O SORRISO DO LAGARTO




Autor: João Ubaldo Ribeiro
Título: O Sorriso do Lagarto, Le Sourire Du Lézard
Idiomas: port, fra
Tradutor: Jacques Thiériot(fra)
Data: 28/12/2004

O SORRISO DO LAGARTO

Capítulo 2

João Ubaldo Ribeiro

Matar-se foi o primeiro pensamento de Ângelo Marcos, ao voltar para casa, depois de saber da notícia. Chegou a tirar o 38 do armariozinho embutido onde o escondia por trás de um fundo falso e sopesá-lo durante vários minutos, até que, com uma contração dos ombros que quase o derrubou, começou a chorar em soluços arquejantes, caindo de bruços na cama e enterrando o rosto no travesseiro. Só bem mais tarde o choro convulso se abrandou e ele levantou-se com lágrimas ainda lhe escorrendo dos olhos inchados, o revólver na mão direita. Examinou-o de perto, leu em voz alta as palavras inglesas gravadas no cano, leu os números também em inglês. Quis achar aquilo engraçado, mas não conseguiu nem mesmo sorrir e sentiu outra vez o impulso de soluçar, só que desta feita mordeu o lábio inferior e controlou-se. Movendo-se muito devagar e fungando com a cabeça derreada, retornou ao armariozinho, abriu o fundo falso e pôs o revólver no lugar costumeiro.

Em seguida, num relance que mais tarde ele mesmo não iria recordar direito, viu-se ligando os condicionadores de ar de seu gabinete, sentando-se na grande poltrona giratória e repousando os calcanhares sobre a mesa, na direção do porta-retratos de prata que emoldurava uma fotografia do casamento com Ana Clara. Puxou o porta-retratos com a ponta do sapato até poder apanhá-lo sem muito esforço, segurou-o no colo e, depois de fitá-lo algum tempo, achou-se feio e de expressão apatetada. Palhaçada, palhaçada, a vida é uma palhaçada sem sentido. Ergueu os olhos e mirou em torno, as coleções encadernadas que nunca lera parecendo ainda mais remotas e absurdas do que sempre secretamente pareceram, as estantes nada mais que peças de mobília tirânicas, as cortinas ridículas. Sim, não era só o retrato que se apresentava diferente, tudo era diferente, bosquejado em cores foscas e muito destacado, como se ele não estivesse neste mundo. Inspirou forte, deitou o porta-retratos sobre a mesa sem olhar mais para ele e, a princípio tremelicosamente, mas logo de maneira decidida, assumiu um semblante firme, exatamente o que pretendia estampar, quando pela primeira vez tocasse no assunto com Ana Clara, e começou a falar sozinho. Pensando bem, o pior já tinha passado, já tinham passado a dúvida, a ansiedade, a angústia da incerteza. Agora não, agora era uma realidade. Uma realidade dura, não se podia negar, mas perfeitamente tangível e, por conseguinte, enfrentável – e não só enfrentável, como derrotável. E Deraldo havia sido claro, enfático mesmo. “Desta vez você escapa, não se preocupe, vai dar para segurar”, dissera ele, com aquele ar de coruja composta que desde a Faculdade lhe alicerçava a reputação de competência. Certo, certo, tudo entendido, Deraldo não estava enrolando, tudo sob controle, não havia razão para pânico, a mínima razão, antes pelo contrário, havia até alguma razão para alívio.

Sim, mas chorar não tinha sido necessariamente uma coisa ruim e talvez, se não houvesse chorado, chegasse a dar mesmo um tiro na cabeça. Não, não chegaria, aquilo fora mais propriamente um gesto de protesto contra Deus, um jeito de blasfemar sem pronunciar palavras para as quais não tinha coragem. As perguntas não podem deixar de vir, sempre vêm as mesmas perguntas, e dá raiva ver que, de tão usadas e repetidas pela vida afora, não fazem o efeito que deveria fazer, não causam a revolta e a perplexidade que deveriam causar. Por que ele? Por que tão cedo, em idade tão produtiva, diante da perspectiva de uma maturidade plena, que finalmente o recompensaria, depois de uma vida de tanto esforço, tanta luta? Por que, por quê? Chorar fora bom, sim, já que praticamente não tinha desabafado todos estes dias mais longos que meses e mais agoniados que uma temporada no inferno, em que os ombros e o pescoço se transformaram em granito, o estômago virou uma fronha amarrotada e qualquer telefonema podia ser um arauto da morte – desde aquele momento pavoroso em que, voltando de uma viagem já tarde da noite, foi ao banheiro depois de muita resistência e, ao levantar um pouco os quadris para jogar um toco de cigarro na privada, viu, saindo de seu corpo como de uma torneira mal fechada, um jorro contínuo de sangue, que já transformara tudo em baixo numa poça rubra. Pôs-se de pé atarantado e meio tonto, uma borrifada de espessas gotas de sangue fez um semicírculo em torno de seus pés e logo um riachinho quente e viscoso lhe escorreu até os tornozelos. Que hemorragia louca era aquela, ia entrar em choque, ia morrer, quanto de sangue já não teria perdido no fundo agora negro da privada, a tontura que sentira teria sido por causa disso? Mexendo-se cuidadosamente, com as pernas coladas e mal levantando os pés do chão, sentou-se no bidê e ficou olhando, o coração suspendendo as costelas e o suor ardendo nos olhos, seu esguicho vermelho inicialmente continuar tão vívido quanto antes, para depois a água que o lavava ir esmaecendo aos poucos, até se tornar completamente límpida. Olhou em redor, parecia que tinham cortado o pescoço de uma galinha, para em seguida rodopiá-la pelo banheiro. Erguendo-se entre muitas cautelas, lembrou-se das outras vezes em que limpara gotinhas de sangue no caminho entre o vaso e o bidê, porque não queria que Ana Clara as visse e insistisse em que ele se operasse. Mas eram apenas gotinhas, gotinhas a que se acostumara a não dar importância, nada como isto que começou a remover com papel higiênico e uma toalha que molhava a intervalos, esse mar de sangue, sobre cuja erupção falou nervosamente no consultório de Deraldo, às nove da manhã seguinte.

