seu país. O horizonte de luta e enfrentamento da mulher africana está calcado em um país onde “não há estrada, nem emprego, nem perspectivas. As pessoas nunca viram um carro nem luz eléctrica. O mais importante é procriar. Quanto mais filhos, melhor, morrem uns tantos, mas sobram outros para apoiar na velhice” (CHIZIANE, 2004, p. 313).
Tendo em vista que o pós-colonial é muito mais uma questão epistemológica do que cronológica, o contexto de Niketche supera os limites do período pós independência, pois é um romance retratado quase trinta anos após a independência do país, não obstante a subalternidade, principalmente a feminina, é ainda muito viva. O explorador já não é mais o estrangeiro. A tradição está incrustada no cotidiano africano. As caravelas do passado foram embora, mas ainda clamam-se mudanças:
No passado os homens deixaram-se vencer pelos invasores que impuseram culturas, religiões e sistemas a seu bel-prazer. Agora querem obrigar as mulheres a rectificar a fraqueza dos homens. No regime cristão, as mulheres são educadas para respeitar um só rei, um deus, um amor, uma família, por que é que vão exigir que aceitemos o que nem eles conseguem negar? Negar não é gritar: é olhar a lei, mudar a lei, desafiar a religião e introduzir mudanças (CHIZIANE, 2004, p. 93).
Os atuais estudos culturais e literários intentam por introduzir transformações através do desvelamento dos meandros dos padrões e pensamentos hegemônicos. Linda Hutcheon (1991) dirá ainda sobre a necessidade em refletir sobre aquilo que chama de ex-cêntrico, pois o pós-modernismo questiona esses sistemas centralizados, “totalizados, hierarquizados e fechados” (HUTCHEON, 1991, p. 65), contudo, não os destrói. Ora, essas questões se fazem presentes no contexto Moçambicano retratado em Niketche, principalmente no período posterior a independências das colônias, que como vemos, não significou uma ruptura total com os padrões repressores, gerando um esgotamento da antiga utopia de liberdade colonial, e, atrelado a isso, uma extrema dificuldade em se definir a identidade de um povo de tempo e culturas fronteiriças. Inocência Mata (2003), em seus estudos sobre o pós-colonial, ao dizer sobre esse processo de descolonização afirmará que:
Ora, sendo a descolonização um processo (e não um estado) essa reconstituição identitária não tem que pressupor uma ruptura com os discursos hegemônicos, mas um agenciamento das estratégias discursivas que visem contribuir cumulativamente para esse novo código (MATA, 2003, p. 55).
A proposta de Inocência Mata (2003) pode ser tratada, principalmente em romances de escritores como Paulina Chiziane, como ela mesma propõe, pelo “agenciamento tanto da catarse dos lugares coloniais como as tensões pós-coloniais” (MATA, 2003, p.59), onde, ao invés de haver a invenção de um lugar totalmente novo, a proposta que surge é de deslocamento radical dento de um mesmo lugar. Essas estratégias, novos códigos, poderão ser notados em Niketche, quando mulheres, partindo de um contexto de subalternidade, reagem positivamente através da união de forças. Além disso, esse aspecto é notado pela evolução das personagens femininas e pela maneira que Chiziane conduz a narrativa, indicando um percurso e também uma evolução, partindo de mesmo lugar que é o matrimônio confuso da poligamia velada por Tony. As ações de Rami, em ir à procura das amantes do seu marido, incentivá-las a autonomia, e ainda oficializar o matrimônio de Tony com todas elas, demonstram um diálogo entre o que já estava estabelecido (o hegemônico) e o que podia ser transformado. Ou seja, a hegemonia pode até permanecer, mas readaptada, agenciada por Rami, através das estratégias do texto.
Além disso, a poligamia, mesmo que signifique uma subordinação, é tida como solução para algumas mulheres que vivem em condições de extrema pobreza e, falta de esperanças, sem perspectiva nenhuma. Esse estado parece nítido na fala de algumas mulheres de Niketche: “E disse-me: eu sou pobre. Sem país, nem emprego, nem dinheiro, nem marido. Se não tivesse roubado o teu marido, não teria nem filhos, nem existência.” (CHIZIANE, 2004, p.66-67). Portanto, por mais subalternas que sejam, as situações do romance demonstram uma constante busca da vitalização da presença feminina, mesmo andando lado a lado com a tradição, uma procura igualmente constante e universal pela reconfiguração da identidade nacional no cenário histórico e cultural de Moçambique.
