Autor: Autran Dourado
Título: AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS, IMAGINACIONES PECAMINOSAS
Idiomas: port, esp
Tradutor: Cecilia Garat
Data: 26/12/2004
AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS
UM AJUSTE DE CONTAS
Autran Dourado
De repente, no Campinho, sem que ao menos suspeitasse que estava sendo seguido, Valeriano se viu cara a cara com Orozimbo Preto. Não pôde fazer nada senão erguer os braços para se mostrar desarmado e entregue. Porque Orozimbo Preto já estava de arma em punho, engatilhada. A arma era um Agaó com mola Smith, muito parecido com um que ele teve de deixar às pressas na casa de Natália quando saltou a janela e o muro, seguido de gritos e tiros. A voz era do coronel Justino Pessegueiro de Sousa, mas ele não vinha sozinho. Valeriano não tinha chegado a se desvestir, apenas tirara o cinturão com o coldre e o revólver Agaó. Ainda tentou apanhar a arma, mas Natália, fingindo que sem querer, lhe barrou o caminho. Melhor perder um Agaó do que perder a vida, pensou ligeiro. Viu logo que tinha caído numa esparrela, tudo por obra e graça de Natália, a quem vinha seguindo desde que o coronel Justino a tirara do bordel da Ponte e montara casa para ela. O coronel gostava de carne nova e era muito cioso das suas mocinhas. Por causa dela dois já tinham perdido a vida: o irmão que matara Quincas em defesa da honra e fora morto por Orozimbo Preto, que do alto da torre da Igreja do Carmo espiava os dois se defrontarem.
Durante alguns dias andou escondido, com medo de uma vingança do coronel. Como nada acontecesse, tomou coragem, achou que a corrida tinha sido suficiente, o coronel Justino se dera por satisfeito. Por isso andava agora despreocupado e chegou mesmo a passar pela porta de Natália, mas ela não estava na janela ou se escondera para que ele não a visse, foi o que achou mais provável.
E agora, de repente, Orozimbo Preto, que andava foragido desde a morte daqueles dois no Largo do Carmo, aparecia na sua frente, o revólver pronto para cuspir fogo. A idéia de que ia morrer sem poder ao menos fazer um gesto de defesa lhe parecia injusta. Quem sabe Orozimbo Preto não vinha apenas lhe dar um aviso, ter um particular com ele? Se quisessem, não passaria mais pela porta de Natália, deixaria mesmo a cidade para sempre. Porque tudo aquilo lhe parecia obra do coronel Justino, era a sua maneira de justificar. Além de Natália, nada lhe pesava na consciência. Quem sabe se conversando os dois não se entendiam?
A cara de Orozimbo Preto não parecia de muita conversa, tinha mesmo meio riso amargo na boca (ou era mais um sestro dele?) que deixava ver as pontas dos dentes escuros, a boca quase sem lábios. O olho esquerdo piscava seguidamente, ao contrário do direito, brilhoso e parado como se fosse de vidro. A má catadura e ali parado, empunhando o Agaó, Orozimbo Preto parecia esperar alguma coisa. Se fosse para atirar logo, já teria atirado, profissional que era.
Por quê? foi tudo o que Valeriano conseguiu, num grande esforço, dizer. Você sabe por quê, foi o que me mandaram lhe dizer, disse Orozimbo.
Mas Orozimbo Preto ainda não se decidia a fazer o serviço.
E se eu me mandasse da cidade, nunca mais desse as caras, perguntou tentando uma última saída. Não recebi ordens pra decidir, não era comigo que você tinha de falar, disse Orozimbo Preto. A quem então? disse Valeriano cansado de saber com quem tinha de falar, se lhe fosse dada uma oportunidade. Não sei, isso não é comigo, disse Orozimbo. Só mandaram que eu perguntasse se você conhecia este Agaó. Está me parecendo o meu, disse Valeriano. Que você esqueceu numa certa casa onde nunca devia ter ido, disse Orozimbo Preto.
Adianta eu fazer alguma coisa, perguntou Valeriano depois de sufocante silêncio. Acho que não, disse Orozimbo Preto. A propósito, este Agaó nega fogo? Comigo nunca negou, disse Valeriano decidido, sua vida não valia mesmo mais nada. Vamos ver, disse Orozimbo Preto e calcou o gatilho. Um estrondo, um baque. Orozimbo Preto ainda atirou mais duas vezes sobre o corpo caído no chão.
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Fonte: DOURADO, Autran. As imaginações pecaminosas. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 11-3.
UN AJUSTE DE CUENTAS
Autran DouradoDe repente, en Campinho, sin que siquiera sospechase que lo estaban siguiendo, Valeriano se encontró cara a cara con Orozimbo Preto. No pudo hacer nada sino levantar los brazos para mostrarse desarmado y entregarse. Porque Orozimbo Preto ya estaba con el arma en la mano, lista. El arma era un H.O. con resorte Smith, muy parecido a uno que tuvo que dejar a los apurones en la casa de Natalia cuando saltó la ventana y el muro, seguido de gritos y tiros. La voz era la del coronel Justino Pessegueiro de Sousa, pero no estaba solo. Valeriano no había llegado a desvestirse, sólo se había sacado el cinturón con la cartuchera y el revólver H.O. Intentó tomar el arma, pero Natalia, fingiendo que lo hacía sin querer, le cerró el camino. Mejor perder un H.O. que perder la vida, pensó rápido. Enseguida se dio cuenta que había caído en una trampa, todo por obra y gracia de Natalia, a quien venía siguiendo desde que el coronel Justino la sacó del burdel del Puente y le montó casa. Al coronel le gustaba la carne nueva y era muy celoso de sus mujeres. Por culpa de ella dos ya habían perdido la vida: el hermano, que había matado a Quincas en defensa del honor y que fuera muerto por Orozimbo Preto, quien desde lo alto de la torre de la Iglesia do Carmo espiaba a los dos mientras se enfrentaban.
Durante algunos días anduvo escondido, con miedo de una venganza por parte del coronel. Como nada sucediera, se armó de coraje, pensó que la carrera había sido suficiente y que el coronel Justino se había dado por satisfecho. Por eso ahora andaba despreocupado y hasta pasó por la puerta de Natalia, pero ella no estaba en la ventana o se había escondido para que no la viese, que fue lo que le pareció más probable.
Y ahora, de repente, Orozimbo Preto, que andaba forajido desde la muerte de aquellos dos en el Largo do Carmo, se le aparecía de frente, con el revólver listo para escupir fuego. La idea de que iba a morir sin poder hacer al menos un gesto de defensa le parecía injusta. ¿Quién sabe si tal vez Orozimbo no venía sólo para hacerle una advertencia, para tener una charla? Si quisieran, no pasaría más por la puerta de Natalia, hasta dejaría la ciudad para siempre. Porque todo aquello le parecía obra del coronel Justino, era su manera de hacer justicia. Además de Natalia, nada le pesaba en la conciencia. ¿Quién sabe si conversando los dos no se entendían?
La cara de Orozimbo Preto parecía de pocos amigos, había media sonrisa amarga en su boca (¿o era más bien una mueca?) que dejaba ver la punta de sus dientes oscuros, la boca casi sin labios. El ojo izquierdo pestañeaba muy seguido, al contrario del derecho, brilloso y fijo como si fuera de vidrio. Con su horrible facha y ahí parado, empuñando el H.O., Orozimbo Preto parecía esperar algo.
¿Por qué? Fue todo lo que Valeriano consiguió decir con gran esfuerzo. Ya sabes por qué, fue lo que me mandaron decirte, dijo Orozimbo.
Pero Orozimbo Preto todavía no se decidía a hacer el trabajo.
Y si yo me fuera de la ciudad, si nunca más vieran mi cara, preguntó intentanto una última salida. No recibí órdenes para decidir, no era conmigo con quien tenías que hablar, dijo Orozimbo Preto.
¿Con quién entonces? dijo Valeriano cansado de saber con quien tenía que hablar, si le dieran una oportunidad. No sé, yo no tengo nada que ver, dijo Orozimbo. Sólo me mandaron preguntar si conocías este H.O. Me parece que es el mío, dijo Valeriano. El que te olvidaste en cierta casa donde nunca debías haber ido, dijo Orozimbo Preto.
¿Hay algo que yo pueda hacer? preguntó Valeriano después de un silencio sofocante. Creo que no, dijo Orozimbo Preto. A propósito, ¿este H.O. falla? A mí nunca me falló, dijo Valeriano decidido, su vida ya no valía nada. Vamos a ver, dijo Orozimbo Preto y apretó el gatillo. Un estruendo, un ruido, Orozimbo Preto todavía tiró dos veces más sobre el cuerpo caído en el suelo.______________________
Fonte: DOURADO, Autran. Imaginaciones pecaminosas. Traducción de Cecilia Garat. Buenos Aires: Emecé, 1983. p. 15-7.
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Autran Dourado
Título: O RISCO DO BORDADO, PATTERN FOR A TAPESTRYLE, PORTAIL DU MONDE
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: John M. Parker(eng), Jacques Thiériot(fra)
Data: 26/12/2004
1
Viagem à Casa da PonteAutran Dourado
Foi Zito quem contou como era por dentro a Casa da Ponte. Não podia acreditar, não acreditava se não fosse Zito. Um menino daquela idade entrar na casa da Ponte! Se fosse Tuim por exemplo, João tinha dado uma boa gargalhada. Tuim era fino e ligeiro na mentira. Com Zito era diferente, tinha de acreditar.
A Casa da Ponte, o mundo fechado, o reino proibido. O casarão prenhe, as muitas janelas de dia sempre cerradas, o casarão prenhe de segredos, suspenso em sortilégio, as janelas acesas durante quase toda a noite – luzes vermelhas e azuladas – o casarão prenhe de segredos jamais revelados povoava feito uma girândola de muitas cores a insônia do menino. Não podia dormir, o coração miúdo se enchia de sobressaltos e medos.
Os elementos com que fabricava os seus sonhos diurnos eram poucos e esgarçados, não davam para ele ter uma visão total. Eram pedaços de conversa pescados por acaso, vultos vistos furtivamente correndo quando ele passava perto do casarão. Nunca parava nas proximidades da Casa da Ponte, com medo que o vissem. O que é que você está fazendo aí, podiam perguntar e ele estaria perdido, descoberto.
Mesmo as famosas habitantes da Casa da Ponte, segregadas e famosas, tão diferentes das outras mulheres de Duas Pontes (desde longe podia reconhecê-las, quando saíam na rua para as compras, espairecendo a modorra, gatas na tarde) perdiam à luz do dia muito da legenda dourada. Mesmo assim João as seguia de uma certa distância, acompanhava os passos bamboleantes, os quadris cheios remexendo provocadores, via os olhares que os homens lançavam para elas, os ditos quando elas se aproximavam, as chacotas, os risos.
Se cruzavam com elas, as mulheres casadas desciam da calçada da calçada, viravam ostensivamente a cara. Elas eram a chaga, o pecado, a perdição de Duas Pontes. Muitas das casadas, se pudessem, a dignidade permitindo, teriam contas a ajustar com elas. E cobrariam então velhas dívidas: o que tinha sido feito do amor de seus maridos, por que havia agora veneno no carinho dos seus filhos?
Na Casa da Ponte é que elas realmente viviam, viviam uma vida mítica. Eram como ninfas: de noite à luz de candeias volantes, saíam a cantar pelos bosques.
Quando acontecia encontrá-las, João dizia baixinho os nomes embalsamados: Zilá, Violeta, Felícia, Ciganinha, Lina, Teresinha Virado. Ai, meu Deus, Teresinha Virado!
Teresinha Virado, talvez porque a mais nova, talvez por causa dos cabelos sedosos, talvez pelas sugestões escondidas no nome, tinha o condão de movimentar a máquina dos sonhos. Urutau, mandalua purgando à luz da lâmpada azulada. Ele teria medo de se aproximar de Teresinha Virado, ela por acaso o chamando alguma vez, lhe dirigindo a palavra na rua, ela que nunca sequer tinha reparado nele.
Mas de noite, choralua, quando o mundo se apagava, a carne fremia quente, era o nome que ele repetia. Teresinha Virado, Teresinha Virado, ai Teresinha Virado! E as mãos trêmulas, o peito arfando, os olhos compridos e macerados, via a Casa da Ponte iluminada – lâmpadas azuis e avermelhadas, pasto de memoráveis fantasias.
Só acreditou porque tinha sido Zito quem falou. Outro qualquer, Tuim por exemplo, muito mentiroso, faria o gesto tá que eu acredito! Não era nenhum bolo para ficar ouvindo campo queimado de Tuim. Com Zito era diferente, Zito tinha autoridade sobre ele, de uma certa maneira avançara muito em sabença e sisudez.
Pouco mais velho do que ele, aos quinze anos Zito já tinha assumido encargo na vida. João se preparava na época para prestar exame de admissão em São Mateus, Zito não podia ir, teve mesmo de abandonar os estudos com dona Felícia e buscar a sua trilha na vida. Com a morte do pai pouco depois, sem posses, a pobreza se agravou por demais na casa de Zito. Foi trabalhar na loja de seu Bernardino.
