CRYSTAES PARTIDOS




Autor: Gilka Machado
Título: CRYSTAES PARTIDOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

CRYSTAES PARTIDOS

 

Gilka Machado

 
 

Silencio

 
 
Mysteriosa expressão da alma das cousas mudas,
Silencio – pallio immenso aos enigmas aberto,
espelho onde a tristeza universal se estampa.
Silencio – gestação das dôres crueis, agudas,
solenne imperador da Treva e do Deserto,
estagnação dos sons, berço, refugio e campa.
 
Silencio – tenebroso e insondavel oceano,
tudo quanto nos teus abysmos vive immerso,
tem a secreta voz dos rochedos, das lousas.
És a concentração do sêr pensante, humano,
a vida espiritual e occulta do universo,
a communicação invisivel das cousas.
 
Um intimo pezar toda tua alma invade,
ó meu velho eremita! ó monge amargurado!
Dentro da cathedral da verde natureza,
ouço-te celebrar a missa da Saudade
e invocar a remota effigie do Passado,
dando-me a communhão sublime da tristeza.
 
Seja engano, talvez, do meu cerebro enfermo,
mas eu comprehendo os teus sentimentos profundos,
eu te sinto cantar olentes melopéas…
Foste o inicio de tudo e de tudo és o termo.
Silencio – concepção primitiva dos mundos,
cosmopéa etheral de todas as idéas.
 
Silencio – solidão de symptomas medonhos,
pantano onde do mal desenvolvem-se os vermes,
fonte da inspiração, rio do esquecimento,
lagôa em cujo fundo os sapos dos meus sonhos,
postos alheiamente, inanimes, inermes,
fitam de estranho ideal o fulgor opulento.
 
Ó Silencio! Ó visão subjectiva da Morte!
– refúgio passional que eu sempre busco e anceio,
gôso de recordar… torturas e confortas,
pois fazes com que ao teu influxo eu me transporte
ao seio da Saudade, a esse funereo seio
– esquife onde revejo as illusões já mortas.
 
Da scisma na minha alma o triste cunho imprimes,
és o somno, o desmaio, o natural mysterio,
trazes-me a sensação dos gélidos tormentos;
e si nesse teu ventre hão germinado os crimes,
no teu cérebro enorme, universal, ethereo,
têm-se desenvolvido os grandes pensamentos.
 
 

Rosas

 
 

I

 
 
Cabe a supremacia á rosa, entre o complexo
das flôres, pelo viço e pela pompa sua,
e o arôma que ella traz sempre á corolla annexo
o coração humano excita, enleva, estua.
 
Quando essa flôr se ostenta á luz tibia da Lua,
o luar busca enlaçal-a, amoroso, perplexo,
e ella sonha, estremece, oscilla, ri, fluctua
e desmaia, ao sentir esse etheral amplexo.
 
Si é rosea lembra carne ardente, palpitante…
nívea – lembra pureza e nada ha que a supplante,
rubra – de certa bocca os labios nella vejo.
 
Seja qualquer a côr, por sobre o hastil de cada
rosa, vive a Mulher, nos jardins flôr tornada:
– symbolo da Volupia a excitar o Desejo.
 
 

II

 
 
Rosas cujo perfume, em noutes enluaradas,
é um sortilegio ethereo a transpôr as rechans;
rosas que á noute sois risonhas, floreas fadas,
de cutis de velludo e tenras carnes sans.
 
Sejaes da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmans,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretisação dos risos das Manhans!
 
Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
ha nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêcego em sazão.
 
Dae que eu possa gosar, ao vosso collo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emolliente,
numa dubia, sensual e suave sensação!
 
 

Sensual

 
 
Quando, longe de ti, solitaria, medito
neste affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que o teu corpo desprende e ha no teu proprio vulto.
 
A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus labios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
á minha castidade é como que um insulto.
 
Si acaso te achas longe, a collossal barreira
dos protestos que, outr’ora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.
 
Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volupia a ascosa e fria lêsma
minha carne polluir com repugnante baba…
 
 

Olhos verdes

 
 
Ha na vibrante côr dos teus olhos, creatura,
a virential frescura
dos verdes e viçosos vegetaes;
teus olhos são, na côr e na espessura,
florestas virginaes,
onde das illussões o alacre bando
passa, de quando em quando,
cantando…
 
Olhos de expressões graves e fidalgas,
postos na introversão dos intimos scismares.
Olhos que lembram solitarias algas,
pompeando á superficie esmaecida dos mares.
 