O romance pode ser lido por múltiplos olhares, ora pelo exemplo de união da força feminina, ora pela representação multicultural de representação da identidade da nação, mas também por um olhar totalizante dos gêneros pelo poder feminino. Linda Hutcheon, apoiada em Derrida, apontam uma perspectiva descentralizadora onde masculino e feminino não devem se opor, mas formarem “um pseudo todo que o pós-modernismo contesta por meio de sua valorização do ex-cêntrico e do envolvimento que dá à diferença” (DERRIDA, 1984,89apud HUTCHEON,1991, p.95). As mulheres de Niketche podem representar esta retórica pluralizante, pois no desfecho, mesmo dentro de um contexto totalmente desfavorável, ex-cêntricas, todas elas mostram-se capazes de se sobreporem ao homem e lutarem pela independência financeira e amorosa. Rami despertará o sentimento de poder andar ao lado do homem e não a sua sombra. Entretanto, este olhar pode muitas vezes ser interpretado como utópico, embora seja o caminho textual escolhido por Chiziane, talvez objetivando cumprir a tarefa de valorização feminina e criação deste “pseudo todo” dos gêneros. Em diversos momentos as personagens femininas demonstram isso, como em uma das falas de Rami:
Atravessaremos o mar com a nau dos nossos olhos porque saberemos navegar até ao além-mar e levaremos a mensagem de solidariedade e fraternidade às mulheres dos quatro cantos do mundo. Ensinaremos aos homens a beleza das coisas proibidas: o prazer do choro, o paladar das asas e patas de galinha, a beleza da paternidade, a magia do ritmo do pilão a moer o grão. Amanhã, o mundo será mais natural, e os nossos bebés, tanto meninas como rapazes, terão quatro a hora de nascer, as meninas serão também recebidas com cinco salvas de tambor, no tecto do lar paterno e na sombra da árvore dos seus antepassados. Marcharemos ao lado dos homens, como soldados fardados de suor e lama, na machamba, na mina, na fábrica, na construção, e levaremos um beijo de mel à boca de cada criança. Seremos mais ricas de pão e de paixão. Olharemos para os homens com amor verdadeiro e não para as cifras das notas de banco que pendem nos bolsos das calças. Ao lado dos nossos namorados, maridos e amantes, dançaremos de vitória em vitória no niketche da vida. Com as nossas impurezas menstruais, adubaremos o solo, onde germinará o arco-íris de perfume e flor” (CHIZIANE, 2004, p. 294).
As personagens femininas de Niketche, em muitos momentos deste processo de evolução apresentado pelo enredo, fazem um mesmo “percurso espiralar” (MATA, 2003, p. 50) que é proposto por Inocência Matano contexto da nação moçambicana e do movimento diacrônico dos sonhos da nação. A teórica suscita a ideia de que a nação, no percurso de descolonização, passa por momentos de utopia, distopia, atopia e heteropia, onde há primeiramente uma esperança e euforia frente ao projeto de liberdade colonial, seguindo de uma desilusão com o momento do pós-independência, caracterizado pelo desencantamento perante a não ruptura com as tradições coloniais, pelas muitas guerras civis pelo poder, e assim, emergindo para uma “amarga lucidez e angústia do desencontro com a história” (MATA, 2003,p.50). Para o sujeito subalterno, esse percurso suscitou em conflitos diversos, pois agora, além de conviver com as opressões a própria tradição impõe, o sujeito ex-cêntrico vive uma espécie de “descolonização colonizada”.
A independência esgotou o anterior filão e, em consequência, arrastou outras temáticas mais ajustadas às novas realidades. Os temas em voga são agora outros. O combate é muito diferente. A ameaça já não está no colonizador, na falta de afirmação de uma identidade nacional, mas na necessidade de criar uma nova utopia. Uma sociedade mais justa, baseada na igualdade de oportunidades e de direitos. A renúncia da corrupção tornou-se uma necessidade imperiosa e foi ganhando expressão crescente. (FRADE, 2007, p. 16).
O combate não está mais no colonizador, mas a ressonância da colonização continua forte no pós-independência. A religião também é reflexo disso. Rami está presa não a Tony, mas ao cristianismo como um todo, que sufoca ainda mais a mulher e o sujeito subalterno na sociedade. O cristianismo vibra como insígnia do colonialismo ainda presente:
A igreja e os sistemas gritaram heresias contra essas práticas [alongamento das genitais], para destruir um saber que nem eles tinham (…). Até a escola de ballet eu fiz – imaginem! Aprendi todas aquelas coisas das damas europeias, como cozinhar bolinhos de anjos, bordar, boas maneiras, tudo coisas da sala. Do quarto, nada! (…). Por que é que a igreja proibiu estas práticas tão vitais para a harmonia de um lar? (…). O colonizador é cego. Destrói o seu, assimila o alheio, sem enxergar o próprio umbigo (CHIZIANE, 2004, p. 44-45).
A mulher é silenciada por uma forte herança cristã, salientando ainda mais sua subalternidade enquanto sujeito. Mas este silenciamento tem raízes mais profundas que o cristianismo, pois a opressão feminina é realidade em diferentes contextos de subalternidade.
Chiziane, em uma entrevista diz: “Eu nasci no chão, eu venho do chão, então é o chão que eu conheço, mais nada, e é esse chão que eu vou escrever” (LEITE, 2012, p. 185), demonstrando a cumplicidade que tem com a escrita, e muito mais, demonstrando ser parte dela. É como se, para ela, escrever fosse algo natural, apenas um exercício de tradução do que seus olhos e seus pés passaram. A autora, agente intelectual e conhecedora da crítica pós-colonial, está longe de estar em uma posição de cumplicidade silenciadora, como a que ocorre com muitos intelectuais e é criticada por Spivak (2010). Segundo ela, a tarefa do intelectual pós-colonial é criar espaços para que o sujeito subalterno possa falar, e que quando o faça ele possa ser ouvido (SPIVAK, 2010, p. 85). Chiziane está bem próxima da tarefa de agenciadora entre falante e ouvinte, onde reproduz as experiências do sujeito subalterno que, segundo ela mesma, é fruto do chão que ela conhece.