João, seu melhor amigo, o dia inteiro juntos, se viu privado de sua companhia nas férias. Não podiam mais esticar pela cidade, pelos matos, pelas grotas, a sua vadiagem de meninos.
Agora João tinha de praticar sozinho as suas reinações ou então ir procurar outros meninos. Tuim por exemplo, com Tuim não tinha graça nenhuma. João logo se entediava, com Zito é que era gostoso.
E muitas vezes ia para a loja de seu Bernardino, ficava assustando os fregueses que por ali faziam ponto, até que Zito dizia vem cá, João, me dá uma mão nestas peças de fazenda. Ficavam em silêncio, seu Bernardino era muito zeloso dos serviços dos empregados. Mesmo assim melhor do que com Tuim, se sentia compensado, solidário.
Não diga, disse João segurando uma peça de brim. Você foi mesmo? Me conta. Depois, lá fora, disse Zito baixinho olhando de viés para seu Bernardino.
João ia empilhando as peças de brim e divagava longe. Não é possível, como é que Zito foi na Casa da Ponte? Zito era sério e compenetrado, bem taludo e espichado é verdade, mas pouco mais velho do que ele, as mulheres não deixariam ele entrar. De noite então, de jeito nenhum! Só se tivesse sido de dia. Mas como, por causa de quê? Todo mundo sabia que seu Bernardino tinha mulher na casa da Ponte, não era novidade. Quem sabe Zito não foi levar algum recado para Lina, a amante de seu Bernardino? Não, de jeito nenhum, nem vê, seu Bernardino era homem sisudo, se dava ao respeito, não ia mandar Zito levar recado nenhum. Só se fosse mentira de Zito. Mas Zito não era de mentir nem de contar vantagem. Tuim, sim. Um dia ainda vou lá passear a minha prosa, dizia Zito quando os dois contavam histórias que tinham ouvido, negociavam a moeda do sonho. Ele, João, nunca que teria coragem de dizer para os outros uma coisa dessas. Dizia só para si, ruminava o pensamento manso. Zito tinha muita ousadia de sonhar, de dizer. Quem sabe foi mesmo? Não deixavam entrar, um menino. Quinze anos era muita coisa, mas para elas Zito ainda era um menino. Quem sabe ele, corajoso agora, sério por causa do emprego na loja, não tinha ido lá por contra própria perguntar qualquer coisa com ar de desentendido? Não, quem vê! E o medo de tudo vir bater nos ouvidos de seu Bernardino? Estive lá na casa da Ponte, foi só o que disse Zito. Não podia ter escutado mal, ouvir claramente. Zito tinha aberto a porteira do mundo. João ruminava, destilava. Zito agora conhecia um mundo muito maior do que ele. Podia ser até um daqueles viajantes de guarda-pó branco que passavam de trem por Duas Pontes. Não bastasse o emprego na loja, que de uma certa maneira o tornava mais sério e mais velho, ainda por cima Zito agora podia dizer como eram de verdade as mulheres. Na sua morada, na intimidade quente. Querendo, ele podia até contar vantagem. Mas Zito não era disso, repetia João tentando se convencer.
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Fonte: DOURADO, Autran. O Risco do Bordado. 12ª. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p. 13-16.
I
JOURNEY TO BRIDGE HOUSEAutran Dourado
It was Zito who told him what Bridge House was like inside. He couldn’t believe it, wouldn’t have if it hadn’t been Zito. A boy of that age go into Bridge House! If it’d been Tuim, for example, João would have laughed outright. Tuim was smart and quick with his lies. But Zito was different, he had to believe him.
Bridge House, a hidden world, a forbidden realm. The big house heavy, its many windows closed during the daytime, the big house heavy with secrets, suspended in a veil of magic, its windows lit up throughout the night – red and bluish lights – the big house heavy with undisclosed secrets filled the boy’s sleepless nights like a many-coloured catherine wheel. He couldn’t sleep, his little heart swelling with fears and sudden frights.
The details from which he fashioned his daydreams were few and sketchy, not enough for him to form a complete picture. They were snatches of conversation picked up by chance, figures seen hurrying furtively when he was passing by the big houses. He never stopped in the vicinity of Bridge House, for fear of being seen. What are you doing here, they might ask and he would be done for, found out.
Even the famous inhabitants of Bridge House, secluded and famous, so different from the other women of Duas Pontes (you could recognize them from a distance, when they came out into the street to go shopping, airing their drowsiness, she – cats in the afternoon sun) lost a good deal of the gilt of legend in the daylight. Even so João followed them at a distance, keeping pace with their swaying walk, eyeing the provocative wiggle of their buxom hips, and noted the looks the men gave them, the remarks when they came closer, the banter, the laughter.
If the married women met them on the street, they would step off the pavement and look very obviously the other way. They were the canker, the sin, the perdition of Duas Pontes. Many of the married women, if they could, if dignity would allow them, would get even with them. Then they would settle old scores: what had happened to their husbands’ love, who had poisoned their sons’ affection?
Bridge House was where they came to life. They lived in a world of myths. Like nymphs, they came out at night and went singing in the woods by the light of flying lanterns.
When he happened to see them, João would silently repeat to himself their perfumed names: Zilá, Violeta, Felicia, Ciganinha, Lina, Teresinha Virado. Oh God, Teresinha Virado!
Perhaps because she was the youngest, perhaps because of her silken hair, or maybe on account of the allusions hinted at in her name , there was something about Teresinha Virado that set in motion the engine of his dreams. Whippoorwill, nighthawk scourging himself by the light of the blue lamp. He would be afraid of approaching Teresinha Virado, should she ever call him, speak to him in the street. But she had never so much as noticed him.
At night, though, whippoorwill, when the world fell silent his flesh throbbed feverishly and it was her name he murmured again and again. Teresinha Virado, Teresinha Virado, oh Teresinha Virado! His hands trembled, his chest heaved, a faraway look in his sunken eyes, which could see Bridge House ablaze with light – blue and reddish lamps, breeding ground of memorable fantasies.
He only believed it because Zito told him. If it’d been anyone else, that liar Tuim for instance, he’d have made the rude gesture that means go tell it to your granny! He wasn’t fool enough to stay and listen to Tuim’s fairy tales. But Zito was different. He looked up to Zito, somehow he had shot ahead in know-how and shrew dness.
Only slightly older than João, by the time time he was fifteen Zito has already shoul deres liabilities in life. At the time João was studying for the entrance exam to go to São Mateus. Zito couldn’t go, he had to give up studying with Dona Felicia and find his own way in life. His father died soon afterwards, leaving nothing, and things got very hard at Zito’ s house. He went to work at Seu Bernardino’s shop .
João, his best friend, together all day long, found himself without Zito’s company in the holidays. No more loafing around the town, the woods, the caves, spinning our their boyhood leisure.
Now João had to get up to his tricks by himself or go and look for other lads. Tuim, for example. It was no fun with Tuim though, João soon got fed up. With Zito it was great.
Often he would go to Seu Bernardino’s shop and stand watching the customers who hung around there chatting, until Zito said come and give me a hand with these bales of cloth, João. They worked in silence, Seu Bernardino kept a sharp eye on his assistants. Even so it was better than being with Tuim, he felt he got something out of it, a feeling of companionship.
You don’t mean it, said João, handling a bale of denim. Did you really go? Tell me about it. Later, outside, muttered Zito with a sideways glance at Seu Bernardino.
João went on stacking the bales of denim, but his thoughts were miles away. It’s not possible, how can Zito have been to Bridge House? Zito was serious and self-assured, well built and quite tall it’s true, but only a little older than him, the women wouldn’t let him in. And at night, not on your life! Only if it’d been during daytime, perhaps. But how, what for? Everyone knew that Seu Bernardino had a mistress at Bridge House, there was nothing new in that. Maybe Zito went to take a message to Lina, Seu bernardino’s mistress. No way, not a chance surely, Seu Bernardino was a discreet man, concerned with appearances, he wouldn’t send Zito running errands. Perhaps Zito was fibbing. But Zito wasn’t given to telling lies or boasting. Not like Tuim. One of these days I’ll go up there and chat them up, Zito would say when the two of them were telling stories they’d heard, swapping dreams. João, he would never have the courage to say a thing like that in front of the others. He’d say it just to himself, mulling over the thought quietly. Zito had daring thoughts, and came out with them. Maybe he went after all. They wouldn’t let him in, a boy. Fifteen was quite an age, but to them Zito was still a boy. Maybe, though, he had the nerve, more grown-up now he was working in the shop, and had gone there on his own account to ask for information as if he didn’t realize what the place was? No, how could he? Wouldn’t he be afraid of it getting back to Seu Bernardino’s ears? I was at Bridge House, that was all Zito said. He couldn’t have heard him wrong, he heard quite clearly. Zito had opened the gateway onto the world.
João was thinking things over, letting them trickle through his mind. Zito’s knowledge of the world was now greater than his. He was like one of those travellers in white smacks who went through Duas Pontes on the train. As if his job in the shop were not enough, making him somehow older and more serious, on top of that Zito could now tell him what women were really like. Where they lived, in the warmth of their privacy. If he wanted, he could boast about it as well. But Zito wasn’t like that, João said to himself again, trying to convince himself.
(…)Teresinha Virado, whose surname is not a family name in Brazil, being a creation of Dourado’s, is so called because she ‘turns’ João’s head and because she is ‘flighty’, a ‘giddy girl’ one might say, meanings contained in the verb virar and the participial adjective virado.
The form ‘seu’ (cf. Senhor) is common in the interior of Brazil, but is widely used even in the bigger cities of the more conservative north and north-east of the country. Used particularly with first names, it indicates a curious mixture of respect and familiarity. It is not really translatable and I have opted for keeping it as it stands, whenever I felt it could not be omitted.
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Fonte: DOURADO, Autran. Pattern for a Tapestry: A Novel. Translated from the Portuguese by John M. Parker. London, Peter Owen Publishers, 1984, p. 13-16.
I
Voyage à la Maison du PontAutran Dourado
C’est Zito qui lui avait raconté comment c’était à l’intérieur de la Maison du Pont. Il n’arrivait pas à y croire, il ne croyait personne excepté Zito. Un gamin de cet áge entrer dans la Maison du Pont! Si c’était Tuim, par exemple, João aurait rigolé un bon coup. Tuim était roublard et rapide dans le mensonge. Avec Zito c’était différent, il fallait le croire.
La Maison du Pont, le monde fermé, le royaume défendu. La demeure grosse, ses nombreuses fenêtres de jour toujours fermées, la demeure grosse de secrets, dans le suspends d’un sortilège, les fenêtres allumées durant presque toute la nuit – lumières rouges et bleutées – la demeure grosse de secrets jamais révélés peuplait comme une girandole de toutes les couleurs l’insomnie du petit garçon. Il ne pouvait pas dormir, son cœur menu s’emplissait de sursauts et de peurs.
Les éléments avec lesquels il fabriquait ses rêves diurnes étaient peu nombreux et fragmentaires, ils ne lui permettaient pas d’avoir une vision complète. C’étaient des bouts de conversation attapés par hasard, des silhouettes qu’il entrevoyait furtivement, à la sauvette quand il passait près de la demeure. Il ne s’arrêtait jamais dans les parages de la Maison du Pont, de crainte d’être vu. Qu’est-ce que tu fais là, on pouvait lui demander et il serait perdu, percé à jour.
Certes les fameuses habitantes de la Maison du Pont, recluses et fameuses, si différentes des autres femmes de Duas Pontes (de loin on pouvait les reconnaître, quand elles sortaient dans la rue pour des achats, distraire leur indolence, pimpantes dans l’après-midi), à la lumière du jour perdaient une grande part de leur légende dorée. Pourtant João les suivait à une certaine distance, accompagnait leur démarche chaloupée, leurs hanches pleines qui se trémoussaient provocantes, il voyait les regards que les hommes leur lançaient, les propos quand elles s’approchaient, les quolibets, les rires.
Si elles les croisaient, les femmes mariées descendaient du trottoir, détournaient ostensiblement le visage. Elles étaient la plaie, le péché, la perdition de Duas Pontes. De nombreuses épouses, si elles pouvaient, et si leur dignité leur permettait, auraient des comptes à régler avec elles. Et alors elles leur feraient payer de vieilles dettes: qu’avait-on fait de l’amour de leurs maris, pourquoi y avait-il maintenant du poison dans la tendresse de leurs enfants?
C’est dans la maison du Pont qu’elles vivaient réellement, elles vivaient une vie mythique. Telles des nymphes: la nuit à la lumière de chandeliers volants, elles sortaient chanter dans les bois.
Quand il lui arrivait de les rencontrer, João disait tout bas leurs noms embaumés: Zila, Violeta, Felicia, Ciganinha, Lina, Teresinha Virado. Ah, mon Dieu, Teresinha Virado!
Teresinha Virado, peut-être parce qu’elle était la plus jeune, peut-être à cause de ses cheveux soyeux, peut-être à cause des sous-entendus suggestifs de son nom, avait le don de mettre en marche la machine des rêves. Ouroutaou nocturne, hibou se purgeant à la lumière de la lampe bleutée. Il aurait peur de s’approcher de Teresinha Virado, au cas où un jour elle l’appellerait, lui adresserait la parole dans la rue, elle qui ne lui avait jamais prêté la moindre attention.
