Daniele Ribeiro Fortuna
Universidade Unigranrio
Resumo: O artigo realiza uma análise comparativa da literatura e a trajetória das escritoras Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo. Ambas viveram em condição de subalternidade e conseguiram ter voz por meio de sua escrita. O texto busca, ainda, compreender de que forma a literatura das duas escritoras atua como mecanismo de resistência. Por fim, ele se debruça sobre a questão do corpo e da resistência – ambos temas fundamentais na literatura das duas escritoras.
Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistência; corpo; subalternidade
Abstract: This article presents a comparative analysis of both Carolina Maria de Jesus’ and Maria Conceição Evaristo’s literary works and biographies. They both lived in subaltern condition, but succeeded to be ‘heard’ through their writing. This article also tries to understand how their literature acts as a mechanism of resistance. Finally, it discusses the importance of body and resistance in both writers.
Keywords: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistance; body; subaltern.
Minicurrículo: Daniele Ribeiro Fortuna é jornalista (UFRJ), mestre em Literatura Brasileira (UERJ), doutora em Literatura Comparada (UERJ) e Pós-Doutora em Comunicação (UERJ). Atualmente tem uma bolsa de Jovem Cientista do Nosso Estado (2015-2017). É professora do programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes da Universidade Unigranrio. Pesquisa os seguintes temas: autobiografia, corpo, emoção e Estudos Culturais.
DUAS MARIAS: RESISTÊNCIA E CORPO
NA LITERATURA
Daniele Ribeiro Fortuna
Universidade Unigranrio
Introdução
Para falar sobre resistência, Marilena Chauí recorre a Raymond Williams: “A realidade do processo cultural deve ser sempre capaz de incluir os esforços e as contribuições daqueles que, de um modo ou de outro, estão fora ou na margem dos termos da hegemonia específica” (WILLIAMS, 1977 apud CHAUÍ, 1993, p. 23).
Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo estiveram nesse grupo, e representam o que Spivak denominou de “subalterno”, a partir de Gramsci. Elas pertenciam às “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 12).
“Pode o subalterno falar?”, pergunta Spivak. Carolina e Conceição provaram que sim. Para ambas, a escrita tornou-se, mais do que forma, caminho de resistência. Muito as duas Marias têm em comum: negras, nascidas em Minas Gerais, moraram em favelas, em condições precárias e fizeram da escrita, mais do que um alento, um modo de vida.
Carolina Maria de Jesus, a artista da fome
Carolina vencia o cansaço para escrever ou justamente porque estava cansada, escrevia. Ao longo de vários anos, a escritora manteve um diário, no qual registrava seu cotidiano, pensamentos, sentimentos, sonhos, revoltas, angústias e o dia-a-dia da favela. Esse diário foi publicado em 1960 sob o título de Quarto de despejo e se transformou em um dos maiores sucessos editoriais do Brasil, sendo, inclusive, traduzido em vários países. Anos depois, em 1996, outros trechos foram organizados pelos historiadores Robert Levine e José Carlos Sebe Bom Meihy e publicados no livro Meu estranho diário.
A escritora nasceu em 1914, em Sacramento, no interior de Minas Gerais. Estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida. Aos 16 anos, mudou-se com a mãe para a cidade de Franca, em São Paulo, dando início a um período de várias outras mudanças, que culminariam com sua ida para a capital do estado.
Para sobreviver, exerceu várias atividades: faxineira de hotel, auxiliar de enfermagem, vendedora de cerveja, artista de circo e, principalmente, empregada doméstica. Em 1948, Carolina foi morar na favela do Canindé. Naquele período, as favelas começavam a aparecer e se transformariam em uma dura realidade nas décadas que estavam por vir.
Os textos de Carolina, transcritos em seu diário, se constituem em um retrato de alguém que busca resistir a uma realidade dura, marcada pela miséria. A escritora mistura palavras rebuscadas a descrições ácidas de um cotidiano cruel. Embora, muitas vezes, seu diário se dedique a momentos de devaneio, sua escrita é direta, sem subterfúgios.
Até hoje, considera-se como inovadora a obra de Carolina, pois trata-se da fala de alguém que vivenciou a pobreza, a realidade de uma favela. É um testemunho de um personagem ‘de dentro’ de um cenário miserável, e não de um observador externo, como é comum acontecer. De acordo com Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Para Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.
É possível afirmar ainda que a escritora estava entre o que Chauí (1993, p. 140) denomina de os “mais pobres”, isto é, os favelados, com situação empregatícia precária, mal remunerados e quase sem escolaridade. Portanto, Carolina Maria de Jesus conhecia bem o lugar de onde falava, pois era personagem daquele cenário.
Cabe ainda ressaltar que Carolina não se detinha em escrever (e também descrever) apenas sobre a pobreza, mas – principalmente – sobre o pobre. Com isso, Carolina retratava seu cotidiano e o daqueles que a cercavam de forma individual e, portanto, original. Assim, sua escrita é única, já que é originária da força do sentimento próprio de quem é mais do que testemunha, personagem da fome – “nos textos de Carolina, tudo é visual e imediato (…) jamais perdem o conteúdo dramático da vida vulgar, cotidiana (…)” (MEIHY, 2006, p. 347).
O diário de Carolina (publicado nos livros Quarto de despejo e Meu estranho diário) relatam a vida da autora durante o tempo em que esteve na favela. Os trechos são separados por datas e se iniciam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água”. (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Deixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (JESUS, 1997, p. 61).
