EXPEDIÇÃO MONTAIGNE




Autor: Antônio Callado
Título: EXPEDIÇÃO MONTAIGNE, EXPÉDITION MONTAIGNE
Idiomas: port/fra
Tradutor: Jacques Thiériot
Data: 23/12/2004

EXPEDIÇÃO MONTAIGNE

CAPÍTULO X

Antônio Callado

Desde a morte de Maria Jaçanã ninguém mais tinha procurado Ieropé para fumigação, massagem, receita, conselho, consolação e nem mesmo papo, companhia, mexerico, nada, como se ele, feito a Jaçanã, já tivesse morrido e sido enterrado na beira da lagoa. O único sentimento que ele ainda parecia capaz de despertar era o da suspeita, da desconfiança, não alguma suspeita de susto e medo, como ele inspirava, e gostava de inspirar, antigamente, e que se devia a suas ligações evidentes, profissionais mesmo, com o mundo dos espíritos, dos mortos, com alma dos que adormecem pra sempre e que está ainda sem pouso certo. Ele tinha sido quando moço homem de grandes có1eras e cegas iras que levantavam até as pálpebras dele, redondas e hirtas feito batoque de pau de beiço de suiá, e, quando se passavam muitos dias nem nada enraivecer ele, Ieropé de repente fingia que estava furioso e aterrava a aldeia inteira, pra não perder o pique e o respeito geral entre os vivos e entre as almas também, que, amedrontadas, ficavam mais dóceis, mais submissas, boas de arregimentar, aperfeiçoar, na medida do possível, e trancar de novo, em seres de concepção recente. Gostava de dominar e até de humilhar, naquele tempo, as almas experientes, ávidas de atividade, mandonas, mas sem membros, no momento, sem ferramentas, e de pôr ordem entre as almas rebeldes, preguiçosas ou apenas brincalhonas, que, em lugar de aceitarem logo nova encarnação, achavam engraçado cair na vagabundagem, atormentando os vivos ou se divertindo à custa deles, pregando sustos, se enfiando em cana de taquaras pra gemer feito flauta, ou, o que era mais grave, invadindo pessoas ainda vivas e ocupadas, que ficavam assim com duas almas, o que quando não dava em doidice visível dava em bobeiras sem razão e extravagâncias.

Agora, sem a veneração e o pavor dos vivos, Ieropé sentia que as almas de folga, disponíveis, começavam também a não ligar pra ele, ao ponto de, durante um tempo, terem passado a obedecer muito mais ao aprendiz que ele tinha tido, o menino Javari, muito talentoso e severo na lida com alma destrambelhada e metida a valente e emancipada. Mas o que balançava mesmo de vez a oca e a cuca de Ieropé no abandono em que ele vivia – e que ele quase aceitava, como alguma treda tramóia de Maivotsinim, que estava, Ieropé achava que era isso, fazendo ele ficar sozinho, sem ninguém, pra ele poder pensar e pensar o tempo todo e resolver como é que ela ia, com feitiços, destrançar Fodestaine, desmanchar a vida que ele tinha vivido – era, em primeiro lugar, aquela guerra do filho e parentes da Maria Jaçanã. O filho, em vida dela, não ligava pra ela e cuidava tão bem dela quanto da puta que pariu, mas agora vivia dizendo que Ieropé tinha matado ela porque não tinha dado a ela penicilina, como se depois de aparecer essa merda de penicilina do Fodestaine ninguém mais que tomasse penicilina tivesse morrido no mundo inteiro. E ainda tinha o pessoal da BR-080, com aquela conversa de que a morte do albino branco-aço, colega deles, que era cor-de-rosa mas tinha alcunha de Baio, não ficava assim não, que eles não tinham visto a hora que ele levou a cacetada mas sabiam que quem tinha dado a cacetada tinha sido o pajé. Tinha, sim, tinha sido o pajé e com uma bordunada na cabeça do Baio que não era de ninguém botar defeito ou pedir penicilina pra racha não, mas certeza, certeza ninguém tinha que tinha sido ele e o Baio bem que merecia, correndo atrás de tudo que era indiazinha camaiurá saidinha da escuridão do resguardo, e…