Além do mais, Paulina Chiziane aproxima-se, com muita cumplicidade da voz feminina, e embora faça questão de se distanciar de um discurso feminista, possui um olhar agudo e sensível do lugar da mulher, que está muito longe da posição, muitas vezes impositiva e institucionalmente privilegiada do intelectual citado por Spivak (2010). Chiziane (2002) deixa muito claro o lugar que exerce na escrita, afirmando que:
Eu sou uma mulher e falo de mulheres, então eu sou feminista? é simplesmente conversa de mulher para mulher, não é para reivindicar nada, nem exigir direitos disto ou daquilo, porque as mulheres têm um mundo só delas e é isso que eu escrevi, e espero que isso não traga nenhum tipo de problemas, porque há ainda pessoas que não estão habituadas e não conseguem ver as coisas com isenção (Paulina Chiziane, Entrevista ao Maderazinco, 2002).
Niketche insere o leitor ao “mundo só delas” (CHIZIANE, 2002) através de uma linguagem muito peculiar, que é ao mesmo tempo oral e lírica, como se realmente fosse instaurada uma conversa entre mulheres, mas com espaços para adentrarmos ao universo íntimo dos pensamentos da mulher Rami. Transita-se, ao mesmo tempo, por uma certa indignação pela personagem que deseja e ama Tony, um homem infiel e grosseiro, e pela admiração que surge pela força advinda desta mesma personagem, que consegue reverter uma poligamia velada, enxergando a beleza de todas as “rivais”, evoluindo com e através delas, desagregando assim, muitos padrões sociais perturbadores e conceitos patriarcais que foram potencializados pela estrutura do período pós colonial.
Inocência Mata, grande reconhecedora dos meandros pós-coloniais em narrativas africanas e defensora da necessidade de uma “descolonização sobretudo téorica”, (MATA, 2014, p. 34), afirmará sobre a autora:
Paulina Chiziane trouxe para a ficção moçambicana uma visão feminina da realidade, melhor, uma visão dos meandros invisíveis, mas extremamente presentes no mundo tradicional que determinam a vida da mulher na sociedade tradicional (…). Paulina Chiziane nomeia o lugar incômodo da mulher em relação ao casamento, ao adultério, à poligamia, enfim, a condição feminina numa sociedade em que os limites da mulher estão traçados com as margens das proibições. De facto o que Paulina Chiziane diz fazer na sua obra é escrever “a realidade do seu mundo com todos os seus prazeres, mágoas, tristezas e frustrações (MATA, 2000, p. 136).
A grandiosidade e importância para a escrita feminina de Paulina Chiziane não está somente com o romance Niketche, mas também em seus outros romances, como em Balada de amor ao vento, pela sua maneira de escrever a realidade. Através da construção de personagens fortes, em sua maioria femininas, que transitam por temas problemáticos, Chiziane questiona a as relações marcadas pela tradição intensificada pela ideologia colonial .
Spivak (2010), ao abordar o espaço inquietante e silenciado da mulher no contexto pós-colonial, dirige um apelo final as mulheres intelectuais (como Paulina Chiziane por exemplo), pois afirmará que a elas cabem a tarefa de criarem espaços e condições de autorrepresentação e questionamentos, além de referenciarem o seu próprio lugar de enunciação e sua cumplicidade com esses questionamentos, como intelectual que são:
O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído a “mulher” como um item respeitoso nas listas das prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual, como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio (SPIVAK, 2010, p. 126).
É com olhar sensível frente às tradições que a mulher e intelectual Paulina Chiziane nunca rejeita esta tarefa, mas ao contrário, está sempre iluminando esta abertura pela voz (e porque não grito?) feminino.
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SHOHAT, Ella. Notes on the “Post-Colonial”. Social Text, no 31/32, Third World and Post-Colonial Issues, Duke University Press, p. 99-113, 1992. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/466220.
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Bio fornecida pelo palestrante.
Jorge Vicente Valentim
Universidade Federal de São Carlos/FAPESP
RESUMO: Atravessando quase toda a segunda metade do século XX, a obra de Natália Correia apresenta uma contribuição relevante para a consolidação de uma literatura de autoria feminina em Portugal, não apenas pelo que produziu em termos de poesia, teatro e ficção, mas também, e sobretudo, pela sua obra ensaística. O presente trabalho tem como objetivo abordar alguns dos seus textos críticos e como a expressão comumente utilizada por ela (o “matrismo”) relacionava-se com os feminismos em voga, tanto num movimento de aproximação, quanto de interrogação. Seus ensaios podem ser lidos, portanto, num viés de afirmação desta intelectualidade feminina em Portugal.
PALAVRAS-CHAVE: Feminismo – Matrismo – Ensaio – Natália Correia.