Um leitor desatento possivelmente terá a expectativa de uma descrição banal de alguém que leva uma vida simples, sem grandes ambições ou pretensões: alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas imediatamente o diário de Carolina ‘frustra’ esse leitor e revela um texto que, de acordo com Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (JESUS, 1997, p. 55).
Neste trecho, Carolina faz ainda uma descrição crua e cruel do lugar onde vive:
Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituiram os corvos (JESUS, 1997, p. 48). [Nas citações do texto de Carolina será mantida a acentuação original].
A escritora revela ainda o testemunho da fome:
27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (JESUS, 1997, p. 39).
Entretanto, Carolina Maria de Jesus buscava formas de resistir à fome e a todos os obstáculos que tornavam sua existência difícil. Para tanto, também tinha em seu corpo outro lugar de resistência. Nos diários da escritora, as referências ao corpo (seu e ao dos outros) são inúmeras: cansaço, fome, indisposição – suas –, sexo, bebedeiras – dos outros – etc. É possível perceber uma tensão constante entre miséria humana e resistência. Contando com o auxílio de sua escrita e de seu caráter raro e forte, seu corpo resistia aos seus problemas individuais e às questões que a incomodavam na favela.
Ao se debruçar sobre sua escrita, o leitor consegue perceber como se dava esse mecanismo de resistência. O corpo de Carolina cambaleava entre o cansaço, o estupor e a necessidade de sobreviver. No dia 19 de maio, Carolina relata em seu diário: “Deixei o leito as 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal” (JESUS, 1997, p. 30). Parece o prenúncio de um dia mais ameno, mas, logo em seguida, ela afirma: “As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (…) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dorme porque deitam-se sem comer”. (JESUS, 1997, p. 30).
Mais adiante, a escritora dá prosseguimento ao seu relato:
Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro:
— Olha o pão doce, que está na hora do café!
Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café. Os favelados comem quando arranjam o que comer. (…)
(…) Eu estou começando a perder o interesse pela existencia. Começo a revoltar e a minha revolta é justa (JESUS, 1997, p. 30).
Já no dia seguinte, 20 de maio, Carolina Maria continua: “O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito. A vera despertou e cantou. E convidou-me para cantar. Cantamos. O João e o José tomaram parte”. Mais uma vez, uma promessa de felicidade que não se concretiza:
Abri a janela e via as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo. Daqui a uns tempos estes palitou que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu, vão ser substituidos por outros. É os politicos que há de nos dar. Devo incluir-me, porque eu também sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo (JESUS, 1997, p. 33).
Com isso, o corpo de Carolina oscila entre a revolta e esperança, buscando, de alguma forma, continuar a luta, resistir. Quando tenta esboçar alguma vaga alegria ou, pelo menos, uma sensação de amenidade, rapidamente a escritora se recorda de onde fala ou algum fato do seu dia-a-dia – como a falta de comida ou de dinheiro para comprar bens de necessidade básica, por exemplo – não a deixa esquecer. E essa recordação também a faz se lembrar que o seu diário é o seu lugar de denúncia e de resistência. Mesmo que os ‘outros’ não a ouçam, porque não têm acesso a seus textos, ainda assim, ela pode escrever, tendo a esperança de um dia ser ‘lida’.
Conceição Evaristo, a artesã das palavras
Conceição Evaristo também nasceu em Minas Gerais, em 1946. Viveu numa favela e conseguiu concluir o curso normal somente aos 25 anos. Trabalhou como empregada doméstica em várias casas de famílias tradicionais em Belo Horizonte.
Alguns anos depois, foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou no magistério e, posteriormente, cursou a graduação em Letras. Tornou-se ainda mestre e doutora em Letras. Escreveu livros, como Ponciá Vicêncio e Becos da memória, além de diversos contos e poesias, que foram publicados em antologias.
Assim como Carolina Maria de Jesus, a escritora faz de sua escrita uma ferramenta de resistência. Sua própria trajetória acadêmica já dá indícios desse papel que a escrita sempre desempenhou na sua vida. A leitura do romance Becos da memória também traz pistas de como se dá tal mecanismo.
Escrito entre 1987 e 1988, foi publicado pela primeira vez em 2006 e relançado em 2013. No texto “Conversa com o leitor”, que abre o livro, Conceição Evaristo revela: “Arrisco-me a dizer (…) que a origem da narrativa de Becos da memória poderia estar localizada numa espécie de crônica, que escrevi ainda em 1968. Naquele texto podia ser apreendida a tentativa de descrição de uma favela” (EVARISTO, 2013, p. 11, 12). Segundo a autora, a crônica a que ela se refere fora escrita como um exercício de redação apresentado no colégio e que foi publicado em dois pequenos jornais posteriormente.
O livro nasceu ainda dos fatos que a tia, Maria Filomena, tinha o hábito de registrar: “datas e acontecimentos importantes, desde fatos relacionados à economia doméstica a acontecimentos sociais ou religiosos” (EVARISTO, 2007, apud Lima 2004, p. 1). Com o tempo, a tarefa passou a ser de Conceição e, mais tarde, esta experiência teria influência decisiva no seu fazer literário (LIMA, 2014).
As memórias da escritora a ajudaram a construir Becos da memória. O personagem Totó e sua última esposa, Maria-Velha, por exemplo, foram baseados nos tios de Conceição Evaristo. O romance conta a história de personagens que moram em uma favela, que está sendo destruída para dar lugar a um hospital ou a uma companhia de gás. Ao longo da narrativa, é possível perceber uma tensão constante entre desânimo e resistência, na qual o corpo tem papel fundamental.