Olhos onde do olhar alheio mal escondes
a tua alma aisteroide, a tua alma singular,
pois, coma através das frondes
côam-se pelo espaço as filandras do luar,
 
 
tua alma os olhos te ablue, inunda,
transvasa e o rosto te illumina e banha
de uma luz albuginea, luz estranha,
luz que do luar supponho oriunda.
 
Ha nos teus olhos a verdura intensa
das aguas mortas, das estagnações,
e quem os vê, depressa, pensa
vêr tenros tinhorões…
 
Olhos de cujo olhar os gonfalões desfraldas,
e deixas a rolar por todo o ambiente,
como uma chuva undante, uma chuva esplendente,
uma diliquescencia de esmeraldas.
 
Quando entreabro do sonho os fenestraes postigos
e aos teus olhos amigos,
para melhor os vêr, envio o olhar,
tuas pupillas julgo orvalhados pascigos
onde, sempre a pastar,
vive, das illusões proprias só das creancinhas,
o armento de ovelhinhas.
 
Olhos que lembram folhas pendidas,
folhas do vento na aza levadas,
postas em tristes, hiemaes jazidas
de alvacentas estradas.
 
Olhos macios,
cujos olhares supponho rios
a desaguarem nos olhos meus;
olhos de tal mysticismo feitos
que, olhos herejes ficam sujeitos,
só por fital-os, a crêr em Deus.
 
Divinos olhos, cujas pupillas,
langues, tranquillas,
são duas malvas,
malvas escuras,
abertas sempre sobre as brancuras
das corneas alvas…
 
Olhos com os quaes meus olhos maravilhas
de luz,
olhos que são abandonadas ilhas
do oceano á flux…
ilhas distantes,
apparecidas em alto mar,
onde os meus olhos – dous navegantes,
andam buscando sempre aportar.
 
Olhos serenos, olhos de creança,
de olhar queixoso como onda mansa,
como onda calma,
que lasso, leve, langue se lança
na praia solitaria da minha alma.
 
Olhos solennes e scismadores,
verdes como os oceanos, como as franças,
olhos – embalsamadas esperanças
postas sobre o brancor de estaticos andores.
 
Olhos tristonhos,
por onde vejo, em procissão e em côro,
desfilarem verdes sonhos,
sob os arcos triumphaes dos supercilios de ouro.
 
 

Espirituaes

 
 

I

 
 
Do meu amôr por ti como contar-te a historia,
si nem sei desde quando em meu cerebro o trago,
erguido assim como uma igreja merencorea,
da qual tu sempre foste o milagroso orago?
 
De ha tanto não te vêr, apenas, na memoria,
conservo do teu rosto um simulacro vago,
e, como desse amôr gôso supremo e gloria,
lembro de um teu sorriso o espiritual afago.
 
O meu amôr por ti é intangivel e puro,
desprovido de ardor, desprovido das ancias
dos prazeres carnaes, ephemeros e escassos.
 
Amôr em que o meu sêr totalmente depuro,
amôr que te dedico através das distancias,
como um sol a outro sol, através dos espaços.
 
 

II

 
 
O meu amôr por ti é uma arvore exilada,
verde, em pleno vigor da juvenil chimera,
que, na ampla vastidão de solitaria estrada,
ama outra arvore que, de longe, a anceia e espera.
 
Que importa da tristeza o hinverno ponha em cada
folha sua uma ruga e a torne velha e austera?
para que ella resurja, alegre e remoçada.,
a Esperança virá qual uma Primavera.
 
E ha-de este nosso amôr esperançoso e lindo,
os nossos corações, ó meu longinquo amante!
cada vez mais encher, frondejando… subindo…
 
Amôr mudo e soffrente, amôr calmo e tristonho
– arvore a receber de outra arvore distante
o alvo pollen da dôr para a anthese do Sonho.
 