ABSTRACT: Spanning almost the entire second half of the twentieth century, the work of Natalia Correia presents an important contribution to the consolidation of a literature of female authorship in Portugal, not only for what she has produced in terms of poetry, drama and fiction, but also, and above, by their essays. This paper aims to address some of her critic texts, pointing out how the expression she often employed (“matrismo”) was related to the feminisms then in vogue and indicated both a movement of approach as of questioning. Her essays can therefore be read as an affirmative statement of this feminine intellect in Portugal.
KEY WORDS: Feminism – Matrismo – Essay – Natalia Correia.
Minicurrículo: Jorge Vicente Valentim é doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. É professor adjunto de literaturas de língua portuguesa (literatura portuguesa e literaturas africanas de língua portuguesa) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), vice-coordenador do Programa de pós-graduação em estudos de literatura (PPGLit/UFSCar) e professor colaborador do Programa de pós-graduação em estudos literários da UNESP/Araraquara. O presente texto foi elaborado a partir de pesquisa realizada em Portugal, em outubro de 2014, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
DO ENSAIO COMO DEFESA DO PENSAMENTO MATRISTA: BREVES CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE NATÁLIA CORREIA
Jorge Vicente Valentim
(Universidade Federal de São Carlos/FAPESP)
É no facto de a amada existir como só ela sabe existir, na possibilidade de provocar o delírio da presença absoluta, que ela é portadora da decifração de todos os enigmas. O rosto do ser amado sobrepõe-se à imagem da divindade, ocupa o lugar de deus. O amor sexualiza o universo, que toma a fisiologia da eleita. Assim, cada objecto da paixão absoluta encerra uma cosmogonia. A mulher resume todas as formas, todos os mistérios da Natureza.
(NATÁLIA CORREIA, O surrealismo na poesia portuguesa).
Poeta, ficcionista, dramaturga, ensaísta, política e ativista, Natália Correia (1923-1993) foi, acima de tudo, uma intelectual engajada com as questões reivindicadoras de sua época. Dona de uma escrita singular, manifesta nas suas mais distintas veias de um eruditismo deslumbrante, a autora portuguesa, nascida no arquipélago dos Açores, tornou-se um nome de citação obrigatória quando se fala na literatura portuguesa de autoria feminina na segunda metade do século XX.
Para além do seu trabalho como uma artista produtiva e uma figura controversa e assertiva nas suas convicções, Natália Correia deixou uma obra que ainda carece de leitores atentos, sobretudo, quando se considera que a sua produção se consolidou exatamente numa época conturbada da política portuguesa. Do final dos anos de 1940 até início da década de 1990, a escritora vivenciou desde os anos de chumbo da ditadura salazarista até às expectativas de um processo tenso de redemocratização, criando textos que ora efabulavam nos mais diversos gêneros situações muito próximas do seu contexto político-social, ora refletiam de maneira pontual e direta no âmbito do ensaio sobre a situação dos intelectuais e o silêncio imposto sobre estes pela censura do Estado Novo português.
Valendo-me, portanto, de um recorte específico, mais próximo desta segunda postura, quero aqui recuperar brevemente alguns momentos da produção ensaística de Natália Correia, bem como a sua relevância no cenário cultural português, sobretudo, nas décadas que tal veio criativo e analítico se desencadeou. Ou seja, num período de pouco mais de 40 anos, de 1947 a 1988, a escritora produziu um elenco significativo de reflexões sobre questões várias que vão desde a situação da mulher e sua repercussão na sociedade portuguesa, o papel de Portugal e da língua portuguesa nos cenários europeu e mundial, as múltiplas subjetividades das diversidades sexuais, o culto incoerente ao infantocentrismo, além, é claro de suas posições sobre escritores e obras da literatura portuguesa, dentre eles, Fernando Pessoa, Alamada Negreiros, José Régio, Mário Cesariny e Ary dos Santos.
Na sua prática reflexiva, Natália Correia desenvolveu várias atividades contínuas de ensaísmo, seja no campo jornalístico, publicando em periódicos de projeção no cenário português (Jornal de Letras, Artes e Ideias, Diário de Notícias, Sol e A Capital)[1], seja na produção de obras específicas, tais como Breve História da Mulher (1947), Poesia de Arte e Realismo Poético (1959), A questão académica de 1907 (1962), Uma estátua para Herodes (1974), Somos todos hispânicos (1988) e A Ibericidade na dramaturgia portuguesa (1989).[2]
A par destes títulos, o grande papel de Natália Correia reside exatamente na sua prática ensaística inconformada com o esquecimento e o abandono que certa crítica literária deixou sobre determinados temas e épocas, procurando revisitá-los com um olhar inquieto e desassossegado. Nesta perspectiva, gosto de pensar que foi exatamente na manutenção de uma memória cultural e artística que a autora portuguesa apostou toda a sua atenção de pesquisa e registro de resultados. Em outras palavras, o inconformismo com uma prática de recolha sem qualquer tipo de explicação ou nota informativa parece ter sido o motor do seu trabalho como antologista.