Vida e morte, luta e submissão, vitória e derrota: a narrativa é permeada por estes três binômios antagônicos, que se refletem ainda no corpo dos personagens. Maria-Nova, por exemplo, é uma menina negra, de 13 anos, que gosta de ouvir histórias. O amigo Bondade e seu tio Antônio João da Silva, o Totó, são seus principais contadores.
As histórias contadas por eles vão se confundindo com os fatos que se passam na favela e que culminam com a sua destruição. Passado e presente se alternam, assim como a alegria, o espanto, a tristeza e a dor de Maria-Nova.
A menina é testemunha de várias tragédias, provocadas não apenas pelo fim eminente da favela, mas também pelas condições precárias em que vivem seus moradores. Ao mesmo tempo em que Tio Totó vai narrando sua vida, seu corpo vai se tornando decrépito. Antes risonho e alegre, apesar de todo o sofrimento que viveu (a morte de duas esposas e de filhos), ele vai definhando, se deixando ficar triste e choroso.
Maria-Nova chora com ele, sofre, sente vontade do nada. Em vários momentos, a desesperança toma conta dela:
Era doloroso ver Tio Totó esconder nas mãos o rosto, seus cabelos agora totalmente brancos, sentado, encolhidinho, chorando tanto. A menina se aproximava, na tentativa de consolá-lo, abraçando o velho. E, sem pudor, sem orgulho algum, sem vergonha de serem vistos, os dois libertavam o pranto (EVARISTO, 2013, p. 182).
Até na escola, para onde gostava de ir, agora havia perdido a graça, principalmente, quando uma de suas vizinhas, a Filó Gazogênia, morre triste, sem esperança. A vida parecia não ter sentido para ela também, como já não tinha para Tio Totó.
Tio Totó se sente cansado, sem vontade de viver. Anseia a morte como um alívio. Maria-Nova teme essa morte mas, quando ela acontece, a personagem supera a desesperança: “A dor de Tio Toto significava para ela um compromisso de busca de uma melhor forma de vida para si própria e para os outros” (EVARISTO, 2013, p. 246).
A morte, aliás, permeia toda a narrativa, em uma disputa com a vida. Os personagens e seus corpos estão sempre oscilando neste embate. Cidinha-Cidoca é outro exemplo. Antes uma negra sensual, conhecida pelo seu “rabo de ouro” – “Não havia quem provasse e não se tornasse freguês” (EVARISTO, 2013, p. 36) –, vai enlouquecendo, perdendo o cuidado de si e acaba morrendo dentro do buracão, onde iam parar os dejetos da destruição da favela. Seu corpo bonito tornara-se feio, seco.
Se a desesperança toma conta de Cidinha-Cidoca e a morte vence a luta, para Dora, o movimento é inverso. Apesar de linda – “mulata alta”, “corpo melodioso” (EVARISTO, 2013, p. 127) – e aparentemente feliz, a personagem guarda uma história de perdas e descrença.
Quando engravidou, não quis o filho. Deixou-o com o pai. Não queria se envolver com ninguém nem qualquer tipo de compromisso. Ansiava sempre o prazer, como se o isso a recompensasse por ter sido abandonada pelo pai. Mas a vida de Dora se transforma ao conhecer Negro Alírio, de quem acaba engravidando no final da narrativa e com quem decide continuar e criar a criança.
Negro Alírio – assim como o personagem Bondade – é um dos que buscam a esperança, acreditando que as coisas podem ser melhores. Também negro e pobre, ele faz do trabalho e do incentivo à educação as suas metas. Alírio é quem se encarrega de reunir os moradores para tentar resolver o problema do desfavelamento, buscando sempre conscientizá-los. No final da história, cabe a ele a Bondade o papel de ajudar os vizinhos a encontrar uma solução para o problema do desfavelamento.
Há ainda duas personagens cuja trajetória revela, mais uma vez, a tensão entre derrota e resistência. São Ditinha e a Outra. Ditinha é uma empregada doméstica que é presa por roubar uma joia da patroa, D. Laura. Ela não apenas se lamenta pela miséria em que vive, como parece invejar a beleza de D. Laura, que a faz se sentir feia e envergonhada. De tanto trabalhar, Ditinha estava sempre cansada e tinha o corpo moído.
Ditinha sustentava seus três filhos, seu pai paralítico e a irmã, que não lhe ajudava em nada. Para não ter mais filhos, pede a Maria Cosme, uma vizinha, que lhe ajude de alguma forma. A mulher enfia uma sonda em seu corpo, que a faz sangrar até parar no hospital e ter que retirar o útero.
Quando Ditinha é presa, Beto, seu filho mais velho, toma conta de tudo. Ao ser solta, ela volta para a favela. Mais magra e abatida, começa a beber e não tem vontade de sair de casa. Sente muita vergonha de seus atos. Mas, ao final, resiste e se muda da favela, sendo apoiada pelos vizinhos e com uma ponta de esperança.
A Outra vive com Vó Rita, uma parteira que havia trazido ao mundo várias crianças que moravam na favela. Vó Rita vai, aos poucos, deixando de ser parteira para cuidar somente da Outra. No começo do romance, não se sabe muito sobre essa personagem, apenas que todos a evitam e que ela se esconde. Nem seu filho a quer por perto.
Ela pensa em se matar, mas não o faz, porque sabe que Vó Rita ficaria muito decepcionada. Ao final, seu segredo é revelado: a Outra sofre de hanseníase. Para ela, parece não haver maneira de resistir. Mas, ainda que seu corpo esteja totalmente tomado pela doença, sua esperança é reacendida quando ela e Vó Rita são encaminhadas pelo governo para uma colônia de tratamento – a Outra para se tratar e Vó Rita para trabalhar.
