A MURALHA




Autor: Dinah Silveira de Queiroz
Título: A MURALHA, LA MURALLA
Idiomas: port, esp
Tradutor: Estela dos Santos (esp)
Data: 01/07/2005

A MURALHA

 
 

Capítulo I

 
 

Dinah Silveira de Queiroz

 
 
Era como uma brecha ou ferida rasgando as árvores e as plantas, uma vila miserável que transbordava de gente. Ela via os casebres, o povo afluindo ao porto, o navio chegando à bacia de óleo, e punha sua vista naquele teatro com a firmeza do sacrifico que se entregava, cuidando no céu. Se Deus bem quisesse, daí a momentos iria conhecer Tiago, seu primo, seu prometido, a resposta que dera à vida pequenina de Lisboa. O olhar crescia na água, atravessando as lágrimas que não queriam cair. Havia um apagado de luz branca, em torno da mancha vermelha e cinza de orlas verdes de São Vicente. Ali estava seu caminho, seu destino. “Sou como um inocente que entendesse se próprio nascer”.
Junto de Cristina, anunciada pelo seu cheiro de sandalo, Joana Antônia, companheira de longa viagem, apareceu. Trocara suas roupas simples. Trazia um vestido de adamascado escarlate, argolas de ouro e chapéu com uma pena frisada que o vento fazia viver. Hoje Joana Antônia estava decidida e cheia de coragem. Seus olhos cercados de tinta escura, como são os das mouras, luziam de bravata e não de choro:
– “Amenina bem me pode dar seu adeus… Se bem me fio em mim mesma, não lhe ajuntei mal ou desgraça nesta enorme viagem…”
– “Adeus…” Respondeu Cristina com súbita secura, sem voltar-se de lado. Parecia um retrato com fala e gesto, quando mais disse:
– “Deus Nosso Senhor a acompanhe”.
– “Ai, quanto a isto, menina, Deus Nosso Senhor estará comigo, bem que não tenho dúvida. Ele é pessoa mais companheira e sem orgulho…”.
Chegava o Capitão-Mor. Nunca, como nesse momento, ele lhe pareceu um galo novo, passeando sua crista e seu esplendor em meio a outros apagados e servis emplumados. Era distinto, fino, engomado e lustroso como boneco de príncipe. O cabelo caía em ondas de mulher; a mão que o alisava para trás mostrava o grande anel de lápis-lazúli, com seu escudo.
– “Bom dia, senhora minha”, disse ele a Cristina, passando junto de Joana Antônia, que se retirava, não a vendo, nem a sentindo. “Se soubésseis o que é esta terra, e estes endemoninhados sem Lei nem Rei, não gastaríeis aqui vossa gentil presença”. E, não esperando resposta, enquanto acenava para terra, acreditando que já fosse visto: “Em outros tempos, os desesperos de amor e as mágoas de família se aquietavam nos conventos. Agora, toca a passear a mágoa por um mundo diferente”.
Cristina sorria, deslindando as palavras com alegre afetação:
– “Basta de tristezas. Espero não ter gasto todo meu dinheiro em vão com tantos cobiçosos, neste barco. E saiba Vossa Senhoria que vou ser feliz e que não venho esquecer-me, mas viver…”
O Capitão-Mor continuava a acenar; depois, brusco, pondo na moça seus olhos azuis frios, a puxou pelo braço tremente, falando em cor de voz mais íntima:
– “Cure-se a menina de ilusões. A pobreza arrogante desta terra! Os índios feios como Judas, os brancos sujos, fanfarrões e briguentos, os negros fazendo o que lhes ensinam, como monos. Os padres disputando com os brancos, mas lhes dizendo as missas. E as mulheres escondidas em casa como coelhos nas tocas, ignorantes e obstinadas”.