 

III

 
 
Para que deste amôr nunca a memoria laves
vivamos sempre assim, a distancia sujeitos,
tu – ignorando sempre os meus defeitos graves,
eu – ignorando sempre os teus leves defeitos.
 
Como duas eguaes e extraordinarias naves
irão – rumo do ideal – nossas almas de eleitos,
ambas vogando sobre os mesmos sonhos suaves,
ao desejo que as move e imflamma nossos peitos.
 
Cada vez entre nós mais a distancia augmentando,
para que esse almo ideal, tantos annos sonhando,
não vejamos fugir num rapido momento,
 
e sintamos, então, immoveis, lado a lado,
essa nausea, esse tedio, esse aniquilamento
que vem sempre depois de um desejo saciado.
 
 
_______________________
 
Fonte: MACHADO, Gilka. Crystaes Partidos: poesias. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1915. p. 13-14; 28-29; 41-45; 54-56.
 





Bio fornecida pelo palestrante.

ESTADOS DA ALMA




Autor: Gilka Machado
Título: ESTADOS DA ALMA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

ESTADOS DA ALMA

 
 

Gilka Machado

 

Possa eu, da phrase nos absonos sons

 
 
Possa eu, da phrase nos absonos sons,
em versos minuciosos ou succintos,
expressar-me, dizer dos meus instinctos,
sejam elles, embora, máos ou bons.
 
Quero me vêr no verso, intimamente,
em sensações de gôso ou de pezar,
pois, occultar aqui’lo que se sente,
é o proprio sentimento condemnar.
 
Que do meu sonho o bronco véo se esgarce
e mostre núa, totalmente núa,
na plena graça da simpleza sua,
minha Emoção, sem peias, sem disfarce.
 
Quero a arte livre em sua contextura,
que na arte, embora peccadora, a Idéa,
deve julgada ser como Phrinéa:
– na pureza triumphal da formosura.
 
Gelar minha alma de paixões accêsa
porque? si desta forma ao Mundo vim;
si adoro filialmente a Natureza
e a Natureza é que me fez assim.
 
Meu ser interno, tumultuoso, vario,
– máo grado o parvo olhar profanador –
no livro exponho como num mostruario:
sempre a verdade é digna de louvor.
 
Fiquem no verso, pois, eternamente,
as minhas sensações gravadas, vivas,
nas longas crises, nas alternativas
desta minha alma doente.
 
Relatando o pezar, relatando o prazer,
través a agitação, través a calma,
a estrophe deve tão somente ser
o diagnostico da alma.
 
 

Aspiração

 
 
Eu quizera viver
tal qual os passarinhos:
cantando á beira dos caminhos,
cantando ao Sol, cantando aos luares,
cantando de pezar, cantando de prazer,
sem que ninguem ligasse aos meus cantares.
 
Eu quizera viver em plenos ares,
numa suspensa, etherea trajectoria,
numa existencia quasi incorporea;
viver sem rumo, procurar guarida
á noute, para, em somno, o corpo descançar,
viver em vôos, de corrida,
roçar, apenas, pela Vida.
 
Eu quizera viver sem leis e sem senhor,
tão sómente sujeita ás leis da Natureza,
tão sómente sujeita aos caprichos do Amôr.
Eu quizera vier na selva accêsa
pelo fulgôr solar,
o convivio feliz das mais aves gosando,
viver em bando,
a voar… a voar…
 
Eu quizera viver cantando como as aves,
em vez de fazer versos,
sem poderem, assim, os humanos perversos
interpretar
perfidamente o meu cantar.
 
E eu cantaria, então, a liberdade do ar,
e cantaria o som, a côr, o arôma,
a luz que morre, a luz que assoma,
cantaria, de maneira incomprehendida,
toda a belleza indefinida
que a Natureza expõe e a gosar me convida.
 
E eu pudera expressar,
em sons lêdos ou graves,
esses prazeres suaves
do tacto;
e eu – então canora artista –
expandiria as emoções da minha vista,
e todo o goso, lubrico e insensato,
do odôr, que embriaga o olfacto;
e eu poderia externar,
em sons alegres ou doridos,
todas as impressões dos meus ouvidos,
toda a delicia do meu paladar.
 