O romance termina com Maria-Nova largando a escola, pois, com o fim da favela, teria que se mudar para longe. O tom, entretanto, não é de derrota:
Havia o medo, o incerto, o imprevisível do amanhã. Mas havia a tenacidade, a força o desejo de vida.
Maria-Nova tinha feito no dia anterior as provas finais, despedido dos professores, dos colegas e amigos. Não voltaria no próximo ano, mas voltaria a estudar um dia (EVARISTO, 2013, p. 255).
Dessa forma, apesar de toda esta tensão entre vida e morte que permeia Becos da memória, a resistência parece ser o fio condutor. Maria-Nova sabe que está deixando para trás um período importante de sua vida, sabe também que a escola é fundamental na sua vida. Mas, mais do que ter esperança, a menina acredita que um dia vai retornar aos bancos escolares.
Considerações finais
Como Carolina Maria de Jesus, Maria Conceição Evaristo parece acreditar que a literatura se constitui em um lugar de resistência. Ambas apostaram nessa crença e conseguiram não apenas resistir, mas existir fora da margem.
Durante algum tempo, Carolina desempenhou o papel de escritora de sucesso: viajou pelo mundo, conheceu pessoas, passou a se vestir bem. Infelizmente, esse período durou pouco e ela voltou a ter uma vida humilde e precária. Depois de Quarto de despejo, seus livros não tiveram o mesmo desempenho comercial ou espaço nos jornais e revistas.
Assim como a personagem Maria-Nova, Conceição Evaristo também foi obrigada a parar de estudar durante um período. Se para Maria-Nova retornar à escola era apenas uma possibilidade, para Conceição, esta esperança transformou-se em realidade e ela não apenas se tornou escritora, como iniciou uma vida acadêmica consistente.
“Pode o subalterno falar?”, recorremos mais uma vez ao livro de Spivak. Sim, é possível. Maria Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus mostraram que sim e que a fala pode ser não apenas uma voz, mais um lugar de resistência. Duas Marias e uma só palavra: resistência.
Referências Bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência – aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Florianópolis: Editora Mulheres, 2013.
JESUS, Carolina Maria de. Meu estranho diário. São Paulo: Xamã Editora, 1996.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1997.
LAJOLO, Marisa. Poesia no quarto de despejo, ou um ramo de rosas para Carolina. In: JESUS, Carolina Maria de. Antologia pessoal. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
LIMA, Omar da Silva. Conceição Evaristo: escritora negra comprometida etnograficamente. Disponível em:
http://150.164.100.248/literafro/data1/autores/43/critica6.pdf Acesso em: 2 mar 2016.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A fala da pobreza: Carolina Maria de Jesus. In: LIENHARD, Martín. Discursos sobre (l)a pobreza. América Latina y/e países luso-africanos. Madrid / Frankfurt: Iberoamericana / Vervuert, 2006.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Bio fornecida pelo palestrante.
Daniele Ribeiro Fortuna1
Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima2
José Geraldo Rocha3
Marcio Luiz Correa Vilaça4
Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO)
“Não somente esta forma de exclusão é relativa, mas ela se revela, sobretudo, nela mesma, das relações de interdependência entre as partes constitutivas de uma larga estrutura social (…). A exclusão singular a qual os pobres são sujeitados pela comunidade que os assiste é característica da função que eles preenchem na sociedade como membros dela numa situação particular.” (Simmel, 1998, p. 16).
Resumo: Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma importante escritora da Literatura Brasileira. O artigo busca contextualizar a época em que Carolina Maria de Jesus de Jesus viveu, bem como o lugar de onde falava, para, em seguida, analisar como, contrariando todas as expectativas e lutando contra diversas formas de preconceito, Carolina tornou-se uma importante escritora.
Palavras chaves: Carolina Maria de Jesus – literatura afrobrasileira – lugar da fala.
Abstract: Carolina Maria de Jesus is recognized as an important writer of Brazilian literature. The article seeks to contextualize the time in which Carolina Maria de Jesus lived. We will examine the standpoint of her speech and how she could become an important writer, in spite of all the odds and prejudice she suffered.
Key-words: Carolina Maria de Jesus – Afrobrazilian literature – standpoint of speech.
Carolina Maria de Jesus: exclusão social, linguagem e preconceito
Daniele Ribeiro Fortuna 1
Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima2
José Geraldo Rocha3
Marcio Luiz Correa Vilaça4
Introdução
Atualmente, Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma importante escritora da Literatura Brasileira. Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo, a crítica questionava se seus textos eram de fato literatura. O tempo, a força, a inovação e atualidade de sua escrita contribuíram para colocá-la num lugar de destaque no cenário cultural brasileiro – talvez ainda não o que lhe é devido, mas um lugar um pouco menos invisível.
Invisibilidade, aliás, é a palavra que perpassa toda a discussão deste artigo: invisibilidade de uma mulher miserável, catadora de lixo e moradora da favela; uma mulher que mal sabia escrever, mas que, ainda assim, possuía uma visão de mundo perspicaz e irônica; uma mulher que, por ser negra, era vítima de um preconceito ainda mais ferrenho por parte da sociedade conservadora dos anos 1950 e 1960.
Para abordar estes temas, porém, o artigo busca contextualizar a época em que Carolina Maria de Jesus viveu, bem como o lugar de onde falava, para, em seguida, analisar como, contrariando todas as expectativas, Carolina, apesar de pouca escolaridade e por não se encaixar no perfil de autora que escreve na norma culta, conseguiu se tornar uma importante escritora, conquistando espaço e superando diversas formas de preconceito.