Mais la nuit, oiseau de lune, quand le monde s’éteignait, sa chair brûlante frémissait, c’était le nom qu’il répétait: Teresinha Virado, Teresinha Virado, ah! Teresinha Virado! Et les mains tremblantes, la poitrine haletante, les yeux écarquillés et mortifiés, il voyait la maison du Pont illuminée – lampes bleues et rougeâtres, pâtis de mémorables fantaisies.
Il ne le crut que parce que c’était Zito qui l’avait dit. A un autre, Tuim par exemple, fieffé menteur, il aurait fait le geste: mon œil! Il n était pas bête, il n’allait pas écouter les craques de Tuim. Avec Zito c’était différent. Zito avait de l’autorité sur lui, d’une certaine façon il était très avancé question jugeote et astuce.
Un peu plus âgé que lui, à quinze ans Zito avait déjà assumé une charge dans la vie. A l’époque, João se préparait à passer un examen d’admission à São Mateus. Zito ne pouvait pas y aller, il avait même été obligé d’abandonner les cours de dona Felicia et de chercher sa voie dans la vie. Avec la mort de son père peu après, sans laisser de biens, la pauvreté était devenue trop dure à supporter dans la maison de Zito. Il était allé travailler au magasin de m’sieu Bernardino.
João, son meilleur ami, toute la journée ensemble, se vit privé de sa compagnie pendant les vacances. Ils ne pouvaient plus continuer leurs vadrouilles de gamins dans la ville, les forêts et les grottes.
Désormais João devait se livrer tout seul à ses polissonneries ou bien alors chercher d’autres gamins. Tuim, par exemple, avec Tuim c’était pas marrant du tout, João tout de suite s’embêtait, c’est avec Zito qu’il se plaisait.
Alors souvent il allait au magasin de m’sieu Bernardino, il restait là à observer les clients qui le fréquentaient, jusqu’à ce que Zito lui dise amène-toi, João, file-moi un coup de main pour ces prèces de tissu. Ils gardaient le silence, m’sieu Bernardino était très pointilleux sur le travail des employés. De toute façon c’était mieux qu’avec Tuim, il se sentait soutenu, solidaire.
Sans blague, dit João en empoignant une pièce de coutil, tu y as vraiment été? Raconte. Tout à l’heure, dehors, dit Zito tout bas en regardant à la dérobée m’sieu Bernardino.
João empilait les pièces de cutil et sa tête battait la campagne. C’est pas possible, comment est-ce que Zito a été à la Maison du Pont? Zito était sérieux et sûr de lui, costaud et bien découplé c’est vrai, mais à peine plus âgé que lui, les femmes ne le laisseraient pas entrer. Alors la nuit, pas question! Seulement peut-être de jour. Mais comment, pour quel motif? Tout le monde savait que m’sieu Bernardino avait une femme attitrée à la Maison du Pont, c’était pas une nouveauté. Peut-être que Zito avait été porter une commission pour Lina, la bonne amie de m’sieu Bernardino? Non, pas du tout, pensez-donc, m’sieu Bernardino était un homme avisé, il avait le respect des convenances, il n’allait pas envoyer Zito porter la moindre commission. A moins que ce soit une menterie de Zito. Mais Zito n’était pas capable de mentir ni de se vanter. Tuim, oui. Un de ces jours je vais sortir mon baratin, disait Zito quand tous les deux se racontaient les histoires qu’ils avaient entendues, échangeaient la monnaie du rêve. Lui, João, il n’aurait jamais le courage de dire aux autres une chose pareille. Il ne la disait qu’à lui-même, il ruminait ses pensées tranquilles. Zito avait une grande hardiesse de rêver, de dire. Peut-être qu’il y était allé pour de bon? Elles ne le laisseraient pas entrer, un gamin. Quinze ans ça comptait déjà, mais pour elles Zito était encore un gamin. Est-ce que du coup intrépide, sérieux à cause de son emploi au magasin, il était vraiment allé là-bas de lui-même demander un truc quelconque avec mine d’ingénu? Non, pas pensable! Et la peur que tout vienne aux oreilles de m’sieu Bernardino? J’ai été à la Maison du Pont, c’était tout ce qu’avait dit Zito. Il ne pouvait pas avoir mal entendu, il avait clairement entendu. Zito avait ouvert le portail du monde.
João remâchait, distillait. Zito maintenant connaissait un monde plus grand que le sien. Il pouvait même devenir un de ces commis voyageurs en cache-poussière blanc qui passaient en train par Duas Pontes. Non seulement il avait un emploi au magasin, qui d’une certaine façon le rendait plus sérieux et plus âgé, mais par-dessus le marché Zito maintenant pouvait dire comment étaient vraiment les femmes. Dans leur logis, leur intimité chaude. S’il voulait, il pouvait même crâner. Mais ce n’était pas le genre de Zito, se répétait João pour essayer de se convaincre.
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Fonte: DOURADO, Autran. “Voyage à la Maison du Pont”. In: Le Portail du Monde. Traduit du portugais (Brésil) par Jacques Thiériot. Paris, Éditions Metailié, 1994, p. 11-15.
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Autran Dourado
Título: ÓPERA DOS MORTOS, L’OPERA DES MORTS, THE VOICES OF THE DEAD
Idiomas: port, fra, eng
Tradutor: Jacques Thiériot(fra), (eng)
Data: 26/12/2004
1
Sobrado
Autran DouradoO senhor querendo saber, primeiro veja:
Ali naquela casa de muitas janelas de bandeiras coloridas vivia Rosalina. Casa de gente de casta, segundo eles antigamente. Ainda conserva a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco caído em alguns trechos como grandes placas de ferida mostra mesmo as pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a vida; vidros quebrados nas vidraças, resultado do ataque da meninada nos dias de reinação, quando vinham provocar Rosalina (não de propósito e ruindade, mais sem-que-fazer de menino), escondida detrás das cortinas e reposteiros; nos peitoris das sacadas de ferro rendilhado formando flores estilizadas, setas, volutas, esses e gregas, faltam muitas das pinhas de cristal facetado cor-de-vinho que arrematavam nas cantoneiras a leveza daqueles balcões.
O senhor atente depois para o velho sobrado com a memória, com o coração – imagine, mais do que com os olhos, os olhos são apenas conduto, o olhar é que importa. Estique bem a vista, mire o casarão como num espelho, e procure ver do outro lado, no fundo do lago, mais além do além, no fim do tempo. Recue no tempo, nas calendas, a gente vai imaginando; chegue até ao tempo do coronel Honório – João Capistrano Honório Cota, de nome e conhecimento geral da gente, homem cumpridor, de quem o senhor tanto quer saber, de quem já conhece a fama, de ouvido – de quem se falará mais adiante, nas terras dele, ou melhor, do pai – Lucas Procópio Honório Cota, homem de que a gente se lembra por ouvir dizer, de passado escondido e muito tenebroso, coisas contadas em horas mortas, esfumado, já lenda-já história, lembranças se azulando, paulista de torna-viagem das Minas, de longes sertões, quando o ouro secou para a desgraça geral, as grupiaras emudeceram: e eles tiveram de voltar, esquecidos das pedras e do ouro, das sonhadas riquezas impossíveis, criadores de gado, potentados, esbanjadores ou unhas-de-fome – conforme a experiência tida ou a natureza, fazendeiros agora, lúbricos, negreiros, incestuosos, demarcadores, ladrilhando com seus filhos e escravos este chão deserto, navegadores de montes e montanhas, políticos e sonegadores, e vieram plantando fazendas, cercando currais, montando pousos e vendas, semeando cidades no grande país das Gerais, buscando as terras boas de plantio, as terras roxas e de outras cores em que o sangue e as lágrimas entram como corantes – nas datas de quem, por doação e todos os mais requisitos de lei, se ergueu a Igreja do Carmo e se fez o Largo.
Um recuo no tempo, pode se tentar. Veja a casa como era e não como é ou foi agora. Ponha tento na construção, pense no barroco e nas suas mudanças, na feição do sobrado, na sua aparência inteira, apartada, suspensa (não, oh tempo, pare as suas engrenagens e areias, deixe a casa como é, foi ou era, só pra gente ver, a gente carece de ver; impossível com a sua mediação destruidora, que cimenta, castradora); esqueça por um momento os sinais, os avisos surdos das ruínas, dos desastres, do destino.
A casa fica no Largo do Carmo, onde se plantou a igreja. A Igreja do Carmo foi a primeira construção de pedra e alvenaria da cidade. Depois é que Lucas Procópio mandou construir a sua casa (na época apenas a parte de baixo), tentando fazer parelha com a igreja. Uma igreja em que se procurou no risco e na fachada seguir a experiência que os homens trouxeram das igrejas de Ouro Preto e São João del-Rei: só que mais pobre, sem a riqueza dos frontões de pedra em que o barroco brinca as suas volutas vadias; mesmo assim imponente, toda branca, com seus cunhais e marcos de pedra, a porta almofadada, as duas janelas-de-púlpito ladeando em cima o vão da porta, as cornijas trabalhadas em curvas leves, a torre solitária nascendo na cumeeira do telhado de duas-águas. Da torre pode se ver, em vôo de pássaro, o casario que cresceu para trás da igreja, contrariando o desejo dos fundadores que era ver a Igreja do Carmo soberana, sobranceira, dominando de frente toda a cidade. Da torre pode se ver a lisura vazia do largo de terra batida, onde às vezes se formam redemoinhos coriscantes de poeira, o cruzeiro no meio da praça, as ruas que dali partem, os muros brancos do cemitério, as voçorocas de goelas vermelhas na beira da estrada que deixa a cidade.
(Rosalina conhecia o Largo do Carmo palmo a palmo, desde sempre olhando detrás das cortinas a igreja, as casas fronteiras, a Escola Normal, a estrada. Os olhos vazios e mornos miravam o silêncio coalhado da praça, a solidão do descampado às três horas da tarde, o céu de verão sem nuvens, o sol estorricando a terra, reverberando nas paredes brancas, os burricos peados junto ao cruzeiro, os jacás vazios, esperando os donos – eles eram lerdos e cansados, pastavam com focinhos duros, disputavam uma ou outra cabeleira de capim que teimava em brotar daquele chão duro – alguém que entrava no Largo, os passos lentos, se protegendo do sol, e ela o seguia com a vista, a atenção neutra dos desocupados, até que dobrava a esquina ou se perdia de vista no fim da rua. )
Se quiser, o senhor pode ver Rosalina, acompanhar os seus mínimos gestos, como ela acompanhava os passeantes, não com aqueles olhos embaciados, aquela neutralidade morna. Mas veja antes a casa, deixa Rosalina pra depois, tem tempo.
No tempo de Lucas Procópio a casa era de um só pavimento, ao jeito dele; pesada, amarrada ao chão, com as suas quatro janelas, no meio a porta grossa, rústica, alta. Como o coronel Honório Cota, seu filho, acrescentou a fortuna do pai, aumentou-lhe a fazenda, mudou-lhe o nome para Fazenda da Pedra Menina – homem sem a rudeza do pai, mais civilizado, vamos dizer assim, cuidando muito da sua aparência, do seu porte de senhor, do seu orgulho – assim fez ele com a casa; assobradou-a, pôs todo gosto no segundo pavimento. Se as vergas das janelas de baixo eram retas e pesadas, denunciando talvez o caráter duro, agreste, soturno, do velho Lucas Procópio, as das janelas de cima, sobrepostas nos vãos de baixo, eram adoçadas por uma leve curva, coroadas e enriquecidas de cornijas delicadas que acompanhavam a ondulação das vergas.
Quando o mestre que o coronel Honório Cota mandou buscar de muito longe, só para remodelar a sua casa, disse quem sabe não é melhor a gente trocar as vergas das janelas de baixo, a gente dá a mesma curva que o senhor quer dar nas de cima, já vi muitas assim em Ouro Preto e São João, ele trancou a cara. Ora, já se viu, mudar, pensou. Não quero mudar tudo, disse. Não derrubo obra de meu pai. O que eu quero é juntar o meu com o de meu pai. Eu sou ele agora, no sangue, por dentro. A casa tem de ser assim, eu quero. Eu mais ele. E como o homem ficasse meio atarantado sem entender direito aquela argamassa estranha de gente e casa, vindo de outras bandas, o coronel puxou fundo um pigarro e disse o senhor não entende do seu oficio? Pois faça como lhe digo, assunte, bota a cabeça pra funcionar e cuide do risco. Se ficar bom eu aprovo. O homem quis dizer alguma coisa, ponderar, falar sobre os usos, mas o coronel foi perempto. E olhe, moço, disse ele, eu não quero um sobrado que fique assim feito uma casa em riba da outra. Eu quero uma casa só, inteira, eu e ele juntos pra sempre. O mestre viu aquele olho rútilo, parado, viu que o coronel já não falava mais com ele mas para alguém muito longe ou para as bandas do ninguém. Picou a mula, se foi para o seu serviço.