– É, você deve estar anêmico – comentou Deraldo. – Bem, vamos olhar isso aí -acrescentou, levantando-se e indicando a direção da saletinha anexa.

– Você acha que eu vou ter de me operar?

– Depende. Sem olhar, como é que eu vou saber?

Foi olhar e veio a porretada inicial, porque ele não se contentou com o exame de toque e, depois de uma seqüência de procedimentos que Ângelo Marcos considerou humilhante e se sentiu compelido a acompanhar com piadinhas que não pareciam estar sendo ouvidas, usou o anuscópio um tempo enorme, para finalmente anunciar que ia coletar material para uma biópsia.

– Não dói nada – explicou, sem erguer os olhos de algumas anotações que tinha feito. – É uma besteirinha e eu ainda vou usar xilocaína. Fique aí mesmo, que eu não demoro.
– Biópsia? Mas para que diabo eu quero biópsia? Minha tese desde a Faculdade sempre foi que biópsia dá câncer, não senhor, não precisa ser tão meticuloso assim e seguir à risca o manual do bundólogo, eu sei que tenho hemorróidas, tenho medo de operação, não confio em hospital, mas estou disposto a me operar, não quero fazer biópsia nenhuma, não sei para que fazer biópsia.

– Bem – disse Deraldo, sem alterar a voz, os olhos quase fechados por trás dos óculos -, não posso tirar material de seu corpo sem sua autorização, mas, como profissional, meu dever é enfatizar que você precisa fazer essa biópsia. Você tem um tumor no canal anal, é mais do que visível, talvez uns dois centímetros no maior diâmetro, não adianta tapar o sol com uma peneira, o melhor é fazer a biópsia. Posso pegar a pinça?

– Deraldo, como é que você olha para minha cara com essa frieza toda e diz que eu estou com câncer no cu?

– Eu não estou dizendo que você está com câncer, eu estou dizendo que você precisa fazer uma biópsia.

– É a mesma coisa! Você já sabe que eu estou com câncer, a biópsia é somente para confirmar, e você fala isso com perfeita indiferença, como se eu fosse apenas mais um caso.

– Mamaco, que é que você quer que eu diga, como é que você quer que eu fale? Eu…

Ao usar inesperadamente o apelido do tempo do ginásio em que também tinham sido colegas e ver Ângelo Marcos encolhido como uma criança aterrorizada, Deraldo enterneceu-se. Sentou-se, tirou os óculos um instante para esfregar os olhos, suspirou, pediu a Ângelo Marcos que se recompusesse por alguns minutos e, revolvendo uma caneta entre os dedos, demorou para começar a falar. Sim, havia uma espécie de ulceração no canal anal, uma formação tumoral. Suspirou outra vez, muito sem jeito, deixou cair a caneta no bloco de anotações. Sim, falou com os olhos num ponto vago à frente, achava que era um carcinoma, um carcinoma epidermóide. Carcinoma epidermóide do canal anal, recitou, silabando as palavras e pronunciando os eles finais exageradamente. Mas não era necessário precipitar as coisas, deviam esperar os resultados dos exames, especialmente da biópsia. Normalmente, não faria isto, por achar que se trata de uma certa irresponsabilidade, leviandade mesmo, mas, sendo Ângelo Marcos também médico, ele podia antecipar alguma coisa. Acreditava que era um tumor mais ou menos recente, o que, como sabe qualquer um, melhora muito as chances do tratamento. E o tratamento que ele provavelmente elegeria vinha tendo resultados bastante alentadores, além de, no caso de Ângelo Marcos, haver ainda a clara vantagem estatística de que os pacientes desses carcinomas eram quase sempre velhotes debilitados, e não homens ainda moços e fortes como Ângelo Marcos, apesar da quase certa anemia.

– Se muitos deles conseguem uma sobrevida que pode ser considerada excepcional, imagine você – falou e logo aparentou se arrepender. – Não, não – acrescentou com um sorriso que dava a impressão de estar sendo atrapalhado por pequenos espasmos, o que aumentou a inquietação de Ângelo Marcos. – Não, não, desta você escapa, não se preocupe, vai dar para segurar.