Mas o velho pajé tudo agüentava porque sabia que estava protegido por todos os cantos, por três forças de três almas de três mortos que ele tinha resolvido hospedar e guardar: um tuxaua, um lutador de huka que nunca tinha sido pego pela perna e nem nunca tinha deitado no pó do terreiro, e um pajé, que atendia pelo nome de Kutumapu, tão poderoso que não dava a confiança de dar ordem aos homens e às mulheres, só se entendendo, quando eles estavam dormindo, com as almas deles, que saíam dos corpos e vinham fazer beiju pra ele e depois colocavam a vontade dele, pajé, dentro dos corpos, quando voltavam. Pois essas forças prisioneiras de Ieropé sabiam que, no albino branco-aço chamado Baio, Ieropé tinha tido o aviso que aguardava, da terceira vinda de Fodestaine, que não era albino, nem branco-brasileiro, era lourão mesmo, mas o Baio até que tinha parecido louro, visto pela frincha da pálpebra pesada do pajé. E era aviso, lá isso era, e se ele tivesse tempo de pensar e pensar como queria e como Maivotsinim mandava, ia saber destrançar o tempo, desmanchar, desfazer, desfiar até chegar diante de Fodestaine e não deixar nem permitir que ele tivesse tido o descaramento de acontecer.

(…).

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Fonte: Callado, AntonioA Expedição Montaigne: romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 53-56.

EXPÉDITION MONTAIGNE

Chapitre X

Antônio Callado

Depuis la mort de Maria Jaçanan, personne n’avait plus recouru à Iéropé pour une fumigation, un massage, une prescription, un conseil, une consolation, ni même une converse, une compagnie, un cancan, rien, comme si lui, pareil que la Jaçanan, était, déjà mort et enterré au bord du lac. Le seul sentiment qu’apparemment il était encore susceptible de susciter, c’était la suspicion, la méfiance, mais ce n’était plus la suspicion provoquée par la crainte et la peur qu’autrefois il inspirait, et aimait inspirer, et due à ses liens évidents, professionnels même, avec l’âme de ceux qui dorment pour toujours, avec les âmes qui n’ont pas encore trouvé leur asile définitif.

Dans sa jeunesse, Iéropé avait été un homme porté à de grandes colères et des fureurs aveugles qui allaient jusqu’à lui exorbiter les paupières, rondes et roides comme les rondelles de bois dont les Souïas s’incrustent la lippe, et quand plusieurs jours s’écoulaient sans que rien ne le mêt en rogne, il feignait soudain d’être furieux et terrorisait tout le village, pour ne pas perdre son allant non plus que le respect général aussi bien des vivants que des âmes qui, épeurées, devenaient plus dociles, plus soumises, faciles à enrégimenter, à perfectionner, dans la mesure du possible, et à enfermer de nouveau dans des êtres récemment conçus. Il aimait dominer, et même humilier, à cette époque, les âmes expérimentées, avides d’activité, autoritaires, mais sans membres, pour le moment sans attributs, et également imposer l’ordre parmi les âmes rebelles, paresseuses ou simplement espiègles qui, au lieu d’accepter d’emblée une nouvelle incarnation, trouvaient amusant de se laisser aller au vagabondage, tourmentant les vivants ou se divertissant à leurs dépens, leur fichant la frousse, s’enfilant dans des tiges de bambou pour gémir comme une flûte, ou bien encore, circonstance aggravante, envahissant des personnes encore vivantes et déjà habitées qui du coup se retrouvaient avec deux âmes, ce qui provoquait chez ces personnes, sinon une insanité manifeste, du moins des lubies et des extravagances.