O mestre conversou com a gente da cidade, especulou, quis saber como era mesmo o velho Lucas Procópio Honório Cota. É pra compor a fachada, dizia explicadinho na sua voz aflautada, com medo de irem contar a seu coronel Honorio Cota que ele andava bisbilhotando a vida do falecido senhor pai dele, o famoso Lucas Procópio Honório Cota.
Coisa de pouca monta ficou sabendo, a não ser as brumosas histórias de um homem antigo que fazia justiça sozinho, que se metia com os seus escravos por aqueles matos, devassando, negociando, trapaceando, negaceando, povoando, alargando os seus domínios, potentado, senhor rei absoluto Aquela dureza não ajudava no risco. Melhor mesmo deixar as vergas como estavam. Quem sabe ele não concorda em botar uma cornija encimando a porta, pra dar mais nobreza? Ah, disto ele vai gostar. A porta eu ponho uma de duas folhas, bem trabalhada, almofadas pra lá de grandes, ele não vai querer ficar com aquela caindo aos pedaços, mais semelhando porta de curral, salvo seja, ainda bem que ele não está me ouvindo. Ele não quer derrubar é as vergas.
Eu e ele juntos pra sempre, foi repetindo o mestre na sua toada enquanto cuidava do risco.
Ao contrário do que suspeitou o coronel Honório, o mestre entendia do oficio. Fez crescer do chão feito uma árvore a casa acachapada, deu-lhe leveza e vida. O mestre ruminou, procurava fundir num só todo (compôs volumes cúbicos, buscou uma clara simetria nos vãos da fachada, deu-lhe vôo e leveza) aquelas duas figuras – o brumoso Lucas Procópio e aquele ali, o coronel João Capistrano Honório Cota.
O sobrado ficou pronto. A primeira vista nenhum diz – o senhor mesmo só agora repara, depois que eu falei – que aquela casa nasceu de outra casa. Mas se atentar bem pode ver numa só casa, numa só pessoa, os traços de duas pessoas distintas: Lucas Procópio e João Capistrano Honório Cota. Eu e ele juntos pra sempre, dizia a toada do mestre, a caminho de sua terra.
(…).______________________
Fonte: DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 1-5.
1
La demeure
Autran DouradoMonsieur, vous qui voulez savoir, voyez d’abord :
Devant vous, cette maison avec toutes ses fenêtres à impostes colorées, où vivait Rosalina. Maison de qui appartenait à une caste, comme eux autres disaient autrefois. Elle a gardé sa magnificence et son apparence seigneuriale, l’aspect imposant que le temps n’a pas encore complètement rongé. Les couleurs des fenêtres et de la porte son délavées depuis longtemps, le crépi qui se détache à plusieurs endroits, on dirait de grandes croûtes de blessures, met à vif les pierres, les briques et les hourdis, sa chair et ses os, faits pour durer toute la vie ; les carreaux cassés des vitrages, c’est le résultat des attaques des gamins les jours qu’ils se déchaînent et viennent provoquer Rosalina (non pas de propos délibéré ou par méchanceté, mais faute de savoir quoi faire d’autre), dissimulée derrière les rideaux et les portières ; sur les appuis des balcons aux ferronneries ouvragées de fleurs stylisées, dards, volutes, esses et grecques, manquent la plupart des pommes de cristal facetté lie-de-vin qui aux angles accentuaient la légèreté de ces balustrades.
Monsieur, considérez ensuite cette vieille demeure avec la mémoire, avec le coeur – imaginez, bien mieux qu’avec les yeux, les yeux ne sont qu’une voie, c’est le regard qui compte. Portez votre vue le plus loin possible, observez cet édifice comme dans un miroir et essayez de voir de l’autre côté, au fond du lac, au-delà de l’au-delà, à la fin des temps. Reculez dans le temps, jusqu’aux calendes grecques, et lâchez la bride à votre imagination, allez jusque tout là-bas du temps du colonel Honorio – João Capistrano Honorio Cota, dont nous connaissons tous le nom, un homme de devoir, sur qui vous voudriez savoir un tas de choses, vous connaissez déjà sa réputation, par ouï-dire – on causera de lui plus loin, sur ses terres, ou plutôt, de son père – Lucas Procopio Honorio Cota, un homme qu’on se rappelle parce qu’il a fait parler de lui, avec son passé caché par d’épaisses ténèbres, tout ce qu’on raconte aux heures creuses, un passé estompé, déjà mi-légende mi-histoire, souvenirs qui s’évaporent, un pauliste revenu des Minas Gerais, des lointains sertões, après que l’or s’est épuisé pour le malheur de tous et que les gîtes ont retrouvé leur silence : et eux autres, ils ont dû s’en retourner, oublier or et pierreries, leurs rêves de richesses impossibles, se faire éleveurs de bétail, potentats, gaspilleurs ou rapiats, suivant leur expérience ou leur nature, grands fermiers à présent, noceurs, négriers, incestueux, arpenteurs, occupés à carreler avec leurs enfants et leurs esclaves ce sol désert, navigateurs de hautes terres, politiciens et receleurs, et qui ont planté des fazendas, clôturé des corrals, construit des haltes et des buvettes, semé des villes dans le vaste territoire des Minas Gerais, cherché des terres fertiles, les terres rouges ou d’une autre couleur où le sang et les larmes entrent comme colorants – Lucas Procopio qui a fait la donation, par acte dûment notarié, des terrains où a été construite l’église du Carmel et aménagée la place du même nom.
Un recul dans le temps, ça vaut le coup d’essayer. Voyez la maison telle qu’elle était et non pas comme maintenant elle est ou a été. Soyez attentif à son architecture, pensez au baroque et à ses avatars, à l’allure de cette demeure, à son apparence globale, distante, suspendue (ô temps, je t’en prie, arrête tes engrenages, tes poussières, laisse cette maison comme elle est, a été ou était, rien que pour la voir, car il nous faut la voir ; impossible si tu imposes ta médiation destructrice que fige, castre son image) ; oubliez un instant les signaux, les avis sourds des ruines, des désastres, du destin.
La maison s’élève place du Carmel, où a été édifiée l’église. L’ église du Carmel a été la première bâtisse en dur de la ville. C’est par la suite que Lucas Procopio a fait construire sa maison (à l’époque, seulement la partie basse), en essayant de faire pendant à l’église. Une église à laquelle l’on s’est efforcé de donner lignes et façades conformes à l’expérience que les bâtisseurs avaient apporté d’Ouro Preto et de São João del Rei : sinon plus dépouillée, sans la richesse des frontons de pierre où le baroque hasarde ses volutes vaines ; et pourtant imposante, toute blanche, avec ses angles et ses piédroits de pierre, la porte à panneaux, les deux oculi de chaque côté et haut du porche, les corniches travaillées en courbes douces, la tour solitaire qui prend appui sur le faîtage à double versant. De cette tour on peut observer, tel un oiseau, l’alignée de maisons qui s’est greffée sur le derrière de l’église, contrariant le voeu des fondateurs de voir l’église du Carmel souveraine, hautaine, dominant de face toute la ville. De la tour on peut distinguer l’étendue lisse de la place en terre battue, où parfois se forment des tourbillons scintillants de poussière, le calvaire au milieu, les rues qui en partent, les murs blancs du cimetière, les crevasses qui ouvrent leurs gueules rouges au bord de la route qui s’éloigne de la ville.
(Rosalina connaissait la place du Carmel pouce par pouce, depuis le temps qu’elle regardait de derrière ses rideaux l’église, le front des maisons, l’École normale, la route. Ses yeux vides et mornes observaient le silence figé de la place, la solitude de son étendue à trois heures de l’après-midi, le ciel d’été sans nuages, le soleil torréfiant la terre, se réverbérant sur les murs blancs, les bourricots attachés près du calvaire, avec leurs bâts vides, attendant leurs maîtres – patauds et flapis, ils paissaient d’un mufle durci, se disputaient la moindre touffe d’herbe obstinée à pousser sur ce sol dur -, quiconque entrait sur la place, à pas lents, se protégeant du soleil, et elle le suivait du regard, avec l’attention neutre des désoeuvrés jusqu’à ce que l’apparition tournât le coin ou disparût au bout de la rue.)
Si vous voulez, monsieur, vous pouvez voir Rosalina, suivre ses moindres gestes, tout comme elle suivait les passants, mais pas avec ces yeux ternes, cette neutralité indolente qu’elle avait. Mais voyez d’abord la maison, laissez Rosalina pour plus tard, nous avons le temps.
Du temps de Lucas Procopio, la maison ne comportait qu’un rez-de-chaussée, une maison à son idée : lourde, bien ancrée au sol, avec ses quatre fenêtres, sa porte au milieu, haute épaisse, rustique. Le colonel Honorio Cota, son fils, a fait fructifier la fortune de son père, agrandi la fazenda, changé son nom, il l’a appelée fazenda de la Pedra Menina – un homme sans la rudesse du père, disons plus civilisé, particulièrement soucieux de son apparence, de son port seigneurial, de l’orgueil de sa caste – et il a fait de même avec la maison : il lui a ajouté un étage où il a déployé le meilleur goût. Alors aue les linteaux des fenêtres du rez-de-chaussée étaient droits et épais, révélant sans doute le caractère rude, fruste, taciturne du vieux Lucas Procopio, ceux de fenêtres d’en haut, alignés sur les embrasures d’en bas, on été adoucis par une légère incurvation, surmontés et agrémentés des corniches délicates qui épousent l’ondulation des linteaux.
Quand le maître maçon que le colonel Honorio Cota avait fait venir de très loin, juste pour remodeler sa maison, lui eut dit que peut-être bien il valait mieux refaire les linteaux des fenêtres du rez-de-chaussée, il leur donnerait la même courbure que celle que le colonel voulait donner à ceux du premier élage, il en avait déjà ou pas mal des pareils à Ouro Preto et São João, Honorio Cota se renfrogna. Changer les linteaux, il ne s’attendait pas à ça, en voilà una idée, il pensa. Je ne veux pas tout changer, il dit. Je ne vais pas démolir l’oeuvre de mon père. Ce que je veux, c’est mettre ensemble ce qui est de moi et ce qui est de mon père. Moi je suis lui, maintenant, par le sang, en dedans. La maison sera comme ça, je le veux. Moi plus lui. Et comme l’autre en restait tout ébaubi sans très bien comprendre qu’est-ce que c’était que ce mortier bizarre de personnes et de maison, lui qui venait d’autres contrées, le colonel après avoir graillonné un bon coupe lui demanda si vraiment il connaissait son métier. Si oui, faites comme je vous dis, faites marcher votre jugeote, mettez vos idées en place et présentez-moi un plan. S’il est bon, je vous donne carte blanche. L’homme voulut dire son mot, peser sa réponse, parler des usages, mais le colonel fut péremptoire. Écoutez, jeune homme, lui dit-il, moi je ne veux pas d’une maison faite de deux maisons empilées l’une sur l’autre. Je veux une maison d’un seul tenant, lui et moi à jamais réunis. L’artisan vit cet oeil étincelant, ce regard fixe, il comprit que le colonel ne s’adressait plus à lui, mais à quelqu’un situé très loin ou même au pays de personne. Il éperonna sa mute et alla se mettre à l’ouvrage.
Le maître prit langue avec les gens de la bourgade, s’informa, voulut savoir qui était au juste le vieux Lucas Procopio Honorio Cota. C’est pour mieux composer la façade, il disait en guise d’explication, de sa voix flûtée, avec la trouille qu’on aille raconter à m’sieu le colonel Honorio Cota qu’il farfouillait dans la vie de feu son père, le fameux Lucas Procopio Honorio Cota.
Il n’apprit guère que des broutilles, hormis les brumeuses histoires d’un homme d’autrefois qui rendait sa propre justice, s’enfonçait avec ses esclaves dans les forêts, pour découvrir, commercer, duper, piéger, peupler, étendre ses domaines, potentat, monarque absolu. Cette inflexibilité contrariait son dessein. Mieux valait laisser les linteaux du bas tels quels. Qui sait, le colonel serait peut-être d’accord de mettre un sommier au-dessus de la porte pour lui donner plus de noblesse ? Ah oui, ça va sûrement lui plaire. La porte, j’en mets une à deux battants, ouvragée, avec des panneaux, des grands, il ne va pas vouloir garder celle-là qui tombe en morceaux, qui ressemble plutôt à une porte d’étable, Dieu me garde, heureusement qu’il ne m’entend pas. Ce qu’il ne veut pas démolir, c’est les linteaux.
Lui et moi à jamais réunis, répétait le maître comme un refrain tandis qu’il s’occupait des plans.
A l’inverse de ce que craignait le colonel Honorio, l’artisan connaissait son métier. Il fit pousser du sol, tel un arbre, la maison trapue, il lui donna légèreté et vie. Il rumina longuement, pour essayer de fondre en un tout (il ajusta des volumes cubiques, rechercha une claire symétrie pour les trumeaux de la façade à laquelle il donna élan et légèreté) ces deux figures – le brumeux Lucas Procopio et l’autre, le colonel João Capistrano Honorio Cota.