Não será gratuito, por exemplo, perceber que todas as suas compilações vem acompanhada de um extenso e cuidadoso exercício de prefação e apontamentos informativos importantes para a compreensão do objeto selecionado. Estes paratextos funcionam como verdadeiros ensaios, no sentido de que aliam a função introdutória e apresentadora dos prefácios a uma necessidade de reflexão, de “interrogar tudo de novo, numa incessante peripécia da inteligência” (BARRENTO, 2010, p. 34) que a práxis analítica convoca a seu executante.
Destarte, ao olhar para períodos da literatura e da cultura portuguesa pouco habituados a uma leitura menos convencional, como faz em Cantares dos trovadores galego-portugueses, em 1970, quando procura evidenciar, no rastreio sobre a poesia provençal, o espírito de uma época marcada “por um acentuado feminismo” (CORREIA, 2004b, p. 44), evocando pelos textos de Afonso Eanes de Coton, Bernaldo de Bonaval, Joan de Guilhade, Pero da Ponte, Pero Meogo e Pero Velho de Taveirós, dentre outros, a “emancipação da mulher” (CORREIA, 2004b, p. 44); ou em Antologia da Poesia do Período Barroco, em 1982, exatamente numa época em que outros antologistas, tais como Ana Hatherly, por exemplo, interessavam-se por investigar a literatura seiscentista e setecentista; não deixa Natália Correia de imprimir nas páginas dessas duas antologias, bem como nos esclarecedores ensaios que as antecedem, uma criação marcada pela impossibilidade de ceder a modismos, porquanto informa, esclarece e explica com uma perspectiva singular e inovadora os principais eixos condutores dos escritores eleitos e da época em que viveram e produziram.
Não deixa de ser, neste sentido, um ensaísmo de primeira mão, diríamos mesmo avant la lettre, que evoca o espírito da presença feminina, ainda que apenas tematicamente, e que não se conforma com lugares-comuns, reiterando, acima de tudo, a manutenção de uma memória cultural portuguesa, que, apesar de se constituir um bem coletivo, passa necessariamente também pela subjetividade pessoal do antologista. São estes nomes, pertencentes àquela “cúpula da cultura” (CORREIA, 2004a, p. 89), que irão formar o pensamento e a atividade criadora de Natália Correia. O seu ensaísmo, portanto, aparece marcado por uma profunda insatisfação diante da “conjura provinciana” (CORREIA, 2004b, p. 35) que, na sua concepção, impede os espíritos libertários de viverem as suas experiências estéticas até às últimas consequências.
Interessante observar que, já nesta antologia dos Cantares, a insistência sobre a recorrência à imagem da mulher, numa época, até então considerada predominantemente masculina, constitua o avatar do pensamento de Natália Correia, no sentido de defender não uma posição feminista, como seria de esperar, numa intelectual de esquerda, que sempre se posicionou na defesa dos ideais libertários do pensamento feminino. Na verdade, toda a exposição da escritora portuguesa centra-se num inconformismo em aceitar o feminismo enquanto perspectiva cerceadora do homem. Segundo o pensamento de Natália Correia, aceitar o feminismo sem interrogar certos pontos de sua pauta significaria submeter-se cegamente a uma disciplina, e, para ela, esta só é aceitável quando demonstrada enquanto “necessidade ética ou criadora” (CORREIA, 2004b, p. 61). Daí a sua resistência à expressão e a sua adequação a uma outra, capaz de resumir a sua linha de raciocínio. Em 1983, em entrevista a Antónia de Souza, afirma:
Acho que não vale a pena a mulher libertar-se para imitar os padrões patristas que nos têm regido até hoje. Ou valerá a pena, no aspecto da realização pessoal, mas não é isso que vem modificar o mundo, que vem dar um novo rumo às sociedades, que vem revitalizar a vida. Ora bem, a mulher deve seguir as suas próprias tendências culturais, que estão intimamente ligadas ao paradigma da Grande Mãe, que é a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para os impor ao mundo ou pelo menos para os introduzir no ritmo das sociedades como uma saída indispensável para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. É no paradigma da Grande Mãe que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e não feminismo (CORREIA, 2004b, p. 65).
Ora, a partir de sua defesa de um pensamento matrista, capaz de revelar o poder libertário das ações femininas, Natália Correia não nega as discussões e as reivindicações das correntes feministas. Na verdade, a sua postura é de interrogar o feminismo enquanto disciplina cerceadora da criação, daí que a sua preferência resida exatamente na expressão “matrista”, por aquilo de libertário e de união a uma força cosmogônica maior e criadora que evoca. É possível seguir este caminho de leitura da autora sobre a forma de refletir sobre o mundo e a sociedade portuguesa, no sentido de que, ao ser interrogada sobre as heranças deixadas pela Revolução dos Cravos, ela não hesita em pontuar “o surto de uma literatura feminina e de um comportamento feminino que ofertam à nossa sociedade [a portuguesa] uma reinterpretação da vida, uma outra visão da vida” (CORREIA, 2004b, p. 63), como uma das grandes conquistas do evento de 1974.