A présent, privé de la vénération et de la peur des vivants, Iéropé subodorait que les âmes désoeuvrées, disponibles, commençaient à leur tour à ne plus se soucier de lui, la meilleure preuve c’était que durant un certain temps, elles s’étaient mises à obéir à son apprenti de l’époque, le jeune Javari, plein de talent et de sévérité dans l’art de se colleter avec les âmes écervelées, fanfaronnes et émancipées. Mais ce qui faisait vaciller pour de bon la paillote et la jugeote d’Iéropé dans l’abandon où il vivait – et qu’il acceptait presque, comme une traîtresse manigance de Maïvotsinim, oeuvrant, se figurait Iéropé, pour qu’il se retrouve tout seul, sans personne, à devoir penser et repenser sans arrêt, à décider comment est-ce qu’il allait, grâce à ses sortilèges, détortiller Foutestaine, démantibuler la vie qu’il avait vécue – c’était, au premier chef, cette foutue guerre que lui faisaient le fils et la parentèle de Maria Jaçanan. Le fils, quand elle était encore en vie, ne s’occupait pas d’elle et s’en foutait de son sort, mais maintenant il passait son temps à dire que Iéropé l’avait tuée parce qu’il ne lui avait pas donné de pénicilline, comme si après l’apparition de cette saloperie de pénicilline de Foutestaine plus personne qui en aurait pris ne serait mort dans le monde entier. Et par-dessus le marché Iéropé avait sur le dos les ouvriers de la nationale BR-80 qui répandaient que la mort d’un de leurs copains, un albinos à la peau rose mais surnommé le Bai, ça n’allait pas se passer comme ça, ils n’avaient pas vu l’heure où il s’était dégusté son coup de casse-tête mais ils savaient bien que çui qui l’avait donné, le coup de casse-tête, ç’avait été le pajé. Effectivement, le pajé était l’auteur du coup, un coup impeccable qui avait si bien fendu la cafetière du Bai que même la pénicilline ne l’aurait pas ramené à la vie, mais dire qu’on était sûr et certain que ç’avait été le sorcier personne ne pouvait et après tout le Bai n’avait eu que ce qu’il méritait, à force de cavaler aux trousses de toutes les petites Indiennes camaïouras qui s’esbignaient de l’obscurité de leur retraite rituelle et…

Mais le vieux pajé supportait tout parce qu’il se sevait protégé par les trois forces de trois âmes de trois morts qu’il avait décidé d’accueillir et de garder : un chef de tribu, un lutter de houka-houka qui n’avit jamais été empoigné par la jambe ni renversé dans la poussière de la lice, et un pajé, qui répondait au nom de Koutoumapou, si puissant que, se méfiant de donner des ordres aux hommens et aux femmes, il n’avait de commerce, pendant leur sommeil, qu’avec leurs âmes : celles-ci sortaient des corps et venaient lui offrir des cassaves et ensuite mettaient ses volontés de pajé dans ces corps, quand elles y retournaient. En effet, ces forces captives de Iéropé savaient que par l’intermédiaire de l’albinos surnommé le Bai Iéropé avait reçu l’avertissement qu’il attendait, celui de la troisième venue de Foutestaine qui n’était ni albinos ni blanc-brésilien mais parfaitement blond, car le Bai déjà, vu à travers la fente des paupières lourdes du pajé, pouvait passer pour blond. C’était un avertissement, à n’en pas douter, et s’il avait le temps de ressasser ses pensées comme le voulait et l’ordonnait Maïvotsinim, il saurait détortiller le temps, le démantibuler, le défaire, le défiler jusqu’à tant qu’il se retrouve face à Foutestaine, à qui il devait défendre, interdire d’avoir eu l’outrecuidance d’exister.

(…).

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Fonte : Callado, AntonioExpédition Montaigne : roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris : Presses de la Renaissance, 1989. p. 55-58.





Bio fornecida pelo palestrante.

SEMPREVIVA




Autor: Antônio Callado
Título: SEMPREVIVA
Idiomas: port/ita/fra
Tradutor: Vicenzo Barca(ita), Thiériot(fra)
Data: 23/12/2004