La demeure fut édifiée. A première vue, personne ne saurait dire – vous-même venez seulement de vous en rendre compte, maintenant que je vous ai parlé – que cette maison est née d’une autre maison. Mais si vous prêtez toute votre attention, vous pouvez voir en une seule maison, en une seule personne, les traits de deux personnes distinctes : Lucas Procopio et João Capistrano Honorio Cota. Lui et moi à jamais réunis, disait le refrain du maître, sur le chemin du retour.
(…).____________________
Fonte: DOURADO, Autran. L’opéra des morts: roman. Traduit par Jacques Thiériot. Paris: Éditions du Seuil, 1986. p. 11-16.
IThe Manor
Autran DouradoIf you want to know the story, first look yonder:
In that house over there, the one with all the windows with coloured transoms, lived Rosalina. A house of the gentry, at least that’s how they used to see themselves. It still preserves its stately, aristocratic bearing, the manorial air that time hasn’t altogether worn away. The paint of the windows and the door is faded with age, the plaster has faller away in places like great sores to reveal the stones, bricks and laths of its fresh and bones, made to last a lifetime. Some of the window panes are broken, but that was done by the local kids when they were up to mischief and came to pester Rosalina (not with malice aforethought, just lads with nought better to do with themselves), and she hiding behind the curtains and drapes. The handrails of the wroughtiron balconies, with their stylized flowers, arrows, scrolls, esses and fretwork, have lost many of the wine-coloured cut-glass pine-cones which topped the support brackets and put a delicate finishing touch to the balconies.
Now then, look closely at the old manor, but with your memory, your heart – your mind’s eye, not your eyes so much, they’re only the access, it’s the way you look that counts. Look into the distance, look at the manor house as if you were looking in a mirror and try to see through to the other side, to the bottom of the lake, beyond the beyond, to the end of time. Go back in time, turn the clock back, come with me in your imagination; back to the time of Colonel Honorio – João Capistrano Honório Cota, to give him his full name, known to us all, a man of honour, the man you want to know all about, the man you’ve heard of already and know by reputation – we’ll talk about him later, about his properties, or rather his father’s – Lucas Procópio Honório Cota, a man known to us by hearsay, with a dark hidden past, tales told late at night, a shadowy figure, half legend half real, memories of him fading, the southerner come back from the backlands of Minas Gerais when the gold dried up, disastrously, and the mines fell silent; and they had to return and forget the stones and the gold, the impossible wealth they’d dreamt of, these cattle breeders, men of wealth, spendthrifts or skinflints, according to their nature or experience, now all landowners, lecherous, incestuous, nigger owners, land snatchers, paving this empty land with their children and slaves, riding hills and mountains, politicians and tax-evaders, they went planting farms, fencing corrals, setting up shelters and stores, scattering towns throughout the state of Minas, seeking the good growing lands, the red soil and other soils coloured by blood and tears – on his land, Lucas Procópio’s, donated by him all legal and above board, they built Carmo Church and the town square.
Go back in time, try to anyway. See the house as it used to be, not as it is or was just now. Pay attention to the structure, keep in mind the baroque and its transformations, note the form of the manor, see it as a whole, by itself, suspended (no, time! Halt your wheels and your sands, leave the house as it is, was just now, or used to be, just for us to see it, we want to see it; not possible with your destructive intervention, which merges and so distorts), for the moment, forget the signs, the silent messages of ruins, of disasters, of fate.
The house is in Carmo Square, where the church was sited. Carom Church was the town’s first stone and brick building. Afterwards Lucas Procópio had his house built (at the time only the lower part), and tried to parallel the style of the church, whose design and façade were meant to reproduce the experience the men had gained from the churches in Ouro Preto and São João del-Rei poorer, without the richly carved stone pediments which the baroque embellishes with its idle scrolls; and yet imprenssive, all white, with its stone door frames and corner stones, its paneled door, the two oriel windows, one either side, above the doorway, the cornices wrought in gentle curves and its single tower rising from the ridge of the gable roof. From the tower you have a bird’s eye view of the rows of houses that sprang up at the back of the church, against the wishes of the founders, who wanted to see carom Church rise supreme, towering over the town in front of it. From the tower you can see the square, a smooth empty stretch of flattened earth occasionally disturbed by sparkling dust devils, the cross in the centre of the square, the streets running down from it, the white walls of the cemetery, the gaping red-jawed craters at the side of the road leading out of the town.
(Rosalina knew every inch of Carmo Square, for ever behind the curtains watching the church, the houses opposite, the teacher training college, the road. Her vacant listless eyes would scan the heavy silence of the square, the solitude of a stretch of open ground at three in the afternoon, the cloudless summer sky, the sun baking the earth, blazing back from the white walls, the donkeys standing hobbled by the cross, their panniers empty, waiting for their owners – slow and tired, grazing with hard muzzles, bickering over the odd tuft of grass which forced its way through the hard earth – someone coming slowly into the square, trying to avoid the sun, and her eyes would follow with the indifference of someone killing time, until the person turned the corner of disappeared out of sight at the far end of the street.)
If you wish, you can see Rosalina, follow her every move, just as she used to watch the passers-by, though not with her glazed eyes, her listless indifference. But first, look at the house, leave Rosalina till later, there’s plenty of time.
In Lucas Procópio’s time the house had just the one storey, just like himself: thick-set, planted firmly on the ground, with its four windows and the door in the centre heavy, high, roughhewn. His son, Colonel Honório Cota, increased his father’s fortune and added to his state, changing its name to Little Stone Ranch. A man without his father’s roughness, more civilized you might say, paid a lot of attention to his appearance, prided himself on his bearing, a gentleman he was. Same with the house: he added a second storey to it and did it with taste. The ground floor lintels were heavy and straight, you might say they displayed the harsh, uncouth, morose character of old Lucas Procópio, while the lintels of the upstairs windows, set directly above the lower frames, were softened by a slight curve, embellished by the addition, above, of delicate cornices which continued the twist of the lintels.
When the mason Colonel Honório had sent for from so far away, just to refashion the house, said perhaps the best thing to do is put new lintels on the lower windows, with the same curve you want on the upper ones, I’ve seen plenty like that in Ouro Preto and São João, he pulled a face. The very idea, change things, he thought. I don’t want it all changed, he said. I’m not knocking down what my father put up. What I want is to add what I’ve got to what he had. I am him, now, inside, in the blood. The house must be the same, that’s how I want it. Him and myself. The man looked rather bewildered, couldn’t properly make out that peculiar bond of people and house, he being from other parts, so the colonel cleared his throat and said don’t you know your trade? Do what I’m telling you, then, think about it, put your brain to work and come up with a design. If it’s good, I’ll give my approval. The man was about to say something, talk about building practice, but the colonel cut him short. And see here, young man, he said, I don’t want it to look like two houses, one on top of the other. I want one single, whole house, him and me together for always, The mason saw the far away glint in his eye and realized that the colonel wasn’t talking to him anymore, but to someone far off or to no one at all. He spurred his mule and went about his business.
The mason chatted to the townsfolk, asking questions, trying to find out what old Lucas Procópio Honório Cota had really been like. It’s because of the house front, he explained carefully, in his reedy voice, afraid that someone might go and tell Colonel Honório that he was going about snooping into the life of the colonel’s late father, the illustrious Lucas Procópio Honório Cota.
Precious little he found out, except the murky stories of an old-timer dispensing his own form of justice, taking off with his slaves into those forests, invading, bargaining, swindling, hoodwinking, settling, enlarging his domains, a cacique, an absolute monarch. That harshness of his didn’t help with the design. Better after all to leave the lintels as they were. Perhaps he might agree to a cornice over the door, to add a touch of distinction. Yes he’ll like that. As for the door, I’ll make it double-leaved, nicely decorated, with good big panels, he won’t want to keep that crumbling old thing, more like a barn door, begging his pardon, though he’s not listening. What he won’t knock out are the lintels.
Me and him together for always, the mason hummed over and over while he worked on the design.
Contrary to what Colonel Honório suspected, the mason knew his trade. He made that squat house rise up from the ground like a tree, he gave it life and lightness. The mason weighed things up, attempting to fuse in a single whole (he balanced cubic masses, he aimed for a clear-cut symmetry in the apertures of the house front, making it soar upwards, light and airy) those two – the misty figure of Lucas Procópio and this other one, Colonel João Capistrano Honório Cota.
The manor was finished. At first sight no one would say – you’ve only just noticed yourself, after I spoke about it – that the house you see here began as another house. But if you look carefully you can see in the one house, in the one person, the features of two different people: Lucas Procópio and João Capistrano Honório Cota. Me and him together for always, the mason hummed over to himself, as he rode back home.
(…)
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Autran Dourado
Título: OS SINOS DA AGONIA, LA MORT EN EFFIGIE
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevieve Leibrich et Nicole Biros(fra)
Data: 26/12/2004
Deuxième journée
Fille du soleil, fille de la lumière
2
Autran DouradoMalvina n’avait guère prête attention lorsqu’elle avait entendu mentionner pour la première fois le nom de João Diogo Galvão. Encore un autre de ces innombrables aventuriers, sûrement, établis dans le Minas qui surgissaient à Taubaté au retour des mines et faisaient étalage d’une richesse, qu’ils ne possédaient pas véritablement. Par la suite ils se révélaient des gueux, ni plus ni moins, avec pour unique fortune une douzaine d’empans de soie chatoyante.
Ce que son père souhaitait le plus au monde c’était marier ses filles à l’un de ces magnats de l’or et du diamants si vantés et redorer ainsi un blason bien défraîchi et bien terni, qui accusait même de signes indubitables de ruine depuis que sa famille s’était vue forcée de quitter São Paulo pour s’intaller dans ce village de Taubaté. La malchance ayant voulu qu’il perdît presque tous ses biens dans les expéditions qui se montaient sans cesse pour la région des Mines. Comme tant d’autres avant et après lui, depuis que le bruit de la découverte de gisements d’or avait commencé à répandre.
Malvina n’y avait guère prête attention car elle savait que la première à partir, pour sauver la maison et ce lignage tant vanté de son père qui plongeait ses racines dans les livres les plus anciens du Roi, ce serait Mariana. Mariana était l’aînée, elle avait presque trente-cinq ans, ce qui faisait le désespoir de ses parents, épouvantés à l’idée de l’avenir sombre qui attendait une vieille fille dans une famille noble et appauvrie.
Non pas que Mariana fût laide, loin de là, elle était même jolie mais d’une joliesse dépourvue de piquant, pleurnicharde, encore que Mariana fût assez dégourdie dans d’autres domaines. Il se trouvait que les prétendanst étaient des mamelouks au teint plutôt basané ou même des mulâtres qui n’avaient pas froid aux yeux et qui masquaient leur carnation brune sous plusieurs couches de poudre et de pommade et se targuaient d’avoir réputation et fortune dans le Minas. Les Blancs de race pure étarent de pauvres hères, comme eux-mêmes, et si le père n’y prenait garde, au lieu de sauver son lignage, il lui porterait le coup de grâce. Après force enquêtes et maints envois de messagers, après dénombrements et vérifications des biens et des richesses qu’ils prétendaient posséder dans tel ou tel district du Minas (le vieux Dom João Quebedo en dépit de son grand âge et de ses cheveux blancs était, pour ces choses-là fort avisé et fort habile) il s’avérait que les prétendants ne possédaient pas un traître liard et ne pouvaient offrir pour tout potage qu’ample jactance et abondance de grelots.
Tous ceux qui s’étaient présentés jusqu’alors n’étaient que des miséreux quand ils n’étaient pas des va-ni-pieds effrontés ou de francs gredins. Tout comme les vêtements voyants et incongrus qu’ils arboraient pour faire parade d’une élégance qui, chez ces béjaunes et ces ignorants des règles, suscitaient les ricanements et les gausseries des jeunes filles de l’endroit.
Des nobles comme eux, d’une race pure et d’une généalogie connue, il y avait beau temps que le père avait cessé d’en souhaiter. Leur pénurie d’argent les enfoncerait davantage encore dans la misère et ce serait folie, déclarait le sage vieillard chaque fois que l’un d’eux l’approchait. Ils cessèrent vite de l’assiéger, ayant appris que le vieux Dom João Quebedo Dias Bueno était aussi impécunieux et déchu qu’eux. Cela se voyait au demeurant, à la maison constituée d’un seul rez-de-chaussée qu’il habitait en ville et plus encore à sa maison des champs laissée à l’abandon. En définitive ils avaient tous les mêmes visées, étaient tous gens de même farine.