E enquanto cortejava a gente que já o podia distinguir, com um aceno altaneiro:
– “Vede bem esta miséria. De perto ainda é pior! Porque este povo cheira diferente… Se algum dia descoroçoar, contai com minha valia”.
Cristina foi prendendo a mantilha, enrolando-a no pescoço:
– “Com esta gente de que fala não viverei eu. Há de ser com meu esposo, que tem meu próprio sangue, e será um homem igual a meu irmão”.
O Capitão-Mor balançou a cabeça, mirou Cristina de cima a baixo:
– “Deus Nosso Senhor conserve a alegria da menina, e também sua beleza, em terra tão sem galas. Adeus!”
Cristina se viu, descida do bote, num atordoar de povo que a olhava com se ela viesse de outro mundo. Ela se viu a contar suas arcas, a vigiar os tripulantes que as traziam para a terra. Como reconheceráTiago? Voltava-se depressa, em sustos, a cada instante. Mas o homem que podia ser seu noivo já a inquiria com jeito desaforado na face. Eram todos curiosos, e as suas coisas excitavam interesse geral. O moço que a acompanhara empurrou com o corpo, de lado, certa mulherinha escura, de duros cabelos, que passava a mão pelo seu vestido, como alguém encantado a alisar um bicho.
– “Arreda! Arredem todos!”
Nesta confusão se chegou uma figura estranha: Um mestiço ruivo, de face sardenta e rosada, de olhos fendidos no rosto chato. Vestia roupa decente, calça de algodão, jubão de couro.
– “Ei…Procuro a dona mandada pra meu senhor…”
Cristina, embora em sua tonteira de emoção, quis ajudar. Seria o criado para levar Joana Antônia… E mostrou:
– “Vai acolá. Espera ali à sombra…”
Mas o criado a olhou, de lado, suspeitoso:
– “Sou da Lagoa Serena. Meu senhor aqui me mandou pela dona de seu filho…Tiago, meu sinhozinho”.
Cristina sentiu o sangue no rosto:
– “Tiago não vem?”
O mestiço olhou a moça – triunfante:
– “Aimbé leva a dona dele!”
Cristina viu dois homens quase despidos, escuros, de cabelo liso e sem barba. Pareciam gêmeos.
– “Gente boa. Gente da Lagoa Serena. Aimbé mesmo caçou eles pra meu Senhor!”
Os índios, com Aimbé, carregaram as arcas. Um homenzarrão barbudo e em farrapos puxou a mantilha de Cristina, e riu, um riso de dentes pretos:
– “Ai, a branquinha tão fresca!”
Aimbé lhe cortou a explosão:
– “É a sinhazinha pra Lagoa Serena!”
O homem fechou a boca, deu um passo desajeitado para trás, fazendo o arremedo de uma escusa ou de um cumprimento. Ela arrebanhou firme a saia na mão, e enfrentou a populaça, formada de faces espantadas ou admirativas, ingênuas ou caçoístas. Desviou os olhos de uma mulher morena, só de saia, com os longos seios bambos expostos; deu com o braço no peito de um velho que ria divertido para ela, intrigado com se ela fosse um boneco de engonço. Uma ave, no ombro do velho, dava gritos terríveis, ofendida e solidária com seu amo, logo que este foi empurrado.
Cristina estava agora animada de heroísmo obscuro. Aceitava tudo, queria tudo aceitar com perfeita naturalidade, porque ao fim daquele fio de cenas e acontecimentos ela teria Tiago, o seu Tiago; tão bom, decerto, como seu irmão, e ainda mais belo. Exatamente como aparecia no medalhão que escondia sob o vestido.
(…).
 