No entanto, mesmo antes do alvorecer da Revolução dos Capitães de Abril, Natália Correia parece estar decidida a apontar a presença feminina e a sua junção com uma cosmogonia que valida a união com a Grande Mãe como os eixos norteadores para se pensar o momento inaugural da poesia portuguesa. Tendo consciência de que a produção trovadoresca medieval galego-portuguesa encontrava-se inserida no “seio de uma sociedade teocrática” (CORREIA, 1978, p. 15) e, portanto, patrista por excelência, Natália Correia propõe um outro viés de leitura, fora dos padrões já comumente utilizados, ao privilegiar “a originalidade da temática trovadoresca e o porquê de sua deflagração revolucionária” (CORREIA, 1978, p. 15).
Todo o seu rigor de seleção e apuro crítico vão incidir sobre a percepção aguda desta “revolucionária concepção do amor, enraizada na descoberta do espírito feminino” (CORREIA, 1978, p. 15), presente nas mais diferentes cantigas recolhidas na antologia, sempre com o intuito de evidenciar um “verdadeiro culto prestado à mulher” (CORREIA, 1978, p. 15). Na contramão, portanto, de historiadores e críticos que, já nas décadas de 1960 e 1970, sublinhavam a Idade Média como uma época de confirmação de uma Idade dos Homens, a ensaísta portuguesa prefere abordar a produção literária deste contexto, ou seja, de autoria masculina, sob a égide de uma valoração daquele “espírito feminino”.
Parece-me significativo e, portanto, não gratuito, o fato de Natália Correia investir todo o seu tempo na publicação desta obra, tendo em vista que, na França, por exemplo, Georges Duby, movido pelos ideais da corrente da Nova História, já propunha uma leitura da Idade Média por estes caminhos. Basta lembrar, por exemplo, de L’économie rurale et la vie des campagnes dans l’Occident médiéval, de 1962; Hommes et structures du Moyen Âge; e Guerriers et paysans, viie???xiie siècles, ambos de 1973. Em Portugal, os estudos de Manuel Rodrigues Lapa (Lições de literatura portuguesa: época medieval, de 1934, com sucessivas reedições posteriores; e Miscelánia de língua e literatura medieval, 1965) também caminhavam por esta senda. No entanto, não se trata, aqui, de pôr em xeque o valor e a qualidade dos estudos dos dois renomados críticos e historiadores, mas sim de pontuar um nítido inconformismo de Natália Correia em relação ao ponto de vista essencialmente masculinista adotado, que parecia não agradar a concepção da compiladora e investigadora portuguesa.
Destarte, a sua recusa a determinados procedimentos de análise, crítica e recolha que “deixam na sombra os pressupostos éticos sem os quais é inapreensível a substância desse florescimento poético” (CORREIA, 1978, p. 16). Por isso, os mais reconhecidos poetas desta corte (Martim Codax, Pero da Ponte, Pero Meogo e D. Afonso X, dentre outros) não deixam de comparecer com os mais diferentes tipos de cantigas, em que a imagem icônica da mulher emerge como cerne e elemento inspirador das composições poéticas.
Gosto de pensar, portanto, que o ensaio de Natália Correia pode ser lido como uma forma também de se reinterpretar determinadas etapas da história da literatura portuguesa e de ofertar uma outra visão da cultura portuguesa, fora dos eixos de uma “racionalidade masculina”. A atenção da ensaísta concentrar-se-á, inclusive, em temas esconjurados pelo provincianismo arraigado no cenário artístico português. Tanto que a sua Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, de 1965, logo sentiu o bafo da censura ao ser recolhida pela PIDE diante da constatação que o conteúdo da obra feria o ato instituído pelo Estado Novo de “educar os espíritos para o bom gosto” (CABRERA, 2013, p. 28). Não será à toa, portanto, que David Mourão-Ferreira, em sua breve apresentação, chama a atenção do leitor para o fato de que a coragem da compiladora iria despertar incômodos nos espíritos mais ortodoxos e tradicionais, acomodados ao “bom gosto”, imposto pela política da época:
Como é possível que uma Antologia como esta ainda não tivesse sido realizada? Mas devemos antes felicitarmo-nos pelo facto de só agora ser empreendida. Com efeito, ninguém melhor do que Natália Correia – com a profundidade e com a extensão de sua cultura, com a indiscutível garantia do seu génio poético, com as provas exemplares da sua coragem cívica – poderia superiormente desempenhar-se desta empresa. Obra de erudição, de criação e de civismo, há-de constituir, para os vindouros, um documento indispensável e o nome da sua autora tornar-se-á credor da mais legítima gratidão; mas é provável que também suscite, em meia dúzia de paranoicos, em duas ou três dezenas de recalcadas, a sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (apud CORREIA, 1999, p. 9-10).
Apesar do tom laudatório e positivo do grande poeta e ficcionista português, nada impediu o corte que a obra sofreu. Interessante observar que todas estas contrariedades acabaram por sedimentar aquele espírito inconformista com a imposição de regras que marcaria o pensamento intelectual de Natália Correia. Aliás, ela própria deixa esta postura em evidência, quando, em entrevista, declara tacitamente: “Descobri, mais tarde, particularmente em trabalhos para que se exigiam disciplina e estrutura, que não podia vergar-me a regras que me fossem impostas de fora. Eu é que as tinha de criar” (CORREIA, 2004b, p. 40).