– E o tratamento? Quer dizer que a probabilidade é que eu vá ter de me operar mesmo, para tirar esse negócio, não é? Bem, talvez seja melhor assim, de qualquer jeito eu ia ter de operar o cu mais cedo ou mais tarde, é ou não é?

– Não, não, eu não me referi a tratamento cirúrgico. Quer dizer, na minha opinião não vamos optar por cirurgia. No caso, não é a melhor solução.

Desviou os olhos novamente, folheou o bloco de notas com o cenho franzido, relutando em responder à pergunta sobre por que cirurgia não era a melhor solução. Radioterapia e quimioterapia, resmungou afinal, arrancando do bloco as folhas anotadas e acenando com elas como quem precisa tratar de assunto mais importante e não tem tempo a perder. Mas algo deve tê-lo irritado no olhar quase beligerante de Ângelo Marcos e, cruzando os braços com a expressão impassível, disse: radioterapia, cobalto; quimioterapia, cin-co-fluo-racillll, mi-to-mi-ci-na-cê. Taxa alta de eficácia, taxa baixa de recidiva, não vamos operar.

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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. O sorriso do lagarto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. Cap. 2. p. 43-48.

LE SOURIRE DU LÉZARD

Chapitre II

João Ubaldo Ribeiro

Se tuer, telle fut la première pensée d’Angelo Marcos en rentrant chez lui, après avoir appris la mauvaise nouvelle. Il alla même jusqu’à sortir son P 38 de la petite armoire encastrée où il le cachait derrière un double fond et il le soupesa pendant quelques minutes jusqu’au moment où, les épaules secouées par un frisson qui le fit chanceler, il se mit à pleurer, étouffé par les sanglots, et s’écroula à plat ventre sur le lit en enfouissant sa tête sous l’oreiller. Ce n’est que bien plus tard que ses pleurs convulsifs se calmèrint et il se leva, des larmes coulant encore de ses yeux gonflés, le revolver à la main droite. Il l’examina de près, lut à voix haute les mots en anglais gravés sur le canon, lut les chiffres anglais également. Il essaya de trouver ça drôle mais ne parvint même pas à sourire et un besoin de sangloter le prit derechef mais cette fois il se mordit la lèvre inférieure et se contrôla. Avec des mouvements très lents, la tête affaissée, n’arrêtant pas de renifler, il retourna à la petite armoire, ouvrit le double fond et remit le revolver à sa place habituelle.

Ensuite, en une fraction de seconde, dont il ne garderait pas un souvenir précis, il se vit brancher les climatiseurs de son bureau, s’asseoir dans le vaste fauteuil pivotant, poser les talons sur la table, en direction des cadre en argent où se trouvait une photo de son mariage avec Ana Clara. De la pointe du pied il tira jusqu’à lui le cadre, finit par le saisir sans grand effort, le coinça sur ses genoux et après l’avoir observé un bon moment, il se trouva moche, l’air abruti. Une farce, une farce, la vie est une farce dénuée de sens. Il leva les yeux et regarda autour de lui, les collections de livres reliés qu’il n’avait jamais lus lui paraissant encore plus lointaines et plus absurdes qu’elles ne l’avaient toujours été secrètement, les rayonnages, tout au plus des pièces de mobilier tyranniques, ces rideaux ridicules. Oui, ce n’était pas seulement la photo qui se révélait différente, tout était différent, esquissé en couleurs ternes et en surimpression comme si lui n’avait pas fait partie de ce monde. Il respira à fond, coucha le cadre sur la table et cessa de le regarder puis, tout d’abord tremblotant mais très vite reprenant son assurance, il afficha une mine décidée, exactement celle qu’il prétendait arborer quand il aborderait le sujet avec Ana Clara, et il se mit à parler tout seul. Tout bien pesé, le pire était déjà passé, finis le doute, l’angoisse, l’anxiété provoquée par l’incertitude. À présent c’était terminé, à présent c’était une réalité. Une réalité dure, on ne pouvait le nier, mais parfaitement tangible et par conséquent qu’on pouvait affronter-et non seulement affronter mais surmonter. Car Deraldo avait été clair, et même grandiloquent: cette fois tu vas te sortir de ce mauvais pas, ne te fais pas de souci, on peut maîtriser la situation, avait-il dit avec cet air de chouette circonspecte qui déjà du temps de la Faculté lui conférait la réputation d’être compétent. Pas de doute, tout était clair, Deraldo ne l’embobinait pas, tout était contrôlé, il n’y avait pas de raison de paniquer, pas la moindre, bien au contraire, il y avait même de quoi être soulagé.