SEMPREVIVA

Capítulo 2

Antonio Callado

Antes de sair do quarto, mão direita já na maçaneta da porta, Quinho, espalmando a mão esquerda, olhou, como era de seu hábito, a cicatriz de um talho do dias de menino, quando limpava, para fazer um bodoque, uma forquilha de goiabeira. Depois, por um segundo, olhou, como se fosse um objeto estranho, sua outra mão, fechada sobre a maçaneta, sacudiu a cabeça, impaciente consigo mesmo, e abriu a porta, assumindo um ar resoluto de homem prático para ir, no sonolento, deserto refeitório da pensão, ao encontro de Pepe.
Postado à mesa diante de uma garrafa de vinho, Pepe – tristes bigodões de salgueiro de beira-rio, de guias tão compridas e cadentes que pareciam mirar, com certa intencionalidade, os canos das botas que o boliviano calçava – começou logo a falar, como se não tivesse interrompido a conversa da véspera, macia, emoliente, destinada a convencê-lo de que passar a fronteira era para ele, Quinho, nada mais do que a visita, a volta à casa paterna, o abrir da velha cancela, do portão de outrora, familiar, acolhedor. Enquanto isso Quinho, sorvendo da xícara um café quente, amargo, via com uma poeirenta clareza que ela própria não tinha, a estrada, o caminho boliviano, aquele cordão de umbigo esticado no chão e que levava ao portão, à gruta das grades e hastes de ferro.
— Pode entrar tranqüilo com seu cartão de identidade, mesmo velho, mesmo caducado. Entre não como quem chega, ou retorna, e sim como se tivesse vindo passar, em Puerto Suárez, umas horas apenas, para comprar um litro de uísque, um canivete suíço, um chapéu panamá. Entre com um ar despreocupado, malandro, que sua pinta é bem brasileira, não podia ser mais, com esse tom morenito de pele, olho castanho, cabelo preto, metro e setenta, entre firme, rapaz, pise forte, a casa é sua.
Como Quinho continuasse soprando e bebendo devagar o café, Pepe se levantou, pediu a Quinho que se pusesse de pé um instante, e deu-lhe a volta, observando-o de perto, quase a medi-lo, feito um alfaiate provando roupa no cliente.
— A única coisa que você devia perder é esse ar meio nervoso, os, se me permite, trejeitos, feito isso de olhar a palma da mão esquerda e de passar de vez em quando o dedo pelo colarinho, feito quem usa gravata e sente a pressão no pescoço.
— Pois é, disse Quinho, colocando a xícara de mau jeito no pires, o que a fez tombar, e pondo-a de novo de pé, com exagerado cuidado, é que eu de fato usava gravata, até outro dia, até trasanteontem, para ser preciso, e a gente custa a cancelar um gesto assim, adquirido com o tempo, e com a gravata, naturalmente. E agora pense e me diga: eles não podem inferir por aí, pelo meu tique, que se eu usava gravata, como aliás meu pescoço branco também atesta, e se ninguém a usa em Corumbá, ou aqui, que eu venho de outras terras e portanto devia apresentar um passaporte de verdade, ou pelo menos um documento direito, com todos os selos e datas?…
— Qual o quê, tira isso do juízo que eu conheço todos os funcionários que estão hoje de serviço na barreira, um deles é até meu afilhado de batismo, moço ainda e já é influente na aduana. Não tem nada que ele goste menos – e os outros, nem se fala – do que de papel esquisito, Nações Unidas, bossa-nova, que eles têm que telefonar para saber se vale, se é aquilo mesmo. Os melhores documentos que você trouxe estão aí, na bagagem de mão, os isqueirinhos franceses, os cigarros americanos, um ou outro charuto Montecristo, esses agradinhos que não chegam, nem de longe, a ter cheiro de suborno, e que eu, para fechar a rosca da sua travessia, vou reforçar com um punhado de garrafinhas de uísque, miniaturas, chamadas. Bota as miniaturas na sacola e pé na carreteira, rapaz, que a hora assim da tardinha, da sesta, é a melhor, pois estão todos com preguiça. Não quer um gole de vinho?
— Não, gracias, disse Quinho, como se estivesse empenhado em dividir, idiomática e tordesilhescamente, aquela terra lindeira, ibérica. E emborcou uma primeira miniatura de uísque, virando bem a cabeça para trás, como quem morde um bombom de licor e tem medo de melar a roupa, e, quase sem abaixar a cabeça, destorceu a tampinha da segunda miniatura e bebeu. Olhou depois, fixamente, a palma da mão esquerda, esperando que os dois imensos goles se transubstanciassem, fazendo saltar do velo talho, armado dos pés à cabeça, um voluntário da pátria, um lanceiro ébrio de bravura.
— Agora, vá, disse Pepe, que está ficando tarde, e de qualquer forma, para o que der e vier, aviso minha sobrinha, observação esta, afinal, que Quinho não entendeu, ou, aflito mas sentindo o prenúncio de miniaturizadas alquimias dentro de si mesmo, entendeu como uma forma displicente de despedida, um pouco-se-me-dá de quem, afinal, tinha ganho a parada e soltava a frase meio burlona que um caçador feliz poderia ter dito ao macuco já caçado e fechado, por cadarço e correia, no embornal.
(…)

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Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva. São Paulo, Círculo do Livro, 1981.