 
________________
 
Fonte: QUEIROZ, Dinah Silveira de. A Muralha. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1954.p. 11-15.
 

LA MURALLA

 
 

Capítulo I

 
 

Dinah Silveira de Queiroz

 
 
Esa villa miserable desbordada de gente era como una brecha o una herida que rasgaba los árboles y las plantas. Ella veía las casuchas, el pueblo afluyendo al puerto, el barco que llegaba a ala hondonada aceitosa, y ponía sus ojos en ese teatro con la firmeza del sacrificio que se hace pensando en el cielo. Si Dios quería en pocos momentos conocería a Tiago, su primo, su prometido, la contestación que había dado a la vida pequeña de Lisboa. Sus ojos crecían de agua por las lágrimas que no querían salir. Era una apagada luz blanca alrededor de la mancha roja y ceniza con orlas verdes de São Vicente. Allí estaba su camino, su destino. “Soy como un inocente observando su propio nacimiento”.
Junto a Cristina, preanunciada por su olor a sándalo, se acercó Joana Antonia, su compañera del largo viaje. Se había cambiado sus ropas sencillas. Traía un vestido de damasco escarlata, aros de oro y un sombrero con una pluma rizada que la brisa hacía vivir. Hoy Joana Antonia estaba decidida y llena de coraje. Sus ojos orlados de oscura tinta, como los de las moras, brillaban de bravura y no de lágrimas:
-La niña podría saludarme… Según mi opinión, no le contagié ningún mal ni desgracia en este enorme viaje…
-Adiós… – contestó Cristina con súbita sequedad, sin darse vuelta. Parecía una fotografía que hablaba y se movía cuando le dijo:
-Que Dios Nuestro Señor la acompañe.
-Ay, niña, Dios Nuestro Señor estará conmigo, no tengo la menor duda. Él es una persona compañera y sin orgullo…
Llegaba el capitán. Nunca como en ese momento le pareció un gallo joven paseando su cresta y su esplendor en medio de otros oscuros y serviles emplumados. Era distinto, fino, almidonado y lustroso como un muñeco de príncipe. El cabello le caía en ondas femeninas y su mano, al alisarlo hacia atrás, mostraba un gran anillo da lapizlázuli con su escudo.
-Buen día, mi señora – le dijo a Cristina pasando al lado de Joana Antonia que se retiraba, sin verla ni sentirla. “Si supiera lo que es esta tierra y estos endemoniados sin ley y sin Dios, no gastaría aquí su gentil presencia”. Y sin esperar respuesta, mientras hacía señas hacia tierra pensando que ya había sido visto: “En otros tiempos las desesperaciones amorosas y las angustias familiares se sosegaban en los conventos. Ahora la tristeza se pasea por un mundo diferente”.
Cristina sonreía deslindando las palabras con alegre afectación:
-Basta de tristezas. Espero no haber gastado todo mi dinero en vano con tantos codiciosos en ese barco. Y sepa Su Señoría que voy a ser feliz y que no vengo a olvidar sino a vivir…
El capitán continuaba haciendo señas; después, bruscamente, poniendo sus fríos ojos azules en la muchacha, la agarró por el brazo tembloroso, hablándole en tono de voz más íntimo:
-Cúrese de ilusiones, niña. La pobreza altiva de esta tierra, los indios feos como judas, los blancos sucios, fanfarrones y borrachos, los negros repitiendo lo que les enseñan como monos. Los curas peleándose con los blancos pero diciendo las misas. Y las mujeres escondidas en las casas como conejos en sus cuevas, ignorantes y obstinadas.