Oui, mais pleurer n’avait pas été forcément une mauvaise chose et peut-être, s’il n’avait pas pleuré, aurait-il fini par se tirer une balle dans la tête. Non, il n’aurait pas tiré, ç’avait été plus exactement un geste de protestation contre Dieu, une façon de blasphémer sans prononcer les mots dont il n’avait pas le courage. Les questions n’arrêtent pas de se poser, toujours les mêmes, il y a de quoi se foutre en rogne en voyant que, si souvent utilisées et répétées dans toutes les circonstances de la vie, elles ne font plus l’effet qu’elles devraient faire, elles ne provoquent plus la révolte et le perplexité qu’elles devraient provoquer. Pourquoi lui? Pourquoi si tôt, à un âge si productif où s’ouvrait la perspective d’une maturité bien remplie qui finalement le récompeserait après une vie vouvée à tant d’efforts et de luttes? Pourquoi, pourquoi? Pleurer avait été une bonne chose, oui, car pratiquement il s’était contenu durant tous ces jours plus longs que des mois et plus angoissants qu’une saison en enfer où ses épaules et son cou s’étaient changés en granit, son estomac était devenu une taie d’oreiller froissée et un coup de téléphone pouvait être un héraut de la mort – depuis ce moment effroyable où, rentrant de voyage tard dans la nuit, il avait fini par aller à la salle de bains après s’être longtemps retenu et, au moment de lever un peu son séant pour jeter un mégot dans la cuvette, il avait vu sortant de son corps comme d’un robinet mal fermé un jet continu de sang qui formait déjà une mare cramoisie. Il s’était mis debout, paniqué et à moitié sonné, d’épaisses gouttes de sang avaient éclaboussé le sol tout autour de ses pieds et aussitôt un petit ruisseau chaud et visqueux avait dégouliné jusqu’à ses chevilles. Pourquoi cette hémorragie insensée? Il allait avoir une commotion, il allait mourir, combien de litres de sang avait-il déjà perdus, le fond de la cuvette était déjà tout noir, voilà donc pourquoi il avait eu un vertige? Avec des gestes précautionneux, les jambes poisseuses, levant à peine les pieds, il s’était assis sur le bidet et, le coeur cognant contre ses côtes et les yeux biûlés par la sueur, il avait contemplé le flux, rouge d’abord, qui continuait de sourdre avec la même insistance mais ensuite l’eau qui baignait ses fesses peu à peu s’était éclaircie pour enfin devenir parfaitement limpide. Il avait regardé autour de lui, on aurait dit qu’on avait coupé le cou d’une poule qu’on aurait ensuite fait tour noyer dans la salle de bains. Tout en se redressant avec force précautions, il s’était rappelé les autres fois où il avait essuyé des gouttes de sang sur le chemin entre la cuvette et le bidet, car il ne voulait pas qu’Ana Clara les voie et insiste pour qu’il se fasse opérer. Mais ce n’étaient que des gouttes, de petites gouttes auxquelles il avait pris l’habitude de ne pas accorder d’importance, sans rapport avec cette mare qu’il avait commencé d’éponger avec du papier hygiénique et une serviette qu’il rinçait de temps à autre, cette mer de sang qui avait déferlé et dont il avait parlé fébrilement le lendemain matin à neuf heures dans le cabinet de Deraldo.

– Oui, tu dois souffrir d’anémie, expliqua Deraldo. Bon, nous allons voir ça, ajouta-t-il en se levant et en indiquant la porte de la petite salle contiguë.

– Tu crois qu’il va falloir m’opérer?

– Ça dépend. Sans examen, comment savoir?

Il procéda à l’examen et ce fut la première épreuve car il ne se contenta pas du toucher rectal: après une série de procédés qu’Angelo Marcos considéra comme humiliants mais qu’il se crut obligé d’accompagner par des plaisanteries qui apparemment tombaient dans l’oreille d’un sourd, il se servit de l’anuscope pendant un bon moment pour finalement annoncer qu’il allait faire un prélèvement pour une biopsie.

– Ça ne fait pas mal, expliqua-t-il sans lever les yeux des notes qu’il avait prises. Une simple formalité et je vais même employer la xylocaïne pour une anesthésie locale. Ne bouge pas, ce sera vite fait.

– Une biopsie? Mais pourquoi diable j’aurais besoin d’une biopsie? Depuis la Faculté j’ai toujours soutenu que la biopsie provoque le cancer, non mon viex, pas besoin d’être aussi méticuleux et de suivre au pied de la lettre le manuel du parfait dercholoque, je sais que j’ai des hémorroïdes, j’ai peur de l’opération, je n’ai pas confiance dans l’hôpital, mais je suis prêt à passer sur le billard, je ne veux pas entendre parler de biopsie, je ne vois pas de raison à faire une biopsie.

– Bon, dit Deraldo sans changer de voix, les yeux presque fermés derrière ses lunettes, je ne peux pas faire de prélèvement sans ton autorisation, mais en tant que professionnel, j’ai le devoir d’insister pour que tu acceptes cette biopsie. Tu as une tu meur dans le canal anal, c’est plus que visible, peut-être quelque deux centimètres de diamètre maximum, ça ne sert à rien de faire l’autruche, il vaut mieux pratiquer la biopsie. Je peux prendre la pince?

– Deraldo, comment peux-tu me regarder avec cet air completement froid et me dire que j’ai un cancer au cul?

– Je ne dis pas que tu as un cancer, je dis que tu dois accepter que je fasse une biopsie.

– C’est la même chose! Tu sais déjà que j’ai un cancer et la biopsie c’est simplement pour en avoir la confirmation. Et tu me dis ça avec une parfaite indifférence comme si je n’étais qu’un cas parmi cent autres.