Por esta perspectiva, não será difícil perceber que a inadaptação movimenta o pensamento e a produção intelectuais da ensaísta, visto que, em sequência destes fatos, ela ainda iria publicar as antologias A mulher e o surrealismo na poesia portuguesa, ambas em 1973. Desta díade, interessa-me, sobretudo, a última obra, já que, a exemplo da Antologia de 1965 – onde persegue, de Martim Soares (1220ca-1260ca) a Dórdio Guimarães (1938-1997), as temáticas do “desfasamento satírico com uma irreprimível feição licenciosa” (CORREIA, 1999, p. 23) e da “fulguração carnal da mulher” (CORREIA, 1999, p. 31) – também nesta, de 1973, Natália Correia debruça-se sobre uma corrente de vanguarda e desata os nós historicistas que a prendem temporalmente ao século XX, num longo e extenso estudo de casos perceptíveis na literatura portuguesa.
Aliás, é precisamente contra uma concepção historicista castradora que Natália Correia se posiciona, talvez, porque entenda tal forma de pensar os passos de uma expressão artística como uma força disciplinadora pouco produtiva. Daí a sua compreensão da história como “o ponto de vista que menos convém aplicar à unidade poética do surrealismo” (CORREIA, 1973, p. 7), posto que qualquer redução histórica sobre as propostas estéticas do ato vanguardista “obscureceria as aparições espontâneas que organizam o movimento surrealista” (CORREIA, 1973, p. 7).
Vale destacar que não se trata simplesmente de pensar o Surrealismo enquanto uma corrente anarquista que pregava uma liberdade sem medida. Seu pensamento aponta para a reconhecida corrente estética do século XX como um movimento transistórico, capaz de ultrapassar as barreiras cronológicas e de abarcar diferentes ciclos epocais. Segundo Natália Correia, aí estaria a singularidade do pensamento criador dos surrealistas, qual seja, numa liberdade que transcende as amarras historicistas e reverbera em diferentes contextos artísticos, conforme deixa claro no ensaio “A insurreição do saber surrealista contra o conhecimento”, de 1972:
Coube ao Surrealismo compreender o drama desta polaridade da literatura fatalizada pelo histórico e é contra este que as vozes surrealistas erguem o protesto de uma ultrarracionalidade que quer devolver a literatura à sua essência sapiencial. É neste sentido que o Surrealismo toma severas precauções contra o literário que concerne uma literatura historicizada, entendendo-a como a expressão de uma sabedoria fundante que se exerce contra a relatividade do histórico.
Enquanto presa dessa relatividade, o homem não é livre. Só o será quando puder aplicar a cognoscibilidade que o desprendimento surrealista do histórico lhe confere (CORREIA, 2004a, p. 155).
Nesta busca por uma compreensão da fuga de relativismos historicizantes, Natália Correia propõe, assim, uma espécie de antologia transistórica, em que o Surrealismo seja perceptível não apenas em escritores com uma sintonia singular (tais como Mario Cesariny, Cruzeiro Seixas e Alexandre O’Neil), mas em autores anteriores, contemporâneos e posteriores ao movimento de vanguarda (como são os casos de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Raul Brandão, Maria Teresa Horta e Luísa Neto Jorge, por exemplo).
Ora, não deixa de ser ousada a posição de Natália Correia, não apenas em termos estéticos, porque abre a conceituação da corrente vanguardista para uma abordagem epistemológica que transcende as considerações contextuais, mas também em termos ideológicos, já que, ainda num clima de insegurança política, em 1972-73, a escritora revigora o seu posicionamento reivindicativo ao falar abertamente de vozes literárias que “erguem o protesto” e do homem, enquanto presa de um condicionalismo que impede o pleno exercício de sua liberdade.
Se, por um lado, esta proposta repousa no próprio cerne da estética em questão, conforme sugerida no Primeiro Manifesto, de 1924, em que André Breton, “cioso da autonomia da abordagem surrealista, não se exime, por coerência com a doutrina cinética do surrealismo, a reconhecer-lhe antepassados” (CORREIA, 1973, p. 7), por outro, ela também não deixa de colocar em evidência a reivindicação de um discurso feminino que chama para si a responsabilidade de pensar os caminhos da arte e da literatura portuguesas fora dos padrões patristas (como bem preferia chamar Natália Correia).
Parece-me, portanto, significativo que, nesta postura ensaística de Natália Correia, se reconheça uma poética de afirmação matrista, num contexto português em que as conquistas alcançadas pela segunda leva dos feminismos ainda carecia de propagação, em virtude do controle exercido pelas forças cerceadoras do Estado Novo salazarista sobre os veículos culturais. Vale lembrar, neste sentido, que os anos de 1960 e 1970 foram, talvez, os mais duros para a classe intelectual, sobretudo, para as mulheres. Segundo Manuela Tavares, estas duas décadas tinham em comum um mesmo quadro de fundo, “um país onde a luta contra ditadura salazarista, cerceadora das mais elementares liberdades, continuava a absorver todas as energias e onde as dimensões de classe e de género não se cruzavam” (TAVARES, 2010, p. 536-537).