SEMPREVIVA

Capitolo 2

Antonio Callado

Prima di uscire dalla stanza, con la mano destra già sulla maniglia della porta, per abitudine Quinho guardò, sul palmo della mano sinistra, la cicatrice de un taglio che si era fatto da bambino, raschiando una forcella di goiabeira per costruirsi una fionda. Poi, per un secondo, guardò, come se fosse un oggeto estraneo, l’altra sua mano, richiusa sulla maniglia, scosse la testa, impaziente con se stesso, e aprí la porta, assumendo un’aria decisa da uomo pratico per andare, nel sonnacchioso e deserto refettorio della pensione, a incontrare Pepe.

Seduto a un tavolo davanti a una bottiglia di vino, Pepe – i tristi baffoni da salice piangente sul lungofiume, dalle punte cosí lunghe e cadenti che parevano contemplare, con una certa intenzionalità, i gambali degli stivali che il boliviano calzava – attacò subito a parlare, come se avesse interrotto il discorso dal giorno prima, morbido, emolliente, destinato a convincerlo che passare la frontiera rappresentava per lo stesso Quinho nient’altro che una visita, un ritorno alla casa paterna, e che il vecchio cancelo, il portone di un tempo si sarebbe aperto, familiare, accogliente. Nel frattempo Quinho, sorbendo dalla tazza un caffè bollente, amaro, vedeva, con la polverosa chiarezza che non aveva, la strada, il camino boliviano, quel cordone ombelicale steso a terra e che conduceva al portone, alla grotta chiusa da grate e sbarre di ferro.

– Puoi tranquillamente entrare con la tua carta d’identità, anche se è vecchia e scaduta. Entra non come uno che arriva, o torna, ma come se fossi venuto a passare solo qualche ora a Puerto Suárez, per comprare un litro di whisky, un coltellino svizzero, un panama. Entra con l’aria disinvolta, un po’ guappa, tanto hai una faccia che piú brasiliana non si può, con quel tono scuretto della pelle, quegli occhi castani, i capelli neri e il tuo metro e settanta, entra sicuro, ragazzo, a passo fermo, sei a casa tua.

Siccome Quinho continuava a soffiare e a bere lentamente il suo caffè, Pepe si alzó, chiese a Quinho di alzarsi in piedi un istante e gli girò intorno, osservandolo da vicino, quasi per misurarlo, come un sarto che prova un vestito al cliente.

– L’unica cosa che dovresti perdere è quell’aria un po’ nervosa, quelle mosse, se mi consenti, tipo quella di guardarti il palmo della mano sinistra e di passarti ogni tanto il dito nel colletto, come uno che sente la pressione della cravatta sul collo.

– Va bene – disse Quinho, posando maldestramente la tazza sul piattino, facendola cadere e rimettendola di nuovo in piedi con esagerata cura – il fatto è che io portavo davvero la cravatta fino all’altro giorno, fino all’altroieri per essere precisi, e si fa fatica a cancellare un gesto cosí, acquisito col tempo, e con la cravatta ovviamente. E adesso rifletti e dimmi: non potrebbero dedurre da questo mio tic che, se io portavo la cravatta, come del resto attesta il mio colle bianco, e se nessuno la porta né qui né a Corumbá, significa che vengo da fuori e che quindi dovrei esibire un passaporto vero, o per lo meno un documento preciso, con tutti i timbri e le date?…