Em seguida, o texto trata da questão da mulher negra no cenário cultural brasileiro e, por fim, revela como todos os temas acima apresentados estão presentes no livro Quarto de despejo.
Um pouco sobre Carolina Maria de Jesus
A escritora negra Carolina Maria de Jesus viveu entre 1914 e 1977. Nascida na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, teve uma infância miserável e estudou apenas o suficiente para aprender a ler e escrever. Com cerca de 30 anos, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde exerceu diversas atividades para sobreviver: artista de circo, faxineira de hotel, vendedora de cerveja etc.
Durante muito tempo, foi empregada doméstica, trabalho que teve que abandonar em função de ter tido três filhos – um de cada pai. Por isso, resolveu ser catadora de lixo.
Na década de 1950, foi morar na favela do Canindé, em São Paulo. Lá começou a fazer um diário, no qual relatava sua vida naquele lugar, a dificuldade de criar três filhos, sua revolta com os políticos, seus sonhos, impressões, vivências, enfim.
A catadora de lixo foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas que, ao fazer uma reportagem no Canindé, acabou conhecendo sua história e se interessando por editar seu diário. Embora até hoje haja controvérsias sobre o papel que o jornalista teria exercido na vida da escritora e até que ponto ele teria interferido em seu texto, foi graças a ele que Carolina Maria de Jesus conseguiu publicar em 1960 seu maior sucesso, o livro Quarto de despejo, no qual foram reunidos diversos trechos de seu diário.
Carolina escreveu diversas obras: peças de teatro, romance, antologia poética, mas ficou realmente conhecida por seu diário. Imediatamente, o livro tornou-se um sucesso editorial, fazendo com que ela conseguisse realizar seu grande sonho: comprar uma casa de alvenaria. Entretanto, embora tenha tido grande repercussão, a escritora não conseguiu repetir o feito com suas outras obras e foi relegada ao ostracismo.
No ano em que Carolina Maria de Jesus completaria cem anos de vida, várias homenagens foram realizadas, fazendo com que seu nome viesse à baila novamente. Até hoje, sua obra é considerada importante e inovadora, pois, como afirma Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Segundo Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.
Mas exatamente de onde falava Carolina Maria de Jesus?
O lugar de Carolina
O ponto de partida para se pensar o lugar de Carolina, isto é, de onde ela escreve – a favela – está em estabelecer parâmetros entre a ideia de pobreza que sempre se constituiu no Brasil, pelo menos desde o século XIX, bem como na Europa, a partir da constatação de que esta significava um problema social. Algo que colocaria em xeque as apreensões de toda a sociedade e, não mais somente das pessoas consideradas pobres. Isto no Brasil desencadeou noções de interdependência em diversas áreas, o que fez com que as ações em prol da pobreza se dividissem entre o chamado sertão e a cidade, entre médicos e eugenistas, entre tradição e modernidade.
Enfim, se pensava todo tipo de tensões e contradições que pobreza versus riqueza poderiam oferecer. Mas podemos ressaltar que a pobreza não era um problema específico da economia de mercado. Ela é um problema estrutural e tem seu sentido transformado, dependendo da sociedade na qual ela incida. E no Brasil, desde os primeiros anos do século XX, ela está muito relacionada a este locus denominado favela.
Anthony e Elizabeth Leeds, em seu livro A sociologia do Brasil urbano (1978), mostram que, muito embora os temas da pobreza e da habitação popular fossem preocupações desde o século XIX, as favelas só aparecem, tanto fisicamente quanto como constituição de um problema, mais tarde, nos primeiros anos do século XX, já nas abordagens de Everardo Beckheuser (1906).
No Brasil, perigo e marginalidade sempre foram corroborados pelas doenças e insalubridade, no que diz respeito às favelas. No entanto, as ações em prol da pobreza tinham que se dividir entre o sertão e a cidade. Durante o século XX, o interior do Brasil muito foi investigado através de expedições científicas que acabaram por mostrar quão difícil era a vida dos habitantes do interior, mas, em contrapartida, mostrava-se um ambiente mais saudável que a cidade. Além disso, foi no interior que os investimentos tecnológicos apareceram como melhoria para o local e um sentido de ordenamento e progresso.
Outra questão importante nestes espaços é a tentativa de transformação das identidades da população considerada pobre e sua relação com uma memória e um projeto que dão sentido ao fato do deslocamento físico e às ideias de transferência e fragmentação da sociedade. Sair da favela caracteriza uma ascensão não só financeira, mas social e cultural. Como Carolina como moradora da favela acaba sendo estigmatizada e que tipos de representações sociais se fazem dela?
Conclui-se, assim, que a pobreza é um fenômeno sociológico singular, porque não é só definida como um número de indivíduos que ocupam uma posição orgânica na sociedade, mas que possuem um papel ratificado por um grupo. Na verdade, a categoria pobre, seja ela favelada ou não, revela uma amplitude da sua verdadeira significação, pois ao categorizá-las, abre-se um caminho maior para justificar as ações do governo e até mesmo da sociedade como um todo.
Mas como definir ou conceituar a pobreza? Torna-se necessário construir noções e conceitos no plural, para identificarmos que tal categoria se transforma de acordo com o tempo e o espaço, ou seja, deve ser contextualizada. De categoria moral, como vítima e marginalizado, a elemento perigoso, o pobre sofreu classificações sociais diversas. Historicamente, o homem pobre medieval era somente o contrário do rico. A passagem para o chamado homem moderno, como explica Sprandel (2004), fazia com que a pobreza fosse encarada como diferenciação econômica, o que já mostra seu poder de ameaça quando passa a ser associado à marginalidade. Vale lembrar que também é neste momento que a pobreza se desenvolve em função do crescimento do mercado. Com o passar do tempo, a pobreza foi, então, conhecendo considerações e percepções distintas. Era, portanto, associada ao trabalho, à mestiçagem, à violência, à insalubridade e à vadiagem. E é neste contexto que nasce e vive Carolina.