Neste sentido, concordo com Manuela Tavares, quando afirma que, neste cenário árido para a consolidação das conquistas feministas em Portugal, sobressaiam as Novas cartas portuguesas, uma obra de tríplice autoria feminina (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa), que desestabilizou definitivamente as certezas masculinistas na percepção da sociedade portuguesa. Mas, não se poderá negar que, de igual modo, também, no mesmo ano desta publicação, em 1972, Natália Correia já iniciara seu projeto de antologia d’O Surrealismo na poesia portuguesa, sem falar nas suas inúmeras contribuições, registradas em jornais de Angola e Portugal, em ensaios reivindicativos, tais como “A emancipação feminina ou o triunfo da beleza” (Notícia, Luanda, 1969), “Vêm aí as amazonas” (Notícia, Luanda, 1969), “Cultura feminina” (Diário de Notícia, Lisboa, 1970), “A verdade e a moda” (Notícia, Luanda, 1970), “O manifesto S.C.U.M” (A Capital, Lisboa, 1970), “A morte de Elsa” (Notícia, Luanda, 1970), “As feministas inglesas que sempre foram assexuadas” (Notícia, Luanda, 1970) e “O pingue-pongue das feministas: pouca ou muita vergonha?” (Notícia, Luanda, 1970).
Longe, portanto, de se afastar das questões e das pautas feministas, o pensamento matrista de Natália Correia vem dar uma contribuição definitiva para o pensamento intelectual e literário de Portugal, na segunda metade do século XX. Basta observar, por exemplo, as suas propostas emancipadoras e ousadas, contidas no capítulo conclusivo de Breve História da Mulher (“A legitimidade dos direitos femininos”), e publicadas já em 1947: “Se a mulher é eleitora e elegível, se tem voto consultivo na orientação política e económica dum país, porque levantar-lhe obstáculos à execução das decisões que também trazem a firma do seu voto?” (CORREIA, 2003, p. 112). Olhado no seu contexto específico, tal ousadia não deixa de ter repercussões proféticas já que, somente em 1979-1980, Portugal teve uma mulher em exercício no cargo de Primeiro-Ministro (Maria de Lourdes Pintassilgo).
Seja, portanto, pelo ponto de vista ideológico, seja pela perspectiva estética, a práxis ensaística de Natália Correia não deixa de reivindicar uma defesa do pensamento matrista, bem como aponta para uma possibilidade outra de se repensar a cultura e a literatura portuguesas, reintegrando-as dentro de uma perspectiva que ousa rasurar os racionalismos patristas.
Se, conforme tentamos demonstrar, este “escasso número de casos decisivos” (CORREIA, 2004a, p. 89) é composto por nomes e títulos eleitos pela escritora para formar a sua biblioteca particular, não se pode esquecer que tais objetos literários, que vão desde os Cantares medievais às transposições transistóricas do Surrealismo, constituem o alvo de uma paixão absoluta da autora, e, por isto mesmo, carregam consigo toda uma cosmogonia que Natália Correia intenta deslindar.
Talvez, por isso, Natália Correia, em suas considerações sobre O Surrealismo na poesia portuguesa não hesite em afirmar que “todos os mistérios da Natureza” (CORREIA, 1973, p. 82) se encontram resumidos na mulher, porque somente ela seja capaz de exercer este poder remissivo, analítico e concentrador.
Referências bibliográficas:
CABRERA, Ana. “Censuras e estratégias censurantes na sociedade contemporânea”. In: CABRERA, Ana, coord. (2013). Censura nunca mais: a censura ao teatro e ao cinema no Estado Novo. Lisboa: Aletheia, 2013, p. 15-75.
CORREIA, Natália (1999). Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Lisboa: Antígona.
CORREIA, Natália (2004a). A estrela de cada um. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria Editora.
CORREIA, Natália (2003). Breve história da mulher e outros escritos. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria.
CORREIA, Natália (1978). Cantares dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Estampa.
CORREIA, Natália (2004b). Entrevistas a Natália Correia. Edição de Zetho Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria Editora.
CORREIA, Natália (1973). O surrealismo na poesia portuguesa. Lisboa: Edições Europa-América.
TAVARES, Manuela. (2010). Feminismos: percursos e desafios (1947-2007). Porto: Texto Editores.
NOTAS
[1] Sobre a prática de publicação de textos em jornais, que, muitas vezes, absorvem aspectos genológicos de empréstimo, Helena Carvalhão Buescu alerta para o fato de que não se deve “negligenciar a produção jornalística onde, nomeadamente através do uso da forma ‘crónica’, é possível encontrar intervenções que, em nosso entender, tem um lugar definido adentro da prática ensaística” (1997, col. 290). Em outras palavras, não se pode negar que o ensaísmo circula também entre títulos produzidos para e publicados pela imprensa.
[2] Alguns desses títulos não foram publicados em forma de volume em vida da autora. Breve História da Mulher e outros escritos, por exemplo, veio à lume postumamente, graças ao trabalho cuidadoso de edição de Zetho Cunha Gonçalves, em 2003.
Bio fornecida pelo palestrante.