Non pas que Malvina fût désintéressée et docile, ni qu’elle acceptât passivement l’ordre de préséance fixé par le père, après que la mère le lui eût subtilement soufflé. La mère, pourtant, avait perdu beaucoup de son autorité après le faux-pas qu’elle avait commis pendant que son mari était allé dans le royaume quêter la protection de parents qui avaient leurs entrées chez le Roi, faux pas dont était né son malheureux et bien-aimé Donguinho, honte et tristesse de toute la famille et une de raisons secondaires de leur installation à la compagne et après, à cause du manque de capitaux et de bras pour cultiver la proprieté, dans le village de Taubaté. Dom João Quebedo avait fini par accepter le maudit Donguinho et par accorder à sa Vicentina, par grandeur d’âme et charité insigne, un pardon qu’elle n’avait pas mérité et qu’elle ne méritait toujours pas car, quoique matrone maintenant, elle etáit restée chaude et ardente et disposée à toutes les dissipations sitôt qu’un mâle montrait le bout de l’oreille. Si naguère la mère commandait et régnait aujourd’hui elle se contentait d’insinuer et de suggérer ; c’était son mari qui décidait et ordonnait. Dom João Quebedo avait toujours été un homme plein de mansuétude et de superbe, il pardonnait les écarts de conduite de sa femme d’autant plus volontiers qu’il était de constitution chétive et qu’il ne l’avait jamais honorée avec la régularité voulue. D’ailleurs lui aussi avait quelques peccadilles de jeunesse à se reprocher mais il profita de cette naissance aberrante et douloureuse pour reprendre à sa femme les rênes du gouvernement. Cela s’était passé il y avait de longues années, trente pour être exact, précisément l’âge de Donguinho.
Malvina, donc, n’était pas aussé désintéressée et docile que cela. C’était une jeune personne déterminée et farouche, dont la volonté, le tempérament et la ruse étaient aussi développés que chez sa mère du temps de sa jeunesse. Outre qu’elle se savait beaucoup plus fraîche et plus jolie que Mariana, elle faisait fond sur ses charmes et ses appas, sur le pouvoir infaillible de ses machinations. Ses saints patrons avaient beau s’avérer très puissants, lui être d’un grand secours, elle se fiait d’abord à sa propre ténacité et à sa bonne étoile.
Ainsi, bien qu’âgée de vingt ans seulement, Malvina était une ourdisseuse persévérante et, à côté d’elle, Mariana n’était qu’une ombre. Une fois dévoilés les imposteurs et leurs prétentions creuses, que vienne le prétendant de bon aloi et elle saurait comment s’y prendre. Malvina possédait la science et la ruse de sa mère à quoi elle avait adjoint l’ambition de son père que seule avait desservi une bonhommie généreuse et paresseuse. Mais chez elle cette débonnaireté tranquille et nonchalante était simple apparence, mince vernis. En réalité elle était sa mère tout craché, c’était bien ce qu’on disait d’elle, elle en avait la beauté, la présence, le même pouvoir magique que Dona Vicentina dans sa jeunesse. Quand les gens disaient cela Malvina souriait d’un air espiégle et entendu. Elle tablait sur la douceur et le calcul, vertus qu’elle avait héritées de son père, elle ne se laisserait pas entraîner et égarer par l’impétuosité de sa mère. Le moment venu, elle saurait comment agir. Aussi souriait-elle et, aptiemment, elle attendait.
Par des personnes de toute confiance, désespérées à présent qu’or et petits cailloux brillants avaient commencé à se faire plus rares dans les cours d’eau et dans les gisements, ce qui avait mis un frein à la bruyante et folle allégresse générale, Dom João Quebedo fit vérifier, dans le Minas Gerais, qui était donc ce João Diogo Galvão qu’on lui avait présenté. Ce dernier lui avait fait part du sérieux de ses intentions et lui demané s’il pourrait lui rendre visite afin de faire connaissance avec sa famille. Vous allez vous en retourner dans le Minas, sur vos terres, dit Dom João Quebedo. Et moi je vais tâcher de m’enquérir de vos qualités et de vos mérites en recourant aux sources que vous m’avez indiquées. Et quand vous reviendrez ici nous aurons une conversation.
João Diogo hocha la tête en signe d’assentiment, ces façons étaient celles d’un honnête homme, conscient de ses devoirs. Mais Dom João Quebedo, que la méchanceté et les mauvais tours de la vie avaient échaudé, dit, pour mettre l’homme à l’épreuve : alors, nous sommes bien d’accord, si mes vérifications me donnent satisfaction, vous prenez l’aînée, celle qui se prénomme Mariana.
João Diogo grogna un « c’est d’accord » et – Dom João Quebedo ajouta : ma fille, en dehors de son nom et de son lignage, de sa vertu et de sa jolie tournure, de ses bonnes manières et de ses qualités (elle sait lire et écrire, ce qui n’est pas à négliger), n’a que très peu à offrir. Je n’ai aucun besoin de dot, dit João Diogo, Votre Seigneurie ne sait pas encore qui je suis. Si Votre Seigneurie après avoir procédé aux vérifications qu’elle m’a annoncées, m’acceple pour gendre, la jeune Mariana pourra m’accompagner dans le Minas en emportant uniquement la robe qu’elle aura sur le dos. Je me charge de la couvrir de joyaux et de gâteries, de parures et de tout le reste.
Dom João Quebedo rougit et sentit un fort tressaillement intérieur. Malgré sa pauvreté et sa décadence il gardait l’orgueil chatouilleux et la susceptibilité ombrageuse. Il avait le visage en feu. João Diogo evait sûrement se rendre compte de sa honte et de son humiliation. Même s’il était aussi riche qu’il le prétendait, et il avait dit cela sans la moindre vutrecuidance, ce qui l’avait beaucoup impressionné, l’homme n’en était pas moins un grossier et vil personnage, dessous son déguisement et l’habit élégant qu’il avait revêtu pour faire bonne impression. Dom João Quebedo ne l’amènerait pas chez lui avant d’avoir la certitude que ses filles, Malvina surtout, qui aimait tant rire, ne perdraient pas la tête et ne feraient pas toute échouer. Il voulait d’abord connaître la vérité sur l’étendue des richesses dont se targuait cet étranger. Prudence et eau bénite n’ont jamais fait de mal à quiconque, se dit-il en son for intérieur.
Un grossier personnage, un rustaud, puant certainement encore le nègre et le bougre, pensèrent pour lui son orgueil et son lignage. Mais il se souvint de son dénuement, de sa maison dont le chef était resté au Portugal, maison dont il était si fier. Il pensa à sa famille, à sa femme et à ses filles ; à ce Donguinho insane, à la douleur, à l’humiliation et à la honte qu’il devrait endurer toute sa vie jusqu’à ce que quelqu’un (à la campagne quand Donguinho parvenait à s’échapper dans les pâturages et dans les bois il crouvait les juments ; il s’évadait de sa chambre sans fenêtres, fermée à double tour ; bavant furieux, il faisait sous lui), ou lui-même, un jour de désespoir plus noir, le supprime. Il pensa à sa maison du village où il n’allait autrefois que pour les fêtes, devenue aujourd’hui sa demeure permanente, avec seulement six esclaves d’Angola pour le servir et gragner de quoi les sustenter lui et sa famille. Il pensa à ses terres et à ses propriétés, aujourd’hui sans aucune valeur ; à sa ferme de la Ribeirinha, laissée à l’abandon, à la forêt qui reprenait ses droits sur un sol défriché à grand-peine, au bâtiment d’habitation qui tombait en ruine. Il se souvint des temps d’autrefois, du temps de l’abondance, quand la ferme de la Ribeirinha était un bijou, un verger luxuriant ; il se souvint de sa plantation de cognassiers, de sa fabrique de conserves, de quelques deux mille caisses et plus, de pâte de coing et de pâte de goyage, qu’il envoyait à la ville de Bahia, des poiriers, des treilles, des figuiers, de la canne à sucre (il sentit même sur sa peau une brise imaginaire venue des anciens champs de canne à sucre), des chaudrons et des alambics ; des centaines d’esclaves au travail ; eds pâturages odorants, de la bouse de vache dans les corrals, de cette bonne odeur chaude qui parvenait à ses narines quand il contemplait paresseusement ses étables de loin, installé sur sa véranda ; de ses nombreux taureaux reproducteurs, de ses vaches pleines, de ses jeunes génisses intactes galopant et mugissant dans le crépuscule bleu-gris. Il fallait que tout cela ressuscite, doux Jésus ! Il avait tellement envie d’être heureux et de retrouver le sourire. Et dans ses rêves plantations et champs reverdissaient.
Plus loin encore l’écho d’un songe, la musique des violes et des luths, des clavecins, des harpes et des flûtes sonores, entendus dans la maison de ses parents restés au royaume, chaque fois qu’il était allé là-bas. Plein d’une haine bouillonnante il pensa à cette parentèle ingrate bien en cour auprès du Roi et qui aurait pu l’aider mais qui l’avait abandonné au moment où il aurait eu le plus besoin de secours pour recouvrer les capitaux considérables qui s’étaient évaporés dans les expéditions désastreuses où il s’était fourré, non pas personnellement mais comme bailleur de fonds, à un moment où tout ce qu’il aurait voulu c’était une recommandation auprès du Capitaine-Général du Minas et façon à obtenir de ce dernier quelques contrats qui lui auraient permis de s’installer à Vila Rica et ensuite, qui sait, à la Cour. Le vieillard rêvait, le vieillard extravaguait.
Il pensa à son dénuement cruel, aux privations endurées. Il pensa à la noblesse de son sang et à son blason, à son lignage et à la cotte d’armes dont il faisait toujours parade malgré sa déchéance et il sentit sa gorge se nouer, ses yeux s’emplir de larmes. Il pensa surtout à sa misère présente et en oublia tout son orgueil.
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Fonte : DOURADO, Autran. La mort en effigie : roman. Traduit par Geneviève Leibrich et Nicole Biros. Paris : A.M. Métailié, 1988. p. 98-104. [Traduction de Os sinos da agonia].
Segunda Jornada
Filha do sol, da luz
2Autran Dourado
Malvina não deu muita importância quando ouviu falar pela primeira vez no nome de João Diogo Galvão. Era com certeza mais um daqueles inúmeros geralistas que apareciam em Taubaté, de volta das Minas, aparentando mais cabedal do que na verdade possuíam. Depois se revelavam meros pingantes, não tinham de riqueza mais que duas braças de melcochado.
O que o pai mais queria era um daqueles tão decantados magnates do ouro e do diamante para casar as filhas e assim dourar o seu brasão desgastado e empalidecido, dando mesmo mostras de ruína, desde que se viu forçado a mudar de São Paulo para a vila de Taubaté, depois da má fortuna que teve jogando quase todo o seu cabedal nas bandeiras que partiam continuadamente para o país das Minas Gerais. Como tantos outros antes e depois dele, tão logo começaram a chegar as primeiras novas dos descobertos.
Malvina deu pouca importância porque sabia que a primeira a sair para salvar a tão apregoada casa e linhagem do pai, com raízes nos mais antigos livros do rei, devia ser Mariana. Mariana era a mais velha, andava beirando os trinta e cinco anos, o que deixava os pais desesperados com o futuro negro de uma solteirona em família nobre e empobrecida.
Não que Mariana fosse feia, ao contrário – era até bem bonita, mas de bontiteza sem graça, chorona, apesar de esperta para outras coisas. É que os pretendentes eram mamelucos de cor mais carregada ou mesmo mulatos ousados, que disfarçavam, a poder de muito pó e pomada, a sua trigueza, e alardeavam fama e cabedal nas Minas Gerais. Os brancos sem mancha de geração eram uns pobretões que nem eles, e se o pai não tomasse cuidado, em vez de salvar a sua linhagem, acabava perdendo-a de vez. Depois de consultas e mensageiros, feitas as contas e apurados os cabedais e haveres que alardeavam possuir nos distritos das Minas (o velho dom João Quebedo, apesar de entrado em anos e já nas cãs da velhice, era muito vizonho e ligeiro para essas coisas), verificava-se que os pretendentes não valiam dez réis de mel coado, só possuíam bazófia e guizos.
Todos os que tinham aparecido até então não passavam de uns pobretões, mesmo pés-rapados audaciosos, senão pícaros. Tudo feito as vistosas e impróprias roupas com que se vestiam para alardear uma casquilhice que neles, sem a sabença das regras e sem traquejo, eram motivo de riso e chacota entre as moças do lugar.
De nobres como eles, de prosápia e casta, há muito que o pai deixara de cuidar. Não trazer cabedal e alargar pobreza é que é desatino, dizia o sábio velho toda vez que um deles o procurava. Depois deixaram de aparecer, ficavam sabendo – o famoso dom João Quebedo Dias Bueno era tão pobre e decaído quanto eles. Aliás se via pela casa terreira onde morava na cidade e mais ainda pela casa da roça no abandono. Enfim, todos com a mesma pontaria, farinha do mesmo saco.