Y mientras cortejaba a la gente que ya lo podía distinguir, con un acento altanero:
-Mire bien esa miseria. ¡De cerca todavía es peor! Porque este pueblo huele diferente… Si algún día se descorazona, cuente con mi apoyo.
Cristina tomó su mantilla y empezó a envolverse el cuello:
-Con esa gente de la que habla yo no viviré. Estaré con mi esposo, que tiene mi misma sangre y será un hombre igual a mi hermano.
El capitán movió la cabeza y miró a Cristina de arriba abajo:
-Dios Nuestro Señor conserve su alegría, niña, y también su belleza, en esta tierra carente de galas. Adiós.
Al bajar del bote, Cristina se encontró en medio del tumulto que la miraba como si viniese de otro mundo. Tuvo que contar sus baúles y vigilar a los tripulantes que los traían a tierra. ¿Cómo reconocería a Tiago? A cada instante se daba vuelta deprisa, asustada. Pero el hombre que podía ser su novio ya la buscaría con el rostro desaforado. Todos eran curiosos y sus cosas excitaban el interés general. El mozo que la había acompañado empujó con su cuerpo, de costado, a una mujercita oscura, de cabellos duros, que le pasaba una mano por el vestido como alguien encantado de acariciar un animal.
-¡Atrás! ¡Atrás todos!
En esa confusión se acercó una figura extraña: un mestizo rubio, de mejillas pecosas y rosadas y ojos hundidos en la cara chata. Vestía ropa decente, pantalón de algodón y saco de cuero.
-¡Ei!… Busco a la señora mandada para mi señor…
Cristina, atontada en su emoción, quiso ayudar. Sería el criado para llevar a Joana Antonia… Y le señaló:
-Anda allá. Espera en la sombra…
Pero el criado la miró de reojo, sospechando:
-Soy de la Lagoa Serena. Mi señor me mandó por la señora de su hijo… Tiago, mi sinhôzinho.
Cristina sintió que la sangre le subía al rostro:
-¿Tiago no viene?
El mestizo la miró, triunfante:
-¡Aimbé lleva a la señora!
Cristina vio a dos hombres casi desnudos, oscuros, de pelo liso y sin barba. Parecían mellizos.
-Buena gente. Gente de la Lagoa Serena. ¡Aimbé los cazó para mi señor!
Junto con Aimbé, los indios cargaron los baúles. UN hombrón barbudo y harapiento tocó la mantilla de Cristina y se rió con una risa de dientes negros:
-¡Ay, qué blanquita tan fresca!
Aimbé lo cortó:
-Es la sinhazinha para Lagoa Serena!
El hombre cerró la boca, dio un paso sin gracia hacia atrás remedando una excusa o un saludo. Ella levantó con firmeza la pollera con la mano y enfrentó al populacho formado de caras asombradas o admiradas, ingenuas o burlonas. Desvió los ojos de la mujer morena, sólo con polleras y los largos pechos bamboleantes al desnudo y golpeó con su brazo a un viejo que se reía, divertido con ella, intrigado como si fuese una muñeca articulada. Un ave sobre el hombro del viejo largaba terribles gritos, ofendida y solidaria con su amo, apenas éste fue empujado.
Ahora Cristina estaba animada de un oscuro heroísmo. Aceptaba todo, quería aceptar todo con perfecta naturalidad, porque al final de ese desfile de escenas y sucesos tendría a Tiago, a su Tiago, seguramente tan bueno como su hermano y todavía más hermoso. Exactamente como aparecía en el medallón que escondía por dentro de su vestido.
(…).
 