Eu quizera viver dentro da natureza;
suffoca-me a estreiteza
desta vida social a que me sinto preza.
Deante
de uma paisagem verdejante,
deante do céo, deante do mar,
esta minha tristeza,
por momentos, se finda,
e desejo viver, soffrer a vida ainda,
e fico a meditar:
como os homens são máos e como a Terra é linda!
 
Certo, não fôra assim tão triste a vida,
si, das aves seguindo o exemplo encantador,
a humanidade, livremente unida,
gosasse a natureza, a liberdade e o amôr.
 
Eu quizera viver
sem a forma possuir do humano ser;
viver, como os passarinhos,
uma existencia toda de carinhos,
de delicias sem par…
Morte, que és hoje todo meu prazer,
fôras, então, meu unico pezar!
 
Eu quizera viver a voar, a voar
até sentir as azas mollentadas,
voar ao cahir do Sol e ao vir das Alvoradas,
voar mais, ainda mais
pairar bem longe das creaturas,
nas serenissimas alturas
celestiaes…
Voar mais, ainda mais
(o vôo me seduz!),
voar, até, finalmente,
num dia muito azul e muito ardente,
– alma – pairar do espaço a flux,
– materia – despenhar-me, de repente,
sobre a terra absorvente,
morta, morta de luz!
 
 

Symbolos

 
 
Eu e tu, ante a noute e o amplo desdobramento
do mar fero, a, estourar de encontro á rocha nua.
Um symbolo descubro aqui, neste momento;
esta rocha e este mar… a minha vide e a tua…
 
O mar vem… o mar vae…. nelle ha o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recúa…
Como eu comprehendo bem da rocha o sentimento!
são bem eguaes, por certo, a minha magua, e a sua!
 
Symbolisa este quadro a nossa propria vida:
tu és esse mar bravio, inconstante e inclemente,
com carinhos de amante e furias de demente;
 
eu sou a dôr parada, a dôr empedernida,
eu sou aquella rocha encravada na areia,
alheia ao mar que a punge, ao mar que a afaga alheia…
 
 

Numa rêde

 
 
Bem sei porque me sinto creança,
quando uma rêde me embalança!
– é que ha, na rêde um rythmo egual
ao da canção lenta e macia,
com que eu, em creança, adormecia
no fôfo seio maternal.
 
A minha rêde é mansa, mansa,
de me agradar nunca se cança,
é a minha amiga mais perfeita;
como ao meu gosto se conforma,
e do meu corpo toma a forma,
e toda a mim se torna affeita!
 
A minha rêde no ar se lança,
como num mar todo bonança:
nella navego em ondas de ar,
para um paiz que é o da Chimera,
de onde me acena alguem e espera
alguem que eu vivo a desejar.
 
A rêde tem o gesto e a nuança
da hesitação: recua… avança….
e ao seu balanço leve e lento,
por mais que nella o corpo encôlha,
sinto-me fragil como a fôlha,
julgo-me toda entregue ao Vento.
 
Qual uma larga e basta frança,
a rêde vae e vem, balança…
e adormecendo as seu vae-vem,
sobre o seu corpo quase fluido,
sonho-me posta, com descuido,
nos braços langues desse alguem…
 
Na rêde o corpo, a rir, descança,
como num sonho uma esperança.
Dos meus pezares esquecida,
muito ao meu gôsto posta, vede:
ao molle embalo de uma rêde,
fico oscillando para a Vida…
 
 

Olhando a minha vida

 
 
Errei… Minha esperança, além, se esfuma…
sinto-me envelhecer…. A Terra é linda!
mas a existencia, aos pouco se me finda,
sem que eu tenha gosado cousa alguma!
 
Sou producto de um erro; ha tanto vinda
é a dôr que no meu peito se avoluma,
que eu não sei si a adquiri ou si ella, numa
lei atavica, em mim perdura ainda.
 
Errei caminho, vim ao mundo atôa,
em vão minha alma libertar procuro
do pezo que carrega e que a magôa.
 
Minha existencia é toda, toda errada,
e, distendendo o olhar para o Futuro,
olho, perscruto, chamo, indago… – nada…
 
 
_____________________________
 
Fonte: MACHADO, Gilka. Estados da alma: poesias. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1917. p. 09-14; 29; 63-64; 118.





Bio fornecida pelo palestrante.