– Mamaco, qu’est-ce que tu veux que je te dise, comment veux-tu que je te parle? Je…

Retrouvant inopinément le sobriquet d’Angelo Marcos du temps où ils étaient camarades de lycée et voyant celui-ci ratatiné comme un enfant terrorisé, Deraldo s’attendrit. Il s’assit, enleva ses lunettes un instant pour se frotter les yeux, soupira, demanda à Angelo Marcos de se ressaisir et, faisant tourner un stylo entre ses doigts, il prit son temps avant de reprendre la parde. Oui, il y avait une sorte d’ulcération dans le canal anal, une formation tumorale. Il soupira derechef, vraiment mal à l’aise, laissa tomber le stylo sur le blocnotes. Oui, dit-il, les yeux fixant un point vague devant lui, à son avis, il s’agissait d’un carcinome, un carcinome épidermique. Carcinome épidermique du canal anal, récita-t-il en détachant les syllabes et en exagérant la prononciation des l finals. Mais il était inutile de précipiter les choses, ils devaient attendre le résultat des examens, en particulier de la biopsie. Normalement il n’aurait pas procédé ainsi, estimant que c’était faire preuve d’une certaine irresponsabilité, et même de légèreté, mais étant donné qu’Angelo Marcos était lui aussi médecin, il pouvait hasarder un pronostic. Il pensait que c’était une tumeur plutôt récente, ce qui, comme chacun sait, augmente les possibilités de traitement. Et le traitement qu’il choisirait probablement aurait des résultats vraiment encourageants et de plus, dans le cas d’Angelo Marcos, il y avait l’évident avantage statistique que les victimes de ces carcinomes étaient presque toujours de petits vieux débilités et non pas des hommes encore jeunes et forts comme Angelo Marcos, malgré l’anémie dont certainement il souffrait.

– Si beaucoup d’entre eux parviennent à survivre, à titre exceptionnel il faut le dire, tu imagines ton cas, dit-il et aussitôt il eut l’air de regretter ses paroles. Non, non, ajouta-t-il avec un sourire qui donnait l’impression d’être gâché par de petits spasmes, ce qui accrut l’inquiétude d’Angelo Marcos. Non, non, tu vas t’en sortir, ne te fais pas de bile, on va pouvoir tout contrôler.

– Et le traitement? Tu veux dire que la seule solution, c’est que je me fasse opérer pour m’enlever cette saloperie, c’est bien ça? Bon, c’est peut-être préférable, de toute façon j’aurais été obligé de me faire chareuter le cul un jour ou l’autre, pas vrai?

– Non, non, je n’ai pas parlé de traitement chirurgical. C’est-à-dire que, à mon avis, nous n’allons pas opter pour la chirurgie. Dans ton cas, ce n’est pas la meilleure solution.

Il détourna les yeux de nouveau, feuilleta son bloc-notes, les sourcils froncés, se refusant à répondre à la question pourquoi la chirurgie n’était pas la meilleure solution. Radiothérapie et chimiothérapie, finit-il pas grommeler, en arrachant du bloc les feuillets annotés et en les agitant comme qui doit traiter une affaire plus importante et n’a pas de temps à perdre. Mais peut-être que quelque chose dans le regard presque agressif d’Angelo Marcos l’irrita car, croisant les bras, l’air impassible, il énuméra: radiothérapie, cobalt, chimiothérapie, zinc fluoracile, mitomycine. Taux élevé d’efficacité, taux réduit de récidive, nous n’allons pas opérer.

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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. Le sourire du lézard. Traduit du portugais par Jacques Thiériot. Paris: Le Serpent à Plumes, 1998. p. 47-52.

 





Bio fornecida pelo palestrante.

SEMPRE AOS DOMINGOS




Autor: João ubaldo Ribeiro
Título: SEMPRE AOS DOMINGOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

SEMPRE AOS DOMINGOS

 
 

Num boteco do Leblon

 

João Ubaldo Ribeiro

 
 