Neste cenário, é comum perceber que as pessoas têm dificuldade de se expressar – não apenas de forma oral, mas principalmente no que diz respeito à escrita. Por isso, cabe agora refletir sobre a escrita propriamente dita na obra de Carolina Maria de Jesus.
Educação, língua e preconceito linguístico
Veremos aqui brevemente que Carolina de Jesus contraria qualquer imagem recorrente de escritor.
A prática da escrita é, em geral, a habilidade linguística menos empregada nas práticas quotidianas. Isto significa que, embora vivamos uma cultura que valoriza a escrita e a considera muitas vezes como modelo de padrões linguísticos, a produção de textos é pequena se comparada, por exemplo, à leitura. Na escola, no ensino de língua portuguesa, observa-se com frequência que o ensino de gramática e leitura ocupa espaço central nas práticas pedagógicas. Em parte, como consequência disso, há uma afirmação bastante frequente de quem lê muito escreve bem, embora, na prática, isso não seja tão verdadeiro quanto parece. A leitura pode contribuir para o desenvolvimento da produção textual, mas nos dois casos fazemos usos de estratégias discursivas diversificadas. No caso de uma obra literária, seja poesia ou prosa, a questão fica ainda mais complicada. Podemos observar que é relativamente pequeno o número de professores de língua ou literatura que escrevem literatura ou que pelo assuma esta tarefa. Assim, podemos perceber que a capacidade de analisar literatura e o domínio da língua não garante a produção literária.
Ainda na questão da produção textual, carece ainda perguntar: o que é escrever bem? Com certa frequência, podemos encontrar livros que buscam objetivamente apresentar as regras do bem escrever. Em muitos casos, escrever bem é visto como manter-se dentro de normas linguísticas prestigiadas. Assim, toma-se por sinônimo, em algumas publicações, que escrever bem é escrever corretamente, ou seja, seguindo padrões da comumente chamada de norma culta. A literatura e o jornalismo, historicamente, são dois espaços empregados às vezes para a identificação de modelos de escrita e de normas. É comum, por exemplo, que fragmentos literários sejam empregados como modelo de construções sintáticas.
Essa breve discussão aqui exposta não pretende incluir a produção de textos, seja em prosa ou poesia, da autora. Pretendemos aqui, na verdade, gerar uma reflexão sobre a criação literária de Carolina Maria de Jesus, que, pela biografia anteriormente apontada, está longe de ter vivido em condições favoráveis a práticas de leitura e produção de texto. No entanto, parece estar claro que os eventos de letramento pelos quais a escritora passou, mesmo com tantas adversidades, contribuíram para despertar o interesse pela criação literária.
Conforme apontado pelos historiadores Bom Meihy e Levine (1994, p. 17), Carolina de Jesus “aprendeu a ler e a escrever rudimentarmente e desde os primeiros anos da escola primária nunca mais deixou os cadernos”. Fortuna (2014, p. 99) sintetiza a formação de Carolina ao afirmar que ela “estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida”.
Logo, Carolina rompe diretamente com a tradição de escritores com elevados níveis de instrução formal e letramento. Ressalta-se, portanto, que este elemento deve ser visto como uma quebra de paradigma. Não se trata, no entanto, de simplesmente relacionar educação formal com capacidade de escrever.
Precisamos ter em mente que a autora teve, principalmente até a publicação de sua obra, poucas oportunidades de leitura e, portanto, este deve ter sido um obstáculo a mais. Além disso, por sua história, é inegável reconhecer que a escritora precisou lutar contra uma série de preconceitos, inclusive o linguístico. O sociolinguista Marcos Bagno aponta que as variedades linguísticas estigmatizadas são “empregadas predominantemente pelos falantes das camadas sociais de menor poder aquisitivo e de menor escolarização” (2013, p. 65). Trata-se de uma variante linguística estigmatizada socialmente e que não goza de prestígio. Sobre o preconceito linguístico, o experiente pesquisador faz uma observação bastante impactante ao relacioná-lo a outras formas de preconceito:
O preconceito linguístico é tanto mais poderoso porque, em grande medida, ele é “invisível”, no sentido de que quase ninguém se apercebe dele, quase ninguém fala dele, com exceção dos raros cientistas sociais, que se dedicam a estuda-lo. Pouquíssimas pessoas reconhecem a existência do preconceito linguístico, que dirá sua gravidade como um sério problema social. E quando não se reconhece sequer a existência de um problema, nada se faz para resolvê-lo (BAGNO, 2009, p. 23-24).
Logicamente não se pretende aqui discutir a criação literária ou ainda o preconceito linguístico a partir de Carolina de Jesus. Em termos objetivos, o que se pretende apontar aqui é que Carolina de Jesus contrariou uma série de adversidades e, dentre as diferentes formas de preconceito pelas quais passou, certamente o linguístico foi um deles. Por esse motivo, mas que uma criação literária, a obra de Carolina deve ser, sobretudo, reconhecida como um ato de resistência.
Resistência também no que diz respeito ao seu papel de mulher – e negra – na sociedade das décadas de 1950 e 1960, como veremos no item que se segue.