Não que Malvina fosse assim tão desprendida, bem mandada, e aceitasse passivamente a ordem de precedência estabelecida pelo pai, depois de sutilmente soprado pela mãe. Mas a mãe perdera muito a força depois daquela descaída, quando o marido andava pelo reino em busca da proteção dos parentes com privança na casa real, de que nasceu o seu bem amado e infeliz Donguinho, vergonha e tristeza de toda a família e mesmo uma das secundárias razões da mudança para a fazenda, e depois da falta de braços e cabedal para tocar a roca, para a vila de Taubaté. Dom João Quebedo aceitara aquele maldito Donguinho e acabou dando à sua Vicentina, por grandeza de alma e muita caridade, um perdão que ela nunca mereceu ou merecia, mesmo quando amatronada, sempre rubra e esquentada, nos esbanjamentos, perto de qualquer macho. Se a mãe antes mandava e imperava, agora se limitava apenas a insinuar e a soprar; quem decidia mesmo e comandara era o marido. Dom João Quebedo foi desde sempre um manso e soberano varão, perdoava as fraquezas da mulher, mesmo porque andava fraco e nunca a assistira com a desejada regularidade. Também ele tinha os seus pecadilhos de mocidade, mas se aproveitou daquele aberrante e doloroso nascimento para tomar da mulher as rédeas do comando. Isso há muitos anos, precisamente há trinta, que era a idade atual de Donguinho.
Malvina não era pois assim tão desprendida e bem mandada. Era moça de grande ânimo e vontade, de uma vontade, ânimo e astúcia tão grandes feito a mãe na mocidade. Além de se saber muito mais nova e bonita do que Mariana, confiava nos seus encantos e chamarizes, no poder infalível de suas maquinações. É verdade que os seus santos padroeiros eram muito fortes, ajudavam muito, mas ela confiava na sua própria fortidão e sina.
Assim, apesar dos seus vinte anos, Malvina era paciente tecedeira, Mariana virava uma sombra perto dela. Quando os enganosos desistissem e o bom e verdadeiro pretendente aparecesse, ela saberia como proceder. Malvina tinha a ciência e malícia da mãe, a que juntava a ambição do pai, que só a mansidão nobre e preguiçosa mansidão era apenas aparente, leve camada de verniz. Na verdade era a mãe cuspida e escarrada feito se dizia, tinha a mesma beleza e presença, o mágico poder de dona Vicentina na sua mocidade. Diziam e Malvina sorria maliciosa e sabida. Confiava nas mansas e calculadas virtudes herdadas do pai, não se deixaria arrastar e se perder pela afoiteza da mãe. Na hora saberia como fazer. E assim sorria, pacientemente esperava.
Por gente de sua inteira confiança nas Minas, agora desesperadas depois que o ouro e os seixinhos brilhantes começaram a escassear nos ribeiros e grupiaras, apagando a ruidosa e desvairada alegria, dom João Quebedo mandou apurar quem era aquele apresentado João Diogo Galvão. O geralista lhe falara de suas sérias pretensões e perguntou se podia visitá-lo para conhecer a família. Vossa Mercê vai de novo para as Minas, para as suas casas, disse dom João Quebedo. Vou procurar saber, pelas fontes que o senhor me deu, das suas virtudes e valimento. Na volta a gente se fala.
João Diogo assentiu com a cabeça, todo o seu jeito era de homem sisudo e cumpridor. Mas dom João Quebedo, muito escolado nas malícias e artimanhas da vida, disse, mais para provar o homem, fica assentado: se tudo correr bem nas apurações, a moça é a primeira, de nome Mariana.
João Diogo grunhiu um está bem, e dom João Quebedo ajuntou: a filha, além do nome e da casta, das virtudes e bom parecer, dos modos e prendas (sabe até ler e escrever, o que não é de desmerecer, disse), pouca coisa tina para dar. Não careço, disse João Diogo, Vossa Senhoria não sabe ainda quem eu sou. A moça Mariana, se Vossa Senhoria, depois da apuração que vai mandar fazer, me aceitar pra genro, levo ela prás Minas só com o vestido do corpo. De jóias e mimos, das belezas e do restante eu cubro o seu corpo.
Dom João Quebedo corou, sentiu um repuxão forte por dentro. Apesar de pobre e decaído, tinha ainda a prosápia e o orgulho muito vivos e quentes na alma, a cara queimando. João Diogo podia perceber a sua vergonha e humilhação. Mesmo sendo rico como dizia sem exagero, o que muito o impressionou, o homem era grosso e rasteiro, apesar do disfarce e das roupas de vestir que agora usava para bem impressionar. Não ia levá-lo em casa sem antes ter a certeza de que as filhas, Malvina sobretudo, muito risonha, perdessem o siso e botassem tudo a perder. Primeiro teria de saber a verdade sobre o forasteiro de por si tão apregoada riqueza. Prudência e água benta não fazem mal a ninguém, disse para si mesmo.
Um grosso, um rude, com certeza ainda fedendo a preto e bugre, pensaram por ele o seu orgulho e linhagem. Mas se lembrou da carência, da sua Casa, cujo principal ficava no reino, de que tanto se orgulhava. Se lembrou da família, da mulher e das filhas; do insano Donguinho, sua dor, humilhação e vergonha, que ele teria de aturar a vida inteira, até que alguém (se sôlto nos pastos e nos matos quando na roça: cobrindo éguas se escapulia do quarto sem janelas, trancado a sete chaves; baboso, mijando pelas pernas abaixo, furioso) ou ele próprio, num dia de maior desespero, o matasse. Se lembrou da sua casa na vila, onde antes só vinha para as festas, agora morada permanente, com apenas seis peças da Angola que lhe garantiam o serviço e o sustento. Se lembrou das terras e chão, agora sem nenhuma valia; da sua Fazenda da Ribeirinha no abandono, o mato recuperando o terreno perdido, conquistado a duras penas, a casa de morada caindo em ruína. Se lembrou de que antigamente, nos tempos de fartura, a fazenda da Ribeirinha era um mimo, um pomar viçoso; se lembrou da sua plantação de marmelo, do seu fabrico de conservas, das mais de duas mil caixas de marmelada e goiabada que mandava para a cidade da Bahia; das pereiras, das parreiras, das figueiras; das canas (chegou a sentir na pele a aragem imaginária vinda do antigo canavial), tachas e alambiques; das centenas de escravos labutando; dos pastos cheirosos, das bostas nos currais, o quentume bom no nariz, ele longe, do alpendre, só espiando preguiçoso; dos seus muitos bois de semente, das vacas cheias, das novilhas vazias saltando e mugindo no azul-cinzento do entardecer. Tudo isso carecia de voltar, meu Jesus! ele carecia muito de ser feliz e risonho. E em sonho a roça e os campos reverdeciam.
E mais longe, como um eco que se escuta sonhando, a música das violas e alaúdes, dos cravos e harpas e flautas sonorosas, das casas dos parentes no reino, das vezes que foi lá. Com ódio espumoso se lembrou da ingrata parentela, de muito valimento na privança del-Rei, que o abandonou quando mais carecia de ajuda para recuperar os grossos cabedais que foram se esvaindo naquelas mal sucedidas empreitadas das bandeiras em que se meteu, não de corpo mas emprestando, quando queria somente uma recomendação ao Capitão-General das Minas para conseguir uns contratos, para então se mudar, quem sabe para Vila Rica e depois para a corte? O velho sonhava, o velho tresvariava.
Se lembrou da sua carência doida, das privações. Se lembrou da sua casta e brasão, sua linhagem e cota d’ armas, que a sua humilhada nobreza ainda arrotava, e sentiu um apertão na goela, lágrimas nos olhos. Se lembrou principalmente da sua atual miséria, e pôs o orgulho de banda.
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Fonte: DOURADO, Autran. Os Sinos da Agonia. 3ª edição. Rio de Janeiro, Difel, 1977, p. 74-78.
Bio fornecida pelo palestrante.
Autor: Autran Dourado
Título: UMA VIDA EM SEGREDO, A HIDDEN LIFE
Idiomas: port, eng
Tradutor: Edgar H. Miller(eng)
Data: 26/12/2004
Autran DouradoQuem deu a idéia de trazer prima Biela para a cidade foi Constança. Deixa, Conrado, traz ela cá para casa, disse. Biela fica morando com a gente, pode até me ajudar com as meninas, fazer companhia. Olha, quando você vai para a roça, tem dias que eu sinto uma falta danada de alguém para conversar. De noite, então… Tem Mazília, se limitou Conrado na resposta. Mazília, disse ela, ainda é menina. Já é mocinha, disse Conrado, de pouca conversa.
A princípio Conrado não deu muito ouvido, tinha outra coisa em mente. A ele, como homem, competia decidir. Ainda mais agora, tutor e testamenteiro. Era calado, ordeiro, sério, compenetrado.
As vezes punha a questão em forma de pergunta, mas não era para a mulher responder, ela sabia: mais uma forma de pensar alto. Quem sabe não era melhor mandá-la para o convento das freiras, lá em Ubá? Ela podia dar um bom dote, e depois a herança, as freiras a aceitariam logo com gosto.
Constança, que não percebeu que o marido estava apenas pensando, ou fez que não percebeu, ponderou, não ia dar certo, Biela não tinha com certeza nem cartilha nem Trajano, nem educação direito, criada lá na roça, só com o pai, homem fechado e meio maníaco, que nunca saía do Fundão. E já era moça velha, para aprender. As freiras não aceitariam.
Não digo pra ser freira, disse Conrado esquecido de que estava apenas pensando. Que não sei nem se ela tem vocação. Pra morar lá com elas. Depois, quem sabe? se lhe desse vontade, podia até ser irmã serva ou leiga, sei lá como elas dizem. Pode prestar serviço. Constança, senhora da brecha que o marido abria na sua decisão, disse não fica bem, o que é que vão dizer de nós, de você que foi nomeado tutor e testamenteiro, mandar ela para longe, quando tem tanto lugar aqui em casa?
Conrado não gostava da idéia. A mulher não conhecia a prima, não sabia como ela era, como eram seus hábitos. Capaz de não dar certo. Moça criada na roça, sem mãe desde cedo, com suas maneiras lá dela, talvez não se desse bem morando na cidade com eles. Ele mesmo mal a conhecia, só vira a prima umas duas ou três vezes, quando tinha ido à Fazenda do Fundão tratar de uns negócios de gado com o primo Juvêncio Fernandes. Primo Juvêncio era seu primo por parte de pai. Se lembrava da primeira vez que viu Biela. Prima Biela só o cumprimentou porque primo Juvêncio disse vem cá dar bom dia pro primo. Ela o cumprimentou arisca meio de longe, estendendo-lhe as pontas dos dedos, os olhos no chão. Depois saiu ligeira para os fundos da casa, não apareceu mais. E a prima? disse ao se despedir, já no cavalo. Deixa pra lá, tem dessas esquisitices de ausência de moça solteira, desculpou o pai. Mas não está certo, foi Conrado pensando enquanto calcava de leve as esporas nos vazios do cavalo. Criar moça assim tão sozinha, desde menina, sem nenhuma mulher mais velha para gerir. Primo Juvêncio, quando prima Gasparina morreu, devia ter tomado de novo estado, ou vindo com a menina para a cidade. Mas não, primo Juvêncio era de outros tempos. Cismado, meio louco-manso-enfezado nas suas opiniões, ficou para sempre reinando sozinho no território do Fundão. O primo era de umas ausências de vista estranhas, ficava olhando enviesado uns longes para além dos cimos. Tinha até, de raro em raro, uns ataques de repelão e espuma, diziam que ficou bom no fim da vida, com umas ervas de seu Querêncio Gouveia. Conrado no fundo tinha medo, a coisa podia se repetir na filha Biela, essas histórias de herança de corpo e da alma. Nada, tem disso não, procurava se acalmar, histórias de gente sem oficio e ocupação. Depois, nunca tinha ouvido dizer nada de prima Biela, vocês sabem como estas coisas correm.
Conrado não gostava da idéia, cismarento. Pesava no prato de sua decisão uma razão muito escondida, que ele não queria nem pensar: primo Juvêncio Fernandes deixou escrito, foi o que explicou o tabelião, que o usufruto dos bens seria dele, enquanto Biela estivesse em sua guarda, menor que era, como convinha. Esta parte ele não contou a ninguém, nem à mulher, para que Constança não o ajudasse a pensar claro demais.
Conrado não gostava da idéia mas acabou cedendo. No fundo já se decidira, quaisquer que fossem as conseqüências. Agora era arranjar as razões de espírito, para a alma quieta, tranqüila, no remanso. Não foi difícil, as artimanhas, os esconde-escondes da alma. Afinal não era sua prima? Juvêncio não lhe queria tanto, não tinha tanta confiança nele, não o encarregara de tudo em testamento e por boca? Da Fazenda do Fundão, do dinheiro no banco, dos títulos e jóias de prima Gasparina. Depois, tinha as suas vantagens ela ficar morando com eles – podia, com ela perto, cuidar melhor de seus negócios, ouvi-la nas suas vontades, ver juntos o que iam fazer da Fazenda do Fundão. A Fazenda do Fundão era de muitos e muitos alqueires de terra. Tudo terra boa, terra roxa de café. Os cafezais eram velhos, é verdade, mas havia ainda muita terra livre, pastos sem fim, o gado, muito gado. Conrado fazia o arrolamento, pensava e repensava. Com ela perto, seria mais fácil defender os interesses de prima Biela. Depois, Constança queria tanto, fazia tanto gosto, alvoroçada com a novidade.
Está bem, disse ele, que já tinha concordado com a idéia da mulher mas não queria dar parte de fraco; vou pensar e depois que eu decidir, a gente se fala. Constança se alegrou, sabia que vencera. Não disse nada, escondeu a alegria, conhecia Conrado, respeitava-o, sabia como lidar com ele.