-Olha aí, ô Zé Mário, tu lavou bem esse copo? Tu tá sabendo que tem de dar lavagem dupla nesses copos, devia até ferver, os caras tão dizendo que o Aids também passa pela baba!
-Qual é baba, rapaz, tu tá por fora. O que pega pela baba é a epilepsia, todo mundo sabe disso. O Aids só pega nesse pessoal alegre aí, essa turma aí que… sabe como é, o contágio não é bem pelo copo, tu tá me entendendo, não é bem por aí, he-he!
-Aí é que tu demonstra tua ignorancia. Tu conhece o Dr. Carvalho? Tu conhece, ele vinha muito aqui, ultimamente é que não tem vindo, depois que a mulher dele internou ele numa clínica pelo problema do alcoolismo. Tu conhece ele, verdadeira sumidade, respeitado aqui e em todos os outros Estados, su-mi-da-de, pergunte a qualquer daqueles velhotes bêbados do Degrau, não tem um que ele não tenha curado a pancreatite, até o Lula Grande, que ficou paralítico de um porre de Johnny Bull, ele botou pra andar. Agora só ta bebendo água mineral e guaraná, é por isso que ele só pinta aqui de vez em quando, para se resguardar da nostalgia. Eu tive com ele no Bracarense, no dia em que o Flamengo perdeu, eu tomando um porre de vodca e ele de água mineral com gás, e tu sabe o que eu vi ele fazer na hora que o português botou o copo na frente dele? Ele tirou do bolso um pedacinho de algodão e um frasquinho parecendo desses de colírio, molhou o algodãozinho no líquido do frasquinho e esfregou pela beirada do copo toda, esfregou várias vezes com a maior meticulosidade.
-E o que era que tinha no frasquinho?
-Álcool, xará, álcool de farmácia. Eu falei: não tou sacando nada, doutor, será que o senhor não está esfregando esse álcool no copo para dar uma alegria aí na água mineral? Aí ele falou: deixa de ser otário, Lourival, acho bom tu também adotar o álcool na beirada do copo como eu, que a barra do Aids tá ficando pesada. Aí eu falei: mas, doutor, esse Aids não é uma transação que só dá em boneca, o cara que… ali… o cara que… justamente… não é?
-E ele falou que não?
-Ele falou duas coisas. Primeiramente ele falou que é verdade que dá mais em boneca, mas é só por enquanto e, além disso – aí é que você vê o raciocínio do homem que tem cultura, a pessoa tem de admirar – ele falou o seguinte: meu caro Lourival, você é um homem que conhece a vida e vai concordar comigo no seguinte: quem parece é, e muitos que não parecem também são, a verdade é essa, tu sabe disso.
-Bom, isso é, isso é uma grande verdade.
-É uma grande verdade! Tem muito moleque safado por aí que não dá nenhuma bandeira! Tu conhece o Carlão?
-Que Carlão? O Carlão da Humberto de Campos, um que faz musculação ali na esquina da João Lira, o da motoca?
-Pois é, Carlão-Carlão, esse mesmo.
-Não! O Carlão? Não! Que é que você está me dizendo, cara, o Carlão… Agora, pensando bem, com aquela machidão toda, todo fortão, todo cabeludão nas costas… Agora que tu tá me falando, tu sabe que eu sempre desconfiei, pensando bem… O Carlão, quem diria… Mas ele não tá de Aids, ontem ele passou pelo Maré Mansa e tá com a mesma cara, não dá nenhuma pinta de Aids.
-Que é isso, cara, o Carlão não é nada disso, é meu amigo, conheço ele bem, nada disso.
-Ué, tu não falou que…
-Tu não esperou eu acabar de falar, que é isso, o Carlão não… Não, nada disso. É que o Carlão teve um problema com um travesti no carnaval passado.
-Ah, ele saiu com um travesti no carnaval, hem? Aí o travesti… É cara, tem muita gente que toma bonde errado com esse negócio de travesti aí que… He-he! Quer dizer que o Carlão, como é que se diz, o Carlão foi buscar a lã e saiu atosquiado, não é assim que se diz? O travesti… he-he, vai ver que o Carlão bebeu demais, se distraiu… He-he!
-Não cara, nada disso, foi um caso de engano, o Carlão não tava sabendo que o cara era travesti, era desses todos cheios de silicone, sabe como é, desses que se tu não prestar atenção tu dança, tá sabendo como é que é?