 
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Fonte: QUEIROZ, Dinah Silveira de. La Muralla. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires: Macondo Ediciones, 1978. p. 15-17.
 
 





Bio fornecida pelo palestrante.

A ILHA DOS DEMÔNIOS




Autor: Dinah Silveira de Queiroz
Título: Ilha dos Demônio, L’ÎLE AUX DÉMONS
Idiomas: port, fra
Tradutor: Andrée Gama Fernandez(fra)
Data: 28/12/2004

A ILHA DOS DEMÔNIOS


I


Diná Silveira de Queiroz

Padre, não vos faço uma confissão. Se a Religião manda que nos desafoguemos de nossos pecados, será talvez mais para que recuperemos a paz necessária à alma, que mesmo para que sábios conselhos, seguidos de grandes penitências, nos impeçam de cair de novo em tentação. Se me confio a vós, Padre, é porque sei que entre tantos ministros de Deus, que desta terra não saíram, e julgam o mundo pelo que vêem, vós andastes por esse enorme sítio onde Cristo se exilou, e bem conheceis, tanto quanto ao nosso país, as maravilhosas terras que ficam além dos mares, com florestas soberbas e animais estranhos, e criaturas que, semelhantes aos homens, vivem como feras.
Confio em que não me havereis por mentirosa, e sedenta de ofuscar os outros com minhas narrativas. Neste século de maravilhas e de viagens estupendas, talvez ninguém tenha história mais espantosa do que a minha. Mais espantosa! Deveria acrescentar: e mais triste, também. Quero lavar meu espírito das recordações aterradoras, quero purificar minha consciência. Ofereço-vos toda a minha lembrança. Ah! Pudesse eu, entregando-a a vós, libertar-me de tudo que enche a minha memória! Tanta peçonha, tantos malefícios!
Começarei, Padre, bem do começo, para que certas coisas possam ser entendidas.
Nasci sob um mau fado. Bem sei que arrisco, com esta declaração, ser chamada de supersticiosa! Mas, a bem da verdade, julgo dever contar que, estando grávida, já quase a ponto de dar à luz, minha mãe teve um choque terrível. É que minha tia, uma criatura que tinha sonhos maravilhosos, e, dormindo, falava em línguas desconhecidas, como se seu corpo fosse habitado por espíritos de plagas distantes, minha tia, certa noite, teve uma visão terrível. Seus olhos esbugalharam-se, tornaram-se quase brancos, e seus cabelos se puseram em pé:
«-Minha irmã, disse ela, depois de despertar de um longo sono que se seguiu à visão. Minha pobre irmã! Levas em teu ventre alguém que irá em vida ao Inferno! Oh, que coisas abomináveis eu vi!»
Foi tal o susto que teve minha mãe, que isto lhe apressou o parto; e, na madrugada seguinte, eu nascia. Um entezinho fraco, tão pequenino, que não parecia ter forças para viver.
Deram-me o nome de Margarida. Meus Pais me colocaram sob a proteção da santa do mesmo nome. Nos momentos mais penosos da minha vida a ela recorri, e sempre encontrei a força necessária para enfrentar toda espécie de desgraça.
Mas, tendo nascido sob tão tremenda profecia, e dela sabedora logo em criança, nem por isso deixei de ser uma rapariga alegre, faceira, como poucas, ao chegar aos quinze anos. Bom Padre, vós que conheceis os votos de pobreza e desprendimento das coisas do mundo, talvez não alcanceis quanto a vaidade em mim era uma coisa natural, e não uma tentação vinda do Demônio, para arrastar minhalma, e me tornar instrumento, também, de seus malefícios.
Gostava de cuidar de mim, como os gatos gostam de conservar o pêlo liso e brilhante e andam sempre limpos e lustrosos – tão bonitos – sem que isso ofenda a Deus, pois que são assim, parece, por própria vontade divina. Era com prazer que eu tratava da minha pele. Na aldeia não havia nenhuma tão branca, nem mais acetinada. Meus cabelos, negros, tão longos que me chegavam quase aos pés, luziam esfregados com azeite. Gostava de trançá-los com flores. Minhas mãos eram tratadas com toda espécie de ungüentos e pomadas. Só saía à tardinha, para que o sol não me queimasse, tornando-me tão feia e manchada quanto as outras raparigas. Meus Pais, tão bons, facilitavam o gosto que eu tinha por conservar a beleza que Deus me dera. Nos trabalhos de casa, e em outras canseiras, eu era poupada. Tinha, ao contrário das outras jovens do lugar, uma aia para meus serviços. Secretamente, receosos que se cumprisse a tremenda visão que anunciara meu nascimento, meus Pais desejavam dar tudo que tivessem a seu alcance por minha felicidade, e nisso não poupavam sacrifícios.
A ama lia para mim longos romances de destemidos cavaleiros de eras passadas. Minha mãe fiava… Oh, tempos queridos da minha felicidade!