Daí a uns dias Conrado mandou arrear a besta Gaúcha, encher os alforjes, e foi buscar prima Biela na Fazenda do Fundão.
A chegada de Biela marcou época para os meninos. Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu e Silvino ficavam impacientes, toda hora chegando na janela para ver o pai apontar no fim da rua: a sua grande figura na besta Gaúcha toda branca, leve e firme, os peitos largos e trotando, o melhor animal de sela da Fazenda do Quebra. De vez em quando, a própria Constança chegava para ver se já vinham vindo. Tudo pronto, o quarto da sala onde ficaria prima Biela preparado, ela também se impacientava com a chegada.
Só chegaram lá pela tardinha.
E vem eles, gritou Alfeu para dentro de casa, chamando os outros, que tinham desistido de esperar. As meninas se atropelaram para ver quem chegava primeiro e garantia melhor lugar na janela, de onde podiam ver bem o pai na besta Gaúcha e a prima Biela num cavalo que não sabiam como era.
Alfeu e Silvino na verdade se preocupavam mais com a besta Gaúcha, gostavam de cavalos, queriam saber como era a montaria da prima. Já imaginavam que poderiam no outro dia sair para umas voltas pela cidade e pelos matos ali por perto, cavalgando desabalados. As meninas é que cuidavam mais da figura de prima Biela. Queriam saber como era o jeito dela, os modos de moça fazendeira, os vestidos dela. Faziam planos, preparavam conversas, urdiam as histórias que haviam de contar, muito perguntadeiras.
O pai vinha na frente. O vulto alto, o chapelão para trás, senhor do animal, bom cavaleiro.
Os meninos desceram para a rua, queriam ser os primeiros a ver; queriam, já montados, levar os animais para dentro do quintal, ajudar Gomercindo a desencilhar.
A besta Gaúcha trotava grande, bem balanceado, branca, o peito empinado, batendo picado os cascos ferrados de pouco. O pai deixava o corpo seguir o molejo da besta. Mais perto puderam ver que apressava o passo. Como o pai fazia quando desejava que Gaúcha trotasse ligeiro: esporeava em pequenos arrancos os vazios do animal. Mais atrás, na poeira do pai, o cavalo de prima Biela, um pampa meio ronceiro. O corpo malhado, vermelho e branco, a cara branca. Se o pai deixasse, Alfeu, que era o mais velho, ficaria com a Gaúcha e Silvino com o pampa.
Olha ela, disse Fernanda, a menorzinha, para as irmãs, apontando a prima que chegava da Fazenda do Fundão.
E viram como prima Biela, para alcançar o trote da besta Gaúcha, batia desajeitada e deselegante o chicote nas ancas do cavalo malhado. Não disseram nada, olharam apenas meio desiludidas a figura miúda e socada que vinha encilhada no cavalo pampa, debaixo de uma sombrinha vermelha desbotada.
Enquanto os meninos seguravam as rédeas dos animais que impavam resfolegantes, cansados da caminhada de muitas léguas, o pai procurou ajudar Biela a descer do silhão. Não foi preciso, ela fez que não queria, de um salto estava no chão. Meio cambaleante ainda, primeiro cuidou de ajeitar as pregas da saia de chitão amarrotada; depois verificou se os botões da blusa estavam nas suas casas; finalmente alisou os cabelos pretos empoeirados que tinham escapulido do coque. Compunha um tanto envergonhada, num recato medido de quem queria aparentar bem, a sua figura. Em nenhum momento ergueu o olhar para as janelas onde as meninas se apinhavam, para Constança. Como os pés procuravam se acostumar ao chão, os olhos baixos também buscavam raízes na terra.
As meninas repararam em tudo: a sombrinha vermelha desbotada de cabo comprido, as botinas de cordão que apareceram quando ela saltou do cavalo, a saia muito comprida quase se arrastando no chão, a blusa de botõezinhos fechada até pescoço, os gestos todos que ela fez. Não viram a cara, que ela trazia sempre baixa. Mas viram o coque grosso, baixo, de longas tranças, empoeirado.
Constança, gritou o pai já na porta da sala, a prima chegou. Vai entrando, a casa é sua, voltou-se para trás.
Parada na soleira da porta, prima Biela esperava, esperava não sabia o quê, assustada feito súbito um animal pára na estrada, estranhando.
(…).
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Fonte: DOURADO, Autran. Uma vida em segredo. 12a.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 29-36.
Autran Dourado
It was Constança’s idea to bring Cousin Biela to the city.
“ Look, Conrado, bring her here to the house,” she said. “Biela can live with us. She can even help me with the children, keep me company. You know, when you go to the farm there are times when I want to talk to somebody so badly I don’t know what to do. And at night…”
“ You have Mazília,” Conrado replied.
“ Mazília,” she said, “is still a little girl.”
“ She’s already a young lady,” replied Conrado, who was not given to talking much.
At first, Conrado didn’t pay much attention to the idea. He had something else in mind. It was up to him, as man of the house, to make the decision. Even more so because he was guardian and executor of the will. He was quiet, peaceable, serious, responsible.
Sometimes he put it as a question, though his wife should have known that it wasn’t meant for her to answer. It was more a way of thinking aloud. “Don’t you think it would be better to send her to the convent over in Ubá? She could give a good dowry and later her whole inheritance. The sisters would be happy to take her.”
Constança, who didn’t realize that her husband was only thinking aloud (or at least she acted as if she did not realize it), said she did not think it would work out. Biela had not had any formal education, she hadn’t even learned her ABC’s, being raised out there in the country with only her father, a sullen, half-crazy man who never left Fundão. And she was already too old to be learning. The sisters wouldn’t accept her.
“ I don’t mean to become a nun,” Conrado said, forgetting he was only thinking aloud. “I don’t even know if she has the calling for it. I mean to live there with them. Later… Who knows? If she wanted to, perhaps she could even become a lay sister, or whatever it is they call them. She could help them out.”
Constança, master of the breech her husband had opened in his decision-making, said it wouldn’t be good.
“ What are they going to say about us, about you as guardian and executor, if we send her way off when we have so much room here at home?”
Conrado didn’t like the idea. His wife didn’t know what his cousin was like, didn’t know her habits. It was likely not to work out. A young girl raised in the country, without a mother since she was a baby, with those manners of hers. Perhaps she wouldn’t be able to adapt to life in the city with them. He himself didn’t know her well. He had only seen his cousin two or three times when he had gone to Fundão Farm to work out a cattle deal with Juvêncio Fernandes, a cousin on his father’s side. He recalled the first time he had seen Biela. Cousin Biela had only greeted him because Cousin Juvêncio told her to “come over and say good morning to your cousin.” She shook hands shyly without getting too close, giving him the tips of her fingers, eyes downcast. Then she ran quickly to the rear of the house and didn’t come back. He had asked about her again when he was already on his horse, ready to leave.
“ Oh, don’t bother about her. She has the peculiarities of an unmarried girl,” her father explained.
But it’s not right, Conrado had thought as he gently dug his spurs into the flanks of his horse, to bring up a girl from infancy that way, in such loneliness, without any older woman to guide her.
After Cousin Gasparina died, Cousin Juvêncio should have married again or brought the girl to town to live. But no, Cousin Juvêncio was of other times. Moody, half-crazy, narrow-minded, he stayed there reigning alone over the territory of Fundão. He used to get strange looks in his eyes. He would stare as if he were looking beyond the far-off mountains. He even had some occasional attacks with convulsions and foamed at the mouth. They said he was cured toward the end of his life by some herbs from Querêncio Gouveia. Conrado was afraid this would repeat itself in the daughter, Biela. He had heard stories of heredity in the body and the soul. There is nothing to this, he thought, trying to calm himself. These are stories from people who don’t really have any way to know what they are talking about. And he had never heard of anything like that in Cousin Biela. You know how these things get around.
Conrado did not like the idea at all. Weighing heavily in his decision was a reason he kept carefully hidden, one about which he didn’t even wish to think. Cousin Juvêncio Fernandes had left it written, the probate clerk had explained, that the use and profit of his estate would be Conrado’s as long as he needed them while Biela was under his care, minor that she was. He didn’t tell this to anybody, not even his wife, because he didn’t want Constança to help him think too clearly.
Conrado didn’t like the idea, but in the end he gave in. At heart he had already decided, whatever the consequences. Now he had to arrange the reasons of the spirit so that the soul could be quieted, stilled, lulled. It wasn’t too hard to justify it in the depths of his soul. Didn’t Juvêncio like him that much? Didn’t he have that much confidence in him? Didn’t he charge him with everything, both in the will and by word of mouth? Everything. From Fundão Farm to the money in the bank, the bonds, and Cousin Gasparina’s jewels. Of course there were some advantages to having Biela live with them. With her close by, he could take better care of her business, hear her wishes, plan with her what to do about Fundão Farm. The farm had many, many acres of land. All of it was good land, coffee land. The coffee trees were old, it’s true, but there was still a lot of unused land, pasture without end, and cattle, a lot of cattle. Conrado would make the inventory, think it over again and again. With Cousin Biela nearby, it would be easier to protect her interests. And Constança would like it so much. It would make her very happy. She would be all aflutter with the novelty.
“ Very well,” he said. He had already agreed with his wife’s idea but he didn’t want to appear weak. “I’ll think about it and then I’ll decide. We will talk about it.”
Constança was happy. She knew she had won. She said nothing, hid her happiness. She knew Conrado, respected him, knew how to get along with him.
A few days later, Conrado ordered his horse, Gaúcha, saddled, filled his saddlebags, and rode off to get Biela at Fundão Farm.
Biela’s arrival was a big event for the children. Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu, and Silvino waited impatiently, running to the window every few minutes to see if their father had turned into their street, his grand figure astride Gaúcha, solid white, light and firm, her chest wide. She was the best saddle animal from Quebra Farm. Occasionally, Constança herself would go to see if they were coming. Everything was ready. The room in which Biela would stay was prepared. Constança also grew impatient for the arrival.
It was late when they arrived.
“ There they come!” Alfeu shouted into the house, calling the others, who had already given up watching. The girls fell over one another trying to see who could reach the window first and get the best place to see their father on Gaúcha and Cousin Biela on a horse they had never seen.
Alfeu and Silvino actually were more interested in seeing the horse Gaúcha. They liked horses. They wanted to see what kind of horse their cousin was riding. They already were imagining how they would go out for a ride the next day for a few turns around town and in the nearby countryside, riding with the wind. The girls were more concerned about Cousin Biela’s looks. They wanted to see what she was like, see the style of the farm girl, her dresses. They made plans, imagined conversations, spun the stories they had to tell, thought of many questions to ask.
Their father rode in front, sitting tall, hat pushed back, master of his animal, a good horseman.
The boys ran down to the street. They wanted to be the first to see. They wanted to mount the horses and take them into the yard and help Gomercindo unsaddle them.
Gaúcha trotted grandly, well balanced, white, chest out, her newly shod hoofs beating out a staccato rhythm. Conrado let his body move with the motion of the horse. As he drew closer they could see him step up the pace. As he did when he wanted Gaúcha to trot faster, he spurred the animal’s flanks with short jabs. Farther back, in his dust, came Cousin Biela’s horse, a rather sluggish cow pony. It was a red and white pinto with a white face. If their father would let them, Alfeu, who was the eldest, would take Gaúcha and Silvino could have the pony.
“ There she is,” cried Fernanda, the youngest, to her sisters, pointing to the cousin who was arriving from Fundão Farm. And they saw Cousin Biela trying to keep up with Gaúcha, clumsily and inelegantly beating the riding crop on the rump of the pinto horse. They said nothing. They watched, a little disillusioned, the small, squat figure approaching on the cow pony under a faded red parasol.
While the boys held the reins of the horses, panting and tired from the long journey, their father tried to help Biela down from the saddle. It wasn’t necessary. She indicated that she didn’t want help, and with a leap was on the ground. Still reeling a little, she first tried to adjust her rumpled calico skirt. Then she made sure all the buttons on her blouse were buttoned. Finally she tried to smooth down the dusty black strands of hair which had escaped from their bun. She acted a little embarrassed, with the measured shyness of someone wanting to look well. She never lifted her eyes to look at the windows where the girls had stationed themselves, or to Constança. As her feet sought to adjust to the ground, her lowered eyes seemed to seek the roots in the earth.
The girls saw everything, the faded red parasol with the long handle, the high-topped, laced shoes that appeared when she jumped from the horse, the long skirt that almost dragged the ground, the blouse buttoned to the neck, the gestures she made. They didn’t see her face because she always looked down. But they saw the thick bun low at the back of her head. It was made of long braids and covered with dust.
“ Constança,” yelled the father at the door of the living room, “our cousin is here! Come on in. Make yourself at home.” She turned around.
At the doorsill, Cousin Biela stopped. She didn’t know why but she froze like an animal suddenly startled on the road.
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Fonte: DOURADO, Autran. A hidden life. Translated by Edgar H. Miller, Jr. New York: Knopf, 1969. p. 3-11.
Bio fornecida pelo palestrante.