-Ah, essa não, quer dizer que o Carlão só foi descobrir depois que a desgraça já tava feita? Ah, qual é, Vavá, pra cima de mim? Ah, vai, conta outra, essa daí não cola.
-Tou falando sério, cara, eu conheço o Carlão! O problema não é nada disso, cara, deixa eu acabar de falar!
-Tá legal, vá falando, mas minha idéia é que essa história do Carlão tá muito mal contada.
-É o seguinte, ele descobriu que o cara era travesti, mas só depois que tinha dançado com o cara e tudo, tinha tomado assim umas intimidades, sabe como é carnaval. Eu vou lhe dizer uma coisa aqui confidencialmente, você vai me prometer que não conta isso pra ninguém, é uma questão de confiança, o Carlão é uma pessoa que me merece muito. É o seguinte – olhe aqui, se tu sair falando isso por aí, eu vou ter uma grande decepção com você, veja bem –, é o seguinte. Tou te falando isso até por uma questão de saúde publica, pode crer, o grilo do Carlão é um grilo sério, é o seguinte: teve um momento que o Carlão beijou o travesti, um momento em que ele não tava sacando qual era a do cara. Logo em seguida, ele sacou, tu tá sabendo como é beijo de carnaval, ele inclusive – eu conheço o Carlão, eu sei que é um rapaz de caráter, eu manjo ele assim como eu manjo você, tá sabendo? – partiu para dar uma bolacha no sem-vergonha, mas o cara sentiu a barra do choque do Carlão e se pirulitou na hora, sumiu no ar. O Carlão ficou desgostoso etc., passou a noite bochechando com conhaque etc., mas depois esqueceu, que na ocasião esse grilo do Aids não tinha pintado ainda, era uma transa que ninguém tava sabendo ainda. Mas agora…
-Mas não foi no carnaval? Se foi no carnaval já tem tempo, não tem nada a ver, se o Carlão tivesse de pegar a doença já tinha pegado.
-Ai é que tu tá errado outra vez! O Dr. Carvalho me explicou, o cara pode estar contaminado uns cinco ou seis anos sem saber!
-Ih, cara, grilo grande!
-Pois é, você precisa ver o Carlão, cara, parece assim que ele tá bem, mas tá um farrapo, cara! Quer dizer, fisicamente não, ele fisicamente tá ótimo, mas a psicologia do cara desmoronou. Ele agora só come macarronada, só come comida engordante, não pode ver balança de farmácia – sabe aquelas farmácias todas da Ataulfo de Paiva? – pois não tem uma que ele passe que ele não pule em cima pra controlar o peso, tu tá sabendo que a primeira batida do Aids é o cara perder peso, tu viu a cara do Rock Hudes, um cara boa-pinta como o Rock Hudes, tu saca ele do Maquimila and Uáife, pois é, não pode ver comida engordante que não caia de boca na hora, é inhoque, é milquechêique, é batata frita, é vitamina de banana, é rissole de camarão em tudo que é boteco, é um inferno em vida, cara! Tou dizendo a você, é um inferno em vida, grilo grande mesmo.
-Eu não tava sabendo disso, cara, quer dizer que a transação do Aids leva até cinco anos pra rebentar?
-Incubadão aí, cara, pode crer, incubadão. Tipo fantasma da ópera, tá sabendo?
-Grilo grande, grilo grande. Cinco anos, tu disse?
-Cinco, seis. O Dr. Carvalho bateu pra mim, cinco, seis.
-Tu tá perdendo peso?
-Nada, cara, tou segurando firme em 78, tenho acompanhado.
-Aquela farmácia ali defronte da Sendas tem balança, não tem não?
-Vai ver que tem, eu não sei, porque eu controlo naquela da Zé Linhares, criei confiança.
-É, eu acho que vou dar um pulo lá, só uma pesadinha, faz muito tempo que eu não me peso.
-Tá legal, mas acabe aí tua caipirosca, não tem pressa. Eu tenho uma teoria. Minha teoria é que o álcool por dentro faz o mesmo efeito que o álcool por fora, a gente vai bebendo e vai desinfetando. O Dr. Carvalho achou interessante essa minha teoria, deu valor.
-É, com certeza, com certeza.
-E, além de tudo, o álcool ajuda a esquecer, é ou não é?
-É. Não que eu tenha nada a esquecer, mas ajuda.
-Eu também não, mas ajuda.
-O Dr. Carvalho falou o que era melhor, se era caipirinha ou caipirosca?
 