Quando ia à igreja, acompanhada por Juliana, a aia, sentia em mim o olhar ardente dos moços da vila, e podia perceber, como fogo estranho, arder em torno a inveja das raparigas. Mas eu rezava, calma e segura, no meio de todos, e, como se falasse a uma terna amiga, conversava com a santa de meu nome:
-Protegei-me, Senhora Margarida! Não permitais que me alcancem os ódios que eu provoco sem querer!
Não encontrava nenhum atrativo nos jovens que conhecia. Achava-os todos broncos e pesados. Tomavam muita sopa, bebiam muito vinho, e não sabiam dizer palavras bonitas às damas. Muitos deles, ricos, donos de grandes e fartos celeiros, economizavam na roupa, e andavam com botas rasgadas. Isso me desgostava.
Já, por quatro vezes, os mais ricos moços de minha terra haviam procurado meu Pai, com o fito de persuadi-lo a dar a filha em casamento. Mas, sabedor de quanto me repugnavam eles, meu bom Pai acatava meus desejos de ficar solteira, até encontrar o homem que me agradasse. Isso parecia impróprio às mulheres da aldeia, e muitas me censuravam por querer imitar os homens, casando por meu bel-prazer.
Embora triste com o que murmuravam de mim as mulheres, a Mãe, tanto quanto o Pai, não me forçava a aceitar marido. Mas, quando lhe diziam: «-Bom caminho abris para vossa filha: morrereis um dia, e, pobre ela ficará sem saber nem ao menos preparar uma sopa, ou fiar a lã!…» Quando lhe diziam essas coisas, ela chorava e sofria.
Já estava eu com dezenove anos; e apareceu pela terra um senhor de quem diziam ser muito rico e viajado. Meu Pai por acaso o conheceu, e o levou à nossa casa. Cristiano, tal era o seu nome, contava coisas estranhas, e o Pai o levara lá, para que ele me divertisse com suas histórias.
Não tanto quanto vós, Padre, mas assim mesmo o bastante para que isso fosse razão de deslumbramento para quem, como eu, só conhecia as estradas e os horizontes da nossa aldeia, Cristiano sabia de países extraordinários. Ao ouvi-lo narrar suas aventuras, a Mãe, de instante a instante, fazia menção de me tirar da sala. Pareciam-lhe escandalosos certos factos… Mas, com sinais de aprovação, vendo-me tão divertida, o Pai dizia que ela me deixasse ouvir…
Ah, como me agradavam aquelas histórias! Punha-me a conjecturar se aqueles homens que viviam em tanta liberdade, os habitantes das florestas, eram homens mesmo? Acaso o seriam? Sem religião, e com os instintos à solta? Também me fascinavam essas viagens em que nobres e plebeus se misturavam, e de onde qualquer pobre aldeão podia voltar rico e célebre. Tínhamos na família um parente: Roberval, que começava a ganhar fama, e, se bem que não o conhecesse de perto, sentia orgulho por suas aventuras.
Segundo dizia Cristiano, existia um país extraordinário, com árvores enormes, cheio de riquezas… Lá iria em breve, com autorização do Rei. Tornar-se-ia riquíssimo…
Cristiano não era belo. Tinha trinta anos, usava barba em ponta, e suas vestimentas eram mais largas do que se poderia desejar. Estragara os dentes depressa, e falava de maneira autoritária, arrogante mesmo, mas… sem dar por isso, apaixonei-me por suas narrativas que lhe davam tanto prestígio.
O viajante se demorou em nossa aldeia mais do que se deveria esperar. Ali estava com o fim de adquirir mantimentos para seu próximo embarque. Duas semanas depois de chegado, com certa brusquidão, falou com meu Pai: era homem de haveres, e esperava tornar-se riquíssimo, dessem-lhe a filha em casamento, e ele a faria honrada, rica e feliz.
Muito admirado ficou o Pai, quando, ao transmitir o pedido de casamento de Cristiano, eu disse, simplesmente, que aceitava, se fosse de seu gosto, dele, meu Pai querido.
Juliana, a aia, chorou quando lhe dei parte de minhas intenções.
-Então – disse -, a menina criada como uma planta tenra, com tais cuidados, vai ser levada por esse brutamontes de fala grossa? Espera, encanto meu, que em breve, se Deus estiver de acordo, e com a proteção de Santa Margarida, melhor marido há de surgir… Espera, eu te rogo!
Mas, se eu estava deslumbrada com Cristiano, ou melhor, com o que contava Cristiano, por que haveria de esperar?
Nunca em nossa aldeia houve casamento igual. Cristiano mandou buscar em Paris um vestido de bodas, que mais parecia um traje de rainha. Deu-me um diadema, um colar de pedras que ele trouxera de sua última viagem… Trancei com vistosas contas os meus cabelos negros, e julguei perceber – oh, perdoai-me, Padre! – um olhar admirativo até no próprio Capelão que me uniu a Cristiano.
Fomos para Paris, dias depois. Deixei meus Pais em pranto. Eu chorava também, mas eles me consolavam, dizendo que em breve iriam visitar-me. Juliana foi comigo. Durante todo o tempo da festa do meu casamento, notei que ela permanecia séria, impenetrável.
(…).