A mulher negra no cenário cultural brasileiro
A vida da mulher na sociedade é historicamente marcada por diversos tipos de violências. Inúmeros estudos atestam o quanto à questão da violência afeta suas vidas, desencadeando outros problemas que vão influenciar definitivamente na sua qualidade de vida.
A violência generalizada contra a mulher tem se caracterizado como um grave problema de saúde publica mundial… especificamente sobre a mulher há inúmeros estudos sobre as violências que a vitimam e que fundamentam tais afirmações, os quais apresentam vários pontos em comum, como por exemplo, o fato de que os resultados da violência na avida da mulher são devastadores para a saúde mental e física, aumentando o risco a longo prazo, da manifestação de outros problemas de saúde como dores crônicas, incapacidade física, abuso de drogas e álcool e depressão.(GIORDANI,2006, XVII)
Pode-se falar de violência física, a mais facilmente entendida e compreendida no senso comum. Há, entretanto, outros tipos de violências que nem sempre são pautadas na cotidianidade das discussões. Aqui pode-se exemplificar a violência verbal, quando as palavras e xingamentos são utilizados como forma de ofensas e acarretam diminuição do autoestima da mulher. O machismo e o moralismo incrustrados no imaginário, na mente e nas estruturas sociais. Uma outra forma de violência é a negação das contribuições femininas nos diferenciados campos do saber e do conhecimento. Trata-se de uma espécie de “sequestro da imagem, da voz e da atuação” de mulheres, e de modo especial de mulheres negras.
As discussões e os debates em torno das questões de gênero nas últimas décadas têm evidenciado que a mulher negra ainda está muito aquém do lugar de destaque na vida nacional em todas as suas dimensões. É possível afirmar a existência de uma realidade de invisibilização da mulher negra como protagonista. Não raras são as vezes em que elas aparecem subalternizadas, sem família, sem história e sem perspectivas de vida, a não ser a dependência de uma família “branca boazinha”.
A irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silencio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória, e ainda mais da história, este relato que por muito tempo esquece as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (PERROT, 2005, p. 9).
O fenômeno da invisibilidade dos escritores e escritoras negras na literatura brasileira produz um tipo de cegueira paradigmática, conforme atesta Morin (2011), segundo o qual os critérios para o reconhecimento literário são normatizados numa perspectiva de exclusão e marginalização da produção desses escritores e escritoras.
Tornar alguém ou um grupo invisível em uma sociedade é uma humilhação social e uma atitude política. No contexto das relações raciais no Brasil, isso implica sua negação indenitária.
A invisibilidade compõe não tanto aos sofrimentos gerais, sofrimentos de totós nós, quanto aqueles que estão no centro da alma… não deveríamos simplesmente vincula-los aos males gerais de uma sociedade de massas, em todo o rosto é amortecido e vira mascara indiferente. Não haveria ai também, no núcleo de tudo, um conflito propriamente político, um conflito de classe? (COSTA, 2004, p.45).
No campo da literatura, tal invisibilidade da mulher negra expressa “um desejo” da cultura dominante no que tange ao embranquecimento da produção literária.
Escarafunchar! Talvez esse seja um dos termos mais apropriados para significar o ato de perscrutar na literatura nacional as produções e seus autores, que por tanto tempo foram invisibilizados em função processo de embranquecimento. É possível afirmar que a cor da escritora negra representou elemento fundante da sua exclusão .
A cultura de dominação caracterizada pelos valores eurocêntricos, em detrimento dos valores originados dos povos indígenas e negros na sociedade brasileira, jogou historicamente papel decisivo no processo de invisibilização das mulheres negras na cotidianidade da vida. O lugar e o papel relegados nessa cultura à mulher negra a tornaram um segmento à margem da história. Em virtude da padronização cultural de beleza associada à cor branca, as mulheres negras passaram a ser compreendidas como a encarnação da “não beleza” ou da feiura. Nos diferentes níveis de participação social, ela foi colocada, quando muito a um segundo plano. A situação de exclusão, discriminação e marginalização afeta todas as esferas da vida humana. No campo da produção de conhecimento, além de um número reduzido de mulheres negras se fazerem presentes, essas poucas ainda têm sua produção pouco visível em função de um modo de pensar branco e machista.
Nas últimas décadas, com as lutas dos movimentos sociais negros associados a alguns pesquisadores e estudiosos nas academias brasileiras, alguns nomes de mulheres negras têm sido retirado das “profundezas” do abismo do não reconhecimento. Esses vão, assim, como que renascendo das cinzas. Escritoras negras, que principalmente, no campo da literatura foram por muito tempo ocultadas pelos processos de dominação cultural associados às práticas racistas que negam aos negros ressurgem. E no caso particular as mulheres negras passam a ter o reconhecimento e a visibilidade na história nacional.
É corrente na literatura brasileira uma representação da mulher negra construída pelos escritores brancos, cujas concepções se fundamentam e reportam ao período colonial no qual a mulher branca era para casar, negra para trabalhar e mulata para sexo. A literatura brasileira se apropriou dessa concepção e estereotipou a mulher negra, atribuindo a ela o papel de empregada doméstica no cenário literário brasileiro, ao passo que a mulata passou a significar o objeto de desejo, de consumo sexualmente falando.
No Brasil, é possível falar de um certo apagamento da escrita da mulher negra na literatura nacional. Embora saibamos da existência de mulheres como Teresa Margarida da Silva, Maria Firmina dos Reis, Anita de Souza, Antonieta de Barros, seus escritos ainda soam como estranhos no universo literário das academias. Nessa perspectiva, é que se pode lançar um olhar particularizado sobre a obra e sobre a autora Carolina Maria de Jesus. Colocar essa escritora no lugar de seu merecimento na literatura brasileira é, sem sobra de dúvida, reconhecer uma dívida para com todas as mulheres negras invisibilizadas na história.