 

COMO É O SEU NOME COMPLETO?

 
 
Não há de haver profissão mais louca do que a de escritor. É possível até que, ao me verem chegando de manhãzinha para trabalhar no meu “escritório” de Itaparica, os freqüentadores da Praça da Quitanda pensassem em que vida mansa eu tinha, de bermudas e chinelos sempre aproveitando qualquer pretexto para, antes de subir, ficar por ali prosando sobre a tarrafa de Luiz Cuiúba ou as galinhas de Zé de Honorina, como quem não tinha pressa nem obrigação. Além disso, era tão comum que, depois de passar uma meia-hora lá em cima, eu descesse outra vez para ficar zanzando pela praça ou pela beira do cais, que muitas vezes me perguntavam se eu estava trabalhando mesmo.
Mal sabiam eles que, lá em cima, olhando para uma montanha desorganizada de papéis e entulhos variados, eu tinha acabado de concluir pela enésima vez que aquilo tudo era uma maluquice, que não estava entendendo nada e que jamais seria capaz de escrever uma outra linha, quanto mais concluir o livro que, fazia quase um ano, prometia à editora que entregaria “para o mês”. Que sentido tinham aquelas garatujas todas, lauda após lauda de uma história que eu estava tirando não sabia de onde, gente que não existia e cujos sentimentos e ações agora me ocupavam como a um alucinado, personagens que de repente começavam a mandar nos acontecimentos, por que eu não tinha uma atividade decente como qualquer pai de família respeitável? Ainda mais que, no dia anterior, em quase delírio, eu havia mais uma vez assustado a pacientíssima santa esposa com descrições verborrágicas dos maravilhosos feitos literários que brotavam em catadupas da minha máquina inspirada – que confiança, que fé no taco, que certeza de que estava no caminho certo!
Como é que isso acontecia, como é que eu era gênio na quarta-feira e cretino na quinta? Cretino, irremediavelmente cretino, metido até o pescoço num projeto impossível e paranóico, isolado em meio a fantasias estranhas, levantando-me exasperado para ir até a janela e ver a praça, onde as pessoas, placidamente conversando, acreditavam estar cá em cima um escritor com aquela cara de escritor que se vê nos livros, escrevendo agilmente belas palavras e convivendo com as musas. E, ainda por cima, não sou amador, sou profissional, não faço mais nada, não sei fazer mais nada. É possível exercer atividade tão absurda como ofício e meio de vida, isto é normal? Talvez fosse por isso – certamente era por isso – que eu tinha procurado, como procurara muitas vezes antes e continuaria a procurar, adiar o penoso instante em que, nas vascas do cretinismo, teria de subir de novo ao escritório e enfrentar a escrita. Não, não, era uma situação insuportável, o jeito era descer outra vez, carregando todos aqueles personagens na cabeça espremida como um caju, os miolos meio doidos – e ir de novo conversar sobre as galinhas e a tarrafa, de novo mostrar a eles como é amena e descontraída a vida de quem trabalha de bermudas e chinelos. Ou então – por que não? – baixar a cestinha amarrada numa corda que o inimitável Zé de Honorina me providenciou quando montei o escritório, dar um berro para o compadre Bento lá embaixo e pedir que ele, por caridade, encha um copão daqueles de requeijão com alguma coisinha forte e o envie, via cesta, cá para cima. Compadre Bento é sempre prestimoso, especialmente em questões de escrever, porque uma vez, quando eu não conseguia parar de batucar na máquina apesar da presença dele, ocupado em consertar um negócio qualquer no escritório, me viu trabalhando e ficou muito impressionado.
-É trabalho pesado – explicou ele mais tarde à sua dele santa senhora, comadre Marileide. – Ele bate, bate, destremece todo, dá risada e faz cada careta que só a pessoa vendo. Aquilo puxa muito pelo juízo, coitado.
Muitos acessos de genialidade e cretinismo mais tarde, muitas noites maldormidas e copos de requeijão mais tarde, acabei o livro. Abestalhei, dei para vagar pela ilha como um zombie, fazendo perguntas sem nexo aos passantes e achando que nunca mais ia conseguir dormir. Entreguei os originais, não melhorei da cabeça, comecei a esperar que o livro saísse, que alguém lesse aquilo, que eu pudesse tocar no produto final daquele processo enlouquecido.
Ai de nós, escritores, nada se passa tão simplesmente. O livro tem de ir para o editor, tem de ser planejado, composto, revisto, impresso, encapado, encadernado, guilhotinado e não sei mais o quê. Não é como o trabalho de um pintor, que termina o quadro e pode mostrá-lo; não é como o trabalho de um praticante das artes cênicas, que exibe suas artes diretamente, é aplaudido, ignorado ou vaiado na mesma hora; não é como o trabalho de um músico, que toca sua música e presencia seu eco logo em seguida. Nada disso, o trabalho do escritor se multiplica, lentamente, enervantemente, em exemplares e mais exemplares, que são (ou não são) curtidos de forma individual, privada e pessoal – o escritor não sabe de nada do que está acontecendo, não tem um momento de explosão, tem só aquela coisa parada, vagarosa, indefinida. Quando, finalmente, o editor telefona e diz “está pronto, venha ver”, já se sofreu tanta agonia que a visão da obra transformada em objeto utilizável pode ser até melancólica. Então é isso? Então foi para isso que me meti em tanta atribulação? O que é isto, que quer dizer, aonde cheguei? Mas só agora você aparece, livro, depois de quase me haver matado? E daí?
E daí que há outras exigências, a que o sujeito não pode furtar-se. Antes mesmo que alguém possa ter lido o livro, há que dar entrevistas, respondendo sobre coisas que não se sabe, eis que o livro só existe intimamente e só revela sua identidade depois de lido pelos outros. Então como é que o escritor vai saber de alguma coisa sobre o livro, antes que o livro realmente exista? Mas é preciso trabalhar e é preciso arregimentar talentos inexistentes para conseguir realizar esse trabalho.
Tal como o talento de dar autógrafos, fazer dedicatórias e ser simpático quando se está nervoso. Mal sei assinar o nome (sou do Norte), não consigo fazer dedicatórias que não sejam “com a admiração do…” e fico nervoso quando mais de duas pessoas me olham simultaneamente. Então me sento lá e, invariavelmente, esqueço os nomes dos bondosos amigos que aparecem nos lançamentos e, crentes de que eu nunca poderia esquecer seus nomes, ignoram os pedidos desesperados que faço ao pessoal que vende os livros para que anotem a lápis os nomes (“pode deixar isso pra lá, ele me conhece”) e surgem risonhos, estendendo seus exemplares para que eu os autografe. Dá um branco, todos os nomes vão embora, os neurônios não disparam, a mão na caneta não funciona. Agora mesmo vai haver uma dessas sessões de autógrafos, já prevejo o que acontecerá, a vida do escritor é muito dura, não adianta nem usar truques antigos.
Como, por exemplo, o que eu costumava empregar há algum tempo. Em Salvador, num lançamento um pouco remoto, lembro muito bem que já tinha passado por diversos vexames amnésicos quando se apresentou diante de mim um senhor simpático, me olhando com afeto e até carinho, livro em punho e sorriso encorajador. Eu tinha certeza de que conhecia aquela cara, era com toda a certeza um grande amigo meu, uma pessoa de quem gostava muito – mas quem seria? Como era o nome dele, meu Deus do céu? Vasculhei as gavetas emperradas dos velhos centros da memória, cheguei a perder o fôlego, não adiantou, o nome não vinha. Sorri amarelo e usei o truque que me parecia mais adequado.
-Como é seu nome completo? – perguntei brilhantemente, de caneta em riste e cara hipócrita de quem sabia o primeiro nome.
-Ora, meu filho – respondeu o simpático senhor. – Não precisa pôr nome nenhum. Basta escrever “para meu pai”, que está tudo bem.
-Desculpe, papai – disse eu.
 
 
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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. Sempre aos domingos: crônicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 29 – 35 ; 207 – 212.





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