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Fonte: QUEIROZ, Diná Silveira de. A Ilha dos Demônios (Margarida La Rocque). Rio de Janeiro: Edição Livros do Brasil, 1949. p. 15-9.
 

L’ÎLE AUX DÉMONS

 
 

Premiere Partie

La prophétie

 
 

Dinah Silveira de Queiroz

 
 
Mon Pere, ce n’est pas une confession que je vais vous faire. Si la Religion ordonne de nous soulager de nos péchés, c’est davantage, sans doute, pour retrouver la paix nécessaire à l’ame que pour nous empêcher, grace à de sages conseils, suivis de longues pénitences, de retomber dans la tentation. Si je me confie à vous, mon Pere, c’est parce que je sais que, parmi tant de ministres de Dieu qui ne sont pas sortis de ce pays et jugent le monde par ce qu’ils en voient, vous avez parcouru cette vaste contrée ou le Christ s’exila et que vous connaissez bien – autant que notre pays – les régions merveilleuses qui sont au-delà des mers, avec de superbes forêts, d’étranges animaux et des créatures qui, semblables à l’homme, vivent comme des bêtes féroces.
J’espere que vous ne me croirez pas une menteuse avide d’éblouir les autres par ses narrations. Dans ce siele de merveilles et de voyages étonnants, personne, sans doute, n’a vécu une histoire plus surprenante que la mienne. Plus surprenante ! Et je devrais ajouter : et plus triste aussi. Je veux laver mon esprit des souvenirs d’épouvant, je veux purifier ma conscience. Je vous offre tous ces souvenirs. Ah ! si je pouvais, en vous les remettant, me libérer de tout ce qui emplit ma mémoire ! Tant de poison, tant de maléfices !
Je commencerai, mon Pere, par le commencement, pour que certaines choses puissent être comprises.
Je suis née sous une mauvais étoile. Je sais bien que je risque, par cette déclaration, de vous paraître superstitieuse ! Mais, pour être franche, j’estime devoir vous dire que lorsqu’elle était grosse, presque sur le point d’accoucher, ma mere reçut un terrible choc. C’est que ma tante, une créature qui avait des songes merveilleux et en dormant parlait des langues inconnues, comme si son corps était habité par des esprits de contrées lointaines, ma tante, une nuit, eut une horrible vision. Ses yeux s’exorbiterent, devinrent presque blancs, et ses cheveux se hérisserent.
-Ma soeur, dit-elle, en s’éveillant du long sommeil qui suivit la vision, ma pauvre soeur ! Tu portes dans ton ventre un être qui, pendant sa vie, ira en enfer ! Oh ! quelles choses abominables j’ai vues !
La peur que ma mere ressentit avança sa délivrance ; et le lendemain matin, je naissais. Un petit être faible, si petit, qui ne paraissait pas avoir la force de vivre.
On me donna le prénom de Marguerite. Mes parents me placerent sous la protection de cette sainte. J’eus recours à elle dans les moments les plus pénibles de ma vie et j’ai toujours trouvé la force nécessaire pour affronter toutes sortes d’adversités.
Bien que née sous une si épouvantable prophétie – qui me fut révélée lorsque j’étais enfant – je n’en fus pas moins, à quinze ans, une jeune fille gaie et coquette comme il y en avait peu. Mon bon Pere, vous qui avez prononcé le voeu de pauvreté et êtes détaché des choses d’ici-bas, peut-être ne comprendrez-vous pas à quel point la vanité était, chez moi, une chose naturelle, et non pas une tentation venue du Démon, au point d’entraîner mon ame, et de devenir, ainsi, l’instrument de ses maléfices.
J’aimais m’occuper de moi comme les chats aiment entretenir leur fourrure lisse et brillante. Ainsi sont-ils toujours propres et luisants, et si jolis, sans que cela offense Dieu, car s’ils sont ainsi, il me semble que ce soit de par la volonté divine. Je soignais ma peau avec plaisir. Au village, il n’y en avait pas d’aussi blanche, ni de plus satinée. Mes cheveux, noirs, si longs qu’ils tombaient jusqu’à mes pieds, brillaient, frottés d’huiles. J’aimais les natter avec des fleurs. Mes mains étaient soignées avec toutes sortes d’onguents et de pommades. Je ne sortais que le soir pour ne pas être brulée du soleil. Je ne voulais pas devenir comme les autres jeunes filles, laide et couverte de taches de rousseur. Mes parents, tres bons, favorisaient ce plaisir que j’avais à entretenir la beauté que Dieu m’avait donnée. Les travaux du ménage m’étaient épargnés. Contrairement aux autres jeunes filles de l’endroit, une suivant était à mon service. Dans la crainte secrete de voir s’accomplir la redoutable vision qui annonça ma naissance, mes parents tenaient à me donner tout ce qui était en leur pouvoir, pour mon bon-heur, et, dans ce but, n’épargnaient aucun sacrifice.
La suivante, Julienne, me lisait les longs romans remplis de hauts faits des intrépides chevaliers d’antan. Ma mere filait… Oh ! chers temps de mon bon-heur !
Quand j’allais à l’église, accompagnée de Julienne, je sentais sur moi le regard ardent des garçons du village, et j’avais une impression tres nette de la convoitise des filles, brulant, autour de moi d’un feu étrange. Mais je priais, calme et sure, au milieu de tous, et comme si je causais à une tendre amie, je conversais avec la sainte de mon nom : «Protégez-moi, Dame Marguerite ! Ne permettez pas que m’atteignent les haines que je provoque inconsciemment !»