– Macché, levatelo dalla testa, conosco tutti gli impiegati che oggi fanno servizio alla sbarra, uno l’ho perfino tenuto a battesimo, è ancora un ragazzo ma è già influente in dogana. Non c’è niente che lo mandi piú in bestia – e figurati gli altri! – di quei pezzi di carta strani, Nazioni Unite e palle varie, ogni volta devono telefonare per sapere se sono in regola e cose del genere. I migliori documenti ce li hai lí nel tuo bagaglio a mano, gli accendini francesi, le sigarette americane, qualche sigaro Montecristo, robetta cosí che nemmeno da lentano odora di corruzione e che io, tanto per tagliare la testa al toro, rinforzerò con una manciata di bottigliette di whisky, di mignon, come le chiamano. Metti le mignon nello zaino e via, in marcia, perché questa della siesta è l’ora migliore, battono tutti la fiacca. Non vuoi un bicchiere di vino?

– No, gracias – disse Quinho, come se fosse impegnato, idiomaticamente e tordesillescamente, a dividere quella terra limitrofa, iberica. E trangugiò una prima mignon di whisky, buttando la testa all’indietro, come uno che morde una caramella al liquore e ha paura di infrittelarsi il vestito, e, quasi senza abbassare la testa, svitò il tappino della seconda bottiglietta e trincò. Si mise poi a fissare il palmo della mano sinistra, aspettando che i due enormi sorsi si transustanziassero, facendo venir fuori dal vecchio taglio, armato da capo a piedi, un volontario della patria, un lanciere ebbro di ardimento.

– Adesso vai, – disse Pepe – si sta facendo tardi, e a ogni modo e per ogni evenienza avviso mia nipote – osservazione finale questa, che Quinho non capí o per meglio dire, demoralizzato, ma sentendo dentro di sé il preannuncio di alchimie mignon, capí come una forma antipatica di congedo, un poco-mi-frega di chi, alla fine, aveva vinto il suo giro e buttaba lí un po’ per celia la frase che un cacciatore felice avrebbe potuto dire al merlo già preso e messo nel sacco, legato come si deve.

(…).

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Callado, AntonioSempreviva. Traduzione di Vicenzo Barca. Roma: Biblioteca Del Vascello, 1994. p. 17-19.