Quarto de Despejo: o relato de ‘dentro’ da pobreza
Carolina Maria de Jesus revelava em seu diário a necessidade de escrever e de como dedicar-se à escrita a ajudava a compreender o mundo, a política, a fome e, principalmente, a resistir à miséria e às inúmeras dificuldades que enfrentava – “(…) creio, que não poderei viver sem escrever porque os dramas continuam [a] acontecer enquanto vivemos (sic)” (JESUS, 1996, p. 54). Ou ainda: “Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo” (sic) (JESUS, 1997, p. 19).
A escrita era, para Carolina, uma forma de sentir-se menos invisível. Na verdade, foi graças à publicação de seu diário, saiu da invisibilidade na qual estava imersa como mulher negra e miserável. Seu texto é o relato de ‘dentro’ não apenas da sua invisibilidade, mas do apagamento vivenciado por todos que a cercavam na favela.
Mulher, negra, mãe solteira de três filhos, miserável… Os trechos de Quarto de despejo, a todo momento, trazem à tona essa realidade. E embora Carolina Maria de Jesus não domine as normas cultas da língua padrão, sua escrita demonstra uma visão de mundo aguda, perspicaz e crítica.
Em seu diário, os dias começam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água” (sic) (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Dêixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (sic) (JESUS, 1997, p. 61).
O leitor que ainda desconhece a escrita de Carolina talvez espere um relato despretensioso de um cotidiano banal, o testemunho de alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas logo Carolina Maria de Jesus ‘decepciona’ esse leitor e revela um texto que, como afirma Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”, como se vê neste trecho: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (sic) (JESUS, 1997, p. 55).
O trecho a seguir mostra ainda uma descrição do lugar de onde fala Carolina: “Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos” (sic) (JESUS, 1997, p. 48). Traz, principalmente, o testemunho da fome:
27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (sic) (JESUS, 1997, p. 39).
Para lidar com essa dura realidade, a escrita era sua válvula de escape: “Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo” (JESUS, 1997, p. 19). Esse tipo de situação é recorrente em seu diário: apesar do cansaço, da fome, da miséria e das injustiças, Carolina encontrava sempre tempo para dedicar-se à escrita.
Seus relatos mostram ainda que ser negra tornava tudo ainda mais difícil. No dia 22 de maio, Carolina Maria de Jesus relembra que, em junho de 1957, ficou doente e, por isso, percorreu “as sedes do Serviço Social” (JESUS, 1997, p. 37) para pedir auxílio financeiro. De lá foi encaminhada para vários lugares até chegar à Santa Casa, onde – não fica claro exatamente por que – um funcionário manda prendê-la: “Prende ela! Não me deixaram sair. E um soldado pois a baioneta no meu peito” (sic) (JESUS, 1997, p. 38).
Mais adiante Carolina revela que escrevia peças que apresentava a diretores de circo, os quais lhe diziam: “É pena você ser preta” (JESUS, 1997, p. 58). Pouco adiante, nesse mesmo trecho, a escritora se recorda ainda de um diálogo com um homem branco, que lhe disse: “Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem” (sic) (JESUS, 1997, p. 58).
Parte dos críticos brasileiros considerava que a escritora mostrava-se um tanto alienada no que dizia respeito à sua cor. Nesse sentido, Joel Rufino dos Santos (2009, p. 20) ratificava o pensamento desse setor da crítica: “ela se colocava quase sempre do lado contrário ao da sua condição de mulher negra favelada e, ao mesmo tempo, foi autônoma com relação ao mundo em que viveu”. Santos afirma ainda que: “Entre o eu e o nós, preferiu a literatura” (SANTOS, 2009, p. 22). Porém, considera que “qualquer juízo sobre Carolina e sua obra não deve esquecer que elas são três: a mulher, a escritora e a personagem criada pela escritora” (SANTOS, 2009, p. 21).
Por meio da leitura de alguns trechos de Quarto de despejo, entretanto, é possível perceber que, em alguns momentos, a escritora tinha consciência e orgulho de sua negritude: “adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico. (…) Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta” (sic) (JESUS, 1997, p. 58). Além disso, não se conformava com a pretensa superioridade que os brancos afirmavam possuir: “O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe [também]. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém” (sic) (JESUS, 1997, p. 58).
Alienada ou não, fica evidente que Carolina Maria de Jesus via o mundo e tecia suas próprias conclusões. Não se valia da opinião de ninguém, não criava subterfúgios. A realidade era dura e ela não fugia disso. Sua escrita continua inovadora e atual justamente por causa disso: é o relato fiel, sincero e cruel de uma realidade excludente e desigual.
Referências Bibliográficas
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SPRANDEL, Márcia Anita. A pobreza no Paraíso Tropical: interpretações e discursos sobre o Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004.
Sobre os Autores
1Daniele Ribeiro Fortuna é professora do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Tem pós-doutorado em Comunicação (UERJ), doutorado em Literatura Comparada (UERJ) e mestrado em Literatura Brasileira (UERJ).
2Jacqueline Cassia de Pinheiro Lima é Coordenadora e professora do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Pós-doutorado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
3José Geraldo Rocha é professor do Programa de pós-graduação em Letras e Ciências humanas da Unigranrio. Tem doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
4Marcio Luiz Correa Vilaça é Coordenador Adjunto e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas da Unigranrio. Tem doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Bolsista 1-A em Produtividade em pesquisa Unigranrio/Funadesp.
Bio fornecida pelo palestrante.