Je ne trouvais aucun charme aux jeunes gens que je connaissais. Je les voyais tous rudes et lourdauds. Ils lampaient force soupes, buvaient beaucoup de vin et ne savaient pas dire de jolies phrases aux dames. Plusieurs d’entre eux, riches possesseurs de vastes greniers bien remplis, économisaient sur le linge et portaient des bottes déchirées. Cela me répugnait.
Déjà par quatre fois, des jeunes gens, parmi les plus riches de mon pays, avaient été trouver mon pere pour le persuader de leur donner sa fille en mariage. Mais, sachant à quel point ils me déplaisaient, mon bon pere respectait mon désir de rester fille jusqu’à ce que je trouve l’homme qui me plairait. Ceci paraissait malséant aux femmes du village, et beaucoup me critiquaient de vouloir imiter les hommes, en me mariant selon mon bon plaisir.
Bien qu’attristée par ce que les femmes chuchotaient sur moi, mere – pas plus que pere, d’ailleurs – ne me forçait à prendre mari. Mais quand on lui disait : «Joli chemin que celui que vous tracez à votre fille ; vous mourrez un jour et, pauvre, elle ne saura même pas faire une soupe ou filer la laine !», elle pleurait et souffrait.
J’avais déjà dix-neuf ans lorsqu’arriva au pays un monsieur qu’on disait avoir beaucoup voyagé et qui passait pour être tres riche. Mon pere fit sa connaissance et nous le présenta. Christian – c’était son nom – racontait des choses étranges, et pere l’avait introduit à la maison, pensant qu’il s’amuserait avec ses histoires.
Pas autant que vous, mon Pere ! mais cependant assez pour éblouir quelqu’un qui ne connaissait, comme moi, que les routes et les horizons de notre village, Christian en savait long sur des pays extraordinaires. A l’entendre narrer ses aventures, mere, de temps en temps, aurait voulu me prier de me retirer. Certains faits lui paraissaient scandaleux… Mais, avec des signes d’approbation, en me voyant si amusée, le pere lui disait de me laiser écouter…
Ah ! comme elles me plaisaient, ces histoires ! Elles me faisaient me demander si ces hommes qui vivaient si librement, les habitants des forêts, étaient réellement des hommes ? L’étaient-ils, sans religion et livrés à leurs instincts ? J’étais aussi fascinée par ces voyages ou nobles et plébéiens se mêlaient et d’ou un pauvre villageois pouvait revenir riche et célebre. Dans la famille, nous avions un parent : Roberval, qui commençait à être renommé et bien que je le connusse peu, je me sentais fiere de ses aventures.
D’apres Christian, existait un pays extraordinaire débordant de richesses, aux arbres énormes… Il devait y aller bientôt, avec l’autorisation du roi. Il deviendrait richissime…
Christian n’était pas beau. Il avait trente-neuf ans, portait la barbe en pointe, et ses vêtements étaient plus larges qu’on aurait pu le souhaiter. Il avait les dents abîmées et parlait sur un ton autoritaire, arrogant même, mais… sans m’en rendre compte, je tombai amoureuse de ses récits qui lui donnaient tant de prestige.
Le voyageur s’arrêta dans notre village plus long-temps qu’on ne l’escomptait. Il était venu y acheter des vivres en vue de son prochain embarquement. Deus semaines apres son arrivée, avec une certaine brusquerie, il parla à mon pere : il était homme aisé, et espérait faire fortune ; qu’on lui donnat la fille en mariage et il la ferait honorée, riche et heureuse.
Mon pere fut bien surpris, lorsqu’en me transmettant la demande em mariage de Christian, je lui dis simplement que j’acceptais, si toutefois cela lui plaisait à lui, mon pere chéri.
Julienne, ma suivante, pleura quand je lui fis part de mes intentions :
-Alors, dit-elle, l’enfant élevée comme une tendre plante, avec tant de soins, va être emmenée par cette brute à la voix de stentor ? Attends, mon bijou ! Bientôt, si Dieu le veut et avec la protection de Saint Marguerite, un meilleur mari se présentra… Attends, je t’en supplie.
Mais si j’étais éblouie par Christian, ou plutôt par ce que contait Christian, pourquoi aurais-je attendu ?
Il n’y eut jamais de pareil mariage dans notre village. Christian envoya chercher à Paris une robe de noces qui ressemblait à une toilette de reine. Il me fit don d’un diademe, d’un collier de pierreries qu’il avait rapportés de son dernier voyage… J’entrelaçai mes nattes noires de superbes perles et je crois même avoir reçu – oh ! pardonnez-moi, mon Pere – un regard d’admiration du chapelain qui m’unit à Christian.
Quelques jours apres, nous partîmes pour Paris. Je laissai mes parents en larmes. Je pleurai aussi, mais ils me consolerent en me disant que, bientôt, ils iraient me voir. Julienne s’en fut avec moi. Pendant toute la cérémonie du mariage, je remarquai qu’elle s’était tenue grave, impénétrable.
(…).
 
 
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Fonte : QUEIROZ, Dinah Silveira de. L’île aux démons : roman. Traduit du portugais par Andrée Gama Fernandez. Québec : Editions Naaman, 1980. p. 09-14.





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