SEMPREVIVA

2

Antonio Callado

Avant de quitter la chambre, la main droite déjà sur la poignée de la porte, Quinho, dans la paume de sa main gauche ouverte, regarda, comme il en avait l’habitude, la cicatrice d’une estafilade qui datait de l’enfance, du jour où il écorçait, pour en faire un lance-pierres, une fourche de goyavier. Ensuite, juste une seconde, il regarda aussi, comme si c’était un objet bizarre, son autre main, refermée sur la poignée, hocha la tête, s’impatientant lui-même, et il ouvrit la porte, arborant un air résolu d’homme pragmatique, pour se rendre dans la somnolente salle à manger deserte de la pension, y rencontrer Pepe.
Assis à une table devant une bouteille de vin, Pepe – moustaches tristes de saule pleureur, aux crocs silongs et si tombants qu’ils paraissaient regarder, avec une certaine intentionnalité, les tiges des bottes que chaussait le Bolivien – se mit à parler d’emblée, comme s’il n’avait pas interrompu la conversation de la veille, moelleuse, émolliente, destinée à le convaincre que passer la frontière n’était pour lui, Quinho, rien de plus qu’une visite, le retour à la Maison paternelle, ouvrir la vieille grille du jardin, le portail d’autrefois, familier, accueillant. Tandis qu’il parlait, Quinho, tout en buvant à petits coups um café brûlant, amer, voyait, avec une clarté empoussierée qu’elle n’avait pas, la route, le chemin bolivien, ce cordon ombilical qui s’étirait sur le sol et qui conduisait au portail, à la grotte fermée de grilles et de hampes de fer.
— Tu peux entrer tranquillement avec ta carte d’identité, même ancienne, même perimée. Entre non pas comme quelqu’un qui arrive, ou revient, mais comme si tu étais venu passer, à Puerto Suarez quelques heures seulement, pour acheter un litre de whisky, um couteau suisse, un panama. Entre avec ton air désinvolte, un peu voyou, de Brésilien bon teint, pas une touche à rajouter à ce ton bruin de tap eau, tes yeux marron, tes cheveux noirs, ton mètre soixante-dix, entre sans hésiter, mon garçon, tu es chez toi.
Comme Quinho continuait de souffler et de sitorer son café, Pepe se leva, lui demanda de se lever également un instant, et il se mit à tourner autour de lui, l’observant de près, on aurait dit qu’il prenait ses mesures, comme un tailleur qui essaie un vêtement sur un client.
— La seule chose que tu devrais perdre, c’est ton air inquiet, ces, si tu me permets, ces tics, par exemple de regarder ta main gauche et de te passer de temps en temps un doigt à l’intérieur du col, comme quelqu’un qui met une cravate et qui se sent le cou serre.
— Vous avez raison, dit Quinho – en reposant si maladroitement as tasse sur la soucoupe qu’elle se renversa, et après l’avoir remise d’aplomb, avec un soin exagere –, c’est que, il est vrai, je mettais une cravate, jusqu’à l’autre jour, il y a trois jours, pour être précis, et ce n’est pas facile de perdre l’habitude d’um geste acquis avec le temps, et avec la cravate, naturellement. Mais maintenant, réfléchissez et dites-moi: ils ne peuvent tout de meme pas conclure, à cause de ce tic, que si j’ai toujours mis une cravate, la pâleur de mon cou du reste suffirait à l’attester, alors qu’ici, ou à Corumbá, personne n’en porte, cela signifie que je viens d’autres pays et que par conséquent je devrais leur présenter un vrai passeport, ou du moins un document légal, avec tous les tampons et dates voulus?…
— Allons donc, ne t’em fais pas, moi je connais tous les douaniers qui sont de service aujourd’hui à la barrière, même que l’un d’eux est mon fillieul, il est encore jeune, mais il a déjà le brás long à la douane. Ce qui lui plaît le plus – les autres, n’em parlons pas –, c’est ce qui sort de l’ordinaire, Nations Unies, bossa nova, ce qui les oblige à téléphoner pour savoir si c’est okay. Comme papiers, tu ne pouvais pas mieux apporter que ceux que tu as là, dans ton bagage à main, caickets français, cigarettes américaines, quelques cigares Montecristo, bref, ces petites gâteries qui n’achètent personne, tant s’em faut, et à quoi moi, pour encore mieux arranger ton passage, je vais rajouter une poignée de petites bouteilles de whisky, des miniatures, ça s’appelle. Allez mon garçon, mets-moi ces miniatures dans ta sacoche et le pied sur la route, en début d’après-midi, à l’heure de la sieste, c’est le meilleur moment, vu qu’ils ont tous plutôt envie de roupiller. Tu ne veux pas un petit coup de pinard?
— Non, gracias, dit Quinho, comme s’il avait le souci de partager linguistiquement et dans l’esprit du traité de Tordesillas cette terre limitrophe, ibérique. Et il lampa une première miniature de whisky, en renversant bien la tête en arrière, comme qui mord dans un bonbon à la liqueur et craint de poisser ses vêtements, et, sans même redresser la tête, dévissa la capsule d’une deuxième miniature qu’il but de même. Puis il regarda, fixement, la paume de sa main gauche, attendant la transsubstiation des deux culs sécs, qui ferait s’élancer de la vieille estafilade, arme de pied en cap, un Volontaire de la Patrie, un lancier ivre de bravoure.
— Et maintenant, pars, dit Pepe, avant qu’il ne soit trop tard, de toute façon, pour parer à toute éventualité, je préviens ma nièce – et cette observation, la dernière, Quinho, ne la comprit pas, ou bien alors, désemparé mais ressentant au plus profond de lui-même l’annonce d’alchimies miniaturisées, il la comprit et la prit pour la manière je-m’en-foutiste de l’envoyer se faire voir ailleurs, de lui dire c’est plus mês vignons, gu’affecte celui qui a reússi son coup et lâche la phrase mi-sarcastique qu’um heureux chasseur pourrait dire à l’oiseau déjà capture et enfermé, lacs et rets l’enserrant, «dans lê sac».
(…)

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Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva: Roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris, Presses de la Renaissance, 1985, p. 19-22

 





Bio fornecida pelo palestrante.